CIDADE E INTERNET: O ESTREITAMENTO DAS DIMENSÕES ON E OFF-LINE

Jonatas Dornelles
 Doutorando em Antropologia Social
 

Universidade Federal do Rio Grande do Sul
Porto Alegre - Brasil


 
Introdução
Nos últimos anos o conjunto computador/Internet tomou e vem tomando conta de inúmeras dimensões da vivência humana. No início essas tecnologias estavam restritas a projetos científicos e/ou militares. Nessa época havia uma distância abissal entre a massa da população e a emergente "mídia digital". Algo não muito estranho se pensarmos em outros inventos e como eles foram, gradativamente, passando das mãos de uma minoria para uma maioria. A popularização que ocorreu com o automóvel e com a televisão, por exemplo, também vai atingindo o computador/Internet. 
 

Dois são os sintomas que, sob meu ponto de vista, demonstram atualmente a ampliação maciça dessa tecnologia. Primeiramente temos os dados objetivos que apontam para o aumento do número de residências que possuem computador/Internet. Da mesma forma, alta proporção de pessoas, mesmo não possuindo o equipamento, tem acesso a ele em locais de trabalho, instituições de ensino, etc.. Em segundo lugar, parece que atualmente há uma maior naturalização dessa tecnologia. Pensando a respeito de quem não possui nem tem acesso ao computador/Internet, está presente, mesmo que em pequena escala, a difusão de noções sobre esta  tecnologia, mesmo não havendo a sua posse ou acesso a ela.

Imagem: www.corbsimages.comAtualmente o tema computador/Internet atingiu o senso comum da população. É cada vez mais comum e compreensível que seja possível bater papo, conhecer pessoas, fazer amigos e até mesmo namorar via computador/Internet. Há uns três anos atrás esses temas levantavam dúvidas, desconfiança e muito mais discussão nos veículos de comunicação, principalmente na televisão. Hoje a situação parece ter se acomodado em decorrência da familiarização com o fenômeno. O panorama é de menor questionamentos sobre a possibilidade de existir relacionamento social via Internet e de maior de tomada de opinião sobre a questão. As pessoas vão sendo envolvidas por essa nova tecnologia, que vai transformando gradativamente suas rotinas. Tanto no trabalho, quanto em casa e na escola, a presença do computador/Internet é cada vez mais eminente.
 
 

O conjunto computador/Internet sendo um poderoso meio de comunicação, informação, trabalho e entretenimento, vem marcando o cenário desse início de século. Diante desse panorama, muitas disciplinas trataram de refletir sobre as transformações que vêm acontecendo. Basicamente, temos uma reorganização das relações sociais. Em vários casos as "distâncias" (tanto verticais - de classe, quanto horizontais - geográficas) sofrem alterações. Até certo ponto, a comunicação entre indivíduos com posições sociais diferenciadas é facilitada pela Rede. Da mesma forma que entre indivíduos distantes espacialmente (entre cidades ou países distantes). Também pode ocorrer de uma cultura se apropriar dessa tecnologia e intensificar as suas relações locais. 
 
 

De algum modo, possuir o conjunto computador/Internet nesse momento de expansão também pode significar a apropriação de um bem simbólico que garante um status específico em determinada cultura. Tarefas que antes envolviam grande tempo, com o auxílio dessa tecnologia passaram a ser executadas em minutos ou segundos. Como resultado, os indivíduos passaram a ficar sobrecarregados de tarefas, mas também potencializaram o alcance de sua produção. Também podemos pensar em como a rede de comunicação que se forma via Internet envolve a diversidade cultural. Indivíduos que antes não entrariam em contato uns com os outros, já que não compartilham os mesmos trajetos no meio urbano, via Internet acabam tendo a possibilidade de cultivarem momentos de sociabilidade. 
 
 

Essas são apenas algumas questões que podem gerar reflexões. Algumas delas, assim como outras que surgirão, podem ser pensadas com o auxílio da Antropologia. A essa disciplina cabe investigar objetos de estudo que estão relacionados com a vida em sociedade. A partir daí surge o interesse na diversidade cultural mediante a descoberta do Outro, em uma contínua busca por alteridade. Também é de seu interesse investigar o simbolismo criado em meio cultural, assim como é diversamente representado o mundo (ao redor) em cada cultura. Seguindo essa linha a Antropologia desenvolveu um método de pesquisa próprio. Nada mais natural que tentar enxergar via "olhar antropológico" o momento atual, em que o conjunto computador/Internet vai penetrando em diferentes realidades culturais. 
 
 

De um lado temos um determinado momento do desenvolvimento do capitalismo, em que o movimento de globalização (principalmente econômico e tecnológico) toma conta do mundo. De outro, há a inserção em culturas locais de uma tecnologia difundida mundialmente. O resultado desse encontro pode ser diverso. Muitas podem ser as estratégias locais criadas ao redor desse panorama. De qualquer forma, temos diante de nós, pesquisadores, um cenário rico em representações múltiplas sobre uma determinada realidade: aquela da inserção do computador/Internet em várias setores da sociedade. À Antropologia é colocado o desafio de pensar sobre essa realidade a partir de seu método de pesquisa. Situação que gera um campo de investigação que podemos, no momento, denominar de Antropologia da Internet.
 
 

Adiante tentarei conduzir o leitor por uma explanação sobre alguns elementos de reflexão antropológica que estão relacionados com o computador/Internet. A intenção é ver o caso da Internet sob o "olhar antropológico". Utilizarei o exemplo da cidade de Porto Alegre e as salas de bate-papo virtual (chat) relacionadas a ela. Nesse caso, o recorte foi dado a partir do chat do Provedor Terra sob o título "Porto Alegre". Os dados aqui trazidos são baseados em uma etnografia já realizada sobre o tema . Em vista desse recorte irei iniciar do ponto em que a Internet se insere no contexto da cidade. Esse foi um processo específico. Em cada lugar há a conjunção de condições amplas (nacionais ou mundiais) e fatores específicos e determinados pela cultura local. Em Porto Alegre o conjunto computador/Internet começou a ter uma difusão acelerada a partir da metade da década de noventa.
 
 
 
 

Breve evolução digital

Em solo porto-alegrense a tecnologia informática floresceu sobre as bases deixadas pela televisão, que começou a ser difundida pelo mundo a partir da metade do século XX. Esse novo invento mesclava as características de dois outros já difundidos: o cinema e o rádio. Do primeiro vinha a questão audiovisual. Do segundo, a transmissão a partir de ondas eletromagnéticas. Como resultado, a humanidade conheceu o mais poderoso meio de comunicação de massa  surgido até então. A relação nesse tipo de comunicação se estabelecia entre "um" e "muitos". Na televisão a situação envolve uma emissora enviando imagens e som através de um canal a uma massa de espectadores.
 
 

Com a televisão surgiu mais um veículo de comunicação para compor a mídia eletrônica, que até então era formada pelo cinema e pelo rádio. "Eletrônica" porque utilizava o sistema tecnológico dessa categoria para a sua difusão. Até então o que existia era a mídia impressa, composta pelos veículos de comunicação que utilizavam a impressão: livros, jornais e revistas. A mídia eletrônica não exterminou a impressa, vindo as duas a dividirem espaço.
 
 

Em meados da década de setenta os jogos eletrônicos em casas especializadas (fliperamas) eram a sensação entre os jovens porto-alegrenses. Na década de oitenta começou a se popularizar uma nova forma de tecnologia: os vídeo games. Eles eram aparelhos que, conectados à televisão, geravam imagens de jogos. O jogador poderia, via "controle" (um peça de uns 15 cm de lado, com uma alavanca e um botão) operar as imagens projetadas na televisão e jogar o jogo. Os aparelhos de televisão também estavam se popularizando. Era cada vez mais difícil existir alguma residência na cidade que não possuísse um aparelho de TV. Naquela época ainda existiam os aparelhos coloridos e os preto-e-branco. Ter uma TV com controle remoto... era luxo.
 
