SEQüESTROS-RELÂMPAGO E CIDADANIA EM UMA TRISTE SÃO PAULO
João Alexandre Peschanski e Augusto Stiel

 
 
 
 
continuação
 
Segundas vozes
 
 
  • Anderson
Luzes de Nartal  num shopping center - foto de Cora RónaiAnderson (nome fictício) nos recebe em sua casa, no Brooklin Novo, e conta como se sentiu nos três seqüestros-relâmpagos dos quais foi vítima. Apesar de encarar com certa tranqüilidade os crimes de que foi vitima, não esconde que, quando tiver a oportunidade, pretende sair de São Paulo. “Nessa cidade, e com essa violência, não dá”.Abaixo alguns dos principais momentos da entrevista, concedida no dia mesmo de seu vigésimo nono aniversário. 
 
 
 

Quando foram os seqüestros?

 
 
O primeiro foi em 96 e os outros dois em 97. No primeiro, eu estava andando na avenida Paulista, era um sábado, umas 14h, eu estava na frente do Objetivo, e três pessoas me abordaram e já foram pedindo um cigarro. O pior é que eu dei e, alguns instantes depois, senti um cano de revólver nas minhas costas. Foi um seqüestro a pé. Eles disseram que eu era parecido com um cara que tinha roubado droga deles e que se eu fosse esse cara mesmo, eles me matariam. Eles foram andando comigo pela Paulista e me fizeram pegar uns ônibus, uns três, até chegarmos em um shopping. Ficamos no estacionamento e eles pegaram meu cartão e a senha. Daí eu me acalmei um pouco, pois vi que eles não estavam mesmo querendo me matar. Eles me pagaram um lanche depois e me deram um passe para eu voltar para casa. Ficavam falando para eu não dar queixa, pois eles sabiam onde eu morava e que eu iria ver. Voltei para casa e chorei dentro do ônibus.


E os outros?

 
O segundo eu estava entrando dentro do carro, no Brooklin, e dois caras entraram no carro, armados, e me mandaram ir para o banco do lado. Fomos dar uma volta. Eu falei para eles que meu cartão estava vencido e eles pegaram o dinheiro da minha carteira. Daí, comigo no carro, eles foram buscar outra pessoa. Ficaram rodando por Moema e pelo Campo Belo. Tinham me colocado no banco de trás. Em frente a uma pizzaria, viram um cara e o pegaram. Me deixaram lá na pizzaria. Dessa vez, senti como se eles estivessem fazendo o trabalho deles.


Você falou com eles?

 
Como eu estava nervoso, eu perguntei se podia fumar. Daí eles deixaram. Eu pedia se podia tirar o cinto. Todo gesto tem que ser avisado, isto para não dar problema. Eles perguntaram o que eu fazia. Eu disse que era advogado e eles ficaram comentando umas coisas: “Ah, esse é o cara que põe ou tira a gente da cadeia”. Eu senti que eles sabiam o que faziam. Como era a segunda vez, era mais previsível, foi até mais tranqüilo. Na primeira vez, como eles falavam que eu tinha roubado droga, eu juro que eu pensei que eles fossem me matar. Depois eles sacaram meu dinheiro e eu fiquei mais tranqüilo. Eles ficam sempre perguntando coisas. Tentam criar calma, depois de terem te ameaçado e criado uma situação de pânico. Senti que se eu ficasse na minha, estaria na boa. Na primeira vez, fiquei desesperado.


E a terceira vez, como foi?
 

Eu estava em Moema, saindo da casa de uns amigos, entrando no carro, e um cara apareceu me pedindo dinheiro. Veio pedindo dinheiro para comer. Eu disse que não tinha e ele disse: “Quer ver que você tem” e sacou a arma. Ele me fez entrar no carro e demos uma volta no quarteirão. Dessa vez, ele nem quis saber de meu cartão, só pegou o dinheiro da minha carteira.

Como eram as pessoas que te abordaram? Você as reconheceria?
 

Eu reconheceria todos os caras. Encontrei com um dos bandidos na avenida Paulista. Eu olhei para baixo, mas percebi que ele tinha me visto. Ele me olhou e eu apressei o passo, olhando para o chão. Novamente com medo. Apesar disso tudo, só dei queixa uma vez, na segunda vez. Alertei a polícia por causa do outro cara que tinha sido pego no meu lugar. 

Você sofreu um dos seqüestros na frente da sua casa. Em um dos casos, eles disseram que sabiam aonde você morava. Você nunca ficou com medo de eles irem para sua casa?

