Primeiros
passos
A
metrópole e a violência estruturam uma à outra,
criando uma rede de relações indissociáveis:
quando uma anda, a outra acompanha e estão juntas quando paradas.
Fazem parte do mesmo cenário; do mesmo recorte da contemporaneidade.
São dois fenômenos# espaço-fato colados
e interdependentes. Assim como Durkheim elaborou, a partir do estudo do
suicídio, uma análise de sua sociedade, é possível
entender o espaço urbano a partir da análise das manifestações
do crime; isto é: colocando a violência
como um determinante da cidade e da conseqüente cidadania.
“Tanto quanto a norma, a
violência, como forma ou resultado de sua transgressão, constitui
também ela uma linguagem através da qual uma sociedade nos
fala do seu modo de organização, dos valores que reputa fundamentais,
da sua concepção sobre o mundo, a natureza e o sobrenatural,
e do lugar que nela ocupa a vida humana, como princípios ordenadores
da vida associada ”.
No entanto, no Brasil, e
especialmente em São Paulo, a violência parece ser apenas
decorrência do caos e agente multiplicador da confusão. É
isso que nos dizem, pelo menos, os veículos de comunicação
que divulgam crimes: parece haver uma turba de bandidos inatos que seria
a causa única da violência.
“Puisque le suicide
est un acte de l´individu qui n´affecte que l´individu,
il semble qu´il doive exclusivement dépendre de facteurs individuels
et qu´il ressortisse, par conséquent, à la seule psychologie
”.
No caso da violência
em São Paulo, a perspectiva é a mesma, pois os criminosos
surgem sempre personalizados, individualizados, descontextualizados – sua
vida inteira se resume a um ato: o crime, e sua personalidade a uma
característica: a maldade. Em todos os níveis, lhe
é negada uma biografia social e, por isso, há a renúncia
ao entendimento dessa linguagem de violência e,
mais adiante, da cidadania do espaço habitado.Por outro lado,
toma-se como escândalo e perversão a idéia da violência
como fenômeno social. A violência, como a existente em São
Paulo, aparece não como uma conseqüência da
correlação de forças e ditames estruturais da cidade,
mas como hostilidade ou pura agressão. É mais ou menos
a essa conclusão que Da Matta chega ao vislumbrar uma etnografia
da violência: pensa-se nela apenas como uma relação
corpo a corpo. Quem faz uso da violência, seja lá em que forma
esta se manifeste, é um corpo ruim, um homem mau e do mal.
“Assim sendo, a
violência como a sorte têm uma distribuição apenas
associativa com certas categorias sociais. Elas ‘sorriem` para os pobres,
muito mais do que para os ricos, porque os pobres são mais fracos
e apostam muito mais nas nossas loterias”
.
A violência é
então considerada uma questão do acaso. Perde-se a linguagem,
o fluxo de dinamismo entre a cidade e suas manifestações,
anula-se o discurso social. Essa mesma linguagem que, como a da norma,
estabelece padrões sociais, estratégias de sociabilidade,
inserções e deserções da vida em coletividade
– toda a infinita e complexa estrutura social, na linha do micro ao macro-entendimento
do conceito. Cerra-se nesse ponto as portas da compreensão dos significados
da vida em sociedade, mesmo que a lucidez se dê por meio de aparentes
mazelas. Mas, recuperando Montes, a violência exprime a vida em sociedade,
define a cidade e a cidadania. E o que é essa vida em sociedade
que emerge com a violência?
“Alguns grupos sociais
[...] não são apenas desprovidos de poder, são também
desprovidos de significação como possuidores de uma identidade
coletiva reconhecida. São os trabalhadores pobres sem atividade
fixa, as mulheres e seu espaço doméstico, os velhos, as crianças,
os negros, os homossexuais, os loucos, os criminosos, condições
enfim variavelmente comuns que atravessam situações de classe
dadas. Seu mundo de significações não emerge no plano
público; pelo contrário, submerge no cotidiano, no privado,
no imóvel, no local
”.
É
a partir então dessa micro-história que se pode entender
o que está em jogo na vida em São Paulo hoje. Há uma
série de valores e de idéias de comunidade e laços
– ou rupturas – de sociabilidade que está sendo provocada, mas que
se mantém silenciada, pois não interessa, não pode
ser, não se conforma. Essa tensão é a chave da compreensão
da cotidianidade: no que geralmente é visto como insignificante,
encontra-se o fundamental, a chave que abre as portas da ordem social,
de sua coerência, de suas estruturas. É o fio de Ariana que
aqui será usado para ingressar no trinômio cidade-violência-cidadania,
buscando indícios de ordenamento e de organização.
Como já foi dito,
parece não haver algo mais sem sentido do que a criminalidade de
São Paulo. Não se fala aqui em termos de estatística,
mas de como a violência afeta a vida das pessoas.
