Espaço Público - Estrutura Ecológica como mecanismo de coesão social e urbana

Paulo Jose Lisboa Nobre
Professor do Departamento de Arquitetura e Urbanismo da
Universidade Federal do Rio Grande do Norte.

Maria Floresia Pessoa de S. e Silva
Professora do Departamento de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Potiguar.

Vera Lucia de Melo Rodríguez Filgueira
Assistente Social, Arquiteta e Urbanista.
Técnica da Secretaria Especial do Meio Ambiente e Urbanismo

Carla Alexandra Filipe Narciso
Graduanda  em Arquitectura Paisagista
Universidade de Évora


 
 
 
 
 
Introdução

 
 

O Território hoje se constrói e destrói com muita rapidez, evoluindo no jogo veloz das comunicações e, de certa forma, se “virtualiza”, passando a habitar com a imaginação, válvula de escape de uma territorialidade efêmera, a qual tenta abafar o grito do gênio que perdeu as raízes. (Franco, 2001, pág.64).
 
 
 

 
“O contacto do Homem com a natureza é um lugar comum intemporal e incontornável que ao longo da historia atravessa religiões, ideais e políticas que vão do” paraíso “ao”ecologismo”, passando pelo “bom selvagem” e pelo “kindergarter””(Marques, 2004, pág.72). 
O crescimento casuístico das cidades e a forte pressão urbanística exercida em torno destas, determinou um apropriação do território desmedida, assumindo desigualdades territoriais e determinando uma independência da paisagem rural pelo consumo do espaço e no diferenciamento entre estes dois sistemas morfológicos distintos. O meio urbano é em toda a sua estrutura, fortemente determinado pelas características naturais do sitio que lhe deu origem, assumindo assim características únicas e identitárias de determinada comunidade. 

 
 
 

É a partir da relação privilegiada que alguns elementos estruturantes estabelecem com o sitio (quer edifícios quer espaços abertos, verdes ou pavimentados) que se constrói um sistema de referencias individualizadas na cidade e imprescindíveis para a sua leitura.
 
 
 

A relação especifica das componentes com o sitio é que constroem o LUGAR único e peculiar em toda a sua morfologia e caráter pessoal e intransmissível. Contudo, a situação atual de grande parte das cidades, em especial nos paises em desenvolvimento, é de total antagonismo ao meio natural, com conseqüentes desequilíbrios ecológicos, climáticos e sociais arrastando-se com a ausência de espaços naturais e de maciços arbóreos no interior da malha urbana. Este fenômeno tem graves repercussões na relação com as componentes naturais, necessária ao normal desenvolvimento da vida do homem, tanto do ponto de vista fisiológico como psicológico.
 
 
 

As cidades tornam-se centros populosos de total antagonismo a vários níveis, consumindo o espaço de forma incessante e padronizando a “cidade do concreto”. A cidade deixou de ter espaços de coesão sociais, contornados pela segregação construtiva, impossibilitando a implantação significativa de áreas de lazer, recreio e do elemento vegetal – a árvore. Como nos diz Almeida (2004, pág.28):
 
 
 
 

[...] a complexidade de crescimento e regeneração da malha urbana, ao gerar espaços de interstício ou espaços residuais, concentra uma dose de incerteza, que, de acordo com as estratégias de desenho urbano, pode convertê-los em locais estruturantes, transformando e consolidando espaços ambíguos em lugares das cidades (Almeida, 2004, pág.28).

 
Constatando a enorme taxa de urbanização, verificada em todo o mundo, principalmente no mundo em desenvolvimento e a escassez e dilapidação dos recursos naturais, o desenvolvimento sustentável põe esperança num novo modelo de desenvolvimento que assegure o futuro das novas gerações: “desenvolvimento sustentável é aquele que permite satisfazer as necessidades do presente sem comprometer a capacidade de as gerações futuras satisfazerem as suas próprias” (Acselrad, 2001). 

 
 
 

Assim a necessidade da organização espacial da cidade através de um planejamento sustentado opera necessariamente em bases de opção política, socioeconômica, ambiental e histórico-cultural. Desta forma, surge a necessidade e a procura do conceito de cidade sustentável. Para que este conceito se traduza no TerritórioO Território tem que ser entendido como a superfície de interface entre os fenômenos que se registram no sub-solo e na atmosfera, na qual tudo se move em estruturas continuas (Magalhães, 2003, pág.65). E onde o homem é o principal interveniente  é importante recorrer ao planejamento ambiental, seguindo o pensamento de Schulz (década de 70), o meio, ou seja, o contexto ecológico influencia os seres humanos (nas suas manifestações vivências) e a construção da cidade.
 
