Introdução
A
palavra “estrutura” tem sua raiz etimológica no verbo struere,
do latim, que significa construir, no sentido de “construir edifícios”.
A partir do século XVII o termo estrutura passou a ser usado com
outros significados, principalmente depois que Fontenelle
usou o termo ao comparar o corpo humano a uma construção.
A lingüística também empregou este vocábulo para
tratar da distribuição das palavras na oração
e da composição dos estilos poéticos. O termo foi
utilizado pelo fato de poder designar, ao mesmo tempo, um conjunto,
as partes desse conjunto e as relações dessas partes entre
si. A estes sentidos se poderia acrescentar ainda as relações
das partes com o conjunto. Essa riqueza de significados explica sua
utilização, a partir do século XIX, tanto pelas ciências
exatas quanto pelas ciências naturais e do homem. Ao elaborar a teoria
dos grupos, por exemplo, Galois
apresenta uma primeira vinculação entre a noção
de estrutura e a da Matemática (Bottomore &
Nisbet, 1980).
Esses
fatos possibilitam um esboço delimitador do termo, tal como
ele é empregado pelas correntes estruturalistas. Num sentido, de
natureza biológica, “estrutura” diria respeito a um conjunto cujos
elementos manifestam solidariedade entre si e dependência mútua.
A totalidade do conjunto não consistiria apenas na soma das partes,
mas, resultaria das relações internas existentes entre estas
partes, relações essas que são necessárias
e funcionais. No sentido matemático, “estrutura” significa um sistema
de relações ou leis que descrevem o funcionamento de um fenômeno
representado por um modelo. E nesse sentido, “estrutura” é
compreendida como um sistema de operações abstratas, cujo
significado é o de uma combinatória geral, que assume aspecto
particular ou concreto quando preenchida por um modelo, ou seja, uma
representação de um fenômeno determinado. “Estrutura”
seria, desse modo, uma forma vazia, cuja matéria é variável,
visto depender do modelo particular que venha a se encaixar nela.
Apenas
estes dois sentidos, no entanto, não são suficientes para
a compreensão do termo “estrutura” pelas correntes estruturalistas
do século XX. É preciso recordar o papel de Ferdinand
Saussure, criador da lingüística moderna e precursor do
estruturalismo. Apesar de não haver usado de modo explícito
o termo “estrutura”, Saussure elaborou toda a essência da concepção
estrutural, através da noção de sistema. Para Saussure,
a língua é um sistema, cujos termos são todos
solidários, e no qual o valor de um termo resulta da presença
simultânea de outros. Alem disso, as partes do sistema podem e devem
ser consideradas em sua solidariedade sincrônica, ou seja, em certo
momento do tempo e não em sua evolução histórica.
Suas
bases tendo sido estabelecidas, o estruturalismo pôde se desenvolver
e se estender a todos os domínios das ciências humanas. Na
Antropologia, o grande teórico estruturalista é Claude
Lévi-Strauss, que alguns consideram o próprio estruturalismo.
Seus trabalhos são polêmicos, entretanto.
A
noção de estrutura em Lévi-Strauss
Em
“A Noção de Estrutura em Etnologia” (1958),
Lévi-Strauss afirma que, para merecer o nome de “estrutura”, um
modelo deve satisfazer, exclusivamente, a quatro condições.
Primeira:
“o modelo deve oferecer um caráter de sistema, ou seja, consistir
em elementos tais que uma modificação qualquer de um dos
elementos acarrete modificações em todos os outros. Segunda:
todo modelo deve pertencer a um grupo de transformações,
cada uma das quais corresponda a um modelo da mesma família, de
modo que o conjunto dessas transformações constitua um grupo
de modelos. Terceira condição, as propriedades exigidas
pelas duas condições anteriores devem permitir prever de
que modo reagirá o modelo em caso de modificação de
um dos elementos. Finalmente, quarta condição, é
necessário que o modelo seja construído de modo a que seu
funcionamento possa explicar todos os fatos observados” (Lévi-Strauss,
1958:305/306).
A
primeira destas condições revela a oposição
não só de Lévi-Strauss, mas do estruturalismo em geral,
ao empirismo. Na medida em que o empirismo concebe a realidade como singular
e como revelada graças à experiência sensível,
o objeto passa a ser o que é: dado, fato. Para o estruturalismo,
ao contrário, um fato isolado, enquanto tal, jamais possui significado.
Lévi-Strauss dá o exemplo das palavras “fromage”, “cheese”
e “queijo” (Lévi-Strauss, 1964).
Quando isoladas da estrutura alimentar, que os determina, esses vocábulos,
aparentemente, referem-se à mesma realidade. Isto não ocorre,
entretanto, quando são considerados no interior das diferentes estruturas
alimentares a que pertencem, como por exemplo, a cozinha francesa, inglesa
ou brasileira, nas quais se revelam completamente diferentes. Para o francês,
“fromage” conota um gosto picante, ao passo que para o inglês quase
não tem gosto e, para o brasileiro denota um gosto salgado. Ressalta-se,
desse modo, o caráter relativo dos elementos na estrutura: o sentido
e o valor de cada elemento deriva exclusivamente da posição
que ocupe em relação aos demais.
