Introdução
O
presente ensaio é decorrente da realização de uma
pesquisa para elaboração de uma dissertação
de mestrado acerca das representações de transição
de fase de vida a partir da experiência da maternidade e paternidade
na juventude
.
Neste ensaio, tenho como objetivo principal analisar a relação
entre juventude e as regras impostas pelo âmbito familiar, a partir
de relatos de jovens pais e mães de segmentos populares, médio-baixos
e médios, em Porto Alegre e Grande Porto Alegre, no Rio Grande do
Sul. Para tanto, analisarei as práticas e idéias apresentadas
pelos jovens a respeito de juventude e convivência familiar
.
Buscarei demonstrar como os jovens relatam suas experiências em relação
com as regras e valores familiares e a chegada da parentalidade. Para tanto,
a metodologia utilizada nessa pesquisa é do tipo qualitativa com
as técnicas de história de vida, entrevistas semi-dirigidas
e observações participantes. Foram entrevistadas 18 pessoas,
sendo 09 moças e 09 rapazes, nas idades entre 15 e 24 anos, nos
anos de 2002 e 2003
.
Os entrevistados demonstraram-se bastante receptivos, alguns contando sobre
sua vida de maneira mais ilustrativa, mais detalhada, com datas e horários,
demonstrando um certo gosto por falar sobre suas experiências. Outros,
foram mais breves, apresentando versões mais objetivas considerando
a seleção de fatos num conjunto mais amplo de experiências.
No caso desta pesquisa, foram
relatadas histórias de vida que produziam muitos sentimentos expressos
entre gargalhadas, seriedade, choro, frustração e satisfação.
Embora associadas, memória e experiência são de naturezas
distintas. Segundo
Amado
(1995) é necessário distinguir o vivido e o recordado, aquilo
que aconteceu e o que se recorda daquilo que aconteceu. Conforme comentários
de alguns dos sujeitos da pesquisa, eram momentos de relembrar suas experiências,
oportunidades de ter alguém que os ouvisse e tivesse interesse por
essas histórias. E ainda, eram momentos de criação
de discursos a respeito das fases de vida, da parentalidade, da família
e das relações de gênero.
As entrevistas realizadas
tiveram duração de até dezesseis horas, sendo divididas
em sessões de aproximadamente três horas cada encontro. Os
encontros ocorreram em locais como o domicílio da pessoa, uma praça,
um bar ou a universidade (UFRGS). Devido à própria forma
dos entrevistados contarem suas histórias, também foi possível
o retorno à casa dos mesmos e sessões de observação
participante. Dessa forma, compartilhei do cotidiano delas, ocasiões
em que preparavam refeições (almoço, lanches, mamadeiras),
alimentavam os filhos, trocavam fraldas e davam banho. Observei também
suas relações com o trabalho e a interferência da família
na rotina dos jovens e dos seus filhos. Além de situações
familiares na relação com o pai ou a mãe da criança.
Quanto à classificação
sócio-econômica desses jovens, segundo considerações
de Bourdieu (2001),
não podemos definir de um ponto de vista estático, como "superior",
"média" ou "inferior", numa dada estrutura e num dado momento, sem
que haja perdas. O trajeto social é relevante e é importante
que seja investigado. Os acontecimentos que marcam os altos e baixos da
vida social de indivíduos ou grupos são parte de um todo
que forma uma trajetória recortada por variadas situações
que hora produzem progressão, hora produzem regressão. Essas
situações devem ser analisadas para que não se tenha
um déficit de informações para que se possa apresentem
as trajetórias de vida em diferentes etapa, de ascensão ou
descenso social. Assim sendo, é bastante difícil apresentar
em um ensaio que não se pretende preciso e aprofundado no detalhamento
e classificação das condições sócio-econômicas,
uma categorização dos entrevistados que seja satisfatória.