 
 

O conhecimento da cidade nas partes e no todo, atingindo um nível de profundo enraizamento, opera no espaço novas formas de contacto, vivência e articulação. Para que o desenvolvimento sustentável da cidade atinja uma conectividade espacial é necessária a sua compreensão enquanto ecossistema. Assim este ecossistema assume no seu todo uma estrutura, como base de desenvolvimento  entre as suas componentes. Transpor o conceito de sustentabilidade ecológica para a paisagem passa pela aceitação da existência de um suporte físico e biológico primordial, sobre o qual se instalou determinada comunidade humana, e que o funcionamento desse suporte tem que ser assegurado sob pena de a comunidade que nele vive vir a sofrer graves danos na sua qualidade de vida e na utilização de recursos indispensáveis.  Este pressuposto significa que a utilização da paisagem tem que ser feita com o conhecimento cientifico do seu suporte ecológico, submetendo-se às leis do funcionamento dos ecossistemas. A satisfação das necessidades dos seus utilizadores deve processar-se dentro dos limiares da capacidade de resiliência, ou seja, da capacidade de garantir a permanência desse suporte, no presente e no futuro. Em abstrato, este conceito já está bastante divulgado. O que parece ainda longe de ter sido entendido são as implicações que o mesmo gera na ocupação do território (Magalhães, 2003, pág. 64).
 
 
 
 

Espaço Público: elemento de continuidade e produção
 
 

Segundo Almeida (2004, pág.28):

 

[...] o espaço físico da cidade é um lugar de sinergias que gera tensões e cria potencialidades que tem como receptor vivencial o espaço publico. É o lado emergente e conseqüente da evolução da primeira vaga tecnológica até aos nossos dias. É um suporte de dimensão social na vida urbana das cidades 


 
Mas a cidade, ou melhor, os construtores da cidade, vêem no espaço publico uma “realidade” inconseqüente limitadora dos grandes blocos residenciais. O mesmo autor diz” a cidade contemporânea vive de uma realidade que é mais dependente das flutuações econômicas decorrentes do capital global do que dos poderes da cidadania” (Almeida, 2004, pág.28). A grande crescente populacional, a mistura cultural e a fragmentação da estrutura social não têm campo de convivência suficiente devido à escassa partilha de valores e normas de comportamento comuns. Desta forma é importante encontrar mecanismos que promova a convivência dos cidadãos na era da multiculturalidade, sendo que a Estrutura Ecológica Urbana surge como eleo de ligação entre os mesmos, manifestando uma preocupação constante a vários níveis de abordagem, mas com um principio comum – a qualidade de vida da sociedade contemporânea. Faz-se necessário a consolidação da cidade, sem manifestações de incerteza e libertando o grito do “lugar”.

 
 
 
 

Estrutura Ecológica Urbana (EEU) – Espaço Público
 
 
 

“Para que a humanização coexista em termos sustentáveis com a Paisagem que lhe deu origem, é indispensável preservar o funcionamento dos sistemas ecológicos que lhe estão subjacentes, dos quais o Homem depende, quer física, quer psicologicamente” (Magalhães, 2001, pág.57). Ainda segundo esse autor “o contexto ecológico sobre o qual se ergue uma cidade influencia a sua construção, este fato contribui grandemente para as diferenças existentes entre as várias cidades do mundo” (Magalhães, 2001, pág.57).   Esta afirmação eleva-se ao “espírito do lugar”, pois o respeito por este é assumido na construção da cidade, que transpõe para estes elementos exteriores resultantes da sua interpretação. 
 
 
 

A forma como o Homem se apropriou do espaço e como conduziu a sua vivencia, transformou espaços identitários determinados pela forma física e biológica do lugar.
 
 
 

Na modernidade as intervenções no espaço público priorizaram o fluxo e os movimentos contínuos que dominavam os cenários das grandes cidades. Apesar de ainda hoje, espaços verdes públicos serem vistos como pontos estruturantes da malha urbana e importantes elementos no que diz respeito à mobilidade, a discussão do espaço público na pós-modernidade destaca o resgate das funções de sociabilidade e estímulo à noção de vizinhança perdidos no racionalismo moderno.
 
