Introdução
Nos últimos
anos o conjunto computador/Internet tomou e vem tomando conta de inúmeras
dimensões da vivência humana. No início essas tecnologias
estavam restritas a projetos científicos e/ou militares. Nessa época
havia uma distância abissal entre a massa da população
e a emergente "mídia digital". Algo não muito estranho se
pensarmos em outros inventos e como eles foram, gradativamente, passando
das mãos de uma minoria para uma maioria. A popularização
que ocorreu com o automóvel e com a televisão, por exemplo,
também vai atingindo o computador/Internet.
Dois são os sintomas
que, sob meu ponto de vista, demonstram atualmente a ampliação
maciça dessa tecnologia. Primeiramente temos os dados objetivos
que apontam para o aumento do número de residências que possuem
computador/Internet. Da mesma forma, alta proporção de pessoas,
mesmo não possuindo o equipamento, tem acesso a ele em locais de
trabalho, instituições de ensino, etc.. Em segundo lugar,
parece que atualmente há uma maior naturalização
dessa tecnologia. Pensando a respeito de quem não possui nem tem
acesso ao computador/Internet, está presente, mesmo que em pequena
escala, a difusão de noções sobre esta tecnologia,
mesmo não havendo a sua posse ou acesso a ela.
Atualmente
o tema computador/Internet atingiu o senso comum da população.
É cada vez mais comum e compreensível que seja possível
bater papo, conhecer pessoas, fazer amigos e até mesmo namorar via
computador/Internet. Há uns três anos atrás esses temas
levantavam dúvidas, desconfiança e muito mais discussão
nos veículos de comunicação, principalmente na televisão.
Hoje a situação parece ter se acomodado em decorrência
da familiarização com o fenômeno. O panorama é
de menor questionamentos sobre a possibilidade de existir relacionamento
social via Internet e de maior de tomada de opinião sobre a questão.
As pessoas vão sendo envolvidas por essa nova tecnologia, que vai
transformando gradativamente suas rotinas. Tanto no trabalho, quanto em
casa e na escola, a presença do computador/Internet é cada
vez mais eminente.
O conjunto computador/Internet
sendo um poderoso meio de comunicação, informação,
trabalho e entretenimento, vem marcando o cenário desse início
de século. Diante desse panorama, muitas disciplinas trataram de
refletir sobre as transformações que vêm acontecendo.
Basicamente, temos uma reorganização das relações
sociais. Em vários casos as "distâncias" (tanto verticais
- de classe, quanto horizontais - geográficas) sofrem alterações.
Até certo ponto, a comunicação entre indivíduos
com posições sociais diferenciadas é facilitada pela
Rede. Da mesma forma que entre indivíduos distantes espacialmente
(entre cidades ou países distantes). Também pode ocorrer
de uma cultura se apropriar dessa tecnologia e intensificar as suas relações
locais.
De algum modo, possuir o
conjunto computador/Internet nesse momento de expansão também
pode significar a apropriação de um bem simbólico
que garante um status específico em determinada cultura. Tarefas
que antes envolviam grande tempo, com o auxílio dessa tecnologia
passaram a ser executadas em minutos ou segundos. Como resultado, os indivíduos
passaram a ficar sobrecarregados de tarefas, mas também potencializaram
o alcance de sua produção. Também podemos pensar em
como a rede de comunicação que se forma via Internet envolve
a diversidade cultural. Indivíduos que antes não entrariam
em contato uns com os outros, já que não compartilham os
mesmos trajetos no meio urbano, via Internet acabam tendo a possibilidade
de cultivarem momentos de sociabilidade.
Essas são apenas algumas
questões que podem gerar reflexões. Algumas delas, assim
como outras que surgirão, podem ser pensadas com o auxílio
da Antropologia. A essa disciplina cabe investigar objetos de estudo que
estão relacionados com a vida em sociedade. A partir daí
surge o interesse na diversidade cultural mediante a descoberta do Outro,
em uma contínua busca por alteridade. Também é de
seu interesse investigar o simbolismo criado em meio cultural, assim como
é diversamente representado o mundo (ao redor) em cada cultura.
Seguindo essa linha a Antropologia desenvolveu um método de pesquisa
próprio. Nada mais natural que tentar enxergar via "olhar antropológico"
o momento atual, em que o conjunto computador/Internet vai penetrando em
diferentes realidades culturais.
De um lado temos um determinado
momento do desenvolvimento do capitalismo, em que o movimento de globalização
(principalmente econômico e tecnológico) toma conta do mundo.
De outro, há a inserção em culturas locais de uma
tecnologia difundida mundialmente. O resultado desse encontro pode ser
diverso. Muitas podem ser as estratégias locais criadas ao redor
desse panorama. De qualquer forma, temos diante de nós, pesquisadores,
um cenário rico em representações múltiplas
sobre uma determinada realidade: aquela da inserção do computador/Internet
em várias setores da sociedade. À Antropologia é colocado
o desafio de pensar sobre essa realidade a partir de seu método
de pesquisa. Situação que gera um campo de investigação
que podemos, no momento, denominar de Antropologia da Internet.
Adiante tentarei conduzir
o leitor por uma explanação sobre alguns elementos de reflexão
antropológica que estão relacionados com o computador/Internet.
A intenção é ver o caso da Internet sob o "olhar antropológico".
Utilizarei o exemplo da cidade de Porto Alegre e as salas de bate-papo
virtual (chat) relacionadas a ela. Nesse caso, o recorte foi dado a partir
do chat do Provedor Terra sob o título "Porto Alegre". Os dados
aqui trazidos são baseados em uma etnografia já realizada
sobre o tema . Em vista desse recorte irei iniciar do ponto em que a Internet
se insere no contexto da cidade. Esse foi um processo específico.
Em cada lugar há a conjunção de condições
amplas (nacionais ou mundiais) e fatores específicos e determinados
pela cultura local. Em Porto Alegre o conjunto computador/Internet começou
a ter uma difusão acelerada a partir da metade da década
de noventa.
Breve evolução
digital
Em solo porto-alegrense
a tecnologia informática floresceu sobre as bases deixadas pela
televisão, que começou a ser difundida pelo mundo a partir
da metade do século XX. Esse novo invento mesclava as características
de dois outros já difundidos: o cinema e o rádio. Do primeiro
vinha a questão audiovisual. Do segundo, a transmissão a
partir de ondas eletromagnéticas. Como resultado, a humanidade conheceu
o mais poderoso meio de comunicação de massa surgido
até então. A relação nesse tipo de comunicação
se estabelecia entre "um" e "muitos". Na televisão a situação
envolve uma emissora enviando imagens e som através de um canal
a uma massa de espectadores.
Com a televisão surgiu
mais um veículo de comunicação para compor a mídia
eletrônica, que até então era formada pelo cinema e
pelo rádio. "Eletrônica" porque utilizava o sistema tecnológico
dessa categoria para a sua difusão. Até então o que
existia era a mídia impressa, composta pelos veículos de
comunicação que utilizavam a impressão: livros, jornais
e revistas. A mídia eletrônica não exterminou a impressa,
vindo as duas a dividirem espaço.
Em meados da década
de setenta os jogos eletrônicos em casas especializadas (fliperamas)
eram a sensação entre os jovens porto-alegrenses. Na década
de oitenta começou a se popularizar uma nova forma de tecnologia:
os vídeo games. Eles eram aparelhos que, conectados à televisão,
geravam imagens de jogos. O jogador poderia, via "controle" (um peça
de uns 15 cm de lado, com uma alavanca e um botão) operar as imagens
projetadas na televisão e jogar o jogo. Os aparelhos de televisão
também estavam se popularizando. Era cada vez mais difícil
existir alguma residência na cidade que não possuísse
um aparelho de TV. Naquela época ainda existiam os aparelhos coloridos
e os preto-e-branco. Ter uma TV com controle remoto... era luxo.
