Introdução
A revista A Aurora
Lettras-Artes-Sciencias foi criada em 1885 por Theóphilo
Guimarães e Alexandre Gusmão, dois jovens estudantes do conceituado
Liceu de Humanidades
,
justamente no momento em que a cidade de Campos dos Goytacazes, assim como
as principais cidades brasileiras, passavam por importantes transformações
de ordem econômica, social e urbana, a favor do ideário de
construção do Brasil moderno. Do ponto de vista econômico,
as usinas substituíam os antigos engenhos a vapor, ao mesmo tempo
em que se inaugurava a primeira indústria urbana, a Industrial Tecidos
Campista, marcando a entrada do capitalismo industrial na planície.
Do ponto de vista social, os barões do açúcar começavam
a perder seu prestígio, enquanto se assistia à consolidação
de uma sociedade tipicamente urbana composta por comerciantes, industriais,
profissionais liberais e por trabalhadores. E no que concerne às
transformações urbanas, a cidade sofria inúmeras intervenções
no sentido de modernizar o seu espaço urbano.
Os estudos urbanos sobre
Campos são recentes; no que tange à história urbana,
podemos destacar os trabalhos de Heloísa Manhães
Alves (1996) e o de Teresa Peixoto Faria (1998).
O primeiro tenta demonstrar que a remodelação implementada
no espaço urbano da cidade, no final do século XIX, articulava-se
com o projeto político de tornar Campos a capital do Estado do Rio
de Janeiro. O último faz uma análise, num longo espaço
de tempo, do seu processo de urbanização quanto à
transformação de sua morfologia social e urbana, resgatando
novos atores e fatores responsáveis pela produção
do seu espaço urbano, forjando uma nova representação
da cidade, além daquela construída a partir da importância
de sua indústria açucareira.
Essas transformações
da cidade de Campos sempre foram registradas e comentadas pela imprensa
local. O jornal O Monitor Campista fundado em 1834, e em circulação
até hoje, por exemplo, funcionava como órgão oficial
da Câmara Municipal. Segundo Horácio de Souza
(1985:301), de 1835 a 1935 publicaram-se mais de 172 jornais em Campos
dos Goytacazes. O autor cita alguns que considera "dignos de nota": Vinte
e Cinco de Março; A República; A Gazeta do
Povo, Folha do Commercio, entre outros.
A vida cultural da cidade
também era intensa e desenvolvia-se no conhecido Boulevard da Imprensa,
onde estavam estabelecidos os teatros Orion (1913) e Trianon (1921), variados
cafés, como o Americano Clube, o Clube dos Políticos, o Chat
Noir, o Café Leme e o cultuado Café High Life. Remarcamos,
também, a presença de círculos literários,
associações beneficentes e sociedades musicais. Captar a
ambiência sócio-política e cultural da cidade é
importante para entendermos a dinâmica da articulação
dos vários grupos intelectuais (Gomes, 1999:10).
Não pretendemos desenvolver
um estudo sobre a história da imprensa campista. O nosso interesse
em estudar a revista A Aurora Lettras-Artes-Sciencias deve-se
ao fato de que nela publicavam-se, além de assuntos de interesse
geral (entretenimento, cultura e informação), artigos escritos
por médicos, engenheiros e intelectuais, que veiculavam as imagens
do progresso e da civilização que iluminavam o universo cultural
da burguesia em ascensão. Além disso, apesar de a revista
A
Auroraocupar um lugar de destaque na memória dos intelectuais
campistas, por ser a representação e a expressão das
manifestações da produção literária
e jornalística, ela nunca foi objeto de pesquisa.
Vale lembrar que a imprensa
periódica é fonte documental importante, pois revela o processo
de construção da identidade de uma sociedade e de suas representações.
Nas palavras de Ana Lúcia Martins (2000),
os periódicos são fontes privilegiadas pelo historiador por
envolvê-lo no tempo pretérito que ele busca reconstruir e
por documentar o passado através do registro múltiplo: do
textual ao iconográfico, do perfil de seus editores ao de seus leitores,
reunindo suas variadas visões de mundo e imaginários coletivos.
Deste modo, tanto quanto o jornal, porém mais que o livro, a revista
foi um instrumento eficaz na propagação de valores culturais,
em virtude de seu caráter de momento, condensado, ligeiro e fácil
consumo.
Nesse sentido, o nosso objetivo
é, a partir do resgate dos ideários da construção
do Brasil Moderno, confrontados com os discursos publicados na Aurora
Lettras- Artes-Sciencias, destacar a importância desta revista
no processo de remodelação e modernização da
cidade de Campos dos Goytacazes no início do século XX, no
que concerne à construção de novas representações
da sociedade e espaço urbanos, legitimando as intervenções
no seu quadro social e urbano para introduzir a sociedade campista no processo
da modernidade.
O método aqui utilizado
no que concerne à análise dos textos, é identificar
a forma como os sentidos se instalam a partir da ação e dos
efeitos dos discursos produzidos, na tentativa de extrairmos uma análise
histórico-sociológica, sem abandonar, entretanto, o interesse
pelo conteúdo em si dos artigos nela publicados, mapeando as idéias
que os norteavam, bem como os argumentos utilizados.
