Atualmente, Rodrigo
já consegue compreender muitas atitudes da sua família em
relação a ele, talvez porque já não esteja
mais tão envolvido com aquele momento da vida apontado por ele como
de descoberta. O fato de seus tios não terem permitido que ele parasse
de estudar, impondo-lhe essa atividade, já é uma atitude
vista de forma positiva
.
Segundo Brandão (2003), os adultos expressam
certas dificuldades em compreender seus filhos na condução
de seus interesses. Muitas vezes, os jovens podem apresentar-se como sonhadores,
cheios de aspirações para uma carreira profissional, mas
não revelam nas práticas estarem guiando-se no mesmo sentido
de seus desejos. Assim, a família passa a desempenhar o papel de
orientadora para sujeitos bem ajustados socialmente. Ainda que os conflitos
sejam uma constante familiar, é constatável que as famílias
desempenham eficientemente suas atribuições como educadoras
para um determinado tipo social (Rosaldo, 1995).
Os adultos, em alguns sentidos,
na própria avaliação dos jovens, podem ser considerados
um elo entre a experimentação e o senso prático das
coisas. Os responsáveis pelos jovens, segundo os entrevistados,
demonstram um compromisso de aproximação dos filhos às
"responsabilidades adultas". Principalmente depois que estes tornam-se
pais e mães. Os adultos estão sempre lembrando os limites
entre o mundo experimentado pelos jovens, de riscos, curtição,
aprendizagem, legítimo para a irresponsabilidade e um futuro que
vai exigir-lhes situações práticas, "amadurecimento",
cumprimento das etapas escolares e um certo grau de autonomia.
De acordo com Bourdieu
(1983), uma das diferenças entre os jovens e os velhos está
na relação com o futuro, os jovens se definem como tendo
futuro e como agentes do futuro, enquanto que os velhos são contra
mudanças porque não há mais futuro, seu futuro já
passou. Assim, os jovens pesquisados mostram uma potência para a
vida, suas representações e discursos sobre juventude apresentam
o mundo como um leque de escolhas. A parte mais dolorosa parece ser quando
eles passam a ter que dar respostas imediatas, pensando no futuro. Ou seja,
quando eles vêem-se obrigados a prestar atenção naquelas
exigências que num primeiro momento são apresentadas pela
família, dentro de uma visão de que pretendem ser adultos
bem sucedidos e que para isso é preciso enquadrar-se. Preferencialmente
o futuro é visto como algo que está na frente, algo que não
precisa ser mexido agora, uma decisão que pode ser deixada para
depois.
O que estou argumentando
é que a tomada de consciência desses jovens quanto às
possibilidades de escolhas mais independentes das orientações
dos pais e a conseqüente perda de autoridade dos pais sobre eles constituem-se
em momentos de passagem para uma nova fase de vida que é prevista
dentro do meio familiar e social
. E ainda, que tem cabido à família o dever de contenedora
dos limites sociais e transmissora de valores morais socialmente aceitáveis.
As situações em que os sujeitos da pesquisa demonstram esse
sentimento indicam uma passagem processual, ou seja, não é
de um momento para outro que eles conquistam a autonomia de escolha quanto
a suas próprias vidas. O processo ocorre praticamente numa perspectiva
de testagem, em que os jovens vão conquistando espaço e ao
mesmo tempo diminuindo as possibilidades de mando dos pais.
É importante ressaltar
que esse processo não ocorre da mesma forma quanto à dependência
financeira, que principalmente nas camadas médias ainda permanece
até idades mais avançadas. Considerando isso, é relevante
observar que a dependência financeira não demanda necessariamente
obediência total aos pais, em boa parte dos casos. Assim como o processo
adquire um outro ritmo a partir da ocorrência de uma gravidez.
Rebeldes enquadrados
No
caso dos jovens entrevistados para este estudo o evento da gravidez apresentou-lhes
uma situação vista como irreversível; não era
possível voltar atrás. A parentalidade e o relacionamento
afetivo-sexual eram uma realidade com a qual precisavam lidar e esse é
um dos momentos em que se tornam bastante claros os valores morais com
os quais passam a lidar; exatamente aqueles transmitidos pela família.
