O presente
artigo é resultado da minha dissertação de Mestrado
em Antropologia Social da UFPr. Trata-se de uma reflexão sobre dois
grupos do movimento negro de Curitiba denominados ACNAP e GRUCON. O primeiro
tem o seu reconhecimento, entre muitas atividades, no grupo de dança
afro-brasileira chamado Projeto K-Naombo. Sua participação
e organização dos eventos ligados aos negros em Curitiba,
mobiliza um grande número de pessoas envolvidas direta e indiretamente
com a comunidade. No segundo grupo, trataremos da trajetória religiosa
percorrida por uma pessoa que iniciou suas atividades a partir de
um grupo de jovens da igreja católica e acabou construindo a sua
identificação com o candomblé.
A maioria
dos temas ligados ao estudo das manifestações de cultura
negra no Brasil nos remete imediatamente aos aspectos remanescentes próprios
da origem africana. O que se percebe é que há uma tendência
em concentrar esses estudos a respeito dos movimentos ou manifestações
culturais negras em interpretações e aproximações
de um imaginário voltados para a África, tais como a congada,
o maculelê , o candomblé, o calundu, o batuque, etc..
Ocorre
que esse tipo de associação acaba nos levando a considerar
um certo determinismo "afro", fazendo crer que tudo que vem do negro está,
necessariamente, pensado no quadro de um imaginário africano
particularizado. Essa forma de pensamento nos permite considerar a existência
de outras maneiras dos grupos negros se expressarem culturalmente, principalmente
quando enfocamos as diversas condições encontradas pelos
negros ex-escravos e descendentes livres no espaço urbano na segunda
metade do Séc. XX no Brasil.
A Antropologia,
nos últimos tempos, tem se deparado como uma série de questões
e, ainda que muitas destas não sejam consideravelmente novas, participando
de debates, reiterando a dinâmica das ações humanas
e sua plasticidade diante das mudanças sociais. Uma delas, que interessa
destacar aqui, é a relação Identidade e Cultura.
Em
artigo recente, Roberto Cardoso de Oliveira
usa a expressão "(des)caminhos da Identidade", para se referir a
dois termos, caminhos e descaminhos, utilizados metaforicamente para designar
a ambigüidade muito evidente nas chamadas sociedades globais. É
certo que as mobilizações dos grupos negros no Brasil não
é recente; a data precisa é controvertida. Se por um lado
alguns autores como Henrique Cunha Jr., consideram que mesmo antes da Abolição
é possível a verificação das contestações
dos negros, por outro lado José Carlos Gomes da Silva (1998), aponta
para a reorganização cultural e política dos negros,
na cidade, um pouco mais tarde. Entretanto, é válido ressaltar
que a heterogeneidade no interior das sociedades complexas abriu uma nova
perspectiva de estudos, principalmente na área da antropologia urbana,
na qual a questão das identidades sociais, culturais e étnicas
ganham proeminência.
A noção
de etnicidade indica a importância assumida pelas diferentes minorias
étnicas nas sociedades modernas. Essas persistiram, apesar das pressões
no sentido da assimilação ou da segregação.
A presença de conflitos étnicos no mundo moderno indica a
importância do papel das minorias como grupos de interesse. Muitos
autores têm realçado esse aspecto da etnicidade, que atua
como forma de organizar os grupos étnicos para reivindicações
de várias ordens, principalmente políticas.
Segundo
Roberto Cardoso de Oliveira (1976) : " a problemática
da identidade étnica, desde que seja contextualizada, promete ter
uma razoável possibilidade de implementar a investigação
empírica, pois toca uma esfera crucial de qualquer sistema de relações
sociais: a da relação entre o indivíduo e o grupo,
constitui a ponte entre o indivíduo e a sociedade."
O caráter
instrumental da etnicidade é um dado muito destacado nos trabalhos
sobre o tema, apontando sua presença nos movimentos pela conquista
de espaços mais abrangentes na sociedade. O que se verifica como
importante, também, é o fato da identidade étnica
retirar sua força política de uma história passada,
singular, específica do grupo, sem que isso signifique uma história
integralmente verdadeira. De fato, é uma história reconstruída
e idealizada pelos membros do grupo com a finalidade de defesa e
de conquista de espaços políticos.
Novos
estudos abandonam uma imagem puramente contrastiva da identidade étnica
para uma ênfase no seu caráter político. No entanto,
acabam por dar uma abrangência tão grande ao caráter
político que o próprio conceito do político é
diluído. Na literatura pertinente a este tema, podemos destacar
alguns autores que contribuem para nossa análise.
