Introdução
A
idéia de um corpo construído socialmente, em oposição
a um corpo natural, é a base de toda reflexão antropológica
e sociológica sobre este objeto. De Mauss (1994) e Hertz (1980)
a Featherstone e Hepworth (2000) e Brian Turner (1996), o corpo não
é o depositário da biologia humana e seus processos físico-químicos,
mas de representações, valores e simbolismos. A reflexão
seminal da antropologia sobre o corpo, na obra dos dois primeiros autores,
encaminhou-se para uma análise comparativa das culturas, buscando
a própria formulação da noção de que
o corpo é uma construção social, e não uma
determinação biológica. Conseqüentemente, a idéia
de um corpo natural se esvazia de significado e perde sentido, mas ainda
assim atua no discurso ocidental sobre o corpo. Os três últimos
autores citados encaminharam análises que correlacionam o corpo
contemporâneo com a sociedade de consumo, próximos às
teorias da modernidade e pós-modernidade, o que configura uma análise
mais sociológica sobre o corpo. Observam, ainda, as idéias
de hedonismo e narcisismo como constituintes da cultura somática
ocidental contemporânea.
O
Rio de Janeiro tem sido tratado constantemente como um micro-modelo de
Brasil, tanto no senso comum como nas ciências sociais (Heilborn,
1999). A partir desta constatação, dei mais espaço
a uma reflexão sobre o corpo carioca do que o corpo brasileiro,
já que um tem sido tomado pelo outro. O segundo tópico trata
exatamente das visões sobre o espaço urbano carioca, que
se sobrepõem a visões sobre o corpo carioca, cujo uso vem
sendo correlacionado aos espaços de sua construção
e exposição. Estas características do culto ao corpo
no Rio de Janeiro e no Brasil estão expostas no terceiro tópico.
O quarto tópico apresenta a importância do corpo na formulação
da identidade carioca e brasileira.
Diversos
antropólogos descrevem a sociedade carioca como uma sociedade em
que a preocupação com a aparência física é
central. Essa preocupação toma uma determinação
geográfica específica, delimitada pela idéia de uma
cultura de balneário (Malysse, 2002). Em outras palavras, é
o clima quente e a praia que tornam a preocupação com o corpo
um traço central da sociedade carioca. Explicar a corpolatria carioca
como traço cultural originário de uma cultura de balneário
me parece simplista. Penso que a idéia de uma corpolatria vinculada
à cultura de balneário é uma reprodução
do discurso nativo carioca, que vê a praia como local privilegiado
da cidade, sobretudo as da Zona Sul e Barra da Tijuca: no mercado imobiliário,
na prática de esportes, na exposição do corpo, no
flerte, na procura a novas beldades, como área de lazer, entre outros.
A
centralidade da praia na visão sobre o Rio de Janeiro não
é uma característica única da antropologia do corpo.
Sempre que a cidade é estudada do ponto de vista de sua cultura
local, os analistas elaboram uma dicotomia que se resume às divisões
nativas: ricos na Zona Sul e Barra da Tijuca, com suas áreas de
lazer privilegiadas que são as praias, e pobres, suburbanos ou favelados,
do resto da cidade, que migram para estas praias nos fins-de-semana de
sol e/ou calor. Resumida ao antagonismo entre favela e praia, a cidade
real se tornou uma espécie de paraíso infernal: belezas naturais
(na Zona Sul) convivem com pobreza extrema (nas favelas). Há uma
imensa gama de pares de oposição que poderiam ser usados
nesta análise, e serão – mais adiante.
Construção
Social do Corpo
Para
o senso-comum ocidental, o corpo aparece como o depositário biológico
da alma ou da mente. Esquece-se que o corpo está – como o ser humano
– delimitado não apenas por seu aparato biológico, mas também
pela cultura. A cultura, qualquer que ela seja, atua sobre o corpo tanto
no sentido de limitá-lo quanto de modificá-lo, mas também
lhe atribuindo significados específicos. Hertz (1980) aponta para
o uso que as culturas fazem do corpo em A Preeminência da Mão
Direita: estudo sobre a polaridade religiosa. O uso quase universal da
mão direita, em detrimento da esquerda, se deve não a uma
característica biológica humana, mas a uma característica
cultural. Buscando um universal cultural, o autor demonstra como as culturas
sobrepõem aos lados direito e esquerdo significados de origem religiosa.