 

Se na década de oitenta a sensação entre os jovens era o vídeogame, nos anos noventa floresceu a informática. Os vídeogames  foram sendo cada vez mais aperfeiçoados; mas agora existia algo diferente que proliferava no mundo e chamava a atenção em Porto Alegre: o computador pessoal. Desde a década anterior já se sabia da sua existência. Naquela época os modelos eram os "XP" (Xispê). A partir de meados da década de noventa o equipamento começou a se difundir entre a população. Primeiramente ele foi absorvido pela classe alta. Logo em seguida pela classe média. Junto com o deslumbre do aparelho viria outra sensação: a Internet.
 
 

A Internet surgiu nos planos norte-americanos de combate à União Soviética. A idéia da Internet, surgida na década de setenta, era possibilitar uma comunicação no formato de rede que não tivesse nenhum centro. Dessa maneira seria quase impossível ao inimigo combater esse novo meio de comunicação. Cada "nó" da rede (Internet) era autônomo na produção de mensagem e divulgação da mesma para os outros "nós". Ao contrário da televisão, a Internet possibilita a comunicação entre "muitos" e "muitos". Isso está  relacionado com o potencial "produtor" que a nova mídia possibilita. Multiplicam-se os canais (na Rede/Internet) que divulgam informações e tratam de "serem ouvidos". Agora muitos são os produtores de informação e eles estão de todos os lados; não somente do lado de uma classe econômica ou politicamente dominante (onde poderíamos situar as emissoras de televisão).
 
 

O computador/Internet faz parte de um conjunto de meios de comunicação embasados pela tecnologia digital - mídia digital. Com esse novo suporte (diferente do impresso e do eletrônico) é possível transmitir a informação sem distinção (imagem, vídeo, voz e dados) na forma de bits e bytes. Nas últimas duas décadas a expansão da Rede superou a de qualquer outro invento do ser humano (comparando a quantidade de indivíduos que a utilizam e quanto tempo levou para atingir esse patamar). Atualmente o número de sites publicados na Internet chega a cifra dos milhões.
 
 

O meio de comunicação propiciado pela Internet possibilita a comunicação em escala mundial. A partir da Rede são colocados à disposição canais de comunicação entre diferentes partes do globo terrestre. A partir dela os indivíduos podem compartilhar informações (na forma de imagem, voz ou dados) em fração de segundos, mesmo situados em continentes diferentes. Esse panorama faz pensar que essa tecnologia corrobora a integração mundial, que é pregada pelo modelo de globalização iniciado no século XX e resultante dos avanços do capitalismo.
 
 

O resultado é visível na potencial heterogeneidade de informações disponibilizadas, tanto quanto na diversidade de usuários. Isso significa que diferentes manifestações culturais são divulgadas via Internet para o resto do mundo. Seguindo a forma da Internet (comunicação entre "muitos" e "muitos"), vários são os produtores e consumidores de informação. Fica claro um panorama onde prevalece a heterogeneidade e a diversidade de estilos de vida e manifestações culturais. Porém, o leitor deve ser alertado de que este cenário pode assim ser conceitualizado quando consideramos o conjunto da Rede, a Internet toda em sua dimensão mundial.
 
 

Em solo brasileiro a Internet foi tomando forma na metade da década de noventa. Em 1995 o Ministério das Comunicações e o Ministério da Ciência e Tecnologia começaram a incentivar a criação de provedores privados de acesso à Internet. Até então o acesso era gerenciado por órgãos de pesquisa (como o CNPq) e governamentais. Em 1996 a Prefeitura de Porto Alegre inaugurou o seu provedor de acesso a Internet: a Portoweb. Logo em seguida surgiram diversos provedores privados sediados na cidade: Conex, ZAZ (que mais tarde se transformou em Terra), Matrix...
 
 

Até o final da década de noventa os porto-alegrenses viam na cidade uma difusão cada vez maior do aparelho computador e do acesso à Internet. Rapidamente várias residências, escritórios e estabelecimentos comerciais possuíam um computador e conexão à Internet. Aos jovens estudantes, ou aos que ingressaram no mercado de trabalho nessa época, talvez não fosse tão impactante a nova tecnologia. Porém, a possibilidade de enviar um documento via e-mail, a troca de informações via Internet e o acesso à sites de bibliotecas, universidades e empresas, entre tantas possibilidades, transformava a vida em Porto Alegre. A cada dia surgiam novas lojas especializadas em equipamentos de informática. Surgiram até feiras dedicadas ao segmento. Nelas era possível comprar equipamentos e peças mais baratas que o normal no mercado. Logo também foi possível perceber uma mudança na linguagem dos porto-alegrenses. Eles começaram a tratar de assuntos novos: "te mando um e-mail", "acessa meu site", "já foi nesse chat?", "qual o teu provedor?"...
 
 

Rapidamente, também, a conexão à Internet deixou de ser "discada"  para ser "via cabo". No final da década de noventa o acesso à Internet era feito, predominantemente, via linha telefônica. O "cabo" (ou cable) era uma novidade lá por 1998. Hoje em dia ele também proliferou e divide com a "discada" as formas possíveis de acesso. No início os provedores da capital eram todos pagos. O serviço tinha uma tarifa mensal. O usuário de Internet tinha um número limite de horas de acesso. Usando mais se pagava mais. Porém, em 1999, surgiu o "paraíso": o acesso gratuito. O primeiro provedor porto-alegrense de acesso gratuito à Internet foi o "Católico". Ele era gerenciado pela Arquidiocese da Igreja Católica em Porto Alegre e tinha a finalidade de oferecer o serviço para o usuário comum e para as instituições filantrópicas. Logo desapareceu. Na mesma época surgiu no Brasil o "IG" (Internet Gratuita). Esse provedor contemplava várias capitais brasileiras, entre elas Porto Alegre. E existe até hoje. Alguns outros provedores gratuitos surgiram. Alguns logo desapareciam. Outros sobrevivem até hoje.
 
 

Com aparelhos de computador a preços mais baratos (ou pelo menos financiados) e a difusão do acesso à Internet, logo a idéia da informática tomou conta dos porto-alegrenses. A cada dia que passava uma nova residência ficava "conectada" à rede. A nova tecnologia era difundida mais rapidamente pelos jovens e cada vez mais eles estavam "navegando" por sites, trocando e-mails e se comunicando em chats. O encontro virtual em salas de bate-papo virtual (chat) cada vez mais ia seduzindo os jovens da cidade. 


 
 
Primeiros efeitos
E o que acontece quando uma tecnologia difundida em âmbito mundial aporta em Porto Alegre? 

Imagem: www.corbsimages.comDurante o século XX várias tecnologias chegaram nessa cidade e mudaram seu ritmo. Cada uma dessas tecnologias trouxeram à Porto Alegre uma nova representação de tempo e espaço. Assim como acontecia em âmbito mundial, pelo menos no ocidente, o tempo começou a se tornar uma dimensão cada vez mais descontínua (Featherstone, 1995: 21). 
 
 

Em termos de espaço cabe a observação de Anthony Giddens a respeito do "alongamento" da relação entre formas sociais e eventos locais, ao qual o autor se refere como sendo característico de um movimento de globalização. Para ele esse fenômeno pode ser definido como sendo "a intensificação das relações sociais em escala mundial, que ligam localidades distantes de tal maneira que acontecimentos locais são modelados por eventos ocorrendo a muitas milhas de distância e vice-versa" (Giddens, 1991: 70). O que nos propõe pensar da mesma maneira a respeito da inserção do conjunto computador/Internet em solo porto-alegrense.
 
