O DISCURSO DA  MODERNIDADE. A  FUNDAÇÃO DE  BELO HORIZONTE COMO MARCO ENUNCIATIVO

José Márcio Barros
Doutor em Comunicação e Cultura pela UFRJ, Mestre em Antropologia pela UNICAMP, ,
 

Pontifícia Universidade Católica de  Minas Gerais
Belo Hoizonte - Minas Gerais 


 
 
 A Cidade como Discurso
 

 O que é a cidade ? Um território definido jurídicamente? O lugar da produção e do poder? Um cenário centralizador de instituições? Com estas indagações, Marisol Alvarez aponta, em seu trabalho "Resignificaciones urbanas de fin de siglo"   para os limites de uma definição fechada do espaço urbano, tomado exclusivamente em sua materialidade arquitetônica e espacial a partir de sentidos singulares. A partir de contribuições de diversas áreas do conhecimento como a Semiótica, a Antropologia, a História, a cidade vem sendo pensada como fenômeno polissêmico, 
 

"como un esqueleto territorial que enmarca la circulación y el entrecruzamiento de capitales materiales y simbólicos a partir de dinâmicas que a veces exceden su própria materialidad" (Alvarez,1995:10)


Rocha e Seabra (1997) afirmam que as formulações modernas sobre a cidade enquanto fenômeno social surgem no Século XIX, como conseqüência dos desafios que o capitalismo e a industrialização apresentam ao transformarem radicalmente os até então "pacatos burgos destinados às trocas". A cidade emerge como temática central de uma significativa produção literária e transforma-se em problema para o qual deve-se buscar soluções. A modernidade fundada a partir do século XVIII não só transfigura os modelos de organização espacial das sociedades como  reinventa a cidade enquanto objeto: se por um lado suas transformações demandam novas explicações e ações, por outro lado os novos paradigmas fundam uma outra cidade, um outro conhecimento da e sobre a cidade. A modernidade é aqui pensada como uma "consciência moderna", resultante e estruturante de uma nova política, de uma nova estética, de uma nova ética. Mais que transformações das bases materiais das sociedades, é uma espécie de projeto utópico onde o trabalho, a ordem, o tempo e o espaço, transformados por novos saberes, novas tecnologias e uma nova ordem normativa, produziram o homem moderno. O século XIX configura-se, portanto, como este espaço-tempo ambíguo onde, como afirma Limena (1996:25): 
 

"Berman identifica a existência de um público moderno, que vive a experiência de um mundo em transformação, mas que se encontra, material e espiritualmente, ligado a outro, preso ainda a valores do passado, gerando a sensação de viver simultâneamente em dois mundos."


 As cidades modernas também revelarão tais ambigüidades e produzirão múltiplas e diferentes possibilidades de sua compreensão. Se, de um lado, "a modernização da cidade simultaneamente inspira e força a modernização da alma de seus cidadãos" como afirma Berman (1986:143), por outro vários são os olhares que dela se ocuparão e que sobre ela atuarão:
 

"Em outras palavras, dos olhares sobre a cidade, surge o urbano. Com os olhos de especialistas, uns vêem na cidade um organismo vivo, um corpo doente cuja profilaxia para a cura é a higiene e o sanitarismo; outros vêem na cidade um lugar de vícios, desordens e crimes cuja solução depende da disciplina e da manutenção da ordem social por meio da vigilância e da repressão policial; outros ainda, vêem na cidade um espaço desordenado e disfuncional restando à engenharia e à arquitetura o trabalho de reestruturação estética e urbanização política da cidade a fim de estabelecer a cidade modelo. Esses e outros agenciamentos do olhar sobre a cidade culminam na produção de um saber, fazendo da cidade antes um espaço de poder. A cidade, tomando de empréstimo um epíteto a Angel Rama (1985), é cidade das letras. Letras, no sentido de signos, ou símbolo de um saber; letras que são a expressão de um exercício do olhar e uma representação do poder." (Rocha & Seabra, 1997:8)