 
Não, nunca fiquei com medo de eles virem para cá. Eles falavam para eu não dar queixa, e eu não dei. Não dava porque era perda de tempo.


Qual reação você teve nos três seqüestros?

 
Nas três vezes, eu só senti pânico. Ver a arma e ser ameaçado, com isso, você faz qualquer coisa. Tem que deixar eles dominarem a situação.


Como isso afetou seu comportamento? Você adotou mais medidas de segurança?

 
Da primeira para a segunda vez, eu já andava com medo na rua, já ficava com medo das pessoas na rua. É difícil não sentir medo quando se é abordado andando em uma das principais avenidas de São Paulo. O que é pior: passei na frente de policiais, que nem perceberam o que estava acontecendo. É até melhor, se eles percebessem, podia sair tiro e eu ficar no meio de um tiroteio. Nas vezes em que eu estava de carro – dois Gols diferentes –, eu estava meio desligado. Agora fico mais esperto. Não paro em farol vermelho. Prefiro ser multado que parar. Quando tem que parar, paro longe. Evito sempre a Paulista. Não deixei de freqüentar lugares que eu freqüentava, mas admito que tenho medo de ir a lugares que não conheço tanto assim. Em alguns bares, até conheço umas pessoas, isto dá confiança, mas também nem tanta.


Você encara com bastante tranqüilidade os seqüestros que sofreu. Por quê?

 
Eu penso que eles vêem o seqüestro como um trabalho – e, por isso, tem que deixar que eles façam o serviço deles. É assim que eu fui aprendendo, deixe os caras. Na última vez, o cara estava com certeza drogado, daí é mais imprevisível. Mas nas outras tem que se aproveitar da previsibilidade. Quando tiver que fazer algo, pergunte: “Posso fumar? Posso fazer tal coisa?” Nunca olhe na cara. Não puxe conversa, deixa que eles puxam.


Saber desses truques te dá mais segurança?

 
Só tenho segurança em casa. Na rua tem viatura particular, todo mundo da rua paga, isso inibe os bandidos. Mas mesmo assim, mesmo com a rua protegida, prefiro minha casa. Estou cada vez mais convencido que, quando tiver a oportunidade, me mudo de São Paulo. Não tem como ser cidadão aqui. A violência acaba com isso, ela não me deixa andar tranqüilo.


Você acha que há algo que justifique a ação de criminosos?

 
Não tem nenhuma. Mesmo se eles encaram como uma profissão, não é uma. Eles podem te matar a qualquer momento. Não tem certo ou errado – é do jeito deles. Eles que controlam e você tem que deixá-los controlar tudo. Tanto é que das três vezes dei tudo o que eles pediam bem fácil, pois sabia que me ajudaria a não ter maiores problemas.


Você acha que as pessoas que te seqüestraram eram de seu bairro?

 
Não, não eram. Eram de bairros afastados, dava para ver pelo modo de eles falarem e de se vestirem. Aquele vocabulário de marginal – eu já conhecia esse tipo de vocabulário, pois estudei em colégio estadual. Tinha uma diferença social gritante. 


Como era sua relação com os seqüestradores?

 
Era o contrário do que se pode achar que tenha que ser a cidadania. Não há troca de nada. Tudo é objetivo: eles perguntam, e você responde. Daí não pode falar mais nada. Daí você pensa como eles escolhem as pessoas, como no segundo seqüestro, e vê que não tem relação de homens. Eles procuram alvos – procuram o cara que mais se encaixa no que eles estão procurando.


Você mudou seu comportamento em relação a pessoas desconhecidas?

 
Óbvio. Eu fiquei com medo dos desconhecidos. Eu evito esse tipo de contato. Não tenho esses contatos no dia-a-dia, não me relaciono com pessoas se não for da rotina. Só se for em um lugar em que tem bastante gente.


Como uma rua?

 
Na rua é difícil. É mais fácil em um shopping.


E você acha que existem razões para os seqüestradores fazerem o que fazem?

 
Existem, claro, mais a atitude não se justifica. Você vê gente batalhando, fazendo a luta de forma mais íntegra. Embora haja problemas sociais, o que ocorre com os seqüestradores é desvio de conduta. Eles te humilham, a violência psicológica é brutal. Não é como um assalto. Eu me senti refém da situação. O assalto era de menos, a violência psicológica é muito grande.


E o que causou essa violência psicológica?

 
Na rua, eu fico mais assustado. Tenho, acho, traumas. Uma arma nas costas, porra...