 

Pesquisando sobre essa união (Porto Alegre + computador/Internet) cheguei a um fenômeno que envolvia interação social e mídia digital. Uma nova tribo, seguido o sentido proposto por Michel Maffesoli (1987), começou a ocupar a cidade no início do século XXI: a turma de chat. São os jovens porto-alegrenses que cultivam a sociabilidade virtual via Internet e organizam suas relações a partir daí. E é justamente aí que o conjunto computador/Internet deixa de ser um espaço onde prevalecem, majoritariamente, heterogeneidade e diversidade, para dar lugar a nichos de sobrevivência de minorias metropolitanas, as quais prezam pela homogeneidade de classe (ou mesmo etária) e estilos de vida. 
 
 

O conjunto computador/Internet mistura características do telefone, da televisão e do vídeo game e nos lembra dos momento em que a cidade os recebeu. Cada uma dessas tecnologias teve um momento de inserção na cidade de Porto Alegre. Aliado a cada um deles, a sociedade revelava uma forma de utilização das tecnologias e envolvimento com elas. Em cada um desses momentos uma nova cena tomou a cidade. Atualmente o cenário é de difusão do computador/Internet, das tribos de chat, dos indivíduos conectados e interagindo em forma de rede e revelando a peculiaridade desse tipo de envolvimento. 
 
 

Tornou-se uma experiência comum para quem utiliza computador/Internet o acesso a uma sala de bate-papo virtual (chat). A primeira experiência com a comunicação via chat de conversação escrita gera caminhos a serem seguidos. O indivíduo, ou não gosta e acaba por repudiar, ou se coloca de maneira neutra, ou então segue a utilizar o sistema. Entre esses três níveis existem gradações. Por exemplo: entre os que utilizam o sistema existem os que usam eventualmente e os que utilizam regularmente. Entre os que utilizam regularmente existem os que criam laços de amizade mais duradouros e se tornam parte de uma rede social mediada pelo contato do computador, e ainda, os que não se inserem em redes. Estes acabam por estabelecer contatos mais efêmeros e fortuitos.
 
 

Pensando a partir de dicotomias, podemos pensar a associação entre computador/Internet e Porto Alegre como criando dois mundos. De um lado,  o mundo on-line, que é aquele que medeia a interação entre indivíduos virtualmente a partir da mídia digital. De outro lado temos o off-line, que é aquele mundo que envolve a interação entre indivíduos sem o equipamento computador/Internet. Nesse caso, é quando os indivíduos interagem face a face, diferentemente do outro modo, que é a partir da interface do monitor/computador que coloca os indivíduos em interação via Internet.
 
 

Lembro o leitor da proposta inicial: refletir sobre o momento em que a tecnologia digital do computador/Internet se associa com a cidade de Porto Alegre criando um novo espaço de trocas sociais. Dessa forma, serão consideradas paralelamente as duas formas de interação (on e off-line). Contemporaneamente algumas pesquisa dão conta do espaço de interação que se cria com a forma de comunicação on-line. Nesse caso, tratam basicamente de uma desterritorialização em potencial que está presente na Internet. É quando não importa se um indivíduo está a quilômetros de distância de outro. Importa é que estão cultivando uma interação, independente da proximidade geográfica e dependentes do espaço virtual de trocas que se forma.
 
 

Esse tipo de espaço também está presente na interação entre indivíduos "próximos", moradores da mesma cidade, por exemplo. No entanto, o diferencial está na associação estreita existente entre as dimensões on e off-line. Isso significa que, nesse caso, é importante o fato de dois indivíduos estarem em interação e próximos geograficamente. Ao invés de uma desterritorialização, nesse caso há  uma territorialização, pelo menos quanto ao que se refere à propensão ao encontro social. É quando o fato de ser ou não ser de Porto Alegre influencia a interação virtual efetivada em ambiente de chat. Observando mais especificamente fica clara, inclusive, a propensão à sociabilidade com indivíduos ainda mais próximos, aqueles que moram em uma determinada zona da cidade.
 
 

No caso pesquisado, foi esse o aspecto que ficou mais claro. Embora a vivência essencialmente on-line tenha vida autônoma, a associação, e daí o termo "estreitamento", da vivência on e off-line foram os aspectos mais claros no tipo de sociabilidade que atualmente se opera via computador/Internet na cidade de Porto Alegre a partir do chat do Provedor Terra Porto Alegre. O que coloca os pesquisadores desse tema diante de um novo contexto: aquele em que se misturam as vivências on-line em chat e off-line no contexto urbano da cidade e nos lembra do título desse artigo.


 
 
O aspecto visual
Para pensarmos no conjunto computador/Internet atual precisamos explorar em que bases ele se desenvolve. O que nos leva à interface gráfica. Por interface devemos entender o conjunto de elementos (tanto hardware quanto software) que fazem a mediação do usuário com a informática. A interface utiliza o suporte da mídia digital. Porém, se baseia na idéia da linguagem analógica (do mundo ao redor dos seres humanos, das coisas que os cercam). Em termos de hardware, o principal elemento suporte da interface é a tela do monitor. Através dele é que o usuário irá interagir com o sistema. Em termos de software, o suporte advém da plataforma visual do sistema operacional do computador. 
 
 

Há algumas décadas o sistema operacional comum dos computadores pessoais possuía a interface de linha de comando . A mediação entre usuário e informática se dava pela constante programação do primeiro sobre a segunda. Significa que, por exemplo, o gerenciamento de arquivos no computador se dava pela ordem escrita do usuário. Este digitava, via teclado, um comando escrito e a partir daí o arquivo era aberto, ou apagado, ou transferido de pasta, e assim por diante. Atualmente a interface é visual. Isso significa que não é preciso digitar comandos para as tarefas serem executadas. O usuário de hoje, via mouse, por exemplo, interage com a imagem digital projetada na tela do monitor e, clicando ou arrastando, executa as tarefas normais de gerenciamento de arquivos. Por mais que atualmente possa parecer uma tarefa natural, interagir via imagem do computador, da maneira como fazemos hoje, condiciona uma série de questões envolvidas com a percepção humana. A "linha de comando" não deixou de existir, apenas mudou de lugar. Antes o próprio usuário de computador tinha que ser detentor do conhecimento necessário para interagir por meio da linha de comando. Agora a linha de comando fica a cargo do programador. Ao usuário é mostrada uma outra camada, que possibilita a interação, que é a visual. As camadas, visual e de linha de comando se sobrepõem. A interação do usuário não-programador com a interface do computador se dá por imagens.
 
 

Steven Johnson (2001) nos traz o contexto em que surge a interface gráfica. Ele lembra que Doug Engelbart, em 1968, foi o primeiro a projetar uma interface para relacionar o usuário de computador com a máquina. Analisando tecnicamente, essa relação é complicada. A linguagem de computador é organizada em códigos binários (zero ou um) ou abreviaturas de comandos. Já a linguagem do ser humano se dá em outros termos, a partir da fala, de gestos, da escrita, da comunicação visual, etc. O invento de Engelbart tratava de conciliar a linguagem digital com a percepção humana (linguagem analógica). Para isso ele partiu da idéia de "mapear bits". Foi a primeira vez que o computador digital começou a revelar "espaços". O usuário poderia ir "lá" ou "cá", procurar arquivos em determinados lugares no computador... e assim por diante. Foi nesse momento que surgiram as primeiras "janelas" na tela do computador.
 