Se na década de oitenta
a sensação entre os jovens era o vídeogame, nos anos
noventa floresceu a informática. Os vídeogames foram
sendo cada vez mais aperfeiçoados; mas agora existia algo diferente
que proliferava no mundo e chamava a atenção em Porto Alegre:
o computador pessoal. Desde a década anterior já se sabia
da sua existência. Naquela época os modelos eram os "XP" (Xispê).
A partir de meados da década de noventa o equipamento começou
a se difundir entre a população. Primeiramente ele foi absorvido
pela classe alta. Logo em seguida pela classe média. Junto com o
deslumbre do aparelho viria outra sensação: a Internet.
A Internet surgiu nos planos
norte-americanos de combate à União Soviética. A idéia
da Internet, surgida na década de setenta, era possibilitar uma
comunicação no formato de rede que não tivesse nenhum
centro. Dessa maneira seria quase impossível ao inimigo combater
esse novo meio de comunicação. Cada "nó" da rede (Internet)
era autônomo na produção de mensagem e divulgação
da mesma para os outros "nós". Ao contrário da televisão,
a Internet possibilita a comunicação entre "muitos" e "muitos".
Isso está relacionado com o potencial "produtor" que a nova
mídia possibilita. Multiplicam-se os canais (na Rede/Internet) que
divulgam informações e tratam de "serem ouvidos". Agora muitos
são os produtores de informação e eles estão
de todos os lados; não somente do lado de uma classe econômica
ou politicamente dominante (onde poderíamos situar as emissoras
de televisão).
O computador/Internet faz
parte de um conjunto de meios de comunicação embasados pela
tecnologia digital - mídia digital. Com esse novo suporte (diferente
do impresso e do eletrônico) é possível transmitir
a informação sem distinção (imagem, vídeo,
voz e dados) na forma de bits e bytes. Nas últimas duas décadas
a expansão da Rede superou a de qualquer outro invento do ser humano
(comparando a quantidade de indivíduos que a utilizam e quanto tempo
levou para atingir esse patamar). Atualmente o número de sites publicados
na Internet chega a cifra dos milhões.
O meio de comunicação
propiciado pela Internet possibilita a comunicação em escala
mundial. A partir da Rede são colocados à disposição
canais de comunicação entre diferentes partes do globo terrestre.
A partir dela os indivíduos podem compartilhar informações
(na forma de imagem, voz ou dados) em fração de segundos,
mesmo situados em continentes diferentes. Esse panorama faz pensar que
essa tecnologia corrobora a integração mundial, que é
pregada pelo modelo de globalização iniciado no século
XX e resultante dos avanços do capitalismo.
O resultado é visível
na potencial heterogeneidade de informações disponibilizadas,
tanto quanto na diversidade de usuários. Isso significa que diferentes
manifestações culturais são divulgadas via Internet
para o resto do mundo. Seguindo a forma da Internet (comunicação
entre "muitos" e "muitos"), vários são os produtores e consumidores
de informação. Fica claro um panorama onde prevalece a heterogeneidade
e a diversidade de estilos de vida e manifestações culturais.
Porém, o leitor deve ser alertado de que este cenário pode
assim ser conceitualizado quando consideramos o conjunto da Rede, a Internet
toda em sua dimensão mundial.
Em solo brasileiro a Internet
foi tomando forma na metade da década de noventa. Em 1995 o Ministério
das Comunicações e o Ministério da Ciência e
Tecnologia começaram a incentivar a criação de provedores
privados de acesso à Internet. Até então o acesso
era gerenciado por órgãos de pesquisa (como o CNPq) e governamentais.
Em 1996 a Prefeitura de Porto Alegre inaugurou o seu provedor de acesso
a Internet: a Portoweb. Logo em seguida surgiram diversos provedores privados
sediados na cidade: Conex, ZAZ (que mais tarde se transformou em Terra),
Matrix...
Até o final da década
de noventa os porto-alegrenses viam na cidade uma difusão cada vez
maior do aparelho computador e do acesso à Internet. Rapidamente
várias residências, escritórios e estabelecimentos
comerciais possuíam um computador e conexão à Internet.
Aos jovens estudantes, ou aos que ingressaram no mercado de trabalho nessa
época, talvez não fosse tão impactante a nova tecnologia.
Porém, a possibilidade de enviar um documento via e-mail, a troca
de informações via Internet e o acesso à sites de
bibliotecas, universidades e empresas, entre tantas possibilidades, transformava
a vida em Porto Alegre. A cada dia surgiam novas lojas especializadas em
equipamentos de informática. Surgiram até feiras dedicadas
ao segmento. Nelas era possível comprar equipamentos e peças
mais baratas que o normal no mercado. Logo também foi possível
perceber uma mudança na linguagem dos porto-alegrenses. Eles começaram
a tratar de assuntos novos: "te mando um e-mail", "acessa meu site", "já
foi nesse chat?", "qual o teu provedor?"...
Rapidamente, também,
a conexão à Internet deixou de ser "discada" para ser
"via cabo". No final da década de noventa o acesso à Internet
era feito, predominantemente, via linha telefônica. O "cabo" (ou
cable)
era uma novidade lá por 1998. Hoje em dia ele também proliferou
e divide com a "discada" as formas possíveis de acesso. No início
os provedores da capital eram todos pagos. O serviço tinha uma tarifa
mensal. O usuário de Internet tinha um número limite de horas
de acesso. Usando mais se pagava mais. Porém, em 1999, surgiu o
"paraíso": o acesso gratuito. O primeiro provedor porto-alegrense
de acesso gratuito à Internet foi o "Católico". Ele era gerenciado
pela Arquidiocese da Igreja Católica em Porto Alegre e tinha a finalidade
de oferecer o serviço para o usuário comum e para as instituições
filantrópicas. Logo desapareceu. Na mesma época surgiu no
Brasil o "IG" (Internet Gratuita). Esse provedor contemplava várias
capitais brasileiras, entre elas Porto Alegre. E existe até hoje.
Alguns outros provedores gratuitos surgiram. Alguns logo desapareciam.
Outros sobrevivem até hoje.
Com aparelhos de computador
a preços mais baratos (ou pelo menos financiados) e a difusão
do acesso à Internet, logo a idéia da informática
tomou conta dos porto-alegrenses. A cada dia que passava uma nova residência
ficava "conectada" à rede. A nova tecnologia era difundida mais
rapidamente pelos jovens e cada vez mais eles estavam "navegando" por sites,
trocando e-mails e se comunicando em chats. O encontro virtual em salas
de bate-papo virtual (chat) cada vez mais ia seduzindo os jovens da cidade.
Primeiros efeitos
E o que acontece
quando uma tecnologia difundida em âmbito mundial aporta em Porto
Alegre?
Durante
o século XX várias tecnologias chegaram nessa cidade e mudaram
seu ritmo. Cada uma dessas tecnologias trouxeram à Porto Alegre
uma nova representação de tempo e espaço. Assim como
acontecia em âmbito mundial, pelo menos no ocidente, o tempo começou
a se tornar uma dimensão cada vez mais descontínua (Featherstone,
1995: 21).
Em termos de espaço
cabe a observação de Anthony Giddens
a respeito do "alongamento" da relação entre formas sociais
e eventos locais, ao qual o autor se refere como sendo característico
de um movimento de globalização. Para ele esse fenômeno
pode ser definido como sendo "a intensificação das relações
sociais em escala mundial, que ligam localidades distantes de tal maneira
que acontecimentos locais são modelados por eventos ocorrendo a
muitas milhas de distância e vice-versa" (Giddens, 1991: 70).
O que nos propõe pensar da mesma maneira a respeito da inserção
do conjunto computador/Internet em solo porto-alegrense.
