Este
artigo objetiva elaborar uma narrativa das formas de ocupação
e usos de um espaço urbano da cidade de João Pessoa de grande
visibilidade local, o Parque Sólon de Lucena, mais conhecido
como a Lagoa
.
Parte de um levantamento do humano e da paisagem local, e procura elaborar
um roteiro narrativo que abarque desde os diversos tipos que ali trafegam,
como ocupam o lugar, os problemas e formas de os enfrentar que apontam,
até os desenhos de sociabilidades e da memória visual, espacial,
temporal e afetiva que possuem do espaço.
Busca,
deste modo, compreender o conceito e os sentidos de pertença vivenciados
pela população de João Pessoa que freqüenta o
local, através da narrativa dos informantes sobre o Parque. Para
quase todos os informantes com quem conversei durante as várias
caminhadas em vários dias da semana e diversos horários durante
a minha estada em campo, bem como para o imaginário da cidade, da
mídia e das agências de turismo local, o Parque Sólon
de Lucena é visto como um grande cartão postal da cidade.
Situado
no centro da cidade de João Pessoa, o Parque parece ser um espaço
por onde se pode compreender os sentidos de pertencer a um determinado
lugar (KOURY, 2003), e entender como os moradores
desenvolvem esse sentimento. A questão que me proponho, então,
é mostrar e pensar o Parque enquanto local onde se visualiza os
elementos emocionais da pertença, enquanto construto subjetivo de
viver a cidade.
O
Parque na Cidade
O
Parque
Sólon de Lucena ou a Lagoa é um espaço público
dos mais conhecidos de João Pessoa, inclusive considerado um dos
cartões postais principais da cidade. O local era conhecido até
as duas primeiras décadas do século XX pelo nome de Lagoa
dos Irerês (Foto 1),
como contam os cronistas da cidade, uma espécie de ave que habitava
o lugar , ou simplesmente a Lagoa (AGUIAR & OCTÁVIO,
1985). Era uma área formada por um conjunto de pântano, vegetação
e lagoa acumulada das águas das chuvas e, em suas imediações,
e nas áreas a ela circunvizinhas existiam inúmeros sítios
e chácaras (MAIA, 2000).
Foto
1 – A Lagoa (dos Irerês) antes da urbanização e de
se tornar Parque Sólon de Lucena
(Créditos: Walfredo
Rodriguez)
A
área que circunda a Lagoa passou a ser chamada de Parque Sólon
de Lucena através do Decreto Lei nº 110, de 27 de setembro
de 1924, durante o governo de Sólon de Lucena, mas foi só
nos anos trinta, durante a administração de Argemiro de Figueiredo,
que o projeto ganhou forma urbanística, com “o calçamento
dos anéis internos e externos da Lagoa” (O Norte, 20 de janeiro
de 2004) e jardins.
Sua
inauguração oficial como Parque urbanizado se deu em 1939
(Foto 2). Os jardins
da Lagoa foram projetados pelo paisagista Burle Marx (Foto
3) e o projeto fez parte de um conjunto de modificações
que visaram o disciplinamento, o embelezamento e o saneamento das vias
urbanas, na nova racionalidade sobre as cidades que começa a ser
implementada no Brasil, e na cidade de João Pessoa, em particular,
desde os finais do século XIX e, principalmente, a partir dos anos
vinte do século XX (KOURY, 1986).
Foto
2 - Parque Sólon de Lucena nos anos quarenta (Foto: Luiz Farias).
O
Parque foi tombado pelo IPHAEP - Instituto do Patrimônio Histórico
e Artístico da Paraíba em 26 de agosto de 1980, através
do decreto nº 8.653, e ocupa uma área desapropriada de 150
mil metros quadrados. Em 1985 seu espaço físico passou por
um processo de recuperação e reordenamento.
Foto
3 - O traçado do Parque Sólon de Lucena tendo como centro
o espelho d’água da lagoa.
(Créditos:
PBTUR)
Cartão
Postal (Foto 4) e endereço turístico
importante da cidade a Lagoa, hoje, é também um ponto central
de tráfego de veículos e fluxo de habitantes da cidade que
por lá passam, ou pegam ou saltam de transportes urbanos para deslocamento
pelo Centro da cidade ou para ida a outros bairros. A área onde
se localiza é responsável por parte considerável da
movimentação econômica através as lojas de departamento,
escritórios, bancos, barracas de lanches e bebidas e, principalmente
por causa do comércio informal que se amplia dia a dia.
O
jornal O Norte, de 20 de janeiro de 2004, afirma que por lá circulam
diariamente mais de 2,5 mil automóveis e todas, ou quase todas,
as linhas de ônibus da cidade, além de um fluxo diário
de mais de oitenta mil pessoas. O que torna o local em um dos pontos mais
agitado e movimentado da capital.
Foto
4 – Vista aérea atua do Parque Sólon de Lucena (Foto: Mazaomi
Mochizuki).