 

O usuário poderia abrir espaços (janelas) que possibilitassem a interação com a máquina e seus arquivos. Porém ainda não era possível sobrepor as janelas. Com Alan Kay (Johnson, 2001) surgiu essa possibilidade. Ele se baseou na idéia das pilhas de papéis. Ora, no seu mundo ao redor o indivíduo pode organizar papéis uns sobre os outros. Os que está utilizando ele coloca sobre os demais. Os menos importantes abaixo... Por que não aplicar essa idéia ao espaço digital? Sobre a inovação trazida por Alan Kay Steven Johnson faz a seguinte consideração:

 

"Podíamos entrar e sair da paisagem da tela, puxar coisas na nossa direção ou afastá-las. A revolução do mapeamento de bits nos dera uma linguagem visual para a informação, mas as pilhas de papel de Kay sugeriram uma abordagem mais tridimensional, um espaço-tela em que era possível entrar. Toda a idéia do computador como um ambiente do mundo virtual, tem origem nessa inovação aparentemente modesta, embora fossem ser necessários muitos anos para que esse legado se tornasse visível." (Johnson, 2001: 40)

 

A partir de então, a interface gráfica do computador foi recebendo inovações. A maioria delas baseadas em metáforas do mundo analógico. Foi tomando forma um sistema operacional que imitasse o mundo ao redor do usuário, sua área de trabalho, sua escrivaninha, seu fichário, sua lixeira... Se a lógica de um escrivaninha é reproduzida no computador, então quem a utiliza fora do computador vai ter uma facilidade maior de interagir com a máquina. Possivelmente o usuário, assim como faz em sua mesa de trabalho, irá, na tela do computador, colocar algumas coisas de um lado, outras de outro, empilhar algumas janelas (assim como faz com papéis), etc. Da mesma forma ocorre com a lixeira. A lógica da lixeira, sendo reproduzida na tela do computador, induz o usuário a saber deletar (apagar) arquivos.
 
 

O sistema operacional de interface de linha de comando causava um certo distanciamento com o usuário. A interface gráfica trouxe o usuário para perto da tela do computador fazendo com que ele "mergulhasse" na imagem digital. A partir daí surge na tela do computador um espaço com profundidade. O usuário tem a percepção de que pode entrar nesse espaço, nesse mundo virtual. Philippe Quéau (1993) defende que atualmente existe a proliferação de "imagens de síntese". O nicho onde elas ocorrem é o mundo informático.
 
 

Esse tipo de imagem é diferente do até então produzido pelo registro da luz feito pela fotografia. A imagem a que ele se refere é a binária, de computador. Essa imagem não é do mesmo tipo que a obtida pela fotografia. A "imagem de síntese" a que ele se refere é, antes de tudo, linguagem. O computador/Internet é um meio de comunicação que privilegia o layout e a relação visual com o usuário. A formação de um espaço se dá na imersão nas imagens que se sucedem na tela do computador. É aí que o meio de comunicação atinge o status de lugar, de ciberespaço. Há a possibilidade de "mergulho" nessas imagens disponibilizadas virtualmente. Entendo que seja nesse movimento que a simulação produzida na interface gráfica adquire um poder de envolvimento do usuário do computador/Internet. Vamos pensar nas salas de bate-papo virtual (chat). 


 
 
Chat
O chat é um sistema de comunicação com especificidades e lógica própria. Ele simula o ato de se estar em uma sala com outras pessoas. Os criadores da interface gráfica enfrentavam um dilema: ou tornavam os softwares amigáveis e reproduziam tudo do mundo real (até os defeitos e problemas, ex. da máquina de escrever e as teclas emperradas) ou criavam uma mistura entre algo que lembrasse o mundo analógico, mas que na plataforma digital tivesse uma lógica própria, que expandisse a funcionalidade. A partir daí podemos pensar a respeito dos chats de Internet e como eles simulam a sociabilidade "real".
 
 

O ambiente de chat é formado pela página de Internet que possibilita a interação entre os usuários do sistema. Essa página é composta geralmente por duas partes básicas: uma "listagem" das mensagens compartilhadas entre os diversos freqüentadores do chat naquele instante  e um "formulário" de envio de mensagem escrita. Na listagem aparecem emissor e receptor da mensagem. O resultado é a composição de um texto coletivo no formato de diálogos. Por exemplo:
 

 
Anjinho_puc fala com G@t@ : legal vc's sempre fazem esses encontros?

G@t@ fala com §°ANJO AQUARIANO°§™: e aí..me achou mto feia ??? ( seja sincero !!)

§°ANJO AQUARIANO°§™ fala com G@t@: Ai guria tu é gatinhaaaa

vocalista louco ICQ :  onde é esses encontros ??? 

G@t@ fala com Anjinho_puc:  foi a primeira vez q eu fui em um encontro ! 

vocalista louco ICQ : gostaria de participar.....

G@t@ fala com Anjo[ÐM]©: vc nem falou direito comigo lah no encontro ! :o( 

 
O formulário geralmente é composto por: 
a) um campo de preenchimento da mensagem escrita que será enviada; 
b) o destinatário (escolhido em uma lista que apresenta os usuários do chat naquele instante - quem está conectado); 
c) o modo de envio (se "aberta"-visualização pública ou "reservada"-visualização exclusiva do emissor e receptor); e, d) mecanismos performáticos digitais padronizados  que serão enviados agregados à mensagem escrita. 

A imagem a seguir nos esclarece sobre a interface do chat:




 
 
 
 
 
 

Existem outras modalidades de layout de chat. Cada criador de chat (geralmente um provedor de Internet) tenta produzir um ambiente ao mesmo tempo funcional e agradável ao usuário. Porém é recorrente a utilização do formulário na base da tela. Os dois espaços (listagem e formulário) não se misturam. A sua disposição lembra a tentativa de Elgelbart e os primórdios das "janelas" digitais projetadas na tela do computador. 

 
 
Sociabilidade via Internet
No chat a comunicação é dinâmica e lembra a conversação. A troca de mensagens ocorre rapidamente entre emissores e receptores, o que se chama de "tempo real", ou melhor, sincronia. A troca de mensagens via e-mail, por exemplo, também pode ocorrer em tempo real. Nesse caso é preciso que alguém envie uma mensagem e alguém, imediatamente, receba e leia essa mensagem. No entanto, o costume aliado à modalidade do e-mail é de se utilizar a assincronia. Isso significa que a mensagem é enviada de um emissor a um receptor. Porém esse só irá tomar conhecimento da mensagem em algum momento oportuno, talvez no mesmo dia do envio, talvez em outro dia, e assim por diante. A comunicação via Internet pode variar entre os modos sincrônico e assincrônico. Cada caso possui certas especificidades e propiciam um tipo de envolvimento social. 
 
 

No caso do chat, comunicação sincrônica, há a possibilidade de um tipo de envolvimento semelhante à sociabilidade. Digo semelhante porque não é do tipo clássico proposto, por exemplo, por Georg Simmel e Alfred Schutz. A sociabilidade via Internet compartilha  alguns pontos dessas teorias, porém possui especificidades que devem ser respeitadas e nos propõem cunhar um novo conceito, o de "sociabilidade virtual". As características desse tipo de envolvimento social são resultantes da principal característica do meio em que a troca comunicativa ocorre: no meio virtual, via on-line. 
 
 

Para Georg Simmel os indivíduos sempre procuram formar uma unidade - sociedade - de acordo com seus impulsos. Esses impulsos formam o conteúdo. Essa matéria ainda não é social. Somente o é quando toma a forma de uma sociação pela qual os indivíduos satisfazem seus interesses. Ele argumenta que: "Esses interesses, quer sejam sensuais, ou ideais, temporários ou duradouros, conscientes ou inconscientes, causais ou teleológicos, formam a base das sociedades humanas" (Simmel, 1996: 166).
 