Assim, os rapazes e moças assumem os lugares que socialmente lhes
foram informados como adequados para pais e mães. Os relatos mostram
que eles se cobram posturas e sentimentos que estão de acordo com
suas representações sobre maternidade, paternidade e responsabilidade.
Assim, moças que não
tinham ainda habilidades para o cuidado de bebês relatam terem sentido
a necessidade de buscar informações e algumas práticas
com outros bebês, antes de nascerem seus filhos. Os dados confirmam
que esse aprendizado é exigido muito mais das mulheres que dos homens
e dá indicativos sobre quem terá sua vida muito mais tomada
pela convivência com o bebê. Isso, na verdade, já vinha
sendo informado desde as brincadeiras de crianças e sendo assim,
quando perguntadas sobre as brincadeiras, as moças dificilmente
deixavam de relatar a relação com bonecas e panelinhas. Bourdieu
(2002), em uma perspectiva um tanto determinista, considera que o cosmos
está dividido segundo as dimensões de masculino e feminino.
Sendo assim, as pessoas são informadas desde seu nascimento a que
dimensão elas pertencem. A mulher estará relacionada ao afetivo,
à introspecção, ao baixo, as coisas relacionadas ao
lar e à preservação da família.
Héritier
(1975) afirma que as mulheres têm somente a si as tarefas da reprodução
como gravidez, acolhimento e lactação, sendo essas questões
um freio ao exercício de outras atividades, elas estão muito
mais presas à relação com os filhos que os homens
. Por isso percebe-se, pelos relatos dos jovens entrevistados, que a preocupação
em saber cuidar da criança é sempre algo mais presente na
vida das moças. Assim, Dilma (20 anos, 01 filha) relata que optou
por ficar em casa com a criança no seu primeiro ano de vida. Considerava
que a criança ainda era muito pequena e que precisava dessa atenção
maior. Apesar disso, Dilma considerava muito monótono ficar somente
em casa com a filha. Ela diz que nos primeiros tempos conseguia ocupar
suficientemente seu tempo, mas que a menina era muito calma e, depois que
pegou o ritmo, dava conta rapidamente dos cuidados com a criança
e não tinha mais o que fazer. Para a moça, essa situação
era entediante e pouco cansativa.
Além disso, é
importante ressaltar a importância percebida nesse estudo do papel
das mulheres dentro das relações familiares no que diz respeito
à convivência entre pai e filhos. Ainda que os rapazes afirmem
que a paternidade apresente situações que lhes tragam amadurecimento,
podemos perceber o quanto as negociações e autoridades diante
da criança são complexas e passam mais pelas mulheres. Quando
o rapaz não mora com o filho, normalmente, ele tem pouca autoridade
sobre a criança e a mãe será a pessoa que terá
maior legitimidade para determinar quais serão as possibilidades
de relações entre pai e filho. Diferentemente de quando o
casal fica junto e a própria mulher costuma buscar aproximar a convivência
entre pai e filho e ainda procura atribuir uma considerável importância
à autoridade paterna. Assim, como já vimos anteriormente,
o filho é um recurso importante que as mulheres têm em suas
mãos e um dos seus principais instrumentos de afronta aos homens.
Quando lhes convém elas aproximam pai e filhos e quando não
lhes convém elas afastam; é dos poucos momentos em que os
homens sentem-se impotentes para reagir.
Percebe-se que dentro das
distribuições de papéis, que são informadas
desde a infância dos entrevistados, ocorrem ganhos e perdas. O homem
é mais associado ao espaço exterior ao lar, ao trabalho e
ao respeito; e a mulher mais ao espaço doméstico, ao cuidado
das crianças e afetividade (Sarti, 1996; Rosaldo,
1995). Com isso, as mulheres têm a possibilidade de criar laços
bastante ajustados com as crianças e depois manipular essas relações,
mas também são elas que devem uma extrema dedicação
aos filhos. E, os homens estando mais associados ao trabalho, assumem
os compromissos de provimento que nem sempre são fáceis de
serem cumpridos, porém, têm a oportunidade de manter relações
com amigos, atividades e espaços públicos que as mulheres
não têm.