A polícia pode resolver a situação?

 
A polícia pode até agir de forma preventiva, mas a posição é complicada. O que eu menos quero é que eles me vejam sendo seqüestrado, não quero que sobre tiro para mim. Mas tem que reforçar a segurança também: não dá para ir a um shopping sem ter o medo de alguém te seguir e te colar uma arma nas costas.Não tem mais tranqüilidade, não tem mais espaço público tranqüilo.


Como assim?

 
As coisas vêm sendo cercadas, tudo está murado. Não tem mais área de lazer que seja espaço público. A Paulista é agradável, mas eu tenho medo de ir para lá. Tenho medo mesmo.

 
 
  • Denílson
Casa na PeriferiaDenílson (nome fictício) nos recebe em sua casa e, após um rápido aperto de mão, nos diz: “Vocês não precisam ter medo. Hoje estou de bom humor”.É evidentemente uma piada, mas nosso anfitrião, de 21 anos, que prefere não se identificar e pediu para que não citássemos as pessoas às quais ele se refere na entrevista, inicia o encontro com seu cartão de visita bastante peculiar, a idéia do perigo. Durante a conversa, que durou menos de meia hora, o desempregado Denílson nos falou sobre sua vida em Ermelino Matarazzo (zona Leste de São Paulo) e, principalmente, sobre o mundo do crime. Seguem abaixo trechos da entrevista. 
 

Você não tem medo de nos receber em sua casa?

 
(Risos) Boa pedida para começar o dia com a entrevista. Medo... Medo... Acho que não. Não tem nada para ser roubado aqui. Já não tem nem fogão, nem microondas, tá miséria. A confiança, isso é que precisa estar em pé, né? Eu recebo vocês e vocês não. É assim que funciona. Mas parece ser boa gente, então é bem-vindo com certeza.
Você nasceu em São Paulo?
 
Nasci em Cubatão, na Baixada Santista, né, com meu pai trabalhando no porto e minha mãe, minha mãe fazendo várias coisas. Ela era dona de casa, daí foi para o porto, daí para a feira... Fiquei lá morando por lá por 8 anos ou por uns 9 anos, daí minha tia convidou meu irmão e eu para morar aqui em São Paulo, no Tatuapé (zona Leste de São Paulo). Nós ficamos com ela até 97.
E depois?
 
Daí nós fomos cada um cuidar de suas coisas. Ele na borracharia do Minzé (nome fictício) e eu entrei no crime. (Risos) Não é assim que fala? Entrar no crime, engraçado? Só faltava aquela carteira assinada azul – daí ia ser uma preta, né? (Risos) Aqui em São Paulo, fiz uns furtos, peguei umas coisas, fazia uns bicos... Às vezes uma caranga, outra vez uma casa e assim foi até agora.
Nessa época, quando você fazia esses furtos era na Ermelino?
 
(Risos) Só vim para cá em 2001. Antes eu morava um pouco ali, daí ia para o Centro, pro Tatuapé dos amigos, daí também no interior. Me mudei bastante, mas aqui já faz um tempo que estou, pois fiz umas amizades boas, um pessoal firmeza. 
Você já fez furtos na Ermelino?
 
Que nada. Aqui não dá e não pode. Todo mundo te conhece e o pessoal é tudo teu amigo. Não dá nem louco. Essa a gente deixa para fazer lá fora, que é onde tem e que é onde dá. Aqui tem aquela coisa da gente ser unida, aquela coisa de grupo né, como na igreja, e daí não dá para fazer cagada, tem que manter a ordem no barraco e na comunidade. A ordem e a lei, né...
Fora da Ermelino não vale mais a lei?
 
Claro, tem a lei de fora, mas essa dá para não aceitar. (Risos)
Por quê?
 
É diferente; só isso. Lá não tem essa coisa da gente junto... Cada um na sua, né?
Como assim?
 
Na favela as pessoas não têm nada, vive tudo em barraco pior que o meu e seria mancada tirar deles. Nos bairros chiques que nem a [Vila] Olímpia e aquele lá do Shopping Ibirapuera tem de tudo, carrão, casão, um monte... E o melhor é que eles não me conhecem e daí dá para tirar um pedaço. De vez em quando...
Mas nesses bairros não tem leis?
 
Ter tem, mas não são feitas pra gente cumprir, né? Eles são dos bairros que têm as coisas e nós ficamos aqui na miséria e na tristeza. Daí eles têm carrão do ano, relógio de ouro, e nós com o despertador velho. Aqui falta de tudo, não tem asfalto, não tem água boa, não tem hospital, nada. A gente mesmo que faz as coisas e os caras lá de fora que não fazem nada. Daí é bom ficar esperto.
Quantos seqüestros você já fez?
 
