O uso de ferramentas de tecnologias da informação e comunicação no
desenvolvimento da pesquisa em Ciências SociaisArtigo baseado em dissertação apresentada ao Mestrado em Ciência da Informação do PPGCI/ECI-UFMG. Autora: Aleixina Maria Lopes Andalécio. Orientadora: Profa. Dra. Regina Maria Marteleto

Aleixina Maria Lopes Andalécio
Mestre em Ciência da Informação (UFMG) e Analista de Sistemas do
Centro de Computação da UFMG

Regina Maria Marteleto
Doutora em Comunicação e Cultura (IBICT/UFRJ) e
professora da Escola de Ciência da Informação da UFMG

Universidade Federal de Minas Gerais

 
 
 
 
Introdução
 
 
Apesar de, hoje, as tecnologias de informação e de comunicação fazerem parte de atividades cotidianas das pessoas, muitas ainda não as utilizam, realizando suas tarefas de maneira mais demorada e trabalhosa do que poderiam ser com o auxílio dessas ferramentas.

 

Um artigo da antropóloga e professora Rita Amaral, em que ela relata a utilização que fez da Internet no desenvolvimento de sua tese de doutorado (AMARAL, 2003), chamou a atenção para o fato de que a maioria dos pesquisadores de sua área não explorava o potencial dessas ferramentas na realização da pesquisa em Antropologia. Surgiu daí uma curiosidade que levou à realização de pesquisa com o objetivo de investigar as possibilidades de uso de ferramentas de tecnologia da informação e comunicação nas diversas etapas do processo de desenvolvimento da pesquisa científica em Ciências Sociais.


 
 
Apesar da pesquisa ter enfocado tecnologias de informação e de comunicação, sua ênfase não é nas tecnologias em si, mas no uso que é feito delas pelos pesquisadores, como ferramentas auxiliares nas diversas atividades informacionais que compõem a pesquisa científica, desde seu início até a publicação dos resultados. Esse olhar direcionado para o sujeito, para o usuário da informação, é a principal característica de uma das especialidades da Ciência da Informação, denominada Antropologia da Informação.

 
 
 
Informação, Ciência da Informação e Antropologia da Informação.
 
 
 

O conceito informação tem várias acepções e seu significado epistemológico foi-se modificando ao longo do tempo (CAPURRO e HÆJRLAND, 2003). A Teoria Matemática da Comunicação enfatizava os canais de comunicação da informação (NÓBREGA, 2002), enquanto BUCKLAND (1991) propôs que a informação teria três aspectos, dois dos quais intangíveis, o de processo (ato de informar) e o de conhecimento (comunicação), e o terceiro, tangível, de coisa (atributo de objetos, dados e documentos).


 
 

Capurro e HÆjrland (2003), fazendo uma revisão do status do conceito de informação, dentro da Ciência da Informação e de outros campos disciplinares, consideram-na uma força constitutiva na sociedade. Para esses autores, o conceito de informação, entendido como comunicação do conhecimento, desempenha importante papel nos dias atuais, pois o conhecimento e a sua transmissão são fenômenos básicos na sociedade humana.

 
 

A Ciência da Informação foi definida por Borko como “a disciplina que investiga as propriedades e o comportamento da informação, as forças que governam seu fluxo e os meios de processá-la para otimizar sua acessibilidade e usoEm inglês no original: Information science is that discipline that investigates the properties and behavior of information, the forces governing the flow of information, and the means of processing information for optimum accessibility and usability. ” (BORKO, 1968, p.3). Para este autor, a principal meta da Ciência da Informação seria oferecer a um indivíduo a informação de que ele necessita, a partir de várias instituições dedicadas à acumulação e transmissão de conhecimento.

Mais recentemente, Saracevic (1996) apresenta a Ciência da Informação como sendo 

 
 
um campo dedicado às questões científicas e à prática profissional voltadas para os problemas da efetiva comunicação do conhecimento e de seus registros entre os seres humanos, no contexto social, institucional ou individual do uso e das necessidades de informação. No tratamento destas questões, são consideradas de particular interesse as vantagens das modernas tecnologias informacionais. (SARACEVIC, 1996, p.47) 

 
 

Esse autor considera como principais problemas propostos pela pesquisa básica em Ciência da Informação “as questões acerca da natureza, manifestações e efeitos dos fenômenos básicos (a informação, o conhecimento e suas estruturas) e processos (comunicação e uso da informação)” (SARACEVIC, 1996, p.46). 