A regra que positiva o lado direito e negativa o esquerdo vale também
no uso das duas mãos. No limite entre natureza e cultura, o corpo
é um lugar especial para a compreensão das fronteiras entre
estas duas esferas, se é que estas fronteiras existem.
Embora
Hertz (1980) seja um pioneiro no estudo cultural do corpo, a antropologia
e a sociologia do corpo não existiriam sem a obra seminal de Mauss
(1994), As Técnicas Corporais. Enquanto o primeiro procura uma reflexão
sobre a dimensão da cultura e sua determinação sobre
o homem, o último desenvolve uma análise sociológica
sobre os diversos usos sociais do corpo e as técnicas envolvidas
neles. Em ambos o corpo emerge como um depositário da sociedade
e suas regras, devendo adequar-se e ser adequado por elas. Abre-se caminho,
aqui, para a reflexão de uma oposição cara à
antropologia, aquela entre o indivíduo e a sociedade. O corpo, que
divide as fronteiras entre o Eu e o Outro, não é um produto
biológico ou psicológico individual, mas obedece a regras
sociais. Mauss (1994) está atento às intervenções
da sociedade sobre os sujeitos. Segundo ele, as maneiras como os homens
se servem tradicionalmente de seus corpos, e de maneira eficaz, são
aprendidas e específicas a cada sociedade. Este é o seu conceito
de técnicas corporais. Embora a pessoa sinta que seus atos são
de origem mecânica, física ou físico-química,
adverte o autor, as técnicas são de origem social. Os elementos
dominantes no que tange aos usos do corpo são a educação
e a imitação. A primeira prescinde de maiores explanações.
A última chama a atenção porque o autor desenvolve,
sobre esta reflexão, o conceito de imitação prestigiosa,
ou seja, a imitação de atos de pessoas de confiança
ou que têm autoridade sobre o imitador. O imitador só espelha
aquele que detém prestígio para servir de modelo.
Os
conceitos de Mauss (1994) são importantes para uma crítica
a análises que se refiram às técnicas corporais como
naturais, individuais ou psicológicas. A idéia de um corpo
natural está presente quando em referência à noção
contemporânea de modificação corporal. Seguindo-se
um raciocínio fiel a Mauss (1994), observa-se que o corpo é
produto do meio social, dos usos a que foi determinado e das regas a que
está submetido, embora o agente não sinta desta forma. O
próprio Hertz (1980) demonstra como o uso da mão direita
na sociedade ocidental é vista como uma determinação
biológica, quando é cultural. A partir do momento em que
o corpo humano está sujeito a uma sociedade e sua cultura, ele está
sendo modificado. Em outras palavras, não há um corpo natural,
quando ‘natural’ significa ‘sem intervenção’. Vale de Almeida
(1996) afirma que não existe corpo humano em ‘estado natural’. Logo,
não há um corpo modificado, mas um corpo que vive, até
a sua morte, um eterno processo de modificação.
Borel
(1992) afirma que a marca social é depositada sobre o corpo, a partir
da infância, como se a anatomia humana fosse inaceitável.
O ‘corpo natural’ é um corpo em estado bruto, associado à
natureza. Como tal, ele é ameaçador e precisa receber as
marcas sociais, que são vistas em muitas culturas como marcas de
humanidade. As inscrições sobre o corpo distinguem o humano
e o animal. O corpo nu, diz o autor – e poderíamos dizer melhor
o corpo sem inscrições sociais – reúne-se à
natureza, enquanto um corpo decorado, vestido, tatuado, mutilado, enfim,
manipulado, exibe sua condição humana e cultural, necessariamente
sinônimos, e a integração a um grupo humano específico.