A
Lagoa, no presente, é uma área disputada por pedestres, com
paradas obrigatórias de todas as linhas de transporte coletivo que
por lá passam, e carros, que cortam o Parque em várias direções
e disputam o seu espaço como forma de estacionamento. É também
um local com concentração de flanelinhas e desempregados.
Na
circunvizinhança do Parque funciona um variado comércio
e os principais serviços públicos da capital, bem como lá
estão estabelecidas as principais lojas de departamento da cidade.
É um espaço também de pequenos delitos
e de acúmulo do comércio informal.
A
Lagoa é uma área de múltiplas formas de ocupação
e presença. Ocupações e presenças que vão
desde o fluxo contínuo de transeuntes, a pé ou em carro e
transportes coletivos, até como um espaço de lazer para várias
categorias de moradores, para namoro de colegiais e comerciários
e, à noite, local de prostituição tanto masculina
e feminina e de boêmios que vivem a madrugada, tanto quanto de local
de dormida para moradores de rua.
O
Parque, também, é um núcleo central de festividades
oficiais da prefeitura e do estado: festejos de Natal, São João,
entre outros, também fazem do espaço um centro de referência
da cidade. Nas décadas de cinqüenta e sessenta a Lagoa foi
palco de uma passagem obrigatória para os movimentos estudantis
e atos políticos na cidade, bem como no decorrer dos anos finais
da ditadura foi palco de comícios pela redemocratização
do país e pelas eleições diretas (KOURY,
1983).
Continua
ainda hoje a preencher e dar visibilidade às várias formas
de ação reivindicativas, sociais, esportivas, políticas
e eleitorais da cidade. Em tempos de eleições, serve de palanque
para políticos e suas margens e calçadas são ocupadas
por uma variada onda de bandeiras e faixas de vários candidatos.
Todas as manifestações públicas, de acampamento de
sem terra (Foto 5) e passeatas de protesto e reivindicação
também por lá circulam, começam ou acabam. Manifestações
cívicas e esportivas também têm seu lugar na lugar
na Lagoa.
Foto
5 - Acampamento na Lagoa pelo MST.
(Crédito:
Jornal O Norte On-line, de 12 de abril de 2004).
Como
espaço turístico, cartão postal da cidade, com vários
tipos de usos e contornos na atualidade e através do tempo, o Parque
Sólon de Lucena é um espaço de memória afetiva
(KOURY, 2003) e um dos ambientes mais significativos
para o estudo sobre a relação entre moradores e áreas
públicas em João Pessoa.
Percorri
por várias vezes o espaço público do Parque Sólon
de Lucena, recompondo todo o seu trajeto e mapeando as avenidas, ruas e
becos que nele deságuam. Esta caminhada, em vários horários
do dia, objetivou conhecer os tipos permanentes e temporários que
usam ou trafegam pelo Parque, e conversar com algumas destas pessoas que
por ele andam nos vários horários.
Esse
trajeto que aqui começo a narrar buscou apreender e acompanhar o
movimento sempre variado e as formas de apropriação, temporárias
e permanentes, da população que o freqüenta. Bem como
os motivos de o freqüentar, o que possibilitou uma percepção
de vários olhares sobre o local trabalhado nos diversos momentos
de sua utilização pelos informantes que se propuseram a comigo
conversar.
Os
horários da caminhada foram distribuídos em diversos
momentos. De passeios matinais ao redor da Lagoa, dando conta do afluxo
da população para mais um dia de estudo, comércio,
serviços, compras, passeios, turismo, ponto de transferência
de um ponto a outro da cidade e outras diversas formas de utilização
do espaço, até o esvaziamento do centro da cidade e da Lagoa
no final de mais um período diurno. A estada em campo nas noites
procurou identificar as formas de ocupação noturna do espaço
por boêmios, prostitutas, travestis e michês e poucos transeuntes
em busca de transporte público ou passagem para um outro local da
cidade. As caminhadas, assim, se deram nos seguintes horários, das
06 às 09hs; das 09 às 12hs; das 12 às 18hs; das 18
às 20hs e das 20hs às 06 hs da manhã
.
O
Parque Sólon de Lucena, para uma melhor apreensão do pesquisador,
foi dividido em cinco núcleos. Os núcleos foram baseados
nos diversos canteiros que dão o formato, obtendo uma visão
conjunta da Lagoa, e possibilitando a apreensão das diferentes formas
de ocupação por núcleo.
O
primeiro núcleo compreendeu a parte da Lagoa que vai da Avenida
Getúlio Vargas a Avenida Miguel Couto, espaço que envolve
o ambiente das paradas de ônibus e os quiosques; o segundo núcleo
abrangeu a parte que vai da Avenida Miguel Couto até a Rua Padre
Meira, o lugar de flanelinhas, pontos de estacionamento de veículos
e quiosques e, à noite, local de boêmios e prostituição
feminina
; o terceiro núcleo abarcou a parte que vai da Rua Padre Meira até
a Rua Rodrigues de Carvalho, espaço reservado, durante o dia, aos
negociantes de carros usados e, à noite, ponto de prostituição
masculina; o quarto núcleo, que vai da Rua Rodrigues de Carvalho
até a Avenida Getúlio Vargas, onde se encontra o conhecido
Cassino da Lagoa; e o núcleo cinco, a calçada em torno do
lençol de água da lagoa, chamado de Passeio da Lagoa, parte
interna do Parque, onde os moradores da redondeza costumam fazer suas caminhadas
(Mapa I).
