poiesis  na troca de um pneu

Leila Míccolis
Escritora, roteirista, poeta e Mestre em Literatura
 
 

Universidade Federal do Rio de Janeiro


 
"Caminhando, movia-se como uma coisa". 
Graciliano Ramos, em Vidas secas.

"Quem procura a não-verdade semeia a toerância".
Manuel Antônio de Castro, em Heraclitianos.


 
 
 
"O homem caminha de um lugar para o outro, sem parar", afirma o Prof. de Poética Manuel Antônio de Castro ao deter-se nas atitudes do personagem Fabiano, no livro "Vidas Secas", de Graciliano Ramos (¹) CASTRO, Manuel Antônio de. As faces do trágico em Vidas Secas. In: Travessia Poética. Rio de Janeiro / Brasília: Tempo Brasileiro/MEC - INL, 1977. De imediato, após a leitura desta frase, aflorou-nos à mente o poema de Brecht, sobre o qual nos debruçaremos a seguir, na tentativa de questionar o real construído dentro da vida agitada e frenética de qualquer urbe. 
 
 
 
 
 
A TROCA DO PNEU 

Estou sentado de costas para a vala. 
O motorista troca o pneu. 
Não amo o país de onde venho 
Não amo o país para onde vou. 
Por quê olho a troca do pneu 
Com impaciência? BRECHT, Bertold. Poemas. Portugal: Campo das Letras, 1998


 
 

A cena é "comum", "prosaica", cotidiana, como convém a um início de questionamento sobre a realidade. Nada mais "real" e aparentemente "concreto" do que a troca de um pneu, em alguma estrada de algum país, em alguma rua de todas as cidades. Este é o desvelado, o que se mostra, o que se vê. No entanto o poeta, direcionando-se ao velado, faz emergir, em apenas cinco versos, a dimensão trágica da vida pós-moderna, na pressa impaciente das pessoas que, desabituadas a escutar o silêncio, entulham de passatempos o seu tempo - um tempo individual marcado por todas as posses e possessões sintetizadas em um pro-nome possessivo... Através de tais "inofensivos" passatempos, há, não o passar o tempo, mas o passar pelo tempo de forma estereotipada, sem nada questionar, indo em direção contrária a ele na "corrida contra o tempo", chegando à angústia quando são forçados a parar, por alguns momentos, por causa um pneu que estoura em uma estrada - que leva alguém, de onde para onde? 
 
 

 
 

Antes de "transitarmos" por esta pergunta, convém nos determos ainda um pouco mais sobre a sensação de distância do real, sensação esta que percorre o poema brechtiniano de ponta a ponta. Heidegger HEIDEGGER, Martin. A coisa. In: Ensaios e Conferências. Petrópolis: Vozes, 2002  inicia seu texto intitulado "A Coisa" questionando a proximidade - a medida de proximidade - entre nós e os objetos que nos cercam. Para isto, observa que o distanciamento no tempo e o afastamento no espaço estão encolhendo: uma viagem que levava dias, agora leva horas; e, em termos de comunicação, se uma mensagem era de início levada nos lombos dos burros, agora, pela Internet, pela rede, é recebida e lida em tempo real (tempo real? tempo real virtual...). No entanto, a supressão apressada do distanciamento não nos traz proximidade, porque proximidade não quer dizer pouca distância, assim como um grande afastamento não exprime necessariamente lonjura. No poema de Brecht, o homem está diante do carro, a alguns poucos metros do pneu e do motorista que o troca, e, no entanto, está muito afastado deles, isolado. 


 
 

Em direção à essência da coisa, e portanto à proximidade com o mundo que o circunda, este homem que espera sentado "de costas para a vala" tem que dar exatamente o passo atrás sugerido por Heidegger, não passando apenas pela estrada - caminho por onde trafega em atitude passiva, apenas olhando pelo vidro da janela do veículo a paisagem a passar (como se fosse ela a passar...), mas refletindo sobre a viagem - cujo cerne, como pondera Emmanuel Carneiro Leão, "é a linguagem da paisagem, (...) tornando o viajante poeta, nas vias da paisagem" LEÃO, Emmanuel Carneiro. O Poeta na Terra Lingüística. Linguagem e Poesia. In: Aprendendo a Pensar - vol. I. Petrópolis: Vozes, 1976. Este redimensionar da viagem o faz sair de sua rota metafísica aparentemente segura, "onde tudo está em seus devidos lugares", para descobrir a poiesis, e vislumbrar novas perspectivas. A estrada - claro está - representa a imagem-questão da trajetória humana, que será diversa não pelo que se vê, mas pelo tipo de viagem que escolhemos para atravessá-la: as metas do ente, ou a procura do ser. 
 