Não muito não. Tem mano aqui que já fez uns 20, 30. Eu fiz cinco. Eu sou mais tranqüilo, e também não mato, não mato não, nem se precisar eu mato. Não gosto. Minha mãe reza muito e se ela fica sabendo que eu matei, ela me mata. Nem espera, me mata assim que sabe.
Ela sabe que você está no crime?
 
Que sabe que nada. Só faltava essa... (Risos)
Em que lugares da cidade foram os seqüestros?
 
Aí eu já não sei direito. Teve vários lugares, sei que lá no Ibirapuera, daí também na Alvim, também lá na  [Vila] Olímpia. O resto eu não sei direito os nomes. Também teve lá no Centro, mas daí foi bem rápido.
Cada seqüestro durou quanto tempo?
 
(Risos) Sei lá. Uma, duas, três horas. Teve um de um cara que esteve comigo por seis horas. Mas daí depende do lugar e dos caras, tem sempre algo que rola ou que não rola. Mas não quero falar disso não que pode dar problema.
O que fez com que você decidisse entrar no mundo do crime?
 
Eu trabalhava numa construção e o patrão só se aproveitava da gente. O pagamento não era bom e ele só faturando. O cara só ganhava em cima da gente. Isso dá raiva, né, hoje eu estou mais tranqüilo. Antes, eu falei com uns colegas meus e decidimos assaltar o lugar. Foi bem montado o esquema e não deu problema. Só não dava mais para trabalhar lá, né?
Como você escolhe suas vítimas?
 
Aí é fácil. É só o cara nunca ter visto você, nem te conhecer. Passou, esqueceu. Fora daqui, todo mundo é vítima, é fácil escolher. Todo mundo de carrão passando, só ficar esperto. Às vezes pela roupa, com uma gravata, um boné... A roupa é aquilo que... O tipo do cara é que chama a atenção. Tem que ser muito, muito sei lá, muito do tipo que pode ter dinheiro fácil. Os caras chamam o supermercado e pega o que quiser. É isso mesmo, sair daqui para pegar uns caras como no supermercado
Você toparia um emprego?
 
Ah, claro, todo mundo aceita. Mas não tem, né? Quando eu era pequeno, eu pensava... Eu olhava... Pensava que ia ser sei lá que tipo de emprego, mas daí, não deu, né? Essa coisa aqui está muito ruim, ruim para todo mundo. Daí o jeito foi fazer esse tipo de coisa, né?
Quando você seqüestrou as pessoas chegou a conversar com elas? O que elas falavam?
 
Ninguém fala nada. Eu gostava, até, conversava com os caras, mas daí os caras não responde. Também não dá, não tem nem carão de ficar puxando o papa, que os caras nem querem conversar. Nem eu no fundo. Tem que ser rápido. Passou, pegou, nem me viu.
Eles falavam para você não atirar?
 
Ah... Isso, né, é meio claro, né. Ninguém quer morrer por cagada, daí eles falavam, eles continuavam... O cara não quer morrer só assim, é muita burrice, é só ir rápido que passa. Claro que ninguém gosta de violência, a violência é uma merda, mas não tem jeito né. Eles têm o dom. Eles têm a grana, e nós precisando demais da conta dela, a grana que os caras têm e o barraco na miséria.
Você faz os seqüestros em grupo ou sozinho?
 
Não gosto muito de estar com mais cara, é muita treta, daí os caras podem estar nervosos, daí é foda. Eu fico tranqüilo e o cara comigo, o cara do carro, fica na buena também. Daí não tem galho, passa e se vai. Os caras que mexem, os caras do crime, é uns caras muito folgados, quer ficar, sei lá, fica assustando as pessoas. Daí se você acha ruim, eles gostam de quebrar o pau. Aqui perto mesmo, atrás do depósito e do córrego, tem uns irmãos, vixe, uns caras fodas, que sempre quer fazer maldade, ficam falando “vamos lá, vamos lá, acabar com os caras” e sei lá. Sempre os caras ficam arrumando briga, aquela coisa de mostrar que é mais macho que o playboy, daí só atrapalha. Os caras não levam a sério a parada. Só estão pela diversão.
E drogas, você não usa?
 