Contribuindo para esse debate,
Rosaldo
(1995) afirma que a dominação masculina, apesar de manter
uma aparência de universalidade, não se apresenta nas relações
de gênero atuais com esse formato. A autora considera que as mulheres
têm poderes que extrapolam o espaço doméstico, influenciando
econômica e politicamente. Assim como possuem autonomia perante os
homens e não se mostram constrangidas pela força bruta masculina.
Da mesma forma que há homens que se empoderam pela capacidade de
provimento, também há mulheres com explícitas capacidades
de reagir, de protestar e até subordinar as necessidades dos filhos
aos seus desejos. Porém, dentre as entrevistadas nessa pesquisa,
somente uma das moças mostrou-se menos conforme as determinações
mais rígidas sobre a maternidade. As demais jovens, talvez por terem
pouca idade e ainda poucas capacidades para enfrentar as regras, já
que se tornaram mães com pouca idade e estão tendo que enfrentar
esse fato, apresentam-se bastante preocupadas em corresponder às
expectativas colocadas sobre elas enquanto mães
.
Portanto, podemos perceber
que as relações estabelecidas entre mãe e filho e
entre pai e filho são bastante diferentes. A maioria das moças
entrevistadas, ao tornarem-se mães, passam a estar muito próximas
de tudo o que acontece na vida de seus filhos. Apenas Jurema (19 anos,
01 filha, tem um namorado que não é o pai de sua filha) relatou
uma situação em que a moça divide bastante os cuidados
do bebê com a sua mãe - avó da criança.
Importante ressaltar que
é uma mulher que divide esse compromisso com ela. Isso possibilita
que ela ainda possa ter outras atividades como trabalho, estudo e lazer.
Enquanto que a atenção que os rapazes devem aos seus filhos
está ligada aos momentos de descanso e lazer.
Muitos desses jovens, tendo
experenciado conflitos de geração, rebeldias e relações
de gênero, continuam reproduzindo o modelo de separação
de gênero quando constroem suas próprias famílias ou
quando educam seus filhos, na sua maioria não conseguiram apresentar
situações inovadoras quanto a esse assunto
.
Antônio (23 anos, 03 filhos) expõe essa questão:
"Foi tranqüilo, de
vez em quando ela vem com umas perguntas meio esquisitas, mas ela tem mais
liberdade de conversar certas coisas com a mãe dela. Ela nunca me
viu nu, se ela me vê ela tapa o rosto. Quando ela era muito pequena
ela não reparava, eu até trocava de roupa na frente dela,
ela não tinha essa coisa de estar olhando. Ela tinha seus dois aninhos
quando a gente foi morar junto".
Nessa narrativa, é possível
observar que vão se estabelecendo divisões sobre como relacionar-se
com o pai e sobre como relacionar-se com a mãe, da mesma forma que
eles relatam que aconteceu com eles. Assim como apresentam-se divisões
sobre o que conversar com o pai e o que conversar com a mãe. Na
maior parte dos relatos, as mães são vistas como mais afáveis,
mais dispostas ao diálogo, isso faz com que as crianças as
busquem mais para resolverem suas dúvidas. Também é
a mãe que irá tomar para si a responsabilidade de esclarecer
várias questões a respeito do comportamento da criança
com a mesma. Além disso, no caso de Antônio, as crianças
já não moram mais com ele, o que pode ocasionar um certo
distanciamento e uma diferença na convivência. Por exemplo,
não morando juntos gera-se uma diferença na relação
da menina com a nudez masculina. Considerando também que suas convivências
estão mais próximas do "mundo feminino", já
que mora somente com mulheres.
Quanto ao filho de Antônio,
é possível perceber bastante diferença, ele sente-se
como um modelo de masculinidade para seu filho e procura trazer a criança
para perto mesmo quando está trabalhando, já que trabalha
em casa
.