 
 

O conceito de Estrutura Ecológica Urbana surge hoje de forma intensa e necessária, complementando o conceito de Estrutura Verde, como uma nova abordagem de intervenção das (NAS) cidades contemporâneas que deve ser capaz de responder a necessidades e expectativas de seus usuários e contextos sociais diferenciados, assim como, aumentar a sua capacidade de suporte em termos lúdicos, cênicos e ambientais. É importante referir a diferença entre Estrutura Ecológica e Estrutura Verde. “Enquanto a estrutura verde engloba todo o espaço revestido por vegetação, a estrutura ecológica constitui um subsistema da estrutura verde, integrando as áreas mais sensíveis e representativas dos ecossistemas presentes” (Magalhães, 2001, pág.78). Assim criar uma rede de sistemas formais e informais que assegure a vivência e contemplação dos espaços, oferecendo um maior conforto e mobilidade.
 
 
 

A EEU é diferenciada pela sua componente estética, pois “trabalha” com o elemento vegetal, tirando partido das suas características plásticas, compondo o espaço e marcando pontos de maior relevância e sensibilidade.
 
 
 

Com a Estrutura Ecológica Urbana pretende-se criar um «continuum naturale»Segundo Caldeira Cabral continuum naturale define-se como Presença de todos os elementos naturais do ambiente em forma congruente, respeitando todas as funções essenciais e as relações do ambiente natural, embora com forma diferente e adaptada aos usos e conveniências do homem.  integrado no espaço urbano [...], de modo a dotar a cidade, por forma homogênea, de um sistema constituído por diferentes biótipos e por corredores que os interliguem, representados, quer por ocorrências naturais, quer por espaços existentes ou criados para o efeito, que sirvam de suporte à vida silvestre (Magalhães, 2001, pág.58).
 
 
 

A implementação da Estrutura Ecológica Urbana tem como principais argumentos:
 

  • o contacto biológico das doenças, a ação filtrante e descontaminante da atmosfera e a criação de bioindicadores relativamente à qualidade do ar;
  • conservação do potencial de adaptação das espécies ao meio urbano e o desenvolvimento de novas variedades mais resistentes ao seu artificialismo;
  • contribuir para o controle dos escoamentos hídricos e atmosféricos;
  • melhoria do conforto bioclimatico através da vegetação que controla as temperaturas do ar, reduzindo a sua amplitude; aumenta a umidade relativa; fixa e adsorve as poeiras, principais responsáveis pela insalubridade da atmosfera urbana; 
  • a contribuição dos espaços verdes para o equilíbrio psicofisiológico da população urbana, através da possibilidade de contacto com os fenômenos naturais, assim como da comunidade em geral.

 
Corredores Verdes: pela produção do espaço

 
 
 

Como instrumentos da Estrutura Ecológica Urbana, “os corredores verdes são estruturas lineares da paisagem, de dimensões variáveis, com um metabolismo uno, continuo e ecologicamente congruente. Constituem um sistema diversificado, protagonizado pelo coberto vegetal, que integra o solo, elementos de água, animais silvestres e utilizadores humanos” (Marques, 2004, pág.72).
 
 
 

A criação, promoção e conservação de corredores verdes assenta na definição de unidades de paisagem que possam ligar-se entre si de modo a constituirem uma rede viva que se estenda da escala local até à escala global, cumprindo o programa de “verde continuo” e assumindo uma conexão entre os diferentes espaços da cidade e as linhas estruturantes.
 
 
 

É esta continuidade (ou conectividade) que define o caráter dos corredores verdes. É ela que lhes permite estabelecer um metabolismo unificador da paisagem, conferindo dimensão e qualidade sistemática aos espaços verdes da cidade, distinguindo-se de outras estruturas verdes isoladas e, por isso, de caráter objectual ou pontual (Marques, 2004, pág.71). Segundo o mesmo autor “a necessidade de corredores verdes é tanto maior quanto mais densamente edificada e impermeabilizadas for a paisagem, pois é nessa situação que as principais funções naturais da paisagem estão comprometidas, limitando a qualidade de vida das populações”.
 
 
 

No perímetro urbano, os corredores verdes podem corresponder às mais variadas estruturas vivas, marcando na cidade uma matriz paisagística fundamental.
 
 
 

Estudo de caso: NATAL /RN - Metodologia da concepção- Analise
 

A cidade de Natal situa-se na região Nordeste do Brasil ocupando a porção central do litoral oriental do estado do Rio Grande do Norte. Possui uma área territorial de 169,122 Km2 e uma altitude media de 31m. Limita-se a norte pelo município de Extremoz, a sul com Parnamirim, a leste com o Oceano Atlântico a oeste com os municípios de São Gonçalo do Amarante e Macaíba. O município de Natal, conforme define o Plano Diretor datado de 1994, é constituído por 36 bairros distribuídos em quatro regiões administrativas, definidas “popularmente” por zonas norte, sul, leste e oeste, apresentando um crescimento demográfico com intensiva verticalização do seu território. Segundo o censo do IBGEInstituto Brasileiro de Geografia e Estatística.  2000, a sua população é constituída aproximadamente por 712.317 habitantes, todos vivendo em área urbana. Atualmente, o numero de indivíduos está estimado em cerca de 750.000.
 