Para
Lévi-Strauss, uma estrutura se constrói tendo como base oposições
binárias pertinentes. A pertinência ou oposição
pertinente, por sua vez, é definida por ele como uma operação
que supõe:
-
que cada unidade da estrutura
é uma simples relação, insignificante em si mesma;
-
que a descrição
das unidades relativas deve cobrir a totalidade de um campo assim estruturado;
-
que os elementos não
pertinentes devem ser eliminados;
-
que a estrutura deve ser construída
a partir das menores unidades significativas do domínio estudado.
Ainda,
as oposições binárias pertinentes conferem valor aos
elementos constitutivos do sistema, valor que lhes advém, exclusivamente,
da posição que nele ocupam (Lévi-Strauss, 1949,
1958).
Desse modo, a estrutura, para Lévi-Strauss, é um sistema
de relações, e é desse gênero de sistemas que
se constitui a sociedade: sistemas de parentesco e de filiação,
sistema de comunicação lingüística, sistema de
troca econômica, da arte, do mito e do ritual. Essa concepção
acarreta como conseqüência que, para Lévi-Strauss, a
noção de estrutura social não se refere à realidade
empírica, propriamente, mas aos modelos construídos segundo
essa realidade.
A
natureza da investigação.
Os modelos, para Lévi-Strauss,
podem ser conscientes ou inconscientes, de acordo com o nível onde
“funcionam” e essa condição não afeta sua natureza
(Lévi-Strauss, 1958:308). Os
modelos conscientes, ou normas, incluem-se entre os mais “pobres” que existem,
em razão de sua função que é a de perpetuar
as crenças e os usos, mais do que lhes expor as causas. Assim, a
análise estrutural parece chocar-se com a seguinte situação
paradoxal: quanto mais nítida é a estrutura aparente, tanto
mais difícil é apreender a estrutura profunda, por causa
dos modelos inconscientes que se interpõem, como obstáculos,
entre o observador e o seu objeto.
Na
investigação etnológica estes obstáculos estabelecem
uma distância entre o observador e a sociedade estudada; essa distância
garantiria a objetividade, pois, impedindo que o observador e o objeto
venham a se confundir, impediria também que esse último fosse
reduzido às pré-condições do primeiro. Tal
distância, entretanto, não tem caráter unicamente limitativo,
pois constitui o terreno de uma possível comunicação.
Se o estranhamento entre o observador e o objeto for total, se eles não
tiverem nada em comum, então o objeto se torna fechado em sua opacidade
e permanece refratário à investigação. Além
disso, a própria divergência entre a cultura do observador
e a do observado, mediante a qual o outro se constitui como tal, torna-se
ininteligível. O conceito de objetividade torna-se, então,
um valor problemático, não significando apenas um corte,
uma distância, mas também uma reciprocidade, um tipo de solidariedade
entre o observador e o observado. O conceito de objetividade dá
lugar ao paradoxo de um objeto ao mesmo tempo objetivamente muito afastado
e subjetivamente muito concreto. Em outras palavras, dá lugar a
uma verdade que se situa na intersecção de duas subjetividades.
Na realidade, o que caracteriza a investigação etnológica
é a recusa da antinomia entre sujeito e objeto, uma vez que ambos
são de mesma natureza. A apreensão do fato social é
concreta na medida que é totalizante e envolve, ao mesmo tempo,
as propriedades objetivas e a experiência subjetiva. Tal apreensão
concreta não se refere à existência imediata do objeto
real que, para o estruturalismo, é construído pela totalidade
de suas manifestações empíricas visíveis somadas
com sua razão invisível, teoricamente estabelecida. É
possível entender, então, por que Lévi-Strauss não
trata das relações sociais invisíveis, mas das estruturas
sociais invisíveis (Lévi-Strauss,
1958).
Por
outro lado, a problemática sujeito-objeto, envolvida na conceituação
de estrutura, vincula-se ao problema forma-conteúdo. Para Lévi-Strauss,
existe uma “atividade inconsciente do espírito” que consiste em
“impor formas a um conteúdo”. Embora afirmando que forma e conteúdo
possam ser definidos como pontos de vista complementares, Lévi-Strauss
insiste em que só as formas, e não os conteúdos, podem
ser comuns. Além disso, à constância das formas se
contrapõe a variabilidade dos conteúdos. Mas isso não
significa que haja algum tipo de antinomia entre forma e conteúdo,
pois este último “deriva sua realidade de sua estrutura, e o que
se define como forma é a estruturação das estruturas
locais, nas quais consiste o conteúdo” (Lévi-Strauss,
1949:49). A complementaridade forma-conteúdo traduz a recusa a opor
o concreto ao abstrato e a atribuir valor privilegiado ao segundo.
A
forma é definida por oposição à matéria
que lhe é estranha, mas a estrutura não possui um conteúdo
dela mesma. A estrutura é o próprio conteúdo apreendido
numa organização lógica, concebido como propriedade
do real (Lévi-Strauss, 1962).
Assim, longe de constituir uma antinomia, forma e conteúdo são
ambos da mesma análise estrutural, já que a não arbitrariedade
dos conteúdos é ressaltada por sua transformação
recíproca, mediante permutações que respeitem as condições
postas pela estrutura do conjunto. Lévi-Strauss acredita que isso
permite a passagem da observação etnográfica, que
é concreta e individual, às pesquisas estruturais, cujo caráter
abstrato e formal parece opor-se aos dados “gráficos” (Lévi-Strauss,
1958. 1962).
O
método
A contradição
entre o caráter abstrato das pesquisas estruturais e o caráter
individualizado da observação etnográfica desaparece,
para Lévi-Strauss, quando se compreende que esses caracteres antitéticos
dependem de dois níveis diferentes ou, mais exatamente, correspondem
a duas etapas da pesquisa. No nível da observação,
a regra principal estabelece que todos os fatos devem ser observados com
exatidão e descritos sem se permitir que preconceitos teóricos
alterem sua natureza e importância. Essa regra implica outra, de
acordo com a qual os fatos devem ser estudados em si mesmos (que processos
concretos os levaram à existência) e também em relação
com o conjunto. Em outras palavras, toda mudança em um ponto deve
ser relacionada com as circunstâncias globais de sua aplicação
(Lévi-Strauss, 1958).
Por
outro lado, a investigação estruturalista de Lévi-Strauss
apresenta a imprescindível exigência metodológica do
estudo imanente das conexões essenciais das estruturas, independentemente
do problema de sua gênese ou de sua relação com o que
é exterior a elas. O estudo imanente do objeto implica a descrição
do sistema em termos estruturalmente relacionais: onde a experiência
só reconhece coisas, a análise estrutural descreverá
redes de relações nas quais estas têm prioridade frente
aos termos. O próprio objeto e suas diferentes partes aparecerão
como intersecções de “feixes” de relações.
No sentido do sistema de parentesco, por exemplo, deve-se, a princípio,
realizar uma aproximação a partir do interior daquele sistema,
aproximação que define suas estruturas lógicas internas,
sem tratar das relações desse sistema com a organização
social, econômica, com esferas de crença etc. (Lévi-Strauss,
1949).
É
verdade que a análise dos diferentes níveis do conjunto social
mostra que cada um deles constitui um sistema e, portanto, podem ser estudados
por meio de modelos ideais, mas também é verdade que todo
sistema nasce de uma práxis entre os homens e que a realidade social
é um conjunto articulado, cujos níveis se encontram em relação
de interação. Se o fato social constitui um todo, sua apreensão
não pode ser dividida em partes; ao contrário, deve sempre
determinar os sentidos essenciais que relacionam os diversos estratos entre
si. Assim, a totalidade do fato social, enquanto objeto de apreensão
concreta, não recusa a utilização do modelo (inclusive
matemático), já que ele é essencial à compreensão
da realidade etnográfica.
A
totalidade social impõe a exigência de que o próprio
modelo possa fundar-se naquela realidade. No caso de uma multiplicidade
de fenômenos totêmicos, por exemplo, a investigação
antropológica não esgota a realidade quando torna evidentes
as relações de homologia, de oposição e de
correlação entre os fenômenos. É preciso cavar
mais fundo.
Os modelos
No que diz respeito aos
modelos, Lévi-Strauss introduziu, também, uma distinção
que se relaciona com a escala do modelo, comparada à dos fenômenos.
Um modelo cujos elementos constitutivos estão na escala dos fenômenos
será chamado modelo mecânico, e o modelo cujos elementos estão
em outra escala, modelo estatístico. Tanto um quanto outro não
representam as únicas alternativas possíveis; entre os dois,
Lévi-Strauss percebe formas intermediárias. A diferença
é explicada pelo valor posicional e diferencial que é atribuído
a cada elemento da estrutura, destituindo-a, desse modo, das características
intrínsecas fornecidas pela experiência sensível (Lévi-Strauss,
1958), Nesse sentido, a estrutura não consiste num conjunto de propriedades
ou de elementos: é apenas um sistema de relações.
Conseqüentemente, a investigação antropológica
já não se apóia nos elementos em si, mas nas relações
recíprocas que eles mantêm, pois apenas as relações
são constantes, enquanto os elementos podem variar. Expressando
a mesma constância, a estrutura apresenta um caráter abstrato,
sustentado pelas propriedades formais do modelo. Em razão desse
caráter precisamente abstrato, o modelo torna-se aplicável
a qualquer ordem de fenômenos, mesmo que seus elementos constitutivos
sejam diferentes dessa ordem. Assim, a estrutura passa a se caracterizar
por sua transponibilidade ou tradutibilidade, para usar um termo mais adequado
ao estruturalismo, de fenômeno para fenômeno, e de uma ordem
de fenômenos para outra.