Em
"Negros Estrangeiros",
Manuela C. da Cunha (l985)
analisa as identidades como construções altamente manipuláveis
para a garantia do espaço político e econômico de
descendentes brasileiro-iorubanos, alforriados ou libertos, que retornaram
para o continente africano após a Abolição. Esta autora
demonstra que a construção da identidade étnica é,
em muitos aspectos, semelhante à construção de outras
identidades sociais, separando-se das outras ao referir-se a algo específico,
que é uma origem histórica, revelando a afirmação
de sinais tangíveis, ou seja, sua própria cultura.
De
acordo com Kabenguele Munanga, "...não
podemos afirmar que há uma identidade cultural entre os negros brasileiros
vivendo nos terreiros de candomblé e negros vivendo em uma favela
ou ainda negros da classe média nos grandes centros urbanos."
(1988:144). Para este autor, é necessário considerar três
fatores que se revelam componentes essenciais na construção
da identidade étnica: o fator histórico, o fator linguístico
e o fator psicológico. Porém a inexistência destes
pressupostos conceituais entre os negros no Brasil não descaracteriza
a identidade como uma ideologia que funciona na medida em que permite às
pessoas definirem-se em contraposição a outras e reforçar
a solidariedade existente entre elas, considerando a conservação
do grupo como entidade distinta. De acordo com Geertz,
"...a
compreensão [das ações humanas] depende de uma habilidade
para analisar os seus modos de expressão, aquilo que chamo de sistemas
simbólicos, e o sermos aceitos contribui para o desenvolvimento
desta habilidade. Entender a forma e a força da vida interior de
nativos... parece-se mais com compreender o sentido de um provérbio,
captar uma alusão, entender uma piada, ou como interpretar um poema,
do que com conseguir uma comunhão de espíritos" (1997:107).
Entre
vários autores,Fredrik Barth certamente representa um segmento importante
na contribuição desta temática. Segundo Barth
"grupos étnicos são categorias de atribuição
e identificação realizados pelos próprios atores e,
assim, têm característica de organizar a interação
entre as pessoas" (1988:189). Desta forma, o conteúdo cultural
destes grupos se expressa, principalmente, por sinais, traços, com
os quais as pessoas procuram exibir sua identidade (roupas, língua,
hábitos, etc ), por padrões de comportamento e procedimento
julgados corretos pelos integrantes do grupo. Como os grupos étnicos
apresentam expressões coletivas, é válido dizer que
é possível a coexistência, no mesmo ambiente, de vários
grupos étnicos cuja integração realça e mantém
as diferenças. O contato produz a diferença e estas se defrontam
onde estão as chamadas <fronteiras>. As fronteiras, em nosso
entendimento, podem se caracterizar de três formas distintas: podem
ser geográficas, dicotomizando centralidade e periferia; políticas.,
quando enfatizada a questão dos interesses fundamentais, vistos
principalmente nos grupos de resistência e nos movimentos sociais
e, por último, o que mais nos interessa: fronteiras culturais. Pressupondo
a inexistência de uma separação sistemática
entre estas, podemos perceber que as relações sociais estáveis
são mantidas através das fronteiras baseadas em estatutos
étnicos. A interação em um sistema social não
leva ao desaparecimento das fronteiras, pelo contrário; as diferenças
culturais podem permanecer apesar do contato inter-étnico e da interdependência
dos grupos (Barth, 1988:188). Em outras palavras, para Barth, deve-se entender
o fenômeno da identidade através da ordem das relações
entre grupos sociais. Segundo ele,
...
identidade é um modo de categorização utilizado pelos
grupos para organizar as suas trocas. Também para definir a identidade
de um grupo, o importante não é inventariar seus traços
culturais distintivos, mas localizar aqueles que são utilizados
pelos membros do grupo para afirmar e manter uma distinção
cultural. Uma cultura particular não produz por si só uma
identidade diferenciada, esta identidade resulta unicamente das interações
entre os grupos e os procedimentos de diferenciação
que eles utilizam em suas relações (p.182)
Portanto,
devemos considerar que a identidade se constrói constantemente
no interior das trocas sociais. Esta concepção dinâmica
da identidade se contrapõe àquela como atributo original
e permanente. Em outras palavras, Barth coloca em relevância o estudo
da relação no centro da análise, destacando a suposição
da identidade definida no contato. Outro aspecto relevante está
no fato de que a identidade só existe em relação a
uma outra, assim, a oposição e o contraste dão forma
e consistência a ela. Para Barth identidade e alteridade se constróem
numa relação dialética; logo, a identificação
acompanha a diferenciação.
Para
Denys Cuche, o cientista social não deve fazer
controle da identidade; ele tem o dever de explicar os processos de identificação
sem julgá-los. No entanto, é válido ressaltar que
as identidades estão, em certa medida, associadas com o espaço
territorial, onde elas estão inserida, porque uma sociedade se diferencia
das outras pela auto-identificação, mas, em muitos casos,
a imposição de identidade étno-cultural também
provoca conflito e desequilíbrio interno, como ocorre principalmente
nos estados pluriétnicos. A tendência a mono-identificação,
que é a tentativa de dar uma unidade ao aspecto da identidade, ganha
terreno em muitas sociedades contemporâneas. A identidade coletiva
é apresentada no singular, o que permite reduzir um conjunto a uma
personalidade cultural única.
