A Ciência da Informação
foi definida por Borko como “a disciplina que investiga as propriedades
e o comportamento da informação, as forças que governam
seu fluxo e os meios de processá-la para otimizar sua acessibilidade
e uso
” (BORKO, 1968, p.3). Para este autor, a principal
meta da Ciência da Informação seria oferecer a um indivíduo
a informação de que ele necessita, a partir de várias
instituições dedicadas à acumulação
e transmissão de conhecimento.
Mais
recentemente, Saracevic (1996) apresenta a Ciência
da Informação como sendo
um campo dedicado
às questões científicas e à prática
profissional voltadas para os problemas da efetiva comunicação
do conhecimento e de seus registros entre os seres humanos, no contexto
social, institucional ou individual do uso e das necessidades de informação.
No tratamento destas questões, são consideradas de particular
interesse as vantagens das modernas tecnologias informacionais. (SARACEVIC,
1996, p.47)
Esse autor considera como
principais problemas propostos pela pesquisa básica em Ciência
da Informação “as questões acerca da natureza, manifestações
e efeitos dos fenômenos básicos (a informação,
o conhecimento e suas estruturas) e processos (comunicação
e uso da informação)” (SARACEVIC,
1996, p.46).
A
Ciência da Informação enxerga a informação
ora como elemento
redutor de incertezas, ora como recurso para a tomada de decisão,
ou ainda como modificador da estrutura cognitiva do receptor [...] enfocados
os fluxos, os sistemas, os processos de transferência das informações
entre estruturas (sociais, lingüísticas, técnicas, cognitivas)
que dizem como as informações são reunidas e depois
distribuídas funcionalmente, encontrando receptores (ou ‘usuários’)
com questões e posições já delimitadas (MARTELETO,
1995, p.21).
Para Marteleto, esses enfoques
funcionalistas “pouco dizem sobre o ponto receptivo ou o trabalho que é
feito pelos receptores com e a partir das informações” (MARTELETO,
1995, p.22). Esta é a proposta da Antropologia da Informação,
uma das especialidades que compõem a Ciência da Informação:
deslocar o olhar dos “objetos em si, principalmente os objetos simbólicos,
para as práticas dos sujeitos que se apropriam dos objetos que circulam
para construir significados” (NÓBREGA,
2002, p.36). A Antropologia da Informação tem como pressuposto
teórico-metodológico geral a necessidade de ter o sujeito
como fonte e eixo da problemática informacional, funcionando, portanto,
no âmbito dos estudos de usuários, porém com um enfoque
multidisciplinar mais ampliado (MARTELETO, 2003a).
Assim, os atores sociais da sociedade da informação deixam
o papel de simples receptores para assumir o de sujeitos da informação
e do conhecimento, produtores de informação e conhecimento
sobre o seu cotidiano (MARTELETO, 2003b).
Marteleto
(1994) defende ainda que o estudo da informação e de suas
práticas de gestão e disseminação deve ter
em foco que por detrás dos processos tecnológicos existem
atores concretos (individuais e coletivos), relações e práticas
sociais. As temáticas privilegiadas pela Antropologia da Informação
são, de acordo com
Marteleto (2003a):
-
a informação como
fenômeno sócio-cultural e seus modos de produção
e organização em diferentes contextos organizacionais, comunitários
e associativos na sociedade civil;
-
informação e construção
do conhecimento pelos agentes entidades e grupos em movimentos sociais
de educação e saúde;
-
redes de movimentos sociais,
redes de conhecimentos e a construção de sentidos para a
ação social;
-
políticas e modos de
gestão do conhecimento e informação na esfera da sociedade
e o emprego das tecnologias de comunicação e informação;
-
conhecimento prático
e conhecimento científico: novas configurações epistemológicas,
lingüísticas e textuais na sociedade da informação.