O que estamos tentando afirmar, com os autores trabalhados, é que o sentido da cidade moderna, das metrópoles surgidas a partir do século XIX, não pode ser buscado exclusivamente na expansão do capital, exigindo atenção para o processo de construção e enunciação da consciência e do homem moderno:
 

"A dimensão estética, os marcos culturais e a intencionalidade, presentes nas diversas formas de apreensão do significado da metrópole, permitem que se possa estabelecer uma conexão entre seus significados e a configuração espacial da cidade". (Limena, 1996:29) 


A cidade moderna possui um duplo e complexo significado: transforma-se em espaço onde as contradições e o caos se realizam, motivo pelo qual surge a necessidade de sua ordenação política e científica e, assim, transforma-se também em discurso da Modernidade. Aqui, talvez, possamos entender a gênese desta postura, hoje tão recorrente, de tomar a cidade como um texto "no qual os homens imprimem simbologias e significados diversos." (Silveira, 1996:79). E, mais do que isso: assim procedendo, podemos tomá-la como um sistema simbólico e comunicacional, e, como tal, dinâmico e relacional. A cidade  transforma-se num dispositivo cultural e comunicacional. (Courtoisie, 1995: 28). Estrutura-se a partir dos discursos produzidos pela e para a Modernidade e passa a ser marcada, em sua estruturação e análise, enquanto fenômeno e  processo comunicacional.
 

São diversas as leituras da cidade, porque diversos são seus discursos estruturantes. Porque diversa, discursiva e significante é a Modernidade. Assim, tanto é legítima a análise da cidade enquanto espacialidade significante, quanto é necessário tomá-la como discursos espacializante.
 

Neste artigo trabalharemos, de forma apenas propositiva, esta segunda dimensão. Se todo discurso é um ato enunciativo e comunicacional, se o objetivo de todo processo comunicacional é estabelecer trocas e conexões visando produzir configurações de sentidos, como entender a criação da cidade de Belo Horizonte, em fins do século passado, como resultado/resultante de uma estratégia discursiva modernizante por parte dos novos grupos políticos dominantes?
 

Se tudo na cidade é signo, o próprio ato fundacional da cidade constitui-se, em sua origem, uma construção discursiva que, legitima e orienta sua materialização espacial. É o discurso das forças republicanas que propuseram e construíram a cidade de Belo Horizonte que passamos a explorar daqui para frente. Nossa hipótese de trabalho é a de que Belo Horizonte consolida uma referencialidade republicana hegemônica.
 
 
 
 

 A Moderna Belo Horizonte e o discurso republicano
 

Como afirmamos atrás, a cidade moderna resulta da crise vivida nas grandes cidades tradicionais, como Paris, Berlim, Londres, com o advento do capitalismo. É resposta de uma nova ciência, o urbanismo, à desordem e ao caos da crise urbana do final do século passado. Em várias partes do planeta surgem projetos de novas cidades ou de reformas urbanísticas. Na Europa, nos Estados Unidos, na América, surgem as cidades progressistas "expressão de uma demiúrgica liberdade da razão, colocada a serviço da eficácia e da estética" (Choay,1992:21)
No Brasil, a Abolição da Escravatura e a Proclamação da República inauguraram uma nova fase de nossa história: o país bania os últimos significantes de seu passado colonial e imperial, mesmo que na prática os efeitos tenham sido menos evidentes, e passava a correr contra o tempo, no sentido de inscrever-se no novo século que se aproximava, como uma nação brasileira e moderna. Este projeto, entretanto, é marcado pela incompletude e ambigüidade: nem todo o país, recortado pelo descompasso e diferenças estruturais, ascenderia à Modernidade. As artes, a arquitetura, o urbanismo e a ciência assumem o lugar de operadores deste duplo movimento: a construção de uma identidade nacional e de uma consciência moderna. Em Minas Gerais o projeto político republicano encontra-se com a utopia modernizante, resultando na edificação de uma nova capital.
 