Freqüentadores
e transeuntes
O
Parque Sólon de Lucena é um pulsar de diversos tipos humanos
que o freqüentam de formas diversas e períodos distintos, ali
trafegam, trabalham, namoram ou, até mesmo, fazem de suas árvores
dormitórios ou moradias. São moradores do centro que fazem
caminhadas matinais, aposentados que freqüentam os grupos de dominó,
estudantes, namorados, cambistas, boêmios, prostitutas, travestis,
trabalhadores de diversas profissões, taxistas, policiais, guardadores
de carro conhecidos por flanelinhas, donos de quiosques e barracas,
camelôs, políticos, moças e rapazes que fazem panfletagens
nos períodos de eleição, meninos de rua, pedintes,
turistas, transeuntes, - vistos de uma forma geral, como pessoas que freqüentam
o local apenas de passagem, seja estacionando o carro, ou nas paradas de
transportes coletivos (Foto 6), e ou esperando alguém, ou utilizando
o serviço gratuito de ônibus para a orla marítima
, entre outros.
Foto
6 - Uma das paradas de ônibus no Parque Sólon de Lucena
(Foto:
Mano de Carvalho – Agência Ensaio)
A
Lagoa, das 09 horas da manhã às 20 horas é um centro
nervoso e agitado. Entre seus canteiros passam milhares de pessoas diariamente,
possui um tráfego pesado que a circunda entre suas várias
artérias, e uma variedade de tipos humanos que por lá circulam
ou permanecem cotidianamente, de quase todos os bairros da cidade. À
noite, fora os dias de festas e comemorações públicas,
que atrai uma enormidade de pessoas, ganha uma aparente calma.
Os
tipos que por lá transitam escasseiam e transmudam. Os quiosques,
abertos vinte e quatro horas, começam a acolher trabalhadores que
saem do trabalho e esticam um pouco sua permanência, - até
às 21 hs, de segunda a quinta feira, e 22 e 24 horas na sexta feira,
- na região Central da cidade onde se localiza o Parque, “jogandoconversa
fora” ou esperando diminuir o afluxo nos ônibus e transportes
coletivos e retornarem a seus bairros. Outros freqüentadores começam
a usar o espaço a partir de então, e em certos horários
de forma simultânea. Boêmios, que por lá trafegam durante
toda a noite, prostitutas, travestis, michês e moradores de rua que
dormem entre as árvores e nos bancos espalhados pelos diversos canteiros
do Parque dão o novo colorido ao ambiente e um novo modo de apropriação
do lugar.
O
policiamento escasseia, a partir das 20 horas, e a Lagoa ganha um novo
formato para os usuários da noite, com linguagem estética
própria, que a diferencia e atemoriza o cidadão joãopessoense
que a freqüenta nos períodos diurnos.
Nos
finais de semana a ocupação diurna da Lagoa se distingue.
O comércio fechado faz com que os freqüentadores habituais
da semana fiquem em suas casas ou vão se divertir em outros locais,
como a orla, seus bares, praia e shopping, ou outro Parque, como o Arruda
Câmara, também conhecido como
a bica, entre outras
formas de inserção de descanso e lazer da cidade.
O
local é, então, ocupado por grupos evangélicos que
assumem vários canteiros do Parque em rodas de pregação,
moradores em seus footings matinais e de final de tarde e alguns
turistas, principalmente os vindo do interior do estado, passeiam pela
Lagoa e usam os seus quiosques para almoçar ou lanchar com a família
e tirar fotografias. A agitação, o trânsito e transeuntes
diminuem. À noite, o comércio de prostituição
masculina e feminina prossegue; a freqüência de boêmios,
mendigos e meninos de rua diminui um pouco.
O
Parque Sólon de Lucena, apesar de ser um dos locais mais agitados
da cidade, tem uma peculiaridade na sua freqüência. Mesmo contanto
com os transeuntes temporários, quem freqüenta ou transita
o Parque, em sua maior parte, são indivíduos com até
10 salários mínimos de renda, isto é, com uma renda
até três mil reais, e que estudam ou trabalham nas imediações
do centro, ou que vão resolver negócios ou transações
nas repartições públicas da cidade.
Com
o desenvolvimento da orla marítima como não apenas local
de moradia, mas também em comércio e lazer, a partir dos
anos cincoenta e, principalmente a partir dos anos setenta do século
passado, o centro da capital começou a passar por um processo de
decadência. O seu comércio é áreas públicas
de lazer hoje, são disputados, principalmente, pelas camadas populares
da população da cidade, a classe média e média
alta circulam principalmente pelos shoppings e áreas de lazer
da orla.