A Ciência da Informação enxerga a informação 

 
 
 
ora como elemento redutor de incertezas, ora como recurso para a tomada de decisão, ou ainda como modificador da estrutura cognitiva do receptor [...] enfocados os fluxos, os sistemas, os processos de transferência das informações entre estruturas (sociais, lingüísticas, técnicas, cognitivas) que dizem como as informações são reunidas e depois distribuídas funcionalmente, encontrando receptores (ou ‘usuários’) com questões e posições já delimitadas (MARTELETO, 1995, p.21). 
 
 
 

Para Marteleto, esses enfoques funcionalistas “pouco dizem sobre o ponto receptivo ou o trabalho que é feito pelos receptores com e a partir das informações” (MARTELETO, 1995, p.22). Esta é a proposta da Antropologia da Informação, uma das especialidades que compõem a Ciência da Informação: deslocar o olhar dos “objetos em si, principalmente os objetos simbólicos, para as práticas dos sujeitos que se apropriam dos objetos que circulam para construir significados” (NÓBREGA, 2002, p.36). A Antropologia da Informação tem como pressuposto teórico-metodológico geral a necessidade de ter o sujeito como fonte e eixo da problemática informacional, funcionando, portanto, no âmbito dos estudos de usuários, porém com um enfoque multidisciplinar mais ampliado (MARTELETO, 2003a). Assim, os atores sociais da sociedade da informação deixam o papel de simples receptores para assumir o de sujeitos da informação e do conhecimento, produtores de informação e conhecimento sobre o seu cotidiano (MARTELETO, 2003b). 


 
 

Marteleto (1994) defende ainda que o estudo da informação e de suas práticas de gestão e disseminação deve ter em foco que por detrás dos processos tecnológicos existem atores concretos (individuais e coletivos), relações e práticas sociais. As temáticas privilegiadas pela Antropologia da Informação são, de acordo com Marteleto (2003a):
 
 
 

  • a informação como fenômeno sócio-cultural e seus modos de produção e organização em diferentes contextos organizacionais, comunitários e associativos na sociedade civil; 
  • informação e construção do conhecimento pelos agentes entidades e grupos em movimentos sociais de educação e saúde;
  • redes de movimentos sociais, redes de conhecimentos e a construção de sentidos para a ação social;
  • políticas e modos de gestão do conhecimento e informação na esfera da sociedade e o emprego das tecnologias de comunicação e informação;
  • conhecimento prático e conhecimento científico: novas configurações epistemológicas, lingüísticas e textuais na sociedade da informação.
 
 

A Antropologia da Informação considera, portanto, que qualquer processo de produção, organização e consumo de informação é social, pois só ocorre no âmbito das relações sociais, e ocupa-se das práticas sociais de produção, comunicação e recepção de informações nos diferentes campos e contextos (CARDOSO, 1994). Entre os contextos possíveis, escolheu-se investigar o campo da pesquisa científica, por ocuparem os pesquisadores um lugar privilegiado no mundo da informação, sendo ao mesmo tempo usuários e produtores da informação científica (GARVEY, 1979). Esta escolha se deveu também ao fato da Ciência da Informação ser uma ciência social aplicada e à disponibilidade de material bibliográfico existente sobre o tema.
 

 
 
 
 

As tecnologias da Tecnologias da Informação e Comunicação

 
 

As tecnologias da informação e comunicação (TICs) são ferramentas que surgiram em função da necessidade humana de lidar com o crescimento desenfreado da produção de informação no mundo contemporâneo. Elas englobam o “conjunto de técnicas utilizadas na recuperação, no armazenamento, na organização, no tratamento, na produção e na disseminação da informação” (MARQUES NETO, 2002, p.51).


 
 

O computador não é único representante dessas tecnologias, entre as quais também se encontram o papel, arquivos, fichários, fax, telefone, livro, jornal, correio, televisão, telex, copiadoras, projetores e outros, mas pode ser considerado o principal deles, o que pode se dever à possibilidade de sua utilização na solução de diversos tipos de problemas relacionados à informação e à sua capacidade de expandir a capacidade humana de armazenar dados (MARQUES NETO, 2002). As novas tecnologias da informação e comunicação incluem equipamentos (computador, câmera digital fotográfica e de vídeo, impressora, projetor multimídia, scanner etc.), programas (analisador e editor de texto, imagem e vídeo, gerenciador de banco de dados, navegador na Internet, pacote estatístico, planilha eletrônica etc.) e serviços (banco de dados, biblioteca digital, ferramenta de busca, correio eletrônico, lista de discussão, loja virtual, sala virtual, periódico eletrônico, teleconferência, transferência de arquivos etc).A Internet, rede de computadores capazes de se comunicar uns com os outros, inicialmente desenvolvida com objetivos militares, logo foi adotada pela comunidade em geral, tornando-se um meio para todas as formas de comunicação, de interação e de organização social. Em 1995, uma pesquisa dava conta da existência de cerca de 350 milhões de usuários da Internet, enquanto as previsões conservadoras para o período 2005-2007 indicam um número de dois bilhões de usuários, ou seja, a terça parte da população do planeta, sendo que, nas nações mais desenvolvidas, a taxa de penetração estará entre 75% e 80% da população (CASTELLS, 2003).
 