Ele relata que fica trabalhando e seu filho está sempre junto. Segundo
Mauss
(1974), na educação o que ocorre é uma imitação
prestigiosa, assim, a criança imita aquelas pessoas que obtiveram
êxito, que são bem-sucedidas e que ele confia e tem autoridade
sobre ela. As informações apresentadas por Antônio
demonstram sua visão de que o homem teria mais a ensinar para seu
filho que para a filha
.
Assim a relação com seu filho lhe traz um grande orgulho,
chegando por vezes a ficar emocionado quando observa o quanto seu filho
é parecido com ele. Antônio faz questão de comprar-lhe
coisas que o incentivem a ser parecido com o pai e o menino corresponde
muito às suas expectativa.
Segundo Connell
(1995), os meninos são pressionados a agir e a sentir as situações
de determinadas formas, diferente das mulheres. As indicações
a respeito dos comportamentos esperados vêm das famílias,
das escolas, dos grupos de colegas, da mídia e de todos os locais
em que as pessoas estiverem convivendo em grupos em sua sociedade. Isso
pode ter como resultado, por exemplo, que o homem mostre-se mais duro,
menos sentimental, pelo adestramento das emoções e a mulher
mais afetiva porque lhe é possível esse tipo de comportamento.
(Connell, 1995:190) Certamente essas questões
não ocorrem subitamente, desde o momento em que meninos e meninas
estão recebendo informações sobre comportamento, eles
já estão internalizando a que esferas da vida estão
relacionados. Sendo assim, a maioria das jovens aceitam, mesmo que com
ressalvas e mesmo depois de já ter trabalhado, voltar-se para as
atividades domésticas depois de ter um filho. Assim como, o homem
que se torna pai, mantendo o que sempre foi sua vida, continua tendo muitos
laços de amizade e atividades de lazer.
Não
houve jovem entrevistado que não referisse sua mudança quanto
à responsabilidade após à maternidade e à paternidade.
Segundo Arrilha (1998), em seu trabalho sobre "Homens:
entre a zoeira e a responsabilidade", a "responsabilidade" está
fortemente associada à idéia de "homem". Os relatos são
bastante claros e constantemente os jovens referiam o peso que lhes causava
a nova situação experienciada de mãe e pai. A relação
socialmente reconhecida de proximidade entre mãe e filho e pai e
filho faz com que esse sentimento se acentue. Quanto ao pai, há
uma forte carga social para que ele prove suas capacidades de provedor,
mostrando-se responsável e ascendendo ao status de homem adulto,
com algumas restrições para práticas juvenis.
Segundo Olavarria
(1999), em seu estudo sobre "Desejo, prazer e poder: questões em
torno da masculinidade heterossexual", o homem internaliza que ser homem
é importante e que quando ele estiver em uma situação
conjugal, deverá ser o chefe da família, a autoridade da
família e o provedor principal. Por isso a relação
com a esposa estaria configurada a partir dessas disposições
tornando-se uma relação hierárquica e a partir dessa
posição do masculino é que discrimina-se o papel apropriado
para a mulher dentro da família.
Uma das moças entrevistadas
expressa a forma como percebe que as responsabilidades e compromissos devem
ajustar-se. Assim, se anteriormente era responsabilidade de sua mãe
atender às suas necessidades materiais, afetivas e educacionais,
agora é responsabilidade dela manter sua filha bem assistida. Em
muitos casos, os planos precisam ser redimensionados e repriorizados. Ela
demonstra que atualmente está em primeiro plano pensar nas necessidades
de sua filha. Não que ela não perceba que seu crescimento
quanto à escolarização e profissionalização
venha como benefício para sua filha também, mas é
preciso estar atenta em primeiro lugar ao que a filha iminentemente precisa
e posteriormente cumprir seus planos. Nem sempre a noção
exata da responsabilidade é percebida apenas como algo bom, pois
isso também pode ser um complicador para a experiência da
parentalidade na juventude.