“A violência
brasileira seria um modo permanente de relacionar e de buscar a totalização
dentro de um sistema vivido e percebido como fragmentado, dividido e dotado
de éticas múltiplas. Neste sentido ela serviria tanto para
hierarquizar os iguais quanto para igualar os diferentes
”.
Em São Paulo, o fenômeno
é difícil de perceber e de definir; dir-se-á: todos
são potenciais bandidos, e todos são potenciais vítimas.
Essa expressão do senso comum – direta e indiretamente perceptível
nos relatos que seguem essa introdução – expõe um
quadro em que as pessoas não sabem mais quem são, o que fazem,
o que se espera delas. Não é uma condição fortuita:
“A lógica
cultural do capitalismo tardio desenvolve-se na pluralidade, na descontinuidade
e na fragmentação, produzindo um cotidiano de riscos e incertezas.
Trata-se de uma época de ruptura do contrato social e dos laços
sociais, provocando fenômenos de ´desfiliação`
e dilacerando o vínculo entre o eu e o outro ”.
A contemporaneidade é
também o locus da impessoalidade: onde e quando todos são
todos, ninguém é ninguém. E, concomitantemente, a
violência adquire essas características. Não
que antes os crimes fossem tidos como manifestações mais
nobres – não nos perderemos pelos meandros dos que consideravam
a violência como um mecanismo de resistência dos pobres em
relação aos burgueses –, mas eram certamente menos violentos
e não tão comuns. Até mesmo a função
do criminoso muda. A visão do bandido rural de Hobsbawn certamente
não se encaixa na do assaltante da São Paulo de hoje:
“Le bandit est un
homme à part et un rebelle; c´est un pauvre qui refuse d´accepter
le rôle traditionnel des pauvres et qui acquiert sa liberté
au moyen des seules ressources dont il dispose, à savoir la force,
la bravoure, la ruse et la détermination
”.
A identidade do criminoso
mudou, como também mudou sua forma de ação. O próprio
policial entrevistado (como se verá adiante ) avalia a mudança
na violência: houve uma passagem dos roubos a bancos para os seqüestros.
Isto porque os bancos começaram a se preocupar mais com sua segurança
e seqüestrar alguém no reino dos desconhecidos, acaba se tornando
menos perigoso e mais vantajoso. De fato, é o tipo de crime em que
parece bastar ter vontade e uma arma para que seja possível.
O seqüestro-relâmpago
parece surgir então como o crime típico da contemporaneidade
urbana. De fato, de todas as características antes enumeradas sobre
a vida na metrópole, esse tipo de ação é o
que delas mais usufrui : impessoalidade, individualização,
aleatoriedade e velocidade. É o que evidencia a letra da música
Capítulo
4, Versículo 3 da banda Racionais:
“Se eu fosse aquele cara
que se humilha no sinal,
Por menos de um
real,
Minha chance era pouca.
Mas se eu fosse aquele moleque
de touca,
Que engatilha e enfia o
cano dentro da sua boca,
De quebrada. Sem roupa,
você e sua mina,
Um, dois! Nem me viu! Já
sumi na neblina! ”.
Apenas
a metrópole pode ser o espaço de um ato como esse – e não
qualquer espaço urbano; especialmente casos como o de São
Paulo, onde também impera a desigual distribuição
das riquezas e das oportunidades.
“Um crime rentável
e de execução fácil. Para especialistas em segurança
pública, essas são as características que têm
contribuído para o aumento do número de seqüestros no
Estado de São Paulo. Para Nancy Cardia, coordenadora do Núcleo
de Estudos da Violência da USP (Universidade de São Paulo),
a ‘mentalidade empresarial’ dos seqüestradores provocou o crescimento
do número de seqüestros aleatórios – aquele em que não
há planejamento prévio de quem será a vítima,
que não precisa da aquisição de um cativeiro e no
qual o tempo de permanência e os valores pedidos pelos resgates são
menores. ‘Os criminosos percebem que esse tipo de seqüestro é
de baixo risco e alta lucratividade. De baixo risco porque eles dificilmente
são pegos e, quando isso acontece, as quadrilhas os resgatam nos
presídios. E a alta lucratividade reside na impunidade aliada a
um grande número de ações que gera dinheiro rápido
e fácil’, afirma
”.
A grande maioria dos seqüestros
desta cidade é, de fato, banal e de outro tipo que os apresentados
por Gabriel García Márquez em “Notícias de um seqüestro”,
por exemplo. Não há aura alguma, nem espírito de luta,
nem aparente organização. Há sempre essa impressão
que se está lidando com a fatalidade e a corrupção
da mente de alguns – isto se reflete na dificuldade que encontra a lei
para definir este crime e enquadrá-lo.