O
que não quer dizer que a cidade como um todo, grosso modo,
não passe pelo Parque pelo menos uma vez por dia. No survey aplicado
pelo GREM em apenas um único dia, durante todo o dia 04 de agosto
de 2004, com uma amostra de 181 indivíduos, foram entrevistados
moradores de cinqüenta e cinco bairros da cidade. Bairros situados
e espalhados por toda a rede urbana que compõe o município
de João Pessoa
. Os bairros considerados de classe média e média alta são
7,74% do total da amostra. Os demais bairros são de classes média
baixa e popular. Somados dão um total de 72,38% dos freqüentadores
do local entrevistados durante o survey.
Uma
outra parcela de entrevistados é formada por moradores de cidades
da região metropolitana que trabalham em João Pessoa, 18,78%
dos entrevistados
, ou moradores de cidades do interior paraibano em negócio ou passeio
pela capital, 1,10%. Para os moradores da região metropolitana
a Lagoa é sinônimo de trabalho; os entrevistados são,
em sua maioria, camelôs ou trabalhadores diretos, garis, garçons,
garçonetes, entre outros, do Parque. Para os das cidades do interior,
o viver a Lagoa ou o ir visitar e freqüentar o Parque é um
sinônimo de conhecer e viver a cidade. Ir a João Pessoa e
não visitar a Lagoa é não ter estado na cidade.
Durante
as minhas caminhadas durante a semana e fins de semana, conversei com vários
interioranos deslumbrados pelo espaço físico do Parque Sólon
de Lucena e da necessidade de tê-lo incluído em seu roteiro
pela cidade. Vários ônibus com turistas aportam nos canteiros
do Parque, principalmente nos fins de tarde, trazendo levas de turistas
do interior que vêm conquistar a Lagoa.
É
interessante notar que, mesmo os que se mudam para a capital, por alguns
anos ainda registram a Lagoa como um ponto de encontro e lazer na cidade.
Muitos dos que circulam nos finais de semana, ou mesmo durante a semana
na cidade, fazem suas refeições nos quiosques da Lagoa, e
“tomam uma cerveja com amigos” e familiares, ou marcam encontro
tendo por referência o Parque. O Parque Sólon de Lucena, deste
modo, para os moradores de outras cidades, é um ponto de referência
da cidade e na cidade, um símbolo da capital.
Amor
e desamor: a ambivalência da emoção pertença
É
importante lembrar, contudo, que para o conjunto dos moradores da cidade
o Parque Sólon de Lucena simboliza também um marco importante
de reconhecimento de João Pessoa. Quando se pergunta sobre os pontos
que são o rosto e a alma de João Pessoa, um dos primeiros
a serem lembrados é o Parque, conhecido por a Lagoa. Em um estudo
realizado para obtenção do grau de mestre por Rossana
Honorato (1999, p. 87), por exemplo, entre produtores culturais da
cidade de João Pessoa, a resposta à questão dos pontos
de referência que eram “a cara”, entre outros, esteve sempre
presente a Lagoa. Como corrobora um dos seus informantes, o arquiteto Mario
Di Láscio, “A Lagoa era uma poça d’água, foi urbanizada
em 1937, eu já era rapazinho. Hoje é a cara de João
Pessoa”.
Cartão postal, como
muitos afirmam, embalados pela beleza do Parque decantado em todos os anúncios
governamentais e de empresas de turismo sobre a capital, a Lagoa é
também sinônimo de amor e desamor. O desamor se refere entre
outros aspectos às intervenções municipais que modificaram
o projeto original do Parque e a luta pela manutenção do
seu desenho e estrutura ambiental, mesmo após o tombamento pelo
Patrimônio Histórico na década de oitenta do
século passado.Refere-se também ao crescimento acelerado
da cidade desde as últimas três décadas finais do século
XX, com o aumento da intensidade do trânsito no local, bem como a
tentativa de desfiguração do local com o alinhamento dos
espaços de estacionamento de veículos e avanço nos
canteiros do Parque modificando o seu aspecto, ou por ter o Parque se tornado
um ponto de prostituição e ação de pequenos
roubos. Refere-se também ao estranhamento que sentem quando vêem
o Parque sendo utilizado por pessoas ou grupos que parecem não se
reconhecer. Pelo anonimato da multidão que vaga pela área
da Lagoa.Muitos dos informantes falaram, também, evitar o Parque
pela insegurança que o mesmo provoca no cidadão. A insegurança
reflete-se em um plano moral, pela presença noturna e diurna, embora
de uma forma um pouco menos visível, da prostituição
masculina e feminina no local, como também em um plano físico,
seja pelo número crescente de veículos que por lá
trafegam, dificultando a vida dos pedestres, seja pelos acidentes (Foto
7), atropelamentos e invasões do espaço do Parque por
motoristas que perderam a direção. A insegurança também
se reflete nos pequenos furtos de carteiras e objetos pessoais, que incomodam
e assombram a população que passa ou permanece na Lagoa.