A partir
da análise de uma situação concreta em Curitiba, tomamos
como ponto de referência dois grupos intitulados afro-brasileiros,
desta cidade: o ACNAP (Associação Comunitária da Negritude
e Ação Pastoral) e o GRUCON (Grupo de União e Consciência
Negra).
O ACNAP
e o GRUCON representam, atualmente, um espaço de debate de idéias,
onde são manifestados vários descontentamentos com a política
social, onde há troca de experiências particulares e discussões
de planos para envolver outros excluídos de Curitiba e região,
com o objetivo de promover reivindicações coletivas.
Tudo isso a partir de um discurso que ultrapassa a noção
de grupo étnico, mas que, no entanto, toma como base a história
da resistência dos negros no passado.
Muito
se tem escrito sobre a desigualdade racial no Brasil, e a imensa bibliografia
disponível certamente muito colaborou e muito ainda será
produzido para esclarecer as questões raciais neste novo milênio.
No entanto, acreditamos que a Antropologia pode contribuir muito
mais, não só no que diz respeito à discussão
sobre a desigualdade racial, mas também da inter-relação
racial , que é o que acontece nos grupos ACNAP e GRUCON. Nestes
locais se preserva a diferença e se levanta uma única bandeira
configurando uma identidade que dá sentidos às ações
dos seus participantes.
A
dança e a religião em Curitiba
Neste
momento passaremos a refletir sobre o modo pelo qual a dança afro
e o candomblé constroém a identidade entre os negros e não-negros
em Curitiba, enfatizando o seu caráter político e emancipacionista
como propõem os líderes e integrantes dos grupos ACNAP E
GRUCON.
O ACNAP
tem numa das suas maiores expressões artísticas e culturais
o grupo de dança afro chamado Ka-Naombo.
De acordo com o este grupo, a dança consiste numa linguagem eficaz
para manifestar a visibilidade dos negros. Conforme a precursora do grupo
e principal articuladora do Projeto Ka-Naombo,
Vera Paixão, "a dança emancipa".
Diante
do que foi colocado anteriormente, o grupo de dança Ka-Naombo
é um segmento de sustentação do ACNAP, porque organiza
a comunidade e mantém seus membros agrupados trabalhando. O Grupo
existe desde 1991; segundo a sua principal líder, tratava-se de
uma intenção que ninguém sabia bem certo onde daria.
Como
fundadora, Vera está no grupo há 12 anos. O nome surgiu
de sua participação, como convidada, de uma festa,
em Porto Alegre, que reuniu muitos negros para valorizar a capoeira, a
dança afro, a música, teatro, etc. Ali Vera ouviu, pela primeira
vez, o nome Ka-Naombo e soube que
tratava-se de uma expressão Iorubá que significava "coisa
de negro" (Ka = coisa + Naombo= negro). Em 08/06/1991, junto com algumas
pessoas, ela organizou, em Curitiba, a Primeira Noite Ka-Naombo,
cujo intuito seria somente dançar e reunir os colegas. Embora dançassem
muito, não sabiam como era a dança afro, exatamente. Alguns
grupos negros existentes em Curitiba da década de 80, como Arte
Negra, Utamaduni, Ya-Cobiodé (atualmente nenhum destes existe mais)
ajudaram a incentivar e a ensinar o pouco que sabiam sobre a dança
afro. Através de alguns passos básicos deveriam ser criados
outros com improvisação e vibração.
O desenvolvimento
e crescimento do grupo incentivaram Vera a participar de um encontro de
mulheres negras em Valença, no Rio de Janeiro, no início
dos anos 90. Ali se propunha a valorização da mulher negra
e da dança negra como forma de expressão cultural. Posteriormente,
ela foi ao ENEN - Encontro de Entidades Negras, ocorrido em São
Paulo, no estádio do Pacaembu. No mesmo período, sua
aproximação da dança se intensificou e, com o passar
dos tempos, seu orgulho negro se acentuou. Principalmente porque nestes
eventos ela passou a conhecer pessoas com os mesmos propósitos e
a melhorar a sua condição como dançarina e como mulher
negra.
Trazia
destes eventos uma orientação muito grande sobre aspectos
da negritude tanto teóricos como emocionais, e novos recursos foram
aprendidos para aprofundar o conhecimento da dança. Por exemplo:
filmes que exibiam a dança eram fontes de inspiração
e ensinamento para o grupo em Curitiba, e logo sessões com fundamento
afro eram passados para as colegas e integrantes do grupo, procurando intensificar
os passos da coreografia e a introspecção da africanidade
no interior do grupo. Dentre os filmes exibidos podemos citar "Um príncipe
em Nova York", "Serafina", "Canto da Liberdade", "A Cor Púrpura",
etc. e outros do mesmo gênero.
