"Caminhando,
movia-se como uma coisa".
Graciliano Ramos, em Vidas
secas.
"Quem procura a não-verdade
semeia a toerância".
Manuel Antônio de
Castro, em Heraclitianos.
"O
homem caminha de um lugar para o outro, sem parar", afirma o Prof. de Poética
Manuel Antônio de Castro ao deter-se nas atitudes do personagem Fabiano,
no livro "Vidas Secas", de Graciliano Ramos .
De imediato, após a leitura desta frase, aflorou-nos à mente
o poema de Brecht, sobre o qual nos debruçaremos a seguir, na tentativa
de questionar o real construído dentro da vida agitada e frenética
de qualquer urbe.
A TROCA DO PNEU
Estou sentado de costas
para a vala.
O motorista troca o pneu.
Não amo o país
de onde venho
Não amo o país
para onde vou.
Por quê olho a
troca do pneu
Com impaciência? 
A cena é "comum",
"prosaica", cotidiana, como convém a um início de questionamento
sobre a realidade. Nada mais "real" e aparentemente "concreto" do que a
troca de um pneu, em alguma estrada de algum país, em alguma rua
de todas as cidades. Este é o desvelado, o que se mostra, o que
se vê. No entanto o poeta, direcionando-se ao velado, faz emergir,
em apenas cinco versos, a dimensão trágica da vida pós-moderna,
na pressa impaciente das pessoas que, desabituadas a escutar o silêncio,
entulham de passatempos o seu tempo - um tempo individual marcado por todas
as posses e possessões sintetizadas em um pro-nome possessivo...
Através de tais "inofensivos" passatempos, há, não
o passar o tempo, mas o passar pelo tempo de forma estereotipada, sem nada
questionar, indo em direção contrária a ele na "corrida
contra o tempo", chegando à angústia quando são forçados
a parar, por alguns momentos, por causa um pneu que estoura em uma estrada
- que leva alguém, de onde para onde?
Antes de "transitarmos" por
esta pergunta, convém nos determos ainda um pouco mais sobre a sensação
de distância do real, sensação esta que percorre o
poema brechtiniano de ponta a ponta. Heidegger
inicia seu texto intitulado "A Coisa" questionando a proximidade - a medida
de proximidade - entre nós e os objetos que nos cercam. Para isto,
observa que o distanciamento no tempo e o afastamento no espaço
estão encolhendo: uma viagem que levava dias, agora leva horas;
e, em termos de comunicação, se uma mensagem era de início
levada nos lombos dos burros, agora, pela Internet, pela rede, é
recebida e lida em tempo real (tempo real? tempo real virtual...). No entanto,
a supressão apressada do distanciamento não nos traz proximidade,
porque proximidade não quer dizer pouca distância, assim como
um grande afastamento não exprime necessariamente lonjura. No poema
de Brecht, o homem está diante do carro, a alguns poucos metros
do pneu e do motorista que o troca, e, no entanto, está muito afastado
deles, isolado.
Em
direção à essência da coisa, e portanto à
proximidade com o mundo que o circunda, este homem que espera sentado "de
costas para a vala" tem que dar exatamente o passo atrás sugerido
por Heidegger, não passando apenas pela estrada - caminho por onde
trafega em atitude passiva, apenas olhando pelo vidro da janela do veículo
a paisagem a passar (como se fosse ela a passar...), mas refletindo sobre
a viagem - cujo cerne, como pondera Emmanuel Carneiro Leão, "é
a linguagem da paisagem, (...) tornando o viajante poeta, nas vias da paisagem" .
Este redimensionar da viagem o faz sair de sua rota metafísica aparentemente
segura, "onde tudo está em seus devidos lugares", para descobrir
a poiesis, e vislumbrar novas perspectivas. A estrada - claro está
- representa a imagem-questão da trajetória humana, que será
diversa não pelo que se vê, mas pelo tipo de viagem que escolhemos
para atravessá-la: as metas do ente, ou a procura do ser.
A
relação do distanciamento de alguém com as coisas
atinge, necessariamente, os seres-no-mundo. Que mundo? O mundo das formas,
do tempo cronometrado (exterior), dos compromissos inadiáveis, agendados,
determinados por horas marcadas, atas, atos, que engolfam o ser humano
e o tragam. A este tempo, um dos poetas brasileiros que mais trabalhou
com o velado e com o não-poético, João Cabral de Mello
Neto, referiu-se em O Relógio:
Ao redor da vida
do homem
há certas caixas
de vidro,
dentro das quais, como
uma jaula,
se ouve palpitar um bicho. 