 

Segundo os historiadores, a colonização de Minas Gerais foi tardia em relação às regiões litorâneas, tendo se iniciado em fins do século XVII e início do século XVIII. Sua principal atividade econômica foi, durante quase cem anos, a mineração, o que, somado à sua localização central, determinou um perfil específico de colonos e um movimento contínuo de passagem. Cem anos após o inicio de sua colonização, a Capitania das Minas Gerais possuia a maior concentração populacional da Colônia.
 
 

Tais características e, especialmente, a presença do ouro, produziram, por um lado, o desenvolvimento de um imaginário fértil ligado à fartura, abundância perpétua, ao poder e à glória e, por outro, uma realidade de trabalho exaustivo, de miséria, crimes, povoação rápida e de concentração de mão de obra escrava. (Mello, 1996).  Tais representações permaneceram simbolicamente eficazes até fins do século XIX, apesar da economia da mineração ter se esgotado mais rapidamente do que o imaginado, já a partir de 1760 (Iglésias & Paula,1987). Minas Gerais assumiu um lugar central na configuração discursiva e imaginária da nação brasileira: além de seu posicionamento estratégico, Minas havia produzido o movimento prefigurador da República, da liberdade e da Nação brasileira: a Inconfidência Mineira, em 1789. Entretanto, a passagem do Império à República, no Brasil, foi marcada "pelo adesismo e confraternizações, logo seguidos de violenta luta pelo poder...". (Mello. 1996:27) Para que se tenha uma idéia, o Parlamentarismo do Império fez, entre 1822 (Independência) e 1889 (República),  59 presidentes e 63 vice-presidentes no estado. O discurso republicano transformara "o império e o século XIX, numa longa noite de cem anos" ( Mello, 1996:17) A Monarquia brasileira, arrastando sua estrutura escravagista, não preenchia o vazio da identidade nacional criada com a independência de Portugal:
 
 

"Como defender a criação de uma pátria nova, de uma nacionalidade americana, com o poder central nas mãos de um imperador originário da antiga metrópole, e sob um sistema monárquico pai da colonização e por isso sinônimo de opressão?, Perguntavam-se os republicanos." (Mello, 1996:21)
Liberdade, ordem, ciência e progresso foram os valores edificantes da República inaugurada a 15 de  novembro de 1889, através de um golpe militar que não enfrentou maiores resistências, posto que se instituiu no esgotamento do modelo imperial. Os primeiros anos, entretanto, foram tempos de afloramento de novos interesses e disputas políticas, embaladas pela euforia da economia cafeeira e pela autonomia que o modelo federativo criava. Tais valores edificantes do novo Estado e do novo regime se materializam, em Minas Gerais, na  retomada das idéias de mudança da capital. Neste contexto político e econômico, a construção de uma nova cidade, especialmente arquitetada para sediar o novo e emergente poder republicano, apresentava-se como iniciativa urgente:
 
 
"É nesta conjuntura de quase dissolução da ordem interna, da partilha do território original e do risco do fracasso do novo regime para os destinos do Estado, que a construção de uma cidade que pudesse fazer ligar origens e tradições, progresso e República, se tornaria a substância capaz de realizar a síntese sonhada pelo novo tipo de governo..."(Mello, 1996: 25)
Interesses regionais e pressões de regiões limítrofes ao estado já se faziam presentes desde o início da segunda metade do século XIX, propondo o desmembramento do Estado. Os primeiros anos da República foram caóticos em Minas Gerais. Surgem problemas com a mão-de-obra para o café, gerados pela Abolição e o crescimento da produção e pela forma como as elites conservadoras concebiam de forma preconceituosa a mão-de-obra livre, tomada como arruaceira e preguiçosa. São tomadas medidas para impedir o acesso à terra, além de medidas restritivas à escolarização, de forma a manter o trabalhador com escolaridade mínima e disponibilidade para o mercado de trabalho. As pressões separatistas, iniciadas desde o Império, visavam diminuir o poder e a maior representação política de província, através da anexação do sul de Minas a São Paulo ou, mesmo, a criação de uma província própria, as Minas do Sul, proposta pelos interesses cafeeiros. 
 