 
 
 

Aplicabilidade da Estrutura Ecológica Urbana na cidade de Natal
 

A procura de um novo conceito de intervenção, à escala da cidade de Natal, fundamentada num desequilíbrio metodológico, estrutural e ambiental, insere uma nova abordagem na cidade enquanto espaço urbano na procura de novas ambiências, estruturalmente integradas em novos espaços, atendendo à regeneração dos recursos naturais e de todos os elementos da paisagem. A crescente urbanização dos últimos 10 anos na cidade de Natal, tende a reduzir drasticamente os valores da biodiversidade natural, mas também da biodiversidade cultural.
 
 
 

A limitação de espaços verdes e zonas arborizadas é insanamente contrastante com as grandes áreas “periféricas” denominadas por zonas de proteção ambiental, que de nenhuma forma invalidam a “grande” necessidade de outras áreas. A continuidade ecológica e ambiental somente terá um caráter funcional implementado com a ligação destas zonas com todos os espaços verdes identificados. De uma forma geral o centro da cidade encontra-se quase “despido” de vegetação, sem que haja um conhecimento da importância da mesma no melhoramento da qualidade física do meio ambiente e do ar e do solo. 
 
 
 

Muitas das áreas verdes anteriormente a este estudo identificadas, foram atualmente consumidas por usos e atividades, que em muitos casos não são compatíveis com a natureza e vocação ou não receberam tratamento de acordo com a população que vive nos espaços.
 
 
 

A Estrutura Ecológica Urbana assume-se como um instrumento de desenvolvimento de ordenamento do espaço urbano. O desenho e a orientação da estrutura manejam os componentes da paisagem construída e entre eles os elementos vegetais. Para a sua implementação e com vista aos pressupostos anteriormente definidos, é de extrema importância o conhecimento das diversas características e do significado dos espaços públicos da cidade sejam eles ruas, praças, parques, largos, eixos, quarteirões e das relações de seus componentes são imprescindíveis para a criação do espaço urbano ou para sua modificação. Sobre estes requisitos impõem-se os conhecimentos do significado e da importância da arvore, do arbusto, ou de qualquer componente vegetal nas diversas categorias de espaços urbanos - Espaços Verdes Urbanos.
 
 
 
 

Importância da introdução do conceito de Estrutura Ecológica Urbana em Natal
 
 

O crescimento populacional, demanda a ocupação incessante do território e sua impermeabilização. Este fenômeno é de tal forma “grandioso” que a superfície definida como os limites físicos da cidade não apresenta atualmente dimensão para a crescente populacional, sendo necessário recorrer ao território municipal limítrofe.
 
 
 

Para o estudo de caso, iremos considerar apenas o perímetro urbano da cidade de Natal. A ocupação do solo definida como urbanaDefinido no Plano Diretor de Natal - Lei Complementar nº07, de cinco de Agosto de 1994.  ,representa uma especulação ainda maior do território, pois não existe uma classificação para as áreas que não se encontram impermeabilizadas, sem qualquer tipo de intervenção que pela dimensão podem representar pólos importantes de biodiversidade, destacando-se áreas que ainda hoje conservam as suas características naturais, e onde mesmo que com pouca representatividade, surgem como áreas de cultivo, que mantidas e talvez ampliadas possam representar zonas de produção hortícola, como base de combate à escassez de alimentos. Os interstícios que marcam de uma forma geral o perímetro urbano da cidade, surgem como fonte do sub-aproveitamento do solo e da falta de planejamento existente.
 
 
 

A verticalização da cidade é um cenário comum da ultima década, deslocando-se de parâmetros urbanísticos importantes, deteriorando fatores como a luz, a ventilação, o aquecimento global que de uma forma geral contribui para o bem estar das populações. Em muitos casos a ocupação do solo é feita suprimindo valores biofísicos do território, destruindo valores naturais, como as zonas de encosta, orla costeira, zona ribeirinha, zona de mangue, zonas de acumulação e de recarga do aqüífero.
A impermeabilização do solo apresenta valores muito elevados, aumentando desta forma o aquecimento do mesmo e do ar e diminuindo a infiltração da água, ocorrendo cheias nos períodos de elevada precipitação.
 
