OLHAR A DIFERENÇA: PERCURSO ANTROPOLÓGICO PELAS IMAGENS DAS MARGENS SOCIAIS

Gisela Maria Gracias  Ramos Rosa
Mestre em Relações Interculturais

Universidade Aberta de Lisboa
Lisboa-Portugal 



 
 
 


 

Reprodução de postal da Keesing Reference Systems B.V. Amsterdam, Artesen Zonder Grenzen, Astrid Engels.  título Seat of My Soul



 
 
 
 
 
 
 
 

Introdução
As questões que levantamos nesta pesquisa questionam, por um lado, a forma como os media, e, em particular, o filme Zona J (de LeonelVieira), representam criminalmente os jovens afro-descendentes e, por outro, que influência podem ter os media nas identidades construídas nas margens sociais.
Trabalhei o social observando as redes de produção cultural, para perceber como a sociedade através das instituições que cria e perpetua, nelas se reproduz e nelas se representa.  O filme revela-se "(…) como um mundo que se organiza em narração" na medida em que "(...) toca a realidade, tira alguma coisa dela…"(Monteiro, 1996:70). Zona J  e o documentário Outros Bairros surgem neste universo de pesquisa como mediadores da realidade focada. Mais que construções dos respectivos autores, os produtos fílmicos são concebidos, por todo um aparelho de produção que os acompanha e situa histórica e socialmente. Funcionam, por outro lado, como modelos cognitivos de representação e apresentação do real para o espectador, também ele, situado num contexto social, económico e histórico específico e como tal lugar heterogéneo de recepção marcado por diferentes recursos materiais e simbólicos. O significado das imagens, pode não estar no referente, mas na interacção entre uma determinada mensagem e um espectador em contexto social específico. O que resulta da fruição das imagens pelo receptor depende, pois, do seu contexto histórico, mas também do seu acervo biográfico que permitirá tratar ou crivar a informação recebida.
Problematizar a situação dos jovens afro-descendentes implicava a abordagem dos seus lugares de socialização cada vez mais determinados pelos media e pelo mercado capitalista da  sociedade de consumo global. Como reagem esses jovens aos apelos mediáticos? O que pensam e como pensam? Os seus contextos de não inserção revelam tendência para construções identitárias míticas? Não será o sistema em que se funda a escola actual um dos produtores de exclusão destes jovens em relação à sociedade? Muitas destas questões foram surgindo no decorrer da pesquisa elevando muitas outras interrogações com as quais me cruzei.

 
 
 
O porquê deste percurso 
A ciência do paradigma emergente é mais contemplativa do que activa. A qualidade do conhecimento afere-se menos pelo que ele controla ou faz funcionar no mundo exterior do que pela satisfação pessoal que dá a quem ele acede e o partilha.  (Santos, 1987:54)
 
Qualquer trajectória de vida individual ou colectiva marca intimamente as construções científicas dos homens e mulheres sujeitos do conhecimento, sendo mesmo o que atribui consistência às suas opções no terreno de estudo, pois senão "os nossos trabalhos de campo constituiriam um emaranhado de diligências absurdas sem fio nem pavio" (Santos, 1987:53). 
 

O percurso de que vos falo é, também, reflexo de mim. Por isso falo aqui da investigadora, não como centro de um processo, mas como a ponte que permitiu atravessar um processo e chegar aqui. 
 

A geografia do meu nascimento doou-me uma  constelação cultural que se iniciou na família, forma mais subtil de transmissão cultural, onde absorvi referências portuguesa (do meu pai) e goesas (da minha mãe). A essas influências somei as minhas, biológicas e sociais. Fui  socializada em África até aos 12 anos, e em Portugal a partir daí.  Confluíram, pois, para este mapa pessoal cartografias várias que me colocam dentro e fora dos processos sociais. Falo-vos, por conseguinte a partir de um lugar de cruzamento, de hibridez e mestiçagem.
 

Moçambique, onde nasci, deu-me a expressão das dinâmicas culturais em presença. A minha identidade construiu-se em moldes que me conduziram a uma imagem própria do meio social, para lá das culturas em si, a uma posição social de insider/outsider.
 

Fui-me apercebendo que a configuração que assume a assimetria cultural imposta aos estrangeiros assenta não só num mero fenómeno de centração cultural advinda da "distância" face aos outros, mas de mecanismos mais complexos de fixação de identidades culturais colectivas marcadas pelo poder e pelos centros hegemónicos. 
 

