ORKUT: UM ENSINAMENTO NA (A)MORAL DE EXU - o caso "Como Ou Não Como" versus "Tem Mas Acabou"
e a criação da elite psíquica da humanidade

alex antunes, aka lex lilith
escritor



 
 
 

 
 
Vou partir do pressuposto de que a maior parte dos que me lêem saberá do que eu estou falando, quando menciono a comunidade virtual Orkut (www.orkut.com). Eu mesmo já estava ouvindo falar dela algumas semanas antes de ser convidado por um integrante (é só por convite que se dá a admissão), e lá estou há umas duas ou três. Então os leitores também saberão que o bom funcionamento dessa comunidade pressupõe um balanço natural entre individualismo (o jeito que a informação pessoal é dosada/ filtrada nas informações e nas fotos) e coletivismo (a interação nos grupos opcionais, criados e mantidos por afinidade de assunto ou de inclinação). A liberdade quase total ao acessar a informação pessoal de alguém (guardados uns segredinhos íntimos), e de interagir com essa pessoa (através de convites, mensagens, teasers), é compensada com mecanismos por enquanto suficientes de coerção dos inconvenientes (bloqueios individuais, coletivos, e finalmente exclusão). Por enquanto funcionou. 
 
 

O Orkut pode significar um passo além do ponto onde nos trouxeram os blogs – que, por formato e vocação, são quase como sites corporativos na forma, recheados com conteúdo absolutamente idiossincrático, e raramente (na proporção) interessantes. (Eu vou elogiar o papel e o funcionamento do Orkut ciente de todos os sinistros complôs que possam estar escondidos por trás da sua conexão com o Google, útil porém malévola criação do Grande Irmão, como se sabe. Mas isso já é uma outra história. O fato é que o Orkut tem sido apropriado com criatividade, provavelmente muito além da esperada por seus inventores.) 


Tela inicial da comunidade Orkut
 
 
 

Por um lado determinados mecanismos do Orkut são sutis e exemplos de bom-senso (se alguém bloqueia alguém ou o exclui de sua lista de amigos, isso corresponde a uma discreta desaparição do incomodado, sem avisos ou críticas; as exclusões do ambiente coletivo não assinalam a reclamação de onde partiram, para evitar rixas, e em geral são temporárias). Por outro, determinados mecanismos (os de aproximação romântica/ sexual, principalmente) não parecem muito mais inovadores do que uma versão tecnológica do “correio elegante” das quermesses antigas, ou da amiga (essa é mais atual) que intermedia a “ficada” de dois adolescentes. Ou seja, Orkut se parece muito com o (e evidentemente é um produto do) estágio civilizatório atual, uma combinação entre a ortodoxia da “correção política” e a heterodoxia da experiência de liberdade individual; entre a superação dos limites herdados e o estabelecimento dos limites escolhidos. 

 
 

Parece simples e aceitável em palavras, mas, vivenciado como processo, significa a renovação de opções a cada instante (às vezes literalmente, como veremos), o que pode ser considerado uma experiência desgastante pelos espíritos mais apegados, lentos e/ ou comodistas. Permeia sempre o Orkut a inquietação de aceitar ou não aceitar como amigos aquelas pessoas que você não conhece, aqueles trutas (ou traíras) potenciais que tentam se aproximar. Podemos ficar com o conhecido. Mas pra que montar uma comunidade virtual só com aqueles com que você já compartilha uma cerveja? And so what ? Tudo isso para comentar duas ocorrências complementares e esclarecedoras no âmbito do Orkut (particularmente o dos participantes brasileiros, e que escrevem em português): a dos grupos CONC (Como Ou Não Como), proposto por Mr. Manson, e Tem Mas Acabou, na sua versão ponto 4, proposto por Nabor Leandro, de comum acordo com outras pessoas. 

 
 

Tem Mas Acabou é um deliberado exercício niilista de juntar gente para fazer nada, uma espécie de flash mob zen e virtual, que consiste em agregar o maior número possível de pessoas cuja única e cínica interação é entrar num grupo cujo objetivo é... entrar num grupo. O subtítulo da versão ponto 3 era Tô Com Medo Dessa Porra, o da ponto 4 é Formigas São Bad Trip Por Isso Não Uso Açúcar. 

 
 

Como Ou Não Como é uma variante virtual daquelas rodas de amigos (ou amigas) que ficam comentando a passagem de indivíduos, em geral do sexo oposto, dando notas ou dizendo “como” e “não como”. No caso, alguém linka o nome (e a foto, e as listas de preferências e características) de alguém, e os outros dizem “como” ou “não como”, acrescentando freqüentemente algum comentário do tipo “como, e depois caso para comer de novo”, ou “como... de porrada”. Cafajeste, preconceituosa e evidentemente DIVERTIDA, a brincadeira trouxe como única novidade a grande desenvoltura das moças ao comerem (ou não comerem) os caras (e também outras moças), e ao fairplay metro (ou homo) sexual dos caras ao comerem (ou não comerem) outros caras. Quanto aos caras que comem (ou, muito raramente, não comem) as moças, não é nada que não tenhamos visto nos últimos séculos de patriarcado. 