Foto
7 - Veículo pega fogo após bater em palmeira imperial da
Lagoa.
(Créditos:
O NORTE On-line de 07 de agosto de 2003)
Falam
do desamor ao local, também, associado à decadência
do lugar, pelos equipamentos urbanos lá instalados se encontrarem
quebrados e sem manutenção, pela sujeira e o pelo odor do
lugar. Mas não só os informantes falam da sujeira e do odor
local, a própria mídia relata cotidianamente.
Em
um irônico artigo, intitulado “Estrovenga e fedorentina”,
o jornalista e cronista urbano da cidade de João Pessoa descreve
o odor que emanava da Lagoa, no momento em que a prefeitura realizava um
fórum sobre o Parque Sólon de Lucena, em outubro de 2001
(ARANHA, 2001). O joãopessoense associa o
desamor, também, ao público que a freqüenta, associado
quase sempre a pessoas consideradas como marginais, boêmios e vagabundos.
É
interessante que, mesmo que vários informantes confirmem trafegar
pela Lagoa uma ou mais de uma vez ao dia, alegam que são apenas
transeuntes e não freqüentadores do Parque. Dissociam assim
o estar lá do permanecer lá, e assim colocam um distanciamento
entre si e os freqüentadores do local. No estranhamento e separação,
podendo colocar-se de fora e apontar o local como um lugar inseguro por
culpa de quem o freqüenta. Afirmam que os que freqüentam são
os outros, e imputam a esses outros uma parcela da decadência da
Lagoa e culpam a administração da cidade por uma ação
não eficaz na área de segurança e disciplinamento
do lugar.
Os
próprios moradores da região central, que freqüentam
nas manhãs e finais de tarde o Passeio da Lagoa, realizando o footing,
também fazem questão de demonstrar a insegurança do
lugar e se dizem desamparados e com medo de agressão e assédio.
Muitos destes, porém, asseguram a sua presença como uma forma
de amor ao lugar e de amor à cidade. Um deles, inclusive foi enfático
ao afirmar:
“É uma forma de resistência
nós permanecermos a fazer nossa caminhada aqui no passeio. Lugar
mais bonito impossível, já foi comparado às cinco
maravilhas do mundo moderno e hoje é isso aí, sujeira, fedor,
assaltos e atentados ao pudor. (...) Mas eu e minha mulher não largamos
de vir aqui de manhãzinha e de tardinha, todo santo dia. É
uma forma de dizer que o Parque é nosso, é uma forma de chamar
a atenção para que cuidem dele, de sua beleza e ainda o coração
verde da cidade”.
Uma outra forma de desamor
está associada à decadência do centro de João
Pessoa, e por extensão, do Parque. As ilhas nobres da cidade e o
fluxo do comércio e lazer transferidos paulatinamente para a orla
marítima, desde os anos sessenta do século passado, transformaram
o centro em um lugar freqüentado por pessoas de baixo poder aquisitivo,
as autoridades desviando os recursos de infra-estrutura para os ambientes
nobres da capital e deixando o centro ao “Deus dará”.
Com
este argumento alegam o descaso e a insegurança no local. É
interessante notar, porém, que esta alegação faz parte
do conjunto dos informantes perguntados sobre o porque do desamor e de
não freqüentarem o Parque Sólon de Lucena. Neste contexto,
até moradores de áreas periféricas e de baixo poder
aquisitivo afirmam igualmente a insegurança e descaso com o local
pela freqüência de pessoas menos nobres ao Parque, e por extensão
ao centro.
Nesta
referência ao menos nobre, contudo, está presente um valor
moral embutido no aspecto de honestidade e trabalho. Os freqüentadores
do Parque, assim, são aqueles vistos como suspeitos socialmente,
vagabundos, ladrões, prostitutas e “desvalidos
” de um modo geral, e não aqueles que estão informando. Muitos,
inclusive, possíveis de serem apontados por outros informantes dentro
do cenário geral do que consideram os outros, os socialmente suspeitos.
O
Parque Sólon de Lucena, todavia, é um local onde as interações
amorosas e de apego ao lugar e a cidade se estabelece. Sua referência
conota um aspecto importante de um sentimento de pertencer à cidade
de João Pessoa, de ter em si o lugar. O Parque é sentido
pela maioria dos informantes como um cartão postal da cidade. Um
espaço turístico que marca e dá identidade a cidade
e, por extensão, aos seus habitantes.