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É
interessante notar, neste ponto, que ‘corpo natural’ é uma concepção
cultural que não pertence a todas as sociedades, mas está
fortemente presente na sociedade ocidental. Vale de Almeida (1996) afirma
que a sociedade ocidental contemporânea naturalizou o corpo de tal
forma que perdeu a noção de sua construção
social. O corpo se tornou sinônimo de pessoa e depois de indivíduo,
e se tornou o território circunscrito de uma individualidade. Rodrigues
(2001) demonstra como o ocidente moderno constrói sua percepção
de corpo em oposição ao corpo medieval, preenchendo as categorias
do Eu e do Outro com estes dois períodos históricos. Longe
de serem apenas marcos da historiografia, a ruptura engendrada pela modernidade
operou uma mudança sentida em todas as esferas sociais. Elias (1998)
apontou a mudança de hábitos e algumas técnicas corporais
na construção da noção de civilité,
uma noção que marcava ainda o distanciamento entre camadas
superiores e inferiores da sociedade européia.
Retornando
às técnicas de ‘modificação corporal’, conceitos
como o body building e body modification têm aparecido na literatura
sociológica e antropológica contemporânea (Góes,
1999) sem uma definição satisfatória. Cirurgia plástica,
musculação, halterofilismo, tatuagem, escarificação,
entre outras, têm sido apresentadas como técnicas de body
building ou body modification. Se o corpo está em constante processo
de modificação, estas técnicas são apenas mais
algumas do repertório disponível ao sujeito. Sugiro que estas
categorias nativas ocidentais estão voltadas para as técnicas,
também no sentido de tecnologias, que os sujeitos utilizam conscientemente
e/ou por escolha própria, para uma modificação desejada
e/ou planejada, embora nem sempre o resultado final do processo seja o
desejado em primeira instância. A ‘modificação corporal’
nas sociedades tradicionais e modernas distingue-se pelo uso de diferentes
tecnologias, mas sobretudo pela possibilidade de escolha dos sujeitos modernos
sobre a manipulação de seus corpos. Por isso prefiro a idéia
de ‘manipulação intencional’ para tratar do que é
chamado por ‘modificação corporal’ em sociedades modernas.
Este viés analítico, o da escolha do sujeito, muitas vezes
dá a este um raio de ação e escolhas por demais amplo,
esquecendo-se de que os padrões corporais almejados, sejam quais
forem, seguem padrões culturais de beleza e feiúra, e que
esta escolha está, portanto, circunscrita à esfera social.
Uma
pessoa que procura a intervenção cirúrgica para retirar
rugas e marcas de idade está submetendo-se a uma modificação
de seu corpo ou está negando-a? Segundo minha argumentação,
é a negação do processo de modificação
que ela busca. O envelhecimento é percebido como um processo
‘natural’, embora seu valor e significado possa ser distinto segundo o
ponto de vista. Envelhecer é decorrência de viver, mas a velhice
está revestida de significados sociais. Featherstone e Hepworth
(2000) enumeram diferentes pontos de vista de diversos autores e demonstram,
desta forma, que o Ocidente tem refletido sobre o envelhecimento na busca
por atribuir-lhe novos significados. Edmonds (2002) apresenta o caso de
uma paciente de cirurgia plástica cujo objetivo apresentado era
adequar o aspecto ao espírito, ou seja, o corpo à mente.
Sentia-se jovem mas observava as marcas do tempo na face. As marcas deviam
ser apagadas, segundo ela, para um ajuste subjetivo, mas há que
se considerar nesta decisão o valor negativo da velhice. O corpo
modificado deveria voltar, minimamente, ao que era antes.
Gilman
(1991), ao analisar a percepção do nariz como marca que denuncia
o judeu, demonstra a importância do corpo na construção
das identidades. Judeus e não-judeus modificaram sua percepção
sobre o corpo judeu ao longo do tempo. A princípio pensados como
negros, em oposição aos brancos, a alteridade dos judeus
vai sendo deslocada da cor da pele e da suscetibilidade a doenças
para o ângulo facial, especialmente o nariz. Estas percepções
acompanham as concepções médicas do período.