Apesar de cada indivíduo ou cultura resultar de uma combinação infinita de heranças próprias e das que resultam do contacto com o meio (Laplantine e Nouss, 1997) e de sabermos que as nações são hoje "híbridos culturais" (Hall) resiste-se, ainda, à aceitação de novas formas transnacionais e transculturais, dos viajantes da diáspora com duas ou mais culturas, à mestiçagem enunciada para além de todas as diferenças e de todas as igualdades. Se a proximidade revela as diferenças entre sistemas de representação culturais distintos, promove também a necessária transformação na forma de conhecer e pensar os Outros próximos de nós. Essa urgente viragem cognitiva em relação ao conhecimento dos Outros, à multiculturalidade, ao saber prático, à reformulação das aprendizagens, poderá alterar a crise de representações sociais etnocêntricas e redutoras do humano porque centradas em sociedades demasiado economicistas apenas vocacionadas para o consumo. 
 

A ciência acompanha, também ela, as conjunturas sociais, políticas e económicas e como sublinha Santos (1978), se a ciência moderna expulsou o homem e a mulher enquanto sujeitos empíricos, consagrando-os apenas como sujeitos de conhecimento, caminhamos hoje para novas formas de entender o fenómenos dos quais não pode desligar-se o envolvimento do investigador em relação ao terreno de pesquisa. (Santos, 1978, 52). 
 

Procurei, assim, trazer para a minha pesquisa a minha própria experiência de viajante entre culturas, questionando sistematicamente toda a construção discursiva, promovendo uma etnografia, visual e reflexiva da produção fílmica, buscando um lugar fluído revelador de uma forma específica de Olhar, sem cair no abismo da fractura, no fechamento estático monocultural. 

 

 
Caminhando pelas imagens das margens
 
 


 
 

A questão é, pois, como realizar um diálogo multicultural quando algumas culturas foram reduzidas ao silêncio e as suas formas de ver e conhecer o mundo se tornaram impronunciáveis? (…) como fazer falar o silêncio sem que ele fale necessariamente a linguagem hegemónica que o pretende fazer falar? Os silêncios, as necessidades e as aspirações impronunciáveis só são captáveis por uma sociologia das ausências que proceda pela comparação entre os discursos disponíveis, hegemónicos e contra-hegemónicos, e pela análise das hierarquias entre eles e dos vazios que tais hierarquias produzem. (Santos;1999:206)
Com facilidade se associam as minorias étnicas, ou outras (as mulheres, as crianças, os adolescentes, os idosos, os doentes mentais, os artistas, os estrangeiros, os migrantes) às margens, à exclusão. Foucault mostrou-nos o lugar que ocuparam e ocupam na história e nas relações de poder os que por diversos motivos são conotados como diferentes. Os lugares sociais ocupados por grupos periféricos são testemunho de uma civilização ou cultura, posição intimamente relacionada a momentos económicos e períodos sociais e políticos específicos. 
 

Hoje as sociedades civis Europeias são multiculturais contrariando a utopia da organização estatal, dos mitos fundadores da nação. A hegemonia tende a normalizar a identidade através da diferença e da identidade nacional. A dicotomia da relação Identidade/diferença serve, então, de suporte para a hierarquização das culturas e dos grupos estrangeiros.
 

A produção cinemática e as imagens televisivas não surgem por acaso, inserindo-se em mercados de competição que seguem a lógica do consumo ou do produto vendável e os meios de comunicação vão afectando a maioria das sociedades (Sohat e Stam, 2002).  Aqui a observação e análise detalhada do filme Zona J, a recepção de textos críticos ao filme publicados na imprensa e a utilização do documentário Outros Bairros como elemento de cognição e aproximação aos jovens afro-descendentes entrevistados são a base da discussão. A interpretação das fontes desta observação revelaram-me como as imagens do cinema, do documentário, podem depreciar a realidade social através da prevalência da montagem estética. 
 

Cruzámos, nesta observação, a questão da identidade pois é a partir dela que os "actores" sociais constroem as suas relações. A identidade é um fenómeno social relacional que nasce a partir da diferença (Hall, 2000; Woodward, 2000) e tanto a identidade como a diferença são geradas pelo mundo cultural e social, relacionando-se estreitamente com as relações de poder. Os discursos e os sistemas de representação situam os indivíduos permitindo ou constrangendo a sua acção e participação social. Os media por meio das representações sociais que veiculam integram o processo cultural. Os seus conteúdos (ficionais ou documentais) influem na construção de modelos representacionais e identitários, uns promotores de mitos, que agilizam o consumo, outros favorecendo o estigma social de franjas da população desfavorecida.
 