Visto que a pesquisa contempla pessoas de estratos sociais diversos. Mas,
dentro das observações e diálogos, e sendo necessário
apresentar de alguma forma esses jovens dentro de suas camadas sócio-econômicas,
foi possível observar que 6 estavam na camada popular (Carol, Débora,
Luciana, Daiane, Gisele e Antônio); 9 estavam na classe média-baixa
(Pitty, Jurema, Danilo, Marcelo, Everaldo, Leandro, Rodrigo, Carlos e Émerson)
e 3 estavam na classe média (Fátima, Dilma e Israel)
.
Para essa discriminação de camadas sociais foram consideradas
as condições econômicas em termos de recursos financeiros
adquiridos através do trabalho ou benefícios da previdência
social, aspectos relativos a projetos de vida, aspirações
e escolaridade, como indicadores de classe.
Essa discussão mostra-se
importante por aproximar questões sobre família e juventude.
Segundo alguns autores, a família é por excelência
a socializadora, produtora de equilíbrio emocional para um adulto
bem ajustado socialmente (Parsons,
1955; e numa perspectiva mais crítica a esse modelo Chodorow,
1980). Dessa forma, este ensaio propõe-se a observar como vem ocorrendo
a convivência entre fase de vida e estrutura familiar
.
Nesse tipo de estudo constatamos a importância de institucionalizações
como as fases de vida, domesticadoras de um contexto, produzindo conhecimentos
para que a sociedade possa conviver de maneira "ordeira". Assim, estabelece-se
o que é ser jovem, quem são os jovens, o que se espera da
família em relação aos jovens, enfim, criam-se padrões
de normalidade. A juventude é criada e valorizada como uma etapa
na vida para determinadas atitudes e sentimentos considerados mais rebeldes.
De acordo com isso, é evidente um certo consenso das características
da juventude que perpassa as camadas sociais, o que não quer dizer
que todos experienciem essa fase da mesma forma, nem que todas as famílias
se relacionem com esse momento da mesma forma. Para essa reflexão,
consideramos que a família apresenta-se como um ambiente delineado
para certas experiências que são apresentadas como possíveis
para esse meio e até mesmo esperadas.
Partiremos da discussão
sobre representações de fases de vida, dando ênfase
à fase da juventude. Depois apresentaremos os relatos dos jovens
informantes sobre como vivem e o que pensam sobre suas experiências
de juventude e a relação com a família. Em seguida,
trabalharemos considerando as histórias dos sujeitos da pesquisa
no que diz respeito à experiência da gravidez e ao nascimento
da criança. Todas essas reflexões estarão embasadas
na idéia de que as pessoas vivem socialmente em "redes de significações"
e é através dessas redes que podemos perceber as representações
para instituições como as fases de vida e a própria
família (Geertz,
1989).
Juventude
Há um certo consenso
nas sociedades ditas complexas quando tratamos sobre juventude quanto à
imagem de rebeldia e conflitos de gerações, principalmente
familiares. Também, em maior ou menor grau, essas características
são percebidas em diferentes classes sociais, segundo os dados levantados
para esse ensaio. Essa representação a respeito de uma das
fases de vida que se convencionou por juventude está relacionada
com a segmentação da vida por etapas, haja visto estudos
como os de Ariès
(1981), Badinter
(1985) e Elias (1994).
Nestes trabalhos, é possível percebermos as relações
das pessoas dentro do espaço familiar e as respectivas discriminações
pelas quais vieram passando, considerando as relações das
pessoas com atividades (brincadeira, esportes, guerra, trabalho, etc.),
com habilidades físicas, com a idade adulta, com a constituição
biológica e com funções sociais
.
Vale ressaltar que a juventude é uma fase de vida bastante valorizada
como um momento de maior potência para relacionar-se com as oportunidades
da vida, de maior saúde, de maior beleza e de maiores perspectivas
para um futuro desejável. As leituras e formas de trabalhar com
a juventude são bastante diversas como afirma Galland
(1997) que ressalta a idade da atenção, da dependência
e da incerteza. Mas também a juventude pode ser vista e relacionada
com envolvimento político, como fazem Abramo
(1994), Abreu (1997)
e Herschmann
(1997). Ou, em outras perspectivas, a juventude pode ser tomada como uma
questão de experiência comum (Novaes,
1997; Abreu, 1997;
Herschman,
1997;
Alvim e Paim,
2000) e até mesmo, dissociada de uma faixa etária, percebida
como um bem, algo que pode ser conquistado por qualquer pessoa (Debert,
1997; Attias-Donfut,
1991 e 2001).