Aqui é difícil. Em toda esquina tem seis, dez caras te oferecendo, não digo que nunca usei, mas não aceito mais dos caras não. Mas eu nunca fui muito, nem a pau, desse lado não, esses caras são perigosos. Daí caiu na droga  é difícil viver. Não pode vacilar que fode tudo.
O que você conseguia dos seqüestros?
 
Vixe, isso depende... Tem uns caras que leva celular e dinheiro... Daí teve aquele que foi, um cara de carro importado, fomos até um caixa e o cara pegou uma boa grana, dinheiro grande. Mas não muito. Era muito rápido, não vou querer foder o cara que eu peguei, senão fica mal depois, não gosto disso, mas é viver assim, né?
E você já teve problema com a polícia?
 
Não vou dizer, como tem uns caras, você sabe, fica falando que está limpo. Eu falo, falo mesmo, sem medo, já né, várias vezes, mas daí sempre se dá um jeito. Mas não fui preso não, isso não que eu não agüentava, aquele bando de homem. Mas eles sempre vêm atrás da gente, que eles sacam logo a parada, mas comigo, graças a Deus, tô limpo.

 
 
  •  Leandro
Leandro (nome fictício) é policial de carreira. Vem de uma família de classe média e escolheu a profissão pelo gosto e pela vontade de fazer algo pela sociedade. Ele já passou por diversos departamentos e delegacias da corporação, como a de homicídios,  anti-seqüestro e até pela corregedoria. Na entrevista, ele analisa a situação da violência em São Paulo e conclui que, para acabar com o alto índice de criminalidade, é preciso agir com mais autoridade e autoritarismo em relação aos bandidos – ou vagabundos, como diz. 

 
Onde se localiza a violência hoje?
 
Tanto na capital quanto no interior. Não há mais diferenciação. Na capital, mais na periferia, pela posição geográfica. Nos diversos bairros, ocorrem diferentes tipos de crime, tipo nos bairros de classe média, alta, Jardins, Morumbi onde o mais comum é seqüestro-relâmpago, seqüestro, assalto. Nas periferias, interior litoral é mais o tráfico de entorpecentes. Você quer droga hoje, onde vai? Na favela. O tráfico na favela é um pouco mais antigo, mas hoje o Ecstasy, que custa caro, com cada pílula custando entre 30 e 50 reais, levou à prisão de pessoas que moram bem, têm bom nível social. Não é o cara que, infelizmente, tem que para chegar em casa atravessar um córrego, andar em meio de brejo, morando em barraco e passando frio e fome. O cara do Ecstasy tem família, mora bem, mas trafica. Essa droga também não entra em qualquer lugar. São festas Rave, boates etc.

E na periferia, nesses bairros mais violentos, qual o tipo de crime?

 
Brigas de gangues, desentendimento... A violência é banalizada, acontece a qualquer hora, dia ou noite. O enfrentamento com a polícia lá é grande, é por isso que se fala que a polícia vai lá e mata porque é periferia, mas não é isso. A posição geográfica, tem favela mesmo aqui em São Paulo mesmo na zona Sul, é muito mato, muita coisa perto, facilita a fuga e o pessoal tá bem armado. Enfrenta, a qualquer momento. Hoje qualquer um pode ser vítima de roubo, assalto, infelizmente, mas naquela região o pessoal se não mora lá, se concentra lá, o tráfico é maior. Você vai no bairro dos Jardins, nas mansões pode estar acontecendo algum tipo de crime, mas na favela você vê que lá sim, o tráfico é 24 horas, a polícia vai lá, isso tá sendo combatido e tem enfrentamento. É interessante.O porte de arma antes era considerado contravenção. Hoje é crime. Há uns dez anos atrás, prendia quadrilha de três quatro pessoas e algumas com revólver. Hoje, quadrilha de dez ou quinze tem fuzil, metralhadora, pistola de calibre proibido. O armamento existe e vai ser enfrentado por policiais. A população também está sofrendo, tá morrendo na rua em assalto com tiro de 45. Calibres que continuam restritos mas que você vê hoje na mão de marginais.

Isso não é um fenômeno mundial?