Pesquisando sobre essa união
(Porto Alegre + computador/Internet) cheguei a um fenômeno
que envolvia interação social e mídia digital. Uma
nova tribo, seguido o sentido proposto por
Michel
Maffesoli (1987), começou a ocupar a cidade no início
do século XXI: a turma de chat. São os jovens porto-alegrenses
que cultivam a sociabilidade virtual via Internet e organizam suas relações
a partir daí. E é justamente aí que o conjunto computador/Internet
deixa de ser um espaço onde prevalecem, majoritariamente, heterogeneidade
e diversidade, para dar lugar a nichos de sobrevivência de minorias
metropolitanas, as quais prezam pela homogeneidade de classe (ou mesmo
etária) e estilos de vida.
O conjunto computador/Internet
mistura características do telefone, da televisão e do vídeo
game e nos lembra dos momento em que a cidade os recebeu. Cada uma dessas
tecnologias teve um momento de inserção na cidade de Porto
Alegre. Aliado a cada um deles, a sociedade revelava uma forma de utilização
das tecnologias e envolvimento com elas. Em cada um desses momentos uma
nova cena tomou a cidade. Atualmente o cenário é de difusão
do computador/Internet, das tribos de chat, dos indivíduos conectados
e interagindo em forma de rede e revelando a peculiaridade desse tipo de
envolvimento.
Tornou-se uma experiência
comum para quem utiliza computador/Internet o acesso a uma sala de bate-papo
virtual (chat). A primeira experiência com a comunicação
via chat de conversação escrita gera caminhos a serem seguidos.
O indivíduo, ou não gosta e acaba por repudiar, ou se coloca
de maneira neutra, ou então segue a utilizar o sistema. Entre esses
três níveis existem gradações. Por exemplo:
entre os que utilizam o sistema existem os que usam eventualmente e os
que utilizam regularmente. Entre os que utilizam regularmente existem os
que criam laços de amizade mais duradouros e se tornam parte de
uma rede social mediada pelo contato do computador, e ainda, os que não
se inserem em redes. Estes acabam por estabelecer contatos mais efêmeros
e fortuitos.
Pensando a partir de dicotomias,
podemos pensar a associação entre computador/Internet e Porto
Alegre como criando dois mundos. De um lado, o mundo on-line, que
é aquele que medeia a interação entre indivíduos
virtualmente a partir da mídia digital. De outro lado temos o off-line,
que é aquele mundo que envolve a interação entre indivíduos
sem o equipamento computador/Internet. Nesse caso, é quando os indivíduos
interagem face a face, diferentemente do outro modo, que é a partir
da interface do monitor/computador que coloca os indivíduos em interação
via Internet.
Lembro o leitor da proposta
inicial: refletir sobre o momento em que a tecnologia digital do computador/Internet
se associa com a cidade de Porto Alegre criando um novo espaço de
trocas sociais. Dessa forma, serão consideradas paralelamente as
duas formas de interação (on e off-line). Contemporaneamente
algumas pesquisa dão conta do espaço de interação
que se cria com a forma de comunicação on-line. Nesse caso,
tratam basicamente de uma desterritorialização em potencial
que está presente na Internet. É quando não importa
se um indivíduo está a quilômetros de distância
de outro. Importa é que estão cultivando uma interação,
independente da proximidade geográfica e dependentes do espaço
virtual de trocas que se forma.
Esse tipo de espaço
também está presente na interação entre indivíduos
"próximos", moradores da mesma cidade, por exemplo. No entanto,
o diferencial está na associação estreita existente
entre as dimensões on e off-line. Isso significa que, nesse caso,
é importante o fato de dois indivíduos estarem em interação
e próximos geograficamente. Ao invés de uma desterritorialização,
nesse caso há uma territorialização, pelo menos
quanto ao que se refere à propensão ao encontro social. É
quando o fato de ser ou não ser de Porto Alegre influencia a interação
virtual efetivada em ambiente de chat. Observando mais especificamente
fica clara, inclusive, a propensão à sociabilidade com indivíduos
ainda mais próximos, aqueles que moram em uma determinada zona da
cidade.
No caso pesquisado, foi esse
o aspecto que ficou mais claro. Embora a vivência essencialmente
on-line tenha vida autônoma, a associação, e daí
o termo "estreitamento", da vivência on e off-line foram os aspectos
mais claros no tipo de sociabilidade que atualmente se opera via computador/Internet
na cidade de Porto Alegre a partir do chat do Provedor Terra Porto Alegre.
O que coloca os pesquisadores desse tema diante de um novo contexto: aquele
em que se misturam as vivências on-line em chat e off-line no contexto
urbano da cidade e nos lembra do título desse artigo.
O aspecto visual
Para pensarmos no
conjunto computador/Internet atual precisamos explorar em que bases ele
se desenvolve. O que nos leva à interface gráfica. Por interface
devemos entender o conjunto de elementos (tanto hardware quanto software)
que fazem a mediação do usuário com a informática.
A interface utiliza o suporte da mídia digital. Porém, se
baseia na idéia da linguagem analógica (do mundo ao redor
dos seres humanos, das coisas que os cercam). Em termos de hardware, o
principal elemento suporte da interface é a tela do monitor. Através
dele é que o usuário irá interagir com o sistema.
Em termos de software, o suporte advém da plataforma visual do sistema
operacional do computador.
Há algumas décadas
o sistema operacional comum dos computadores pessoais possuía a
interface de linha de comando . A mediação entre usuário
e informática se dava pela constante programação do
primeiro sobre a segunda. Significa que, por exemplo, o gerenciamento de
arquivos no computador se dava pela ordem escrita do usuário. Este
digitava, via teclado, um comando escrito e a partir daí o arquivo
era aberto, ou apagado, ou transferido de pasta, e assim por diante. Atualmente
a interface é visual. Isso significa que não é preciso
digitar comandos para as tarefas serem executadas. O usuário de
hoje, via mouse, por exemplo, interage com a imagem digital projetada na
tela do monitor e, clicando ou arrastando, executa as tarefas normais de
gerenciamento de arquivos. Por mais que atualmente possa parecer uma tarefa
natural, interagir via imagem do computador, da maneira como fazemos hoje,
condiciona uma série de questões envolvidas com a percepção
humana. A "linha de comando" não deixou de existir, apenas mudou
de lugar. Antes o próprio usuário de computador tinha que
ser detentor do conhecimento necessário para interagir por meio
da linha de comando. Agora a linha de comando fica a cargo do programador.
Ao usuário é mostrada uma outra camada, que possibilita a
interação, que é a visual. As camadas, visual e de
linha de comando se sobrepõem. A interação do usuário
não-programador com a interface do computador se dá por imagens.
Steven
Johnson (2001) nos traz o contexto em que surge a interface gráfica.
Ele lembra que Doug Engelbart, em 1968, foi o primeiro a projetar uma interface
para relacionar o usuário de computador com a máquina. Analisando
tecnicamente, essa relação é complicada. A linguagem
de computador é organizada em códigos binários (zero
ou um) ou abreviaturas de comandos. Já a linguagem do ser humano
se dá em outros termos, a partir da fala, de gestos, da escrita,
da comunicação visual, etc. O invento de Engelbart tratava
de conciliar a linguagem digital com a percepção humana (linguagem
analógica). Para isso ele partiu da idéia de "mapear bits".
Foi a primeira vez que o computador digital começou a revelar "espaços".
O usuário poderia ir "lá" ou "cá", procurar arquivos
em determinados lugares no computador... e assim por diante. Foi nesse
momento que surgiram as primeiras "janelas" na tela do computador.