Para essa reflexão,
segundo os relatos, estarei trabalhando com uma representação
de juventude apresentada pelos entrevistados que está bastante associada
a experiências e faixa etária. Assim como, estarei considerando
a família como um ambiente de relações, onde convivem
pessoas que cumprem etapas diferentes. A família como um eficiente
instrumento social de contenção, educação e
manutenção de certos padrões ajustados ao tipo de
sociedade que temos. Nesse sentido, Fortes
(1958) já trazia uma contribuição para esse debate
concordando com a idéia de fases de vida na experiência doméstica.
O autor considera que os indivíduos vivem ciclos de vida dentro
do âmbito familiar. Certamente muitas críticas também
são destinadas a ele, visando sua idéia de ciclos no grupo
doméstico, mas que no momento não estão interessando
para essa reflexão
.
Jovens rebeldes em família
Dessa forma, juntamente com
a instituição da juventude como um momento privilegiado para
a experimentação, para a formação do adulto
que "se define" a partir de então, a família torna-se o meio
por excelência onde os conflitos ocorrem. Isso, considerando que
os pais representam a "ordem adulta", que impõe certas regras colocadas
em questão pelos jovens. Singly
(1999) em "La fin du régne de l'enfant - Des usages savants de la
norme du bien de l'enfant" contribui para essa reflexão afirmando
que há diferenças entre a família clássica
e a família moderna. Na primeira, havia um espaço de solidariedade,
ordem entre gerações, provimento e transmissão da
moralidade. Na segunda, tem mudado a transmissão moral e ela tem
colocado sua atenção na personalidade. Porém, esse
estudo com jovens tem mostrado que as divisões não são
assim tão claras e que uma família pode estar exercendo uma
transmissão de valores morais e também preocupada com a personalidade
de suas crianças.
As entrevistas com os jovens
revelaram das relações familiares entre os informantes e
seus responsáveis enfrentamentos de autoridade anteriores ao evento
da parentalidade e um maior ajuste dos jovens após tornarem-se pais.
Esses momentos de embates eram apresentados como típicos da fase
de vida experienciada por eles. Na juventude, para alguns, ou adolescência
para outros, é que se toma consciência de um maior domínio
e capacidade de escolha por si mesmos. Um tempo de busca de diversão,
de escolha de parcerias, namoros e gravidez.
Porém, também
é perceptível que os desacertos entre pais e filhos quando
os filhos têm uma determinada idade são um fato que não
causa um estranhamento social maior.
Mauss
(1974), ao refletir sobre educação, considera que, em qualquer
sociedade, todas as pessoas sabem e devem saber ou aprender como agir em
cada situação. Sendo assim, a preocupação apresentada
pelos jovens entrevistados da parte de seus pais e responsáveis
parece estar associada a uma eficiente contenção dos ímpetos
joviais que têm uma potencialidade para ultrapassar certas regras,
alterando uma suposta "harmonia familiar". Ter um adolescente em casa,
por exemplo, muitas vezes é visto como uma situação
um pouco desordenadora do espaço e dos sentimentos familiares. Porque
estes estarão, presumivelmente, colocando em cheque as regras e
valores morais impostos pela família.
Segundo Madeira
e Rodrigues (1998), no artigo "Recado dos Jovens: mais qualificação",
assim como na obra "Fala Galera" de Minayo
et al. (1999), a juventude como um momento para o desfrute do prazer e
do lazer é a representação social mais relevante de
juventude, principalmente em relação à classe média.
