Vou
partir do pressuposto de que a maior parte dos que me lêem saberá
do que eu estou falando, quando menciono a comunidade virtual Orkut
(www.orkut.com). Eu mesmo já
estava ouvindo falar dela algumas semanas antes de ser convidado por um
integrante (é só por convite que se dá a admissão),
e lá estou há umas duas ou três. Então os leitores
também saberão que o bom funcionamento dessa comunidade pressupõe
um balanço natural entre individualismo (o jeito que a informação
pessoal é dosada/ filtrada nas informações e nas fotos)
e coletivismo (a interação nos grupos opcionais, criados
e mantidos por afinidade de assunto ou de inclinação). A
liberdade quase total ao acessar a informação pessoal de
alguém (guardados uns segredinhos íntimos), e de interagir
com essa pessoa (através de convites, mensagens, teasers), é
compensada com mecanismos por enquanto suficientes de coerção
dos inconvenientes (bloqueios individuais, coletivos, e finalmente exclusão).
Por enquanto funcionou.
O Orkut pode significar um
passo além do ponto onde nos trouxeram os blogs – que, por formato
e vocação, são quase como sites corporativos na forma,
recheados com conteúdo absolutamente idiossincrático, e raramente
(na proporção) interessantes. (Eu vou elogiar o papel e o
funcionamento do Orkut ciente de todos os sinistros complôs que possam
estar escondidos por trás da sua conexão com o Google, útil
porém malévola criação do Grande Irmão,
como se sabe. Mas isso já é uma outra história. O
fato é que o Orkut tem sido apropriado com criatividade, provavelmente
muito além da esperada por seus inventores.)
Tela inicial da comunidade
Orkut
Por um lado determinados
mecanismos do Orkut são sutis e exemplos de bom-senso (se alguém
bloqueia alguém ou o exclui de sua lista de amigos, isso corresponde
a uma discreta desaparição do incomodado, sem avisos ou críticas;
as exclusões do ambiente coletivo não assinalam a reclamação
de onde partiram, para evitar rixas, e em geral são temporárias).
Por outro, determinados mecanismos (os de aproximação romântica/
sexual, principalmente) não parecem muito mais inovadores do que
uma versão tecnológica do “correio elegante” das quermesses
antigas, ou da amiga (essa é mais atual) que intermedia a “ficada”
de dois adolescentes. Ou seja, Orkut se parece muito com o (e evidentemente
é um produto do) estágio civilizatório atual, uma
combinação entre a ortodoxia da “correção política”
e a heterodoxia da experiência de liberdade individual; entre a superação
dos limites herdados e o estabelecimento dos limites escolhidos.
Parece simples e aceitável
em palavras, mas, vivenciado como processo, significa a renovação
de opções a cada instante (às vezes literalmente,
como veremos), o que pode ser considerado uma experiência desgastante
pelos espíritos mais apegados, lentos e/ ou comodistas. Permeia
sempre o Orkut a inquietação de aceitar ou não aceitar
como amigos aquelas pessoas que você não conhece, aqueles
trutas (ou traíras) potenciais que tentam se aproximar. Podemos
ficar com o conhecido. Mas pra que montar uma comunidade virtual só
com aqueles com que você já compartilha uma cerveja? And so
what ? Tudo isso para comentar duas ocorrências complementares e
esclarecedoras no âmbito do Orkut (particularmente o dos participantes
brasileiros, e que escrevem em português): a dos grupos CONC (Como
Ou Não Como), proposto por Mr. Manson, e Tem Mas Acabou, na sua
versão ponto 4, proposto por Nabor Leandro, de comum acordo com
outras pessoas.
Tem Mas Acabou é um
deliberado exercício niilista de juntar gente para fazer nada, uma
espécie de flash mob zen e virtual, que consiste em agregar o maior
número possível de pessoas cuja única e cínica
interação é entrar num grupo cujo objetivo é...
entrar num grupo. O subtítulo da versão ponto 3 era Tô
Com Medo Dessa Porra, o da ponto 4 é Formigas São Bad Trip
Por Isso Não Uso Açúcar.
Como Ou Não Como é
uma variante virtual daquelas rodas de amigos (ou amigas) que ficam comentando
a passagem de indivíduos, em geral do sexo oposto, dando notas ou
dizendo “como” e “não como”. No caso, alguém linka o nome
(e a foto, e as listas de preferências e características)
de alguém, e os outros dizem “como” ou “não como”, acrescentando
freqüentemente algum comentário do tipo “como, e depois caso
para comer de novo”, ou “como... de porrada”. Cafajeste, preconceituosa
e evidentemente DIVERTIDA, a brincadeira trouxe como única novidade
a grande desenvoltura das moças ao comerem (ou não comerem)
os caras (e também outras moças), e ao fairplay metro (ou
homo) sexual dos caras ao comerem (ou não comerem) outros caras.