 
É. Em países não de primeiro mundo, o controle é menor. A polícia federal tem sete ou oito mil agentes para fazer o trabalho de fiscalizar coisas como o mar por exemplo, que facilita as coisas para o contrabando. Mas isso também tá vinculado à corrupção. A polícia é mal paga. Um policial com três qüinqüênios ganha 1.500, 1.600 reais, tem quinze anos de experiência já passou por situações que não é brincadeira, principalmente os da ativa, da rua. Isso é uma diferença de 300, 400 reais de uma pessoa que ingressa agora. E quem ingressa agora vai perceber que o policial tem gastos que são aqueles que você tem que ter... combustível, isso e aquilo, dependendo de onde você trabalha. E é por isso que bico agora todo policial faz...Como ele tem esses gastos, o policial tem duas opções: ele tem que trabalhar e está numa profissão que escolheu e gosta, mas é mal compreendida, paga mal... um exemplo: todo mundo está com medo da violência mas o policial vai de encontro da violência, vai de frente. Você tá no seu carro, já aconteceu comigo, na hora de folga, fazendo bico, fazendo nada e cruza com um assalto ele vai para frente, isso tá no sangue do policial, ele vai e faz mesmo, com risco de ser baleado. O bico, na hora que ele tem para descansar, é para arranjar um complemento, e ele tá sujeito a tudo o que ele se sujeita durante o serviço. E é na hora em que deveria estar com a família, no lazer, desfrutando. O bico então é necessário, pois você não quer ser corrupto. Convênio médico tem que ter, seguro, munição para treinar...Tem o Hospital do Servidor, mas é aquele negócio: para você ser atendido hoje tem muita fila. Tem desconto por ser funcionário, mas tem de ter seguro, escola de criança, e esse gasto tem que complementar, complementar o salário com o bico, se expõe a tudo. Infelizmente tem policial que é morto no bico e não recebe indenização do governo. Hoje se o policial morrer durante a atividade ele recebe uma gratificação, não é gratificação é indenização, também não seria isso...mas é como se fosse um seguro de vida, um prêmio que ele vai receber 100 mil reais. Agora se tiver de folga, no bico...não se entende que o cara que comete crime no bico, se não for preso vai cometer outro lá na frente em outro lugar. E pode escrever, o que acontecer lá no bico ele vai interferir, não vai dar as costas. Mas o bico, infelizmente, é necessário.

Mas como disse Hélio Luz no documentário de João Salles, a sociedade quer uma polícia honesta? Você acha hoje a polícia desprestigiada?

 
Mesmo no período militar existia um ditado: Diante do perigo, as pessoas chamam a polícia e rezam para Deus. Passado o perigo, elas esquecem de Deus e desrespeitam e desprestigiam a polícia. A polícia é boa e honesta quando necessária. A própria polícia tem a imagem de errada, na corrupção por exemplo, que não se investiga a fundo as causas. Você é mal pago e muitas vezes vai ter acesso privilegiado a situações onde pode-se ganhar muito dinheiro. Existem os maus policiais, gente que presta o concurso público já pensando em enriquecer, com salário inicial de 3, 5 mil reais. A ganância, essas coisas, já tá na índole dele, nasceu para aquilo. Agora o policial honesto, e aqueles fracos que é tentado pela situação. O salário de um policial não dá um dia de um traficante de ponta... É preciso primeiro pagar um salário decente para depois cobrar mas é óbvio que é ruim sempre para polícia porque se cometer algum crime, não importa, vai preso. 

Existe isso, de saber de antemão quem é suspeito?

 
Tem alguns policiais, infelizmente, que não têm a percepção. Quando você tá numa viatura, e como infelizmente o pessoal tem medo e não gosta da polícia, você tá numa ronda e você olha para o carro, fica encarando, a princípio aquela pessoa fica meio desconcertada, desvia o olhar, é uma coisa normal. Mas você consegue olhar aquele cara que ao desviar o olhar começa a ficar receoso. O policial acostumado com a rua sabe pelo jeito do cara. Tanto que você muitas vezes a polícia abordar um cara desarmado, você vai e puxa a ficha...tem várias passagens. Dá pra saber, suspeitar até durante a abordagem, tatuagem que tem seus significados...

E as viaturas com águias desenhadas e os caras usando óculos escuros, bem vestidos. Tem sentimento de status aí?

 
Essas viaturas são do GARRA ou do GOE, são de policiamento ostensivo. Eles enfrentam mesmo, tem até delegado baleado e morto. Mesmo no DENARC é muito alto o número de policiais baleados. Quanto ao gostar, ele já sabe que quando vai para aquele lugar ele vai topar com coisa pesada, ele vai bater de frente, uma coisa é eu estar num carro descaracterizado e ver algo acontecendo, uma descarga e desviar, numa favela e desviar; outra coisa é estar em uma viatura numa boca de droga em favela, os caras recebem à bala. São pessoas que têm no sangue... gostam daquela adrenalina, da investigação, do trabalho policial em si. Não de poder, hoje a polícia não tem mais essa, está subjugada. O status que eu falo é... “Nossa o cara é polícia, tá armado...” Hoje qualquer coisa, vão para cima do policial e até por isso a criminalidade chegou onde chegou pois ela não está sendo combatida de acordo, tá se deixando... Só tem dois lados: ou você é ladrão ou é polícia. Corre do lado certo, que a gente até pode dizer que é o lado do “bem”, que você vai combater de acordo com a lei e se o cara vai cometer crime, atentar contra a vida do policial ele vai ter que defender também... 

