Qualquer trajectória
de vida individual ou colectiva marca intimamente as construções
científicas dos homens e mulheres sujeitos do conhecimento, sendo
mesmo o que atribui consistência às suas opções
no terreno de estudo, pois senão "os nossos trabalhos de campo constituiriam
um emaranhado de diligências absurdas sem fio nem pavio" (Santos,
1987:53).
O percurso de que vos falo
é, também, reflexo de mim. Por isso falo aqui da investigadora,
não como centro de um processo, mas como a ponte que permitiu atravessar
um processo e chegar aqui.
A geografia do meu nascimento
doou-me uma constelação cultural que se iniciou na
família, forma mais subtil de transmissão cultural, onde
absorvi referências portuguesa (do meu pai) e goesas (da minha mãe).
A essas influências somei as minhas, biológicas e sociais.
Fui socializada em África até aos 12 anos, e em Portugal
a partir daí. Confluíram, pois, para este mapa pessoal
cartografias várias que me colocam dentro e fora dos processos sociais.
Falo-vos, por conseguinte a partir de um lugar de cruzamento, de hibridez
e mestiçagem.
Moçambique, onde nasci,
deu-me a expressão das dinâmicas culturais em presença.
A minha identidade construiu-se em moldes que me conduziram a uma imagem
própria do meio social, para lá das culturas em si, a uma
posição social de insider/outsider.
Fui-me apercebendo que a
configuração que assume a assimetria cultural imposta aos
estrangeiros
assenta não só num mero fenómeno de centração
cultural advinda da "distância" face aos outros, mas de mecanismos
mais complexos de fixação de identidades culturais colectivas
marcadas pelo poder e pelos centros hegemónicos.
Apesar de cada indivíduo
ou cultura resultar de uma combinação infinita de heranças
próprias e das que resultam do contacto com o meio (Laplantine
e Nouss, 1997) e de sabermos que as nações são
hoje "híbridos culturais" (Hall) resiste-se, ainda, à aceitação
de novas formas transnacionais e transculturais, dos viajantes da diáspora
com duas ou mais culturas, à mestiçagem enunciada para além
de todas as diferenças e de todas as igualdades. Se a proximidade
revela as diferenças entre sistemas de representação
culturais distintos, promove também a necessária transformação
na forma de conhecer e pensar os Outros próximos de nós.
Essa urgente viragem cognitiva em relação ao conhecimento
dos Outros, à multiculturalidade
,
ao saber prático, à reformulação das aprendizagens,
poderá alterar a crise de representações sociais etnocêntricas
e redutoras do humano porque centradas em sociedades demasiado economicistas
apenas vocacionadas para o consumo.
A ciência acompanha,
também ela, as conjunturas sociais, políticas e económicas
e como sublinha Santos (1978),
se a ciência moderna expulsou o homem e a mulher enquanto sujeitos
empíricos, consagrando-os apenas como sujeitos de conhecimento,
caminhamos hoje para novas formas de entender o fenómenos dos quais
não pode desligar-se o envolvimento do investigador em relação
ao terreno de pesquisa. (Santos,
1978, 52).
Procurei, assim, trazer para
a minha pesquisa a minha própria experiência de viajante entre
culturas, questionando sistematicamente toda a construção
discursiva, promovendo uma etnografia, visual e reflexiva da produção
fílmica, buscando um lugar fluído revelador de uma forma
específica de Olhar, sem cair no abismo da fractura, no fechamento
estático monocultural.
Com facilidade se
associam as minorias
étnicas, ou outras (as mulheres, as crianças, os adolescentes,
os idosos, os doentes mentais, os artistas, os estrangeiros, os migrantes)
às margens, à exclusão. Foucault mostrou-nos o lugar
que ocuparam e ocupam na história e nas relações de
poder os que por diversos motivos são conotados como diferentes.
Os lugares sociais ocupados por grupos periféricos são testemunho
de uma civilização ou cultura, posição intimamente
relacionada a momentos económicos e períodos sociais e políticos
específicos.
Hoje as sociedades civis
Europeias são multiculturais contrariando a utopia da organização
estatal, dos mitos fundadores da nação. A hegemonia tende
a normalizar a identidade através da diferença e da identidade
nacional. A dicotomia da relação Identidade/diferença
serve, então, de suporte para a hierarquização das
culturas e dos grupos estrangeiros.
A produção
cinemática e as imagens televisivas não surgem por acaso,
inserindo-se em mercados de competição que seguem a lógica
do consumo ou do produto vendável e os meios de comunicação
vão afectando a maioria das sociedades (Sohat
e Stam, 2002). Aqui a observação e análise
detalhada do filme Zona J, a recepção de textos críticos
ao filme publicados na imprensa e a utilização do documentário
Outros Bairros como elemento de cognição e aproximação
aos jovens afro-descendentes entrevistados são a base da discussão.
