SELVA TROPICAL OU TROPICALIZAÇÃO DA SELVA? ENSAIO SOBRE A CIDADE DE MANAUS

Paulo Castro Seixas
Doutor em Antropologia

Universidade Fernando Pessoa
Porto, Portugal 


 
 
1. No meio da selva

Complexo de viadutos do Bairro de Flores, próximo a Estação Rodoviária Municipal   Fonte da imagem: http://www.pmm.am.gov.br"Estamos em Manaus, no meio da selva! Estão 43 graus!" - diz um brasileiro falando bem alto para o seu "celular" no ar condicionado do átrio de um hotel. E o mito renova-se assim. Manaus é, de facto, para quem olhe para um mapa-mundo, um ponto maior do que os outros, bem no meio da Amazónia. E é da expectativa mítica da selva que obrigatoriamente se fala quando dali alguém se comunica com a civilização, mesmo que seja de um celular e num hotel de 4 estrelas. Ainda que não se tenha posto sequer o pé na vegetação um pouco mais densa que, por vezes, chega aos limites das ruas e o calor seja o que se conhece entre o hotel e o táxi, o táxi e o hotel, é da selva e do calor que se fala. As imagens que se levam de volta à civilização, seja esta a de uma outra cidade brasileira, seja a de uma cidade europeia ou americana, serão certamente as do "encontro das águas", da "focagem do jacaré", da "caminhada pela selva", de um "passeio de canoa", de uma "pescaria de piranha", de uma "visita aos índios", ou de uma estada num "hotel de selva", talvez mesmo de uma noite na "suite do tarzan". Podemos mesmo reviver a nossa passagem pela selva quantas vezes quisermos, não só pelas fotografias que tirámos mas também num filme que, diversas excursões, propositadamente fazem para que confirmemos a nós mesmos e a toda a nossa rede de conhecimentos civilizados, a nossa viagem à selva, como, aliás, seria por todos esperado quando partimos. E mesmo em Manaus, entre os visitantes em trabalho que a "Zona Franca" criada em 1967 potenciou, a pergunta faz-se. "Você já entrou na selva?", pergunta-se a um amigo ao jantar, entre o apreciar de um "pirarucu" ou de um "tambaqui" . A selva activa o desejo e o medo, talvez de uma viagem iniciática ao começo de tudo , mistura de jardim paradisíaco e de caos infernal iniciais. É, pelo menos, essa beleza perigosa que as meninas das agências turísticas locais evocam e elas próprias corporizam. Depois, enlevados pela imaginação, os turistas são entregues nas mãos de homens que comandam os barcos ou que os guiam na selva que as mulheres de Manaus já os tinham feito imaginar.
 
 

Para um antropólogo, a tentação do exótico é grande. Oferecem-nos no hotel, na rua e no porto, pejado de "barcos regionais", viagens à selva em "motores" ou em "canoas" dormidas em redes nas casas de caboclos ribeirinhos. O antropólogo tenta-se na sua educação romântica dos primitivismos e arcaísmos dos chamados povos sem história, mas a análise do mercado turístico antropológico que a antropologia ajudou a criar retira grande parte da ingenuidade necessária para acreditar numa verdadeira viagem pela selva. O antropólogo resiste e olha antes para outro exotismo, o da cidade de Manaus. Mas Manaus só se compreende na e pela selva que por todos os lados a envolve. 
 
 

Prédio Histórico - atual Palácio da  Justiça   Fonte da imagem: http://www.pmm.am.gov.brA selva é um dos mitos para a compreensão de Manaus, talvez o principal. A selva turística, a selva dos cabocos ribeirinhos, a selva dos militares, a selva dos empresários, a selva dos ecologistas e outras mais, juntam-se e confundem-se nas vozes dos manauaras em narrativas de perigo e medo, de beleza, de banalização, de atracção, de protecção... . Manaus é, assim, em certo sentido, mais que uma cidade na selva, uma cidade da selva. Ou seja,  por um lado a ideia de cidade no meio da selva é uma imagem enfatizada, senão produzida, exteriormente pelas empresas turísticas ao nível global e apropriada localmente mas, por outro lado, a própria imagem da cidade, aquela que os seus habitantes têm, confunde-se numa geo-ideografia urbana que é constantemente alimentada por uma certa ideia de não-cidade que a imagem da selva corporiza. Este mito da selva inclui em si vários mitemas nucleares para a compreensão da imagem da cidade, no entanto, o da cidade-como-ilha e o do cidade-como-acampamento são aqueles que mais facilmente se evidenciam na conversação com os seus habitantes e com os outros: a cidade-como-ilha constrói-se mais como auto-identificação, enquanto a cidade-como-acampamento parece ser mais uma hetero-identificação.
 