O usuário poderia
abrir espaços (janelas) que possibilitassem a interação
com a máquina e seus arquivos. Porém ainda não era
possível sobrepor as janelas. Com Alan Kay (Johnson,
2001) surgiu essa possibilidade. Ele se baseou na idéia das pilhas
de papéis. Ora, no seu mundo ao redor o indivíduo pode organizar
papéis uns sobre os outros. Os que está utilizando ele coloca
sobre os demais. Os menos importantes abaixo... Por que não aplicar
essa idéia ao espaço digital? Sobre a inovação
trazida por Alan Kay Steven Johnson faz a seguinte consideração:
"Podíamos entrar
e sair da paisagem da tela, puxar coisas na nossa direção
ou afastá-las. A revolução do mapeamento de bits nos
dera uma linguagem visual para a informação, mas as pilhas
de papel de Kay sugeriram uma abordagem mais tridimensional, um espaço-tela
em que era possível entrar. Toda a idéia do computador como
um ambiente do mundo virtual, tem origem nessa inovação aparentemente
modesta, embora fossem ser necessários muitos anos para que esse
legado se tornasse visível." (Johnson,
2001: 40)
A partir de então,
a interface gráfica do computador foi recebendo inovações.
A maioria delas baseadas em metáforas do mundo analógico.
Foi tomando forma um sistema operacional que imitasse o mundo ao redor
do usuário, sua área de trabalho, sua escrivaninha, seu fichário,
sua lixeira... Se a lógica de um escrivaninha é reproduzida
no computador, então quem a utiliza fora do computador vai ter uma
facilidade maior de interagir com a máquina. Possivelmente o usuário,
assim como faz em sua mesa de trabalho, irá, na tela do computador,
colocar algumas coisas de um lado, outras de outro, empilhar algumas janelas
(assim como faz com papéis), etc. Da mesma forma ocorre com a lixeira.
A lógica da lixeira, sendo reproduzida na tela do computador, induz
o usuário a saber deletar (apagar) arquivos.
O sistema operacional de
interface de linha de comando causava um certo distanciamento com o usuário.
A interface gráfica trouxe o usuário para perto da tela do
computador fazendo com que ele "mergulhasse" na imagem digital. A partir
daí surge na tela do computador um espaço com profundidade.
O usuário tem a percepção de que pode entrar nesse
espaço, nesse mundo virtual. Philippe Quéau
(1993) defende que atualmente existe a proliferação de "imagens
de síntese". O nicho onde elas ocorrem é o mundo informático.
Esse tipo de imagem é
diferente do até então produzido pelo registro da luz feito
pela fotografia. A imagem a que ele se refere é a binária,
de computador. Essa imagem não é do mesmo tipo que a obtida
pela fotografia. A "imagem de síntese" a que ele se refere é,
antes de tudo, linguagem. O computador/Internet é um meio de comunicação
que privilegia o layout e a relação visual com o usuário.
A formação de um espaço se dá na imersão
nas imagens que se sucedem na tela do computador. É aí que
o meio de comunicação atinge o status de lugar, de ciberespaço.
Há a possibilidade de "mergulho" nessas imagens disponibilizadas
virtualmente. Entendo que seja nesse movimento que a simulação
produzida na interface gráfica adquire um poder de envolvimento
do usuário do computador/Internet. Vamos pensar nas salas de bate-papo
virtual (chat).
Chat
O chat é
um sistema de comunicação com especificidades e lógica
própria. Ele simula o ato de se estar em uma sala com outras pessoas.
Os criadores da interface gráfica enfrentavam um dilema: ou tornavam
os softwares amigáveis e reproduziam tudo do mundo real (até
os defeitos e problemas, ex. da máquina de escrever e as teclas
emperradas) ou criavam uma mistura entre algo que lembrasse o mundo analógico,
mas que na plataforma digital tivesse uma lógica própria,
que expandisse a funcionalidade. A partir daí podemos pensar a respeito
dos chats de Internet e como eles simulam a sociabilidade "real".
O ambiente de chat é
formado pela página de Internet que possibilita a interação
entre os usuários do sistema. Essa página é composta
geralmente por duas partes básicas: uma "listagem" das mensagens
compartilhadas entre os diversos freqüentadores do chat naquele instante
e um "formulário" de envio de mensagem escrita. Na listagem aparecem
emissor e receptor da mensagem. O resultado é a composição
de um texto coletivo no formato de diálogos. Por exemplo:
Anjinho_puc
fala com G@t@ : legal vc's sempre fazem esses encontros?
G@t@
fala com §°ANJO AQUARIANO°§™: e aí..me achou mto
feia ??? ( seja sincero !!)
§°ANJO
AQUARIANO°§™ fala com G@t@: Ai guria tu é gatinhaaaa
vocalista
louco ICQ : onde é esses encontros ???
G@t@
fala com Anjinho_puc: foi a primeira vez q eu fui em um encontro
!
vocalista
louco ICQ : gostaria de participar.....
G@t@
fala com Anjo[ÐM]©: vc nem falou direito comigo lah no encontro
! :o(
O formulário geralmente
é composto por:
a) um campo de preenchimento
da mensagem escrita que será enviada;
b) o destinatário
(escolhido em uma lista que apresenta os usuários do chat naquele
instante - quem está conectado);
c) o modo de envio (se "aberta"-visualização
pública ou "reservada"-visualização exclusiva do emissor
e receptor); e, d) mecanismos performáticos digitais padronizados
que serão enviados agregados à mensagem escrita.
A imagem a seguir nos esclarece
sobre a interface do chat:

Existem outras modalidades
de layout de chat. Cada criador de chat (geralmente um provedor de Internet)
tenta produzir um ambiente ao mesmo tempo funcional e agradável
ao usuário. Porém é recorrente a utilização
do formulário na base da tela. Os dois espaços (listagem
e formulário) não se misturam. A sua disposição
lembra a tentativa de Elgelbart e os primórdios das "janelas" digitais
projetadas na tela do computador.
Sociabilidade via Internet
No chat a comunicação
é dinâmica e lembra a conversação. A troca de
mensagens ocorre rapidamente entre emissores e receptores, o que se chama
de "tempo real", ou melhor, sincronia. A troca de mensagens via e-mail,
por exemplo, também pode ocorrer em tempo real. Nesse caso é
preciso que alguém envie uma mensagem e alguém, imediatamente,
receba e leia essa mensagem. No entanto, o costume aliado à modalidade
do e-mail é de se utilizar a assincronia. Isso significa que a mensagem
é enviada de um emissor a um receptor. Porém esse só
irá tomar conhecimento da mensagem em algum momento oportuno, talvez
no mesmo dia do envio, talvez em outro dia, e assim por diante. A comunicação
via Internet pode variar entre os modos sincrônico e assincrônico.
Cada caso possui certas especificidades e propiciam um tipo de envolvimento
social.
No caso do chat, comunicação
sincrônica, há a possibilidade de um tipo de envolvimento
semelhante à sociabilidade. Digo semelhante porque não é
do tipo clássico proposto, por exemplo, por Georg
Simmel e Alfred Schutz. A sociabilidade via Internet
compartilha alguns pontos dessas teorias, porém possui especificidades
que devem ser respeitadas e nos propõem cunhar um novo conceito,
o de "sociabilidade virtual". As características desse tipo de envolvimento
social são resultantes da principal característica do meio
em que a troca comunicativa ocorre: no meio virtual, via on-line.
Para Georg Simmel os indivíduos
sempre procuram formar uma unidade - sociedade - de acordo com seus impulsos.
Esses impulsos formam o conteúdo. Essa matéria ainda não
é social. Somente o é quando toma a forma de uma sociação
pela qual os indivíduos satisfazem seus interesses. Ele argumenta
que: "Esses interesses, quer sejam sensuais, ou ideais, temporários
ou duradouros, conscientes ou inconscientes, causais ou teleológicos,
formam a base das sociedades humanas" (Simmel,
1996: 166).