De maneira geral, a adolescência é vista como um momento transitório,
legítimo, de menor responsabilidade no que se refere a compromissos
adultos e de maior liberdade em relação às restrições
das crianças. Enfim, é um momento da experimentação,
da descoberta, inclusive das questões de afetividade e sexualidade.
Independentemente de podermos questionar se essa não seria apenas
uma imagem que pode não transmitir a forma como essa fase de fato
é vivenciada por todos os jovens, o que podemos verificar é
que todos os adolescentes que participaram dessa pesquisa reproduzem tal
imagem em seus discursos.
Sendo
assim, as informações produzidas pelos meios de comunicação
e pelas áreas do conhecimento servem eficientemente para instituir
uma fase da vida de forma a torná-la compreensível, aceitável
e regrá-la - servindo como um eficiente instrumento para a sociedade,
de maneira geral, e para as famílias de forma específica.
A partir do momento em que a mídia e a ciência produzem muitos
estudos sobre juventude buscando compreender e discriminar o que é
essa fase de vida, mais a juventude torna-se previsível e controlável.
Nesse sentido, também o estado tem influenciado nos modelos de relações
entre pais e filhos, impondo demandas e competências dos pais em
relação a seus filhos (Singly,
1999). As pessoas, dentro da convivência social, estão preparadas
e incluem às suas expectativas as experiências de juventude.
Isso faz com que o controle social esteja garantido, são transmitidas
instruções aos pais que lhes possibilitem socializar seus
jovens.
É possível
perceber que jovens e adultos concordam com boa parte das características
que são atribuídas à juventude. Dessa forma, há
uma certa conformidade das estruturas sociais, principalmente a família
e a escola, quanto ao que possam esperar de pessoas jovens, fazendo com
que preparem-se e criem estratégias de convivência. Cria-se
uma ambiente de previsibilidade. Assim, todas as características
apontadas pelos jovens entrevistados como sendo coisas dessa fase de vida,
de forma geral, não seriam vistas por adultos com espanto, pois
há uma certa convenção sobre o que é estar
na fase da juventude e quais as possibilidades dispostas para um jovem.
E, estes jovens sendo pessoas que se tornaram pais e mães em um
período considerado precoce mostraram que ainda que haja conflitos
provenientes desse evento, esse fato rapidamente é assimilado pelas
famílias. Essas, acionando valores como o valor-natalidade, o valor-maternidade
e o valor-trabalho que justificam e conduzem às soluções
do "problema" que se apresenta com a gravidez jovem
.
Perdendo o controle
A juventude pode ser vista
como um momento em que os adultos passam a ter menos controle sobre seus
filhos, ou jovens por quem sejam responsáveis. Os jovens já
possuem capacidades fugir das regras de seus pais. As situações
de vida já não permitem que seus responsáveis estejam
acompanhando todas as suas atividades. O que faz com que as discussões
e conflitos inter-geracionais sejam mais intensos. Há uma necessidade,
da parte dos jovens, de convencer os demais de que já possuem opiniões
próprias a respeito de suas atitudes e sobre a forma como devem
conduzir suas vidas. Muitos dos jovens entrevistados afirmam que para escolher,
para formar opiniões, é preciso conhecer.
O aprendizado para eles diz
respeito a etapas dentro da juventude. Alguns jovens associam a fase
que chamam de pré-adolescência à aquisição
de capacidades de conquista das moças, um momento em que, por exemplo,
o rapaz precisa aprender as técnicas da sedução e,
até mesmo, como é o corpo das mulheres e como tratar as mulheres.