 

Esta Selva de que se fala e da qual emerge a cidade-como-ilha e a cidade-como-acampamento é a metáfora das diversas Fronteiras que Manaus representou e representa. De facto, Manaus é, desde a sua fundação, um espaço de fronteira e, enquanto tal, a cidade corporizou ao longo da sua história o limite e a transitoriedade. Trata-se de uma fronteira humana, uma fronteira bio-cultural, uma fronteira regional e nacional e uma fronteira ecológica mundial e a identidade do manauara, e mesmo do amazonense, é fortemente influenciada por esta situação do Homem no seu limite, das raças no seu limite, do Brasil no seu limite, do planeta no seu limite. Neste sentido, Manaus é um lugar onde se sente a transitoriedade. O Homem encontra na floresta tropical um dos limites humanos, o do inexpugnável, a não ser à custa de um contínuo risco de vida. Rios que parecem mares e florestas de medos sem fim apelam, pelo limite que impõem, à pequenez e transitoriedade do humano. Mas é também neste mesmo espaço limite que três raças humanas se mesclam constantemente desde o século XVII à actualidade evidenciando a (des)construção das diferenças no caboclo: 
 
 

"Sou caboco
vim de branco, vim de índio, vim de negro
para me apaixonar" 
Mas para além de uma fronteira entre Homem e Natureza vigente até hoje  e uma fronteira de raças e de culturas, Manaus, confundindo-se com o próprio Estado do Amazonas, é uma fronteira estadual, regional e nacional e o manauara, para além do caboclo, é também o europeu, o estado-unidense, o japonês ou até o brasileiro exilado, ilhado ou em missão seja ela industrial, comercial, educacional, militar ou outra. Foram,  e em muitos casos continuam a ser, missões e exílios temporários, transitórios, de semanas, meses ou anos, mas foram e são essas transitoriedades num lugar limite e limitado que fizeram e fazem a cidade. Finalmente, é a fronteira ecológica mundial da maior floresta tropical existente que traz a esta ilha urbana um grande fluxo turístico, gente em trânsito para olhar turisticamente o limite do planeta. É neste contexto histórico de fronteira que melhor podemos compreender o imaginário urbano com que o antropólogo se deparou da cidade-como-ilha e da cidade-como-acampamento que Manaus gera.
 
 

A idéia da cidade-como-ilha é uma leitura de Manaus que se adequa tanto a uma visão exterior e distante, quanto a uma visão de proximidade em relação à cidade. Numa visão de distância, quer se faça uma leitura a partir de um mapa-mundi ou de um mapa do Brasil, o que se pode constatar é que Manaus é um ponto bem no meio da floresta tropical amazónica e que as cidades mais próximas, de algumas importância, se encontram a algumas centenas de kms. Por outro lado, para quem chega de avião à cidade, aliás uma das formas mais frequentes de aí chegar, a cidade, o rio e a floresta imiscuem-se de forma confusa, mas a cidade desenha-se por eles limitada.
 
 

