1. No meio da
selva
"Estamos
em Manaus, no meio da selva! Estão 43 graus!" - diz um brasileiro
falando bem alto para o seu "celular" no ar condicionado do átrio
de um hotel. E o mito renova-se assim. Manaus é, de facto, para
quem olhe para um mapa-mundo, um ponto maior do que os outros, bem no meio
da Amazónia. E é da expectativa mítica da selva que
obrigatoriamente se fala quando dali alguém se comunica com a civilização,
mesmo que seja de um celular e num hotel de 4 estrelas. Ainda que não
se tenha posto sequer o pé na vegetação um pouco mais
densa que, por vezes, chega aos limites das ruas e o calor seja o que se
conhece entre o hotel e o táxi, o táxi e o hotel, é
da selva e do calor que se fala. As imagens que se levam de volta à
civilização, seja esta a de uma outra cidade brasileira,
seja a de uma cidade europeia ou americana, serão certamente as
do "encontro das águas", da "focagem do jacaré", da "caminhada
pela selva", de um "passeio de canoa", de uma "pescaria de piranha", de
uma "visita aos índios", ou de uma estada num "hotel de selva",
talvez mesmo de uma noite na "suite do tarzan". Podemos mesmo reviver a
nossa passagem pela selva quantas vezes quisermos, não só
pelas fotografias que tirámos mas também num filme que, diversas
excursões, propositadamente fazem para que confirmemos a nós
mesmos e a toda a nossa rede de conhecimentos civilizados, a nossa viagem
à selva, como, aliás, seria por todos esperado quando partimos.
E mesmo em Manaus, entre os visitantes em trabalho que a "Zona Franca"
criada em 1967 potenciou, a pergunta faz-se. "Você já entrou
na selva?", pergunta-se a um amigo ao jantar, entre o apreciar de um "pirarucu"
ou de um "tambaqui"
. A selva activa o desejo e o medo, talvez de uma viagem iniciática
ao começo de tudo
, mistura de jardim paradisíaco e de caos infernal iniciais. É,
pelo menos, essa beleza perigosa que as meninas das agências turísticas
locais evocam e elas próprias corporizam. Depois, enlevados pela
imaginação, os turistas são entregues nas mãos
de homens que comandam os barcos ou que os guiam na selva que as mulheres
de Manaus já os tinham feito imaginar.
Para um antropólogo,
a tentação do exótico é grande. Oferecem-nos
no hotel, na rua e no porto, pejado de "barcos regionais", viagens à
selva em "motores" ou em "canoas" dormidas em redes nas casas de caboclos
ribeirinhos. O antropólogo tenta-se na sua educação
romântica dos primitivismos e arcaísmos dos chamados povos
sem história, mas a análise do mercado turístico antropológico
que a antropologia ajudou a criar retira grande parte da ingenuidade necessária
para acreditar numa verdadeira viagem pela selva. O antropólogo
resiste e olha antes para outro exotismo, o da cidade de Manaus. Mas Manaus
só se compreende na e pela selva que por todos os lados a envolve.
A
selva é um dos mitos para a compreensão de Manaus, talvez
o principal. A selva turística, a selva dos cabocos ribeirinhos,
a selva dos militares, a selva dos empresários, a selva dos ecologistas
e outras mais, juntam-se e confundem-se nas vozes dos manauaras em narrativas
de perigo e medo, de beleza, de banalização, de atracção,
de protecção... . Manaus é, assim, em certo sentido,
mais que uma cidade na selva, uma cidade da selva. Ou seja, por um
lado a ideia de cidade no meio da selva é uma imagem enfatizada,
senão produzida, exteriormente pelas empresas turísticas
ao nível global e apropriada localmente mas, por outro lado, a própria
imagem da cidade, aquela que os seus habitantes têm, confunde-se
numa geo-ideografia urbana que é constantemente alimentada por uma
certa ideia de não-cidade que a imagem da selva corporiza. Este
mito da selva inclui em si vários mitemas nucleares para a compreensão
da imagem da cidade, no entanto, o da cidade-como-ilha e o do cidade-como-acampamento
são aqueles que mais facilmente se evidenciam na conversação
com os seus habitantes e com os outros: a cidade-como-ilha constrói-se
mais como auto-identificação, enquanto a cidade-como-acampamento
parece ser mais uma hetero-identificação.
