O
corpo musculoso e magro carioca deve ser exibido por ser belo ou teve que
se tornar belo por estar em eterna exposição? A princípio,
os analistas têm apontado a segunda alternativa como resposta a esta
questão. Aqui a praia entra em cena. Praia, lazer e calor juntos
facilitariam o desnudamento do corpo. Mostrando o que antes era escondido,
o carioca correu para academias e clínicas em busca do corpo perfeito.
O corpo liberto das roupas caiu numa moral estética (Goldenberg
e Ramos, 2002) que indica a ascensão de uma nova forma disciplinar
(Villaça e Góes, 1998).
É
verdade que a procura pelas academias de musculação aumenta
em muito durante o verão (Sabino, 2000; Goldenberg e Ramos, 2002),
o que indica que, do ponto de vista nativo, o verão é propício
ao desnudamento, que só deve ser levado a cabo por um corpo belo.
O corpo está à mostra porque é belo ou se mostra belo
porque deve estar à mostra? A segunda opção parece-me,
realmente, a mais segura. Refazendo-se brevemente a história da
exposição corporal no Rio de Janeiro, o bom-senso aponta
para uma progressiva exposição do corpo, posteriormente seguida
pelo seu embelezamento. Há apenas um senão: as concepções
sobre o que seja o corpo belo têm se modificado. Hoje o corpo belo
é alcançado em academias e clínicas.
Freqüentar
uma academia e/ou realizar uma cirurgia plástica tem preço.
Embora a saúde seja uma preocupação de camadas médias
e altas ocidentais, tornou-se uma ideologia divulgada especialmente pelos
meios de comunicação, na forma do estilo de vida das classes
superiores (Boltanski, 1984). As concepções de saúde
para diferentes camadas sociais podem, contudo, apresentar-se sob diferentes
formas. No Rio de Janeiro não tem sido diferente. Parece-me que
a atual corpolatria carioca reflete uma posição de ponta
na adequação a uma ideologia que sugere que o bem-estar físico
e psíquico envolve a busca por uma boa aparência, traduzida
não em roupas e cosméticos, mas na construção
de um corpo musculoso, sem gordura, sem estrias, sem celulite, sem rugas,
sem flacidez. Musculoso, mas não necessariamente forte (Sabino,
2002). A corpolatria não é uma ideologia carioca, mas foi
bem aceita aqui; a ponto de tornar-se, para alguns, traço característico
dos habitantes da cidade. O fisiculturismo, por exemplo, é uma prática
disseminada a partir dos Estados Unidos (Sabino, 2002; Góes, 1999).
O
corpólatra carioca esculpe seu corpo para si ou para os outros?
Dependendo do grupo estudado, esta resposta pode ser diferente. Edmonds
(2002) apresenta uma série de casos em que a cirurgia plástica
é apresentada pelo paciente como um desejo seu, realizado para si
e não para o outro. Visto que o ser humano ocidental compreende
e utiliza os conceitos de vaidade, cuidado de si, boa aparência e
amor próprio – o individualismo como valor –, não é
de forma alguma impossível que mudanças corporais sejam realizadas
para a auto-satisfação. O que desejo salientar é que
nesses casos uma auto-satisfação estética raramente
contradiz o ideal de beleza compartilhado em um grupo, sociedade ou cultura.
Mennell (1994) afirma que a auto-imagem individual e a imagem do grupo
de pertencimento não são separados. Aqueles que rompem esse
padrão são considerados desviantes (Becker, 1973).
Como
a corpolatria tem sido considerada a regra em termos da cultura somática
carioca, há que se considerar que por mais que desejos internos
e subjetivos estejam em questão, eles estão de acordo com
padrões estruturalmente aceitos de beleza. Há situações,
contudo, em que o culto ao corpo pode envolver a negação
do mesmo como corpo humano, como no caso de uma artista plástica
paulista que tatuou manchas escuras na pele para uma aparência bovina
(Goldenberg e Ramos, 2002), e em vários outros casos em que a modificação
corporal visa a aquisição de traços não-humanos,
como dentes de vampiro e línguas ofídicas. Particularmente,
não acredito que estes sejam exemplos de culto ao corpo, mas de
negação e crítica ao corpo humano e aos padrões
estéticos hegemônicos. Uma contradição se apresenta
aos que buscam negar a humanidade do corpo: é a sua manipulação
que lhe confere uma qualidade humana, conforme Borel (1992) afirma.