Podemos perceber que o bem-estar
e a felicidade das mulheres após a maternidade começa a
passar pelo bem-estar e pela felicidade dos filhos. Assim, parece que seria
difícil uma das jovens dissociar completamente sua felicidade da
relação com os filhos. Diferente do que alguns rapazes mostram,
uma certa separação entre as esferas da vida, onde a satisfação
em uma esfera poderá ou não interferir em outra.
A imagem da mãe está
bastante associada à sua dedicação no cuidado com
seu filho, ou seja, o estado geral da criança demonstra a eficiência
da mãe. Uma criança considerada mal cuidada suscitará
observações diretas à incapacidade, despreocupação
e relaxamento da mãe. Ela não será considerada uma
"mãe mesmo, porque mãe que é mãe, é
mãe 24 horas por dia e a vida toda", nas palavras de uma das jovens
entrevistadas. Portanto, a jovem, ao tornar-se mãe, incumbe-se de
um papel de cuidadora que é vitalício, onde os filhos são
o "espelho" da mãe. Assim como, já foram o espelho de suas
mães também.
Contudo, nos casos em que
as jovens entrevistadas para esta pesquisa dependem muito da ajuda da mãe
ou do pai nos cuidados com as crianças, isso passa a ser moeda de
troca e, muita vezes, motivo para discussões. Os pais passam a cobrar
das jovens esses cuidados que dispensam aos netos. As jovens passam a ser
mais exigidas pelos que dividem o domicílio com elas em vários
sentidos, tanto no que diz respeito aos trabalhos domésticos, como
de um planejamento e uma seriedade na vida. Há um forte discurso
sobre sua nova condição de mãe, não sendo mais
momento para brincadeiras e irresponsabilidades.
Considerações
finais
Muitos jovens, como Carlos,
demonstram os conflitos entre o que ele gostava de fazer e quais os planos
que ele tinha para essas atividades e o que a vida adulta, que lhe chamava
através de seu pai e seu irmão mais velho, já lhe
impunham. Nesse momento, já lhe era exigido fazer opções
ou, no mínimo, ir tomando consciência dos valores mais importantes
dentro de seu contexto social onde o valor trabalho tem alta relevância.
Ele conta que se sentia relaxado porque estava na fase de quartel e, ao
pensar em serviço, lembrava que provavelmente não lhe fossem
aceitar pela proximidade do período de alistamento militar. Seu
pai não era de muita conversa e ele percebeu que a questão
do trabalho era séria quando seu pai sentou e conversou com ele
sobre a importância do trabalho. Ele nunca havia sido cobrado durante
sua adolescência, sentia-se bastante livre para desempenhar as atividades
que considerasse interessantes. Diferentemente de outros jovens que reclamam
bastante da postura autoritária e descompassada com suas experiências,
Carlos diz que nunca teve problemas com a família, aquele tipo de
reclamação do tipo "ah meu pai é chato, minha mãe
é isso e não sei o quê". Por isso, quando ele ouviu
de seu pai que trabalhar era importante para que ele fosse reconhecido
como um "homem" e não mais como um "guri", um jovem sem responsabilidades,
ele levou muito a sério.
Concordando com o relato
de Carlos, o estudo de Víctora (1991), assim
como o estudo de Parker (1992), mostram que os meninos
são familiarizados desde pequenos com o domínio público
e recebem orientações para buscarem na rua sustento para
casa. O menino será considerado um homem quando tornar-se pai e
provedor de seu filho, ou seja, a paternidade é de suma importância
para sua afirmação como homem adulto. Por isso, esse caso
é exemplar para demonstrar a importância da família
como transmissora de valores e como coordenadora da periodicidade das fases
dentro desse meio. A partir de cobranças como as que o jovem
trabalhe ou que tenha responsabilidades, ela está funcionando como
balizadora dos tempos das experiências, do tipo juventude e da entrada
em características mais associadas à vida adulta. Isso não
quer dizer que os jovens correspondam exatamente ao esperado pelos seus
responsáveis. Mas, no caso dos jovens entrevistados para esse trabalho,
o fato de terem tornado-se pais e mães em períodos etários
considerados precoces faz com que busquem enquadrar-se mais rapidamente
ao que socialmente é esperado deles. Ainda que no futuro não
permaneçam dessa forma.