O engajamento
de Vera fez com que conseguisse receber da Associação
dos Moradores do Xapinhal, no Sítio Cercado, um espaço para
resgatar a cultura negra na comunidade. Começou com dança
afro, teatro e capoeira e, com o tempo, outras atividades e parcerias foram
se afirmando. Atualmente é possível encontrar informática,
aulas de reforço escolar, brincadeiras diversas, objetivando a inclusão
das crianças e jovens do bairro nos espaços mais participativos
e criativos, sobretudo, do ponto de vista da Cultura.
Neste
local muitas pessoas de diferentes etnias são recebidas anualmente,
embora muitos não fiquem definitivamente, pois a rotatividade de
pessoas é muito grande. Ela faz questão de frisar que a problematização
da cultura afro-descendente é o pano de fundo de todas as atividades,
e isto permite uma identificação de vários tipos de
pessoas: moças e rapazes, crianças e adolescentes, o que
levou o grupo, numa dada época, a ter como dançarinas(os)
mais brancos que negros.
Para
Vera Paixão a dança é um canal para conscientização,
tanto étnica como de gênero, e contribui para o não-abatimento
trazido pela condição sócio-econômica desfavorável.
Ela também afasta os jovens das drogas criando auto-estima. Numa
parceria com a prefeitura da cidade de Curitiba, o grupo inaugurou o "Agente
Jovem", programa que visa levar a comunidade a participar de sua associação.
Com isso, um acentuado número de crianças em horário
contrário da escola se reúnem na sede do ACNAP para muitas
atividades. De acordo com a sua declaração,
"Sempre
gostei de dançar; a dança não é só mostrar
o corpo, mas é dançar, mostrar expressão, valorizar
a estética. A linguagem dos gestos é muito importante; por
exemplo demonstrar como os negros celebravam as suas cerimônias religiosas,
como dançavam nas suas festas, como viviam o seu cotidiano como
escravos no Brasil, o seu momento fora do trabalho, as reuniões
nas senzalas e tudo que se refere aos negros, demonstrando isso com simpatia
e com alegria, com resgate cultural, e não com sofrimento, com amargura,
pois sofremos muito no passado e não vamos sofrer no presente. Não
devemos valorizar a nostalgia esperando compaixão. Se queremos ir
a algum lugar é com estudo, trabalho, alegria e dança, é
claro".
Seu público
é bastante variado. Atua em várias escolas, sindicatos, faculdades,
na rua e nas datas comemorativas a respeito do negro. Principalmente nos
dias 13 de Maio e 20 de Novembro, tem mobilizado um número
muito grande de pessoas e, com a exceção dos integrantes,
a maioria dos participantes são brancos. Nestas ocasiões
cria-se aglomeração e movimentação acima do
normal, o que tem contribuído para a visibilidade do grupo, trazendo
novos participantes, simpatizantes e pesquisadores. No começo as
pessoas sentem-se um pouco constrangidas, principalmente na rua, mas depois
se aproximam e mantêm um clima de cordialidade. Esses eventos geram
inicialmente uma sensação de curiosidade e menosprezo,
depois de respeito e valorização.
Embora
eles recebam todos aqueles interessados em ajudar e a participar, as expressões
"negro" e "afro-descendente" são duas categorias utilizadas diferentemente.
Negro, tem a pele escura; o afro-descendente possui traços físicos
e características dos negros, os outros são os brancos. Na
visão do grupo a cor da pele ainda orienta a inclusão das
pessoas em alguns espaços sociais pré-determinados pela elite
branca da cidade. Mesmo que isto não represente uma forma muito
evidente diante da mobilização social em teoria, na prática
tem permitido saber onde estão e onde não estão os
negros na cidade. Segundo Vera, "...com essa história de cotas
e o cursinho
pré-vestibular do ACNAP, muitos brancos chegam aqui para fazer
inscrição dizendo que são afro-descendentes, e como
eu vou saber que não são? Os seus avós, bisavós
podem ser, por isso aceitamos todos".