A
cultura somática brasileira, sobretudo na forma da cultura somática
carioca, tem sido estudada por estrangeiros (Malysse, 2002; Edmonds, 2002)
e brasileiros (Sabino, 2000; Farias, 2002), o que tem permitido uma comparação
com outras culturas somáticas. Acima, expus as percepções
de DaMatta (1996) sobre Brasil e Estados Unidos. Malysse (2002) e Heilborn
(1999), o francês e a brasileira, respectivamente, efetuam comparações
entre França e Brasil. O francês parece apontar uma determinação
climática para o desnudamento carioca, como se o clima engendrasse
a cultura que permite o desnudamento no Brasil, enquanto o reprime na França.
Não habituados ao calor, para os franceses, ou para a cultura francesa,
é mais difícil despir-se. Embora perceba as culturas somáticas
francesa e brasileira como distintas, opera uma análise muito próxima
da visão mítica sobre os trópicos, onde o desnudamento
é conseqüência geográfica e a comparação
com a França coloca a esta no pólo ‘cultura’, enquanto o
Brasil permanece no pólo ‘natureza’, visto que, aqui, o ‘pudor’
é uma regra moral não-cumprida.
[...] Enquanto os brasileiros
tiram facilmente a camisa assim que começa a fazer calor, os franceses
mantêm-se vestidos da cabeça aos pés mesmo sob um calor
tórrido. [...] Intimamente ligado às condições
climáticas, esse pudor do corpo parece muito mais interiorizado
na França do que no Brasil [...] (Malysse, 2002, p.
111).
O
que o autor faz é perpetuar a visão dicotômica natureza/cultura,
em que os trópicos cariocas e brasileiros são o pólo
natureza cuja falta de pudor é devida, em parte, ao clima, e a França,
modelo de Europa, toma para si o pólo cultura, no qual, mesmo sob
intenso calor, o desnudamento não é uma opção
segundo as regras de civilité. O autor se esquece- de que cada cultura
mantém concepções distintas sobre pudor. Na passagem
acima, ‘pudor’ apresenta um significado essencializado que é mais
absorvido em um país do que no outro.
Heilborn
(1999), por sua vez, interessada antes nas interações sexuais
do que nas regras de exposição e construção
do corpo, percebe no Rio de Janeiro um uso mais expressivo do corpo, enquanto
em Paris as trocas são essencialmente verbais. Esta situação
permite à autora formular uma análise em que a país
e cidade tropical aparecem com uma lógica corporal pré-moderna,
enquanto a cidade européia mantém uma lógica corporal
moderna. Sobrepondo os conceitos ao caso carioca, a Zona Sul toma ares
de modernidade enquanto a Zona Norte mantém características
pré-modernas.
Identidade
Carioca
A
percepção da identidade carioca tem passado, amplamente,
pela idéia de culto ao corpo ou corpolatria. Alguns autores têm
visto a corpolatria como traço da cultura brasileira recente, outros
como traço da cultura somática carioca e, algumas vezes,
ambos (Malysse, 2002). A idéia de que o carioca é movido
por um culto ao seu corpo, esculpido em cirurgias plásticas e academias
de ginástica e musculação envolve, freqüentemente,
a evocação da praia como um determinante para tal. Acredito
que seja possível imaginar uma identidade carioca para além
da praia, entretanto é necessário salientar que este trabalho
é um espaço antes de reflexão e perguntas que de respostas
precisas e solução de problemas.
A
cultura popular contemporânea tem sido, para Kellner (1991), o espaço
da implosão da identidade e da fragmentação do sujeito.
Ao mesmo tempo, a televisão e a cultura de massas desempenhariam
papéis centrais na estruturação da identidade contemporânea.
Os meios de comunicação desempenham papel importantíssimo
na divulgação de estilos de vida, o que envolve os usos do
corpo. Boltanski (1984) é um dos autores mais importantes neste
sentido, quando aponta os meios de comunicação como um dos
responsáveis pela disseminação de práticas
corporais de camadas superiores entre as classes trabalhadoras. Velho (1981)
aponta a capacidade que os meios de comunicação de massa
têm para a difusão de todo tipo de hábitos e informação,
não apenas da cultura somática.
Na
cultura de consumo, é requerido do indivíduo que se torne
ator de um papel e um monitor autoconsciente de sua performance. Aparência
e gesto são tidos como expressões do self (Featherstone,
1995). Neste sentido, Goffman (1999) indica que se as pessoas querem parecer
convincentes em seus papéis, precisam observar certas regras corporais
que governam determinados encontros. Os papéis a que o autor se
refere podem ser estendidos, sob o ponto de vista do self, à construção
de uma identidade convincente. Para que uma identidade seja convincente,
regras corporais de aparência e de gestual devem ser obedecidas,
visto que o corpo desempenha o papel de mediador nas relações
entre as auto-identidades das pessoas e a identidade social.