“As pesquisas estruturais
não ofereceriam interesse algum se as estruturas não fossem
traduzíveis em modelos cujas propriedades formais são comparáveis,
independentemente dos elementos que as compõem” (Lévi-Strauss,
1958:311).
Baseado
na idéia de “tradutibilidade” encontra-se o pressuposto de que,
segundo uma perspectiva abstrata, as estruturas têm a mesma forma,
ou seja, obedecem ao princípio do isomorfismo. Este princípio
garantiria, do ponto de vista metodológico, a possibilidade de uma
relação interdisciplinar entre as ciências. Em “A noção
de estrutura em Etnologia” (1958), Lévi-Strauss afirma que as relações
entre a história e a etnologia poderiam ser tomadas como exemplo
ilustrativos, não só da possível “colaboração”
entre as ciências, mas como aplicação da diferença
entre modelo mecânico e modelo estatístico. Para explicar
a diferença entre história e etnologia, ele diz que é
preciso inseri-las no interior de outras ciências sociais. Para ele,
“a etnografia e a história diferem, antes de tudo, da etnologia
e da sociologia. Visto que as duas primeiras estão fundadas sobre
a coleta e a organização de documentos, enquanto as duas
outras estudam antes os modelos construídos a partir e por meio
desses documentos (Lévi-Strauss,
1958:314/315). Além disso, a etnografia e a etnologia correspondem
a duas etapas da mesma pesquisa, que termina, finalmente, em modelos mecânicos,
enquanto a história (e todas as disciplinas que ele chama de ”auxiliares”)
termina em modelos estatísticos. As relações entre
estas quatro disciplinas podem, portanto, ser reduzidas a duas oposições:
uma, entre observação empírica e construção
de modelos (o passo inicial), e outra entre o caráter estatístico
ou mecânico dos modelos, vistos segundo a perspectiva do ponto de
chegada (idem).
Em
“Antropologia Estrutural”, quando traça um paralelo entre a língua
e a cultura, e nas “Mitológicas” em geral, quando examina o sistema
de transformações de um mito de referência qualquer,
Lévi-Strauss sempre encontra um sistema de invariantes estruturais,
ou de leis estruturais, que o levam a postular uma identidade entre as
leis do mundo e as do pensamento. Em conseqüência, ele parece
conceber a estrutura como real; não como substância, mas como
sistema de leis, constantes do “espírito humano”. “Nossa problemática”
– reconhece Lévi-Strauss – reúne-se à do kantismo
“(Lévi-Strauss, 1964). Procurando
as condições nas quais os sistemas de verdade se tornam mutuamente
conversíveis e podem, portanto, ser simultaneamente recebidos por
vários sujeitos, Lévi-Strauss mostra, em “O cru e o cozido”
(1964) como o conjunto dessas condições adquire caráter
de objeto dotado de realidade própria e independente de todo o sujeito.
Com os mitos, por exemplo, aconteceria o mesmo que acontece com a linguagem:
o sujeito que aplicasse conscientemente no discurso as leis fonológicas
e regras gramaticais acabaria perdendo o fio condutor de suas idéias.
Do mesmo modo, o exercício e uso do pensamento mítico exigem
que suas propriedades permaneçam “ocultas”. Assim, a análise
dos mitos não tem, nem pode ter, como objeto mostrar como os homens
pensam, mas “como os mitos pensam nos homens” (Lévi-Strauss,
1964). O autor vai ainda mais longe ao admitir que se deva fazer a abstração
de todo o sujeito para considerar que, de certa maneira, os próprios
mitos se pensam entre si (idem).
Nesse
ponto, Edmund Leach (1988) parece ter razão
quando observa a dificuldade em compreender o que, afinal, Lévi-Strauss
concebe como sistema total, como objeto da análise. A dificuldade
em compreender essa “estrutura algébrica fundamental de que os
produtos são, meramente, manifestações parciais”
Onde se localiza essa estrutura? E mais: onde se localizam todos os sistemas
culturais? Onde se localiza uma língua falada, como Saussure a concebe?
Durkheim respondia a essa ultima pergunta concebendo a língua como
parte do consciente coletivo dos que a falam. Mas Lévi-Strauss não
está interessado no consciente coletivo dos sistemas sociais e sim
em descobrir o inconsciente coletivo, o espírito humano
que se aplicaria aos falantes de todas as línguas. Leach diz ainda
que Lévi-Strauss:
“Como Freud, (...)
procura descobrir princípios de formação de pensamento
que sejam universalmente validos para todas as mentes. Esses princípios
universais (...) são tão operatórios em nossos cérebros
quanto nos dos índios sul-americanos (...) Para chegarmos à
lógica primitiva universal em sua forma não-contaminada,
necessitamos examinar o processo de pensamento dos povos muito primitivos,
tecnologicamente não sofisticados (como os índios sul-americanos),
e o estudo do mito é a maneira de realizar esse objetivo” (Leach,
1988:54).
Para
Lévi-Strauss, através do inconsciente realiza-se o paradoxo
próprio da etnologia: o de ser, ao mesmo tempo, uma ciência
objetiva e subjetiva. Esse paradoxo se revela no fato de que as leis do
inconsciente transcendem a dimensão subjetiva e são, pode-se
dizer, exteriores a ela, ainda que não possam ser captadas, a não
ser através de operações efetivas da subjetividade.
Sob um grande número de formas nas quais, de cultura a cultura,
sobressai a atividade dos sujeitos, a etnologia individualiza as categorias
recorrentes que constituem o substrato comum sobre o qual poderá
depois se articular uma série de experiências diferenciadas.
Ainda nesse caso, é no exemplo da lingüística – basicamente
da fonologia – que se baseia a Antropologia Estrutural. Para Lévi-Strauss,
a fonologia trouxe à luz a necessidade de se passar do estudo dos
fenômenos conscientes ao dos fenômenos inconscientes, do mesmo
modo que expõe a necessidade de descobrir o conjunto de leis elementares
universais que permanecem latentes na comunicação lingüística.
Tendo
em vista essas considerações, pode-se afirmar que na tematização
de uma ordem de realidade intersubjetiva (como a do sistema de parentesco,
por exemplo), o fim essencial é o da comunicação.
Essa mesma idéia está presente no fato de que, no uso da
linguagem, o sujeito não tematiza explicitamente princípios
(como os de correlação e de oposição) que atuam
sobre o conteúdo da fala. A razão disso está no fato
de que os princípios operam em nível muito mais profundo,
representando a estrutura básica mais elementar, presente em todos
aqueles que falam e na qual se corporifica a complexidade dos fenômenos
lingüísticos (Greimas, 1981).
A
via dos mitos
Isso
explica por que o mito tornou-se o interesse predominante de Lévi-Strauss.
É evidente, pelo que já foi dito, que não o mito em
si e para si mesmo, mas como via de acesso às estruturas básicas
do pensamento e do comportamento da humanidade. Os mitos não
são, para o antropólogo estruturalista, “produtos” da capacidade
humana de cria-los, nem produto de uma fuga à realidade. Seu valor
principal é o de preservar, até o momento presente, os remanescentes
dos métodos de reflexão e de observação que
eram, e ainda são, adaptados às descobertas de um tipo especial:
“aquelas que a natureza autorizou a partir de
uma organização especulativa e uma exploração
do mundo sensível, em termos sensíveis”. A utilidade
do mito seria a de explicar por que, diferentes na origem, as coisas se
transformam e por que a transformação se dá em certo
sentido (Lévi-Strauss, 1988:195).
A
distinção levi-straussiana entre “povos históricos”
e “povos míticos” foi criticada com freqüência. Para
o autor, o povo que teve preservado seu passado histórico usa o
passado como meio de esclarecer o presente, ao passo que o povo sem essa
consciência histórica, na qual o mito desempenha um papel
importante, emprega esses mitos no presente como instrumento de criação
do passado. Evidentemente, os povos “históricos” têm suas
estruturas míticas, também, em torno das quais se tende a
escrever a história; devem ser poucos, se é que existem,
os povos totalmente destituídos de senso histórico, por mais
impregnado que seja pelos mitos.
É
em seu tratamento do mito que melhor podemos perceber o que Lévi-Strauss
entende por estrutura, embora não seja possível dizer
que ele esteja livre de ambigüidades. Sua distinção
entre arte e mito é, no caso, básica. Em obras
de arte, ele observa, o ponto de partida é um objeto,
ou vários, que a criação estética unifica,
revelando uma estrutura comum. Os mitos percorrem o mesmo caminho,
mas partem do outro extremo. Usam a estrutura para produzir o que é,
em si mesmo, um objeto consistindo de uma série de acontecimentos
(pois todos os mitos contam uma história). A arte parte, assim,
de um conjunto (objeto + acontecimento) para a descoberta de sua estrutura.
O mito parte de uma estrutura, por meio da qual constrói um conjunto
(objeto + acontecimento). (Lévi-Strauss,
1962).
Quanto
à origem do mito, é semelhante à da linguagem. Todas
as respostas são conjeturais e o que realmente importa é
compreender a atitude intelectual dos povos frente aos próprios
mitos. Além disso, existem sempre diferentes versões, nenhuma
delas sendo a verdadeira ou a primeira ou a definitiva. Aceitam-se todas.
Um mito é, como Lévi-Strauss demonstrou exaustivamente, o
conjunto de suas variantes. De suas versões. Em “La
Potière Jalouse” (1985), Lévi-Strauss diz que o mito
é como um espelho “deformante”, pois não se chega a um sentido
final. A significação que um mito pode oferecer para quem
conta ou ouve, num certo momento e em certas circunstâncias, só
existe por relação a outras significações que
o mito pode oferecer para outros narradores e ouvintes, em outras circunstâncias
e em outros momentos.
Um
mito coloca uma “equação” definível apenas por
suas regras de construção. Essa “equação” permite
decifrar um sentido, não do mito em si, mas de todo o resto: imagens
do mundo, da sociedade, da história, com as perguntas que os homens
se fazem sobre si mesmos. A matriz da inteligibilidade fornecida pelo mito
permite articular isso num todo coerente. E embora cada sujeito, individualmente,
perceba no significado do mito um conteúdo diferente, esses conteúdos
se reportam a um número pequeno de invariantes.
“Nós nos
apercebemos de que se trata sempre de encontrar num outro domínio
um equivalente formal do sentido que buscamos. O dicionário é
a ilustração deste círculo lógico. A significação
de uma palavra é dada por meio de palavras cuja definição
remete, ela mesma, a outras palavras. E, teoricamente ao menos, voltaremos
ao ponto de partida, a despeito dos esforços despendidos pelos lexicógrafos
para evitar as definições circulares” (Lévi-Strauss,
1988:198, tradução minha ).
Desse
modo, o sentido de uma palavra ou idéia, quando encontramos vários
equivalentes dela, vem de outros campos semânticos. Significação
é correspondência. Tanto para as palavras quanto para
conceitos. E como o mito existe por imagens e acontecimentos, ele apresenta
esse caráter de modo mais “bruto”, mas que reflete as condições
mais gerais do exercício do pensamento.
Em
“A Gesta de Asdiwal” (1970) Lévi-Strauss
se dedica à análise de um único complexo de mitos
precisamente localizadas numa certa região cultural e o resultado
convence, sem dúvida, da eficácia do método estrutural.
Fica bastante claro o processo de análise e suas etapas. O que não
se consegue nas Mitológicas quando ele compara mitos e costumes
do mundo inteiro. Como Leach, muitos argumentam que Lévi-Strauss
é pouco crítico quanto ao seu material básico de informação.
Além disso, até que Lévi-Strauss tenha acesso a tais
mitos eles já foram escritos e traduzidos para alguma língua
européia, de forma talvez abreviada. No decorrer desse processo,
desvinculam-se totalmente de seu contexto original. “Mesmo
assim, ele afirma que as histórias terão retido as características
estruturais essenciais que possuíam originalmente” (Leach,
1988:55). Mas como ter certeza?
A
Via das Mãscaras
Uma tentativa de comprovação
da eficácia deste método, aplicado a um objeto empírico
surge, também com resultados positivos, em A
Via das Máscaras (1979), onde Lévi-Strauss se baseia
no estudo da arte dos índios da costa noroeste dos Estados Unidos
para levar a cabo uma aprofundada reflexão que se situa numa perspectiva
original sobre as questões fundamentais da estética e da
história da arte. Cor, grafismo e plástica são revelados,
pela análise estrutural, como tendo um papel decisivo no estabelecimento
da identidade de um povo. Mas apesar das importantes pistas que oferece
para o entendimento de alguns aspectos estruturais de objetos rituais ou
mesmo para o entendimento do sistema de objetos enquanto linguagem, a via
“das máscaras” continua sendo a dos mitos. Vejamos:
Para
compreender as razões de cada detalhe do objeto (no caso, as máscaras),
é preciso compreender que, como os mitos, os objetos não
podem ser interpretados em si, isoladamente. Considerado no aspecto
semântico, como já foi dito, um mito só adquire sentido
quando incluído no grupo de suas transformações. Do
mesmo modo, um objeto, considerado apenas no aspecto plástico, é
uma réplica de outros tipos, cujas formas e cores transforma ao
assumir sua individualidade. Para que esta individualidade se oponha à
de outro objeto é necessário (e basta, diz Lévi-Strauss)
que prevaleça uma mesma relação entre a mensagem
que o primeiro objeto deve transmitir ou conotar e a mensagem que, na mesma
cultura ou cultura vizinha, deve ser veiculada por outro objeto. Assim,
deverá ser constatado que as funções que se opõem
para comparação se encontram, entre si, na mesma relação
que a plástica, o grafismo, o colorido próprio dos objetos,
encarados materialmente. E, como a cada tipo de objetos (rituais, como
as máscaras) se ligam mitos que têm por finalidade explicar
sua origem lendária ou sobrenatural e fundamentar seu papel ritual,
na economia, na sociedade, Lévi-Strauss pensa que o método
que deu boas provas no estudo do mito encontrará verificação
se for possível descobrir, entre os mitos que estão na base
de cada tipo de máscara, relações de transformação
homólogas às que, apenas do ponto de vista plástico,
prevalecem entre os objetos propriamente ditos. É preciso salientar,
entretanto, que Lévi-Strauss não propõe, explicitamente,
uma “teoria dos objetos”, mas que os elementos contidos em sua análise
das máscaras salish e kwakiutl podem, de modo claro,
ser aplicados na análise de diversos outros objetos rituais, que
se relacionam com o mito ou mesmo com o sistema mítico como um todo.