Nos séculos XVIII e XIX, a alteridade foi pensada em termos raciais,
o que se traduzia na cor da pele. No final do século XVIII, surge
o uso do ângulo facial e do índice nasal como instrumentos
para fazer a distinção entre as raças. No caso judeu,
o nariz se tornou o local do desvio, o que gerou uma busca por cirurgias
plásticas que apagassem esta marca. A identidade está, neste
caso, marcada pelo fator físico. Torna-se mais interessante o debate
entre biologia e cultura quando o autor afirma que em termos de aparência,
os judeus da Europa Oriental tornaram-se, ao final do século XIX,
indistinguíveis de outros europeus, mas que a ideologia racial anti-semita
mantinha uma autopercepção de diferença entre os judeus,
que se imaginavam como feios, escuros e doentes. Isto indica não
apenas que o corpo é uma construção percebida diferentemente
segundo o grupo, mas que a autopercepção é influenciada
pelo ambiente social. Aponta, ainda, para a supremacia de uma visão
médica e científico-biológica do corpo no Ocidente
como o discurso que perpassa o senso-comum.
Um
complexo de inferioridade judeu, que se devia ao nariz proeminente, passou
a ser curado com cirurgias plásticas. Não é um processo
diferente da mudança de sexo, em que a não-adequação
entre o gênero percebido e o sexo biológico só pode
ser resolvida na sala de operações. Esta manipulação
médica do corpo visa dar ao paciente um bem-estar psíquico
que de outra forma não seria alcançado. Mas também
fala sobre a separação entre corpo e mente, segundo operada
no Ocidente. O desvio percebido pode ser curado através da re-inserção
social, que só é possível através da manipulação
do corpo que apaga os sinais desviantes.
Visões
Sobre o Rio de Janeiro
Parte
da literatura antropológica sobre o corpo, quando analisa especificamente
a cidade do Rio de Janeiro, tende a vê-la a partir da praia (Gontijo,
2002; Farias, 2002; Malysse, 2002; Freitas, 1999). Mesmo fora das análises
sobre o corpo, a cidade vem sendo dividida a partir da dupla praia/favela
(Herschmann, 2000). No primeiro caso, a praia se torna central por ser
um espaço privilegiado de exibição dos corpos, embora
não seja o único. No segundo caso, a praia toma sinônimo
de bairro de elite e passa a sinalizar a divisão espacial entre
ricos e pobres. Em ambos os casos, ela é também área
de lazer público.
Não
há espaço aqui para uma discussão sobre como os cariocas
percebem sua cidade, nem tampouco para uma vasta revisão literária
sobre como os especialistas a percebem. Quero apenas chamar a atenção
para o fato de que a cidade não se movimenta exclusivamente em torno
de suas praias, embora elas possam ser um espaço privilegiado em
termos da escolha por um local público de lazer. Há muito
mais em qualquer cidade do que praias e favelas. No entanto, o próprio
discurso nativo carioca tem ressaltado a importância da praia na
identidade da cidade e de seus habitantes, e penso que este discurso tem
permeado as análises sociológicas e antropológicas.
Herschmann
(2000), escrevendo sobre a dinâmica dos bailes funk no Rio de Janeiro,
percebe a praia e o baile como espaços de contato entre camadas
sociais distintas. O autor descreve como as galeras funkeiras e os habitantes
dos subúrbios e das favelas de um modo geral deslocam-se para as
praias da Zona Sul e Oeste da cidade durante os ensolarados fins-de-semana
do verão, entrando em um território habitado pela elite econômica
local. Ao mesmo tempo, quando entraram na moda, os bailes localizados em
favelas da Zona Sul e São Conrado passaram a receber membros dessa
mesma elite. O espaço está demarcado analiticamente: a favela
e o subúrbio são o oposto da beira-mar, especialmente da
Zona Sul e Barra da Tijuca, reconhecidamente bairros de classe média
alta e classe alta, embora ambos com seus bolsões de miséria
– as favelas. Fica a idéia de que o Rio de Janeiro é a cidade
sem apartheid social.