Verificámos serem os conteúdos fílmicos e documentais (também televisivos) promotores da associação dos jovens afro-descendentes a acções criminosas, mais não sendo que mensagens associadas a discursos reguladores que dão ênfase à identidade legitimadora (Castells, 1999) visando expandir e racionalizar os princípios de dominação territorial do estado e das suas instituições dominantes. Esses Olhares reguladores potenciam de certa forma identidades anti-sociais, pois tornam os jovens visíveis legalizando a sua situação e, por outro lado, destinam a esses mesmos jovens um enclausuramento liminar. A visibilidade constitui-se assim uma forma de exclusão.
 
 
 

Tó à direita,  na hora da refeição conversando com um colega da obra - filme Zona J (1999)Grupo de jovens no terraço de um prédio - Filme Zona J (1999)

 Cenas de “Zona J” (1999) 








A condição social dos jovens afro-descendentes parece-nos destinada a uma perpétua liminaridade se observarmos a estrutura que pisam e as representações que os media deles promovem. A imagem do jovem "delinquente", "criminoso", contamina não só as representações sociais, mas a identidade dos jovens visados, favorecendo imagens negativas de si próprios e uma redução da sua auto-estima. Se associarmos estas representações às de apelo ao consumo, teremos, como hipótese, jovens em situação de risco crónico à procura de um mundo que não o seu, através da evasão e alienação progressivas manifestas no pequeno furto, no consumo e tráfico de drogas, situações que surgem em cadeia e também das expectativas geradas pelos média.
 

A inferiorização de certos grupos étnicos nos media demonstra a imposição de um tampão cultural face a outros grupos culturais que apenas se podem manifestar em silêncio. É, pois, "nos espaços em branco", nas zonas "liminares" que os processos transformativos acontecem "por negação dos princípios classificatórios que instituem a ordem social" (Cabral, 2000; 865).  Esses espaços, de margem, produzidos e difundidos pelos centros hegemónicos, são o próprio alicerce da vida sócio cultural, pois sustentam os artefactos da hegemonia (Cabral, 2000).  Mas é aí, nesses locais marginais que podem surgir outras configurações do tecido social, de brecha quando defensivas, de transformação quando a resistência conduz ao projecto.
 

O problema que se coloca aos jovens já nascidos em Portugal é o de que as suas expectativas já não são as que moviam os seus pais.  Encurralados em contextos de vida desfavorecidos, e cerceados por estreitas formas legais de nacionalidade, a sua socialização traduz-se mais nas aprendizagens informais e no que observam nos media do que na socialização primária - família e escola. Um fosso separa-os da terra onde nasceram, a sua legalização é o 1º obstáculo institucional do país onde nasceram.
 

A força do mercado de consumo permeia as construções identitárias destes jovens. Os mais desfavorecidos  são os primeiros a aderir à indústria das imagens importadas dos EUA e um círculo vicioso enreda estes jovens, cujo percurso escolar é abandonado, precocemente, a uma trama representacional que eles próprios se encarregam de por em prática. O ilícito bate-lhes à porta num quotidiano de estratégias de sobrevivência errante. Estas pessoas buscam o reconhecimento da sociedade que os rejeita através de encenações e práticas que os tornem visíveis. A primeira adesão faz-se em relação aos bens de consumo projectados pelos vários canais do mercado mediático.
 

A marginalização observada a vários níveis não permite alternativas para os jovens discriminados senão a de reclamarem, também, a diferença através de mitos identitários assentes na cultura familiar - com raízes em África, e em práticas quotidianas que revelam a adesão à ideologia do mercado de consumo norte americana. Alguns jovens surgem mesmo como construtores de territórios de fronteira, onde criam novas identidades através de formas de resistência à exclusão advinda da estigmatização e racismo social e cultural, acreditando vencer o estrangulamento de que são alvo. Mas a identidade de resistência (Castells, 2000) pode também conduzir ao projecto quando os actores sociais conseguem associar o seu potencial cultural aos parcos recursos materiais de que dispõe e aí constroem uma nova identidade capaz de redefinir a sua posição social através da escolarização.
 

Se pensarmos na assimetria das relações de poder em sociedade e na necessária capacidade de negociação, ao nível material e simbólico, a que os diversos grupos culturais estão sujeitos para poderem definir a sua posição social, então entenderemos que os mais desfavorecidos dificilmente conseguirão abandonar as trincheiras que sustentam a centralidade hegemónica.
 