A interpretação das fontes desta observação
revelaram-me como as imagens do cinema, do documentário, podem depreciar
a realidade social através da prevalência da montagem estética.
Cruzámos, nesta observação,
a questão da identidade pois é a partir dela que os "actores"
sociais constroem as suas relações. A identidade é
um fenómeno social relacional que nasce a partir da diferença
(Hall,
2000; Woodward,
2000) e tanto a identidade como a diferença são geradas pelo
mundo cultural e social, relacionando-se estreitamente com as relações
de poder. Os discursos e os sistemas de representação situam
os indivíduos permitindo ou constrangendo a sua acção
e participação social. Os media por meio das representações
sociais que veiculam integram o processo cultural. Os seus conteúdos
(ficionais ou documentais) influem na construção de modelos
representacionais e identitários, uns promotores de mitos, que agilizam
o consumo, outros favorecendo o estigma social de franjas da população
desfavorecida.
Verificámos serem
os conteúdos fílmicos e documentais (também televisivos)
promotores da associação dos jovens afro-descendentes a acções
criminosas, mais não sendo que mensagens associadas a discursos
reguladores que dão ênfase à identidade legitimadora
(Castells, 1999) visando expandir e racionalizar
os princípios de dominação territorial do estado e
das suas instituições dominantes. Esses Olhares reguladores
potenciam de certa forma identidades anti-sociais, pois tornam os jovens
visíveis legalizando a sua situação e, por outro lado,
destinam a esses mesmos jovens um enclausuramento liminar. A visibilidade
constitui-se assim uma forma de exclusão.

Cenas de “Zona J” (1999)
A condição
social dos jovens afro-descendentes parece-nos destinada a uma perpétua
liminaridade se observarmos a estrutura que pisam e as representações
que os media deles promovem. A imagem do jovem "delinquente", "criminoso",
contamina não só as representações sociais,
mas a identidade dos jovens visados, favorecendo imagens negativas de si
próprios e uma redução da sua auto-estima. Se associarmos
estas representações às de apelo ao consumo, teremos,
como hipótese, jovens em situação de risco crónico
à procura de um mundo que não o seu, através da evasão
e alienação progressivas manifestas no pequeno furto, no
consumo e tráfico de drogas, situações que surgem
em cadeia e também das expectativas geradas pelos média.
A inferiorização
de certos grupos étnicos nos media demonstra a imposição
de um tampão cultural face a outros grupos culturais que apenas
se podem manifestar em silêncio. É, pois, "nos espaços
em branco", nas zonas "liminares" que os processos transformativos acontecem
"por negação dos princípios classificatórios
que instituem a ordem social" (Cabral,
2000; 865). Esses espaços, de margem, produzidos e difundidos
pelos centros hegemónicos, são o próprio alicerce
da vida sócio cultural, pois sustentam os artefactos da hegemonia
(Cabral, 2000). Mas
é aí, nesses locais marginais que podem surgir outras configurações
do tecido social, de brecha quando defensivas, de transformação
quando a resistência conduz ao projecto.
O problema que se coloca
aos jovens já nascidos em Portugal é o de que as suas expectativas
já não são as que moviam os seus pais. Encurralados
em contextos de vida desfavorecidos, e cerceados por estreitas formas legais
de nacionalidade, a sua socialização traduz-se mais nas aprendizagens
informais e no que observam nos media do que na socialização
primária - família e escola. Um fosso separa-os da terra
onde nasceram, a sua legalização é o 1º obstáculo
institucional do país onde nasceram.
A força do mercado
de consumo permeia as construções identitárias destes
jovens. Os mais desfavorecidos são os primeiros a aderir à
indústria das imagens importadas dos EUA e um círculo vicioso
enreda estes jovens, cujo percurso escolar é abandonado, precocemente,
a uma trama representacional que eles próprios se encarregam de
por em prática. O ilícito bate-lhes à porta num quotidiano
de estratégias de sobrevivência errante. Estas pessoas buscam
o reconhecimento da sociedade que os rejeita através de encenações
e práticas que os tornem visíveis. A primeira adesão
faz-se em relação aos bens de consumo projectados pelos vários
canais do mercado mediático.