Indústria instalada na Zona Franca de Manaus   Fonte da imagem: http://www.pmm.am.gov.brNuma visão de proximidade, Manaus é, de facto, geograficamente, um grande enclave triangular, limitado pela floresta a Norte e pelo Rio Negro a Sul. Foi aqui no sul, onde a terra encontra o rio em arredondado convexo e o rio penetra a terra em longos braços, que a cidade surgiu historicamente. A floresta foi sendo desbastada e a cidade cresceu "em balde". É esse o desenho que de facto Manaus faz no Rio Negro: é um balde de terra, por um lado roubado à floresta e com animais ainda estonteados pelo seu recente abate, e pelo outro roubado ao rio pelo aterro sucessivo que se vai fazendo dos "igarapés", pelo menos desde o início do século. É esta condição geográfica em sanduíche, num urbanismo que se faz pela luta com o Rio e com a floresta, que possibilitou a construção da imagem da cidade-como-ilha por parte dos seus habitantes. Para além disso, a maior estrada do Estado do Amazonas, do qual Manaus é a capital, tem apenas 80 kms e a famosa transamazónica está intransitável pela erosão enquanto a floresta toma, aos poucos, de novo o que o Homem lhe foi tirando . A imagem de cidade-como-ilha é assim enfatizada pelo facto de todas as ligações com a cidade se fazerem pela água ou pelo ar. Para além disso, pelo rio as viagens são de vários dias, enquanto que, por outro lado, as viagens aéreas são caras e todos os voos domésticos a partir de Manaus são considerados, para efeitos de check-in, como voos internacionais.
 
 

Mas o que talvez seja mais curioso nesta idéia de cidade-como-ilha é que ela evoca de uma forma indubitável, para além de uma situação ecológica específica, a própria lenda das amazonas e faz-nos ao menos perguntar se não há aqui uma relação de imaginários, uma apropriação colectiva inconsciente de uma narrativa sobre um lugar mítico da Amazónia como chave de leitura da própria cidade que é a sua capital . Esta apropriação da mitologia das amazonas como mitologia urbana, não só de fundação mas mesmo da sua estruturação implica a necessidade de aprofundar o campo da etno-história simbólica urbana como uma chave da identidade das cidades como, aliás, tem feito Maria Cátedra. A cidade-como-ilha, arrisco dizê-lo, é uma imagem inconsciente de defesa identitária que associa idéias de distância, de inacessibilidade e de reduto ecológico, social e cultural que, sendo inerentes à floresta amazónica, são apropriadas como comuns também à própria cidade. Ou seja, a cidade é uma ilha, antes de mais porque, para muitos, a própria Amazónia é e deve continuar a ser uma ilha. Assim, esta idéia inconsciente de defesa de uma identidade cultural específica em perigo pela modernização faz apelo a um imaginário antigo e local, o da ilha das amazonas, ao mesmo tempo que se sustenta de certo modo num imaginário moderno e global, o do ecologismo. Mas se o inconsciente do manauara construiu a cidade-como-ilha, conscientemente ele sente-se preso nessa ilha e tem uma forte ânsia de se estrangeirar. O manauara sente assim acentuar o conflito identitário do ilhéu: um apego à ilha na qual se sente preso. 
 
 

Quanto ao segundo mitema da cidade da selva, o da cidade-como-acampamento, ele só me foi referido de uma forma explícita, ao contrário do primeiro, por pessoas que não viviam em Manaus ou que, vivendo, não tinham aí nascido e não se identificavam completamente com a cidade. Parecia tratar-se assim de uma espécie de identidade negativa da cidade, não sendo completamente do agrado dos seus habitantes tal leitura da cidade. Um professor de urbanismo de outra cidade do Brasil, do Rio Grande do Sul, explicava assim a cidade de Manaus: 
 
 