 

Segundo Georg Simmel, na sociabilidade há a reviravolta entre o conteúdo gerador do encontro e a forma dele transcorrer. A forma passa a determinar o conteúdo e torna-se um valor supremo. A sociedade, que significa uma agregação de indivíduos em embate uns com os outros gera os conteúdos ou interesses materiais ou individuais. Por exemplo, os interesses econômicos fazem com que os indivíduos se agreguem em associações, irmandades, etc. Mas também está presente um impulso de agregação (forma). Ele pode, às vezes, sugerir os conteúdos concretos da associação. A sociabilidade também está além das realidades objetivas da vida real. Ela é um "impulso" (forma) e não está atrelada, nem condicionada a motivações concretas (conteúdo, matéria). "Isso nos dá uma imagem abstrata, na qual todos os conteúdos se dissolvem no mero jogo da forma" (Simmel, 1996:169).
 
 

Para Alfred Schutz (1979) as pessoas agem em função de experiências da vida cotidiana. Mesmo havendo uma multiplicidade de "mundos" e "realidades", são pessoas que buscam experiências significativamente comuns no envolvimento do "nós" (face a face). O envolvimento está sempre como uma possibilidade objetiva, sempre atrelado a um desejo de intersubjetividade. A partir do presente vivido um indivíduo percebe o seu semelhante, o Outro. A interação social pressupõem a existência de uma simultaneidade vivida. Essa simultaneidade abrange tanto a percepção do Outro enquanto pessoa, como a percepção de seu pensamento. Existe um deslocamento no tempo compartilhado, ao que Alfred Schutz se refere como sendo um "envelhecermos juntos". Isso significa que, da mesma forma que experimento a consciência do Outro no presente vivido, ele experimenta a minha consciência.
 
 

A sociabilidade está condicionada a atos comunicativos entre um Eu que se volta aos Outros e os apreende como pessoas. Esse processo se dá a partir da percepção do Outro enquanto um corpo no espaço que compartilha comigo um ambiente comunicativo comum. "O ambiente comum de comunicação pressupõe que a mesma coisa que me é dada "agora" (mais precisamente, num "agora" intersubjetivo), com um determinado colorido, pode ser dada a Outro do mesmo modo, "depois", no fluxo do tempo intersubjetivo, e vice-versa" (Schutz, 1979: 161-2).
 
 

Em ambiente de chat é visível a relação simmeliana entre conteúdo e forma. Os usuários de chat começam a utilizar o sistema interessados em diversos assuntos. Entre eles, prevalecem o combate ao sentimento de solidão e a busca por participar de uma coletividade, assim como a busca por envolvimentos amorosos. Durante a comunicação com outros usuários cria-se um conjunto de estratégias que articulam diversos assuntos para sustentar a interação. Nesse momento percebe-se a redução da presença da variável conteúdo e aumento da forma. Não importa sobre o que se irá bater-papo. O importante é estar interconectado e trocando mensagens. Podemos observar essa substituição de centro de importância quando verificamos que os assuntos tratados no momento de interação via chat são efêmeros e fortuitos.
 
 

Imagem: www.corbsimages.comO que permanece inalterado é o desejo de trocar mensagens, de estar ligado com algum outro usuário por um canal de comunicação. Isso ocorre tanto para aquele freqüentador eventual, quanto para o regular, que está inserido em uma rede de relações mais duradoura. No caso do interesse de se envolver amorosamente, este acaba ficando em segundo plano em relação ao convívio com demais usuários. Os indivíduos acessam o chat e ficam ali, trocando mensagens, batendo papo. Tudo parece, até certo ponto, despretensioso, mas está latente o desejo de "ficar" ou "namorar". Entretanto, para não estar sozinho é preciso que o freqüentador entre no jogo que existe na convivência em ambiente de chat e apreenda suas regras e estratégias.
 
 

Em relação à elas, as principais que se manifestam são o tipo de linguagem e a alternância entre mostrar e esconder. Sobre a linguagem cabe colocar que ela privilegia a iconografia, que é quando uma palavra agrega tanto as dimensões visual quanto sonora. A potencialidade fonética da comunicação oral fica manifestada na comunicação escrita em ambiente de chat. Da mesma forma que a visual. Ou seja, a comunicação  no chat se dá via significados emitidos na maneira de redigir uma palavra ou oração. Para isso são utilizados recursos, principalmente o código alfa numérico. Sobre a estratégia de conduta em chat me refiro ao jogo que se dá na alternância entre os modos "aberto" e "reservado" de comunicação.
 
 

Teclar  "no aberto" ou "no reservado" indica a disposição da pessoa. Manter um canal comunicativo no modo aberto significa estar aberto à participação de outros freqüentadores, mesmo que isso não seja aceito com tanta facilidade na prática. Caso alguém tente se intrometer na conversa de dois freqüentadores de chat, o resultado pode ser inútil, ele pode ser ignorado. A abertura está mais indicada a quem pertence à rede que se forma na interação. Alguém que converse no "aberto" indica com quem se relaciona. Mostra a proximidade com algum outro freqüentador e mostra de qual rede participa. Nesse caso torna a conversa pública, assim como o laço de amizade.
 
 

Entre freqüentadores que não estão inseridos em uma rede de relações é mais comum a utilização do modo reservado. A busca por envolvimentos amorosos está bastante presente e é feita, nesse caso, por um canal de comunicação discreto. Talvez porque evitam divulgar o teor da conversa para os demais presentes na sala. Utilizar o modo reservado pode ser também um simples desejo de manter a conversa livre da interferência de demais freqüentadores, mesmo que ela não tenha um teor de envolvimento amoroso. 
 
 

O que se pode afirmar é que a escolha pela divulgação ou não da comunicação é apropriada simbolicamente pelos freqüentadores do chat. Essa escolha também comunica sobre a disposição do indivíduo em ambiente de chat. Mesmo que se escolha o modo reservado pela discrição, poderá haver a interpretação de ser uma aproximação amorosa. A opção pelo modo aberto ou reservado também passa pela comunicação trocada na performance em ambiente virtual. Geralmente é possível observar quem está teclando no "reservado" quando alguém responde, no modo aberto, a uma pergunta que não é possível observar na lista de mensagens enviadas e recebidas (na listagem). É sinal que a pergunta foi feita no modo reservado, mas a resposta foi feita no modo aberto. A comunicação aberta ou reservada pode significar várias disposições, assim como as "piscadelas" de Geertz (Geertz, 1989:16).
 
 

Enquanto interagem no  chat os usuários do sistema percebem outros usuários e compartilham um mesmo tempo transcorrido e um mesmo espaço de convivência. Alfred Schutz trata da percepção do outro enquanto um corpo no ambiente. Em ambiente de chat não estão presentes os corpos dos humanos. Além disso, o conceito de ambiente é diferente daquele proposto por ele. A percepção do outro se dá pela percepção de um usuário utilizando um nick e trocando mensagens. O nick atinge o status de signo e já começa a expor os "motivos afim de". Embora vários usuários acessem o chat ao mesmo tempo, a percepção do Nós ocorre quando há a criação de um canal de comunicação entre emissor e receptor da mensagem.
 
 

O ambiente compartilhado passa a ser o da plataforma do chat, que se materializa no layout que é visualizado pelo monitor do computador. Não há um contato face a face. Ao invés disso temos uma relação "face a tela" que é intermediada via uma interface visual de relacionamento. No chat não há o contato schutziano de troca de olhares, de sutileza e percepção do outro freqüentador. Ao invés disso há a criação de um espaço com alto grau de interpretação.
 