 
 

A cidade de Natal não reúne atualmente condições para uma estrutura verde necessária à existência de um ambiente natural, propicio à qualidade de vida do ser humano. Apesar dos efeitos benéficos, sobre o seu clima, do estuário do Potengi/Jundiaí (e a vegetação do mangue a eles associada) e o maciço arbóreo do Parque das Dunas e com menor representatividade as restantes Zonas de Proteção Ambiental em geral, até porque esta apresenta uma taxa diminuta de áreas verdes. Esta ausência faz-se igualmente sentir no recreio, lazer e convivência das pessoas, indispensáveis ao equilíbrio psicossomático e à valorização social e cultural dos residentes e utentes da cidade.
 
 
 

A cidade é atualmente desprovida de espaços verdes (de efetiva permanência), ocorrendo de forma sistemática espaços expectantes (sem utilização), resultantes do desinteresse por parte do poder publico, surgindo com alguns resquícios de vegetação e funcionando como lixeiras informais de uso coletivo por parte da população. Não existe uma estrutura coerente e continua de espaços que valorizem as componentes naturais da paisagem urbana. Os espaços verdes considerados apresentam uma expressão mínima em todo o perímetro urbano, apresentando na sua maior parte um índice de degradação elevado e formas de apropriação incorretas.
 
 
 

A zona histórica da cidade (Ribeira/Rocas) poderá ser considerada como aquela que mesmo assim apresenta um numero considerável de áreas verdes, mas que pela promoção de outras zonas da cidade (crescente urbanística completamente desintegrada), representam hoje espaços de fragilidade em todas as suas componentes correspondente à sua formalização. Nos últimos dez anos as áreas edificadas não possuem áreas verdes significativas, que pela falta de planejamento (ambiental/urbanístico), surgem entre os espaços construídos apenas interstícios sem qualquer uso e função. Esta abordagem não se refere somente a espaços verdes como praças, espaços de recreio e lazer, mas também a vias de circulação (automóvel e pedestre), que se apresentam de uma forma geral desprovidas de vegetação e sem qualquer tipo de estruturas que possibilite um maior conforto e mobilidade.
 
 
 

Um dos problemas gerenciados pelo crescimento casuístico da cidade reflete-se na desumanização do ambiente nas áreas construídas. A situação é caótica e de ruptura com os sistemas fundamentais à vida humana, tais como a circulação e a qualidade ambiental, o que obriga a que se inicie desde já uma política global e integrada de valorização ecológica e de qualidade de vida da população. É de extrema importância a reabilitação do tecido construído e dos sítios notáveis, assim como a revitalização ecológica da cidade.

 
 
 

Objetivos
 

Os objetivos genéricos da delimitação da Estrutura Ecológica Urbana é salvaguardar áreas indispensáveis à manutenção do equilíbrio ecológico da cidade de Natal; integrando no tecido urbano uma rede de ativação biológica que permita recriar o contacto das populações com os fenômenos naturais e induzi-las a novos espaços de vivência, melhorar e sanear o ambiente urbano, enquadrar as infra-estruturas de transporte, fornecer à população em geral o suporte às atividades de lazer e recreio e de uma forma global melhorar a qualidade estética do espaço, só possível através do contraste existente entre os materiais vegetal e inerte, integrados na sua concepção, através da composição.
 
 
 

A integração das diversas componentes que compõem a cidade deverá obedecer a princípios de organização espacial, fundamentados no caráter do LUGAR, permitindo uma apropriação do espaço de forma passiva, e que cada ser humano da comunidade representada sinta a cidade como parte integrante da sua existência física e social.
 
 
 

O processo de implementação da EEU encara uma série de pressupostos, que cuja funcionalidade só será possível, se forem todos assegurados. Não basta definir áreas, mas sim promulga-las de usos e funções compatíveis com a sua vulnerabilidade, assim como referir a importância da requalificação de outras para a sustentabilidade global de todo o sistema urbano. A EEU pretende reunir assim, as áreas cuja utilização pelas atividades humanas deve obedecer prioritariamente às exigências da sustentabilidade ecológica da Paisagem. Ou seja, todas as implantações e todos os usos devem ser cautelosamente definidos, desde a restrição total até ao maior ou menor condicionamento, devendo ser dada prioridade, nas áreas desta Estrutura, à conservação da natureza, ao lazer, ao recreio e À cultura e, ainda, às atividades que sendo produtivas, não põem em causa o objetivo da sustentabilidade ecológica. Neste processo de implementação e definição o elemento vegetal assume uma importância extrema como artefato polarizador de toda a estrutura. 
 
 
 

Em termos funcionais, a elaboração do presente trabalho deveria ser encarado por parte do poder publico, onde foi desenvolvido, com uma forte componente operacional, sendo que partiu da realidade e pretende dar origem a propostas que visam a sua alteração, quer ao nível técnico, quer ao nível político-administrativo.
 