Esta Selva de que se fala
e da qual emerge a cidade-como-ilha e a cidade-como-acampamento é
a metáfora das diversas Fronteiras que Manaus representou e representa
.
De facto, Manaus é, desde a sua fundação, um espaço
de fronteira e, enquanto tal, a cidade corporizou ao longo da sua história
o limite e a transitoriedade. Trata-se de uma fronteira humana, uma fronteira
bio-cultural, uma fronteira regional e nacional e uma fronteira ecológica
mundial e a identidade do manauara, e mesmo do amazonense, é fortemente
influenciada por esta situação do Homem no seu limite, das
raças no seu limite, do Brasil no seu limite, do planeta no seu
limite. Neste sentido, Manaus é um lugar onde se sente a transitoriedade.
O Homem encontra na floresta tropical um dos limites humanos, o do inexpugnável,
a não ser à custa de um contínuo risco de vida. Rios
que parecem mares e florestas de medos sem fim apelam, pelo limite que
impõem, à pequenez e transitoriedade do humano. Mas é
também neste mesmo espaço limite que três raças
humanas se mesclam constantemente desde o século XVII à actualidade
evidenciando a (des)construção das diferenças no caboclo:
"Sou caboco
vim de branco, vim de
índio, vim de negro
para me apaixonar" 
Mas para além de uma
fronteira entre Homem e Natureza vigente até hoje
e uma fronteira de raças e de culturas, Manaus, confundindo-se com
o próprio Estado do Amazonas, é uma fronteira estadual, regional
e nacional e o manauara, para além do caboclo, é também
o europeu, o estado-unidense, o japonês ou até o brasileiro
exilado, ilhado ou em missão seja ela industrial, comercial, educacional,
militar ou outra. Foram, e em muitos casos continuam a ser, missões
e exílios temporários, transitórios, de semanas, meses
ou anos, mas foram e são essas transitoriedades num lugar limite
e limitado que fizeram e fazem a cidade. Finalmente, é a fronteira
ecológica mundial da maior floresta tropical existente que traz
a esta ilha urbana um grande fluxo turístico, gente em trânsito
para olhar turisticamente o limite do planeta. É neste contexto
histórico de fronteira que melhor podemos compreender o imaginário
urbano com que o antropólogo se deparou da cidade-como-ilha e da
cidade-como-acampamento que Manaus gera.
A idéia da cidade-como-ilha
é uma leitura de Manaus que se adequa tanto a uma visão exterior
e distante, quanto a uma visão de proximidade em relação
à cidade. Numa visão de distância, quer se faça
uma leitura a partir de um mapa-mundi ou de um mapa do Brasil, o que se
pode constatar é que Manaus é um ponto bem no meio da floresta
tropical amazónica e que as cidades mais próximas, de algumas
importância, se encontram a algumas centenas de kms. Por outro lado,
para quem chega de avião à cidade, aliás uma das formas
mais frequentes de aí chegar, a cidade, o rio e a floresta imiscuem-se
de forma confusa, mas a cidade desenha-se por eles limitada.
Numa
visão de proximidade, Manaus é, de facto, geograficamente,
um grande enclave triangular, limitado pela floresta a Norte e pelo Rio
Negro a Sul. Foi aqui no sul, onde a terra encontra o rio em arredondado
convexo e o rio penetra a terra em longos braços, que a cidade surgiu
historicamente. A floresta foi sendo desbastada e a cidade cresceu "em
balde". É esse o desenho que de facto Manaus faz no Rio Negro: é
um balde de terra, por um lado roubado à floresta e com animais
ainda estonteados pelo seu recente abate, e pelo outro roubado ao rio pelo
aterro sucessivo que se vai fazendo dos "igarapés", pelo menos desde
o início do século. É esta condição
geográfica em sanduíche, num urbanismo que se faz pela luta
com o Rio e com a floresta, que possibilitou a construção
da imagem da cidade-como-ilha por parte dos seus habitantes. Para além
disso, a maior estrada do Estado do Amazonas, do qual Manaus é a
capital, tem apenas 80 kms e a famosa transamazónica está
intransitável pela erosão enquanto a floresta toma, aos poucos,
de novo o que o Homem lhe foi tirando
. A imagem de cidade-como-ilha é assim enfatizada pelo facto de
todas as ligações com a cidade se fazerem pela água
ou pelo ar. Para além disso, pelo rio as viagens são de vários
dias, enquanto que, por outro lado, as viagens aéreas são
caras e todos os voos domésticos a partir de Manaus são considerados,
para efeitos de check-in, como voos internacionais.