 

A interpretação gera o descobrimento do Outro. Falta a visão do corpo do Outro, falta ouvir o Outro, falta sentir o toque do Outro e falta cheirar o Outro. Todas essas faltas criam a busca da descoberta do Outro. Se na sociabilidade de Alfred Schutz, do contato face a face, essa "descoberta" está presente, ainda mais na sociabilidade face a tela com falta da presença física. Essa descoberta se dá simultaneamente. Os freqüentadores de chat compartilham de um mesmo tempo transcorrido, o que aproxima a idéia de existir um "presente vivido" e um "envelhecer juntos". 
 
 

Esses dois pontos da teoria schutziana somente são possíveis na sociabilidade em ambiente de chat porque há, nessa convivência, sincronia das mensagens enviadas. Não é o caso da comunicação por correio eletrônico. A comunicação feita pela troca de mensagens via e-mail não propicia o fenômeno de sociabilidade virtual. Na comunicação por e-mail (e outros sistemas semelhantes) não há a geração de simultaneidade. Nesse caso há assincronia. Também não é o caso das "listas de discussão", que são intermediadas por e-mail.
 
 

Por sociabilidade virtual devemos entender a interação social realizada pela comunicação sincrônica e com contato interpessoal mediado pela tela do computador. Ela apresenta a mesma inversão entre forma e conteúdo apresentada por Georg Simmel. O conteúdo de interesses que gera a aproximação com outras pessoas dá lugar ao prazer de se estar associado via imagem digital. No caso do chat parece haver um processo de adequação da técnica em favor da estratégia humana de estar acompanhado (não estar só, interagir e socializar).
 
 

A sincronia é a mesma da comunicação oral, com curto espaço de tempo na troca de mensagens. Enquanto o emissor envia a mensagem o receptor já está decodificando, com uma diferença de tempo de segundos. Existe um presente compartilhado. Em sincronia uma pessoa testemunha a presença da outra no seu mesmo tempo. Existe um imediatismo temporal, da mesma forma que há um espacial (aquele da imagem com profundidade projetada na tela do computador). Entretanto, nesse caso o espaço que rodeia uma pessoa não é o mesmo que rodeia a outra. O que há de igual é a tela do computador por onde se visualiza o ciberespaço. 
 
 

O ciberespaço  é composto por certas características que o elevam de simples meio de comunicação à espaço compartilhado. Nesse sentido, talvez a característica principal seja a de "deslocamento". O internauta percebe a Internet e seu conjunto de sítios (sites) como sendo um campo aberto ao trânsito. Ele pode estar em sua residência, na frente de seu computador, ao mesmo tempo que freqüenta a biblioteca da universidade, ou então o grupo de amigos no chat que se encontra regularmente em tal sala de bate-papo. O que há realmente é um constante "fluxo".
 
 

A existência de uma rede organizada com constante troca de informação cria um espaço simbólico de trocas. Manuel Castells entende que com a Internet "as localidades se desprendem de seu significado cultural, histórico e geográfico, e se reintegram em redes funcionais ou em colagens de imagens, provocando um espaço de fluxo que substitui o espaço de lugares" (Castells, 1998: 408). Por espaço de fluxo o autor entende  um espaço formado entre a origem e o destino da comunicação em rede. Sendo assim, existe uma comunicação, por exemplo, maciça entre uma cidade A e outra B. Nesse canal de comunicação há um espaço de fluxo.


 
 
O envolvimento
Quando o conjunto computador/Internet começou a proliferar em Porto Alegre várias rotinas começaram a ser alteradas. Era mais fácil, por exemplo, enviar e receber arquivos digitalmente via e-mail. E essa transformação, embora hoje pareça naturalizada, foi extremamente significativa. No mundo empresarial a presença dessa tecnologia facilitou a comunicação e a troca de informações. Um orçamento de produtos e serviços, por exemplo, que antes era no máximo enviado via fax, com a Internet era enviado via e-mail. Com isso o tempo para realizar essa tarefa foi reduzido. Não era mais preciso imprimir e passar o orçamento na máquina de fax. Com a Internet o envio era digital e imediato. Além disso, o receptor da mensagem poderia ser múltiplo. Um emissor, com uma única ação (envio de e-mail), poderia se comunicar (enviar uma mensagem publicitária, por exemplo) com várias outras pessoas.
 
 

Não faltariam exemplos de como o computador/Internet foi sendo utilizado. Em cada segmento uma nova maneira de utilizá-lo. Na esfera acadêmica essa tecnologia facilitou a obtenção de informações. Bibliotecas, publicações e autores do mundo todo podem ser contatados rapidamente via Internet. As tarefas de pesquisa se tornaram relativamente mais fáceis e rápidas. A relação entre colegas e entre professores e alunos também se modificou. Via e-mail ou site eles podem rapidamente trocar informações sobre aulas, curso, congressos e palestras. O que coloca uma outra condição: ficou cada vez mais difícil participar do mundo sem um computador/Internet.
 
 

Uma experiência que começou a se tornar cada vez mais comum foi interação virtual em ambiente de chat de Internet. Em um primeiro olhar parece que estão fortemente presentes o combate ao sentimento de solidão e a busca por relacionamentos amorosos. Porém, não podemos negligenciar que antes das motivações individuais existem condições sociais propícias. Existe um momento e as condutas individuais são fruto desse panorama. O surgimento do freqüentador de chat faz parte do processo de "novo tribalismo" (Maffesoli, 1987).
 
 

A familiarização com as máquinas, incluindo aí televisão, telefone e computador, faz com que seja  natural conviver em ambientes virtuais. Existe uma base, tanto tecnológica quanto cultural, que suporta o cultivo da sociabilidade em ambientes virtuais. Cerca de cinco anos atrás esse fenômeno ainda causava certo estranhamento. De lá para cá cada vez mais  tornou-se banal, comum, diário e cotidiano. Essa absorção é mais evidente entre as gerações jovens e de classe média. Nelas a prática da sociabilidade virtual mistura-se à vida cotidiana.
 
 

A interação social via chat disponibiliza algumas facilidades para os indivíduos. A principal delas é o conforto de poder estar em casa conectado e poder conversar com outras pessoas, interagir com a turma de amigos, fazer novas amizades, namorar, etc. Diante de um controle do anonimato, as manifestações individuais são potencializadas em ambiente de chat (Jungblut, 2000). Alguns freqüentadores ficam fascinados por essas características. Além disso, devemos ter claro que o ambiente de chat adquire o status de mais um outro ponto de encontro na cidade de Porto Alegre.
 
 

Independentemente de estar no ciberespaço, o chat se transforma em um local onde um segmento de pessoas passa alguma parte do tempo do dia. Esse segmente possui um perfil específico. Talvez fosse melhor tratar de "perfis", ao invés de um perfil. Quando o computador/Internet começou a se difundir na cidade de Porto Alegre o perfil do usuário era mais homogêneo. Cerca de dez anos atrás prevalecia um tipo de usuário jovem, com alto poder aquisitivo e do sexo masculino. Hoje em dia esse perfil tornou-se mais heterogêneo. Embora ainda seja muito difundido entre os jovens (entre 20 e 30 anos), o segmento com mais idade também se tornou um grande utilizador de computador/Internet e chat.
 
 

A associação entre chat e perfil do usuário é um fator de grande importância. Dependendo do estilo de vida do indivíduo haverá um tipo específico de envolvimento com essa tecnologia. Vamos pensar a partir de alguns exemplos. O usuário adolescente, que geralmente acessa a Internet de sua residência, provavelmente estará presente na sala de bate-papo em um determinado horário. Provavelmente será em um horário diferente daquele da escola. O horário de acesso também será resultante do tipo de conexão que ele utiliza, se discada ou via cabo. No primeiro tipo se utiliza a linha telefônica. Paga-se o equivalente a uma chamada local. Acessar a Internet em horário comercial, durante uma hora por exemplo, é muito mais dispendioso do que acessar o mesmo tempo durante a noite. Para esse perfil de usuário é comum freqüentar o chat durante a noite, quando são oferecidos pelas empresas de telefonia descontos no preço da chamada. 
 