 
 

Ora, apesar dos objetivos declarados do Tem Mas Acabou de conseguir o crescimento exponencial, ele esbarrou, nos últimos dias da versão ponto 3, depois de todo um esforço (?) de cooptação, em duas centenas de participantes ou pouco mais. E a versão ponto 4, até o momento em que escrevo, não chegou nem à centena. Já o Como Ou Não Como conseguiu, entre os dias 5 e 6 de março, dar o salto exponencial de 200 e poucos para 400 e poucos participantes, e, quando escrevo isso, no dia 7, chegou aos 528. Grande novidade, alguém dirá, é um grupo baseado em uma brincadeira maliciosa ser mais bem-sucedido do que um grupo de pressuposto crítico e niilista. 

 
 

A graça (sem graça) da coisa é que, no dia 6, o grupo Como Ou Não Como estava praticamente auto-inviabilizado, por seu próprio sucesso. Porque o acúmulo de sugestões (às dezenas, às centenas) não já permitia desenvolver ou acompanhar nenhuma chacota minimamente saboreada, resumindo-se o grupo a um bombardeio crescente de links e a um decréscimo enfastiado de comentários por link. Já a idéia do Tem Mas Acabou, apesar de bacana (e eu provavelmente estarei em quantas versões houver), ainda tem um pouco daquele exibicionismo mental, intelectual (e, aliás, este artigo também tem), por mais que seja exibicionismo de uma boa estirpe – a de dada (o movimento artístico, não a quituteira). CONC é mais tchubidudadá. É a verdadeira falta do que fazer, fazendo. Exu rules. 

 
 

É aqui que entra, finalmente, o meu balanço otimista. Acredito nas ferramentas virtuais como campo de treino para uma nova elite psíquica que substitua, finalmente, na história da humanidade, as elites financeiras, militares, políticas e sociais. Pra todo mundo não vai ter, anyway. Então que se substitua a usurpação pelo merecimento, e que mesmo o merecimento seja checado a cada instante. 

 
 

Nuns poucos dias, uma idéia (CONC) surgiu, atraiu os mais atentos, atingiu seu ápice, cansou, e se inviabilizou, exatamente quando se popularizou. De tal modo que no dia 2 ou 3, nos meros cento e tantos participantes, já tinha gente da primeira leva detectando o desgaste da coisa. Alguns até fazendo comentários irritados contra a entrada de muita gente – e gente que já entrava irritada com os comentários excludentes dos “veteranos” (?). Falou-se em mudar as regras. Não houve mais como (ou não houve mais não como) mudar. O que há de bom nisso? O treino no desapego, como (ou não como) eu já disse. Não há regra contra a morte. A rede virtual é o território de Exu, da abertura das infinitas possibilidades. Mas a infinitude das possibilidades não só não resolve os problemas, como parece agravá-los, para os espíritos menos ágeis. Alguém não tem mais do que algumas horas para sentar sobre os louros de uma boa idéia, de uma boa frase, de uma boa  performance. E alguém não o inveja – porque não o nota. Não dá mais pra viver disso; só dá pra viver nisso. Nada se fixa, e os indivíduos estão cada vez mais absorvidos pelo processo, de tal forma que parece surgir uma “inteligência virtual”, que só persiste enquanto aquela mente está conectada. É um campo onde alguém se exibe cada vez menos com seus dotes (atléticos, intelectuais, espirituais) do mundo dito real, e cada vez mais com os dotes (psíquicos) da própria virtualidade. 

 
 

Não são tempos em que a informação, como já se supôs, possa ser apreendida e controlada (e comercializada) como as manufaturas; mas um universo onde a crescente musculatura do psiquismo (por assim dizer) mostra os mais aptos... em serem aptos, os mais habilidosos... em serem habilidosos, os mais rápidos... em serem rápidos, os mais ágeis... em serem ágeis. Processo. Claro, ainda há alguma contaminação da percepção do “mundo de celebridades”, como ele é vivido na (falsa) realidade. O próprio conceito original do Orkut tinha (ainda tem alguns) mecanismo de reconhecimento de “celebridades-Orkut”. Mas o universo virtual cria cada vez menos seus próprios mitos, e se revela cada vez mais como um universo de verdades perto de absolutas, porque são processo, são dinâmica, e não dogma, cristalização. 

 
 

Ronaldinho seria perneta no Orkut; Britney seria bidimensional no Orkut; Lula (ou FHC) sequer existiria no Orkut; por mais (aliás, por menos) que sejam citados nas predileções pessoais. O grande Daminhão Experiença, por outro lado, está lá, em pessoa. E Mr. Manson (quem?) rules. Lívia Brandão (a mais comida) rules. Exu rules. E eu como. Ou não como.