A Antropologia da Informação
considera, portanto, que qualquer processo de produção, organização
e consumo de informação é social, pois só ocorre
no âmbito das relações sociais, e ocupa-se das práticas
sociais de produção, comunicação e recepção
de informações nos diferentes campos e contextos (CARDOSO,
1994). Entre os contextos possíveis, escolheu-se investigar o campo
da pesquisa científica, por ocuparem os pesquisadores um lugar privilegiado
no mundo da informação, sendo ao mesmo tempo usuários
e produtores da informação científica (GARVEY,
1979). Esta escolha se deveu também ao fato da Ciência da
Informação ser uma ciência social aplicada e à
disponibilidade de material bibliográfico existente sobre o tema.
As tecnologias da Tecnologias
da Informação e Comunicação
As tecnologias da informação
e comunicação (TICs) são ferramentas que surgiram
em função da necessidade humana de lidar com o crescimento
desenfreado da produção de informação no mundo
contemporâneo. Elas englobam o “conjunto de técnicas utilizadas
na recuperação, no armazenamento, na organização,
no tratamento, na produção e na disseminação
da informação” (MARQUES NETO,
2002, p.51).
O
computador não é único representante dessas tecnologias,
entre as quais também se encontram o papel, arquivos, fichários,
fax, telefone, livro, jornal, correio, televisão, telex, copiadoras,
projetores e outros, mas pode ser considerado o principal deles, o que
pode se dever à possibilidade de sua utilização na
solução de diversos tipos de problemas relacionados à
informação e à sua capacidade de expandir a capacidade
humana de armazenar dados (MARQUES NETO,
2002). As novas tecnologias da informação e comunicação
incluem equipamentos (computador, câmera digital fotográfica
e de vídeo, impressora, projetor multimídia, scanner etc.),
programas (analisador e editor de texto, imagem e vídeo, gerenciador
de banco de dados, navegador na Internet, pacote estatístico, planilha
eletrônica etc.) e serviços (banco de dados, biblioteca digital,
ferramenta de busca, correio eletrônico, lista de discussão,
loja virtual, sala virtual, periódico eletrônico, teleconferência,
transferência de arquivos etc).A Internet, rede de computadores capazes
de se comunicar uns com os outros, inicialmente desenvolvida com objetivos
militares, logo foi adotada pela comunidade em geral, tornando-se um meio
para todas as formas de comunicação, de interação
e de organização social. Em 1995, uma pesquisa dava conta
da existência de cerca de 350 milhões de usuários da
Internet, enquanto as previsões conservadoras para o período
2005-2007 indicam um número de dois bilhões de usuários,
ou seja, a terça parte da população do planeta, sendo
que, nas nações mais desenvolvidas, a taxa de penetração
estará entre 75% e 80% da população (CASTELLS,
2003).
As
tecnologias de informação e comunicação, atualmente,
participam de atividades corriqueiras das pessoas, como o uso de eletrodomésticos,
de automóveis, do telefone e transações bancárias.
É de se esperar, portanto, que elas estejam presentes também
nas atividades de pesquisa. Em algumas áreas, isso efetivamente
ocorre. Entretanto, a antropóloga e professora Rita Amaral, em artigo
em que relata a utilização que fez da Internet no desenvolvimento
de sua tese de doutorado, destaca que pesquisadores em Antropologia usam
bastante o editor de textos e o correio eletrônico, mas deixam de
explorar os recursos computacionais na realização de pesquisas
qualitativas (AMARAL, 2003). Esse foi o mote para
a pesquisa aqui apresentada: em que e como as novas ferramentas de tecnologia
da informação e comunicação podem auxiliar
o trabalho de pesquisa nas Ciências Sociais?