E, além do aprendizado associado aos relacionamentos, há
outros que estão associados ao uso de bebidas alcoólicas,
drogas psicoativas e misturas de substâncias que podem produzir sensações
diferentes. O relato de Rodrigo ressalta uma forma de vivenciar a juventude,
um momento de descobertas e escolhas. Nesse sentido, seu depoimento está
permeado pela idéia de que é preciso saber o que existe para
que se possa optar e está bastante relacionado com o uso de substâncias:
"Foi aquela fase
em que tu começa a descobrir a vida, foi dos 14 aos 18, 17, que
tu começa a sair com os teus amigos, tu começa a descobrir
tudo. Começa a beber, começa a fumar, começa a fazer
um monte de porcaria. É quando tu descobre a vida que é uma
das melhores fases que tu tem, tudo em Cruz Alta. Eu tive a fase de drogado,
seqüela, não drogado de ter overdose e coisa, mas aquela fase
que eu te falei, a fase que tu está descobrindo a vida. Tu começa
a sair de noite e descobre tudo, tu começa com cigarro, aí
já começa a fumar maconha, aí tu vê tem um cara
com carreira, aí tu cheira, aí tu toma comprimido com cachaça
e não sei o que, entendeu. Todo mundo tem dessas fases, vai de ti
experimentar ou não, algumas coisas eu experimentei e outras não.
Tem coisas que as vezes tu experimenta pra ti ver qual é que é,
de repente te dá uma viagem tri e tu faz a tua. Mas bah, tem bagulho
que é foda, é cruel. Tive essa fase das loucuras". (Rodrigo,
24 anos, 01 filho)
Essa experiência apresenta
um dos momentos difíceis da relação entre pais e filhos.
Mesmo esses adultos tendo pertencido à geração que
ficou conhecida como aquela que participou da revolução sexual,
que presenciou "woodstock" e que viu - e muitos talvez tenham experimentado
- a difusão de drogas. Minayo
et al. (1999) considera que historicamente é possível perceber
que não existe comunidade humana que não registre o consumo
de substâncias causadoras de alterações de consciência.
Porém, assim como esses jovens vêm passando por situações
que exigem um certo enquadramento com um discurso associado ao "mundo adulto",
é possível que seus pais também tivessem passado por
isso. Assim, vemos que boa parte desses pais já incorporou um discurso
que é transmitido para os filhos a respeito da nocividade das drogas
ilícitas e desse tipo de experiência. E, em boa parte dos
casos, há uma representação sobre os adultos (pais)
como aqueles que temem pelo que os jovens, por quem são responsáveis,
possam estar fazendo e que tipo de experiências possam estar vivendo.
Ao mesmo tempo, o uso de drogas é uma das experiências em
que os jovens pensam poder exercer sua livre escolha de forma mais afastada
das vistas dos seus responsáveis, na maioria das vezes. Assim, é
possível que os jovens vivam essa como uma experiência de
transgressão
.
Isso não quer dizer
que todos os jovens e todos os adultos demonstrem atitudes rigidamente
padronizadas dentro dessas situações. O jovem Marcelo (21
anos, 01 filha) fala sobre sua experiência com o uso de maconha e
cocaína e relata que tinha liberdade na relação com
sua mãe para contar-lhe sobre seu uso de substâncias psicoativas
e que a mãe não reprimiu sua prática, apenas ressaltou
que ele deveria "ter um certo cuidado com suas experiências".
Assim, as diferenças
de gerações podem não mostrar-se tão rígidas.
Em dois casos houve entrevistados que podiam compartilhar com suas mães
o uso de maconha, por exemplo. Ou ainda, há relatos de irmãos
que podiam dividir experiências com uso de drogas, tornando-se possível
constatar que a família já não pertence somente à
ordem da repressão dessas práticas, mas também já
está participando de outras formas. Nesse caso, a família
mostra sua capacidade adaptativa e sua dinâmica no sentido de que
esses pais já não foram pessoas que estiveram completamente
afastadas de experiências semelhantes às de seus filhos. Isso
faz com que o perfil das famílias vá ajustando-se às
vivências de seus componentes sem perder sua característica
de reprodutora de valores morais e comportamentos adequados socialmente.
Segundo Minayo
et al. (1999), usar drogas é apontado, independentemente de classe
social, como um dos elementos centrais na vida de jovens. O uso de drogas
entre os jovens entrevistados que revelaram essa experiência é
uma prática compartilhada com seus pares, é uma situação
de cumplicidade de juventude. Assim, a interferência por parte dos
adultos está muito mais no nível do discurso a respeito das
práticas dos jovens, desaprovando o uso de drogas, ou no nível
dos valores transmitidos através da educação, mas
não é uma interferência direta na situação.