 

Imagem: www.corbsimages.comA tecnologia do cabo ainda é um tanto dispendiosa. Atualmente existem várias alternativas no mercado. Algum tempo atrás o cabo ainda era raro e caro. Atualmente, embora ainda seja um tanto dispendioso, tornou-se mais popular e compete  com conexão discada. A principal vantagem do cabo está nele propiciar uma conexão exclusiva a Internet (não utiliza a linha telefônica), com maior qualidade no envio e recebimento de dados (maior quantidade e velocidade) e a um preço único. Nesse caso, independente do acesso ser em horário comercial ou não, paga-se um preço único ao final do mês. Essa tecnologia tornou-se mais popular, primeiramente, no setor empresarial. Porém, logo foi disponibilizada a preços mais acessíveis e incorporada ao uso domiciliar. Um usuário que possua essa tecnologia irá acessar o chat de forma mais independente do horário, tanto em horário comercial, quanto a noite.
 
 

Também existe o usuário de chat que o acessa de seu local de trabalho. É aquele indivíduo que está trabalhando e fica o tempo todo conectado. Se ele não possuir computador em sua residência,  irá acessar a Internet somente no horário comercial. Dependendo dessas variáveis, principalmente local de acesso e tipo de conexão, haverá a interação em ambiente de chat de pessoas com perfis semelhantes e em determinados horários específicos. Os "trabalhadores" geralmente acessam do local de trabalho, durante o horário comercial. Os "estudantes" geralmente acessam durante a noite, de suas residências, e assim por diante. Não existe algum tipo de regra em relação a essas associações. Cabe apenas pensar que existe uma forte e inegável relação entre o perfil off-line do internauta e a condição para estar conectado, on-line, no ciberespaço. Situação que irá determinar o momento de ser encontrado por outros internautas... ou em ambiente de chat, ou de outra forma. 

 
 
 

A forma

Quando começam a freqüentar o chat os internautas acabam criando laços na forma de rede. Existem os casos em que a pessoa acessa eventualmente o chat e os casos em que o acesso é regular. Nos dois tipos de conduta há a formação de rede. Entre freqüentadores regulares a rede é mais estabelecida e se reproduz diariamente, com pouca variação. Os freqüentadores eventuais criam laços pouco estabelecidos, mesmo assim, a cada acesso criam laços com demais internautas, que estão regularmente ou eventualmente na sala. 
 
 

"Rede" é um conceito adequado a tratar da organização social em meio urbano. J. Barnes (1987) utiliza a "rede social" como um recurso analítico capaz de dar conta de processos sociais onde a conexão não se dá via limites de grupos e categorias. Isso ajuda a identificar quem são os líderes e quem são os seguidores. As redes sociais são um sistema analítico mais frutífero em sociedades contemporâneas e complexas. Em sociedades tradicionais há falta de direção na transmissão da informação. Os gráficos a seguir ilustram essas situações:
 

Rede estabelecida entre freqüentadores regulares do chat (fevereiro de 2003).




 
 
 

Nesse caso "Anjo", "Felina" e "Escorpião Rei" mantêm um contato quase diário na sala "Porto Alegre A". "Aprendiz de Cafajeste", "Teddy", "Isa" e "Ani" compartilham da mesma situação, porém utilizam a sala " Porto Alegre B". São freqüentadores regulares. Cada um também estabelece vínculos com demais pessoas do chat. "JulianaQ" também está regularmente na sala, porém acaba mantendo mais contato com "Anjo" e outras pessoas. "Escorpião Rei" costuma entrar na " Porto Alegre A" e na " Porto Alegre B", mantendo vínculos com pessoas dos dois ambientes. 


Rede estabelecida entre freqüentadores regulares e eventuais do chat (março de 2003).

 
Nesse outro exemplo temos a rede ampliada. Estamos agora considerando os demais freqüentadores do chat: os eventuais. Eles acabam se inserindo na rede. Esse é o caso de "ju_psi". Ela entrou e começou a estabelecer contato com alguém que mantém contato com "Escorpião Rei". Nesse dia "JulianaQ" estava na sala " Porto Alegre B" e começou a manter contato com "Aprendiz". Mal sabem eles que conhecem uma pessoa do chat em comum, que é o "Anjo".
 
 

Todo o dia a disposição gráfica da rede se modifica. Porém, os laços entre freqüentadores regulares tendem a se repetir. São acrescentados os laços dos freqüentadores eventuais. De qualquer forma, os laços podem acabar sendo criados entre os vários tipos de freqüentadores. O surgimento do freqüentador de chat está estreitamente ligado a sua inserção em uma rede. É quando ele começa a conhecer melhor outras pessoas, troca confidências, cria amizades, conversa e experimenta o sentimento de grupo, de turma...


 
 
Os interesses
A apropriação e movimentação no espaço social criado em ambiente de chat se dá em decorrência de um perfil específico. A turma da "Porto Alegre B" do Provedor Terra tem um perfil. Ele é diferente daquele da turma da "Porto Alegre A". Esse era diferente ainda do pessoal da "Conex". Em outros chats existem turmas com características também diferentes. Ainda no período de definição do grupo que seria pesquisado fiz contato com a turma do chat do Provedor Terra "procura 30-40". Eram pessoas com mais idade. Outro tipo de poder aquisitivo, outras aspirações na vida e outra relação com o chat. Uma turma de chat cultiva hábitos comuns que garantem a ela a coesão necessária para atingir o status de "grupo". As características básicas que propiciam o encontro no chat são: horário e dia da semana que costuma acessar. No entanto, devemos lembrar que essas duas variáveis são ainda resultantes da combinação entre as acumulações de capitais econômico e cultural do indivíduo.
 
 

Na "Conex" havia "os do dia" e "os da noite". Na sala " Porto Alegre A" o contato foi feito mais freqüentemente no período da noite. Quem acessava naquele momento era um tipo de usuário. Eles geralmente acessavam de casa, eram estudantes, adolescentes e ainda sustentados pelos pais. Suas estratégias na relação com o chat giravam em torno de interesses desse segmento. A turma da sala "Porto Alegre B" tinha um outro perfil. Os membros dessa rede possuíam um estilo de vida que garantia a eles compartilhar o mesmo espaço virtual de chat, no mesmo momento. A partir daí existe uma condição para a aproximação, o cultivo da sociabilidade e o surgimento de uma "turma". 
 
 

No caso da rede estabelecida na sala "Porto Alegre B", a maioria dos seus membros acessava a Internet do local de trabalho. O momento para o cultivo da sociabilidade era em horário comercial. Para eles essa "fuga" das atividades profissionais representava uma descontração momentânea. Além disso, servia para preencher um sentimento que muitas vezes se queixavam: a falta de colegas de trabalho e um tipo de sociabilidade desse tipo.
 
 

Muitos deles acabavam se isolando da coletividade. Nesse processo, muito contribuíram o deslocamento do local de origem (alguns vinham do interior) e as atuais condições de trabalho. Um dos membros da rede da "Porto Alegre B", "Teddy", havia a pouco saído de cidade natal (Erechim) para estudar em Porto Alegre. E ainda, tanto ele quanto "Isa", outro membro da rede, compartilhavam de um mesmo panorama do atual mercado de trabalho. No ambiente de trabalho deles havia uma certa ausência de colegas. Ela é resultado de um atual processo de redução dos postos de trabalho e busca da "qualidade total". Isso significa que o empregado que antes fazia certas funções, agora desempenha tarefas de cargos extintos. Os postos de trabalho são reduzidos.  Nesses casos não existe uma "turma" do serviço que compartilha momentos de sociabilidade.
 