O bicho é o ser enjaulado
pelas grades metafísicas, pelo ente que manipula o tempo também
por regras e normas gramaticais, inclusive através de jargões
e estereótipos, dentre os quais o conhecido axioma "tempo é
dinheiro" é um dos mais usados para justificar a pressa de viver,
especialmente nas grandes cidades. "Matar o tempo" é sinônimo
de passatempo, como se matar, o que quer que seja, fosse divertimento inofensivo.
A este respeito, nos remontamos, mais uma vez a João Cabral, em
Habitar
o tempo:
Portanto: para não
matá-lo, matá-lo;
em vez do deserto, ir viver
nas ruas
onde o enchem e o matam
as pessoas; 
Como
reflete Manuel Antônio de Castro, "a arte porta seu próprio
tempo: o acontecer poético" .
No poema em questão, a espera motivada pela troca do pneu provoca
no transeunte o tempo-memória, o "tempo como experienciação
do que se é" ;
não o tempo construído em ritmo acelerado, no qual se exibe
uma vivência intensa, repleta de acontecimentos externos; e sim o
tempo ontológico, do saber e da linguagem, para além das
rédeas da verbalização autoritárias na língua
técnica e tecnológica.
Obrigado a parar por um momento
na estrada e interromper a sua trajetória, a paisagem que o homem
enxerga à margem não é mais a habitual, aquela que
ele está acostumado a "ver passar", como um filme. Se é então
movido a sair do automóvel (que, no dizer de Emmanuel Carneiro Leão,
é coisa que a sociedade em rede introduziu, "modificando toda a
paisagem humana") ,
o ente pára para refletir sobre a realidade, e, por um momento,
o que é velado o sobressalta, através de dúvidas impertinentes:
a pressa para quê? Para ir aonde? Ao vazio ou ao que foi esvaziado
de sentido? Incomodado, perplexo, ele passa a questionar a possibilidade
de ter escolhido o atalho aparentemente mais fácil, que é
o de viver compulsivamente, em vez de "deixar-se enviar pela Linguagem
na viagem das vias de uma paisagem" - citando ainda o poético texto
de Carneiro Leão.
Pela
poiesis
do poeta, um simples trocar de pneus, dez minutos de "perda de tempo",
pode constituir-se no que a poesia precisa para desarticular a lógica-racional
elaborada por toda uma vida, e questionar a estranheza de um andar destituído
de horizontes, feito apenas de um presente imediatista, extremamente volátil
e transitório, e de um menosprezo pela essência das coisas
(esquecido de que "não é a ponte que se situa em um lugar.
É da própria ponte que surge um lugar", Heidegger )
- o que afasta o ente de si próprio, enquanto ser. "Torna-se claro
que a questão central da representação na modernidade
passa necessariamente pela inauguração de uma nova experienciação
do tempo" .
A falta de uma reflexão do tempo enquanto linguagem mantém
o homem contemporâneo pré-ocupado com as horas, minutos, segundos,
com "compromissos importantes", abstratos e "inadiáveis", transitando
por cidades sem-nome, vivenciadas como prisões-exílios ou
meros complexos demográficos, sem nunca chegar aos corações
das cidades invisíveis que em toda urbe pulsam.
Viver seu tempo: para
o que ir viver
num deserto literal ou
de alpendres;
em ermos, que não
distraiam de viver
a agulha de um só
instante, plenamente.
(...)
Ele ocorre vazio, o tal
tempo ao vivo;
e como além de
vazio, transparente,
habitar o invisível
dá em habitar-se:
a ermida corpo, no deserto
ou alpendre.
Bifurcados
e
Habitar o tempo, João Cabral de Melo Neto 
"O tempo originário
é o que sempre flui por não cessar de ser fonte, memória" .
E eis que chegamos à memória, à memória do
tempo. Seguindo esse fio, podemos agora voltar à pergunta formulada
no início, tentando refletir um pouco mais sobre ela: que pontos
uma estrada liga, de onde para onde alguém vai através dela?
Em determinado momento, o
apelo do ser faz-se tão forte que o ente sente que perdeu algo muito
importante e que, sem este algo, ele fica destituído de concretude
(con-crescer). No entanto, não consegue recordar exatamente o que
lhe falta. O que seria mesmo?... A memória, reduzida a um
mero banco de dados, de informações "úteis" e "utilitárias",
não é mais a memória do tempo/ser, da linguagem/tempo.