"Aquilo é um acampamento, um acampamento como eles fazem na selva. E as casas são assim, palafitas de madeira, porque eles pensam que a qualquer momento a selva vai outra vez tomar conta de tudo e a cidade vai desaparecer. Então eles, estão sempre preparados, quando a selva invadir a cidade eles deixam tudo.". 
Vista aérea da frente da cidade o Roadway flutuante do Porto de Manaus e o Prédio da Receita Federal   Fonte da imagem: http://www.pmm.am.gov.brÉ como se Manaus fosse um efémero momento sedentário dos caboclos (saídos do mato), logo obrigados pela própria natureza a encontrar outro poiso, evidenciando assim um habitual nomadismo. É curioso como esta idéia torna a cidade hegemonicamente indígena enquanto heteroimagem, ou seja adopta a perspectiva que é a marginal minorizada na cidade - a da cultura cabocla - como hegemónica. De facto, o caboco ribeirinho - tal como nos disseram em Manaus - vive num mundo dominado pela transitoriedade de uma espécie de nomadismo sedentário. A predação piscatória e a diferença de caudal dos rios Negro e Amazonas que chega a ser mais de 15 metros implica um modo de vida assente numa estrutura de palafitas ou mesmo de casas flutuantes que acompanham a mudança no ecossistema. No entanto, é verdade que para quem chega a Manaus - tanto mais se vindo do sul do Brasil ou da Europa - a cidade pode parecer um "acampamento" ou um "favelão" pelo domínio de uma tipologia urbana do provisório e do inacabado. E tal não acontece apenas nas zonas mais caboclas. De facto, toda a cidade parece estar em construção e, ao mesmo tempo, em desconstrução. No centro revitaliza-se os edifícios históricos, constroem-se novas vias em estradas há pouco tempo asfaltadas e novas estradas e saneamentos transformam recentes "invasões" em "conjuntos" legítimos. A cidade transforma-se todos os dias de tal maneira que qualquer levantamento espacial de uma rua fica desactualizado logo que é acabado . Em 30 anos, a cidade terá passado de 200.000 para cerca de 1.600.000 habitantes, num crescimento de cerca de 800% e que ainda continua. Em toda a cidade se encontram empresas de material de construção e uma grande maioria das casas evidenciam processos de (des)construção  habitacional contínua que fazem com que a cidade se assemelhe a um grande estaleiro, reproduzindo constantemente uma tipologia urbana do provisório, do inacabado ou da transição.
 
 

A transitoriedade que a cidade evoca, e que pode ser um dos argumentos para o imaginário da cidade-como-acampamento, deriva de uma conjunto de elementos muito diversos sendo uma das evidências fenomenológicas mais obvias a tipologia da moradia em (des)construção contínua (veja-se "a perspectiva marginal" no ponto 3 deste texto), no entanto, a (des)construção urbana manauara não deixará de ser o reflexo do papel que Manaus foi tendo ao nível histórico enquanto fronteira natural, rácica, nacional e regional.
 
 
 

2. Bel-Índia ou O Outro Império Britânico: imaginário translocal da selva manauara

Para além de se compreender Manaus como a capital da selva amazónica nas suas diversas narrativas, das quais aqui se destacou duas, uma mais positiva e outra mais negativa, compreender Manaus e o seu urbanismo passa também por perceber o lugar da cidade na malha de relações reais e imaginárias entre os diversos Brasis que o Brasil é. 
 
 

Relógio da Manaus - centro da cidade    Fonte da imagem: http://www.pmm.am.gov.brA construção política do Brasil como República Federativa implica um conjunto de Territórios e de Estados que, por sua vez, se agregam numa construção geográfico-social de regiões e de zonas. A relação económica entre estas diversas regiões e zonas caracteriza-se por uma assimetria, reservando para algumas, como o Nordeste, a força de trabalho, enquanto outras, como especificamente o sul e o sudeste, se construíram como pólos do capital. Dos cerca de 180 milhões de brasileiros, 30 milhões vivem abaixo do limiar da pobreza e a maior parte destes vivem no Norte e no Nordeste. Por outro lado, cerca de 90% do P.I.B. brasileiro é originado no Sul e no Sudeste e é também aqui que se faz sentir o Mercosul, enquanto força económica transnacional que liga o Uruguai (Montevideu), a Argentina (Buenos Aires) e o Brasil, com ênfase para o Rio Grande do Sul (Porto Alegre). Esta geografia económico-social brasileira que opõe o Norte-Nordeste da força de trabalho ao Sul-Sudeste do capital é ainda enfatizada pela relação de contradição entre capital (propriedade das terras) e trabalho no primeiro caso, enquanto no segundo esta contradição parece ter encontrado o caminho da sua superação no desenvolver de uma classe de especialistas, públicos e privados, que legitimada pelo capital cultural e inculcada por uma ideologia de crescimento, serve à vez de tampão dos conflitos sociais e de motor do desenvolvimento. Assim, enquanto a Norte se limita ou impede mesmo o crescimento de uma classe média, impondo tão só uma quase reprodução social dos "servidores"  do capital, já a sul, a classe média parece ser, pelo contrário, um facto sociológico evidente e em crescimento, havendo provavelmente mesmo uma certa simbiose social entre capital económico e capital cultural .

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