Segundo Georg
Simmel, na sociabilidade há a reviravolta entre o conteúdo
gerador do encontro e a forma dele transcorrer. A forma passa a determinar
o conteúdo e torna-se um valor supremo. A sociedade, que significa
uma agregação de indivíduos em embate uns com os outros
gera os conteúdos ou interesses materiais ou individuais. Por exemplo,
os interesses econômicos fazem com que os indivíduos se agreguem
em associações, irmandades, etc. Mas também está
presente um impulso de agregação (forma). Ele pode, às
vezes, sugerir os conteúdos concretos da associação.
A sociabilidade também está além das realidades objetivas
da vida real. Ela é um "impulso" (forma) e não está
atrelada, nem condicionada a motivações concretas (conteúdo,
matéria). "Isso nos dá uma imagem abstrata, na qual todos
os conteúdos se dissolvem no mero jogo da forma" (Simmel,
1996:169).
Para Alfred
Schutz (1979) as pessoas agem em função de experiências
da vida cotidiana. Mesmo havendo uma multiplicidade de "mundos" e "realidades",
são pessoas que buscam experiências significativamente comuns
no envolvimento do "nós" (face a face). O envolvimento está
sempre como uma possibilidade objetiva, sempre atrelado a um desejo de
intersubjetividade. A partir do presente vivido um indivíduo percebe
o seu semelhante, o Outro. A interação social pressupõem
a existência de uma simultaneidade vivida. Essa simultaneidade abrange
tanto a percepção do Outro enquanto pessoa, como a percepção
de seu pensamento. Existe um deslocamento no tempo compartilhado, ao que
Alfred Schutz se refere como sendo um "envelhecermos juntos". Isso significa
que, da mesma forma que experimento a consciência do Outro no presente
vivido, ele experimenta a minha consciência.
A sociabilidade está
condicionada a atos comunicativos entre um Eu que se volta aos Outros e
os apreende como pessoas. Esse processo se dá a partir da percepção
do Outro enquanto um corpo no espaço que compartilha comigo um ambiente
comunicativo comum. "O ambiente comum de comunicação pressupõe
que a mesma coisa que me é dada "agora" (mais precisamente, num
"agora" intersubjetivo), com um determinado colorido, pode ser dada a Outro
do mesmo modo, "depois", no fluxo do tempo intersubjetivo, e vice-versa"
(Schutz, 1979: 161-2).
Em ambiente de chat é
visível a relação simmeliana entre conteúdo
e forma. Os usuários de chat começam a utilizar o sistema
interessados em diversos assuntos. Entre eles, prevalecem o combate ao
sentimento de solidão e a busca por participar de uma coletividade,
assim como a busca por envolvimentos amorosos. Durante a comunicação
com outros usuários cria-se um conjunto de estratégias que
articulam diversos assuntos para sustentar a interação. Nesse
momento percebe-se a redução da presença da variável
conteúdo e aumento da forma. Não importa sobre o que se irá
bater-papo. O importante é estar interconectado e trocando mensagens.
Podemos observar essa substituição de centro de importância
quando verificamos que os assuntos tratados no momento de interação
via chat são efêmeros e fortuitos.
O
que permanece inalterado é o desejo de trocar mensagens, de estar
ligado com algum outro usuário por um canal de comunicação.
Isso ocorre tanto para aquele freqüentador eventual, quanto para o
regular, que está inserido em uma rede de relações
mais duradoura. No caso do interesse de se envolver amorosamente, este
acaba ficando em segundo plano em relação ao convívio
com demais usuários. Os indivíduos acessam o chat e ficam
ali, trocando mensagens, batendo papo. Tudo parece, até certo ponto,
despretensioso, mas está latente o desejo de "ficar" ou "namorar".
Entretanto, para não estar sozinho é preciso que o freqüentador
entre no jogo que existe na convivência em ambiente de chat e apreenda
suas regras e estratégias.
Em relação
à elas, as principais que se manifestam são o tipo de linguagem
e a alternância entre mostrar e esconder. Sobre a linguagem cabe
colocar que ela privilegia a iconografia, que é quando uma palavra
agrega tanto as dimensões visual quanto sonora. A potencialidade
fonética da comunicação oral fica manifestada na comunicação
escrita em ambiente de chat. Da mesma forma que a visual. Ou seja, a comunicação
no chat se dá via significados emitidos na maneira de redigir uma
palavra ou oração. Para isso são utilizados recursos,
principalmente o código alfa numérico. Sobre a estratégia
de conduta em chat me refiro ao jogo que se dá na alternância
entre os modos "aberto" e "reservado" de comunicação.
Teclar "no aberto"
ou "no reservado" indica a disposição da pessoa. Manter
um canal comunicativo no modo aberto significa estar aberto à participação
de outros freqüentadores, mesmo que isso não seja aceito com
tanta facilidade na prática. Caso alguém tente se intrometer
na conversa de dois freqüentadores de chat, o resultado pode ser inútil,
ele pode ser ignorado. A abertura está mais indicada a quem pertence
à rede que se forma na interação. Alguém que
converse no "aberto" indica com quem se relaciona. Mostra a proximidade
com algum outro freqüentador e mostra de qual rede participa. Nesse
caso torna a conversa pública, assim como o laço de amizade.
Entre freqüentadores
que não estão inseridos em uma rede de relações
é mais comum a utilização do modo reservado. A busca
por envolvimentos amorosos está bastante presente e é feita,
nesse caso, por um canal de comunicação discreto. Talvez
porque evitam divulgar o teor da conversa para os demais presentes na sala.
Utilizar o modo reservado pode ser também um simples desejo de manter
a conversa livre da interferência de demais freqüentadores,
mesmo que ela não tenha um teor de envolvimento amoroso.
O que se pode afirmar é
que a escolha pela divulgação ou não da comunicação
é apropriada simbolicamente pelos freqüentadores do chat. Essa
escolha também comunica sobre a disposição do indivíduo
em ambiente de chat. Mesmo que se escolha o modo reservado pela discrição,
poderá haver a interpretação de ser uma aproximação
amorosa. A opção pelo modo aberto ou reservado também
passa pela comunicação trocada na performance em ambiente
virtual. Geralmente é possível observar quem está
teclando no "reservado" quando alguém responde, no modo aberto,
a uma pergunta que não é possível observar na lista
de mensagens enviadas e recebidas (na listagem). É sinal que a pergunta
foi feita no modo reservado, mas a resposta foi feita no modo aberto. A
comunicação aberta ou reservada pode significar várias
disposições, assim como as "piscadelas" de Geertz (Geertz,
1989:16).
Enquanto interagem no
chat os usuários do sistema percebem outros usuários e compartilham
um mesmo tempo transcorrido e um mesmo espaço de convivência.
Alfred
Schutz trata da percepção do outro enquanto um corpo
no ambiente. Em ambiente de chat não estão presentes os corpos
dos humanos. Além disso, o conceito de ambiente é diferente
daquele proposto por ele. A percepção do outro se dá
pela percepção de um usuário utilizando um nick
e trocando mensagens. O nick atinge o status de signo e já começa
a expor os "motivos afim de". Embora vários usuários acessem
o chat ao mesmo tempo, a percepção do Nós ocorre quando
há a criação de um canal de comunicação
entre emissor e receptor da mensagem.
O ambiente compartilhado
passa a ser o da plataforma do chat, que se materializa no layout que é
visualizado pelo monitor do computador. Não há um contato
face a face. Ao invés disso temos uma relação "face
a tela" que é intermediada via uma interface visual de relacionamento.
No chat não há o contato schutziano de troca de olhares,
de sutileza e percepção do outro freqüentador. Ao invés
disso há a criação de um espaço com alto grau
de interpretação.
A interpretação
gera o descobrimento do Outro. Falta a visão do corpo do Outro,
falta ouvir o Outro, falta sentir o toque do Outro e falta cheirar o Outro.