Quanto aos caras que comem (ou, muito raramente, não comem) as moças,
não é nada que não tenhamos visto nos últimos
séculos de patriarcado.
Ora, apesar dos objetivos
declarados do Tem Mas Acabou de conseguir o crescimento exponencial, ele
esbarrou, nos últimos dias da versão ponto 3, depois de todo
um esforço (?) de cooptação, em duas centenas de participantes
ou pouco mais. E a versão ponto 4, até o momento em que escrevo,
não chegou nem à centena. Já o Como Ou Não
Como conseguiu, entre os dias 5 e 6 de março, dar o salto exponencial
de 200 e poucos para 400 e poucos participantes, e, quando escrevo isso,
no dia 7, chegou aos 528. Grande novidade, alguém dirá, é
um grupo baseado em uma brincadeira maliciosa ser mais bem-sucedido do
que um grupo de pressuposto crítico e niilista.
A graça (sem graça)
da coisa é que, no dia 6, o grupo Como Ou Não Como estava
praticamente auto-inviabilizado, por seu próprio sucesso. Porque
o acúmulo de sugestões (às dezenas, às centenas)
não já permitia desenvolver ou acompanhar nenhuma chacota
minimamente saboreada, resumindo-se o grupo a um bombardeio crescente de
links e a um decréscimo enfastiado de comentários por link.
Já a idéia do Tem Mas Acabou, apesar de bacana (e eu provavelmente
estarei em quantas versões houver), ainda tem um pouco daquele exibicionismo
mental, intelectual (e, aliás, este artigo também tem), por
mais que seja exibicionismo de uma boa estirpe – a de dada (o movimento
artístico, não a quituteira). CONC é mais tchubidudadá.
É a verdadeira falta do que fazer, fazendo. Exu rules.
É aqui que entra,
finalmente, o meu balanço otimista. Acredito nas ferramentas virtuais
como campo de treino para uma nova elite psíquica que substitua,
finalmente, na história da humanidade, as elites financeiras, militares,
políticas e sociais. Pra todo mundo não vai ter, anyway.
Então que se substitua a usurpação pelo merecimento,
e que mesmo o merecimento seja checado a cada instante.
Nuns poucos dias, uma idéia
(CONC) surgiu, atraiu os mais atentos, atingiu seu ápice, cansou,
e se inviabilizou, exatamente quando se popularizou. De tal modo que no
dia 2 ou 3, nos meros cento e tantos participantes, já tinha gente
da primeira leva detectando o desgaste da coisa. Alguns até fazendo
comentários irritados contra a entrada de muita gente – e gente
que já entrava irritada com os comentários excludentes dos
“veteranos” (?). Falou-se em mudar as regras. Não houve mais como
(ou não houve mais não como) mudar. O que há de bom
nisso? O treino no desapego, como (ou não como) eu já disse.
Não há regra contra a morte. A rede virtual é o território
de Exu, da abertura das infinitas possibilidades. Mas a infinitude das
possibilidades não só não resolve os problemas, como
parece agravá-los, para os espíritos menos ágeis.
Alguém não tem mais do que algumas horas para sentar sobre
os louros de uma boa idéia, de uma boa frase, de uma boa performance.
E alguém não o inveja – porque não o nota. Não
dá mais pra viver disso; só dá pra viver nisso. Nada
se fixa, e os indivíduos estão cada vez mais absorvidos pelo
processo, de tal forma que parece surgir uma “inteligência virtual”,
que só persiste enquanto aquela mente está conectada. É
um campo onde alguém se exibe cada vez menos com seus dotes (atléticos,
intelectuais, espirituais) do mundo dito real, e cada vez mais com os dotes
(psíquicos) da própria virtualidade.
Não são tempos
em que a informação, como já se supôs, possa
ser apreendida e controlada (e comercializada) como as manufaturas; mas
um universo onde a crescente musculatura do psiquismo (por assim dizer)
mostra os mais aptos... em serem aptos, os mais habilidosos... em serem
habilidosos, os mais rápidos... em serem rápidos, os mais
ágeis... em serem ágeis. Processo. Claro, ainda há
alguma contaminação da percepção do “mundo
de celebridades”, como ele é vivido na (falsa) realidade. O próprio
conceito original do Orkut tinha (ainda tem alguns) mecanismo de
reconhecimento de “celebridades-Orkut”. Mas o universo virtual cria cada
vez menos seus próprios mitos, e se revela cada vez mais como um
universo de verdades perto de absolutas, porque são processo, são
dinâmica, e não dogma, cristalização.
Ronaldinho seria perneta
no Orkut; Britney seria bidimensional no Orkut; Lula (ou
FHC) sequer existiria no Orkut; por mais (aliás, por menos)
que sejam citados nas predileções pessoais. O grande Daminhão
Experiença, por outro lado, está lá, em pessoa.
E Mr. Manson (quem?) rules. Lívia
Brandão (a mais comida) rules. Exu rules. E eu como. Ou não
como.
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