 
 

As tecnologias de informação e comunicação, atualmente, participam de atividades corriqueiras das pessoas, como o uso de eletrodomésticos, de automóveis, do telefone e transações bancárias. É de se esperar, portanto, que elas estejam presentes também nas atividades de pesquisa. Em algumas áreas, isso efetivamente ocorre. Entretanto, a antropóloga e professora Rita Amaral, em artigo em que relata a utilização que fez da Internet no desenvolvimento de sua tese de doutorado, destaca que pesquisadores em Antropologia usam bastante o editor de textos e o correio eletrônico, mas deixam de explorar os recursos computacionais na realização de pesquisas qualitativas (AMARAL, 2003). Esse foi o mote para a pesquisa aqui apresentada: em que e como as novas ferramentas de tecnologia da informação e comunicação podem auxiliar o trabalho de pesquisa nas Ciências Sociais? 
 
 
 
 

 O uso de tecnologias da informação e comunicação na pesquisa em Ciências Sociais

O conceito de pesquisa não é consenso entre estudiosos do tema, conforme apresentado por Marconi e Lakatos (1986), que definem a pesquisa social como um “processo que utiliza metodologia científica, através do qual se podem obter novos conhecimentos no campo da realidade social” (MARCONI e LAKATOS, 1986, p.18). Também a definição das etapas de desenvolvimento de pesquisa varia de autor para autor. Para fins de organização desse trabalho, foi adotada a divisão defendida por Minayo (1992), que reparte a elaboração de uma pesquisa em três fases: fase exploratória, trabalho de campo e análise ou tratamento do material. Foi, entretanto, acrescentada uma quarta etapa, a divulgação dos resultados, já que, conforme Garvey (1979), novos conceitos ou integrações conceituais de dados só contribuem para a ciência se forem comunicados de forma a serem compreendidos e verificados por outros cientistas e servirem de ponto de partida para novas explorações. Já as Ciências Sociais foram aqui consideradas de acordo com a definição da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais - ANPOCS , ou seja, englobando a Antropologia, a Ciência Política e a Sociologia.
 
 
 

Em março de 1998, o Institute for Learning and Research Technology, da University of Bristol, Inglaterra, sediou a conferência IRISS’98 (Internet Research and Information for Social Scientists, edição 1998), em que cientistas sociais (psicólogos, antropólogos, cientistas políticos e outros) de todo o mundo reuniram-se para discutir o impacto que a Internet trazia para seu trabalho, refletindo sobre questões práticas e teóricas geradas pelo papel crescente de informações em rede nas ciências sociais e na sociedade (WORSFOLD, 1998). Para estes cientistas, a Internet pode ser, ao mesmo tempo, instrumento auxiliar de trabalho, disponibilizando serviços e informações, e objeto de estudo de pesquisadores, devido ao impacto que provoca nos indivíduos e na sociedade.
 
 

 

As redes eletrônicas, principalmente a Internet, são um ambiente propício para a comunicação informal entre pesquisadores. Porém, muito antes de sua generalização, cientistas de centros de pesquisa diferentes já se organizavam em redes de contatos com o objetivo de trocar papers e resultados de trabalhos, numa modalidade informal de divulgação e debate conhecida por colégio invisível (PRICE e BEAVER, 1966). Esse ambiente de colaboração informal entre pesquisadores se apropriou rapidamente das redes telemáticas, resultando no que Gresham Jr (1994) chamou de colégio ciberespacial (cyberspace college), uma forma híbrida de comunicação que conjuga a base textual e a velocidade e interatividade das redes eletrônicas.