A resposta a estes desafios deveria se configurar também no plano das representações. Dentre as várias propostas emblemáticas, a mais importante: a construção de uma nova capital  como "síntese de uma capacidade política econômica e histórica de resposta de nossa elite estadual republicana" (Mello, 1996:28). A construção da nova capital não só  manteria o estado unido, mas contribuiria para a unidade da república no Brasil. 
 

A nova capital  fazia-se urgente enquanto gesto configurador de uma outra nação, de um novo modelo de organização da sociedade. A criação ou reforma de cidades sempre se configurou como iniciativa fundante, marco inaugural de novas configurações de poder. Belo Horizonte, não fugiria à regra, realizando uma operação simbólica de dupla face. Por um lado, operava-se a ruptura necessária com o passado colonial e imperial, tomado como causa de todo o atraso do país; por outro, concretizava um futuro regido pela perspectiva modernizante, fruto da conjugação do progresso com a ordem social. 
 

Essa ruptura, entretanto, é realizada através de uma articulação singular.  Enquanto Belo Horizonte inauguraria o futuro, Ouro Preto, a antiga capital do estado, se transformaria em espaço de consagração dos precursores da independência nacional e dos ideais republicanos; uma espécie de solo sagrado da pátria. Desta forma, o projeto republicano realizava, através  da construção de uma nova cidade, a inserção do estado e de seu povo na Modernidade, ao mesmo tempo em que configurava um novo mito de origem, mais adequado ao imaginário da época.
 

A fundação de Belo Horizonte é um ato de intenção significativa, que configura um novo modelo de organização espacial. Enquanto Ouro Preto se re-configurava como espaço mítico, Belo Horizonte se edificou cientificamente. Uma preservava o passado, a pré-história do republicanismo. A outra, Belo Horizonte, representava o futuro, resultado das transformações ocorridas no Brasil pós 1870, que criaram condições discursivas para o novo, o progresso, o avanço industrial e material.
 
 

"Mudar a capital era ganhar o futuro pelo passado. Mais rico politicamente era tornar Ouro Preto pátria do desejo republicano e investir nesta idéia como desejo fundador da nação brasileira. Tornar Ouro Preto santuário era criar o altar dos heróis republicanos de 1789, fundar para as elites, escol do povo, suas origens e ideais que demoraram cem anos para atingir o poder, a obra da República... Ouro Preto  foi tomada como berço dos precursores da Independência e da República. "(Mello,1996:36)
O futuro, entretanto, exigia pressa. Em 1891, o congresso constituinte abre a temporada de disputas pelo melhor posicionamento geo-político do maior e mais expressivo símbolo da nova ordem social. Era preciso encontrar espaço físico para a construção e alojamento da Modernidade e, ao mesmo tempo, produzir a unidade necessária entre as forças políticas conservadoras do centro e norte do estado e as lideranças emergentes ligadas ao café no sul e Zona da Mata. A missão é confiada a um engenheiro-politécnico, positivista, republicano, forasteiro, conhecido pelo rigor e competência. O arranjo entre os interesses políticos regionais se submeteria assim, aos proclames da moderna ciência. O trabalho técnico da Comissão de Estudos deveria qualificar com neutralidade as opções, considerando as variáveis de suas condições naturais: topografia, salubridade, condições de abastecimento de água etc. (Assis, 1995).
 