A marginalização
observada a vários níveis não permite alternativas
para os jovens discriminados senão a de reclamarem, também,
a diferença através de mitos identitários assentes
na cultura familiar - com raízes em África, e em práticas
quotidianas que revelam a adesão à ideologia do mercado de
consumo norte americana. Alguns jovens surgem mesmo como construtores de
territórios de fronteira, onde criam novas identidades através
de formas de resistência à exclusão advinda da estigmatização
e racismo social e cultural, acreditando vencer o estrangulamento de que
são alvo. Mas a identidade de resistência (Castells,
2000) pode também conduzir ao projecto quando os actores
sociais conseguem associar o seu potencial cultural aos parcos recursos
materiais de que dispõe e aí constroem uma nova identidade
capaz de redefinir a sua posição social através da
escolarização.
Se pensarmos na assimetria
das relações de poder em sociedade e na necessária
capacidade de negociação, ao nível material e simbólico,
a que os diversos grupos culturais estão sujeitos para poderem definir
a sua posição social, então entenderemos que os mais
desfavorecidos dificilmente conseguirão abandonar as trincheiras
que sustentam a centralidade hegemónica.
Jovens afro-descendentes
A juventude, enquanto
categoria socialmente construída e definida como fase de vida transitória,
está sujeita às condições económicas,
sociais e políticas que a geram (Pais,
1996). A complexidade das sociedades actuais produz incertezas e vivências
labirínticas reflectidas no modo como os jovens se expressam em
termos de sociabilidade. Se nas sociedades tradicionais os jovens eram
conduzidos à vida adulta através de ritos de passagem pelos
quais se definiam os papéis e as posições simbólicas
no seio da sociedade, hoje pela informalidade das aprendizagens e a ineficácia
das socializações mais dispersas -pela ausência da
presença de familiares ou pela inadequação de modelos
escolares e dos gerados pelos media-, os jovens são conduzidos a
graus de incerteza quanto ao futuro, permanecendo então em presentes
dilatados, em quotidianos de liminaridade social.
Os jovens nos quais nos focalizamos
nasceram em Portugal, são filhos e netos de imigrantes africanos
(dos
PALOP) presentes no território
português desde os anos 60. Pertencem a gerações socializadas
em território português, mas em contextos de não pertença
nacional, pois sua naturalidade só poderá coincidir com a
nacionalidade portuguesa depois de seis anos de residência fixa dos
seus pais ou tutores em Portugal (veja-se a Lei da nac. 37/8 de 03-10-1981,
revogada pela Lei 2/94, de 19 de Agosto. Por outro lado, os seus contextos
de vida estão circunscritos aos do bairro periférico, às
margens da cidade. Nesses bairros a sociedade é translocal e em
regra desfavorecida.
Se o índice de fecundidade
dos portugueses se situa "abaixo do nível de substituição
de gerações" (CarrilhoaoExpresso,
20-12-2000) e o envelhecimento da população activa é
real, sabemos, por outro lado, pelas projecções estatísticas,
que o crescimento da população estrangeira e dos seus descendentes
ultrapassará um milhão de residentes em 2022 (Expresso,
30-12-2000). Parece-nos contudo, que apesar do evidente benefício
do contributo dos estrangeiros para um funcionamento activo da vida civil
do país, as instituições e o próprio Estado
persistem em diferenciar os estrangeiros, neste caso específico
os africanos, marcados por laços históricos antigos com os
portugueses, não só através de uma ideologia etnocêntrica
que permeia vários discursos políticos e legais, pelos programas
escolares, bem como pelos meios de comunicação - imprensa,
televisão, cinema - pelos quais o Estado vai mantendo viva a consciência
nacional ao configurar os seus contornos e conteúdos.
Que identidades se podem
gerar entre os jovens afro-descendentes? A sociedade e os media promovem
a circulação de representações determinantes
de modelos de conduta e das próprias percepções de
discriminação de que os jovens são alvo pela sociedade
onde nasceram.
Como se processa a integração
destes jovens na sociedade portuguesa?
As identidades são
fontes de significado para os próprios actores sociais e são
construídas através de um processo de individuação.
Mas as identidades podem ser formadas pelas instituições
dominantes através da socialização - família,
escola e media - que perpetua os valores da sociedade nas gerações
futuras.
Os jovens são o resultado
da interacção que estabelecem com a sociedade e essa relação
é sempre afectada pelo processo de socialização que
os acompanhou. A conformidade às normas sociais veiculadas pelos
meios de socialização tradicionais só existe quando
os actores sociais as internalizam e constroem o seu significado a partir
dessa internalização.
Os jovens afro-descendentes
desenvolvem uma consciência mascarada, uma "falsa consciência"
do seu quotidiano, ao serem modelados pelas representações
sociais dominantes com as quais não se identificam.
"As origens sociais condicionam
as trajectórias de vida" (Pais,
2001) e muito mais quando os jovens têm origem numa outra cultura
e em simultâneo são desfavorecidos economicamente. Aqui as
socializações acontecem nos espaços intersticiais
das instituições, na informalidade e nos grupos.