 
 
 

Diagnostico
 
 

A Estrutura Ecológica Urbana de Natal é um estudo setorial que deve ser permanentemente compatibilizado com outros aspectos setoriais de planejamento da cidade e com os diferentes atores e ações de transformação urbanística, desde que integrados pela coordenação da gestão do Plano Diretor, assim como do Plano de Arborização.
 
 
 

Há que pressupor uma interação constante entre a caracterização da situação e a proposta, com ajustamentos permanentes à alteração da realidade e aos vários níveis de tomada e decisões. Pretende-se da mesma forma impedir a ruptura com o meio biofísico, a degradação da cultura e a destruição do patrimônio. 
 
 
 

Os estudos base para a implementação da Estrutura Ecológica Urbana desenvolveram-se a partir de uma analise sistemática e interpretativa da paisagem urbana da cidade de Natal, destacando, referenciando e sistematizando variados aspectos que a caracterizam.
 
 
 
 

Sistematização da Paisagem Urbana – Espaços abertos públicos
 
 

A sistematização da Paisagem urbana de Natal permite identificar os sistemas morfológicos da cidade, assim como, as unidades de paisagem e as linhas estruturantes que a caracterizam e identificam.  Este estudo permite uma aproximação de intervenção assumida através da realidade existente, compactuando com as diferentes características do meio. Esta caracterização revela-se de extrema importância por serem estes sistemas que caracterizam a cidade e a encerram num contexto único que prima pela identidade do lugar. 
 
 
 

A diferença entre estes sistemas é apoiada, sobretudo no caráter distinto do relevo e da Paisagem a eles associado: um sistema de colinas voltado ao Atlântico, um sistema único de vale (Tabuleiros litorâneos - onde se desenvolve a zona centro da cidade), as margens ribeirinhas de relevo suave, associada com o sistema de manguezal, o parque das dunas de relevo acidentado alternando cotas elevadas e cotas mais baixas e as zonas de proteção ambiental de relevo também acidentado, mas com menor relevância que o Parque das Dunas. A presente delimitação teve como base as linhas dominantes da cidade, como as linhas de festo e linhas de drenagem natural. Sem duvida pode dizer-se que a cada um destes sistemas naturais, corresponde uma Paisagem Urbana de caráter distinto, testemunhando na sua morfologia, as características do sitio que lhe deu origem.
 
 
 

Existem em Natal algumas linhas de referencia do relevo coincidentes com linhas estruturantes do tecido urbano. A peculiaridade da cidade ou da Paisagem Urbana de Natal apresentada pelos sistemas anteriormente diferenciados, corresponde a unidades de Paisagem iguais, mas que pela singularidade apresentam situações urbanas diferenciadas.
 
 
 
 
 

Unidades de paisagem urbana
 
 

Entende-se por Unidade de Paisagem Urbana, uma área urbana que se liga globalmente pelo fato de se enquadrar numa mesma unidade fisiográfica paisagística. Esta pode ser constituída por vários conjuntos urbanos diferenciados que, no entanto, estabelecem uma relação peculiar entre si, pelo fato de cada um deles constituir uma adaptação especifica às características comuns do sitio. A delimitação das unidades de Paisagem acarreta um significado identitário da Paisagem Urbana da cidade, compreendida entre a forma do espaço e a sua implantação e evolução.
 
 
 

Um conjunto com identidade urbana pode englobar tipologias construtivas distintas, de época igualmente diferenciadas que, no entanto, se articulam entre si, utilizam princípios comuns de composição. Para planear, definir e traçar uma rede de corredores verdes no perímetro urbano é necessário identificar as unidades de paisagem que melhor se qualificam para a sua estruturação e antecipar as principais medidas programáticas para a sua posterior execução. Pela complexidade da cidade, todos estes pressupostos encaram-se como uma aproximação para que se possa ter uma leitura e compreensão da cidade.
 
 
 

Identificação e definição dos corredores verdes
 
 

A identificação e a definição dos corredores verdes dentro de sistemas diferenciados permite uma aproximação para a implementação da EEU, pelo conhecimento dos espaços e suas componentes espaciais, formal/informais e funcionais. Assim de acordo com a estrutura da cidade, foram identificados e definidos os espaços que a compõem.
 
 

Espaços canal – como espaços canal são definidos as ruas, avenidas, espaços adjacentes a vias rápidas, rotundas e linha de comboio. São exemplos disso a Avenida Bernardo Vieira, Prudente de Morais, Rua Mossoró, Rotunda da Ladeira do Sol e a linha de caminho de ferro (entre outras).
 