O
uso de tecnologias da informação e comunicação
na pesquisa em Ciências Sociais
O
conceito de pesquisa não é consenso entre estudiosos do tema,
conforme apresentado por Marconi e Lakatos (1986),
que definem a pesquisa social como um “processo que utiliza metodologia
científica, através do qual se podem obter novos conhecimentos
no campo da realidade social” (MARCONI e LAKATOS,
1986, p.18). Também a definição das etapas de desenvolvimento
de pesquisa varia de autor para autor. Para fins de organização
desse trabalho, foi adotada a divisão defendida por Minayo
(1992), que reparte a elaboração de uma pesquisa em três
fases: fase exploratória, trabalho de campo e análise ou
tratamento do material. Foi, entretanto, acrescentada uma quarta etapa,
a divulgação dos resultados, já que, conforme Garvey
(1979), novos conceitos ou integrações conceituais de dados
só contribuem para a ciência se forem comunicados de forma
a serem compreendidos e verificados por outros cientistas e servirem de
ponto de partida para novas explorações. Já as Ciências
Sociais foram aqui consideradas de acordo com a definição
da Associação Nacional de Pós-Graduação
e Pesquisa em Ciências Sociais - ANPOCS
, ou seja, englobando a Antropologia, a Ciência Política e
a Sociologia.
Em
março de 1998, o Institute for Learning and Research Technology,
da University of Bristol, Inglaterra, sediou a conferência IRISS’98
(Internet Research and Information for Social Scientists, edição
1998), em que cientistas sociais (psicólogos, antropólogos,
cientistas políticos e outros) de todo o mundo reuniram-se para
discutir o impacto que a Internet trazia para seu trabalho, refletindo
sobre questões práticas e teóricas geradas pelo papel
crescente de informações em rede nas ciências sociais
e na sociedade (WORSFOLD, 1998). Para estes cientistas,
a Internet pode ser, ao mesmo tempo, instrumento auxiliar de trabalho,
disponibilizando serviços e informações, e objeto
de estudo de pesquisadores, devido ao impacto que provoca nos indivíduos
e na sociedade.
As redes eletrônicas,
principalmente a Internet, são um ambiente propício para
a comunicação informal entre pesquisadores. Porém,
muito antes de sua generalização, cientistas de centros de
pesquisa diferentes já se organizavam em redes de contatos com o
objetivo de trocar papers e resultados de trabalhos, numa modalidade informal
de divulgação e debate conhecida por colégio invisível
(PRICE e BEAVER, 1966). Esse ambiente de colaboração
informal entre pesquisadores se apropriou rapidamente das redes telemáticas,
resultando no que Gresham Jr (1994) chamou de colégio ciberespacial
(cyberspace college), uma forma híbrida de comunicação
que conjuga a base textual e a velocidade e interatividade das redes eletrônicas.
Além
do correio eletrônico, que, de acordo com Meadows
(1998), tornou-se o maior elo entre pesquisadores e grupos de pesquisa,
e serviços a ele associados (grupos de discussão, listas
de distribuição etc.), existem outras ferramentas de tecnologia
da informação e comunicação que podem auxiliar
o pesquisador em várias etapas do processo do desenvolvimento de
pesquisa. Com o objetivo de verificar, no cotidiano de um determinado grupo
de pesquisadores em Ciências Sociais, como essas ferramentas são
utilizadas na realização de seu trabalho de pesquisa, foram
entrevistados treze participantes do curso de doutorado em Ciências
Humanas: Sociologia e Política, da Faculdade de Filosofia e Ciências
Humanas da UFMG, sendo três professores do programa, três recém-doutores
e sete doutorandos que já estavam na fase de realização
da pesquisa. Foi ainda incluído na amostra um aluno do mestrado,
apontado por outros entrevistados como alguém que fazia uso intensivo
das ferramentas de tecnologia de informação e comunicação
em atividades de pesquisa.
Foi
também apresentado aos entrevistados um quadro que relacionava os
usos de ferramentas de tecnologia da informação e comunicação
encontrados no levantamento bibliográfico e solicitado que marcassem
aqueles usos presentes em seu trabalho de pesquisa. Isso permitiu a obtenção
de duas informações quantitativas elementares, o número
de marcações (N) de cada uso e a porcentagem (%) desse número
em relação ao total dos entrevistados, mostradas no Quadro
1, que relaciona as possibilidades de uso, distribuídas pelas quatro
etapas da pesquisa adotadas como referência: fase exploratória,
trabalho de campo, análise e tratamento do material e divulgação
dos resultados.