Devido
ao fato de se apresentar em locais diversos, o K-Naombo foi convidado para
encerrar, como uma atividade artístico-cultural, um encontro de
trabalhadores que estava se realizando no CEPAT. O CEPAT (Centro de Pesquisa
e Apoio ao Trabalhador) é uma instituição que reúne
trabalhadores do Paraná, vereadores e / ou seus assessores, representantes
de sindicatos de outras cidades e até sindicalistas de outros países
(nesta ocasião o encontro contou com a presença de dois líderes
sindicais vindos da Itália) para discutir temas relacionados à
participação política dos membros e lideranças
dos sindicatos. Muitos temas são discutidos e implementados a partir
de conversas e dos cursos oferecidos e organizados pelo CEPAT. Nesta oportunidade
presenciei um curso que estava sendo realizado em vários módulos,
e naquele dia os trabalhadores estavam reunidos discutindo sobre o tema:
"Desafios do Mundo Moderno, Economia Política e História
da Política". O curso funciona da seguinte maneira: os organizadores
trazem um especialista no assunto, o escutam atentamente e procuram dar
prosseguimento com dados atualizados constantemente, permitindo assim,
que o seu papel de líder ou membro sindical tenha condições
de atuar com eficiência numa possível negociação
com os patrões. O grupo Ka-Naombo
ia se apresentar para o fechamento daquele módulo. E como tratava-se
de dança, seria um fechamento em alto estilo, isto é, por
diversas vezes uma das organizadoras do evento fazia questão de
frisar que a dança era uma maneira eficiente de exercer a democracia,
era assim que todos os participantes tentavam compreender a apresentação
do grupo, esperado para entrar em cena e concluir o final do debate. Tão
logo acabaram os detalhes finais do encontro, o Ka-Naombo
foi chamado e ao som de tambor e batucadas todos puderam assistir atentamente
as coreografias e improvisações das dançarinas, cuja
perplexidade era ainda maior por parte daqueles convidados vindos de outros
países. A música que começou com batucadas de som
africano e acabou com o mais genuíno samba brasileiro cantado por
Elis Regina "Não deixe o samba morrer".
Essa
foi uma das vezes que pude assistir o grupo Ka-Naombo
em ação e tanto as dançarinas como o público
(na sua maioria não-negros) se mantiveram, mesmo depois da apresentação,
numa grande comunhão bastante elogiada por todos; cada um
dela fazendo sua própria leitura e introspecção.
Outra
integrante do grupo é Mirian. Mais recente, entrou há 2 anos
e participa dos ensaios, das apresentações e todas as tardes
trabalha na sede desenvolvendo diversas tarefas administrativas e com as
crianças. Ela transmite a mesma leitura do grupo como aporte para
alcançar respeito e reconhecimento junto a sociedade. Mirian mora
em Curitiba somente há 5 anos. Explicou que uma das atividades muito
valorizadas pelo grupo é o trabalho desenvolvido com as crianças
e com todos aqueles que tem interesse em participar. Nascida em uma pequena
cidade do norte do Paraná, Mírian, sempre foi reconhecida
como "moreninha" e, segundo ela, nunca sentiu que tal expressão
estivera associada de forma pejorativa a "coisa de negro". Isto lhe dava
um certo caráter depreciativo na ordem das manifestações
e comportamentos esperados pela comunidade onde morava, aliás, "coisa"
que o grupo faz questão de enfatizar, como o som do tambor, do atabaque,
do agogô, os pés descalços, as roupas com cores vivas,
cabelos trançados etc.
O seu
primeiro contato com a entidade foi a sua inscrição para
o chamado "Concurso de Miss e Mrs Palmares". Este é um acontecimento
organizado anualmente pelo ACNAP, e que geralmente ocorre no dia 08 de
Novembro. Nesta ocasião todo(a)s o(a)s concorrentes devem interpretar
números diversos e um deles é dançar uma música
ao som de tambor, atabaque, pandeiro e outros instrumentos de percussão,
tudo previamente estabelecido pela comissão organizadora. Muitos
inscritos desistem nesta etapa dos ensaios, porque acabam associando a
dança e a música com pontos de umbanda e se opõem,
evitando, no nosso entendimento, conflitos religiosos. Segundo Miriam,
já ouviu algumas concorrentes dizerem "isto é macumba!".
De acordo com ela, a cultura negra está invisibilizada e, de certa
forma, estigmatizada pela mídia e também em outros segmentos
da sociedade. No entanto, a dança é o ponto mais alto
no desfile e tem nesta apresentação uma pontuação
bastante alta, o que pode levar um(a) candidato(a) a uma possível
vitória na visão dos jurados. Estes são escolhidos
aleatoriamente na comunidade negra ou convidados não-negros conhecidos
e simpatizantes, com algum saber artístico e/ou cultural, entre
os quais estilistas, professores de educação artística,
músicos,etc.
O concurso
se constitui numa ponte para estreitar os laços com o grupo mais
amplo, porque promove o encontro entre os negros da cidade e envolve pessoas
sob o aspecto da cultura afro-brasileira. Isto aconteceu também
com Míriam.
No
Ka-Naombo, toda estrutura do grupo
é organizada pelas próprias integrantes dançarinas,
colaboradores e simpatizantes que fazem o figurino, costuram, coreografam,
divulgam o evento etc.. Mesmo tendo quase 20 pessoas como participantes
diretos na dança, somente algumas dançam. Segundo Mírian,
não existe critérios previamente definidos; todos podem dança.