 
 

A relação do distanciamento de alguém com as coisas atinge, necessariamente, os seres-no-mundo. Que mundo? O mundo das formas, do tempo cronometrado (exterior), dos compromissos inadiáveis, agendados, determinados por horas marcadas, atas, atos, que engolfam o ser humano e o tragam. A este tempo, um dos poetas brasileiros que mais trabalhou com o velado e com o não-poético, João Cabral de Mello Neto, referiu-se em O Relógio
 
 
 

Ao redor da vida do homem
há certas caixas de vidro,
dentro das quais, como uma jaula,
se ouve palpitar um bichoMELO NETO, João Cabral. Poesias completas (1940-1965). Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora,  2ª ed., 1975.

 

O bicho é o ser enjaulado pelas grades metafísicas, pelo ente que manipula o tempo também por regras e normas gramaticais, inclusive através de jargões e estereótipos, dentre os quais o conhecido axioma "tempo é dinheiro" é um dos mais usados para justificar a pressa de viver, especialmente nas grandes cidades. "Matar o tempo" é sinônimo de passatempo, como se matar, o que quer que seja, fosse divertimento inofensivo. A este respeito, nos remontamos, mais uma vez a João Cabral, em Habitar o tempo
 

 

Portanto: para não matá-lo, matá-lo; 
em vez do deserto, ir viver nas ruas
onde o enchem e o matam as pessoas; MELO NETO, João Cabral. Poesias completas (1940-1965). Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora,  2ª ed., 1975.

Como reflete Manuel Antônio de Castro, "a arte porta seu próprio tempo: o acontecer poético" CASTRO, Manuel Antônio de. A Pós-Modernidade e o tempo. In: A Construção do homem e da realidade na modernidade e na pós. Rio de Janeiro: UFRJ, cópia xerografada, 2004.. No poema em questão, a espera motivada pela troca do pneu provoca no transeunte o tempo-memória,  o "tempo como experienciação do que se é" CASTRO, Manuel Antônio de. A Pós-Modernidade e o tempo. In: A Construção do homem e da realidade na modernidade e na pós. Rio de Janeiro: UFRJ, cópia xerografada, 2004.; não o tempo construído em ritmo acelerado, no qual se exibe uma vivência intensa, repleta de acontecimentos externos; e sim o tempo ontológico, do saber e da linguagem, para além das rédeas da verbalização autoritárias na língua técnica e tecnológica. 
 
 
 

Obrigado a parar por um momento na estrada e interromper a sua trajetória, a paisagem que o homem enxerga à margem não é mais a habitual, aquela que ele está acostumado a "ver passar", como um filme. Se é então movido a sair do automóvel (que, no dizer de Emmanuel Carneiro Leão, é coisa que a sociedade em rede introduziu, "modificando toda a paisagem humana") LEÃO, Emmanuel Carneiro. Pós-Modernidade. Rio de Janeiro: UFRJ, cópia xerografada, Universidade Veiga de Almeida, 2004., o ente pára para refletir sobre a realidade, e, por um momento, o que é velado o sobressalta, através de dúvidas impertinentes: a pressa para quê? Para ir aonde? Ao vazio ou ao que foi esvaziado de sentido? Incomodado, perplexo, ele passa a questionar a possibilidade de ter escolhido o atalho aparentemente mais fácil, que é o de viver compulsivamente, em vez de "deixar-se enviar pela Linguagem na viagem das vias de uma paisagem" - citando ainda o poético texto de Carneiro Leão. 


 
 

Pela poiesis do poeta, um simples trocar de pneus, dez minutos de "perda de tempo", pode constituir-se no que a poesia precisa para desarticular a lógica-racional elaborada por toda uma vida, e questionar a estranheza de um andar destituído de horizontes, feito apenas de um presente imediatista, extremamente volátil e transitório, e de um menosprezo pela essência das coisas (esquecido de que "não é a ponte que se situa em um lugar. É da própria ponte que surge um lugar", Heidegger HEIDEGGER, Martin. Construir, Habitar, Pensar. In: Ensaios e Conferências. Petrópolis: Vozes, 2002.) - o que afasta o ente de si próprio, enquanto ser. "Torna-se claro que a questão central da representação na modernidade passa necessariamente pela inauguração de uma nova experienciação do tempo" CASTRO, Manuel Antônio de. A Pós-Modernidade e o tempo. In: A Construção do homem e da realidade na modernidade e na pós. Rio de Janeiro: UFRJ, cópia xerografada, 2004.. A falta de uma reflexão do tempo enquanto linguagem  mantém o homem contemporâneo pré-ocupado com as horas, minutos, segundos, com "compromissos importantes", abstratos e "inadiáveis", transitando por cidades sem-nome, vivenciadas como prisões-exílios ou meros complexos demográficos, sem nunca chegar aos corações das cidades invisíveis que em toda urbe pulsam. 
 

 
 

Viver seu tempo: para o que ir viver
num deserto literal ou de alpendres;
em ermos, que não distraiam de viver
a agulha de um só instante, plenamente.

(...) 

Ele ocorre vazio, o tal tempo ao vivo;
e como além de vazio, transparente,
habitar o invisível dá em habitar-se:
a ermida corpo, no deserto ou alpendre.

 Bifurcados e Habitar o tempo, João Cabral de Melo Neto MELO NETO, João Cabral. Poesias completas (1940-1965). Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 2ª ed., 1975.

 
 

"O tempo originário é o que sempre flui por não cessar de ser fonte, memóriaCASTRO, Manuel Antônio de. A Leitura e a linguagem. Rio de Janeiro: cópia xerografada, aula inaugural do 2º semestre, 2004..  E eis que chegamos à memória, à memória do tempo. Seguindo esse fio, podemos agora voltar à pergunta formulada no início, tentando refletir um pouco mais sobre ela: que pontos uma estrada liga, de onde para onde alguém vai através dela? 
 
 

 

Em determinado momento, o apelo do ser faz-se tão forte que o ente sente que perdeu algo muito importante e que, sem este algo, ele fica destituído de concretude (con-crescer). No entanto, não consegue recordar exatamente o que lhe falta. O que seria mesmo?...  A memória, reduzida a um mero banco de dados, de informações "úteis" e "utilitárias", não é mais a memória do tempo/ser, da linguagem/tempo. No distanciamento do ente em relação às coisas e na experienciação da falta de proximidade até mesmo com o que vê à sua frente, o homem torna-se impaciente, um estranho no seu próprio universo, um autômato. Diante de tamanha insatisfação, será que a sofreguidão, a irritação deste homem, está ligada apenas ao tempo de espera? Cremos estar também relacionada ao que ainda lhe está velado: a perda da sua terra lingüística, o distanciamento de sua essência poÉTICA. Destituído de morada - de memória, de país, de cidade, de identidade -, ele não tem para onde ir, não sabe de onde veio. O próprio real lhe parece irreal ou surreal, descabido, fragmentado, porque o sujeito foi descorrelacionado com o objeto, com as coisas, que, a seus modos, como Heidegger escreve, é a garça, o cavalo, o broche, o livro, a coroa e a cruz. Afastado do mundo como mundo, o homem não habita lugar nenhum, desligado que se encontra das árvores, dos carros, do motorista, do tempo e do espaço, longe, portanto, do real e do vigor da physis. Sentado, olhando "a cena", sem poder abs-trair-se dela, a sua realidade lhe soa como imitação absurda, desconectada e desconexa, profundamente ameaçadora: sente pressa de chegar a qualquer lugar, mas onde mesmo?... 


 
 

Conforme Manuel Antonio de Castro explana muito lucidamente, 
 
 
 

"A sociedade de consumo ignora e esquece a sua origem: a Linguagem poética. Tal esquecimento faz do homem pós-moderno um desenraizado, porque sem memória e sem país natal. Esse é o nosso grande drama, a dispersão, a falta de referências, a presa fácil no jogo dos interesses de mercado, de atração por uma hiper-realidade que nunca se realiza no simulacro das representações, da triste descoberta da mais profunda solidão na balbúrdia dominante da comunicação" CASTRO, Manuel Antônio de. A Leitura e a linguagem. Rio de Janeiro: cópia xerografada, aula inaugural do 2º semestre, 2004..