 
 
 
 
 

Jovens afro-descendentes
 
 

A  juventude, enquanto categoria socialmente construída e definida como fase de vida transitória,  está sujeita às condições económicas, sociais e políticas que a geram (Pais, 1996). A complexidade das sociedades actuais produz incertezas e vivências labirínticas reflectidas no modo como os jovens se expressam em termos de sociabilidade. Se nas sociedades tradicionais os jovens eram conduzidos à vida adulta através de ritos de passagem pelos quais se definiam os papéis e as posições simbólicas no seio da sociedade, hoje pela informalidade das aprendizagens e a ineficácia das socializações mais dispersas -pela ausência da presença de familiares ou pela inadequação de modelos escolares e dos gerados pelos media-, os jovens são conduzidos a graus de incerteza quanto ao futuro, permanecendo então em presentes dilatados, em quotidianos de liminaridade social. 
 

Os jovens nos quais nos focalizamos nasceram em Portugal, são filhos e netos de  imigrantes africanos (dos PALOP) presentes no território português desde os anos 60. Pertencem a gerações socializadas em território português, mas em contextos de não pertença nacional, pois sua naturalidade só poderá coincidir com a nacionalidade portuguesa depois de seis anos de residência fixa dos seus pais ou tutores em Portugal (veja-se a Lei da nac. 37/8 de 03-10-1981, revogada pela Lei 2/94, de 19 de Agosto. Por outro lado, os seus contextos de vida estão circunscritos aos do bairro periférico, às margens da cidade. Nesses bairros a sociedade é translocal e em regra desfavorecida. 
 

Se o índice de fecundidade dos portugueses se situa "abaixo do nível de substituição de gerações" (CarrilhoaoExpresso, 20-12-2000) e o envelhecimento da população activa é real, sabemos, por outro lado, pelas projecções estatísticas, que o crescimento da população estrangeira e dos seus descendentes ultrapassará um milhão de residentes em 2022 (Expresso, 30-12-2000). Parece-nos contudo, que apesar do evidente benefício do contributo dos estrangeiros para um funcionamento activo da vida civil do país, as instituições e o próprio Estado persistem em diferenciar os estrangeiros, neste caso específico os africanos, marcados por laços históricos antigos com os portugueses, não só através de uma ideologia etnocêntrica que permeia vários discursos políticos e legais, pelos programas escolares, bem como pelos meios de comunicação - imprensa, televisão, cinema - pelos quais o Estado vai mantendo viva a consciência nacional ao configurar os seus contornos e conteúdos.
 

Que identidades se podem gerar entre os jovens afro-descendentes? A sociedade e os media promovem a circulação de representações determinantes de modelos de conduta e das próprias percepções de discriminação de que os jovens são alvo pela sociedade onde nasceram.
 
 
 
 
 


 

Como se processa a integração destes jovens na sociedade portuguesa?

As identidades são fontes de significado para os próprios actores sociais e são construídas através de um processo de individuação. Mas as identidades podem ser formadas pelas instituições dominantes através da socialização - família, escola e media -  que perpetua os valores da sociedade nas gerações futuras. 
 

Os jovens são o resultado da interacção que estabelecem com a sociedade e essa relação é sempre afectada pelo processo de socialização que os acompanhou. A conformidade às normas sociais veiculadas pelos meios de socialização tradicionais só existe quando os actores sociais as internalizam e constroem o seu significado a partir dessa internalização.
 

Os jovens afro-descendentes desenvolvem uma consciência mascarada, uma "falsa consciência" do seu quotidiano, ao serem modelados pelas representações sociais dominantes com as quais não se identificam.
 

"As origens sociais condicionam as trajectórias de vida" (Pais, 2001) e muito mais quando os jovens têm origem numa outra cultura e em simultâneo são desfavorecidos economicamente. Aqui as socializações acontecem nos espaços intersticiais das instituições, na informalidade e nos grupos.
 

O ocidente constrói as suas auto-representações com base em "egoísmos nacionalistas", a diferença cultural e rácica surge subtilmente, destacando aqueles que a sociedade política e económica exclui e não pretende incorporar.
 

Os discursos de integração dos excluídos raramente chegam à prática e fazem-se seguindo o quadro de valores simbólicos da hegemonia. Aí a integração torna-se um "eufemismo de assimilação" em que a diversidade cultural é reduzida ao modelo de cultura nacional. Ou, então, se essa integração for negociada através de um processo dialógico complexo entre os grupos resistentes e a sociedade dominante, no processo de negociação, as vozes são desiguais, a assimetria de poderes não deixará de existir. Podemos concluir que os mais desfavorecidos dificilmente conseguem abandonar as margens que sustentam a centralidade hegemónica. A hegemonia  estrutura-se sobre as margens e nestas encontramos tudo o que supomos expulso do tecido social. Mas é nas margens que os centros encontram a força de trabalho que os sustenta.
 