Mas o que talvez seja mais
curioso nesta idéia de cidade-como-ilha é que ela evoca de
uma forma indubitável, para além de uma situação
ecológica específica, a própria lenda das amazonas
e faz-nos ao menos perguntar se não há aqui uma relação
de imaginários, uma apropriação colectiva inconsciente
de uma narrativa sobre um lugar mítico da Amazónia como chave
de leitura da própria cidade que é a sua capital
. Esta apropriação da mitologia das amazonas como mitologia
urbana, não só de fundação mas mesmo da sua
estruturação implica a necessidade de aprofundar o campo
da etno-história simbólica urbana como uma chave da identidade
das cidades como, aliás, tem feito Maria Cátedra
.
A cidade-como-ilha, arrisco dizê-lo, é uma imagem inconsciente
de defesa identitária que associa idéias de distância,
de inacessibilidade e de reduto ecológico, social e cultural que,
sendo inerentes à floresta amazónica, são apropriadas
como comuns também à própria cidade. Ou seja, a cidade
é uma ilha, antes de mais porque, para muitos, a própria
Amazónia é e deve continuar a ser uma ilha. Assim, esta idéia
inconsciente de defesa de uma identidade cultural específica em
perigo pela modernização faz apelo a um imaginário
antigo e local, o da ilha das amazonas, ao mesmo tempo que se sustenta
de certo modo num imaginário moderno e global, o do ecologismo.
Mas se o inconsciente do manauara construiu a cidade-como-ilha, conscientemente
ele sente-se preso nessa ilha e tem uma forte ânsia de se estrangeirar.
O manauara sente assim acentuar o conflito identitário do ilhéu:
um apego à ilha na qual se sente preso.
Quanto ao segundo mitema
da cidade da selva, o da cidade-como-acampamento, ele só me foi
referido de uma forma explícita, ao contrário do primeiro,
por pessoas que não viviam em Manaus ou que, vivendo, não
tinham aí nascido e não se identificavam completamente com
a cidade. Parecia tratar-se assim de uma espécie de identidade negativa
da cidade, não sendo completamente do agrado dos seus habitantes
tal leitura da cidade. Um professor de urbanismo de outra cidade do Brasil,
do Rio Grande do Sul, explicava assim a cidade de Manaus:
"Aquilo é
um acampamento, um acampamento como eles fazem na selva. E as casas são
assim, palafitas de madeira, porque eles pensam que a qualquer momento
a selva vai outra vez tomar conta de tudo e a cidade vai desaparecer. Então
eles, estão sempre preparados, quando a selva invadir a cidade eles
deixam tudo.".
É
como se Manaus fosse um efémero momento sedentário dos caboclos
(saídos do mato), logo obrigados pela própria natureza a
encontrar outro poiso, evidenciando assim um habitual nomadismo. É
curioso como esta idéia torna a cidade hegemonicamente indígena
enquanto heteroimagem, ou seja adopta a perspectiva que é a marginal
minorizada na cidade - a da cultura cabocla - como hegemónica. De
facto, o caboco ribeirinho - tal como nos disseram em Manaus - vive num
mundo dominado pela transitoriedade de uma espécie de nomadismo
sedentário. A predação piscatória e a diferença
de caudal dos rios Negro e Amazonas que chega a ser mais de 15 metros implica
um modo de vida assente numa estrutura de palafitas ou mesmo de casas flutuantes
que acompanham a mudança no ecossistema. No entanto, é verdade
que para quem chega a Manaus - tanto mais se vindo do sul do Brasil ou
da Europa - a cidade pode parecer um "acampamento" ou um "favelão"
pelo domínio de uma tipologia urbana do provisório e do inacabado.