É através do conhecimento científico que a opção política se dará. A nova capital emerge  como totem da modernidade através da confluência entre a neutralidade dos saberes modernos da ciência urbanística e as necessidades políticas de unificação. Entretanto, Várzea do Marçal, situada na região de São João D'El Rei e considerada tecnicamente como mais adequada, é preterida pelos congressistas mineiros, que por uma diferença de 2 votos escolhem o Arraial de Belo Horizonte (nova denominação republicana do antigo Arraial do Curral D'el Rey, adotada a partir de 1890), situado na região central do estado e, portanto, eqüidistante das disputas regionais. (Salgueiro, 1996 e Iglésias & Paula, 1987) 
 

A dimensão conservadora e autoritária do projeto modernizador da República já se faz, contudo, presente. Por um lado, predominam formas de exclusão e de restrição à participação política, só possível através de partidos oficiais e estaduais. Fora destes limites, a vida política não existe. O poder é dividido partidariamente entre as oligarquias regionais. Por outro lado, à qualificação das "positividades" naturais do local escolhido, o Arraial do Curral D'el Rey, procede-se a uma verdadeira desqualificação discursiva de seus aspectos sócio-culturais. Para o empreendimento, que deveria harmonizar condições higiênicas e a  construção de uma grande cidade, seu povo e seus costumes são tratados como empecilhos a serem removidos. Alfredo Camarate, cronista dos novos tempos republicanos, assim se referia à paisagem encontrada:
 

 
"... o tipo geral deste povo é doentio. Magros, amarelos, pouco desempenados na maioria; havendo uma grande proporção de defeituosos, aleijados e raquíticos. Ora, esta fisionomia quase geral da população de Belo Horizonte desarmoniza completamente com a amenidade do clima, com o ar seco e batido quase constantemente pela brisa, com a natureza do solo que é magnífica..." (Camarate, apud Assis,1995:9)
Segundo Assis (1995:8) "as características da população local eram vistas como resultado de uma cultura pobre", que tal e qual na cidade do Rio de Janeiro, se alteraria com a convivência com os imigrantes e os hábitos europeus. Tal perspectiva desqualificadora, a despeito das objeções dos moradores do antigo Arraial, justificou a elaboração de um plano original que pretendia eliminar
 
 
 "a  idade média do lugar: o metafísico Curral D' El Rey, com sua igreja pastoreando o casario tortuoso, para retomar sua infância, descontaminada do cultural, em seu primitivo estado fetichista - instintivo, voluntário, orgânico-, o natural, e, a partir dele, articular racionalmente a sua idade moderna, o estado positivo, científico, definitivo (Magalhães & Andrade, 1989:142). 
Já em 1894, a Comissão Construtora determina a desapropriação de 430 casas a fim de não obstaculizar o desenvolvimento das obras. O empreendimento da Nova Capital é, portanto, a materialização de uma utopia  da nova era, inaugurada ao longo do século XIX na Europa, e importada pela República para o Brasil
 

O urbanismo moderno, ao procurar resolver os problemas das cidades industrializadas, serviria, em nosso caso, como parâmetro e instrumento sintonizador da capital com as novidades internacionais. As reformas urbanas em Washington em fins do século XVIII e em Paris e Barcelona na segunda metade do século XIX, a arquitetura desenvolvida na Escola de Belas Artes de Paris, bem como, a experiência argentina de modernização concretizada na construção de La Plata, instruirão o planejamento original da cidade.
 
 
 

"Concretamente, o urbanismo reduzia os problemas da cidade ao âmbito da aplicação de técnicas e saberes supostamente neutros e divorciados de determinações políticas, ao mesmo tempo em que procurava assumir para si o papel de auxiliar na construção de uma nova ordem pública. Pode-se dizer que a Comissão Construtora teve uma atuação fiel aos mandamentos urbanísticos consagrados na Europa. Mandamentos que, segundo, Benevolo, pretendiam imprimir um duplo caráter, científico e moralista, à gestão das cidades." (Julião, 1996:55).
Definida a localização, em dezembro de 1893, institui-se o prazo máximo de 4 anos para a construção da cidade. Tal e qual o processo de seleção do local, também a construção da nova cidade deveria se dar através de estudos capazes de extirpar o modo tradicional e colonial de ocupação e uso do solo, substituindo-o pela concepção científica de cidade. Em 1895 a planta geral da capital é apresentada como resultado da utopia moderna, de substituição da desordem urbana gerada pela imprevisibilidade e conflitos dos atores urbanos das cidades industrializadas, pela gestão técnica e racional do espaço :
 