Os jovens afro-descendentes têm as sua próprias representações fundadas na sua vivência e microcultura específicas. Eles próprios têm a percepção da discriminação que os atinge, da sua margem social. É a partir desse lugar marginalizado que recebem a informação das representações sociais dominantes - escola com programas desadequados à sua história de vida, Tv, cinema, literatura, imprensa. Eles integram as margens silenciadas pela hegemonia, formando uma resistência de fronteira com a sociedade e reproduzindo o papel que a própria sociedade lhes ditou. O seu quotidiano é atravessado por confrontos, conflitos e alguns equilíbrios precários - situações negociadas com os centros - sempre em função das suas próprias vivências/experiências.
 

A relação com a sociedade - o centro - pode também fazer-se apenas na moldura da integração forçada em que a sua posição é colocada sempre à margem e o diálogo com o centro apenas se faz nas zonas instersticiais, nas estreitas frinchas dos discursos multiculturais e na espera de iguais oportunidades que sempre tardam em surgir ou que não surgirão nunca.
 

Castell é muito claro quando nos fala nos três tipos de identidades que se desenvolvem em sociedade, sempre assentes em relações de poder assimétrico: a identidade legitimadora promovida pela hegemonia e reproduzida pelas instituições dominantes através da ideologia nacionalista; a identidade de resistência criada por actores em situação desvalorizada e/ou estigmatizada pela dominação (ela desenvolve-se de forma oculta em trincheiras defensivas  - o bairro, a cultura, a língua); a identidade de projecto, que surge a partir da resistência quando os actores se capacitam de sua acção para redefinirem a sua posição na sociedade, associando as suas especificidades culturais a ethos de escolarização e ao fazê-lo buscam a transformação de toda a estrutura social. 
 

As identidades de projecto surgem em contextos de resistência e só quando os actores sociais se capacitam das suas potencialidades como sujeitos mobilizadores. Mas para isso terão que negociar a posição sociocultural que ocupam com a sociedade de acolhimento. 
 

As estratégias dos jovens passam muitas vezes por um branqueamento do seu sentir, da sua resistência, para que a sociedade os aceite - esta é uma arte que engendrarão para agir e comunicar a partir das margens. Ao camuflarem a sua resistência tentam a vivência entre dois mundos, até ao dia em que reúnam as condições para conversarem publicamente sobre as opressões a que resistem e as aspirações que os animam. 
 

A escola formal não compreende os jovens afro-descendentes, e as representações que promove dão continuidade a modelos de sucesso eurocêntico prescritos para o jovem europeu ideal que sai da escola pronto a assumir um posto de trabalho. Os conteúdos e práticas pedagógicas estão cada vez mais desfasados da realidade social.
 

Partimos então à descoberta do tipo de selecção que é feita pelos media para as representações que circulam sobre si.



Notas
Realizado por Leonel Vieira em 1999 e coproduzido pela Sic e pela Mgn filmes. Filme com a marca do produtor dirigido ao grande público.
Realizado por Kiluange Liberdade, Inês Gonçalves e Vasco Pimentel em 1999 e produzido por Filmes do Tejo Lda.  Com origem num projecto de pesquisa fotográfica solicitado pela Câmara Municipal de Lisboa para uma mostra fotográfica da vida nos bairros degradados, veio mais tarde por intenção dos autores a constituir-se num documentário. A sua realização foi financiada pelo ICAM e outras instituições.
Tiveram também importância neste estudo, em termos de referência pontual, alguns registos de programas e telejornais televisivos.
Aqui neste termo incluo todo o tipo de deslocados.
Portugal não é um país multicultural. Multicultural é um país que cria realidades novas a partir da mistura de pessoas e de idéias e tudo o que se tem feito em Portugal é em vários campos ...políticos, sociais no sentido de obliterar essa possibilidade de mistura, e atenção: isto em vários campos de intervenção associativa e dos negócios em torno da diversidade” (Miguel Vale de Almeida no debate que se seguiu ao filme documentário Outros Bairros passado na RTP2 em Dezembro de 2000).
Aqui minoria não releva da quantidade, pois o número pode não ser proporcional à força político social,  mas dos grupos cuja voz é silenciada por diversos mecanismos da hegemonia.
Santos diz-nos que a “teoria crítica sempre entendeu por hegemonia a capacidade das classes  dominantes em transformarem as suas ideias em ideias dominantes”; Pina Cabral diz-nos, ainda, que a hegemonia é a “forma de dominação em que o dominado participa na sua própria dominação “ (2001:874)

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