Esse
me parece outro traço do discurso nativo carioca, embora contraditório:
a cidade não-partida. De um lado, imprensa e classe média
apontam as favelas como o local originário da violência urbana
no Rio de Janeiro e, portanto, uma antagonista a ser vencida, mas o antagonismo
é a própria divisão da cidade. Por outro lado, há
um discurso que não enxerga esta divisão, mas um contato
entre estas duas esferas: morro e asfalto. O que estes dois discursos aparentemente
contraditórios indicam é que há uma clara diferenciação
entre favela e asfalto, beira-mar e subúrbios, como forma de construção
de uma alteridade, mas que sobre a percepção da diferença
estabeleceu-se um discurso nativo de integração e convívio
harmonioso. A praia emerge, acima de tantos outros espaços da urbis,
como o local democrático do reencontro.
Freitas
(1999), não muito longe da dicotomia praia/favela, também
percebe a primeira como o espaço definidor da cultura do corpo na
cidade, que produziria uma estética carioca. O consumo na cidade
giraria em torno da praia e do calor. Apesar disto, acredita que há
espaço para todos os corpos na cidade, sobretudo nos shopping centers,
espaço privilegiado da exposição e do consumo. O mesmo
autor indica, ainda, que o fisiculturismo tem sido uma moda na cidade,
localizando a presença de uma musculatura definida como central
na corpolatria carioca.

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Embora
o Rio de Janeiro pareça um lugar sem apartheid social – exatamente
como o Brasil pareceu um dia ser uma democracia racial –, penso que isto
não é exatamente verdadeiro. O que ocorre é que há
zonas de interseção, como aponta Herschmann (2000). O autor
vê estas zonas como a prova da ausência de apartheid social.
Eu as vejo como zonas controladas de interseção.
A
praia é uma zona controlada? Farias (2002), em etnografia sobre
o litoral, mostra que sim. Há uma hierarquia entre as praias da
cidade em que Ipanema sobressai à s outras, seguida pela Barra da
Tijuca. Os farofeiros, discriminados por habitués de qualquer parte
da zona litorânea, concentram-se em pontos específicos onde
sua maioria numérica delimita o terreno. O controle exercido sobre
a freqüência é visto claramente em um manifesto apócrifo,
segundo a autora, distribuído na Barra da Tijuca e Recreio dos Bandeirantes,
que alertava os banhistas recém-chegados pela Linha Amarela, que
fez a ligação rápida e direta da Zona Oeste com o
litoral, para os hábitos de civilité necessários na
praia. O controle passa não apenas por normas de uso do espaço,
mas também por normas corporais.
O
controle da freqüência das praias é visto por Gontijo
(2002) como a reprodução da sociedade carioca sobre a areia.
Cada ponto envolve uma ‘tribo’ diferente. Seria o lugar mais central da
cidade. Embora todos os cariocas freqüentem as praias, elas não
têm o mesmo status. Copacabana, Ipanema e Leblon figuram como os
bairros da elite, enquanto a Barra da Tijuca e o Recreio dos Bandeirantes
são bairros dos novos ricos, também chamados emergentes.
De fato, a freqüência à praia indica um estilo de vida
prazeroso e uso de maior tempo livre, associados a um estilo de vida de
elite, tornando-se signo de distinção e prestígio
(Farias, 2002; Champagne, 1975).