Basta que saibam a coreografia e participem dos ensaios.
As
coreografias são interpretadas a partir da exibição
de filmes que apresentam danças de povos africanos. Todos assistem
e depois vão ensaiar, mantendo e inovando os movimentos aprendidos
nestas apresentações, matérias e reportagens.
O seu
julgamento como grupo de dança afro-brasileiro, reside no fato de
utilizarem coreografias, roupas e abordagem de temas retratando os negros
no continente africano e no auge da escravidão no Brasil. As apresentações
nas escolas, sindicatos, festas populares, etc. contribuem para que muitas
pessoas sejam trazidas para o grupo de dança, seja por interesse
ou por curiosidade. Com isso, muitos não-negros acabam sendo recebidos
anualmente pelo grupo, embora nem todos fiquem definitivamente. No entendimento
da liderança do grupo, para existir uma identificação
ela deve se procurada, ter interesse na interpretação de
uma cultura. Ao procurar saber sobre uma cultura, esta deve ser sentida.
Da dança afro, no entendimento da dançarina, emana uma vibração,
um som, uma construção psicológica em torno do ritual,
do ensaio, da reza, antes de subir ao palco, muito contagiante.
O envolvimento
emocional das apresentações, dos ensaios e da convivência
no espaço da dança, têm sido levados para o dia-a-dia.
Mesmo não estando no palco e nem atuando, ela percebe muitos olhares
evasivos e interpretativos, que ajudam na elevação de serem
integrantes de dança afro. Ela diz,
"...sempre
que saio na rua tenho me sentido realmente diferente; sou percebida como
negra, percebo mais as pessoas negras, me reconheço como negra e
não como moreninha".[...] "...sempre gostei muito de dançar,
gosto de conversar, mas não era muito de me soltar e na dança
a gente se solta mais; aprendi a gostar do meu cabelo arrumado para cima...
Aliás, antes isto era um problema, porque não gostava do
meu cabelo, não conhecia a dança afro, aprendi a gostar."
Para ela
o preconceito é produto de ignorância. Se as pessoas procurassem
entender mais as coisas, com mais força de vontade, elas entenderiam
melhor a diversidade existente. Todas as pessoas são preconceituosas
porque são desinteressadas. Não só em relação
à dança afro, mas em muitas outras áreas, manifestam-se
vários tipos de preconceito.
Neste
momento, percebo que a relevância reside na percepção
de que a dança afro executada pelo grupo, permite uma inovação
e uma improvisação pelos próprios dançarinos.
A dança afro que presenciamos, embora seja inspirada e motivada
por características fundamentais africanas, está delimitada
pelo conteúdo de brasilidade invocado pelos artistas, o que permite
uma variedade de movimentos e insinuações referentes aos
negros brasileiros na atualidade. Assim, compreendi que a dança
se revelou como "mola propulsora" para um reconhecimento alcançado
em pouco tempo. Talvez pelo contato, pela convivência e pela forma
audaciosa de representar gestos e expressões com um significado
muito mais complexo e profundo do que compreensível e transparente.
Isto, certamente, nos leva a compreender a expressão "Africanidades
Brasileiras" proposta por Henrique Cunha Jr. quando
diz,
"
[As africanidades brasileiras...] são manifestações
elaboradas para pensar o Brasil, e não têm a mesma construção
do afrocentrismo. Não surgem como uma proposição de
estar centrada na base africana. Ter como base não implica estar
centrada, sobretudo, porque a África historicamente sempre
fez trocas culturais e populacionais com outros continentes. As Africanidades
Brasileiras são, portanto, reprocessamentos pensados, produzidos
no coletivo e nas individualidades, que deram novo teor às culturas
de origem. Esta reelaboração descortinou um novo horizonte
para pensar a capoeira, candomblé e os quilombos." (Cunha Jr., 2001:12).
Por
isso, muitas pessoas, negras ou brancas, mas, necessariamente, brasileiras,
são levadas a incrementar o grupo de dança e a contemplar
outras formas de manifestação de cunho africano nestes
movimentos. Muitos integrantes do grupo de dança, ou quase todos,
freqüentam espaços de lazer também caracterizados como
se fossem uma continuidade do grupo, entre os quais podemos citar como
exemplos, "Mistura Brasil", 'Porão do Tatu", "Coliseu", etc. Estes
locais, que tocam músicas diversas como, samba, pagode, reggae,
hip-hop, são os prediletos. Quando estive nestes lugares, ficou
evidente que não se tratava de um "local de negros", mas, pelo contrário,
a diversidade é ponto mais alto da casa e permite que todos se divirtam
e tenham uma participação bastante expressiva. Numa dessas
ocasiões, chegando acompanhado com um integrante do grupo de dança,
olhei à minha volta e vi que a grande maioria, quase 80% dos presentes
não eram negros. Mas todo o repertório da noite e atividades
artísticas programadas para aquele momento seriam associadas aos
negros, como toque de instrumentos de percussão, cabelos trançados,
samba como estilo musical mais executado.