Espaços verdes de uso público – espaços públicos ou privados que permitem o acesso publico livre – parques, jardins, quintas e matas, normalmente vocacionados para o recreio da população. Com pouca representatividade é de salientar a Cidade da Criança, Bosque das Mangueiras e o Parque das Dunas.
 

Espaços verdes associados a equipamentos-espaços públicos ou privados que permitem acesso público condicionado, como é o caso dos hospitais, escolas, campus universitário, complexos desportivos e outras instituições como as de pertença ao exercito.
 

Espaços verdes privados com interesse público – espaços verdes com interesse patrimonial natural ou cultural. Estes são mos de maior representatividade na cidade assumido pelas zonas de proteção ambiental com especial destaque para o Parque das Dunas. 
 

Espaços verdes privados – logradouros, quintais, jardins de pequena e media dimensão, 
 

Espaços verdes de produção – hortas e zonas de cultivo urbanas, que devem ser qualificados, como as pequenas chácaras (ainda existentes na zona norte, e de extrema importância cultural e ambiental para a cidade).
 

Espaços verdes expectantes – espaços abandonados sem uso humano explicito que aguardam ser urbanizados, como a área piloto no Bairro Nordeste definida pelo Plano de Arborização.
 
 
 

Proposta
 
 

Na implementação da Estrutura Ecológica Urbana na Cidade de Natal é importante definir e orientar o traçado dos corredores verdes, assim como a importância da revitalização dos mesmos para a cidade.Assim é de extrema importância salvaguardar e promover os espaços naturais da cidade (como as ZPA´s, o sistema dunar, sistema ribeirinho, sistema costeiro), orientando-os para a conservação dos recursos naturais e para o desenvolvimento da vida silvestre. Sendo que se constituem como áreas de risco, não deverão ser permitidas estruturas edificadas permanentes, a não ser em casos muito especiais, em que a construção se compatibilize totalmente ao metabolismo do ecossistema. É importante e desejável que estas áreas constituam (as que já se manifestam dessa forma) e acolham uma estrutura verde à base de espécies autóctones (nativas) ou, pontualmente, exóticas ecologicamente compatíveis e não infestantes.
 
 
 
 

No âmbito destas tipologias é de extrema importância a despoluição e “naturalização” do rio Potengi e riachos urbanos, com margens revestidas com vegetação espontânea, associadas a percursos de peões, ciclistas e cavaleiros. Outro ponto importante é o desenvolvimento do Plano de Arborização, que assenta numa continuidade e que abrange todos os espaços da cidade, com especial atenção para as áreas mais debilitadas e carentes. A linha de caminho de ferro deverá ser considerada como uma linha estruturante de extrema importância, que assegurando o seu valor cultural pode representar um “ponto” de biodiversidade, conectividade e diversidade. Assim devem acolher uma estrutura verde, enquadramento, proteção e moderação ambiental, protagonizada por alinhamentos de árvores (em caldeira ou trincheira). 
 
 
 

No tecido histórico a arborização das ruas deve restringir-se a elementos de pontuação, coerentes com as características do sitio e atendendo às características plásticas do elemento vegetal. As espécies a considerar nestas manifestações devem permitir a rápida obtenção de massa verde, com dimensões adequadas à escala dos espaços. Nos taludes das vias rápidas (exemplo: BR – 101), deve ser instalada uma estrutura arbóreo-arbustiva de crescimento médio-superior sobre revestimentos herbáceos e subarbustivos espontâneos. As rotundas e os nós das vias rápidas podem também constituir oportunidades pra instalar pequenas matas urbanas, elementos de água e zonas úmidas, aumentando significativamente o interesse ecológico e estético destas áreas inacessíveis, à partida pouco interessantes como zonas de recreio humano.
 
 
 

Revitalização e construção de novos espaços verdes públicos, principalmente nas zonas com maior densidade impermeabilizada, com manifestem funções múltiplas e elevada vocação social e ecológica. Criação de um Parque Urbano (tipologia totalmente inexistente na cidade), que possa assegurar uma serie de funções, mas principalmente oferecer às populações suma nova forma de estar (essa implantação poderia ser na zona junto ao Machadão ou na Zona Norte (paralelo a Avenida João de Medeiros Filho). Estes espaços deverão garantir cerca de 80% de área permeável.
 