O
Parque Sólon de Lucena, a Lagoa, é narrado, neste momento,
através de um espelho afetivo que reflete a cidade e o lugar. A
atualidade através do tempo identifica e compara vários tipos
de usos, contornos e valorações, e a Lagoa torna-se
um espaço de memórias afetivas. O que acaba mostrando os
diversos usos do espaço e os contornos de sua ocupação
e a inter-relação entre os usuários e freqüentadores,
e obviamente suas redes de relações sociais. Os informantes,
então, identificam e narram o lugar de uma forma e de um jeito únicos,
que qualificam sua individualidade enquanto cidadãos e ao mesmo
tempo, revelam o hábito, a tradição, e o costume que
o faz membro de um todo.
O
sentimento de pertença está relacionado à aproximação
e ligação com o local de origem. É uma idéia
de enraizamento, onde o indivíduo constrói e é construído,
planeja e se sente parte de um projeto, modifica e é por ele modificado.
Como declarou um dos informantes sobre o Parque e por extensão a
cidade de João Pessoa,
“Há momentos em
que eu sou tomado por um emaranhado de lembranças que me fazem dissertar
sobre cada pedaço desse meu chão. Nestes meus sessenta e
quatro anos de vida acompanhei muito do crescimento desta cidade. Eu lembro
de quando criança brincava entre as árvores da Lagoa, lembro
das minhas escapadas do Liceu para fumar e conversar com meus colegas,
ah, como eu lembro! ... Eu lembro das idas com a família ao Cassino
da Lagoa, lembro dos passeios com a minha noiva e depois com os meus filhos
pequenos. Eu lembro da Lagoa se transformando em comércio ao redor,
as famílias se mudando... eu lembro da cidade crescendo e se estendendo
em direção a praia, em direção ao sul, lembro
depois, já casado e com filhos, me mudando com a família
para o bairro de Castelo Branco, lembro me dirigindo ao Paraiban anos a
fio até a minha aposentadoria e sempre passando por aqui pela Lagoa,
antes e depois do expediente”.
“A Lagoa, assim,
faz parte sempre da minha vida. Até hoje, eu saio toda manhã
para cá para ver os amigos que sobraram. Para jogar conversa fora
e jogar dominó. Tenho medo que esse espaço seja destruído.
Ele já não é mais aquele do meu tempo, embora tombado
o Parque é uma área muito cobiçada e uma área
muito maltratada pelo poder público, que mal cuida dos seus jardins,
mal cuida da limpeza, e pelos cidadãos que não respeitam
o sagrado, a importância deste lugar para a cidade. Eu vejo a Lagoa,
assim, e vejo nela refletida a minha vida e a da minha cidade, a Lagoa
é um lugar que cabe dentro de mim”.
A emoção de
fazer parte, de pertencer, neste sentido, ultrapassa as barreiras do desagrado.
As críticas ao lugar tornam-se uma espécie de querer
bem, de alertar a degradação, de reclamar a falta de cuidado,
o desmazelo do Parque que traz consigo na memória, no coração,
isto é, na memória afetiva também chamada de coração.
Os
mais velhos retornam e retomam o lugar para rever amigos e recordar, e
na recordação comparam e sentem receio de não ver
mais a Lagoa de sua imaginação, de sua experiência
do passado. Têm medo de ver a Lagoa destruída, e olham o processo
de ocupação atual do lugar com certo estranhamento, por não
mais reconhecerem nas pessoas que a freqüentam o núcleo básico
das tradições que fundaram a sua curva de vida. Suas reflexões
então soam com um misto de sentimentalismo e medo. Soam também
como uma experiência sempre pronta a ser narrada a quem quiser ouvir
(e dela tirar proveito). Os mais novos, por sua vez, vêem a Lagoa
com um certo desdém jovem, ou a remetem ao cenário de namoros
ou como passagem obrigatória, menos como local por eles considerados
como de freqüência e lazer, vistos como algo que os desclassifica
enquanto habitante da cidade.
O
lugar de lazer é a orla, seus bares, o shopping, os cinemas. Porém,
ao falarem da importância da Lagoa para a cidade, remetem sempre
ao aspecto turístico do lugar e a imagem de cartão postal,
e aí se identificam com o lugar como um dos espaços mais
bonitos da cidade, e falam da falta de infra-estrutura, da insegurança
do lugar com um sotaque afetuoso, de morador zeloso que gostaria de ver
restabelecido a importância que o lugar merece na cidade.
Os
comerciantes radicados no Parque, desde os estabelecidos nos quiosques
oficiais até os camelôs que inundam o local com o seu comércio
variado falam da importância do Parque para a cidade e para o comércio
local. Criticam, porém, da falta de infra-estrutura, da falta constante
de limpeza, da insegurança do lugar. Os estabelecidos, oficiais,
reclamam e acusam os camelôs da decadência do Parque, da sujeira
e do ambiente de suspeita sobre o lugar. Os camelôs acusam os comerciantes
estabelecidos de modificarem clandestinamente a estrutura dos jardins do
Parque em benefício da expansão de seus negócios,
desfigurando o lugar. Acusam também de os jogarem contra o poder
público e a polícia e amedrontarem os cidadãos que
circulam no local. Uns e outros, porém, vêem o Parque como
um sinônimo de sobrevivência, e é desta relação
comercial que constroem as suas narrativas sobre o lugar.