 

Além do correio eletrônico, que, de acordo com Meadows (1998), tornou-se o maior elo entre pesquisadores e grupos de pesquisa, e serviços a ele associados (grupos de discussão, listas de distribuição etc.), existem outras ferramentas de tecnologia da informação e comunicação que podem auxiliar o pesquisador em várias etapas do processo do desenvolvimento de pesquisa. Com o objetivo de verificar, no cotidiano de um determinado grupo de pesquisadores em Ciências Sociais, como essas ferramentas são utilizadas na realização de seu trabalho de pesquisa, foram entrevistados treze participantes do curso de doutorado em Ciências Humanas: Sociologia e Política, da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFMG, sendo três professores do programa, três recém-doutores e sete doutorandos que já estavam na fase de realização da pesquisa. Foi ainda incluído na amostra um aluno do mestrado, apontado por outros entrevistados como alguém que fazia uso intensivo das ferramentas de tecnologia de informação e comunicação em atividades de pesquisa.
 
 

Foi também apresentado aos entrevistados um quadro que relacionava os usos de ferramentas de tecnologia da informação e comunicação encontrados no levantamento bibliográfico e solicitado que marcassem aqueles usos presentes em seu trabalho de pesquisa. Isso permitiu a obtenção de duas informações quantitativas elementares, o número de marcações (N) de cada uso e a porcentagem (%) desse número em relação ao total dos entrevistados, mostradas no Quadro 1, que relaciona as possibilidades de uso, distribuídas pelas quatro etapas da pesquisa adotadas como referência: fase exploratória, trabalho de campo, análise e tratamento do material e divulgação dos resultados.
 
 

As entrevistas foram gravadas em fita magnética e sua transcrição, uma tarefa árdua e tediosa, foi inicialmente feita com o auxílio das próprias tecnologias da informação e comunicação: através de um fone de ouvido ligado ao gravador, a entrevista era ouvida e repetida em voz alta, sendo captada por um microfone conectado ao computador, onde era executado um programa de reconhecimento de voz, o IBM ViaVoice, o qual gerava um arquivo com o conteúdo ditado. Como a taxa de reconhecimento fica em torno dos 80%, essa tecnologia foi logo abandonada em favor da mais tradicional, a digitação direta daquilo que era ouvido.
 
 

A análise das entrevistas, selecionando trechos e classificando os mesmos dentro das categorias definidas, foi feita utilizando uma versão de demonstração do programa Atlas.ti, um dos muitos existentes para auxiliar nesse tipo de tarefa. Isto permitiu ter uma idéia da agilidade que estas ferramentas podem imprimir ao processo de análise e da simplicidade de recuperação de dados de interesse para o pesquisador. Esta análise mostrou que muitas das possibilidades de uso das ferramentas de tecnologia da informação e comunicação ainda não são devidamente exploradas ou sequer são conhecidas pelos pesquisadores. Isso parece estar associado ao fato de que o trabalho de pesquisa continua sendo possível sem sua utilização.

 









As entrevistas mostraram que as ferramentas de tecnologia da informação e comunicação são já consideradas imprescindíveis nas atividades de pesquisa, mesmo por aqueles que não se mostram entusiasmados com elas. Todos os entrevistados, sem exceção, utilizam o correio eletrônico e o editor de textos, ainda que alguns o façam de forma básica. E mesmo quando os pesquisadores não apresentam competências no uso de ferramentas mais específicas, como pacotes estatísticos e bancos de dados, elas costumam ser utilizadas através de outros componentes dos grupos de pesquisa. Um entrevistado disse acreditar que as salas virtuais são um interessante campo de estudos para os cientistas sociais, por se tratar de um novo espaço social que envolve questões de grupo e comportamento, mas que há poucos pesquisadores da área se dedicando a esse assunto.
 
 

Fase exploratória

De acordo com Minayo (1992), na fase exploratória são feitas a definição do objeto de pesquisa (elaboração de pergunta dentro da área de interesse, pesquisa bibliográfica e organização do discurso teórico), a construção de instrumentos de pesquisa (roteiro de entrevista, critérios para observação e itens para discussão em grupos focais) e a exploração de campo (escolha do grupo de pesquisa, definição de critérios de amostragem e estabelecimento de estratégia de entrada em campo).
 
 

Foi relatada, por praticamente todos os entrevistados, a utilização das fontes de informação eletrônicas, com a Internet emergindo como a grande inovação nessa área, o que está de acordo com o que foi apresentado por Meadows (1998). Bancos de dados de referência bibliográfica são bastante utilizados, mas alguns consideram seu uso complicado. A preferência maior é pela busca direta de textos na Internet, principalmente através de buscadores, como o Google e o Yahoo, sendo ressaltada a necessidade de se tomar cuidado com a confiabilidade dos resultados da consulta. O portal de periódicos da CAPES foi muito citado como fonte de informação, o que reafirma sua importância para o trabalho dos pesquisadores brasileiros. O mesmo aconteceu com sites de órgãos públicos, sendo especialmente elogiado o do Congresso Nacional, devido a seu conteúdo e facilidade de acesso às informações. Ficou evidente a eliminação do intermediário na busca da informação, o que confirma Meadows (1998), mas o auxílio do profissional da informação ainda é solicitado em alguns casos. 
 
 

A ferramenta mais presente no cotidiano dos entrevistados é, sem dúvida, o correio eletrônico, usado principalmente para troca de informações com colegas de trabalho e pesquisadores de outras instituições, o que só reafirma a importância desse serviço como instrumento de comunicação no trabalho acadêmico, já identificada na revisão bibliográfica (MEADOWS, 1998). Enquanto isso, outras formas de comunicação eletrônica são praticamente descartadas. A teleconferência não é utilizada por nenhum deles e o acesso a salas virtuais (chat) só foi relatado por três entrevistados, sendo que um só o faz como atividade de lazer. O mesmo acontece com as listas e grupos de discussão virtuais, que foram utilizados por apenas três entrevistados, em situação não relacionada à pesquisa em si, e foram logo abandonados por dois destes usuários. 
 
 

Apenas dois dos entrevistados disseram fazer o uso de programas específicos para armazenamento de informações bibliográficas, destinados a simplificar a recuperação destas informações, mas alguns utilizam o próprio editor de textos para essa finalidade. Poucos se arriscam a adquirir material bibliográfico em lojas e sebos virtuais, principalmente por medo de usar o cartão de crédito em transações pela Internet, medo este que é reforçado pelos inúmeros casos de fraude eletrônica veiculados pela mídia.
 
 
 
 

Trabalho de campo

Na fase de trabalho de campo são aplicados os instrumentos de pesquisa, realizadas entrevistas e feitas observações participantes e discussões em grupo, sendo que essas técnicas podem ser usadas isoladamente ou combinadas (Minayo, 1992). Entre os entrevistados, grande parte declarou usar computador e editor de textos para fazer anotações de campo, considerando que isto auxilia a análise posterior.
 
 

Foi relatada a obtenção de dados primários e secundários na Internet ou em bancos de dados fornecidos em CD/ROM, principalmente do IBGE. Vários dos entrevistados fazem parte de um grupo envolvido em uma mesma pesquisa, na qual praticamente todos os dados foram obtidos pela Internet, fato que fizeram questão de ressaltar. Mas as demais possibilidades levantadas na literatura, como realização de surveys através da Internet, entrevistas assistidas pelo computador, observação participante em grupos de discussão e realização de grupo focal mediado pelo computador, não foram encontradas. Várias delas foram inclusive alvo de críticas por parte de alguns entrevistados, como a realização de surveys pela Internet, devido à facilidade de fornecer informações falsas, o que, na realidade, independe do meio utilizado, e o uso de salas virtuais, consideradas mais adequadas para atividades de lazer que para discussão de assuntos relativos às pesquisas. O mesmo aconteceu com as listas de discussão, devido à falta de consolidação das idéias circuladas nesse meio e ao grande número de mensagens sem interesse enviadas ao grupo.
 
 

A necessidade de cuidado com a confiabilidade dos dados obtidos na Internet foi ressaltada, sendo dada preferência por buscá-los em sites de instituições reconhecidas e de órgãos públicos, como o IBGE, o TSE, o Congresso Nacional e outros similares. Foi relatado também o uso de bancos de dados para armazenamento dos dados coletados, devido à segurança e agilidade na recuperação de informações.
 
 
 

Análise ou tratamento do material

A fase de análise ou tratamento do material, na pesquisa qualitativa, envolve a análise de conteúdo, análise de discurso, análise hermenêutica-dialética (Minayo, 1992), ou a elaboração de estatísticas, no caso de dados quantitativos. Nesta etapa da pesquisa, houve uma grande variedade de posições entre os entrevistados, desde a preferência pelo tratamento manual a dados qualitativos ao uso intensivo de ferramentas de tecnologia da informação, tanto no tratamento de dados quantitativos, através do pacote SPSS (Statistical Package for the Social Sciences) ou de planilhas eletrônicas, quanto na análise de dados qualitativos, como entrevistas e documentos. Quando a pesquisa envolve a realização de entrevistas, a transcrição, tarefa classificada como aborrecida por praticamente todos, exceto um, que a considera uma parte importante da análise, é sempre feita pela digitação direta em editor de texto, às vezes com o auxílio de um transcriber (gravador com pedal para controle de avanço e retrocesso de fita). Na maioria dos casos, a digitação é feita por terceiros, sejam eles bolsistas, estagiários ou pessoas contratadas para essa finalidade.
 