O trabalho de análise
destes artigos exigiu uma sucessão de procedimentos em relação
aos textos e ao contexto. Primeiramente fizemos uma leitura geral da revista
para conhecermos o material a ser trabalhado; identificamos os principais
temas e optamos trabalhar com os artigos de cunho higienista. Esta escolha
justifica-se, porque foi a questão de higiene que motivou as intervenções
nas cidades no final do século XIX e início do século
XX. Em seguida, identificamos quem escreve, para quem escreve e de onde
escreve, ressaltando a situação política e cultural
do momento. Assim, atentamos para o objetivo do emissor na sua relação
sócio-lingüística com o receptor, ou, na terminologia
precisa, do enunciador para o co-enunciador (a quem o texto é dirigido
e o que se pretende com ele). Finalmente, realizamos uma intertextualidade
com a literatura sobre a construção da modernidade brasileira,
atingindo assim o objetivo do trabalho.
Da Infância à
Aurora
Quando foi criada, em 1885,
tratava-se de um semanário manuscrito com o título A Infância.
Em 1886 o título mudou para A Aurora Jornal Litterário,
Poético e Noticioso. E, a partir de 1900, quando, finalmente,
tornou-se uma revista com publicação regular, recebeu o título
de A Aurora Lettras - Artes - Sciencia.
É interessante observar
que A Aurora surgiu um ano após a inauguração
do Liceu de Humanidades e, segundo Múcio da Paixão
(1924:221), a iniciativa de Theóphilo Guimarães e Alexandre
Gusmão representou a abertura de um campo propício para os
jovens pronunciarem suas idéias, seus sentimentos, tornando-se então
"a arca das jóias literárias da Mocidade liceísta
.
Destacamos dois momentos
de sua trajetória. O primeiro momento, entre 1885-1891, quando o
escritório e tipografia localizava-se na rua Formosa, 19, no centro
da cidade. No ano de 1885 foram publicados 13 números manuscritos,
contendo quatro páginas, em formato 22cm x 15cm. Em 1886 ocorreu
a mudança do título para A Aurora Jornal Litterário,
Poético e Noticioso, e sua numeração seguiu a
ordem dos números anteriores. Nota-se que sua produção
ainda era muito artesanal; mas em 15 de abril deste mesmo ano saiu o primeiro
número impresso, e sua tiragem aumentou para 20 exemplares. Já
em 1888 o formato foi alterado para 32cm x 22cm, indo com este formato
até o número 17. Sua tiragem passou a ser de 100 exemplares,
neste ano, publicando-se 31 números seguidamente, algo que até
então não havia ocorrido. A partir de 1889, o periódico
passou por problemas financeiros, publicando apenas 11 números.
Reaparece no início de 1890 e publica-se até 28/8/1891.
O segundo momento foi seu
retorno em grande estilo, no ano de 1900. Theóphilo Guimarães
continuava sendo o proprietário, tendo como diretor o jornalista
carioca, radicado em Campos, Salema Araújo. Segundo o memorialista
Waldir
de Carvalho (1985:207), Theóphilo Guimarães era campista
e desde cedo dividia os estudos com o trabalho. Também era liceísta
e seu primeiro trabalho foi no jornal
A Gazeta do Distrito. Dedicou
sua vida às letras, através de jornais e de sua célebre
revista. Era considerado um autodidata.
A revista distinguiu-se dos
números anteriores não apenas pelo novo título A
Aurora Lettras - Artes- Sciencia, mas também pelo novo layout,
em formato 27cm x 19cm, com 30 páginas, tendo um acréscimo
no número de colaboradores. Apresentava Sumário, no qual
estavam relacionados os artigos e seus autores. Vale notar que não
havia propaganda. A capa foi cuidadosamente desenhada por Raul Pederneiras,
cartunista carioca que fazia incursões na imprensa campista.
Os desenhos das sucessivas
capas expressavam sempre um perfil de mulher de traços finos e cabelos
longos. Tal imagem nos remete de modo flagrante à figura de "La
Marianne" - que, como se sabe, foi escolhida, na França, para
simbolizar a República. Desse modo, reforçava-se a importância
do papel feminino na construção da sociedade moderna. As
capas eram em verde oliva ou azul, indicando um forte nacionalismo. Ao
fundo, como não poderia deixar de ser, o sol nascente, a aurora,
simbolizando o amanhecer de um novo tempo.



A revista passou a ser impressa
numa tipografia na rua do Conselho, 52, onde também era editado
o jornal de grande expressão da cidade O Monitor Campista.
Neste momento, contava com vários colaboradores, dentre os quais:
Dr. Ramiro Braga (médico, ex-liceísta, cursou medicina na
Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro); Dr. Lima Thompson (de Cantagalo,
veio para Campos em 1898, quando foi nomeado para o cargo de promotor público);
Dr. Silvio Fontoura, (dentista , ex- liceísta, fez o curso de odontologia
na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro) ; Dr. Ignácio de Moura
(médico, ex-liceísta, cursou medicina na Faculdade de Medicina
do Rio de Janeiro); Dr. José Rodrigues Leite Junior (engenheiro
civil carioca, formado pela Escola Politécnica do Rio de Janeiro,
radicado em Campos); Múcio da Paixão (literato campista,
ex-liceísta); Dr. Thiers Cardoso (dentista, formado pela Faculdade
de Medicina do Rio de Janeiro, formou-se também em direito). Ressaltamos,
que todos esses nomes são importantes para a sociedade campista.
Eles faziam parte dos novos grupos sociais que emergiam nesta sociedade
no fim do século XIX, e que Faria (1998:226)
definiu como "notáveis", quando analisa os grupos sociais urbanos
em ascensão em oposição à classe dos senhores
de terra. Articulistas de outros centros, principalmente do Rio de Janeiro,
como Luiz Pistarini, Humberto Corrêa, Miguel Monteiro, Jayme Guimarães,
Júlia Lopes e outros, também publicavam seus artigos, contos
e poesias.
Múcio
da Paixão, em seu livro Movimento Literário em Campos,
ressalta que as origens desta geração literária poderiam
ser atribuídas a três fatos: a criação do Liceu
de Humanidades, o aparecimento de A Aurora e a publicação
do jornal A Gazeta do Povo.
No número de 1°
de janeiro de 1901, Salema Araújo faz o seguinte comentário
que demonstra o lugar de destaque que se pretende para o periódico:
"após muito trabalho, ella reappareceu em 1900, revestida de um
aprimorado gosto e contendo um talentoso grupo de collaboradores". Neste
ano, a revista constava de 40 páginas e no ano de 1906, considerado
sua grande edição, constou de 100 páginas, constituindo
um verdadeiro "número almanaque" (Guimarães,
1917:140).
Em 1917, seu proprietário
resolve alcançar o espaço literário da cidade do Rio
de Janeiro, instalando sua tipografia na rua S. Pedro, 213, próximo
à Avenida Passos. Mas a publicação da revista em solo
carioca durou apenas um ano, tendo sido publicados 21 números, com
um total de 460 páginas (Guimarães,
1927:141). Este período, apesar de curto, certamente propiciou aos
diretores de A Aurora acompanhar de perto as discussões
existentes no mundo intelectual da capital a respeito da pretendida modernidade.
De toda maneira, a revista veiculou os acontecimentos culturais, políticos,
sociais e econômicos de Campos dos Goytacazes na sociedade carioca.
Os artigos de A Aurora,
como veremos, centram-se na higiene do espaço físico e corporal,
na família, no lar, nos hábitos viciosos e na integridade
dos indivíduos. Notamos que estas questões estavam no cerne
do projeto de modernização pretendido para o Brasil naquele
momento, transformados em pontos fundamentais para a consolidação
da modernidade em Campos.
O papel das Cidades na
construção do Moderno
Para Giddens
(1991), o conceito de modernidade refere-se ao estilo, costume, modo de
vida ou organização social que emergiram na Europa a partir
do século XVII e que ulteriormente se tornaram mais ou menos mundiais
em sua influência.
A forma como Bermann
(1999:15) conceitua o moderno retrata, claramente, a ebulição
que a modernidade trouxe para o cotidiano da sociedade e os seus longos
efeitos:
"Ser moderno é
encontrar-se em um ambiente que promete aventura, poder, alegria, crescimento,
autotransformação e transformação das coisas
ao redor - mas ao mesmo tempo ameaça destruir o que temos, tudo
o que sabemos, tudo o que somos".
O que importa é que a
cultura da modernidade é eminentemente urbana e comporta a conjunção
de duas dimensões indissociáveis: por um lado, a cidade é
o sítio da ação social renovadora, da transformação
capitalista do mundo e da consolidação de uma nova ordem;
e, por outro, a cidade torna-se o tema e o sujeito das manifestações
culturais e artísticas. Desta forma, houve a criação
de novas representações da cidade e da vida urbana, na qual
a identidade urbana conjugava a cidade real e a cidade ideal, contrabalançando
e trocando sinais entre uma "cidade do possível" e uma "cidade do
desejo" (Pesavento, 1999).
É importante sublinhar
que, na construção do Brasil moderno, está presente
a produção de um discurso baseado na questão da higiene,
da moral, da disciplina e da renovação. Estes discursos faziam-se
necessários, pois as ex-cidades coloniais brasileiras, reanimadas
por novas formas de acumulação de capital, revelaram os limites
de suas estruturas urbanas arcaicas frente às novas exigências
econômicas. Neste sentido, a partir de meados do século XIX,
experimentaram intervenções, muitas vezes radicais, no seu
antigo tecido urbano.
Assim, como define Chalhoub
(1996:35), a Higiene é vista como uma ideologia, ou seja, como um
conjunto de princípios destinados a conduzir o país ao "verdadeiro",
à "civilização", o que implicava na despolitização
da realidade histórica e legitimava as novas decisões quanto
às políticas públicas aplicadas no meio urbano.
O Brasil viu surgir, então,
um conjunto de valores e ideologias que eram apregoados pela elite política
brasileira, mas que tinham como referência a modernização
européia, difundindo a necessidade de "reformar", "regenerar", "civilizar"
a sociedade e o país. O objetivo era se equiparar com a Europa no
que se refere ao cotidiano, instituições, economia e idéias
liberais.
A partir desta constatação,
assistiu-se à desconstrução da "cidade colonial" bem
como à sua reestruturação sob a égide de projetos
modernizadores defendidos pela República, que via, como uma das
estratégias para vencer o "atraso colonial", a reformulação
do espaço urbano.
Campos também passou
por uma série de intervenções animadas pela ideologia
higienista. A partir do trabalho de Faria (1998:327),
podemos observar que, em Campos, a exemplo das demais cidades importantes
do país (Rio de Janeiro, São Paulo e Santos), tudo o que
concerne à higiene e saúde públicas foi transformado
em discurso e motivo para intervenções no seu tecido urbano
e social. Percebe-se que a elite campista, juntamente com a municipalidade,
manifestava a vontade de promover o progresso, implementando diversos projetos
que objetivavam adequar sua população às novas regras
imperativas da organização do espaço urbano impostas
pelo capitalismo nascente, introduzindo, assim, a cidade no projeto modernizador
brasileiro.
Como exemplo podemos citar
o Projeto de Saneamento da Cidade de Campos, realizado, em 1902, pelo engenheiro
Saturnino de Brito apoiado nas idéias positivistas
.
Segundo Brito (1943:117), era necessário resolver
as questões de higiene e saneamento públicos das nossas cidades
dando muita atenção à forma de morar e de construir
a moradia da população pobre. Ele julgava que era através
da moralização e do saneamento deste lar que o indivíduo
estaria sendo reeducado para desempenhar seu papel no espaço público.
Vários estudos comprovam
que a filosofia de Auguste Comte foi uma referência ideológica
decisiva no campo intelectual brasileiro, na segunda metade do século
XIX. Entretanto existe uma discussão a respeito da importância
do positivismo na formação cultural brasileira. O clássico
trabalho de Ivan Lins (1967), intitulado História
do positivismo no Brasil, afirma a influência da obra de Comte
se irradiando no Brasil, com maior ou menor intensidade, por vários
setores da vida social, como a política, a literatura, a educação
e a ciência. Já Fernando de Azevedo
(1995) afirma que a contribuição do Positivismo foi insignificante,
senão praticamente nula para a constituição e o progresso
das ciências experimentais no Brasil. Segundo o autor, a absorção
da doutrina teria se concentrado em sua parte político-religiosa,
dando provas da impermeabilidade das elites brasileiras da época
aos princípios e métodos da ciência.
O que importa neste estudo
é que o positivismo elevava o poder da ciência como chave
para a promoção de um saber objetivo e eficaz sobre a realidade,
um conhecimento tido como infalível no sentido de apontar os caminhos
seguros para o bem-estar moral e material da sociedade. Foi o positivismo
a base teórica que atuava tanto nas escolas de medicina quanto na
Escola Politécnica. A incorporação do ideário
positivista, pelos engenheiros e médicos, tornou-se necessária
diante das novas demandas sociais oriundas do surto econômico da
cultura cafeeira e do conseqüente crescimento urbano que incorporou
o modelo europeu.
É neste contexto político-discursivo
em torno da ciência e da filosofia - na função que
esta exerce de condutora dos rumos da sociedade - que surge a revista A
Aurora Lettras - Artes - Sciencias, com seu elenco de colaboradores,
majoritariamente formado, como vimos, por médicos, engenheiros e
literatos cientificistas. Nela identificamos um dos instrumentos necessários
à difusão e consolidação do ideário
positivista defendido por Brito e por outros idealizadores da cidade moderna,
influenciando as intervenções realizadas no espaço
urbano e nas práticas dos citadinos.
Na questão que julgamos
central - o discurso que se articula a partir do corpo de enunciadores
- considerava-se que a população pobre da cidade não
compartilhava os avanços econômicos vivenciados por estes
agentes formadores de opinião, representando, assim, um certo empecilho
ao projeto de modernização. Para modificar esta situação,
tal população teria que ser "disciplinada" para viver dentro
do novo delineamento social.
De fato, com o desenvolvimento
do capitalismo e o florescer da sociedade urbano-industrial, as cidades
tornaram-se as manifestações mais visíveis dos paradoxos
da modernidade. De um lado, a riqueza, o luxo, a ostentação
burguesa; de outro, os pobres, os subalternos, proletários, enfim,
aqueles que
Pesavento (1994) chama de os protagonistas
da "questão social".
Para Pesavento
(1994:8), a rigor, a sociedade capitalista gerou as condições
para que a questão social se colocasse como problema e indagação:
o que fazer com os pobres desafortunados e, principalmente, o que fazer
para impedir que a questão social degenere em conflito e este em
ameaça efetiva para a sociedade?
Perante esta indagação,
a questão social, afirma a mesma autora, suscitou a elaboração
de discursos científicos que a descrevem, analisam e despertam estratégias
de abordagem para atingir resultados satisfatórios. Tais discursos
pressupõem intervenções de técnicos (o médico,
o higienista, o advogado, o engenheiro) comumente atrelados ao Estado,
parte interessada em disciplinar os subalternos. É assim que se
articula o discurso do médico higienista, o discurso jurídico
e criminológico, bem como o discurso técnico e estético.
Segundo Herschamann
(1994:47), o discurso do cientista-intelectual
repensava como construir a idéia de nação, de identidade
nacional, raça e sexualidade, trazendo os indícios do conjunto
de valores e códigos sociais, que passaram a orientar os indivíduos
em direção a um cotidiano "civilizado".
Os discursos destes cientistas
portadores de um saber técnico e especializado foram construindo
as diretrizes básicas da sociedade brasileira (Sevcenko,
1994). Não temos a pretensão de incluir os cientistas, intelectuais
ou "literatos cientificistas" campistas na cúpula da inteliggenzia
brasileira, embora a cidade tenha produzido importantes personagens, como
Luiz Carlos de Lacerda, editor do jornal abolicionista Vinte e Cinco
de Março e ainda alguns tenham alcançado reconhecimento
nacional, como José do Patrocínio e o próprio Saturnino
de Brito.
Buscamos apenas demonstrar,
através de seus artigos publicados em A Aurora, o
quanto estes estavam afinados com as idéias liberais e movidos por
uma vontade de transformação radical da estrutura sócio-econômica,
que incluía introduzir a cidade de Campos dos Goytacazes no projeto
de modernização brasileira.
A Aurora
construindo os alicerces da "Campos moderna"
Na revista A Aurora,
os artigos do promotor público Dr. Lima Thompson, voltados para
a família e a educação, são acompanhados da
elaboração de imagens da população pobre denominada
por ele de "os deserdados da sorte". O promotor transmite sua preocupação
em moralizar tal segmento social, qualificando seus hábitos de "viciosos".
Defendia, então a criação de colônias agrícolas
para os adultos que não conseguissem ser absorvidos pela indústria
e o comércio, com o intuito de contribuir com o poder público
na resolução dos problemas oriundos do ócio, a saber,
a vadiagem e o alcoolismo que acabavam, segundo ele, elevando o índice
de criminalidade.
"Em um paiz como
o nosso, onde em pouca monta se tem interesse commum, um problema que está
a clamar por urgente solução é o meio de se oppor
um dique a vadiagem, que se avoluma dia a dia, ao incitamento do pouco
caso com que o Governo deixa sem remédio efficaz tão grande
mal... Uma verdadeira medida de hygiene social deve ser forçosamente
adoptada para que o Governo não se torne cúmplice da perdição
desses indivíduos que, atirados aos caprichos da sorte, irão
mais tarde engressar as fileiras dos criminosos.... A creação
de colônias agrícolas, pois, é a medida regeneradora
que se impõem aos nossos governantes.... Reprima-se a vadiagem e
teremos a estatística criminal de Campos reduzida a nullas proporções
(A Aurora, anno VIII, 13/5/1900. p.10).
No artigo "Ser Mãe",
assinado por Júlia Lopes Almeida, nota-se a intenção
de valorizar a maternidade e atentar que o cuidado com a infância
era fundamental, já que as crianças seriam os cidadãos
do futuro. Assim, a autora delineia, o modelo ideal da mãe. A população
pobre é o principal alvo a ser atingindo, pois a presença
de meninos vagando nas ruas, era algo indesejável.
"Ser Mãe
e renunciar a todos os prazeres mundanos, aos requintes do luxo e o da
elegância; é deixar de apparecer nos bailes em que a vigília
se prolonga, o espírito se excita e o corpo se cansa no goso das
valsas; e não sahir sem temer o sol, o vento, a chuva, na desgraça
da dependência do terror immenso de que sua saúde soffra e
reflita o mal na creança; e passar as noites num cuidado incessante,
em somnos curtos, leves, com o pensamento sempre preso à mesma criaturinha
rósea, pequena, macia que lhe suga o sangue, que lhe magoa os braços,
que a enfraquece, que a enche de sustos, de trabalhos e de prevenções
- mas que a faz abençoar a ignata Providencia de a Ter feito mulher,
para poder ser mãe!"( Anno X - Campos, 01/01.1902 - n.1 -p.02).
Já o promotor Lima Thompson
defendia a idéia da criação de uma Escola Correcional
para as crianças das famílias pobres, que teria o objetivo
de reeducá-las. Em seu artigo intitulado "Colônia Correccionaes"
(Aurora, Anno VIII, 17/3/1901, nº 12, p.12), demonstra a intensidade
dos problemas sociais na cidade, enfatizando a importância da criação
de uma colônia para recuperar crianças que vivem perambulando
nas ruas centrais, cujas práticas de comportamento significavam
a desordem. Para o promotor a existência dessas colônias em
Campos era uma maneira de controlar parte dos problemas sociais; na sua
visão, investir na criança seria amenizar os problemas para
o futuro, já que esta criança seria um futuro cidadão.
"(...) Campos, na
qualidade de uma das maiores cidades do Estado e onde a vadiagem assume
proporções assustadoras, clama por um correctível
efficaz, tendente a aproveitar essas creanças que de futuro poderão,
bem encaminhados, concorrer para o seu engrandecimento. (...) Este município
possue recursos sufficientes para manter uma Colônia Correcional,
com todos os predicados necessários á regeneração
completa da infância transviada, mas certo é que faz-se sentir
necessária a convergência de esforços dos representantes
da Municipalidade... Inicie, pois, Campos o século das " Maravilhas"
proporcionando luz aos cégos de espírito, desviando d essa
atmosphera viciosa esses lyrios, que estão a medrar no pantano do
crime e que florescerão fatalmente entre as paredes soturnas de
um cárcere."
No artigo intitulado "Pela Infância"
(A Aurora, anno XIX, 6/4/1902, nº 14, p.4), o promotor parabeniza
a iniciativa particular pela inauguração do orfanato na cidade
e cobra do poder público a participação deste de alguma
forma, em relação ao futuro destes cidadãos.
"(...) o único
meio de se colher resultados vantajoso nessa empresa, em prol do futuro
das creanças abandonadas, e conseguir o desvio completo do infante
do meio corrupto de onde o forem colher, afim de purifica-lo pela instrução
e pelo trabalho. Bem é de esperar que o Estado venha ao encontro
da iniciativa individual, fazendo para ella derivar alguma fonte de renda;
porquanto, a ninguém corre mais do que a elle o dever de velar pelo
futuro dos desherdados da sorte, tanto quanto se trata de indivíduos
que pela sua idade, podem pela influencia do mio e da educação
se transformar em cidadãos úteis.." Nos discursos dos médicos
da época, os inimigos do "corpo social" eram os excessos e os desvios;
para eles era preciso, portanto, disciplinar a sociedade, incutir valores,
destruindo, deste modo, os "vícios" e as "perversões" que
tanto ameaçavam os centros urbanos. O alcoolismo, por exemplo, era
considerado um dos vícios mais graves, pois acabava gerando um problema
de cunho social que não distinguia camadas sociais, atingindo desde
o pobre até o rico. Sendo que era mais evidenciado junto à
população pobre devido aos seus hábitos e costumes,
considerados "desviantes".
Em A Aurora, a secção
intitulada "Palestras Médicas" era reservada aos artigos relacionados
à saúde. Num de seus artigos, o médico Ramiro Braga
faz uma abordagem sobre os efeitos do alcoolismo na família. Segundo
ele, a criança que cresce no meio de pais alcoólatras, cresce
em um meio indisciplinado, num lar vicioso, de maus hábitos e violento.
"(...) O álcool,
tóxico privilegiado, veneno ethico, o mais espalhado na expressão
de Lancereaux, verdadeira lepra social, que dia a dia estende os seus temerosos
domínios, penetra todas as camadas sociaes, fazendo estragos incalculáveis,
e sem contestação um factor poderoso de degradação
physica, moral e intellectual... Eis um dos modernismo que pedem repressão.
Até muitas das nossas creanças não escapam ao uso
das bebidas alcoólicas. Mães que se desvelam pela saúde
de seus filhos cercando-os de constantes carinhos e inexcedível
amor, guiadas por falsa doutrina, inconscientes do mal que fazem, dão
aos queridinhos entes, muitas vezes fortes e robustos, bebidas alcoólicas,
certas de que disto só benefício dimanam. É uma pratica
que não encontra justificativa, devendo, pois ser abolida". (Anno
VIII - Campos, 20/5/1900, n. 4, p.26).
Para os higienistas, tanto o
lar quanto a família eram muito importantes no processo de reeducação
do indivíduo. De acordo com Jurandir Freire Costa
(1999:33), a noção de higiene defendia a constituição
de indivíduo puramente burguês a serviço da estratégia
mais ampla do Estado. O burguês deve ser resguardado no reduto do
lar entregando a rua ao domínio público. O trabalho de Michelle
Perrot (1981:8) aponta para um fenômeno que teria ocorrido na
França no século XIX: a separação entre o público
e o privado, a qual nos auxilia no entendimento do que ocorre nas cidades
brasileiras. De fato, a família burguesa brasileira do século
XIX tentou preservar uma certa distinção entre o sentido
da vida privada e a realidade exterior ao lar (Pesavento,
1994).
O domínio público
parecia perigoso e atentatório aos padrões morais da família
burguesa. Afinal de contas, era no espaço público, que a
maior parte dos crimes se perpetravam e cujos agentes eram, em sua maioria,
gente pobre. Porém, não se deve negligenciar o fato de que
a rua também representava, para os pobres, o local de diversão,
de manifestações culturais e de trabalho. Para eles, a rua
era mais importante do que a moradia, razão pela qual nessa nova
cidade que se constrói, o espaço público deixa de
ser o lugar onde se forja a cultura, transformando-se em puro espaço
de circulação (Pechman, 1994:33).
Em um outro artigo, escrito
por Theóphilo Guimarães, lê-se a transmissão
da idéia de que a família burguesa deve-se preservar. Procura-se
introduzir uma certa distinção entre o sentido da vida privada
e a realidade externa, onde o lar seria o abrigo dos perigos oferecidos
pelo espaço público. O autor exalta o lar e a família
como fundamentais no processo de reeducação do indivíduo.
"O Lar"
"Há no mar proceloso
da vida um lugar de refugio, um posto salvador, que buscamos anciosos depois
de haver sido arrojados pelas ondas do infortúnio de encontro as
rochas dos desenganos, esse lugar é o LAR, residência tranqüila
e ditosa de nossas illusões gratíssimas, do embelecimento
de nossa existência.
Quem há que não
tenha sentido alguma vez sobre sua fonte o soprar da desventura! Quem,
por feliz que se julgue, não experimentou siquer um dia, um desses
arroubos de desespero supremo, filho da angustia que nos atormenta sem
compaixão quando o mundo, occultando-nos todos os seus atractivos,
se nos apresenta imponente e ameaçador como um monstro feroz que
nos quer devorar? Contra esses acerbos, contra essas dores terríveis,
só existe o suave bálsamo do LAR - santuário da paz-bons
os consolos da esposa e dos filhos queridos - emblema sublime da família
- incentivo a todas as resignaçõles e a todos os nobres impulsos
do amor e da esperança". ( Anno III, Campos, 22/5/1887, nº.
20).
Paralelamente aos discursos
relacionados ao comportamento dos citadinos, há a atenção
à questão das condições materiais da cidade.
A imagem divulgada das cidades no início do século XX era
a de um lugar que possuía problemas sérios, oriundos da insuficiência
de serviços de infra-estrutura, das suas ruas estreitas e pouco
ventiladas, da sujeira, da falta de moradia para toda a população
que crescia a largos passos, tudo isso facilitando a epidemia de doenças
infecto-contagiosas. Assim, a questão sanitária tornou-se
prioritária para o governo brasileiro, justificando seu controle
sobre o espaço e sobre a moradia e hábitos da população
pobre urbana.
O engenheiro José
Rodrigues Leite Junior enfatiza, na série de artigos intitulados
"Interesses Locaes", a necessidade de melhorias na infra-estrutura urbana.
Ele incitava a municipalidade a tomar providências, no sentido de
agilizar a erradicação dos problemas de saneamento.
"Não nos
cabe a tarefa de apontar à Municipalidade o caminho a seguir para
o bom desempenho de suas responsabilidades perante o público; porém
aproveitando tempo disponível, escreveremos algo de interessante
apresentando algumas considerações. Para uma cidade ou habitação
fazer jus à hygiene, segurança e commodidade públicas,
é necessário que todas as suas prescripções
geraes, sejam observadas rigorosamente. A Hygiene das cidades prende-se
evidentemente às questões de saneamento em todos seus complexos
problemas; à segurança e commodidade e a todas questões
de obras públicas e policiamento. O saneamento de uma cidade pode
se dividir em duas partes bem distinctas: água e esgoto" ( Anno
VIII, Campos, 13/5/1900, nº 23, p.12).
Em um outro artigo sem autoria,
elogia-se a parceria da iniciativa privada com a municipalidade nas obras
de melhoramento da Praça do Mercado. Fazia-se, entretanto,
uma advertência:
"Ao mesmo tempo,
em que a salubridade do espaço e dos alimentos era garantida, tínhamos
o lado perverso que era o deslocamento de pessoas que não tinham
como pagar por estas melhorias, gerando o deslocamento de alguns vendedores
ambulantes do local" (Anno IX, Campos, 02/6/1901, n° 28, p.201).
Nos artigos do engenheiro José
Rodrigues Leite Junior, há nitidamente a preocupação
com a necessidade do saneamento do espaço urbano e também
das moradias, pois para este articulista, o desenvolvimento dos centros
populosos dependia da "sanidade" dos mesmos. Percebe-se, entretanto, que
sua intervenção ultrapassava a questão da construção
propriamente dita, que deveria, segundo ele, obedecer às novas normas
de ventilação, de instalação de esgoto, abastecimento
de água e iluminação. Chegava a atingir a esfera dos
costumes e das necessidades pessoais da família, com o nítido
fim de enquadrar a mesma dentro dos parâmetros da disciplina, da
moral e da higiene.
"(...) Aqui teremos
que abrir mão de todos os nossos processos suasorios, pois tem sido
coisa por demais debatido na imprensa de nossa terra, a questão
da construção de prédios urbanos, sua segurança
e conservação, a iluminação pública
e particular, segurança individual e do lar. Em todas as cidades
cujo desenvolvimento é patente, nota-se o capricho, e febre do embelezamento
nas construções. E aqui? Pelas construcções
avalia-se o estado de um povo. Nessas cidades onde o progresso vive e se
reanima, onde a riquesa estabelece seus fóros, a habitação
vive e se ergue como ostentando em seus frontespicios, a alegria, a vida,
o bem estar, a saúde, o goso dos que abriga (...). Não há
rua na nossa cidade cuja maioria de predios não seja condemnavel
ou sujeito a grandes reparos. Permitte-se habitação em prédios
cujo assoalho do pavimento térreo, está abaixo do solo a
1 metro... Se quizermos enumerar e argumentar com factos, tomaríamos
espaço demasiado (A Aurora, anno X, 1902. p. 20).
Considerações
finais
Este era o pano de fundo
a partir do qual se elaborava o projeto de modernização para
Campos. É verdade que em nenhum desses discursos, as palavras, moderno,
modernidade ou modernização aparecem explicitamente. Mas,
constatamos que os preceitos básicos que norteavam as teorias da
modernidade, neste início de século XX, ali estavam presentes.
Neste novo projeto que se
delineia, identifica-se, antes de tudo, uma crítica à cidade
herdada do período colonial. Esta não convém à
circulação dos homens e de bens; regularidade e simetria
se opõem à desordem do tecido urbano colonial. Circulação,
higiene e embelezamento constituem as três virtudes esperadas de
uma cidade dentro dos padrões modernos. Sem dúvida, esta
crítica toma como referência o modelo europeu de civilização.
O higienismo iniciou o controle sistemático sobre o uso do espaço
urbano, a integridade do corpo e do indivíduo, aplicando-se às
cidades brasileiras estratégias de organização do
espaço urbano e de confinamento de corpos que conduzem, certamente,
a uma segregação espacial. As propostas e intervenções
dos higienistas brasileiros se apoiavam sobre estas estratégias,
adaptando-as a cada meio específico, como vimos acontecer em Campos.
Podemos relembrar Foucault
(1987:119), para quem, numa análise deste mesmo processo, na França
do século XVIII, a disciplina sobre o corpo é importante,
na medida em que a burguesia o vê como uma força de produção,
que entra numa maquinaria de poder que o esquadrinha, o desarticula e o
recompõe dentro do modelo capitalista. O objetivo da crítica
à cidade herdada da época colonial é justificar as
estratégias que visam alcançar o progresso e a modernização
cuja meta é a circulação, as trocas e a higiene. O
projeto de livre comércio se apóia sobre as teorias liberais
e aquele concernente à higiene prescinde de uma política
intervencionista do Estado. Neste sentido, podemos dizer que os discursos
da revista A Aurora Lettras- Artes- Sciencias se dirigiam
ao poder público municipal e à elite dominante que gravitava
ao seu redor. Percebe-se que a produção do discurso em toda
sociedade é ao mesmo tempo controlada, selecionada, organizada e
redistribuída por esta elite e endereçada a seus pares. Evidentemente,
este discurso está longe de ser transparente ou neutro, devido à
sua elaboração estar ligada a interesse de um grupo, uma
instituição (Foucault, 1999).