As estatísticas de violência hoje são confiáveis ou dados são manipulados?

 
Isso é difícil pois de certo modo coloca a polícia numa sinuca. Veja o caso do seqüestro-relâmpago por exemplo. Ele acontece na porta de sua residência, no momento que você chega e quando você sai. 90, 80 % é pego na porta da residência. Quando você é solto, a polícia vai lá para você prestar testemunho, para você bloquear seu cartão, seu talão de cheque qualquer coisa do gênero. Se amanhã ou depois houver reconhecimento e você mandar aquela pessoa para cadeia, aí tudo bem. O problema é que ninguém reconhece, e o cara não vai pra cadeia por que as pessoas têm medo, botam a polícia na sinuca. Se ele for para cadeia, o resto da quadrilha vai lá, sabe onde eu moro e me matam... mas não é assim! Entre eles existe uma união até determinado momento. Dali para frente não existe mais. O cara não vai se vingar de uma vítima, talvez de um vigia de rua, de segurança, de polícia também porque a gente fala “é a cara”: o policial tem uma função e o ladrão a dele. O problema não é com você que é vítima. Ninguém lá de fora vai vingar se você amanhã ou depois reconhecer, não é assim. A polícia leva até o distrito, ninguém reconhece e ele volta, pela minha experiência nesse tipo de crime.Quem tá do lado de fora não vai se vingar de uma vítima, a gente que é polícia sabe, normalmente não acontece entende? Eu combato esse tipo de crime no bairro onde eu moro, tem mais essa, nas minhas horas de folga pois tenho facilidade de informação e vou lá combater. O policial, por lei, é policial 24 horas por dia. A criminalidade cresce a cada dia...


A criminalidade cresce por quê?

 
As leis têm que ser mais duras. Veja uma lei boa: atentar contra a vida de policial em serviço aumenta um terço da pena. Tá cometendo um crime, a polícia persegue ele pode fugir, mas a partir do momento que ele atirar, pegar refém etc., tem a pena aumentada. A sociedade está mais violenta...A impunidade. Nessas favelas onde tem esses crimes que o traficante manda em tudo, em São Paulo mesmo, o cara manda na favela inteira sendo você ou não do tráfico. O traficante da favela que morava ali não mora mais, ele comanda lá, ele manda lá. E a lei dele é a seguinte: desrespeitou, morre. Às vezes um cara desses fugindo da polícia entra no seu barraco, você pessoa de bem, você tem que esconder o cara. Se você der com a língua nos dentes o tráfico vai lá e te mata. Lá é uma sociedade, lá, que assiste todo dia toda hora e vai banalizando. Quando a polícia vai lá esses caras não respeitam nada. Policial hoje é executado a luz do dia... Isso foi filmado, saiu na televisão... Imagina se o policial desse tiro. Iam falar que já chegou dando tiro e coisa e tal. É fácil julgar quando não se está naquela situação. O policial é um ser humano e não um robô, sabe que se tomar tiro vai morrer, pensa na família. E não sente medo na hora, sente depois, Se tem um assalto, ele vai em cima, com inconseqüência, as vezes se exalta um pouco, mas tá vendo um tiro vir contra ele e não para, só quando prendeu o cara.


PrisioneiroOs dois estão colocando a vida em risco, mas parece que a do bandido vale menos, até para ele, ou não?

 
Na medida em que se fiscaliza mais a polícia, o bandido tem mais poder para desmoralizar. Qualquer coisa que se fale de corrupção por exemplo, é preciso primeiro investigar. Policial pode ser só suspeito que já parece o suficiente. O bandido tá para o tudo ou nada. Nesse tudo ou nada ele acha que dois, três roubos e vai dar certo, sempre certo. Mas a distinção entre bandido e polícia, em certos casos, é a “funcional” que diz que um tá do lado da lei. Não é questão então de valor de vida mas de tudo ou nada. O policial tem de ver para onde atira, o vagabundo atira para todo lado muitas vezes de propósito para parar a perseguição. O cara sai de um assalto a banco e para desviar a atenção do policial que tá perseguindo ele, atira em pedestre, a esmo mesmo...