Nas
sociedades pré-modernas ou tradicionais, o corpo é alvo de
simbolismo público através da decoração, tatuagens
e escoriações. O uso desse simbolismo corporal pode também
ser associado ao fato de que, em sociedades pré-modernas, as diferenças
de status de uma dada natureza, como idade e sexo, por exemplo, são
mais rígidas e mais óbvias. O rito de passagem entre diferentes
status sociais é, como resultado, freqüentemente indicado pela
transformação ritual do corpo, não raro envolvendo
alguma mutilação. Em sociedades modernas, os dispositivos
corporais, como vestimenta, postura e cosméticos são cruciais
para indicar riqueza e estilo de vida (Turner, 1995).
Na
cultura consumista, uma nova relação entre corpo e self se
desenvolveu. O corpo se tornou um projeto e a aparência tornou-se
um reflexo do self. Como veículo de prazer e auto-expressão,
o corpo se tornou alvo de um interesse comercial. Ele agora serve como
signo de boa vida e indicador de capital cultural. Os focos são
o prazer, o desejo, a diferença, o lúdico, a beleza, a juventude,
a rejeição da morte, a importância do esporte e a manutenção
da forma física. O corpo se torna o principal veículo do
desejo consumista (Turner, 1996).
Falar
de uma identidade local, como a carioca, é falar de uma identidade
coletiva. No Rio de Janeiro, a corpolatria tem sido apresentada como um
traço distintivo de uma identidade coletiva, mesmo nos grupos que
não se definem por ela. A corpolatria parece apresentar, também,
um aspecto coletivo, especialmente quando se torna um traço da sociedade
de consumo. Adquire, desta forma, um sentido identitário duplo:
pertence às sociedades modernas ocidentais, ou sociedades de consumo
(segundo as diferentes linhas teóricas), podendo se tornar um traço
de identidade coletiva; e ao mesmo tempo, como à corpolatria subjaz
uma ideologia individualista do hedonismo e do narcisismo, conforme apontado
anteriormente, ela se torna essencialmente individual. O próprio
corpo sofre esta dicotomia em sociedades modernas: ele é tanto um
espaço de distinção individual quanto o espaço
de marcação do pertencimento a um grupo ou sociedade.
Para
falar especificamente da identidade carioca, Gontijo (2002) formulou o
conceito carioquidade, o análogo local à brasilidade. Alguns
dos traços que permitem a construção da identidade
carioca – ou imagem identitária carioca, como prefere o autor –
são a freqüência à praia, a corporeidade, modos
de vida alternativos, preocupação com a saúde física
e mental, musicalidade, o verão e o carnaval. Onde surge essa identidade?
Na
década de 1920, Copacabana emergiu no cenário da cidade –
e posteriormente do país – como espelho de uma nova realidade, moderna
e jovem, atributos já então almejados (Gontijo, 2002). O
crescimento populacional do bairro, estudado por outros antropólogos
(Velho, 1989), formulou uma identidade de morador que, quando descrita,
não é muito diferente do que se pensa que seja a atual identidade
carioca: praianos de pele bronzeada, com uma moda particular e uma aparência
bem cuidada.
É
Gontijo (2002) quem indica parte da saída para o problema que apontei
anteriormente: se o calor é propício ao desnudamento, há
uma contradição analítica em jogo. A região
das praias é, geograficamente falando, uma das regiões mais
amenas da cidade, visto que a brisa do mar refresca os ambientes. Subúrbios
e a Baixada Fluminense são mais quentes. Porque então uma
cultura do corpo se apresenta mais forte entre os habitantes da zona litorânea?
Porque, como sugeri acima, essa é uma ideologia, não o produto
de um marco geográfico, uma ideologia formulada na Zona Sul carioca,
proveniente de camadas superiores. Não mais restrita à Copacabana
mítica, a ideologia da boa aparência – hoje traduzida em boa
forma física – perpassa toda a sociedade. A adequação
a novos padrões estéticos, disseminados pelos meios de comunicação,
mas erigidos nas camadas médias e altas, são uma maneira
de ascensão social e distinção – não apenas
entre ‘malhados’ e ‘não-malhados’, mas distinção entre
classes baixas e estratos superiores. Não é, portanto, um
traço da identidade carioca, mas um traço das classes médias
cariocas, como Goldenberg e Ramos (2002) apontaram.
Uma
identidade carioca só é possível se pensarmos a cidade
em termos de localidade. Appadurai (1995) distingue localidade e vizinhança,
a segunda sendo uma forma social na qual a primeira se realiza. A construção
de uma localidade precisa ser mantida contra vários fatores: a falta
de coesão interna, o problema dos limites e fronteiras, o Outro.