O
policial com quem conversei falou sobre sua meninice no Parque. Como morador
do bairro do Roger
sempre freqüentou o Parque desde tenra idade; foi lá que, como
disse, “me tornei homem”, em uma noite de São João
com uma turma de amigos, com duas prostitutas que faziam ponto em um dos
canteiros do Parque. “Foi entre as árvores do Parque mesmo”,
disse ele. Quando está de folga freqüenta o Parque, ainda bebe
umas cervejas com os amigos nos quiosques espalhados, ainda pega “umas
meninas” por lá.Quando perguntei sobre os problemas do Parque
ele informou que em questão de violência o Parque não
é um dos locais mais perigosos da cidade, embora seja temido pelos
populares que o freqüentam. Acredita que os temores da população
são motivados pela existência do que ele chama de “pequenos
meliantes”, “espertos que cuidam do descuido alheio, principalmente,
das senhoras e das pessoas idosas”, “são roubos de bolsa,
de carteira, vez ou outra da pensão de um velhinho, e por aí”.
Conta cenas de perseguições a “esses elementos” que
terminam, na maior parte dos casos, nos perseguidos se jogando nas águas
da Lagoa tentando escapar da perseguição e, muitas vezes,
“aí é que dão trabalho para serem resgatados de
lá”, seja pela lama no fundo da lagoa, seja pelo tempo perdido
até a sua rendição. No jornal O Norte, de 20 de outubro
de 2003, foi noticiada uma das cenas comentadas pelo informante. Diz a
manchete: “Assaltante é perseguido pela população
e se joga na Lagoa”, e relata o fato de um rapaz de dezoito anos, após
tentar roubar a bolsa de uma senhora e ser perseguido por policiais e
populares se jogar na Lagoa, as peripécias do ato até
a chegada do corpo de bombeiros e a retirada e prisão do rapaz.
Conta que fora os pequenos furtos e agressões, de cenas de desordem
e bebedeiras, a Lagoa não é palco de grandes violências.
À noite, a turma dos “travecos” e “piranhas” às
vezes dão uma limpa nos “descuidados” que chegam até
eles, mas é um ou outro caso, pois a turma que freqüenta mesmo
vai em grupo e já são conhecidos das “moças”.Para
o informante, os que dão mais trabalho são “as turmas
que puxam um fumo”, na maioria “rapazes e poucas moças ali
do Liceu que se junta com uns desocupados que passam o dia rolando pelo
Parque”. Segundo o informante, “dão trabalho mais pelo barulho
que fazem e as brincadeiras que fazem, assustando os transeuntes e espantando
a freguesia dos comerciantes da região. Mas tudo fogo de palha...”.Na
fala do policial, assim, o Parque também é vivenciado e lido
através da memória afetiva, de um lugar que o viu crescer
e de que ele hoje também faz parte da manutenção,
como lugar seguro. É através destas imagens que decodifica
o seu limite e o freqüentador, ao mesmo tempo extensão de seu
lazer e de seu fazer, simultaneamente lugar de identificação
de laços pessoais com outros freqüentadores de agora ou de
antes do lugar, e lugar também de tipologia e identidade de pessoas
e grupos sob a ótica da segurança local.
As
prostitutas, quase sempre moças vindas do interior do estado ou
moradoras da periferia da cidade, freqüentam o Parque durante todo
o dia, mas assumem o local quando chega à noite, o comércio
fecha as portas e o público maior já retornou para suas casas.
Ocupam alguns canteiros do Parque, perto dos quiosques e levam os seus
fregueses para os hotéis e pensões baratos ao redor do Parque
ou para o aconchego de suas árvores. A freguesia é constituída,
principalmente, de trabalhadores, comerciários, bancários,
camelôs e de serviços gerais que tem o centro como local de
trabalho e, muitas vezes, moradia.
Os
travestis são um grupo à parte. Usam os canteiros da Lagoa
em profusão; quase nus, invadem os anéis viários que
circundam o Parque durante todos os dias a partir das 22 horas. São
conhecidos pelas performances que costumam realizar, bem como, pelos roubos
e pequenos delitos a que submetem as vitimas que chegam até eles
desavisadas. A maior parte deles são de rapazes pobres que usam
a prostituição como sobrevivência.
Ao
conversar com algumas prostitutas e travestis que vivem à noite
do Parque e lá fazem seu ponto de trabalho, eles revelam também
a sua vinculação afetiva ao local, embora, muitas vezes,
associado aos diversos tipos de descriminação e repressão
por parte das rondas noturnas policiais e da população em
geral. Mas se acham “a cara da Lagoa”, sem eles, para eles, à
noite, “a Lagoa não seria a Lagoa”, como afirmou com euforia
um dos informantes. Não se vêem como um grupo perigoso, acham
que esta visão é mais
“uma arma preconceituosa
contra nosso trabalho e forma de vida, se o negócio é com
a gente travesti então é que a coisa fica braba. Chamam a
gente de tudo e, às vezes vêem em bando querendo tirar
sarro de nós, dar na gente, quando não comem e não
querem pagar. Aí vai o troco. A gente se defende apenas. Tamos fazendo
o nosso trabalho e se vem uns caras querendo engrossar a gente engrossa
junto”.