Por outro lado, a cidade
pensada, formulada, enunciada ou revelada pelo discurso e pela imagem,
não é livre enquanto representação das elites
dominantes. Para
Pesavento (1996:378) as representações
do urbano se edificam a partir de dados da realidade objetiva. Os dados
objetivos são reconfigurados mediante um processo de intenção
deliberada, ilusão do espírito ou manipulação.
Assim, as representações do urbano projetam a "cidade que
se quer" sobre a "cidade que se tem", expressando uma vontade política,
uma intencionalidade de norteamento, de um projeto.
Na revista, observamos, nos
artigos referentes à questão de higiene, a preocupação
com a questão social da cidade, pois se considerava que o seu controle
era vital para a consolidação da burguesia em ascensão.
Os artigos eram imbuídos de valores moralizadores e induziam a práticas
civilizatórias, que em nome da higiene, da salubridade e da modernidade,
ratificavam a necessidade de intervenções e reformas urbanas,
anunciando o urbanismo nascente. Observamos que a higienização
e o urbanismo se confundiam, pois a Higiene estava diretamente ligada às
reformas urbanas. Existia uma preocupação em reeducar os
indivíduos no espaço público (rua) e no espaço
privado (moradia). Neste sentido, o médico participou com certo
destaque em razão de sua ação nos combates às
doenças infecto-contagiosas, cujo principal alvo era a população
pobre. Para o Estado e a economia capitalista, era muito importante um
controle sobre esta parcela da população, o qual se dá
através de sua separação no espaço urbano e
na disciplinarização de suas práticas.
Segundo Chalhoub
(1999:48) a decisão de expulsar as classes populares das áreas
centrais da cidade podia estar associada, ademais, a uma tentativa de desarticulação
da memória recente dos movimentos sociais urbanos. Neste sentido,
a moradia (os cortiços) e os hábitos da população
pobre passam a ser vistos como uma ameaça para as condições
de higiene da cidade, tanto quanto como uma dificuldade para o controle
social dos pobres, devendo, portanto, ser na grande maioria eliminados
do centro urbano.
Vimos que práticas
e discursos são, por sua vez, acompanhados da elaboração
de imagens sobre a população pobre urbana: os deserdados
da fortuna, o Zé povinho; o vagabundo, a prostituta,
o operário. Existe entre estas imagens a presença dos conteúdos
morais, das etnias e raças, envolvidas no processo de trabalho em
formação no processo de industrialização. Enfim,
os negros eram os criminosos, os ladrões, os vagabundos; os mestiços
ou mulatos são o Zé Povinho, e os de aparência imigrante
européia, os trabalhadores (Pesavento,
1994: 9). Neste sentido as imagens, enquanto representações
do mundo social, terminavam por rotular e redefinir os papéis na
sociedade. Desse modo, os negros são associados à vagabundagem
e ao ócio e os descendentes de imigrantes têm sua imagem associada
ao trabalho, ao progresso e à honra. Não é por acaso
que os discursos ajudavam a produzir um processo de "renascimento", de
recriação da identidade nacional, numa tentativa de sanar
nossos "males de origem".
O papel da revista A
Aurora Lettras-Artes-Sciencias foi o de legitimar as modificações
aplicadas à cidade no seu espaço físico e social na
relação dos homens com esse espaço, no seu campo institucional,
assim como nas práticas e nos hábitos públicos de
seus habitantes. Seus discursos delineiam novos contornos para a cultura,e
o cotidiano na cidade de Campos dos Goytacazes.
Notas
Este trabalho decorre da pesquisa intitulada Reformas urbanas e questão
social em Campos dos Goytacazes, coordenada por Teresa Peixoto Faria no
LEEA/CCH/UENF, e faz parte da dissertação de mestrado intitulada
A produção do discurso higienista e suas conseqüências
no espaço urbano: A Aurora Lettras-Artes-Sciencias e o Poder Público,
que está sendo desenvolvida pela aluna Maria Alice de Oliveira Pohlmann,
no programa de pós-graduação em Políticas Sociais
do CCH/UENF.
O Liceu de Humanidade de Campos foi criado, em 1880, como escola de instrução
secundária. Inaugurado em 13/01/1884, suas aulas iniciaram em 4/3/1884.
Ter estudado no Liceu é uma marca de distinção social
para a sociedade campista, pois nele estudaram os intelectuais, médicos,
juristas, engenheiros, políticos considerados como grandes vultos
não só para Campos, como também em outros centros,
como Nilo Peçanha, Alberto Sampaio e Azevedo Cruz.
Como são chamados, até hoje, os alunos do Liceu de Humanidades
de Campos.
Os discursos de cunho higienista, no Brasil, tiveram uma influência
muito grande do Positivismo de Comte, cuja teoria fornecia conceitos que
se relacionavam ao progresso, à ciência e à indústria,
investindo o cientista da missão moral de conduzir os destinos da
humanidade em sua evolução rumo ao "estágio positivo".
Herschmann utiliza esse termo composto, pois teve dificuldade de encontrar
um termo apropriado para este agente social que atuava de acordo com sua
especialização, mas abrangia outras áreas, como a
sociologia. A partir de sua especialização, de seu saber
científico, eles "inventavam" soluções para os chamados
problemas sociais
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