As
entrevistas foram gravadas em fita magnética e sua transcrição,
uma tarefa árdua e tediosa, foi inicialmente feita com o auxílio
das próprias tecnologias da informação e comunicação:
através de um fone de ouvido ligado ao gravador, a entrevista era
ouvida e repetida em voz alta, sendo captada por um microfone conectado
ao computador, onde era executado um programa de reconhecimento de voz,
o IBM ViaVoice, o qual gerava um arquivo com o conteúdo ditado.
Como a taxa de reconhecimento fica em torno dos 80%, essa tecnologia foi
logo abandonada em favor da mais tradicional, a digitação
direta daquilo que era ouvido.
A
análise das entrevistas, selecionando trechos e classificando os
mesmos dentro das categorias definidas, foi feita utilizando uma versão
de demonstração do programa Atlas.ti, um dos muitos
existentes para auxiliar nesse tipo de tarefa. Isto permitiu ter uma idéia
da agilidade que estas ferramentas podem imprimir ao processo de análise
e da simplicidade de recuperação de dados de interesse para
o pesquisador. Esta análise mostrou que muitas das possibilidades
de uso das ferramentas de tecnologia da informação e comunicação
ainda não são devidamente exploradas ou sequer são
conhecidas pelos pesquisadores. Isso parece estar associado ao fato de
que o trabalho de pesquisa continua sendo possível sem sua utilização.

As
entrevistas mostraram que as ferramentas de tecnologia da informação
e comunicação são já consideradas imprescindíveis
nas atividades de pesquisa, mesmo por aqueles que não se mostram
entusiasmados com elas. Todos os entrevistados, sem exceção,
utilizam o correio eletrônico e o editor de textos, ainda que alguns
o façam de forma básica. E mesmo quando os pesquisadores
não apresentam competências no uso de ferramentas mais específicas,
como pacotes estatísticos e bancos de dados, elas costumam ser utilizadas
através de outros componentes dos grupos de pesquisa. Um entrevistado
disse acreditar que as salas virtuais são um interessante campo
de estudos para os cientistas sociais, por se tratar de um novo espaço
social que envolve questões de grupo e comportamento, mas que há
poucos pesquisadores da área se dedicando a esse assunto.
Fase
exploratória
De
acordo com Minayo (1992), na fase exploratória são feitas
a definição do objeto de pesquisa (elaboração
de pergunta dentro da área de interesse, pesquisa bibliográfica
e organização do discurso teórico), a construção
de instrumentos de pesquisa (roteiro de entrevista, critérios para
observação e itens para discussão em grupos focais)
e a exploração de campo (escolha do grupo de pesquisa, definição
de critérios de amostragem e estabelecimento de estratégia
de entrada em campo).
Foi
relatada, por praticamente todos os entrevistados, a utilização
das fontes de informação eletrônicas, com a Internet
emergindo como a grande inovação nessa área, o que
está de acordo com o que foi apresentado por Meadows
(1998). Bancos de dados de referência bibliográfica são
bastante utilizados, mas alguns consideram seu uso complicado. A preferência
maior é pela busca direta de textos na Internet, principalmente
através de buscadores, como o Google e o Yahoo, sendo
ressaltada a necessidade de se tomar cuidado com a confiabilidade dos resultados
da consulta. O portal de periódicos da CAPES foi muito citado como
fonte de informação, o que reafirma sua importância
para o trabalho dos pesquisadores brasileiros. O mesmo aconteceu com sites
de órgãos públicos, sendo especialmente elogiado o
do Congresso Nacional, devido a seu conteúdo e facilidade de acesso
às informações. Ficou evidente a eliminação
do intermediário na busca da informação, o que confirma
Meadows
(1998), mas o auxílio do profissional da informação
ainda é solicitado em alguns casos.
A
ferramenta mais presente no cotidiano dos entrevistados é, sem dúvida,
o correio eletrônico, usado principalmente para troca de informações
com colegas de trabalho e pesquisadores de outras instituições,
o que só reafirma a importância desse serviço como
instrumento de comunicação no trabalho acadêmico, já
identificada na revisão bibliográfica (MEADOWS,
1998). Enquanto isso, outras formas de comunicação eletrônica
são praticamente descartadas. A teleconferência não
é utilizada por nenhum deles e o acesso a salas virtuais (chat)
só foi relatado por três entrevistados, sendo que um só
o faz como atividade de lazer. O mesmo acontece com as listas e grupos
de discussão virtuais, que foram utilizados por apenas três
entrevistados, em situação não relacionada à
pesquisa em si, e foram logo abandonados por dois destes usuários.