E tal não acontece apenas nas zonas mais caboclas. De facto, toda
a cidade parece estar em construção e, ao mesmo tempo, em
desconstrução. No centro revitaliza-se os edifícios
históricos, constroem-se novas vias em estradas há pouco
tempo asfaltadas e novas estradas e saneamentos transformam recentes "invasões"
em "conjuntos" legítimos. A cidade transforma-se todos os dias de
tal maneira que qualquer levantamento espacial de uma rua fica desactualizado
logo que é acabado
. Em 30 anos, a cidade terá passado de 200.000 para cerca de 1.600.000
habitantes
,
num crescimento de cerca de 800% e que ainda continua. Em toda a cidade
se encontram empresas de material de construção e uma grande
maioria das casas evidenciam processos de (des)construção
habitacional contínua que fazem com que a cidade se assemelhe a
um grande estaleiro, reproduzindo constantemente uma tipologia urbana do
provisório, do inacabado ou da transição.
A transitoriedade que a cidade
evoca, e que pode ser um dos argumentos para o imaginário da cidade-como-acampamento,
deriva de uma conjunto de elementos muito diversos sendo uma das evidências
fenomenológicas mais obvias a tipologia da moradia em (des)construção
contínua (veja-se "a perspectiva marginal" no ponto 3 deste texto),
no entanto, a (des)construção urbana manauara não
deixará de ser o reflexo do papel que Manaus foi tendo ao nível
histórico enquanto fronteira natural, rácica, nacional e
regional.
2. Bel-Índia ou
O Outro Império Britânico: imaginário translocal da
selva manauara
Para além de se compreender
Manaus como a capital da selva amazónica nas suas diversas narrativas,
das quais aqui se destacou duas, uma mais positiva e outra mais negativa,
compreender Manaus e o seu urbanismo passa também por perceber o
lugar da cidade na malha de relações reais e imaginárias
entre os diversos Brasis que o Brasil é.
A
construção política do Brasil como República
Federativa implica um conjunto de Territórios e de Estados que,
por sua vez, se agregam numa construção geográfico-social
de regiões e de zonas. A relação económica
entre estas diversas regiões e zonas caracteriza-se por uma assimetria,
reservando para algumas, como o Nordeste, a força de trabalho, enquanto
outras, como especificamente o sul e o sudeste, se construíram como
pólos do capital. Dos cerca de 180 milhões de brasileiros,
30 milhões vivem abaixo do limiar da pobreza e a maior parte destes
vivem no Norte e no Nordeste. Por outro lado, cerca de 90% do P.I.B. brasileiro
é originado no Sul e no Sudeste e é também aqui que
se faz sentir o Mercosul, enquanto força económica transnacional
que liga o Uruguai (Montevideu), a Argentina (Buenos Aires) e o Brasil,
com ênfase para o Rio Grande do Sul (Porto Alegre). Esta geografia
económico-social brasileira que opõe o Norte-Nordeste da
força de trabalho ao Sul-Sudeste do capital é ainda enfatizada
pela relação de contradição entre capital (propriedade
das terras) e trabalho no primeiro caso, enquanto no segundo esta contradição
parece ter encontrado o caminho da sua superação no desenvolver
de uma classe de especialistas, públicos e privados, que legitimada
pelo capital cultural e inculcada por uma ideologia de crescimento, serve
à vez de tampão dos conflitos sociais e de motor do desenvolvimento.
Assim, enquanto a Norte se limita ou impede mesmo o crescimento de uma
classe média, impondo tão só uma quase reprodução
social dos "servidores"
do capital, já a sul, a classe média parece ser, pelo contrário,
um facto sociológico evidente e em crescimento, havendo provavelmente
mesmo uma certa simbiose social entre capital económico e capital
cultural
.