 
 

Desenvolvimento e execução de um programa de parques e grandes jardins periféricos em articulação com os concelhos limítrofes. Estes poderão implantados de raiz ou associados a agro- sistemas remanescentes, acentuando a multifuncionalidade e criando oportunidades para a ocorrência de atividades ao ar livre que exijam grandes áreas, associando-se a equipamentos de recreio, desporto e lazer. Da mesma forma que devem ser dotados por aproveitamento (e pela existência massiva dos mesmos fora do perímetro urbano da cidade de Natal) de áreas de cultivo.
 
 
 

Ao nível da construção e da impermeabilização, poderá ser considerado uma maior compactação das áreas a edificar, recorrendo a pontual construção e altura (mas não excessivo) por forma a atingir menores índices de impermeabilização do lote e libertar mais área para espaços verdes. Suavizar o efeito impermeabilizante causado pelos pavimentos exteriores, fomentando o uso de pavimentos semipermeáveis. Garantir que nas operações de loteamento, os espaços verdes de cedência ao domínio público sejam unos e de dimensões não inferiores a 1000m2, evitando que o índice de espaços verdes públicos seja cumprido à custa de pequenos canteiros à volta dos edifícios. Estes canteiros não têm qualidade de uso direto e na sua maioria não sustentam associações vegetais com significativo valor ecológico e sensorial.
 
 
 

Estimular a construção de coberturas revestidas com vegetação em todos os novos edifícios e considerar tornar este programa obrigatório para edifícios cuja área de ocupação seja muito expressiva. O ideal seria caminhar para que todas as coberturas dos edifícios possam progressivamente acomodar jardins, hortas, painéis solares, equipamento de lazer e desporto. Promover programas para a criação e gestão de espaços verdes com maior valor natural, quer ao nível da sua concepção quer da sua gestão e manutenção.
 
 
 

Por fim é de extrema importância agilizar parcerias entre o poder local e os privados de modo a abrir espaços verdes privados ao uso publico condicionado, estimular o sector privado a construir espaços verdes de uso publico mediante algumas contrapartidas. 
 

Fig.1 - Esquerda: Avenida Bernardo Vieira - Exemplo de espaço canal a revitalizar, reestruturação dos passeios e promoção de vias com caráter funcional distintos, oferecendo desta forma um maior conforto e mobilidade. 
 

Fig.2 - Direita: Zona Leste – Bairro Nordeste – Exemplo de espaço verde expectante, sub-aproveitamento de um espaço potencial e de extrema importância para a comunidade que nele habita.
Conclusão
 
 
O contexto socioeconômico, ambiental e urbanístico sobre a qual se ergue a cidade de Natal determinou o presente estudo e delimitação. Esta necessidade manifesta-se através da procura de novos espaços, onde as conectividades espaciais, ambientais e sociais interajam de forma equilibrada. Assim, a implementação da EEU em Natal, procura assegurar e salvaguardar os sistemas biológicos fundamentais para o equilíbrio da cidade. A ramificação destes sistemas insere-se numa escala menor denominada de corredores verdes, constituindo a estrutura que suporta a continuidade, a diversidade e a intensificação de todos os processos físicos e psíquicos da cidade, assumindo a ligação entre o espaço natural e o espaço construído. A EEU caracteriza-se como um instrumento de gestão do território, mas viabilizado dentro de um contexto generalizado como o PDNPlano Diretor de Natal . A intenção é devolver aos natalenses o gosto de viver na cidade, equilibrando e distribuindo democraticamente o acesso aos espaços verdes livres, formais e informais, equilibrados de forma continua. Mas todo o processo só poderá ser viável e implantado, se houver um intenso e continuado esforço de pressão e esclarecimento sobre os órgãos responsáveis pela regulação do uso da paisagem, de modo que a médio ou longo prazo seja possível “renaturalizar” o meio urbano. Cabe ao município de Natal o aprofundamento desta Estrutura Ecológica, na sua componente urbana, já que a cidade se espraiou numa grande área e deixou de constituir pequenos núcleos de artificialização na paisagem, que se podia dar ao luxo de se assumir contra natura.
Notas
1  “O Território tem que ser entendido como a superfície de interface entre os fenômenos que se registram no sub-solo e na atmosfera, na qual tudo se move em estruturas continuas” (Magalhães, 2003, pág.65). E onde o homem é o principal interveniente.
2  Segundo Caldeira Cabral continuum naturale define-se como “Presença de todos os elementos naturais do ambiente em forma congruente, respeitando todas as funções essenciais e as relações do ambiente natural, embora com forma diferente e adaptada aos usos e conveniências do homem”.
3  Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.
4  Definido no Plano Diretor de Natal – Lei Complementar nº07, de cinco de Agosto de 1994.
5  Plano Diretor de Natal
Referências bibliográficas
 
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