Tal
como faz para o mito, Lévi-Strauss diz que, para decifrar o “enigma”
do objeto deve-se reunir o maior número possível de informações
a seu respeito: tudo o que se sabe sobre seus caracteres estéticos,
de sua técnica de fabricação (ele não aprofunda
este aspecto), do uso a que se destina e dos resultados que dele são
esperados. E finalmente, tudo acerca dos mitos que narram sua origem, sua
aparência e suas condições de uso, em suas diferentes
versões. Esse “dossiê” é que poderá ser comparado
a outros.
A
seguir, ele analisa os grupos de transformação dos
mitos, e põe em evidência certos aspectos invariantes das
máscaras de um determinado tipo, encaradas no aspecto plástico
ou nos mitos originários. Aparecem, então, invariâncias
de cor, forma e nos elementos mínimos do objeto. No plano sociológico
e religioso surgem invariâncias quanto à finalidade
e modo de transmissão do objeto (casamento, herança etc).
No plano geográfico, invariâncias quanto ao
uso. No plano semântico surgem às vezes afinidades
que devem ser articuladas num sistema em que, tendo o objeto correspondência
com os mitos em diferentes planos, os mitos adquiram um “plano plástico”.
Para cada termo do sistema, como sempre, convém descobrir sua função
semântica e seu oposto. No entanto, se ficarmos apenas no objeto,
em si, ficaremos atados a incertezas e, portanto “é preciso infletir
o nosso caminho lógico e descobrir uma via original que nos faça
sair desse impasse...” (Lévi-Strauss,:49).
O
que há de original, na via que Lévi-Strauss encontra para
resolver esse impasse, é a construção apriori
de um modelo que teoricamente se oporia ao encontrado a partir das máscaras
empíricas e seus mitos de origem. Quanto ao procedimento, é
exatamente o mesmo que ele usa para a análise dos mitos. A novidade
é que agora o mito possui mais um plano, concreto. E como
para Lévi-Strauss todo mito ou seqüência de um mito seria
incompreensível se cada mito não fosse passível de
oposição a outras versões do mesmo mito ou mitos aparentemente
diferentes, cada seqüência a outras seqüências do
mesmo ou de outros mitos e, principalmente, àqueles mitos e seqüências
de mitos cuja estrutura lógica e conteúdo concreto, considerados
pormenorizadamente, parecem seguir em direção oposta, para
aplicar este método ao analisar as máscaras seria preciso
que cada obra, em seu contorno, cores e ornamentação se opusesse
a outras, cujos elementos, sendo os mesmos, mas tratados de modo diferente,
viessem a contradizer os seus para servir de suporte a uma mensagem especial.
“...no caso das
máscaras, teríamos que reconhecer que, tal como as palavras
na linguagem, cada máscara, isoladamente considerada, não
contém em si toda a sua significação. Esta resulta
ao mesmo tempo do termo escolhido e dos sentidos – excluídos por
essa mesma escolha – de todos os outros termos que poderiam figurar em
lugar dele.” (Lévi-Strauss, 1971:51).
Se
assim é, e se forma, cores e demais aspectos são indissociáveis
de outros aos quais se opõem (Lévi-Strauss supõe que
uma das razões de ser de um tipo de máscara é contradizer
o outro), ele afirma que a comparação dos dois tipos permitirá
definir um campo semântico no qual as funções de cada
máscara se completem mutuamente.
Ele
enuncia,
a priori, as contradições que a “máscara
ideal” deve satisfazer, supondo uma relação de oposição
e uma de correlação. É notável como ele o faz
e, ainda mais, que a máscara seja realmente encontrada, em outro
grupo. Repetindo, para a nova máscara, todo o processo analítico
da primeira, conclui (como já era esperado) que ela realmente se
opõe e ao mesmo tempo complementa a anterior, tanto no seu aspecto
plástico quanto no social. Se uma é côncava, a outra
é convexa, se uma é adornada com pelos, a outra o é
com plumas, se uma tem saliências, a outra tem reentrâncias,
se uma dá a outra retira, se uma é “boa”, a outra é
“má” e assim por diante, ”quase como o molde e a peça que
dele sai, completam-se” (Lévi-Strauss,
1979:59). Chega à conclusão, após a análise
das funções das máscaras nos grupos que, quando “de
um grupo para a outro a forma plástica se conserva, a função
semântica inverte-se. Pelo contrário, quando se mantém
a função semântica, é a forma plástica
que se inverte” (:79).
Fica
provado, ao final de 80 páginas, que ambas as máscaras são
peças de um sistema, em cujo interior se transformam reciprocamente.
Como acontece com os mitos (não esqueçamos que as máscaras,
durante a análise, transformaram-se no “plano plástico” do
mito e, portanto também mito) as máscaras e os ritos em que
figuram só são compreensíveis através das relações
que as ligam umas às outras. E a “atribuição de
cada característica a este ou aquele ser sobrenatural é função
da maneira como, no seio de certo panteão, esses seres se opõem
uns aos outros para melhor assumir papéis complementares” (Lévi-Strauss,
1979:80).