Tomando o corpo como um fator importante na construção de
uma identidade carioca, como os autores citados neste trabalho têm
afirmado, pode-se tratá-lo como produzindo o pertencimento à
localidade. A produção de sujeitos locais, ou seja, de membros
de um grupo ou comunidade, passa por ritos de passagem (Appadurai, 1995).
Marcando no corpo o pertencimento à localidade, tais ritos produzem
nativos. Farias (2002) fornece um exemplo, quando enumera uma das categorias
encontradas no discurso nativo carioca sobre os freqüentadores da
praia: o gringo. O não-carioca e não-brasileiro é
reconhecido pela falta do bronzeado. Neste caso, a praia se torna verdadeiro
rito de passagem: a falta do bronzeado indicando o não-pertencimento.
O ‘branquinho’ de Ipanema é não-bronzeado por escolha, levantando
a idéia de que o bronzeado é apenas um dos fatores de reconhecimento
de um habitué. Lembremos que as regras infringidas pelos farofeiros
não são apenas corporais, mas de uso do espaço. Isto
significa que, se o bronzeado – e, por conseguinte, a praia –, são
importantes na formulação de uma identidade carioca, este
espaço tem também regras próprias para a formulação
da identidade de habitué.
O
carioca aparece, essencialmente, como alguém preocupado com a aparência
física, no sentido da boa forma, o que se pode traduzir também
como uma preocupação com a saúde. Bronzeado(a), magra
(mulher) ou musculoso (homem) – segundo os critérios de beleza diferenciados
por gênero – o carioca é alguém que cultiva o corpo
em uma academia e/ou molda-o numa mesa de cirurgia plástica, para
exibi-lo na praia. Estes espaços seriam, então, os espaços
de um processo ritual que constrói o corpo carioca ideal – mulher
magra, homem musculoso e ambos bronzeados –, para além das roupas
e da maquiagem. O carioca é reconhecido na sua aparência corporal.
Goffman (1999) afirma que a aparência revela o status social do ator.
A
produção de uma identidade envolve a aceitação
dessa identidade por Outros. Desta forma, nascer carioca não faz
a identidade carioca, uma vez que as identidades não são
dadas, mas construídas. Uma identidade construída deve ser
aceita como tal pelo Outro, para que seja legitimada, ou entrar-se-á
no campo da farsa (Goffman, 1999). Edmonds (2002) relata o caso de uma
paciente de cirurgia plástica em que a juventude é sentida
internamente, mas não-legitimada pelo Outro, uma vez que não
condiz com a aparência externa. Nesses casos, o que o paciente busca
não é disfarçar a idade, mas apresentar na aparência
um sentimento interno não-reconhecido. É bom lembrar que
esse corpo magro, musculoso e bronzeado é um ideal a ser alcançado.
O carioca envolve em sua identidade a preocupação com a aquisição
de uma determinada aparência, o que, imagino, permite que ele se
reconheça como carioca. Nesse sentido, a própria palavra
carioca envolve a idéia de uma identidade que se reconheceria também
no corpo, como o judeu apresentado por Gilman (1994) era reconhecido pelo
nariz.
A
produção de uma vizinhança, em contraste com a produção
de uma identidade, também depende do Outro, desta vez não
como elemento legitimador mas como elemento contextual opositor. Pertencer
a uma vizinhança significa não pertencer a nenhuma outra.
Pensando em termos de bairros no Rio de Janeiro, embora tanto os habitantes
da Zona Sul quanto da Barra da Tijuca sejam cariocas, sabe-se que este
bairro produziu uma nova identidade característica: os emergentes.
Da mesma forma, a dicotomia praia/favela, perceptível em algumas
análises sobre os habitantes da cidade, produz diferentes vizinhanças,
na medida em que a favela não é o asfalto e o litoral não
é o subúrbio. Appadurai (1995) afirma que a produção
de uma vizinhança envolve poder sobre algum meio hostil, natural
ou social, incluindo outra vizinhança. Podemos empreender uma análise
da relação asfalto/favela segundo esta afirmação,
onde ocorre uma disputa constante pelo domínio de um espaço.
Considerações
Finais
Não
é possível imaginar que o corpo é o único elemento
na formação d a identidade carioca. No entanto, ele tem se
apresentado como fator importante. Nenhuma identidade é fruto exclusivo
da aparência, mas é elaborada também por meio desta.
A aparência é um recurso na construção das identidades.