O
bronzeado ganha, neste contexto, significação de distinção
de classe. Mas há que se fazer uma observação. No
Posto Nove, em Ipanema, local tradicional na divulgação de
novas modas e freqüentado por uma camada média intelectualizada,
já se observa uma mudança no padrão corporal: sob
o ponto de vista nativo, as atitudes mais regradas quanto ao corpo se tornam
um pouco mais ‘relaxadas’, ou as regras mudam um pouco, sob o ponto de
vista do antropólogo; a cor morena do bronzeado passa a não
ser a única valorizada, quando entra em cena o ‘branquinho’; a moda
praia é desconstruída e novas modas baseadas no estilo pessoal
tornam-se mais valorizadas (Farias, 2002). Pode-se dizer que o grupo local
opera uma distinção com relação a outros grupos.
Tomando
como tipos ideais o habitué do Posto Nove e o farofeiro, teríamos
uma repartição das praias da cidade nos mesmos moldes em
que a própria cidade é dividida entre praias e favelas. O
farofeiro é a versão praieira do favelado/suburbano, ocupando
espaços de menor status, que a sua presença torna marginalizados.
Isto não quer dizer que habitar zonas de favela e subúrbio
seja requisito necessário à constituição do
tipo farofeiro, embora este provenha, via de regra, destes locais. Minha
intenção foi, antes, propor uma analogia.
A
praia é também vista como local da invenção
e disseminação de novas modas, local de exposição
do corpo e da prática de exercícios, tornando-se, assim,
local da reprodução do culto ao corpo (Malysse, 2002; Gontijo,
2002). O corpo em questão é bronzeado, à mostra e
apresentando sinais de prática de algum exercício físico
(Farias, 2002; Gontijo, 2002). O exercício se traduz, nos homens,
em um corpo musculoso e, nas mulheres, em um corpo magro, mas de formas
redondas (Gontijo, 2002; Sabino, 2002).
Farias
(2002) aponta a praia como expressão máxima do estilo de
vida carioca e também como espaço da exibição
corporal. Neste tipo de análise, outros espaços acabam perdendo
importância. O carnaval, em especial o desfile das grandes escolas
de samba, sempre foi um espaço privilegiado da exibição
corporal e da seminudez, mas agora tem perdido importância nas análises
de especialistas. Parece que o carioca vive cada momento em busca da praia,
já sinônimo de lazer, prazer e do verão.
Opera-se
uma generalização em que a Zona Sul é tomada como
o Rio de Janeiro e seu comportamento como o comportamento carioca, da mesma
forma que o Rio de Janeiro já foi tomado como modelo para análises
sobre o Brasil (Heilborn, 1999). Estas análises têm ignorado
o corpo em camadas de baixa renda ou tomado-o apenas como um eixo receptivo
das inovações trazidas pelas camadas altas. Particularmente,
acredito nos argumentos que indicam que estilos de vida das classes superiores
são progressivamente adotados pelas classes baixas. Mas isto não
quer dizer que todos os estilos sejam indiscriminadamente adotados nem
tampouco que as camadas baixas não exerçam sua criatividade
inventando formas culturais próprias. Como Boltanski (1984) aponta,
as próprias concepções sobre o corpo são diferentes
entre sujeitos ocupando posições diferentes na hierarquia
social. Não há como imaginar que um comportamento adotado
ou copiado não possa ser ressignificado ou recriado.
Heilborn
(1999) também apresenta a cidade segundo a divisão nativa
Zona Norte/Zona Sul, não muito diferente das concepções
dos autores anteriores, mas chama a atenção para antigas
análises em que às zonas geográficas sobrepunham-se
zonas morais, isto é, estilos de vida distintos. O crescimento da
cidade e a melhora nas redes de comunicação internas, sobretudo
viária, não permitem mais pensar o eixo sul/norte em termos
de espaços encerrados em si e sem contato. As visões de Zona
Sul como vanguarda e Zona Norte como tradição e conservadorismo
podem não corresponder mais à realidade. Ainda assim, a autora
apresenta elementos que demonstram que estas fronteiras morais ainda são
significativas, o que reforça a repartição da cidade
em dois blocos distantes.