Apenas
dois dos entrevistados disseram fazer o uso de programas específicos
para armazenamento de informações bibliográficas,
destinados a simplificar a recuperação destas informações,
mas alguns utilizam o próprio editor de textos para essa finalidade.
Poucos se arriscam a adquirir material bibliográfico em lojas e
sebos virtuais, principalmente por medo de usar o cartão de crédito
em transações pela Internet, medo este que é reforçado
pelos inúmeros casos de fraude eletrônica veiculados pela
mídia.
Trabalho
de campo
Na
fase de trabalho de campo são aplicados os instrumentos de pesquisa,
realizadas entrevistas e feitas observações participantes
e discussões em grupo, sendo que essas técnicas podem ser
usadas isoladamente ou combinadas (Minayo, 1992).
Entre os entrevistados, grande parte declarou usar computador e editor
de textos para fazer anotações de campo, considerando que
isto auxilia a análise posterior.
Foi
relatada a obtenção de dados primários e secundários
na Internet ou em bancos de dados fornecidos em CD/ROM, principalmente
do IBGE. Vários dos entrevistados fazem parte de um grupo envolvido
em uma mesma pesquisa, na qual praticamente todos os dados foram obtidos
pela Internet, fato que fizeram questão de ressaltar. Mas as demais
possibilidades levantadas na literatura, como realização
de surveys através da Internet, entrevistas assistidas pelo computador,
observação participante em grupos de discussão e realização
de grupo focal mediado pelo computador, não foram encontradas. Várias
delas foram inclusive alvo de críticas por parte de alguns entrevistados,
como a realização de surveys pela Internet, devido à
facilidade de fornecer informações falsas, o que, na realidade,
independe do meio utilizado, e o uso de salas virtuais, consideradas mais
adequadas para atividades de lazer que para discussão de assuntos
relativos às pesquisas. O mesmo aconteceu com as listas de discussão,
devido à falta de consolidação das idéias circuladas
nesse meio e ao grande número de mensagens sem interesse enviadas
ao grupo.
A
necessidade de cuidado com a confiabilidade dos dados obtidos na Internet
foi ressaltada, sendo dada preferência por buscá-los em sites
de instituições reconhecidas e de órgãos públicos,
como o IBGE, o TSE, o Congresso Nacional e outros similares. Foi relatado
também o uso de bancos de dados para armazenamento dos dados coletados,
devido à segurança e agilidade na recuperação
de informações.
Análise
ou tratamento do material
A
fase de análise ou tratamento do material, na pesquisa qualitativa,
envolve a análise de conteúdo, análise de discurso,
análise hermenêutica-dialética (Minayo,
1992), ou a elaboração de estatísticas, no caso de
dados quantitativos. Nesta etapa da pesquisa, houve uma grande variedade
de posições entre os entrevistados, desde a preferência
pelo tratamento manual a dados qualitativos ao uso intensivo de ferramentas
de tecnologia da informação, tanto no tratamento de dados
quantitativos, através do pacote SPSS (Statistical Package for the
Social Sciences) ou de planilhas eletrônicas, quanto na análise
de dados qualitativos, como entrevistas e documentos. Quando a pesquisa
envolve a realização de entrevistas, a transcrição,
tarefa classificada como aborrecida por praticamente todos, exceto um,
que a considera uma parte importante da análise, é sempre
feita pela digitação direta em editor de texto, às
vezes com o auxílio de um transcriber (gravador com pedal para controle
de avanço e retrocesso de fita). Na maioria dos casos, a digitação
é feita por terceiros, sejam eles bolsistas, estagiários
ou pessoas contratadas para essa finalidade.