No distanciamento do ente em relação às coisas e na
experienciação da falta de proximidade até mesmo com
o que vê à sua frente, o homem torna-se impaciente, um estranho
no seu próprio universo, um autômato. Diante de tamanha insatisfação,
será que a sofreguidão, a irritação deste homem,
está ligada apenas ao tempo de espera? Cremos estar também
relacionada ao que ainda lhe está velado: a perda da sua terra lingüística,
o distanciamento de sua essência poÉTICA. Destituído
de morada - de memória, de país, de cidade, de identidade
-, ele não tem para onde ir, não sabe de onde veio. O próprio
real lhe parece irreal ou surreal, descabido, fragmentado, porque o sujeito
foi descorrelacionado com o objeto, com as coisas, que, a seus modos, como
Heidegger escreve, é a garça, o cavalo, o broche, o livro,
a coroa e a cruz. Afastado do mundo como mundo, o homem não habita
lugar nenhum, desligado que se encontra das árvores, dos carros,
do motorista, do tempo e do espaço, longe, portanto, do real e do
vigor da physis. Sentado, olhando "a cena", sem poder abs-trair-se
dela, a sua realidade lhe soa como imitação absurda, desconectada
e desconexa, profundamente ameaçadora: sente pressa de chegar a
qualquer lugar, mas onde mesmo?...
Conforme
Manuel Antonio de Castro explana muito lucidamente,
"A sociedade de
consumo ignora e esquece a sua origem: a Linguagem poética. Tal
esquecimento faz do homem pós-moderno um desenraizado, porque sem
memória e sem país natal. Esse é o nosso grande drama,
a dispersão, a falta de referências, a presa fácil
no jogo dos interesses de mercado, de atração por uma hiper-realidade
que nunca se realiza no simulacro das representações, da
triste descoberta da mais profunda solidão na balbúrdia dominante
da comunicação" .
Sem linguagem poética,
não há realidade, há simulacro; não há
vida, há pressa de viver. Ou será que a pressa, no caso específico
desta poesia, é a de quem quer livrar-se o mais rápido possível
dos questionamentos da poiesis?
Nesta luta dicotômica
em que investe contra si mesmo, o homem não se dirige à essência
das coisas, apenas troca conceitos como troca de pneus, substitui os jargões
gastos por outros guardados para serem mudados em situações
de emergência. Tudo medido, tudo aparentemente sob o controle da
lógica formal e da técnica adequada - como o atarraxar/desatarraxar
dos parafusos na troca de pneus. O ente não avança, anda
em voltas, como as rodas dos pneus que ele vê serem trocadas... E
esses sinais, contidos/escondidos à espera de sua escuta, o desafiam
de repente, com tal força, a ponto de reconduzi-lo, nem que seja
do seu modo, apressadamente, ao caminho do questionamento, através
da sensação de falta de algo que lhe é primordial.
A pergunta final já dá a este homem esperanças de
que, algum dia, ele venha a questionar os valores metafísicos herdados,
pois sua incerteza não é mais uma mera pergunta, constitui-se
em uma imagem-questão ,
que o leva a repensar sua escala de valores. Uma questão e não
uma pergunta - frise-se -, que o amplia, porque o envolve no tempo-memória,
na proximidade com as coisas, encaminhando-o ao que ainda não vige,
mas ao que já é, sendo. A primeira revelação
do desconforto já se constitui em um movimento em direção
ao questionamento do que ele se tornou. A indagação trágica
do final inicia uma abertura que o encaminha em direção à
essência do seu agir. O ente começa a vislumbrar o ser do
ente, e também passa a perceber a poiesis, até então
esquecida. Enfim, ele já indaga, enfim ele já procura a poesia.
Quem pro-cura a não-verdade
encontra a verdade.
Quem procura a verdade
não encontra a não-verdade.
Quem encontrou a verdade
semeia a intolerância.
Quem pro-cura a não-verdade
semeia a tolerância.
A não-verdade
não se encontra: pro-cura-se.
Heraclitianos,
Manuel Antônio de Castro
O real é esta
procura, este escutar do apelo do ser, este ir até o não
finito, levando-se em conta o não velado, tentando-se encontrar
a ação poética até no prosaico. E Brecht sugere
este caminho através da ironia. Embrenhado na dramaturgia do teatro
épico, em que o questionamento do "teatro culinário", ilusório,
era um dos seus fundamentos básicos, o poeta lida muito à
vontade com estas duas vertentes - o dramático e o coloquial crítico
-, também na poesia, concentrando nos versos finais todo o impacto
do estranhamento, visando atiçar a reflexão. "A ironia parabática
evidencia-se na recusa sistemática da ilusão dramática",
o que faz, de certa forma, com que ria de si mesmo, do ingênuo paradoxo
a que se reduziu, alcançando a crítica construtiva da ironia
através de uma "bufoneria transcendental", de que nos fala Ronaldes
Melo e Souza .