Corpolatria
Carioca
Heilborn
(1999) aponta como a identidade brasileira é pensada em termos de
desinibição sexual. Desde o século XVII, pelos menos,
o ‘país tropical’ é a terra sem pecado. Formou-se um imaginário
social, que perpassa igualmente parte de nossa produção sociológica,
sobre a sensualidade brasileira. Neste sentido, o Rio de Janeiro foi tomado
como micro-modelo do país. A autora atribui à vanguarda e
ao cosmopolitismo da antiga capital, com sua vida política e a presença
constante de estrangeiros, a origem da imagem sexualizada da cidade. A
geografia e o clima do Rio de Janeiro entram no discurso sobre esta sexualização
ou sensualidade: natureza tropical, temperatura elevada e a vida social
ao ar livre, em parques, praias e praças, gerariam um ambiente propício
à lascívia e ao desnudamento. A autora apresenta duas etapas
de análise: primeira, odiscurso ou visão sobre a cidade formada
conjugando sensualidade e geografia (natureza, clima, espaços abertos);
segundo, esta visão influenciando um tipo de pensamento sociológico
sobre o país.
Uma
análise simbólica apontaria para a criação
de uma dicotomia evidente entre natureza e cultura neste tipo de visão.
Os trópicos, ocupando o pólo natureza, apresentam uma falta
de pudor e regras sociais que se traduz na sensualidade. No pólo
da cultura estaria a sociedade européia. A visão do relaxamento
das regras morais e sociais, da terra sem pecado, é uma visão
que associa as regras aqui vigentes – pois claramente estas existem – à
falta de regras. Este universo desregrado e caótico está
muito mais próximo à natureza do que à cultura.
Raramente
a antropologia do corpo tem refletido sobre esse traço marcante
das análises sobre a brasilidade. O corpo exposto deve ser belo
e esculpido, mas esta beleza não está mais vinculada à
sensualidade. Tampouco está a exposição do corpo,
vista agora não como sedução, mas como um traço
cultural da cidade, ainda determinado pela geografia dos espaços
abertos. Quando a sensualidade saiu de cena, o Carnaval perdeu sua importância
analítica, embora ainda seja um dos principais loci de exposição
corporal. Como uma resposta às teorias anteriores, a nova visão
sobre a cidade mantém a relevância geográfica mas diminui
a idéia de sexualidade.
No
caso específico da sociedade carioca, a preocupação
com o corpo e sua aparência tem sido vista como um traço cultural
fundamental (Malysse, 2002; Edmonds, 2002; Goldenberg e Ramos, 2002). Note-se
que o carioca não tem sido apontado como alguém preocupado
com o funcionamento de seu corpo, no sentido da saúde física
e mental, mas sim com a aparência de seu corpo. Embora essas categorias
não sejam de todo indissociadas nas práticas corporais dos
cariocas, elas foram dissociadas nas análises sobre as mesmas, o
que permitiu a construção de uma identidade carioca preocupada
com as aparências e não uma identidade carioca preocupada
com a saúde. Sabino (2000) demonstra que os fisiculturistas e marombeiros
em geral preocupam-se com a alimentação e outras práticas,
no sentido da saúde. No entanto, esta preocupação
está sempre voltada para a aparência. Imaginam sua atividade
física como uma atividade saudável e pensam que o corpo responde
melhor aos exercícios físicos quando não são
ingeridas substâncias tóxicas, como drogas ilícitas,
álcool e tabaco – mas não os anabolizantes. A preocupação
com a saúde é uma conseqüência da preocupação
com a aparência física e o trabalho exercido para modelar
o corpo. Como afirma uma entrevistada de Edmonds (2002, p. 200): “Eu não
gosto de beber, eu me preocupo com ela [a mãe] porque cigarro é
envelhecimento precoce, para pele, para tudo”. A saúde é
traduzida na aparência.
DaMatta
(1996), indica que não é apenas por fatores hedonistas e
narcisistas que as academias de ginástica têm se disseminado
no Brasil. Tomando São Paulo como local de referência, enumera
três motivações para a prática física,
na verdade retiradas de depoimentos de freqüentadores: estética,
saúde e bem-estar psíquico. A ruptura beleza/saúde
é, ainda assim, válida, bem como a busca pelo ideal estético.