Apenas
dois entrevistados usam programas específicos para análise
de dados qualitativos e ressaltaram a agilidade que tais ferramentas imprimem
ao processo, apesar de concordarem que essa atividade pode ser feita, com
resultados satisfatórios, de forma manual, porém com maior
dificuldade e levando mais tempo. Outra vantagem desse uso seria a flexibilidade
de poder alterar as codificações em categorias, permitindo
novos modos de organização dos dados e novas hipóteses.
Já
os que trabalham com análise de dados quantitativos, em que pacotes
estatísticos, principalmente o SPSS são amplamente utilizados,
consideram que seria praticamente impossível chegar manualmente
aos resultados que obtêm com a ajuda do computador, devido à
capacidade deste trabalhar com grande volume de dados e de realizar cálculos
sofisticados. A maioria dos entrevistados disse usar pessoalmente as ferramentas
de análise, mas dois o fazem apenas através de outras pessoas
que integram o grupo de pesquisa. Ambos creditaram isso ao fato de não
apresentarem competências no uso de tais ferramentas. Sua função,
nesse caso, é definir o tipo de informação de que
necessitam, ficando as tarefas computacionais a cargo de quem apresenta
essas competências.
Divulgação
dos resultados
A
divulgação dos resultados inclui a elaboração
de relatório de pesquisa, a publicação dos resultados
e a apresentação em eventos. O sucesso de um cientista é
estabelecido pelo reconhecimento por seus pares, o que torna a comunicação
de pesquisas realizadas essencial para que o pesquisador consiga avançar
na sua carreira, avanço este que se refletirá em publicações,
obtenção de financiamentos e promoções (GARVEY,
1979). Com relação a esta etapa, três grandes utilizações
emergiram das entrevistas: o uso do editor de textos na preparação
de relatórios e artigos, presente em todos os relatos; a troca de
material produzido com outros pesquisadores, para revisão e sugestões,
e a preparação de material para apresentação
(gráficos e slides).
Houve
várias ocorrências de envio de material para publicação
em periódicos impressos através de correio eletrônico,
mas apenas três pesquisadores já publicaram em periódicos
eletrônicos, sendo que um dos três se considera um usuário
apenas das funções básicas das ferramentas de tecnologia
da informação e comunicação, e outro se coloca
em posição bastante crítica em relação
a essas ferramentas. A publicação em livro eletrônico
surgiu em apenas um relato. Essas informações levantadas
no trabalho de campo concordam com a revisão bibliográfica,
onde se viu que a publicação eletrônica, apesar de
estar se expandindo rapidamente, ainda ocupa lugar secundário em
relação à publicação tradicional.
Conclusão
O
levantamento bibliográfico realizado na pesquisa deixou claro que
existem muitas possibilidades de uso de ferramentas de tecnologia da informação
e comunicação durante as diversas etapas da pesquisa em Ciências
Sociais. Já o trabalho de campo mostrou que, apesar de o correio
eletrônico, o editor de textos e a Internet como fonte de informações
serem ferramentas amplamente utilizadas no contexto da pesquisa, várias
dessas possibilidades ainda não são devidamente exploradas
ou são até mesmo desconhecidas por alguns pesquisadores.
Chamou
a atenção, principalmente, a baixa utilização
de programas para manuseio e análise de dados qualitativos. No que
diz respeito à divulgação dos resultados das pesquisas,
a publicação em meio eletrônico está apenas
começando a aparecer entre o grupo entrevistado, o que condiz perfeitamente
com o que foi levantado na literatura, a qual apresenta o meio impresso
ainda como preferido para publicação. E, apesar do correio
eletrônico e outras tecnologias permitirem a troca de informações
sobre resultados de trabalhos com outros pesquisadores, formas mais tradicionais,
como encontros, congressos e seminários, continuam sendo considerados
como espaços privilegiados para essa atividade informacional.
A
integração do ensino do uso de ferramentas de tecnologia
da informação e comunicação às disciplinas
tradicionais dos cursos de graduação e pós-graduação
em Ciências Sociais, poderia colaborar para mudar esta situação.
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