Você acha que tem governo mais fácil ou mais difícil de trabalhar?

 
Estamos no segundo governo Covas-Alckmin e você vê que cresceu o índice de criminalidade, não só isso mas a violência com que esses crimes são praticados, num determinado tipo de governo. O PT também descobriu que a fraqueza dos atuais governos está na segurança, então politicamente você tem que oferecer para a sociedade aquilo que ela não tem, o que este não está fazendo, mas isso não significa que você vai cumprir. Infelizmente, em certas épocas da história, a polícia que é eficiente é aquela que repreende até a tolerância zero. Mexer na lei, eu acho que mandado de busca e apreensão deve valer de noite porque dificulta para o vagabundo. O tráfico de entorpecente é de noite, não é de dia. Você só invade a qualquer momento se for caso de flagrante, desastre ou acidente grave, se é pra salvar alguém, por exemplo, agora, se eu estou com cinco quilos de cocaína em casa e alguém bate na porta eu jogo tudo na privada e pronto, ou seja, de noite se você invade e acha você prende e se invade e não acha você é preso, processado por abuso, invasão, um monte de coisa. Na lei, você pode dar condições da polícia trabalhar, você pode fiscalizar para que ela aja direitinho, dentro dos conformes, controlando o uso da violência. Você tem como melhorar o trabalho da polícia, mexendo na lei. Aumentando a pena do usuário de droga, por exemplo, de quem enfrenta a polícia.A polícia vai agir de acordo com a lei e se você der mais condições dentro da lei, a coisa melhora. Melhorar não é deixar matar, pendurar, fazer e acontecer. Claro que a polícia tem de combater a violência no nível dela, se o cara chegar e atirar tem que haver troca de tiro, tem que estancar, parar e nesse ponto exercer o poder de polícia é força, não tem jeito, por que se for o contrário ele passa por cima do policial, o que está acontecendo ultimamente. Hoje ele tá agredindo um policial amanhã ele agride outra pessoa. A polícia tem sempre que estar mais bem preparada e mais armada. Olha, isso já aconteceu comigo: você tá na viatura, vê um carro suspeito e dá sirenada para o cara parar, uma duas três vezes e o cara não pára. Você puxa a placa e nada consta. Pera lá, pode ser furto recente, vítima no carro e você persegue, o cara dá rodopio, você dá tiro no pneu. O cara provocou essa situação para que a polícia agisse daquela forma. Numa atitude suspeita ninguém vai dar tiro mas acidentes podem acontecer e quem provoca é um cara que pode estar embriagado. "N" situações acontecem e não vou justificar arbitrariedade e até homicídio, que acontece mesmo, mas você tá julgando uma situação que ele tá ali na hora, é a vida dele. Os caras tão clonando viatura da polícia...Vê só a audácia e o abuso. A partir do momento que você vê a audácia do vagabundo, você tem que ver como a polícia faz para conter aquilo. Se para conter o cara tem que matar, então a polícia tem que matar. Vai deixar ele matar dois três e assim por diante? Como é que fica? E a vida do polícia que está em jogo? Não é que a PM tá violenta de novo, a sociedade está violenta. Briga na rua, tráfico de entorpecente infiltrado em todas as camadas da sociedade, veja o Ecstasy.

 
 
 

 

Na favela ou nos Jardins, a abordagem policial é a mesma?

Se você participar do mundo policial você vais entender isso. Estou invadindo bares por causa do tráfico de entorpecentes, nas vielas da favela eu estou mais propenso a tomar um tiro, pela posição geográfica que nos Jardins. A polícia sabe onde ela vai e o que faz, conhece a região que patrulha. Nos Jardins cê vê os caras mais de nível com carro bom, pode ser amigo deste ou daquele, mas você aborda e naqueles lugares não tem tanto lugar para ele correr, não tem mato e o cara não vai pular muro de mansão para se esconder. Na favela tem lugar de sobra. Na favela a polícia vai mais precavida,  pois a reação das pessoas é mais contundente que nos Jardins. Quem mora na periferia e é ladrão vai roubar onde? Nos Jardins... O tipo de ocorrência é diferente nos dois bairros. No Morumbi, por exemplo, você gente de fora indo roubar lá. Na favela o cara da boca de droga tem um mapa da favela, o que não é brincadeira, mapear uma favela. É uma abordagem técnica que as pessoas não entendem e aí...
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