Sobre
nosso segundo ponto, isto é, a religião, vale ressaltar que
esta se constitui num aspecto extremamente relevante, principalmente, no
que diz respeito às representações inseridas na cultura
afro-brasileira. Sobre isto, nossa principal informante, Dalzira, yalorixá
há 10 anos, nos remete a uma reflexão sobre como o imaginário
cultural e o sentimento de pertencimento, superam as fronteiras étnicas
previamente definidas.
Aproximadamente
há 17 anos, Dalzira trabalhava com um grupo de crianças,
no bairro onde mora, em Curitiba, promovendo atividades educativas e interativas
com o objetivo de reativar a participação dos moradores da
sua região. Entre estas atividades destacava-se a capoeira como
a mais animada e, por isso. a mais esperada pelos freqüentadores.
Como líder comunitária e integrante do GRUCON, Dalzira resolveu
contratar um professor de capoeira que pudesse dar aulas mais especializadas
para as crianças e melhorar o condicionamento dos adultos. Naquele
momento, recém abandonada a participação mais efetiva
que mantinha na igreja católica de sua comunidade, passou a se aproximar
dos aspectos inerentes a africanidade; entre eles, a religião. Motivada
pelos encontros do GRUCON em diversas cidades, reuniões com os moradores,
encontros de mulheres, etc. acentuava o seu envolvimento nas aulas de capoeira,
que ao som do atabaque e da oração antes de iniciar os movimentos,
reunia um conjunto de práticas rituais e místicas, reacendendo
a sua curiosidade pela espiritualidade. Passou a freqüentar o terreiro,
também chamado de "casa" do irmão do mestre de capoeira que
era babalorixá*.
Sua
chegada foi caracterizada por momentos imprevisíveis, situado entre
a tensão diante do desconhecido e a ansiedade por descobrir novas
faces da sua gente. Aliás, o culto ao candomblé* está
relacionado com atividades muito variadas que vão além das
orações. São os chamados Oriki, atividades que reúnem
o aprendizado da culinária africana, a dança afro praticada
nas senzalas, o ritmo ao som da percussão e o toque de músicas
muito vibrantes, transformando o ambiente numa harmonia muito amistosa
e alegre, tudo sob uma concentração espiritual na busca de
possibilidades e intervenções individuais. Neste sentido
me ocorre que, talvez, o clima ali existente pudesse ser comparado ao das
Irmandades religiosas de ex-escravos no Brasil do início do séc.
XIX. Durante 7 anos após a sua iniciação como religiosa
do candomblé, assuntos como racismo, desigualdade e inferioridade
passaram a ter novos significados, ou seja, o que anteriormente era pensado
como valores atribuídos gratuitamente, agora procurava entender,
buscando-lhe a origem. Isto contribuiu para a intensificação
de sua militância, levando-a compreender o quanto a cultura negra
havia sido subjugada durante estes anos. Os cultos, os encontros, a oração,
e a leitura de temas relacionados aos negros, permitiram seu aprofundamento
espiritual. Tornara-se Yaô, passado um período chegou a Ibami
e posteriormente (de acordo com a sua interpretação, atendendo
a um chamamento ), alcançou o cargo de Yá (ou Yalorixá
como é chamada a mãe-de-santo)
Todo
esta transformação se deu em 17 anos, do início
na religião à abertura da sua própria "casa".
A expressão "casa" se refere ao terreiro, mas pode ser compreendido
da forma comum, local onde a família nuclear convive. Segundo Dalzira,
os seus "filhos" e vivenciadores formam uma família
cósmica e, por isso, mantêm efetivamente laços de afetividade
e cordialidade mútua. Atualmente ela conta com aproximadamente 340
pessoas que freqüentam seu terreiro, sendo 7 filhos iniciados
e 23 vivenciadores (como são chamados as pessoas que periodicamente
utilizam os seus trabalhos e contribuem para o desenvolvimento daquele
espaço). Segundo Dalzira, cabelo, nariz e cor da pela ajudam a identificar
o negro, por isso ela diz que 90% da sua "casa" são frequentadores
negros e 10% são brancos. Reconhece que muitos terreiros em Curitiba
são vivenciados e liderados por brancos e ainda assim esta é
prova de que a religiosidade ultrapassa as fronteiras étnicas, porque
trata-se de uma concepção de vida individual. No que se refere
à estatística racial de sua "casa", ela atribui à
sua militância no movimento negro há 22 anos, onde a sua intervenção
é mais eficaz e permite maior aproximação com pessoas,
marcadamente, de origem africana. Preservando as diferenças individuais,
tanto como a trajetória descrita pelos seus membros, todos são
vistos, reconhecidos e tratados como negros, pois, acredita que todos os
brasileiros são negros. Diante disto, é válido ressaltar
que a participação dos não-negros no candomblé
se dá pelo mesmo motivo em razão do qual muitos negros encontram-se
separados dos trabalhos realizados pela religião afro-brasileira;
suas trajetórias foram descritas de outra maneira, não houve
o que os especialistas reconhecem como "chamamento" dos espíritos,
ou simplesmente porque o preconceito amplamente disseminado também
contribuiu para o seu afastamento. O mais importante, na visão da
Yá, é o conhecimento por parte de todos os brasileiros da
religião tradicional dos negros, mesmo sabendo que muitos jamais
a freqüentarão por vários motivos. Mas ultrapassar a
ignorância e o preconceito torna-se imprescindível para melhorar
a relação entre as pessoas. Segundo ela "...nós
conhecemos a religião deles, eles é que não conhecem
a nossa" ,conclui.