Todas essas faltas criam a busca da descoberta do Outro. Se na sociabilidade
de Alfred Schutz, do contato face a face, essa "descoberta" está
presente, ainda mais na sociabilidade face a tela com falta da presença
física. Essa descoberta se dá simultaneamente. Os freqüentadores
de chat compartilham de um mesmo tempo transcorrido, o que aproxima a idéia
de existir um "presente vivido" e um "envelhecer juntos".
Esses dois pontos da teoria
schutziana somente são possíveis na sociabilidade em ambiente
de chat porque há, nessa convivência, sincronia das mensagens
enviadas. Não é o caso da comunicação por correio
eletrônico. A comunicação feita pela troca de mensagens
via e-mail não propicia o fenômeno de sociabilidade virtual.
Na comunicação por e-mail (e outros sistemas semelhantes)
não há a geração de simultaneidade. Nesse caso
há assincronia. Também não é o caso das "listas
de discussão", que são intermediadas por e-mail.
Por sociabilidade virtual
devemos entender a interação social realizada pela comunicação
sincrônica e com contato interpessoal mediado pela tela do computador.
Ela apresenta a mesma inversão entre forma e conteúdo apresentada
por Georg Simmel. O conteúdo de interesses
que gera a aproximação com outras pessoas dá lugar
ao prazer de se estar associado via imagem digital. No caso do chat parece
haver um processo de adequação da técnica em favor
da estratégia humana de estar acompanhado (não estar só,
interagir e socializar).
A sincronia é a mesma
da comunicação oral, com curto espaço de tempo na
troca de mensagens. Enquanto o emissor envia a mensagem o receptor já
está decodificando, com uma diferença de tempo de segundos.
Existe um presente compartilhado. Em sincronia uma pessoa testemunha a
presença da outra no seu mesmo tempo. Existe um imediatismo temporal,
da mesma forma que há um espacial (aquele da imagem com profundidade
projetada na tela do computador). Entretanto, nesse caso o espaço
que rodeia uma pessoa não é o mesmo que rodeia a outra. O
que há de igual é a tela do computador por onde se visualiza
o ciberespaço.
O ciberespaço
é composto por certas características que o elevam de simples
meio de comunicação à espaço compartilhado.
Nesse sentido, talvez a característica principal seja a de "deslocamento".
O internauta percebe a Internet e seu conjunto de sítios (sites)
como sendo um campo aberto ao trânsito. Ele pode estar em sua residência,
na frente de seu computador, ao mesmo tempo que freqüenta a biblioteca
da universidade, ou então o grupo de amigos no chat que se encontra
regularmente em tal sala de bate-papo. O que há realmente é
um constante "fluxo".
A existência de uma
rede organizada com constante troca de informação cria um
espaço simbólico de trocas. Manuel Castells
entende que com a Internet "as localidades se desprendem de seu significado
cultural, histórico e geográfico, e se reintegram em redes
funcionais ou em colagens de imagens, provocando um espaço de fluxo
que substitui o espaço de lugares" (Castells,
1998: 408). Por espaço de fluxo o autor entende um espaço
formado entre a origem e o destino da comunicação em rede.
Sendo assim, existe uma comunicação, por exemplo, maciça
entre uma cidade A e outra B. Nesse canal de comunicação
há um espaço de fluxo.
O envolvimento
Quando o conjunto
computador/Internet começou a proliferar em Porto Alegre várias
rotinas começaram a ser alteradas. Era mais fácil, por exemplo,
enviar e receber arquivos digitalmente via e-mail. E essa transformação,
embora hoje pareça naturalizada, foi extremamente significativa.
No mundo empresarial a presença dessa tecnologia facilitou a comunicação
e a troca de informações. Um orçamento de produtos
e serviços, por exemplo, que antes era no máximo enviado
via fax, com a Internet era enviado via e-mail. Com isso o tempo para realizar
essa tarefa foi reduzido. Não era mais preciso imprimir e passar
o orçamento na máquina de fax. Com a Internet o envio era
digital e imediato. Além disso, o receptor da mensagem poderia ser
múltiplo. Um emissor, com uma única ação (envio
de e-mail), poderia se comunicar (enviar uma mensagem publicitária,
por exemplo) com várias outras pessoas.
Não faltariam exemplos
de como o computador/Internet foi sendo utilizado. Em cada segmento uma
nova maneira de utilizá-lo. Na esfera acadêmica essa tecnologia
facilitou a obtenção de informações. Bibliotecas,
publicações e autores do mundo todo podem ser contatados
rapidamente via Internet. As tarefas de pesquisa se tornaram relativamente
mais fáceis e rápidas. A relação entre colegas
e entre professores e alunos também se modificou. Via e-mail ou
site eles podem rapidamente trocar informações sobre aulas,
curso, congressos e palestras. O que coloca uma outra condição:
ficou cada vez mais difícil participar do mundo sem um computador/Internet.
Uma experiência que
começou a se tornar cada vez mais comum foi interação
virtual em ambiente de chat de Internet. Em um primeiro olhar parece que
estão fortemente presentes o combate ao sentimento de solidão
e a busca por relacionamentos amorosos. Porém, não podemos
negligenciar que antes das motivações individuais existem
condições sociais propícias. Existe um momento e as
condutas individuais são fruto desse panorama. O surgimento do freqüentador
de chat faz parte do processo de "novo tribalismo" (Maffesoli,
1987).
A familiarização
com as máquinas, incluindo aí televisão, telefone
e computador, faz com que seja natural conviver em ambientes virtuais.
Existe uma base, tanto tecnológica quanto cultural, que suporta
o cultivo da sociabilidade em ambientes virtuais. Cerca de cinco anos atrás
esse fenômeno ainda causava certo estranhamento. De lá para
cá cada vez mais tornou-se banal, comum, diário e cotidiano.
Essa absorção é mais evidente entre as gerações
jovens e de classe média. Nelas a prática da sociabilidade
virtual mistura-se à vida cotidiana.
A interação
social via chat disponibiliza algumas facilidades para os indivíduos.
A principal delas é o conforto de poder estar em casa conectado
e poder conversar com outras pessoas, interagir com a turma de amigos,
fazer novas amizades, namorar, etc. Diante de um controle do anonimato,
as manifestações individuais são potencializadas em
ambiente de chat (Jungblut, 2000). Alguns freqüentadores
ficam fascinados por essas características. Além disso, devemos
ter claro que o ambiente de chat adquire o status de mais um outro ponto
de encontro na cidade de Porto Alegre.
Independentemente de estar
no ciberespaço, o chat se transforma em um local onde um segmento
de pessoas passa alguma parte do tempo do dia. Esse segmente possui um
perfil específico. Talvez fosse melhor tratar de "perfis", ao invés
de um perfil. Quando o computador/Internet começou a se difundir
na cidade de Porto Alegre o perfil do usuário era mais homogêneo.
Cerca de dez anos atrás prevalecia um tipo de usuário jovem,
com alto poder aquisitivo e do sexo masculino. Hoje em dia esse perfil
tornou-se mais heterogêneo. Embora ainda seja muito difundido entre
os jovens (entre 20 e 30 anos), o segmento com mais idade também
se tornou um grande utilizador de computador/Internet e chat.
A associação
entre chat e perfil do usuário é um fator de grande importância.
Dependendo do estilo de vida do indivíduo haverá um tipo
específico de envolvimento com essa tecnologia. Vamos pensar a partir
de alguns exemplos. O usuário adolescente, que geralmente acessa
a Internet de sua residência, provavelmente estará presente
na sala de bate-papo em um determinado horário. Provavelmente será
em um horário diferente daquele da escola. O horário de acesso
também será resultante do tipo de conexão que ele
utiliza, se discada ou via cabo. No primeiro tipo se utiliza a linha telefônica.
Paga-se o equivalente a uma chamada local. Acessar a Internet em horário
comercial, durante uma hora por exemplo, é muito mais dispendioso
do que acessar o mesmo tempo durante a noite. Para esse perfil de usuário
é comum freqüentar o chat durante a noite, quando são
oferecidos pelas empresas de telefonia descontos no preço da chamada.