Conclusão
Seria impossível,
no espaço deste artigo, resumir ou aprofundar satisfatoriamente
as questões que se colocam a partir do contato com as idéias
de Lévi-Strauss. Sua produção é imensa, suas
idéias altamente abstratas e o estilo de apresentação
é geralmente confuso, apesar de fascinante. Mas se as rotas de seu
pensamento são difíceis de acompanhar, a estrutura lógica
e as implicações empíricas de seu esquema teórico
parecem claras. Especialmente quando se tem em mente que a metodologia,
terminologia e estrutura conceitual empregadas não são traçadas
apenas a partir da lingüística estrutural mas, também,
a partir de desenvolvimentos mais recentes das ciências, como a computação,
a cladística, a cibernética, a teoria das comunicações,
a análise de sistemas, a teoria dos jogos e a lógica simbólica.
O modelo principal é a linguagem, mas parecem ser os traços
formais, quase matemáticos, da linguagem, que prevalecem em seu
pensamento.
Alguns
críticos observaram que esse modelo, transferido para a cultura
(que é concebida como constituída por instituições,
eventos, comportamentos e fenômenos decomponíveis em códigos
formais, relações lógicas, oposições
binárias, conjuntos de contraste e regras de assimetria) cria um
homem no qual a irracionalidade, o instinto, a emoção e a
imprevisibilidade são postos de lado. O homem, para Lévi-Strauss,
assemelha-se a um computador; é um ser essencialmente lógico,
“programado” (por quem? para que?) para elaborar códigos e sistemas
simbólicos complicados. E o objetivo da etnologia, a seu ver, é
a construção de modelos explicativos desses códigos
para chegar-se, no limite, ao funcionamento lógico da mente humana.
Mas os modelos não dão conta de certos aspectos não-lógicos
desta mente:
“Eu sei que esse
gênero de abordagem que eu pratico não esgota a totalidade
dos fenômenos (...) um modelo matemático (...) para explicar
uma conjuntura meteorológica, não dará conta da emoção
estética provocada por um pôr-do-sol” (Lévi-Strauss
e Eribon, 1988:144).
A
construção de modelos teóricos formais (ou qualquer
modelo) não os capacita a explicar, por si mesmos, os fenômenos
empíricos. As teorias explicam, os modelos não. Claro que
um modelo formal pode ser convertido em teoria ao se atribuir um conteúdo
empírico especifico aos vários símbolos do modelo,
como Lévi-Strauss faz em “A Via das Máscaras”. Mas então
os elementos do modelo se tornam entidades empíricas e as relações
entre tais entidades seriam mais empíricas que formais. Mesmo levando
em conta as limitações dos modelos formais quando aplicados
a situações empíricas, mesmo quando não podem
explicar o fenômeno, eles podem ser importantes instrumentos para
atingir explicações. A formalização de um sistema
empírico pode servir para simplificar um conjunto muito complicado
de processos e relações empíricas. A “simplificação”
pela “formalização” pode contribuir para a compreensão
dos aspectos de uma cultura, especialmente quando a complexidade empírica
impossibilita uma abordagem direta. Os modelos esclarecem problemas, localizam
erros e tornam mais aguda a percepção de certas relações
entre elementos do sistema. Mas se o objetivo for ultrapassar o puro exercício
lógico, será necessário conseguir uma forma de fazer
a transição do que é formalmente possível para
o que é empiricamente provável.
Pode-se
fazer muitas objeções ao método e/ou teoria de Lévi-Strauss,
entre elas a simples e contundente afirmação de que o que
ele chama de “estrutura profunda” (alicerce de todo o pensamento estruturalista)
não pode ser verificada empiricamente, tratando-se de inferências
de dados empíricos. Lembremo-nos, então, que este tipo de
interpretação vem sendo utilizado, com sucesso, pela psicanálise.
Além disso, esbravejando contra seu desprezo pela história,
contra a comparação de incomparáveis, contra seus
malabarismos intelectuais que não conseguimos acompanhar, mesmo
assim, ainda podemos, com Lévi-Strauss, intrigarmo-nos com a invariância
de certos comportamentos humanos e perguntarmo-nos: por quê?.
Para
a antropologia em geral, o espírito humano é capaz de tudo
adquirir; para o estruturalismo é capaz de tudo engendrar. Para
a primeira, ele não desempenha nenhum papel; para o segundos, ele
desempenha todos, menos um: o que consiste em escolher qual papel será
desempenhado, que pertence à História. Para ambos, no entanto,
nenhuma regra de uma língua, nenhuma regra de uma cultura é
inata. Seja verdade que o espírito humano combine tudo, seja que
aprenda todas as combinações, é suficiente para isso
que disponha das operações mais gerais. É nisso que
parece acreditar Lévi-Strauss, antropólogo instigante tanto
pela originalidade de suas idéias quanto pela audaciosa maneira
com que procura usá-las. Ele sugere uma nova maneira de observar
os fatos conhecidos. E seu método é interessante, não
tanto pela aplicabilidade e conseqüências práticas, mas
principalmente porque, dada a sua engenhosidade, torna-se “bom para pensar”.
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