 
 

Sem linguagem poética, não há realidade, há simulacro; não há vida, há pressa de viver. Ou será que a pressa, no caso específico desta poesia, é a de quem quer livrar-se o mais rápido possível dos questionamentos da poiesis
 

 
 

Nesta luta dicotômica em que investe contra si mesmo, o homem não se dirige à essência das coisas, apenas troca conceitos como troca de pneus, substitui os jargões gastos por outros guardados para serem mudados em situações de emergência. Tudo medido, tudo aparentemente sob o controle da lógica formal e da técnica adequada - como o atarraxar/desatarraxar dos parafusos na troca de pneus. O ente não avança, anda em voltas, como as rodas dos pneus que ele vê serem trocadas... E esses sinais, contidos/escondidos à espera de sua escuta, o desafiam de repente, com tal força, a ponto de reconduzi-lo, nem que seja do seu modo, apressadamente, ao caminho do questionamento, através da sensação de falta de algo que lhe é primordial. A pergunta final já dá a este homem esperanças de que, algum dia, ele venha a questionar os valores metafísicos herdados, pois sua incerteza não é mais uma mera pergunta, constitui-se em uma imagem-questão ) CASTRO, Manuel Antônio de. Linguagem: nosso maior bem. Rio de Janeiro: UFRJ, cópia xerografada, aula inaugural do 2º semestre, 2004., que o leva a repensar sua escala de valores. Uma questão e não uma pergunta - frise-se -, que o amplia, porque o envolve no tempo-memória, na proximidade com as coisas, encaminhando-o ao que ainda não vige, mas ao que já é, sendo. A primeira revelação do desconforto já se constitui em um movimento em direção ao questionamento do que ele se tornou. A indagação trágica do final inicia uma abertura que o encaminha em direção à essência do seu agir. O ente começa a vislumbrar o ser do ente, e também passa a perceber a poiesis, até então esquecida. Enfim, ele já indaga, enfim ele já procura a poesia. 


 
 
Quem pro-cura a não-verdade encontra a verdade.
Quem procura a verdade não encontra a não-verdade.
Quem encontrou a verdade semeia a intolerância.
Quem pro-cura a não-verdade semeia a tolerância.
A não-verdade não se encontra: pro-cura-se

Heraclitianos, Manuel Antônio de Castro CASTRO, Manuel Antônio de. Heraclitianos. Rio de Janeiro: UFRJ, cópia xerografada, 01-01-2004.
 
 


O real é esta procura, este escutar do apelo do ser, este ir até o não finito, levando-se em conta o não velado, tentando-se encontrar a ação poética até no prosaico. E Brecht sugere este caminho através da ironia. Embrenhado na dramaturgia do teatro épico, em que o questionamento do "teatro culinário", ilusório, era um dos seus fundamentos básicos, o poeta lida muito à vontade com estas duas vertentes - o dramático e o coloquial crítico -, também na poesia, concentrando nos versos finais todo o impacto do estranhamento, visando atiçar a reflexão. "A ironia parabática evidencia-se na recusa sistemática da ilusão dramática", o que faz, de certa forma, com que ria de si mesmo, do ingênuo paradoxo a que se reduziu, alcançando a crítica construtiva da ironia através de uma "bufoneria transcendental", de que nos fala Ronaldes Melo e Souza SOUZA, Ronaldes de Melo. Introdução à poética da ironia. In: Rev. Linha de pesquisa, vol. 1 nº 1. Rio de Janeiro: UFRJ, cópia xerografada, 2004.. Uma ironia que ressalta o distanciamento do real construído em relação ao real ontológico, abismo em que o ente joga-se, sem dar-se conta. 

 
 
 
 

No entanto, ele sente. Sente que está sendo enganado, ludibriado, e que está consentindo neste boicote. Sente/pressente que a metafísica loteia o real, cria um tempo fictício e delega o ontológico ao esquecimento. Só que, no esforço constante de viver o ilusório, em cidades de reais fabricados, o homem já se encontra tão dilacerado por dicotomias metafísicas e oprimido pelos valores por elas transmitidos, que, em dado momento, extremamente alquebrado, parte para escutar a ausência, o vazio, voltando-se à sua linguagem-memória-morada real, em busca de habitar o invisível. 