A
tecnologia do cabo ainda é um tanto dispendiosa. Atualmente existem
várias alternativas no mercado. Algum tempo atrás o cabo
ainda era raro e caro. Atualmente, embora ainda seja um tanto dispendioso,
tornou-se mais popular e compete com conexão discada. A principal
vantagem do cabo está nele propiciar uma conexão exclusiva
a Internet (não utiliza a linha telefônica), com maior qualidade
no envio e recebimento de dados (maior quantidade e velocidade) e a um
preço único. Nesse caso, independente do acesso ser em horário
comercial ou não, paga-se um preço único ao final
do mês. Essa tecnologia tornou-se mais popular, primeiramente, no
setor empresarial. Porém, logo foi disponibilizada a preços
mais acessíveis e incorporada ao uso domiciliar. Um usuário
que possua essa tecnologia irá acessar o chat de forma mais independente
do horário, tanto em horário comercial, quanto a noite.
Também existe o usuário
de chat que o acessa de seu local de trabalho. É aquele indivíduo
que está trabalhando e fica o tempo todo conectado. Se ele não
possuir computador em sua residência, irá acessar a
Internet somente no horário comercial. Dependendo dessas variáveis,
principalmente local de acesso e tipo de conexão, haverá
a interação em ambiente de chat de pessoas com perfis semelhantes
e em determinados horários específicos. Os "trabalhadores"
geralmente acessam do local de trabalho, durante o horário comercial.
Os "estudantes" geralmente acessam durante a noite, de suas residências,
e assim por diante. Não existe algum tipo de regra em relação
a essas associações. Cabe apenas pensar que existe uma forte
e inegável relação entre o perfil off-line do internauta
e a condição para estar conectado, on-line, no ciberespaço.
Situação que irá determinar o momento de ser encontrado
por outros internautas... ou em ambiente de chat, ou de outra forma.
A forma
Quando começam
a freqüentar o chat os internautas acabam criando laços na
forma de rede. Existem os casos em que a pessoa acessa eventualmente o
chat e os casos em que o acesso é regular. Nos dois tipos de conduta
há a formação de rede. Entre freqüentadores regulares
a rede é mais estabelecida e se reproduz diariamente, com pouca
variação. Os freqüentadores eventuais criam laços
pouco estabelecidos, mesmo assim, a cada acesso criam laços com
demais internautas, que estão regularmente ou eventualmente na sala.
"Rede" é um conceito
adequado a tratar da organização social em meio urbano. J.
Barnes (1987) utiliza a "rede social" como um recurso analítico
capaz de dar conta de processos sociais onde a conexão não
se dá via limites de grupos e categorias. Isso ajuda a identificar
quem são os líderes e quem são os seguidores. As redes
sociais são um sistema analítico mais frutífero em
sociedades contemporâneas e complexas. Em sociedades tradicionais
há falta de direção na transmissão da informação.
Os gráficos a seguir ilustram essas situações:
Rede estabelecida
entre
freqüentadores regulares do chat (fevereiro de 2003).

Nesse caso "Anjo",
"Felina" e "Escorpião Rei" mantêm um contato quase diário
na sala "Porto Alegre A". "Aprendiz de Cafajeste", "Teddy", "Isa" e "Ani"
compartilham da mesma situação, porém utilizam a sala
" Porto Alegre B". São freqüentadores regulares. Cada um também
estabelece vínculos com demais pessoas do chat. "JulianaQ" também
está regularmente na sala, porém acaba mantendo mais contato
com "Anjo" e outras pessoas. "Escorpião Rei" costuma entrar na "
Porto Alegre A" e na " Porto Alegre B", mantendo vínculos com pessoas
dos dois ambientes.
Rede estabelecida
entre
freqüentadores regulares e eventuais do chat (março
de 2003).

Nesse outro exemplo temos
a rede ampliada. Estamos agora considerando os demais freqüentadores
do chat: os eventuais. Eles acabam se inserindo na rede. Esse é
o caso de "ju_psi". Ela entrou e começou a estabelecer contato com
alguém que mantém contato com "Escorpião Rei". Nesse
dia "JulianaQ" estava na sala " Porto Alegre B" e começou a manter
contato com "Aprendiz". Mal sabem eles que conhecem uma pessoa do chat
em comum, que é o "Anjo".
Todo o dia a disposição
gráfica da rede se modifica. Porém, os laços entre
freqüentadores regulares tendem a se repetir. São acrescentados
os laços dos freqüentadores eventuais. De qualquer forma, os
laços podem acabar sendo criados entre os vários tipos de
freqüentadores. O surgimento do freqüentador de chat está
estreitamente ligado a sua inserção em uma rede. É
quando ele começa a conhecer melhor outras pessoas, troca confidências,
cria amizades, conversa e experimenta o sentimento de grupo, de turma...
Os interesses
A apropriação
e movimentação no espaço social criado em ambiente
de chat se dá em decorrência de um perfil específico.
A turma da "Porto Alegre B" do Provedor Terra tem um perfil. Ele é
diferente daquele da turma da "Porto Alegre A". Esse era diferente ainda
do pessoal da "Conex". Em outros chats existem turmas com características
também diferentes. Ainda no período de definição
do grupo que seria pesquisado fiz contato com a turma do chat do Provedor
Terra "procura 30-40". Eram pessoas com mais idade. Outro tipo de poder
aquisitivo, outras aspirações na vida e outra relação
com o chat. Uma turma de chat cultiva hábitos comuns que garantem
a ela a coesão necessária para atingir o status de "grupo".
As características básicas que propiciam o encontro no chat
são: horário e dia da semana que costuma acessar. No entanto,
devemos lembrar que essas duas variáveis são ainda resultantes
da combinação entre as acumulações de capitais
econômico e cultural do indivíduo.
Na "Conex" havia "os do dia"
e "os da noite". Na sala " Porto Alegre A" o contato foi feito mais freqüentemente
no período da noite. Quem acessava naquele momento era um tipo de
usuário. Eles geralmente acessavam de casa, eram estudantes, adolescentes
e ainda sustentados pelos pais. Suas estratégias na relação
com o chat giravam em torno de interesses desse segmento. A turma da sala
"Porto Alegre B" tinha um outro perfil. Os membros dessa rede possuíam
um estilo de vida que garantia a eles compartilhar o mesmo espaço
virtual de chat, no mesmo momento. A partir daí existe uma condição
para a aproximação, o cultivo da sociabilidade e o surgimento
de uma "turma".
No caso da rede estabelecida
na sala "Porto Alegre B", a maioria dos seus membros acessava a Internet
do local de trabalho. O momento para o cultivo da sociabilidade era em
horário comercial. Para eles essa "fuga" das atividades profissionais
representava uma descontração momentânea. Além
disso, servia para preencher um sentimento que muitas vezes se queixavam:
a falta de colegas de trabalho e um tipo de sociabilidade desse tipo.
Muitos deles acabavam se
isolando da coletividade. Nesse processo, muito contribuíram o deslocamento
do local de origem (alguns vinham do interior) e as atuais condições
de trabalho. Um dos membros da rede da "Porto Alegre B", "Teddy", havia
a pouco saído de cidade natal (Erechim) para estudar em Porto Alegre.
E ainda, tanto ele quanto "Isa", outro membro da rede, compartilhavam de
um mesmo panorama do atual mercado de trabalho. No ambiente de trabalho
deles havia uma certa ausência de colegas. Ela é resultado
de um atual processo de redução dos postos de trabalho e
busca da "qualidade total". Isso significa que o empregado que antes fazia
certas funções, agora desempenha tarefas de cargos extintos.
Os postos de trabalho são reduzidos. Nesses casos não
existe uma "turma" do serviço que compartilha momentos de sociabilidade.