 
"As ruas, criteriosamente mensuradas, formando quarteirões regulares, desenhavam um traçado semelhante a um tabuleiro de xadrez. A malha urbana retilínea era pontuada por algumas praças, das quais se irradiavam avenidas longas e largas, que cruzavam, em diagonal, os pontos extremos da cidade. Uma área de 51.220.804 m2 foi dividida em 27 triângulos, que passaram a ser designados por secções. Com base nesse mapa, foram demarcadas as zonas urbana, suburbana e rural. O zoneamento funcionava como instrumento fundamental para o controle da cidade. Fixava previamente os seus limites; classificava e hierarquizava seus territórios que deixavam de ser uma dimensão fluida e indefinida para se transformarem em áreas delimitadas e imediatamente identificáveis. ... a uniformidade  da malha urbana proclamava a transparência e orientação plena do espaço, assegurando uma legibilidade imediata da cidade."(Julião, 1996:57)
O planejamento retilíneo, a monumentalidade dos espaços, os equipamentos públicos e os investimentos limitam-se, contudo, à área urbana da nova capital.  As áreas suburbana e rural  desenvolver-se-iam num geometrismo menos evidente e de vias tortuosas e irregulares adaptadas à topografia acidentada, coerentes com a perspectiva excludente do projeto conservador de modernização. Belo Horizonte nasce dividida em duas: a cidade do poder e de seus funcionários e a cidade de seus trabalhadores, que se desenvolverá espontaneamente


 
 

Planta Original de Belo Horizonte - Imagem do Arquivo do autor

Planta Original de Belo Horizonte









Duas características estruturais marcam o projeto da nova capital:
 
 

1 - a perspectiva da segregação espacial que distinguia os ricos (funcionários do Estado, comerciantes etc) dos pobres (trabalhadores) através da diferenciação de espaços planejados e não-planejados e tipologias diferenciadas de casas conforme o status de seu ocupante;

2 - a perspectiva da atomização urbana, fruto da classificação dos espaços de acordo com suas funções (moradia, trabalho, comércio, lazer, etc).(Julião, 1996:60) 

Em seu conjunto, o plano eliminou o que caracterizava a cidade tradicional, ou seja, a mistura e a convergência de pessoas e atividades. Na cidade ideal, cada coisa deveria ocupar um lugar exclusivo e a espontaneidade e pluralidade de intervenções, deveriam ser excluídas através do controle e expulsão para a periferia não planejada. É possível, seguindo a análise de Magalhães & Andrade (1989) destacar no diagrama de forças do plano original, três elementos condicionantes da espacialização da nova capital:
 
 
1 - a grande ênfase dada ao sistema viário e ao controle de circulação;

2 - a lógica da coexistência de diferentes funcionalidades distribuídas conforme seu maior ou menor grau de insalubridade entre a área urbana e suburbana da cidade;

3 - o tratamento estilístico diferenciado de forma a  distinguir hierarquicamente os diferentes cidadãos.

À característica de segregação social pela via da organização espacial, soma-se o caráter de artificialidade com que a cidade  convive durante décadas. Monteiro Lobato, em visita à cidade diria :
 