Em muitos momentos, os jovens
demonstraram a necessidade da criação de espaço para
eles, enquanto pessoas que possam ser levadas a sério, pessoas capazes
de tomar decisões e ser respeitadas por isso. A pré-noção
de que os jovens são inexperientes e imaturos abre precedente para
que os adultos, tendo como base essas idéias, ajam, na percepção
dos jovens, de forma invasiva nas suas vidas. Conforme relata Daiane (22
anos, 01 filho):
"É que quando
a gente é novo muita gente quer se meter na vida da gente "tu não
sabe o que tu faz" e eu dizia "eu sei sim". Eu nem sabia se estava certo
ou se estava errado, mas eu fazia igual. Eu ia adiante, eu não queria
nem saber se estava errado ou se estava certo, eu ia. Eu não estou
mais na casa de vocês, eu não quero nem saber, eu faço
o que eu quero".
Essa moça demonstra uma
representação juvenil de construção de independência
numa relação contrastiva quanto aos seus responsáveis.
O fato de sair de casa pode ser uma forma de conquistar mais rapidamente
essa possibilidade de comando de si mesmo. Ao mesmo tempo que os jovens
demonstram preservar as representações sobre juventude, eles
também apresentam um conflito entre ter o direito de agir como jovem,
mas desejar uma respeitabilidade que é em geral destinada ao adulto.
O adulto possui um status que é desejado pelo jovem
.
O adulto representa a plenitude de direitos e deveres, pode tomar decisões
pois teoricamente já possui legitimidade para tomá-las. Eles
podem escolher suas companhias, escolher suas atividades de lazer, inserir-se
na profissão escolhida, decidir sobre seus relacionamentos afetivo-sexuais
e decidir sobre sua própria reprodução. Porém,
é preciso dizer que essa é uma forma idealizadora de ver
uma adultez que na maioria dos casos não se verifica. Isso porque
o fato de ser adulto nem sempre isenta as pessoas de estarem sujeitas a
intromissões, a receber orientações, algumas mais
desejáveis e outras menos, em suas vidas. Mas a ambigüidade
encontra-se no fato de que, para o jovem, muitas das atitudes dos adultos
são classificadas como "caretas", desatualizadas. Entretanto, é
o adulto que possui o status que as atitudes mais "rebeldes" desses jovens
desejam atingir. Enquanto isso, o discurso dos pais, relatado pelos jovens
da pesquisa, segue em um sentido de controle, mostrando-se capazes de estabelecer
um constante jogo de forças onde eles vão liberando as possibilidades
aos jovens conforme considerem adequado (avaliando as capacidades de seus
filhos). Ou, os pais vão cedendo conforme percebam que já
não é mais possível se manterem rígidos quanto
a certas regras.
Assim, os rapazes e moças
imaginam uma juventude em que os pais permitissem mais suas saídas
para diversão com menos controle, que seus pais compreendessem suas
experiências sexuais e com o uso de drogas, que seus pais não
fossem muito exigentes quanto aos seus erros (principalmente no que diz
respeito à escola e sexualidade), dentre outras. Mas, na maioria
dos casos, são os pais que fazem uma certa ligação
entre um "mundo prático", que demanda objetividade para que
alguns projetos de vida possam ser levados adiante, como o profissional,
onde é preciso estudar e ter algumas idéias para o futuro,
e o "mundo da descoberta", conforme Rodrigo (24 anos, 01 filho) constata:
"O colégio sempre,
eu nunca larguei, até foi um grave problema que eu tinha com a minha
tia, porque eu morava lá e eles me atucanavam muito pra mim estudar.
Hoje eu agradeço eles porque de repente se eles não tivessem
feito isso comigo, eu não teria nem acabado o colégio hoje.
Hoje eu agradeço eles, mas antes eu era rebelde, eu fazia um bolo
dentro de casa, era bem rebelde".