Se é difícil
reconhecer o criminoso, a vítima, o local do perigo e o tipo de
ação, é do mesmo modo complexa sua definição
legal. O Ministério Público do Rio Grande do Sul avalia que
“acontece quando o autor,
mediante violência ou grave ameaça, constrange a vítima
a lhe entregar seus pertences que possui no momento ou que estão
em sua residência ou, o mais comum, entregar seu cartão de
crédito e se dirigir a um caixa eletrônico para retirar dinheiro
obrigando a vítima a lhe fornecer a senha” .
Na continuação
do texto, entretanto, é salientado que há diversas teorias
em relação a sua configuração. Cito as três
principais:
-
“Entende-se que “o impropriamente
denominado ‘seqüestro-relâmpago’, na hipótese de o autor
constranger a vítima a lhe entregar o cartão magnético
e fornecer a senha, constitui crime de roubo, encerrando-se então
o crime de seqüestro”.
Essa é a visão
majoritariamente dominante no Estado do Rio de Janeiro.
-
“O segundo posicionamento defende
que o fato de o autor obrigar a vítima a lhe entregar, além
d o cartão, a senha, com isso dependendo da ação da
vítima, tipificaria o crime de extorsão. Esta orientação
sustenta que a diferença entre o roubo e a extorsão está
na dispensabilidade ou indispensabilidade da conduta do sujeito passivo.
Ambos crimes dependem de violência física ou grave ameaça,
mas a extorsão depende necessariamente da colaboração
do sujeito passivo”.
É a interpretação
mais comum, usada no Supremo Tribunal de Justiça e fundamentada
nas varas criminas de Minas Gerais.
-
“Defende-se o concurso formal
entre o roubo e o seqüestro ”.
Nessa análise, o
seqüestro-relâmpago seria então considerado crime
hediondo – postura defendida em São Paulo.
Entre roubo, extorsão
e crime hediondo, o seqüestro-relâmpago é, no mínimo,
controverso. Não cabe a nós a avaliação da
melhor interpretação, mas a observação de que
o grande leque de visões apenas caracteriza uma evidente dificuldade
em se entrar em acordo sobre como enquadrar esse tipo de crime. Por outro
lado, é igualmente interessante a posição da polícia,
vista em uma perspectiva preventiva e teórica. Abaixo, “dicas” fornecidas
pela Seção de Pesquisa e Doutrina da Academia de Polícia
Civil do Distrito Federal sobre como evitar casos de seqüestro-relâmpago
:
-
As vítimas são
geralmente abordadas em seus veículos ou perto deles. “Portanto,
a pessoa deve ter máxima cautela ao aproximar-se ou sair do carro”.
-
A arma mais utilizada para intimidar
as vítimas é o revólver.
-
A maioria das vítimas
é do sexo masculino e está só.
-
Os criminosos agem em duplas
para causar mais intimidação. Geralmente, um permanece com
a vítima enquanto o parceiro faz saques em caixas.
-
Em Brasília, onde esse
tipo de crime mais acontece é a Asa Sul.
-
A maioria dos casos acontece
à noite, entre 19h e 20h e 23h e 24h.
-
Os veículos mais visados
são Gol e Corsa.
Novamente comparando com
as proposições de Márquez, a vítima deixa de
ser uma pessoa notória ou politicamente importante, e se torna qualquer
um: o proprietário de um veículo popular, um homem
só no carro, alguém que tem o azar de passar por tal bairro
a tal hora. Há obviamente especificidades no caso de Brasília,
em comparação com o de São Paulo, mas nesta não
parece ser diferente. É justamente isso que tentaremos analisar
nesse trabalho: como o crime, especialmente o seqüestro-relâmpago,
se encaixa no quadro da cidade e como participa na constituição
da cidadania.
Para isso, e sem pretender
fazer deste estudo algo completo, realizamos três entrevistas:
com uma vítima de seqüestro, um seqüestrador e um policial.
Na parte que segue, as transcrições dos principais trechos
deste material poderão ser lidas. Depois, voltando à citação
de Montes e obviamente baseados em vasta bibliografia que fundamentará
nossa linha de pesquisa, tentaremos ler a cidade por meio destes poucos
relatos. Em um primeiro momento, trabalharemos a constituição
da cidade, particularmente São Paulo, e veremos como a violência
se coloca no dinamismo da cidade. Em um segundo momento, estabeleceremos
relações entre as # entrevistas para tentar criar um
tipo de diálogo entre esses atores que geralmente não se
falam muito – a não ser em casos de evidente tensão. Essa
etapa poderá fornecer pistas para uma interpretação
da relação entre cidadãos nas metrópoles, tendo
em vista novamente a capital paulista.
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