Notas
Ver Carpes, 2003.
Debates a respeito das categorias juventude e adolescência podem
ser encontrados nos trabalhos de Leal, 2003 e Reis, 2000.
Nessa pesquisa estamos considerando a categorização de fase
de vida elaborada pela Organização Mundial de Saúde
(OMS). Segundo ela, as pessoas com idade entre 15 e 24 anos são
consideradas jovens. Compartilham desse critério a Organização
Iberoamericana de Juventude (OIJ:1994) e a Organização Internacional
da Juventude (UNESCO:1997).
Os nomes aqui utilizados são nomes fictícios, visando questões
éticas, prezando a não identificação das jovens
entrevistadas.
Para uma discussão que analisa a família observando os diferentes
contextos em que pode estar inserida e assim sendo, sua diversidade, ver
Schneider
(1992), Geffray (2000), Duarte
(1994), Samara (1983) e Fonseca
(1997, 2000).
Galland
(1997) considera que a definição de idades é ainda
muito grosseira, as distinções são pouco precisas
e são sujeitas aos autores e aos contextos.
Ver Harevan, 1978.
Para saber sobre valor ver Dumont (1993) e Duarte
(1986).
Para saber sobre a ampla discussão sobre identidade ver Benoist
(1977).
Duarte
(1986), em seu capítulo "A Construção Social da Pessoa
Moderna".
Brandão
(2003), Rieth (2001) e Cabral
(2002) abordam a relação entre juventude e escolarização.
As relações intergeracionais entre pais e filhos também
foram estudadas por muitos autores como Salem (1980),
Blöss
(1997) e Bozon e Villeneuve-Gokalp (1994).
Um relevante debate sobre "o mito do matriarcado" é feito por Bamberger
(1979); segundo o autor: "Os mitos repetem constantemente que
as mulheres não sabem como administrar o poder quando o possuem.
Assim, a perda é justificada tão logo as mulheres decidam
aceitar o mito. Ao invés de transmitir um futuro promissor, o Governo
Feminino retorna a um passado obscurecido pelos repetidos fracassos. De
fato, se as mulheres algum dia irão governar, elas precisam desvencilhar-se
do mito que determina que elas foram consideradas incapazes de desempenhar
papéis de liderança. (p.252)"
Spencer
(1893) e Engels (1944) apresentam debates que naturalizam
o papel da mulher como cuidadora e com uma "natural" associação
ao espaço doméstico, enquanto Simmel
(1955) e Durkheim (2003) descrevem os sexos sugerindo
uma complementariedade.
As práticas e representações sociais a respeito das
atitudes esperadas dos homens e das diferenciações feitas
entre homens e mulheres são abordadas por Olavarria
(1999). Ele menciona que não somente as brincadeiras separam meninos
e meninas, mas também os comentários das pessoas indicam
aos garotos que devem se preservar de atitudes de mulherzinha.
Kimmel
considera que o ideal hegemônico de masculinidade é criado
em oposição a outros que foram problematizados e desqualificados.
Dessa forma, o hegemônico e o subalterno constroem-se em mútua
e desigual interação. Ele tem como pressuposto que as masculinidades
são socialmente construídas e não possuem nada de
essencial ou biológico. Assim, as masculinidades variam de cultura
para cultura, variam no decorrer de um certo tempo, variam através
de construções de identidades e variam no decorrer da vida
de qualquer homem individual (1998:105).
Parker
(1992) observa que as marcas de masculinidade ficam ameaçadas nos
primeiros anos de vida dos meninos pela proximidade maior com o domínio
feminino. Por isso, a virilidade masculina precisa ser construída,
passando por um processo de masculinização capaz de romper
com os laços dos primeiros anos do menino vividos mais próximos
às mulheres. Os homens mais velhos são os responsáveis
por instruir os rapazes instrumentalizando-os para serem homens. Esse processo
ocorre informalmente na vida cotidiana (p.96).
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