 

Apenas dois entrevistados usam programas específicos para análise de dados qualitativos e ressaltaram a agilidade que tais ferramentas imprimem ao processo, apesar de concordarem que essa atividade pode ser feita, com resultados satisfatórios, de forma manual, porém com maior dificuldade e levando mais tempo. Outra vantagem desse uso seria a flexibilidade de poder alterar as codificações em categorias, permitindo novos modos de organização dos dados e novas hipóteses.
 
 

Já os que trabalham com análise de dados quantitativos, em que pacotes estatísticos, principalmente o SPSS são amplamente utilizados, consideram que seria praticamente impossível chegar manualmente aos resultados que obtêm com a ajuda do computador, devido à capacidade deste trabalhar com grande volume de dados e de realizar cálculos sofisticados. A maioria dos entrevistados disse usar pessoalmente as ferramentas de análise, mas dois o fazem apenas através de outras pessoas que integram o grupo de pesquisa. Ambos creditaram isso ao fato de não apresentarem competências no uso de tais ferramentas. Sua função, nesse caso, é definir o tipo de informação de que necessitam, ficando as tarefas computacionais a cargo de quem apresenta essas competências.
 
 
 
 

Divulgação dos resultados
 

A divulgação dos resultados inclui a elaboração de relatório de pesquisa, a publicação dos resultados e a apresentação em eventos. O sucesso de um cientista é estabelecido pelo reconhecimento por seus pares, o que torna a comunicação de pesquisas realizadas essencial para que o pesquisador consiga avançar na sua carreira, avanço este que se refletirá em publicações, obtenção de financiamentos e promoções (GARVEY, 1979). Com relação a esta etapa, três grandes utilizações emergiram das entrevistas: o uso do editor de textos na preparação de relatórios e artigos, presente em todos os relatos; a troca de material produzido com outros pesquisadores, para revisão e sugestões, e a preparação de material para apresentação (gráficos e slides).
 
 

Houve várias ocorrências de envio de material para publicação em periódicos impressos através de correio eletrônico, mas apenas três pesquisadores já publicaram em periódicos eletrônicos, sendo que um dos três se considera um usuário apenas das funções básicas das ferramentas de tecnologia da informação e comunicação, e outro se coloca em posição bastante crítica em relação a essas ferramentas. A publicação em livro eletrônico surgiu em apenas um relato. Essas informações levantadas no trabalho de campo concordam com a revisão bibliográfica, onde se viu que a publicação eletrônica, apesar de estar se expandindo rapidamente, ainda ocupa lugar secundário em relação à publicação tradicional.
 
 
 
 

Conclusão

O levantamento bibliográfico realizado na pesquisa deixou claro que existem muitas possibilidades de uso de ferramentas de tecnologia da informação e comunicação durante as diversas etapas da pesquisa em Ciências Sociais. Já o trabalho de campo mostrou que, apesar de o correio eletrônico, o editor de textos e a Internet como fonte de informações serem ferramentas amplamente utilizadas no contexto da pesquisa, várias dessas possibilidades ainda não são devidamente exploradas ou são até mesmo desconhecidas por alguns pesquisadores.
 
 

Chamou a atenção, principalmente, a baixa utilização de programas para manuseio e análise de dados qualitativos. No que diz respeito à divulgação dos resultados das pesquisas, a publicação em meio eletrônico está apenas começando a aparecer entre o grupo entrevistado, o que condiz perfeitamente com o que foi levantado na literatura, a qual apresenta o meio impresso ainda como preferido para publicação. E, apesar do correio eletrônico e outras tecnologias permitirem a troca de informações sobre resultados de trabalhos com outros pesquisadores, formas mais tradicionais, como encontros, congressos e seminários, continuam sendo considerados como espaços privilegiados para essa atividade informacional.
 
 

A integração do ensino do uso de ferramentas de tecnologia da informação e comunicação às disciplinas tradicionais dos cursos de graduação e pós-graduação em Ciências Sociais, poderia colaborar para mudar esta situação. 
 
 

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