Isto tem sido comentado mais comumente sobre as tribos urbanas das quais
os jovens participam (Bollon, 1993), embora Goffman (1999) indique que
a aparência e o comportamento são fundamentais para todo ator
que deseje representar um determinado papel de forma convincente, tanto
quanto a paisagem (ou cenário). A roupa, o cabelo, as maneiras,
tudo contribui para a formulação de uma identidade que seja
apresentada como legítima e, portanto, aceita (Goffman, 1999). No
caso de atores em busca de mobilidade social, a aparência passa a
exercer uma função crucial. Goffman (1999) indica que a mobilidade
ascendente depende de desempenhos adequados dos atores sociais, que tendem
a transmitir uma impressão idealizada. Para uma apresentação
adequada, o ator deve ter uma fachada adequada, o que envolve cenário,
aparência e maneiras. Usando a praia como exemplo mais uma vez, é
possível perceber como ela serve de cenário ideal para o
ator em busca de mobilidade, pois bronzeado e comportando-se como um habitué
ele representa perfeitamente o papel. Sem as maneiras corretas, o cenário
e a aparência perdem o sentido, e ele se torna uma farsa, como o
farofeiro que não passa por habitué, por exemplo. A importância
da aparência na mobilidade pode ser vista também a partir
da disseminação de estilos de vida e modos corporais de camadas
superiores, sobretudo através dos meios de comunicação.
A
antropologia do corpo que trata do Rio de Janeiro tem dado centralidade
ao corpo como elemento de formulação de uma identidade carioca,
mas operando uma distinção quanto a análises prévias
sobre a identidade brasileira, no sentido de que a sensualidade deixou
de ser um fator determinante, mas a idéia da predominância
do espaço aberto se manteve. As identidades locais, tanto quanto
as identidades nacionais, existem. Uma cidade ou um bairro, uma localidade
ou uma vizinhança, para usar os termos de Appadurai (1995), constroem
identidades próprias, mas constroem também discursos sobre
essas identidades. No caso nacional, esse discurso pode ser apresentado
como um discurso nacionalista. No caso das cidades, o senso-comum brasileiro
tende a tratá-lo como bairrismo, palavra pejorativa muito próxima
da idéia de provincianismo, de não-abertura para o mundo,
que envolve, no Brasil, um contexto próprio de sua produção.
Talvez
tenha feito parecer que as visões de especialistas sobre os cariocas
apresentam conclusões unânimes, o que não é
verdade. Cada autor elabora discussões com ênfases diferentes,
segundo os objetos de estudo e as possibilidades etnográficas. Propus,
no presente trabalho, acompanhar as afirmações mais comuns,
inclusive utilizando autores que não se dedicam ao estudo da antropologia
do corpo, para indicar como a cidade tem sido vista quase exclusivamente
a partir da dicotomia praia/favela, e como os estudos sobre a corpolatria
carioca têm se afinado com este tipo de disposição
analítica, sobrepondo um corpo ideal à praia e um corpo grotesco
à favela, exatamente como o discurso do senso comum carioca sobre
a sua cidade. Aliado às dicotomias norte/sul, favela/praia, subúrbio/elite,
grotesco/ideal, percebe-se ainda a associação entre estes
pares e a par natureza/cultura, também no sentido de caos/ordem
e feiúra/beleza.
O
que se observa ao fim é a transposição entre geografia,
espaços abertos e exposição corporal levando a uma
idéia de sensualidade ou de busca pela beleza. No Brasil e no Rio
de Janeiro, estas associações são levantadas na produção
de uma identidade nacional e local que sãonestes dois casos muito
próximas – às vezes iguais–, quando então toma-se
a identidade carioca pela brasileira e vice-versa. O espaço aberto
é o local de exposição do corpo, também seguindo
a lógica da dicotomia casa/rua e privado/público (DaMatta,
1991). Estes espaços abertos são os espaços ‘naturais’,
ou considerados mais próximos à natureza, como parques, praias
e praças. O clima quente é visto como permitindo tanto a
vida ao ar livre quanto a exposição corporal, e por isto
modificando a cultura somática brasileira/carioca bem como sua noção
de pudor. A exposição corporal, dada nestas circunstâncias,
tem sido apresentada como traço fundamental da identidade carioca.
As análises contemporâneas têm investido mais no estudo
das técnicas de produção deste corpo do que no discurso
sobre ele.
Os
estudos sobre o meio urbano não são um campo novo para as
ciências sociais brasileiras, mas ainda há poucos autores
se dedicando ao estudo do corpo urbano. Coube aqui apenas indicar uma linha
analítica seguida recentemente. Este trabalho foi imaginado como
uma reflexão sobre uma pequena parte da literatura que trata do
tema.
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