O cotidiano dessa rede era
acessar o chat do Provedor Terra, sala Porto Alegre B, no horário
comercial. Era possível ver quase todos os membros diariamente interagindo.
Dos seus locais de trabalho, onde majoritariamente era utilizada a conexão
via cabo, ficavam o tempo todo conectados na Internet. Isso lhes possibilitava
dar uma pequena "fuga" das atividades profissionais, entrar no chat e conversar
com os amigos. Alguns faziam isso várias vezes ao dia, outros, apenas
algumas vezes. De qualquer forma, acessar o chat e manter a comunicação
diária com a rede significava para eles pertencer a uma turma que,
nesse caso, possuía inclusive denominação: POA B.
Dessa forma eles criavam
para si um "pedaço" de trocas sociais, no sentido proposto por José
Magnani. O que nos possibilita tratar como sendo o "pedaço da
POA B". No pedaço há uma preeminência das relações
sociais e dos códigos e símbolos comuns. Mudando-se o ponto
no espaço, o pedaço é levado junto. A mancha é
fixa na paisagem (Magnani, 1984). Ela oferece um
conjunto de práticas que envolve os seus usuários (por exemplo
o caso do lazer). Ela é um ponto de referência físico.
Os dois não são isolados. As pessoas transitam entre eles.
Os caminhos não são aleatórios. Existem trajetos que
ligam pontos dentro da mancha. Através deles o pedaço é
aberto ao âmbito público gerando um circuito (Magnani,
2000).
Além de cultivar
momentos de sociabilidade virtual, entrar no chat também possibilitava
momentos de sociabilidade face a face em determinadas "manchas" (Magnani,
2000) da cidade. Era quando a turma combinava um encontro de seus membros
em algum lugar da cidade. Geralmente o local era escolhido a partir das
opções de lazer e boêmia que são disponibilizadas
atualmente na cidade. A escolha seguia o próprio perfil da turma:
membros jovens, com idade média de 22 anos, trabalhadores com médio
poder aquisitivo e média escolaridade. Na cidade de Porto Alegre
existem locais, incluindo aí bares e casa noturnas, destinados a
tipos de público diferenciados. A turma da POA B, por possuir
um perfil homogêneo e a partir de um capital cultural e econômico
específico , tratava de consumir simbolicamente, sendo freqüentadores,
locais da cidade de acordo com essas variáveis. Dessa forma, costumavam
organizar encontros da turma nos circuitos da "Lima e Silva" e da "Goethe".
Não era o que acontecia,
por exemplo, com a turma do chat "procura 30-40 anos". Nesse caso a rede
também organizava "encontros" face a face em determinados locais
da cidade. No entanto eram outros locais, destinados a um público
dessa faixa específica de idade e com poder aquisitivo mais elevado.
Pertencer à
POA B também significava participar de uma boêmia porto-alegrense.
Nesse caso considerando explicitamente as vantagens da sociabilidade face
a face, em detrimento da virtual, que operava quase como uma ferramenta
de aproximação. Alguns membros da rede residiam na Região
Metropolitana de Porto Alegre. Embora o Provedor Terra disponibilizasse
chats sob o título de suas cidades, alguns usuários preferiam
interagir na sala intitulada "Porto Alegre". Havia um desejo justamente
nesse tipo de convívio. Na Internet existem vários tipos
de chat, sob diversos rótulos: cinema, teatro, música, sexo,
profissões, religiões, etc. Cada um deles propõe associar
usuários com interesses semelhantes. Se, por exemplo, acesso o chat
"cinema", significa que lá poderei conversar com alguém que
também goste de cinema, independente de nossa interação
tratar desse conteúdo. Nesse caso prevalece a forma do contato (Simmel,
1996). O que nos remete ao caso de Porto Alegre e de como a sociabilidade
pode ser busca a partir da identificação com essa cidade.
O caso estudado nos faz refletir
sobre o encontro do sentimento de comunidade diante da forte globalização.
Para Manuel Castells (1999) a comunidade nunca
deixa de existir, mesmo com o movimento de urbanização das
grandes cidades. Para o autor, as redes sociais existem em todos os contextos,
mesmo na cidade e no subúrbio. Nesses casos o que ocorre é
a interseção de identidades locais com outras fontes de significado
e reconhecimento local. Cabe aqui citar as próprias palavras do
autor:
"O provável argumento
dos autores comunitaristas, coerente com a minha própria observação
intercultural, é que as pessoas resistem ao processo de individualização
e atomização, tendendo a grupar-se em organizações
comunitárias que, ao longo do tempo, geram um sentimento de pertença
e, em última análise, em muitos casos, uma identidade cultural,
comunal. Apresento a hipótese de que, para que isso aconteça,
faz-se necessário um processo de mobilização social,
isto é, as pessoas precisam participar de movimentos urbanos (não
exatamente revolucionários), pelos quais são revelados e
defendidos interesses em comum, e a vida é, de algum modo, compartilhada,
e um novo significado pode ser produzido." (Castells,
1999: 79)
A partir desse ponto de vista
podemos pensar em ser a sociabilidade virtual cultivada via Internet um
tipo de movimento urbano que leva à formação de comunidades.
Elas podem sobreviver independentemente de serem ligadas exclusivamente
à Internet, ou à relação face a face, ou uma
combinação entre os modos on e off-line de comunicação.
No final das contas a comunidade local de Porto Alegre, por exemplo, em
se tratando de jovens classe média , está combatendo a individualização
e a atomização praticando um vivência intermediada
pelos computadores.
Conclusão
Pesquisando a sociabilidade
mediada por computador e realizada via Internet, a partir de chat de comunicação,
percebi uma série de questões. A principal delas talvez seja
o estreitamento das dimensões on e off-line que marca a vivência
dos internautas. O chat adquire o status de lugar, como se fosse um entre
tantos outros pontos de encontro da cidade. A vivência do indivíduo
no ciberespaço é tão dramática, emotiva e complexa
quanto a interação face a face. Além disso, a própria
interação face a face é desejada pelos internautas.
Em todo o momento ficou clara uma propensão que eles têm de
interagirem, a partir do encontro virtual em chat, face a face em um segundo
momento. E essa não é uma questão que deva ser naturalizada
e deixada de lado. Se existe na representação simbólica
dos internautas uma aproximação entre modos on e off-line
de vivência, e uma busca, via Internet, do encontro pessoal (compartilhando
territórios da cidade), então alguma coisa ocorre diferentemente
do até então pregado por alguns pesquisadores do tema.
A experiência brevemente
trazida aqui nos faz refletir sobre a estreita associação
que atualmente se processa entre o computador/Internet e as condutas sociais.
Um dos aspectos mais claros está relacionado ao cultivo de um tipo
de sociabilidade que podemos denominar como sendo virtual. Esse conceito
surge do encontro de determinadas características. De um lado temos
a presença de práticas de sociabilidade ao "modo clássico",
sendo mantida pelo encontro face a face. De outro, está presente
a especificidade gerada por tal tecnologia: a presença da interface
gráfica como mediador do encontro social.
Pesquisar tal panorama significa
dar conta de um fenômeno urbano. É quando o interesse de classe
e a busca por um consumo de estilo de vida passa por uma apropriação
da tecnologia digital. O computador/Internet é apropriado como uma
ferramenta que proporciona a interação em forma de rede,
a inserção em uma turma e a possibilidade de cultivo de sociabilidade
e ocupação de circuitos urbanos. A prática do lazer
e da boemia passam por essa dimensão. As interpretações
que foram apresentadas aqui seguem a linha de uma Antropologia da Internet.
Nesse caso foi priorizada a questão da sociabilidade. Outras podem
ser exploradas via "olhar antropológico". Os pesquisadores interessados
em investigar esse campo terão diante de si um cenário rico
e múltiplo de elementos.
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