Comparando Brasil e Estados Unidos, o autor percebe uma diferenciação
quanto ao uso do corpo e comportamento dentro do espaço das academias.
A idéia de uma sensualidade brasileira vem à tona, ao velho
estilo analítico perdido pela nova geração de antropólogos.
O autor percebe que, no Brasil, a academia é um espaço de
paquera, além de espaço de exercício, enquanto nos
Estados Unidos é apenas espaço de ‘malhação’.
O
corpo disciplinado da musculação e da ginástica não
foi observado apenas por DaMatta (1996), mas também por Courtine
(1995). Para o primeiro, o ethos protestante ascético norte-americano
não é o mesmo ethos relacional brasileiro, avesso à
atividade física porque avesso ao esforço e ao trabalho.
Ao mesmo tempo, a academia é um lugar desencantado, sem traços
da magia e da religiosidade que perpassam outras esferas da vida brasileira,
o que leva o autor a afirmar que os adeptos da ‘malhação’
formam uma vanguarda cujo uso metódico e racional do corpo se distancia
dos padrões de brasilidade. Para o segundo, o corpo ideal só
é produzido à custa de uma disciplina férrea, cujo
objetivo último é narcisista. Como salienta Sabino (2002),
a disciplina presente na ‘malhação’ não está
em oposição ao hedonismo, mas é antes uma auxiliar.
Esse
corpo, trabalhado em academias de musculação ou em clínicas
de cirurgia plástica, deve ser exibido, visto que tornou-se um valor,
no duplo sentido: com altos investimentos de capital e tornando-se ele
mesmo um capital, isto é, sendo socialmente valorizado (Goldenberg
e Ramos, 2002). De fato, o corpo belo não é necessariamente
construído para o outro, como alerta Edmonds (2002). Mas, na medida
em que o belo e o desejável são ambos construções
sociais compartilhadas, eu argumentaria que nenhuma aparência é
o simples desejo hedonista de auto-satisfação, e está,
em grande medida, afinado com concepções socialmente desejáveis
e aceitas, até mesmo em suas vertentes patológicas, como
a anorexia. A necessidade compulsiva de emagrecer que caracteriza a anorexia,
doença de auto-imagem e distúrbio alimentar, não é
uma necessidade exclusivamente individual, mas alinha-se com um padrão
estético social desejável: a magreza.
Da
mesma forma, penso que nenhum impulso de adequação da aparência
pessoal ao que é socialmente sancionado como belo pode ser um puro
impulso narcisista ou hedonista – já quase sinônimos – como
a literatura da área vem apontando (Featherstone, 1991). Até
mesmo o feio, o monstruoso e o grotesco, como antíteses do corpo
ideal (Featherstone,1991; Tucherman, 1999), podem estar dentro de uma lógica
que se orienta para os outros, para a sociedade, mas na forma de uma crítica.
Apontei em outro lugar (Osório, 2002), como um grupo religioso de
Nova Era mantinha concepções estéticas completamente
diversas das hegemônicas na sociedade brasileira. Sua maior preocupação
estava nas marcas corporais de pertencimento ao grupo, imaginadas como
marcas de nascença. Longe da preocupação carioca com
o corpo malhado e da valorização estética das louras,
o grupo em questão primava por uma aparência não-bronzeada,
com cabelos compridos morenos ou ruivos. Essa preocupação
em não seguir a ordem estética atual é uma crítica
formulada a mesma, às vezes de forma não muito consciente,
reflexo da crítica que a própria Nova Era formula a sociedade
contemporânea.
A
partir de um quadro comparativo entre o corpo ideal e o corpo grotesco,
percebe-se como a oposição praia/favela engloba as mesmas
características, em termos de valoração, da oposição
grotesco/ideal, sugerindo uma sobreposição dos dois. Torna-se
mais clara a relação entre corpolatria, como a busca de um
corpo ideal, e a praia como locus desse corpo ideal.