Mas
como a religião constrói a identidade?
Tudo
nos leva a crer que a religião afro-brasileira se constitui a partir
de uma singularidade bastante relevante, ou seja, a história de
vida. Indagada sobre a construção da identidade por parte
de negros e não-negros na sua "casa", Dalzira, nos informou que
o orixá conta a sua história através de cada incorporação
que faz, reiterando a importância pessoal de cada um e viver em sociedade
pressupõe uma complexidade de atitudes. A religião se compõe
de cosmovisão, ancestralidade e sentimento, associados à
música, à dança e à história que dá
o sentido para que as ações sejam desta forma e não
de outra. Trata-se da relação entre o mito e o rito, mas
no caso da religião afro-brasileira, cuja estrutura principal está
centrada na resistência cultural, praticada por escravos e descendentes,
torna-se evidente uma história de sofrimento, de incertezas e desesperança.
Muitos dos seus filhos e vivenciadores chegam na sua "casa" procurando
esclarecer momentos difíceis de suas vidas e buscando dar prosseguimento
após ter amargado alguns dissabores reservados pelos seus destinos.
Num
encontro com religiosos em Goiás, organizado pelo GRUCON
em 1984, Dalzira comenta que
"...um
padre francês conhecido somente pelo nome de François, descobriu
o candomblé e ficou fascinado por ele. Fazia questão de estar
em todos os momentos e ensaios do nosso ritual e orações,
durante muitos dias ele pode ver de perto a nossa religião
e no último dia ele disse: os negros só vão
descobrir a sua identidade no candomblé, entendendo a sua religião
de origem. Essas palavras foram tão profundas para mim que jamais
pude esquecer aquele momento."
A interpretação
retirada dessa passagem, no nosso entendimento, é que a religião
de origem pode explicitar a base da espiritualidade de todos em negros
em geral ou daqueles que mantêm identificação com um
cotidiano semelhante. De certa forma isto explica que, embora a maioria
das pessoas da "casa" da mãe Dalzira sejam negras, este aspecto
seja irrelevante no tratamento da busca de soluções para
os problemas de cada um. Pois, neste momento, nos parece que está
claro que entre a decepção e a vitória, entre a tristeza
e a alegria, entre a realidade e a virtualidade, existem outras atribuições
tanto inimagináveis quanto incompreensíveis, que serão
submetidas, inexoravelmente, a partir de explicações com
conteúdo religioso.
A religião
afro-brasileira se constitui numa ferramenta para a emancipação
de negros e não-negros dos segmentos mais excluídos da população
porque os orixás, como o elemento principal do candomblé,
trazem um passado de nobreza e glória inerente e através
da música e da dança evidenciam sua importância pessoal,
estimável, interpretada, principalmente por aqueles que encontram
neles a razão das suas expectativas. Este é o argumento que
ao longo do caminho trilhado, irá construir a solidez de uma identidade
baseada nas paixões humanas, mas com a certeza de se estar correto.
Portanto, no que se refere a identidade étnica, percebemos que as
aproximações da dança e da religião pelos negros
está determinada pelo passado de luta e resistência como valores
culturais, incluindo neste processo todos aqueles que sentem-se englobados
pela história ou envolvidos pelo sentimento mergulhados no campo
da representação. Assim, torna-se relevante colocarmos
duas situações encontradas e vivenciadas no interior dos
grupos acima mencionados:
1º)
o ACNAP e o GRUCON apresentam manifestações, discurso e prática
de traços culturais de afro-descendentes, e contam com um número
crescente de não-negros como integrantes, o que pode significar
uma percepção particular da cultura contemporânea,
urbana, globalizada, etc.
2º)
o movimento negro, nos moldes como está articulado atualmente em
Curitiba, se constitui num espaço político, que providencia
ações para alcançar objetivos comuns, no caso do ACNAP
visibilidade e projeção artística; no caso do GRUCON
emancipação e maior mobilidade política.
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