O ocidente constrói
as suas auto-representações com base em "egoísmos
nacionalistas", a diferença cultural e rácica surge subtilmente,
destacando aqueles que a sociedade política e económica exclui
e não pretende incorporar.
Os discursos de integração
dos excluídos raramente chegam à prática e fazem-se
seguindo o quadro de valores simbólicos da hegemonia. Aí
a integração torna-se um "eufemismo de assimilação"
em que a diversidade cultural é reduzida ao modelo de cultura nacional.
Ou, então, se essa integração for negociada através
de um processo dialógico complexo entre os grupos resistentes e
a sociedade dominante, no processo de negociação, as vozes
são desiguais, a assimetria de poderes não deixará
de existir. Podemos concluir que os mais desfavorecidos dificilmente conseguem
abandonar as margens que sustentam a centralidade hegemónica. A
hegemonia
estrutura-se sobre as margens e nestas encontramos tudo o que supomos expulso
do tecido social. Mas é nas margens que os centros encontram a força
de trabalho que os sustenta.
Os jovens afro-descendentes
têm as sua próprias representações fundadas
na sua vivência e microcultura específicas. Eles próprios
têm a percepção da discriminação que
os atinge, da sua margem social. É a partir desse lugar marginalizado
que recebem a informação das representações
sociais dominantes - escola com programas desadequados à sua história
de vida, Tv, cinema, literatura, imprensa. Eles integram as margens silenciadas
pela hegemonia, formando uma resistência de fronteira com a sociedade
e reproduzindo o papel que a própria sociedade lhes ditou. O seu
quotidiano é atravessado por confrontos, conflitos e alguns equilíbrios
precários - situações negociadas com os centros -
sempre em função das suas próprias vivências/experiências.
A relação com
a sociedade - o centro - pode também fazer-se apenas na moldura
da integração forçada em que a sua posição
é colocada sempre à margem e o diálogo com o centro
apenas se faz nas zonas instersticiais, nas estreitas frinchas dos discursos
multiculturais e na espera de iguais oportunidades que sempre tardam em
surgir ou que não surgirão nunca.
Castell é muito claro
quando nos fala nos três tipos de identidades que se desenvolvem
em sociedade, sempre assentes em relações de poder assimétrico:
a identidade legitimadora promovida pela hegemonia e reproduzida pelas
instituições dominantes através da ideologia nacionalista;
a identidade de resistência criada por actores em situação
desvalorizada e/ou estigmatizada pela dominação (ela desenvolve-se
de forma oculta em trincheiras defensivas - o bairro, a cultura,
a língua); a identidade de projecto, que surge a partir da resistência
quando os actores se capacitam de sua acção para redefinirem
a sua posição na sociedade, associando as suas especificidades
culturais a ethos de escolarização e ao fazê-lo buscam
a transformação de toda a estrutura social.
As identidades de projecto
surgem em contextos de resistência e só quando os actores
sociais se capacitam das suas potencialidades como sujeitos mobilizadores.
Mas para isso terão que negociar a posição sociocultural
que ocupam com a sociedade de acolhimento.
As estratégias dos
jovens passam muitas vezes por um branqueamento do seu sentir, da sua resistência,
para que a sociedade os aceite - esta é uma arte que engendrarão
para agir e comunicar a partir das margens. Ao camuflarem a sua resistência
tentam a vivência entre dois mundos, até ao dia em que reúnam
as condições para conversarem publicamente sobre as opressões
a que resistem e as aspirações que os animam.
A escola formal não
compreende os jovens afro-descendentes, e as representações
que promove dão continuidade a modelos de sucesso eurocêntico
prescritos para o jovem europeu ideal que sai da escola pronto a assumir
um posto de trabalho. Os conteúdos e práticas pedagógicas
estão cada vez mais desfasados da realidade social.
Partimos então à
descoberta do tipo de selecção que é feita pelos media
para as representações que circulam sobre si.
Notas
Realizado
por Leonel Vieira em 1999 e coproduzido pela Sic e pela Mgn filmes. Filme
com a marca do produtor dirigido ao grande público.
Realizado
por Kiluange Liberdade, Inês Gonçalves e Vasco Pimentel em
1999 e produzido por Filmes do Tejo Lda. Com origem num projecto
de pesquisa fotográfica solicitado pela Câmara Municipal de
Lisboa para uma mostra fotográfica da vida nos bairros degradados,
veio mais tarde por intenção dos autores a constituir-se
num documentário. A sua realização foi financiada
pelo ICAM e outras instituições.