 
 
E de volta de ir habitar seu tempo:
ele corre vazio, o tal tempo ao vivo;
e como além de vazio, transparente,
o instante a habitar passa invisível. MELO NETO, João Cabral de. Poesias completas (1940-1965). Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 2ª ed., 1975.

Habitar o tempo, João Cabral de Melo Neto


 
 

Não podemos cair no alçapão de esquecer o dado/registro histórico. Com os nazistas no poder, Brecht, assim como muitos outros artistas, foi obrigado a emigrar, a sair pela estrada, a trocar de Pátria, de país, de língua. A exilar-se. A troca de pneu evidencia esta sensação de desenraizamento solitário. No entanto, o poema não se atém a capturar o momento de um apátrida, desgostoso e ressentido com sua condição individual de excluído. A obra apresenta, principalmente, a perplexidade de um homem sem a sua relação de tempo-memória, massacrado, categorizado, despojado do seu bem maior, a linguagem, ir-REAL-izado. É dessa ir-real-ização ontológica (não apenas ideológica em sua atuação externa) que o poeta fala, do real construído e do real da physis, do vigor do ser, soterrado pela falta de sabedoria-memória-ética - esvaziado de sua proximidade da coisa. No entanto, é estar entre o país em que veio e o país para onde irá que faz com que o ente vivencie o entre, a partir do ponto de interrogação final, anunciando uma possibilidade de mudança de perspectiva, um direcionar-se ao vigor da natureza, à poeisis e à poesia do silêncio contidas nos "vazios do homem", conforme João Cabral: 
 

 
 

(...) os vazios do homem ou o vazio inchado: 
ou o vazio que inchou por estar vazio. MELO NETO, João Cabral de. Poesias completas (1940-1965). Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 2ª ed., 1975.


 
 

De posse deste estar-entre, ele passa a questionar toda a estrada, com suas vias de acesso e seus verbos de ligação. Na clareira aberta (possibilidade de alternância) pela indagação final, a floresta se doa ("e na clareira da clareira se concentra toda a floresta"). Pela primeira vez o homem percebe que "a floresta lhe era inacessível não por estar demasiado distante, e sim demasiado próxima"; por estar não em um lugar específico, mas dentro dele. E, então, "aceita o desafio de dar um passo aquém da separação de clareira e floresta" LEÃO, Emmanuel Carneiro. O Poeta na Terra Lingüística. Linguagem e Poesia. In: Aprendendo a Pensar - vol. I. Petrópolis: Vozes, 1976.. Nelas ele percebe, mesmo remotamente, a vaza do vazio, a terra-linguagem, da qual se perdeu no delirante, utópico e caleidoscópico viver urbano, e a poesia - antes palavra decorativa, agora ação e movimento reveladores. Diante dessa primeira visão da realidade do ser, o ente emocionado silencia, porque ter encontrado a morada perdida, o caminho de casa. 


 
 
 

FONTES SECUNDÁRIAS CONSULTADAS:

HEIDEGGER, Martin. ...Poeticamente o homem habita. In: Ensaios e conferências. Petrópolis: Vozes, 2002. 
BORNHEIM, Gerd. Brecht - a estética do Teatro. São Paulo: Graal, 1992.
TORRIGO, Marcos. Prólogo a Matrix. In: Matrix, bem-vindo ao deserto do real. São Paulo: Madras, 2003.
CASTRO, Manuel Antônio de. O mito cura. O apelo e escuta da pro-cura. Rio de Janeiro: UFRJ, cópia xerografada, 2004.
________________________. O Acontecer Poético - A História Literária. Rio de Janeiro. Edições Antares, 2ª ed., 1982.
________________________. A questão do real. Rio de Janeiro: UFRJ, cópia xerografada, 2004. 
_______________________. O real e a metafísica. Rio de Janeiro: UFRJ, cópia xerografada, 2004.
_______________________. A poiesis: a essência do agir e do saber. Rio de Janeiro: UFRJ, cópia xerografada, 2004.
PRIGOGINE, Ilya. O fim da certeza. In: A pílula vermelha. São Paulo: Publifolha, 2003.
LEÃO, Emmanuel Carneiro. Pós-modernidade. Rio de Janeiro: UFRJ, cópia xerografada, 2004.

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