 
"Existe uma escassez de gente pelas ruas larguíssimas, a cidade semi-construída, quase que apenas desenhada a tijolo, no chão, um prédio aqui outro lá, tudo semi-feito - e a tudo envolver um pó finíssimo e finíssimamente irritante. ... Não havia povo nas ruas. Os passantes, positivamente funcionários que subiam e desciam lentamente, a fingir de transeuntes. Transeuntes públicos. Daí o sonno que dava aquilo. Uma semana passada  lá deixava a impressão de meses." (apud Julião, 1996:62/63)
Belo Horizonte recebeu dos anti-mudancistas apelidos reveladores da batalha travada também no campo imaginário e discursivo : foi chamada de Cretinópolis, Poeirópolis e Papudópolis. Por outro lado, para a cidade da república foram aventados os nomes de Santa Cruz, Terra Nova e Novo Horizonte, além de ter sido inaugurada sob o nome de Cidade de Minas. Riscada a cidade, inaugurada ainda em obras,  até os nomes de seus espaços planejados deveriam fazer ecoar os significados do discurso republicano: as avenidas grandes e largas receberam os nomes de grandes rios (Amazonas,  Paraná,  Tocantins,  Paraibuna); as ruas dentro do perímetro urbano recebem os nomes dos estados dispostos seqüencialmente em paralemismo diagonal; outras homenagearam os indios dos tempos heróicos dos jesuítas: Tupinambás, Tamoios, Guajajaras, Guaicurus etc; os bandeirantes, os primeiros governadores ( Dias Adorno, Tomé de Souza), os poetas e Inconfidentes (Tomás Gonzaga, Cláudio Manuel, Gonçalves Dias, Rua dos Inconfidentes); e, por fim, nenhum nome de santo, pois não era do feitio positivista e republicano. (Mello, 1996:40)
 
 

Inauguração da cidade  a 12 de dezembro de 1897. Imagem do arquivo  do autor

Inauguração da cidade  a 12 de dezembro de 1897










Algumas Conclusões
 

Como afirmamos no início deste trabalho, o sentido da cidade moderna surgida a partir do século XIX, não pode ser buscado exclusivamente na expansão do capital, obrigando-nos a concentrar no processo de construção e enunciação da consciência e do homem moderno. São enunciações discursivas materializadas no traçado utópico, autoritário, científico e higienista de urbanistas e, no caso analisado, da elite republicana nacional. Em Belo Horizonte, o primeiro prédio construído foi o Palácio do Governo, obviamente chamado de Palácio da Liberdade, e sua praça/jardim, também da Liberdade: 
 
 

"Na nova capital, a alegoria da liberdade fará parte da batalha de símbolos, mitos e rituais, integrando as batalhas ideológica e política, "em torno da imagem do novo regime, cuja finalidade era atingir o imaginário popular para recriá-lo dentro dos valores republicanos." (Carvalho,1990 apudGrossi, 1994: 212)
Como ensina Nunes (1995), os processos enunciativos agem e fazem agir dentro de um determinado espaço discursivo, operante num determinado contexto. Neste sentido, o conceito de "mercado de referencialidade" permite um derradeiro enquadramento da análise aqui sustentada. Por mercado de referencialidade entende-se um sistema de regras sociais regendo o intercâmbio de mercadorias constituídas pelas representações, predicações e designações entre segmentos sociais de uma dada sociedade num dado momento histórico. Tal perspectiva aponta para a existência do fenômeno da monopolização deste "mercado de referencialidade", definido como estratégia de configuração destas designações e predicações como referências únicas e válidas para toda a formação social.
 

Neste sentido, podemos afirmar, sustentados por Nunes, que a construção da nova capital de Minas Gerais, configurou-se como resultado/resultante de um dispositivo enunciativo republicano,  estratégia espaço-temporal e simbólica de construção de uma nova legitimidade. A República só concretizaria a nação brasileira se, de forma eficaz, produzisse um outro discurso, suficientemente forte para banir definitivamente referencialidades antigas. Tal projeto desenvolveu-se através de uma eficiência discursiva capaz de convencer a todos de que o Brasil estava começando. A espetacularidade da cidade cientificamente construída era a maior e mais eficaz operação simbólica que se poderia realizar. Se o conservadorismo político da república criava as limitações necessárias para uma transformação sem inversões políticas, é no discurso republicano e em seus gestos configuradores de novas espacialidades, que a hegemonia discursiva poderia ser alcançada.
 