 

O cotidiano dessa rede era acessar o chat do Provedor Terra, sala Porto Alegre B, no horário comercial. Era possível ver quase todos os membros diariamente interagindo. Dos seus locais de trabalho, onde majoritariamente era utilizada a conexão via cabo, ficavam o tempo todo conectados na Internet. Isso lhes possibilitava dar uma pequena "fuga" das atividades profissionais, entrar no chat e conversar com os amigos. Alguns faziam isso várias vezes ao dia, outros, apenas algumas vezes. De qualquer forma, acessar o chat e manter a comunicação diária com a rede significava para eles pertencer a uma turma que, nesse caso, possuía inclusive denominação: POA B.
 
 

Dessa forma eles criavam para si um "pedaço" de trocas sociais, no sentido proposto por José Magnani. O que nos possibilita tratar como sendo o "pedaço da POA B". No pedaço há uma preeminência das relações sociais e dos códigos e símbolos comuns. Mudando-se o ponto no espaço, o pedaço é levado junto. A mancha é fixa na paisagem (Magnani, 1984). Ela oferece um conjunto de práticas que envolve os seus usuários (por exemplo o caso do lazer). Ela é um ponto de referência físico. Os dois não são isolados. As pessoas transitam entre eles. Os caminhos não são aleatórios. Existem trajetos que ligam pontos dentro da mancha. Através deles o pedaço é aberto ao âmbito público gerando um circuito (Magnani, 2000).
 
 

Além de cultivar momentos de sociabilidade virtual, entrar no chat também possibilitava  momentos de sociabilidade face a face em determinadas "manchas" (Magnani, 2000) da cidade. Era quando a turma combinava um encontro de seus membros em algum lugar da cidade. Geralmente o local era escolhido a partir das opções de lazer e boêmia que são disponibilizadas atualmente na cidade. A escolha seguia o próprio perfil da turma: membros jovens, com idade média de 22 anos, trabalhadores com médio poder aquisitivo e média escolaridade. Na cidade de Porto Alegre existem locais, incluindo aí bares e casa noturnas, destinados a tipos de público diferenciados. A turma da  POA B, por possuir um perfil homogêneo e a partir de um capital cultural e econômico específico , tratava de consumir simbolicamente, sendo freqüentadores, locais da cidade de acordo com essas variáveis. Dessa forma, costumavam organizar encontros da turma nos circuitos da "Lima e Silva" e da "Goethe".
 
 

Não era o que acontecia, por exemplo, com a turma do chat "procura 30-40 anos". Nesse caso a rede também organizava "encontros" face a face em determinados locais da cidade. No entanto eram outros locais, destinados a um público dessa faixa específica de idade e com poder aquisitivo mais elevado.
 
 

Pertencer à POA B também significava participar de uma boêmia porto-alegrense. Nesse caso considerando explicitamente as vantagens da sociabilidade face a face, em detrimento da virtual, que operava quase como uma ferramenta de aproximação. Alguns membros da rede residiam na Região Metropolitana de Porto Alegre. Embora o Provedor Terra disponibilizasse chats sob o título de suas cidades, alguns usuários preferiam interagir na sala intitulada "Porto Alegre". Havia um desejo justamente nesse tipo de convívio. Na Internet existem vários tipos de chat, sob diversos rótulos: cinema, teatro, música, sexo, profissões, religiões, etc. Cada um deles propõe associar usuários com interesses semelhantes. Se, por exemplo, acesso o chat "cinema", significa que lá poderei conversar com alguém que também goste de cinema, independente de nossa interação tratar desse conteúdo. Nesse caso prevalece a forma do contato (Simmel, 1996). O que nos remete ao caso de Porto Alegre e de como a sociabilidade pode ser busca a partir da identificação com essa cidade. 
 

O caso estudado nos faz refletir sobre o encontro do sentimento de comunidade diante da forte globalização. Para Manuel Castells (1999) a comunidade nunca deixa de existir, mesmo com o movimento de urbanização das grandes cidades. Para o autor, as redes sociais existem em todos os contextos, mesmo na cidade e no subúrbio. Nesses casos o que ocorre é a interseção de identidades locais com outras fontes de significado e reconhecimento local. Cabe aqui citar as próprias palavras do autor:

 

"O provável argumento dos autores comunitaristas, coerente com a minha própria observação intercultural, é que as pessoas resistem ao processo de individualização e atomização, tendendo a grupar-se em organizações comunitárias que, ao longo do tempo, geram um sentimento de pertença e, em última análise, em muitos casos, uma identidade cultural, comunal. Apresento a hipótese de que, para que isso aconteça, faz-se necessário um processo de mobilização social, isto é, as pessoas precisam participar de movimentos urbanos (não exatamente revolucionários), pelos quais são revelados e defendidos interesses em comum, e a vida é, de algum modo, compartilhada, e um novo significado pode ser produzido." (Castells, 1999: 79)

 

A partir desse ponto de vista podemos pensar em ser a sociabilidade virtual cultivada via Internet um tipo de movimento urbano que leva à formação de comunidades. Elas podem sobreviver independentemente de serem ligadas exclusivamente à Internet, ou à relação face a face, ou uma combinação entre os modos on e off-line de comunicação. No final das contas a comunidade local de Porto Alegre, por exemplo, em se tratando de jovens classe média , está combatendo a individualização e a atomização praticando um vivência intermediada pelos computadores. 
 

 
Conclusão
Pesquisando a sociabilidade mediada por computador e realizada via Internet, a partir de chat de comunicação, percebi uma série de questões. A principal delas talvez seja o estreitamento das dimensões on e off-line que marca a vivência dos internautas. O chat adquire o status de lugar, como se fosse um entre tantos outros pontos de encontro da cidade. A vivência do indivíduo no ciberespaço é tão dramática, emotiva e complexa quanto a interação face a face. Além disso, a própria interação face a face é desejada pelos internautas. Em todo o momento ficou clara uma propensão que eles têm de interagirem, a partir do encontro virtual em chat, face a face em um segundo momento. E essa não é uma questão que deva ser naturalizada e deixada de lado. Se existe na representação simbólica dos internautas uma aproximação entre modos on e off-line de vivência, e uma busca, via Internet, do encontro pessoal (compartilhando territórios da cidade), então alguma coisa ocorre diferentemente do até então pregado por alguns pesquisadores do tema.
 
 

A experiência brevemente trazida aqui nos faz refletir sobre a estreita associação que atualmente se processa entre o computador/Internet e as condutas sociais. Um dos aspectos mais claros está relacionado ao cultivo de um tipo de sociabilidade que podemos denominar como sendo virtual. Esse conceito surge do encontro de determinadas características. De um lado temos a presença de práticas de sociabilidade ao "modo clássico", sendo mantida pelo encontro face a face. De outro, está presente a especificidade gerada por tal tecnologia: a presença da interface gráfica como mediador do encontro social. 
 
 

Pesquisar tal panorama significa dar conta de um fenômeno urbano. É quando o interesse de classe e a busca por um consumo de estilo de vida passa por uma apropriação da tecnologia digital. O computador/Internet é apropriado como uma ferramenta que proporciona a interação em forma de rede, a inserção em uma turma e a possibilidade de cultivo de sociabilidade e ocupação de circuitos urbanos. A prática do lazer e da boemia passam por essa dimensão. As interpretações que foram apresentadas aqui seguem a linha de uma Antropologia da Internet. Nesse caso foi priorizada a questão da sociabilidade. Outras podem ser exploradas via "olhar antropológico". Os pesquisadores interessados em investigar esse campo terão diante de si um cenário rico e múltiplo de elementos. 


 
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