Uma ironia que ressalta o distanciamento do real construído em relação
ao real ontológico, abismo em que o ente joga-se, sem dar-se conta.
No entanto, ele sente. Sente
que está sendo enganado, ludibriado, e que está consentindo
neste boicote. Sente/pressente que a metafísica loteia o real, cria
um tempo fictício e delega o ontológico ao esquecimento.
Só que, no esforço constante de viver o ilusório,
em cidades de reais fabricados, o homem já se encontra tão
dilacerado por dicotomias metafísicas e oprimido pelos valores por
elas transmitidos, que, em dado momento, extremamente alquebrado, parte
para escutar a ausência, o vazio, voltando-se à sua linguagem-memória-morada
real, em busca de habitar o invisível.
E de volta de
ir habitar seu tempo:
ele corre vazio, o tal
tempo ao vivo;
e como além de
vazio, transparente,
o instante a habitar
passa invisível.
Habitar o tempo,
João Cabral de Melo Neto
Não podemos cair no
alçapão de esquecer o dado/registro histórico. Com
os nazistas no poder, Brecht, assim como muitos outros artistas, foi obrigado
a emigrar, a sair pela estrada, a trocar de Pátria, de país,
de língua. A exilar-se. A troca de pneu evidencia esta sensação
de desenraizamento solitário. No entanto, o poema não se
atém a capturar o momento de um apátrida, desgostoso e ressentido
com sua condição individual de excluído. A obra apresenta,
principalmente, a perplexidade de um homem sem a sua relação
de tempo-memória, massacrado, categorizado, despojado do seu bem
maior, a linguagem, ir-REAL-izado. É dessa ir-real-ização
ontológica (não apenas ideológica em sua atuação
externa) que o poeta fala, do real construído e do real da physis,
do vigor do ser, soterrado pela falta de sabedoria-memória-ética
- esvaziado de sua proximidade da coisa. No entanto, é estar entre
o país em que veio e o país para onde irá que faz
com que o ente vivencie o entre, a partir do ponto de interrogação
final, anunciando uma possibilidade de mudança de perspectiva, um
direcionar-se ao vigor da natureza, à poeisis e à
poesia do silêncio contidas nos "vazios do homem", conforme João
Cabral:
(...) os vazios do homem
ou o vazio inchado:
ou o vazio que inchou por
estar vazio. 
De posse deste estar-entre,
ele passa a questionar toda a estrada, com suas vias de acesso e seus verbos
de ligação. Na clareira aberta (possibilidade de alternância)
pela indagação final, a floresta se doa ("e na clareira da
clareira se concentra toda a floresta"). Pela primeira vez o homem percebe
que "a floresta lhe era inacessível não por estar demasiado
distante, e sim demasiado próxima"; por estar não em um lugar
específico, mas dentro dele. E, então, "aceita o desafio
de dar um passo aquém da separação de clareira e floresta" .
Nelas ele percebe, mesmo remotamente, a vaza do vazio, a terra-linguagem,
da qual se perdeu no delirante, utópico e caleidoscópico
viver urbano, e a poesia - antes palavra decorativa, agora ação
e movimento reveladores. Diante dessa primeira visão da realidade
do ser, o ente emocionado silencia, porque ter encontrado a morada perdida,
o caminho de casa.
FONTES SECUNDÁRIAS
CONSULTADAS:
HEIDEGGER, Martin. ...Poeticamente o homem habita. In: Ensaios
e conferências. Petrópolis: Vozes, 2002.
BORNHEIM, Gerd. Brecht - a estética do Teatro. São
Paulo: Graal, 1992.
TORRIGO, Marcos. Prólogo a Matrix. In: Matrix, bem-vindo
ao deserto do real. São Paulo: Madras, 2003.
CASTRO, Manuel Antônio de. O mito cura. O apelo e escuta da pro-cura.
Rio de Janeiro: UFRJ, cópia xerografada, 2004.
________________________.
O
Acontecer Poético - A História Literária. Rio
de Janeiro. Edições Antares, 2ª ed., 1982.
________________________.
A
questão do real. Rio de Janeiro: UFRJ, cópia xerografada,
2004.
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O real e a metafísica. Rio de Janeiro:
UFRJ, cópia xerografada, 2004.
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A
poiesis: a essência do agir
e do saber. Rio de Janeiro: UFRJ, cópia xerografada, 2004.
PRIGOGINE,
Ilya. O fim da certeza. In: A pílula vermelha. São
Paulo: Publifolha, 2003.
LEÃO, Emmanuel Carneiro. Pós-modernidade. Rio de Janeiro:
UFRJ, cópia xerografada, 2004.
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