Por fim, é interessante notar a atualidade de tais construções e estratégias discursivas. O Centenário de Belo Horizonte, comemorado em 1997, transformou-se numa espécie de atualização de referencialidades originais. 
O slogan do 1° Centenário cunhado pelos especialistas da comunicação institucional da Prefeitura Municipal foi  "BH a capital do século",  e seu símbolo iconográfico um coração estilizado a partir da letra b e  tendo em seu interior os dizeres BH mora aqui.
 

Também a moeda cunhada pelo Banco Central do Brasil em alusão ao centenário e, especialmente, a exposição dos motivos para a sua criação, constituem-se em exemplos interessantes da atualização do discurso fundador da cidade republica

 
 

"No anverso, a convivência harmoniosa entre passado e presente, tradição e modernidade, tão peculiar à personalidade mineira, está retratada pelo detalhe da fachada da Igreja de São Francisco de Assis, considerada obra-prima do conjunto urbanístico da Pampulha, pelo detalhe da iluminação do Viaduto de Santa Tereza, marco arquitetônico no fim dos anos 20 e pela alegoria da Serra do Curral, símbolo da cidade que expressa a preocupação da população com questões relativas à preservação do meio ambiente. No reverso, está presente conjunto de linhas sinuosas alusivas ao belo horizonte proporcionado pelas montanhas integradas às curvas da Igreja de São Francisco, arquitetura revolucionária de Oscar Niemeyer, reveladora das inusitadas possibilidades plásticas do concreto armado, em contraposição ao rígido vocabulário funcionalista da época."
 
 

Mais que uma operação datada, Belo Horizonte parece viver de reinvenções semânticas e discursivas. Para além de suas objetividades urbanísticas, uma auto-referencialidade de cunho republicano e positivista ainda povoa seu imaginário institucional. 


Notas

Publicado em Entelequia - Cuaderno de Comunicación, n° 5, deciembro de 1995, Universidad Católica del Uruguay
"...a paisagem urbana ganha corpo através da pena dos literatos. Baudelaire, Poe, Zola, Dickens e outros, transpõem para o texto o espetáculo das ruas, da vida pública, do mundo das cidades. A cidade torna-se a personagem principal de histórias de crimes, mortes, violência, prostituição; cenário de doenças, solidão, revoltas; paisagem de sedução e aflição; metáfora do inferno, do caos, da dor; enfim, mito literário, símbolo da modernidade." Rocha & Seabra (1997 : 2)
Segundo Grossi, "até os últimos decênios do século XIX, as cidades são raras na paisagem brasileira. Com a abolição da escravatura e a proclamação da República, novos construtos agenciam as necessidades. Deseja-se promover uma nova ordem : para engendrá-la e assegura-la, são imprescindíveis as cidades."( Grossi, 1994:210)
"... Minas Gerais iria criar uma capital, uma cidade que encerraria a direção e a cabeça do governo ( capital, do latin capitale, relativo a cabeça), em um instante singular de sua história." (Mello,1996:33) 
É interessante notar que anualmente, no dia 21 de abril, a capital do estado é transferida simbolicamente para Ouro Preto, durante as homenagens  cívicas ao movimento da Inconfidência Mineira.
"A Nova Capital é edificada sobre o terreno e as ruínas do Arraial de Belo Horizonte, com total desconsideração do que antes alí tinha existido." Iglésias & Paula, 1987:24
"Só para a (área) urbana se estabeleceram normas, o resto foi improvisado." Iglésias & Paula, 1987:13
http://www.bcb.gov.br/htms/Mecir/mcomemor/MC100bh.asp?idpai=MOEDAREL
 
 

Bibliografia

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CHOAY, F.  O urbanismo : utopias e realidades, SP, Perspectiva, 1992
COURTOISIE, Rafael  "La cidad como proyecto y proceso de comunicación", ", Entelequia - Cuaderno de Comunicación, N° 5, Dec.1995, Universidad Católica del Uruguay
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