As prostitutas atuam isoladas,
olhadas de perto pelos seus “donos”, circulando pelas mesas dos
quiosques, ou paradas nas marquises das lojas de departamento fechadas,
ou nos bancos dos canteiros do Parque. São sempre ariscas com novas
candidatas a fazerem ponto no local, muitas delas agredidas e o dinheiro
conseguido na noite tomado. É mais difícil uma nova mulher
assumir o ponto local, do que entre os travestis. Mais do que as prostitutas,
os travestis formam um bloco coeso, se agrupam em um só canteiro
do Parque, todos se conhecem e marcam o ponto. Novos pretendentes ao lugar,
por sua vez, passam por determinados “vexames”, quase uma prova,
antes de serem aceitos e começarem a usar o ambiente comum. Enquanto
não acontece ficam às margens do núcleo central onde
se instala o comércio homossexual e não recebem a proteção
do grupo; pelo contrário, muitas vezes são perseguidos pelos
próprios travestis locais, que tomam sua “féria”,
ou os apurados da noite
.Como os travestis, se acham “a cara da Lagoa”, e muito do
que se fala da Lagoa hoje reflete o colorido que impregnam ao local. Acha
que não incomodam ninguém, fazem os seus trabalhos, mas se
as pessoas “mexem com a gente leva o troco”.Às vezes existem
rusgas entre prostitutas e travestis, às vezes se unem contra agressores.
No conjunto, fazem à noite local junto com os boêmios, os
comerciantes e trabalhadores dos quiosques, mendigos, moradores de rua
e alguns transeuntes que por lá trafegam ou usuários de transportes
urbanos que chegam no ponto de ônibus durante o final da noite e
madrugada (Foto 8).
Foto
8 – A Lagoa de madrugada. (Foto: Leandro Neves)
Quando
o sol começa a tomar conta da Lagoa, os seres noturnos começam
a dar lugar a mais um dia de caminhada pelo passeio do Parque, de chegada
para o trabalho, para as compras ou estudo, para o tráfego que começa
a aumentar, para o burburinho e diversas sonoridades que vai invadindo
o espaço, até chegar ao seu auge entre dez da manhã
às oito da noite, quando se reinicia mais esvaziamento da cidade
e mais um turno da noite no Parque.
Conclusão
O
Parque Sólon de Lucena, como se pode ver até agora pelas
descrições, é de muitas vozes, é um lugar polifônico
de onde se ouve quase toda a cidade. O burburinho que alimenta a Lagoa,
deste modo, é composto pelos diversos usos que atravessam o local
no cotidiano da cidade. Formas de apropriação do espaço
que vão gerando núcleos de construção imaginária
e real sobre o lugar e a sua significação para a cidade e
para a vida de cada um que nela habita. Que vão compondo um painel
afetivo, de relações delicadas recheadas de amor e desamor,
preocupação e indiferença, participação
ou anomia, presença física no Parque e negação
de freqüentá-lo, grupos que se sentem incluídos no espaço
da Lagoa e os que se sentem excluídos, grupos que se sentem excluídos
do espaço da cidade, mas que se acham a cara da Lagoa, apesar
da perseguição da cidade. Relações multiformes,
enfim, embora sempre ambivalentes, na maior parte das vezes polares, norteiam
os sentidos e emoções do joãopessoense com o Parque
Sólon de Lucena. Preenche o significado do querer a cidade, de referendar
a cidade que queriam ter, seus ápices, suas diversas faces, - onde
a Lagoa sempre está presente como uma das mais importantes, - seus
desvelos, e o sentimento quase naturalizado de quase perda, misto
de indiferença e quase desamor, pela degradação que
o espaço está sujeito, ou porque o mesmo já não
é aquele vivido no tempo vivido pelo morador, ou sonhado por outro
como deveria ser. O espaço do Parque, contudo, está presente
na memória visual e afetiva da cidade. Em uma rápida excursão
pela Internet, o viajante encontra mais de novecentas páginas que
retratam o cartão postal Lagoa e declaram o seu amor, a sua preocupação
e críticas, mas de todas emanam os vínculos de pertença
ao lugar. É importante frisar que, a maior parte delas, traduz a
imagem oficial da cidade, através de sites do governo estadual e
municipal, mas muitas delas indicam apenas o afeto com o local, mesmo que
povoadas, às vezes, de preocupações e provocações
irônicas da degradação ou da mudança de costumes
na cidade e, aqui, principalmente, no Parque Sólon de Lucena, a
Lagoa.
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Artigos
de Jornais: