Introdução
Sob o prisma da Intercultura,
as práticas das religiões afro-brasileiras apresentam-se
como um campo híbrido de construção de identidade
no qual emergem novas estratégias de organização que
apontam novas perspectivas para a educação intercultural.
As religiões afro-brasileiras,
cujo comando cultural pertence à população negra,
congregam a diversidade das origens étnicas e culturais do país,
consolidando-se como signos de “brasilidade”. O artigo aqui proposto visa
a apresentar a experiência educativa comunitária e intercultural
de dois grupos, dois “terreiros” de prática religiosa, completando
assim, um ciclo de significações que tenta compreender a
problemática do ponto de vista de sua complexidade e da integralidade
quando tratamos dos sujeitos destas vivências.
Essa multiplicidade de inter-influências
produz um campo eminentemente educativo no qual os desdobramentos não
são unívocos, mas múltiplos e complexos; é
esta relação que produz o campo intercultural.
Entende-se Intercultura
conforme a define Giacalone (1998): está
colocada a relação intercultural quando as diferentes dimensões
entram em relação, “colocam-se em jogo”: “Se a multiculturalidade
pode ser a convivência ...entre grupos distintos, a intercultura
é a possibilidade de um projeto, de uma troca, na qual existe a
reciprocidade de olhares e de intenções, na qual se dá
o confronto entre identidade/diferença”. Este é um universo
de significados de extrema relevância se tomarmos em consideração
os fanatismos e extremismos de toda ordem que surgem e ressurgem nesta
virada de milênio.
Nas relações
endógenas dos grupos religiosos afro-brasileiros, analisaremos especificamente
o trabalho de formação e desenvolvimento mediúnico
desenvolvido pela Tenda Cabocla Marola do Mar. Em suas relações
exógenas, procuramos desvendar o trabalho educativo intercultural
comunitário desenvolvido pela Tenda
Caboclo Cobra Verde.
O trabalho de formação
e desenvolvimento mediúnico: o caso da Tenda de Umbanda Cabocla
Marola do Mar
Vários centros religiosos
desenvolvem junto a seus médiuns, um trabalho de formação
e desenvolvimento, que caracteriza uma ação intercultural
em seu sentido mais amplo. Segundo Fleuri (1999)
“na atividade formativa ressaltam-se as formas e conteúdos da
cultura interiorizada pelos indivíduos na vida cotidiana, a variedade
...das experiências com que estabelecem contato...” É
nesta perspectiva que analisaremos o trabalho desenvolvido pela T.U. Cabocla
Marola do Mar pela excelente sistematização do trabalho,
confecção de material pedagógico e pelo lugar central
que a preocupação educativa ocupa no grupo como um todo.
A atividade de estudo e pesquisa da Tenda atua como um suporte das ações
de atendimento e desenvolvimento.
A Associação
Beneficente Tenda de Umbanda Cabocla Marola do Mar é uma sociedade
civil, pessoa jurídica de direito privado, sem fins lucrativos,
de caráter cultural, educacional, social e filantrópico “voltado
especialmente para o estudo e difusão da cultura afro-brasileira”
.
A
mãe-de-santo (ou chefe-de-terrreiro) responsável é
Eldeni Fernandes Camargo.
Entre seus objetivos
estão o estudo, prática e divulgação da cultura
afro-brasileira, a prática da caridade como dever social e princípio
de moral e como exercício pleno de solidariedade e respeito ao ser
humano. Além disso, promove o desenvolvimento de trabalhos educacional,
esportivo, social e de defesa e benefício da comunidade na qual
a Tenda se insere. Embora a Tenda pratique, de fato, os dois últimos
aspectos citados, nos deteremos no primeiro, aquele que diz respeito diretamente
à compreensão e prática religiosas, inseridas num
contexto macro de cultura afro-brasileira.
A organização
institucional segue a configuração tradicional: presidente
de honra, presidente e vice-presidente, primeiro e segundo secretários,
primeiro e segundo tesoureiros e diretores de departamentos.
A organização
religiosa é formada por um conjunto formado pelos guias espirituais
,
médiuns e pela chefe de terreiro Mãe Eldeni, filha de Iemanjá
e Ogun, e entidades, tendo como guia de frente
a Cabocla Marola do Mar e Omolocô Caboclo Lírio Branco (coordena
todos os trabalhos realizados na tenda, sob orientação da
primeira
).
Eldeni exemplifica como se
dá o acolhimento e definição das funções
dos médiuns e suas entidades em um auto-aprendizado coletivo das
“linhas” que vão se agregando num processo de contínua transformação,
totalmente aberto à inclusão de novas contribuições
espirituais e coerente com a opção democrática preponderante
neste centro.
“A Cecília
começou como cambona e depois veio o Omolu. A Milena tem o Povo
do Oriente. Ela veio e ensinou a todos como era. Se chegar outras entidades
(marinheiro, baiano), a gente vai incluindo”.
O cronograma dos trabalhos
inclui o revezamento das sessões destinadas às entidades
com os períodos de estudo, atendimento e desenvolvimento, assim
descritos pela mãe-de-santo.
“Segunda é
atendimento: médiuns e entidades se revezam. Esses que estão
começando não dão atendimento, ficam só na
corrente
;
na quinta é desenvolvimento: cada um chama suas entidades para atender
os médiuns. Quando o médium começa, perde muito o
equilíbrio. No desenvolvimento ele vai se concentrando mais, se
firmando... pode se exercitar...então, não é para
o público, é só para os médiuns porque eles
também querem conversar com os guias que incorporam aqui.”
No binômio “atendimento
e desenvolvimento” reside a base teórico-prática do grupo.
Ou seja, na concepção de seus médiuns, não
é possível praticar o primeiro junto ao consulentes
que procuram o centro, sem uma ação sistemática no
sentido de fortalecimento e aprofundamento espiritual, ou seja, o desenvolvimento.
Assim, o grupo divide-se entre estes dois diferentes momentos de sua atuação.
O atendimento localiza-se
entre os momentos mais importantes e mesmo a razão principal de
ser da maioria dos centros, principalmente da Umbanda, que tem como um
dos eixos centrais a prática da caridade. Entretanto, não
se trata apenas de uma “doação” dos religiosos a seus consulentes,
aqueles que procuram seus serviços espirituais. Trata-se de uma
troca. As entidades aconselham, orientam e realimentam espiritualmente
os médiuns, auxiliando até mesmo em dificuldades concretas
da vida cotidiana, tais como problemas de saúde.
“Faço o desenvolvimento
dos médiuns e depois eles escolhem qual a entidade que eles querem
conversar. E conversam para resolver o problema. Porque a Umbanda basicamente
resolve problemas: emocional, com filhos, profissionais, de relacionamentos
e de saúde principalmente. Nós temos três entidades
aqui que receitam muitos remédios, né? Minha família,
se os médicos dependessem de nós morriam de fome [risos]
porque raramente vamos ao médico.” (idem)
Estudo, pesquisa,
observação e diálogo compõem a educação
mediúnica. A preocupação da atividade de estudo
e formação busca superar um certo praticismo espontaneísta,
identificado em outros grupos, que impede que o médium aprofunde
conhecimentos e supere o nível da intuição e mediunidade
espontâneas. O objetivo é que sua eficácia espiritual
também aumente. Ou seja, há uma clara associação
entre saber adquirido e mediunização e esta só pode
ser plena e houver preocupação com a aquisição
daquele.
“O que observo nos
terreiros é que pegam a pessoa e dizem: ‘Tu bota uma roupa branca,
compra uma guia de anjo-de-guarda’ e enfia o médium no terreiro,
roda ele como se fosse um pião. O que acontece? O médium
vai indo, indo, ouvindo daqui, dali. Ele não tem uma noção
do porquê e do prá quê. Então, tem que educar
esse médium. Ele tem que estudar, pesquisar, perguntar, muito, muito
e sobretudo estar atento porque cada entidade que vem nos mostra tanta
coisa, é só observar. Um médium ignorante não
pode fazer muita coisa por ele e nem pelas pessoas que vem procurá-lo.
Tem um ditado que diz: ‘Se o pote está sujo, a água não
vai sair limpa. Ele tem que estudar” (idem)
São diversas as
fontes
informativas que podem auxiliar na formação
de um médium. Elas podem ser orais ou escritas. Uma delas,
citada pela mãe-de-santo Eldeni e a mais importante, segundo confirmação
de vários entrevistados são as orientações
emanadas das próprias entidades ou guias espirituais. Além
da forma oral, através do diálogo com o médium, este
tipo de informação pode assumir ainda, como no caso
da Tenda analisada, o formato de textos psicografados pela mãe-de-santo.
O grupo possui também apostilas impressas e uma “agenda umbandista”
elaboradas por seus participantes, que são utilizadas durante as
sessões de estudo com informações sobre entidades
do terreiro, horários dos trabalhos, textos de aconselhamento escritos
pela mãe-de-santo ou retirados de alguma obra publicada, lembretes
sobre deveres do médium
,
credo e hino da Umbanda, calendário comemorativo dos orixás,
prece para abertura dos trabalhos, pedido de proteção, banhos
de descarga, etc.
Além disso, existem
também as fontes religiosas clássicas, como o Evangelho,
os textos empíricos e teóricos escritos por adeptos ou estudiosos
das religiões afro-brasileiras e também a Internet.
Há, portanto, uma combinação harmônica entre
fontes escritas, orais e virtuais, oriundas do plano espiritual e material.
“O Evangelho
é um só, com variações: o Kardecismo usa de
um jeito, o catolicismo de outro, o evangélico de outro. Pegamos
o Evangelho segundo o espiritismo, estudamos as questões da Umbanda.
Os médiuns têm perguntas e durante os trabalhos não
dá para responder. Então oriento: escreve pro dia do estudo
a gente esclarecer. Utilizamos livros escritos sobre Umbanda. Não
como manual prá ver como se faz um trabalho, isso de jeito nenhum!
[risos] Que fique claro: ver como se faz oferenda para Ogun, não
se consulta em livro! Nessas questões as próprias entidades
nos orientam, respondem às questões de remédios, de
porque fazer isso, não fazer, né? Usamos também pesquisa
pela Internet.” (idem)
Dentro do trabalho formativo
desenvolvido no grupo é objetivo primordial assimilar a diversidade
de conhecimentos. A preocupação é conhecer as
variadas linhas de pensamento dentro do grande campo dos autores que escreveram
sobre as religiões afro-brasileiras. Entretanto, há
uma insistência na imprescindibilidade da orientação
oriunda do plano espiritual e da maior relevância desta no conjunto
da atividade de estudo e pesquisa. Há também uma preocupação
com a atualização, adaptação e evolução
do conhecimento dos médiuns. Ou seja, não há uma concepção
do saber como algo estático, parado no tempo, mas inserido num movimento
que transforma continuamente seu conteúdo.
“Estudamos os fundamentos,
como outros autores encaram a Umbanda: dependendo da descendência
espiritual dele, ele tem uma visão. Tem aqueles que são pesquisadores,
observam e dão o parecer. A gente lê prá ver
o que estão dizendo...Porque uma coisa é o que a gente sente
e pratica e outra é o que acaba passando para os outros. Tem que
aprender, evoluir, se adaptar. Repito: não por exemplo, como se
põe um filho na Umbanda, preparações que tem que fazer.
Isso não se aprende em livro! Isso é a própria entidade
que inicia os trabalhos espirituais dentro do terreiro quem ensina.” (idem)
Acoplada a esta concepção
de construção do conhecimento como um processo dinâmico
e plural, está a intenção de democratizaçãodosaber,
aspecto bastante original da T.U. Cabocla Marola do Mar, exemplar entre
o povo-de-santo local. Em grande parte dos terreiros, a mãe ou pai-de-santo
abre e conduz as “giras”, as cerimônias rituais. Há alguns
raros casos nos quais, sendo a mãe ou pai-de-santo muito idosos,
doentes ou estando limitados por razões diversas e possuindo um
Pai ou Mãe Pequenos de extrema confiança, estes abrirão
e conduzirão os trabalhos. Mas o que chama a atenção
no caso aqui estudado é a explícita intenção
da mãe-de-santo de romper esta obrigatoriedade e promover em seu
terreiro a democratização do saber, através do revezamento
de funções rituais que, em geral pertenceriam ao grau hierárquico
mais alto no terreiro, mas que neste caso é exercido por outros
médiuns, como forma de “práxis” de seu futuro religioso.
Não há, de sua parte, qualquer limitação física
ou espiritual que impeça a mãe-de-santo Eldeni de abrir e
conduzir trabalhos; há apenas a vontade declarada de democratizar
alguns papéis consolidados como exclusivos do chefe-de-terreiro,
permitindo assim a autonomia do médium. O educador Paulo Freire
já alertou para a importância da práxis no processo
educativo, que promove a reflexão sobre a ação
prática do indivíduo como alimentadora do processo de aquisição
de saber. Parece ser esta a opção educativa da T.U. Cabocla
Marola do Mar.
“Outra coisa que
diferencia meu ritual dos outros, é que normalmente o pai-de-santo
sempre abre os trabalhos. Eu não abro quase nunca. Os médiuns
têm uma escala: quem abre os trabalhos, quem faz a limpeza...Quem
abre os trabalhos, segue esse ritual [mostra um livro sobre o altar] que
eu deixo. Está prontinho e... abre os trabalhos....Se estou preparando
um médium para ser pai-de-santo ele só vai aprender fazendo!
Não posso esconder isso, tenho que abrir” (idem)
Coerente com a opção
da democracia interna e da divisão de responsabilidades, algumas
noções “do santo” adquirem uma significação
bastante específica. É o caso do “segredo” religioso e ritual.
Para a mãe-de-santo Eldeni, o segredo limita-se aos conhecimentos
específicos que resultam da combinação espiritual
do médium e de seu lugar na escala hierárquica e que, por
esta razão, não são aplicáveis a outro, o que
justificaria porque não são coletivizados. Entretanto, acima
do conhecimento transmitido pela mãe-de-santo está sempre
a vontade do guia espiritual, que deve preponderar sobre qualquer outra
determinação, como já vimos anteriormente.
“Esses segredos,
ou seja, a magia da Umbanda, a gente só transmite para um médium
quando ele se recolhe para se tornar pai ou mãe-de-santo. No retiro
já se começa a passar os fundamentos secretos, ou melhor,
não é secreto, é a essência – Fundamentos Essenciais
– sempre obedecendo à descendência dele. Por exemplo: tenho
um filho-de-santo que é pai-de-santo e filho de Ogun. Então,
tenho que dar para ele os fundamentos de Ogun dizendo: ‘Consulta teu Pai
de Cabeça
e vê se é isto mesmo o que ele quer.’” (idem)
A democratização
do conhecimento não significa, portanto, sua vulgarização
ou banalização, mas desdobra-se em duas vertentes: além
do mencionado acesso à ação prática ritual
como forma de exercício preparatório no processo educativo,
significa o fornecimento de ferramentas para aquele que já está
preparado para determinado poder religioso a fim de que possa exercê-lo
sem depender de outrem. A construção da autonomia significa,
portanto, subsidiar o médium de acordo com a escala hierárquica
religiosa em que se encontra e que lhe dá direito à obtenção
das informações, juntamente com o conseqüente aumento
da carga de responsabilidade material e espiritual.
“O básico
eu fiz: fui lá e fiz a firmeza
do terreiro dele, expliquei como tinha que ser e outras coisas que a gente
só diz para um médium quando ele vai ser pai-de-santo, conscientizá-lo
da responsabilidade. Isto não se fala para um médium que
está iniciando porque ele acaba confundindo e fazendo tudo errado.
É como na escola: ao jardim o que é do jardim; ao primeiro
grau o que é primeiro grau. Assim é na religião, tem
que ser aos poucos, porque chega na metade do caminho muitos desistem e
esses conhecimentos não podem ficar com uma pessoa que não
adquiriu a noção de responsabilidade e de como fazer uso
deles. Senão a gente estaria fazendo um monte de aprendiz de feiticeiro
por aí, não é? [risos]” (idem)
Se o segredo tem a medida
da dimensão do conhecimento que cabe ao indivíduo conforme
seu local na escala religiosa e sua descendência espiritual, não
cabe, portanto, manipulação do conceito no sentido de utilizá-lo
como subterfúgio ou meio de exercer a mistificação
religiosa.
“Para mim, não
tem esse negócio de segredo. Às vezes é desculpa porque
a pessoa não sabe responder o que foi perguntado. O segredo mesmo
é quando o médium se deita pro santo e recebe as mensagens
do orixá. O chefe de terreiro fica só orientando. Por exemplo,
nenhum dos meus médiuns sabe o que está enterrado aqui, mas
não interessa, porque quando eles forem ter o terreiro deles, vão
ser outras coisas enterradas, porque os santos são outros, as características
de cada um varia. No mais, segredo não existe. Os ditos segredos
são trabalhos que se faz para os mais variados fins.” (idem)
Pelo exposto, vimos que
os terreiros das religiões afro-brasileiras na Grande Florianópolis
apresentam um potencial significativo como verdadeiros centros educacionais
de prática intercultural, de aprendizagem social, cultural, religiosa
e política.
O trabalho educativo intercultural
comunitário comunitário: o caso da Tenda Espírita
Caboclo Cobra Verde
Giacalone (1998) aborda a
intercultura como um projeto que busca conjugar universalismo e relavitismo,
.... “colocar-se na relação, no confronto rela que podemos
descobrir semelhanças e diferenças, o eu, o outro
experimentando uma nova possibilidade de se tornar nós”.
É dentro desta possibilidade de tornar-se “nós”, em
uma perspectiva coletivista e comunitária, permeado pelo amálgama
cultural da religiosidade, que analisaremos a T.E.
Caboclo Cobra Verde. O grupo segue o ritual Almas e Angola e, “vem
trabalhando em prol do desenvolvimento prático-mediúnico,
colocando à disposição da comunidade um quadro de
médiuns aptos a atender mediunicamente todas as pessoas que precisarem
de apoio e orientação espiritual”
.
Além disso, oferece aos seus médiuns o atendimento individual,
e “este é realizado nas 24 horas que o médium necessitar”.
Além
do atendimento espiritual àqueles que a procuram, a Tenda tem como
objetivos auxiliar no suprimento, na medida do possível, de “necessidades
mais imediatas” tais como: alimentação, roupas, etc. Segundo
seus dirigentes, “seus trabalhos filantrópicos vão além
dos ideais de solidariedade, buscando também a ação
de cidadania e resgate à dignidade humana”. Na TECCV “a caridade
é uma meta a ser seguida e para onde se direcionam suas atenções”.
Em sua organização
institucional a TECCV conta com uma equipe de 30 pessoas entre médiuns
e colaboradores diretos. A presidente é a Yalorixá Maria
Tereza Bonete Martins. Além da Tenda, que responsabiliza-se pelo
aspecto espiritual, a partir de 1999 foi criada, articulada a esta, a Associação
Cobra Verde de Ação Solidária – ASCOVE, destinada
exclusivamente à questão filantrópica.
Em caso de camarinha, há
uma escala da organização dos médiuns na semana preparatória
da “saída” dos que estão “recolhidos”: os trabalhos são
realizados de segunda-feira a Domingo. Os turnos são escalonados
nos períodos da manhã, tarde e noite, ininterruptamente,
havendo a troca apenas de equipes de médiuns de um turno para outro.
O trabalho educativo intercultural
comunitário desenvolvido pela TECCV desde sua fundação
em 1988 foi assumido, a partir de 1999, pela entidade civil ASCOVE. Alguns
integrantes participam de ambas as instâncias: a espiritual, sob
responsabilidade da Tenda, e a assistencial, desenvolvida pela Associação.
Não há, segundo seus dirigentes, qualquer obrigatoriedade
desta dupla ação: há liberdade para optar somente
pelo envolvimento espiritual ou somente assistencial. Há independência
entre as duas instâncias.
O
trabalho mais sistemático desenvolvido pela Associação
atualmente ocorre basicamente junto à Comunidade do Pedregal,
bairro Bela Vista, da qual são cadastradas as famílias mais
necessitadas. Este contato ocorreu por iniciativa dos médiuns da
Tenda, como um prolongamento do trabalho mediúnico, dentro da concepção
de que a caridade não pode restringir-se ao plano espiritual, mas
estender-se ao social. Note-se, pela descrição que o babalorixá
Geovani faz das motivações iniciais, que não há
uma visão unilateral de apenas “auxiliar a comunidade”, mas também
a busca de um aprendizado dos próprios religiosos no sentido de
realização plena de sua espiritualidade:
“Sentimos necessidade de
ter contato mais direto com a comunidade. A gente tinha uma visão
muito limitada da situação; procuramos a comunidade até
para desenvolver a mediunidade, porque ser médium é
assistir as pessoas de todas as formas. Não só espiritual
mas, às vezes, até material, dependendo da situação.
O médium é um porta-voz, é um mensageiro espiritual”.
Apesar da independência
entre as instâncias mediúnicas e filantrópicas, há
entre estas um ponto de intersecção fundamental: a entidade
mentora da Tenda, o Caboclo Cobra Verde, que determina os caminhos espirituais
e assistenciais. Entre as estratégias orientadas por ele, está
a de envolvimento da comunidade de classe social mais abonada que habita
em torno da Tenda na arrecadação dos donativos para os mais
pobres. Esta mostrou-se eficiente enquanto solucionadora das dificuldades
materiais que a proposta de filantropia enfrentou em seu início:
“A primeira atividade começou
em 89: doação de roupas, alimentos e brinquedos. Na primeira
campanha começamos atendendo às crianças com brinquedos
usados porque o grupo não tinha dinheiro para novos. A própria
entidade nos orientou naquele caminho, mobilizar mais pessoas para a caridade.
Hoje mobilizamos toda a comunidade para donativos e todos os vizinhos próximos
vêm nos procurar para ver como podem colaborar na Campanha”. (Babalorixá
Geovani)
O trabalho comunitário
educativo urge como uma estratégia contra o preconceito e
pela integração da Tenda com a comunidade circundante e será
o principal veículo de rompimento dos estigmas em relação
à prática religiosa. O trabalho educativo intercultural,
tanto junto à comunidade pobre, quanto junto à mais abonada,
circunvizinha à Tenda, representou a ponte concreta de diálogo
entre os planos espiritual e material, na medida em que possibilitou a
abertura desta vizinhança à aceitação da diversidade
religiosa e superação de preconceitos.
“Quando a gente construiu
esse espaço, há onze anos, sofríamos preconceito dos
vizinhos, eles criticavam. As casas são muito próximas, o
barulho atrapalhava e, por não conhecerem, tinham uma visão
negativa da Umbanda, imaginam coisas que não é realidade.
Com esse trabalho assistencial, conseguimos mobilizar e mostrar para a
comunidade que o que a gente faz é positivo, tanto no sentido espiritual
quanto no sentido de atendimento às comunidades...Passaram a nos
ver com outros olhos. E começaram a se aproximar.” (Babalorixá
Geovani)
Como resultado de dez
anos de atuação, o trabalho educativo intercultural comunitário
da TECCV possibilitou a saída dos médiuns para além
do espaço exclusivo da Tenda e arredores, além de conseguir
outros apoios, ampliando sua ação e seu leque de influência:
“A gente não está
mais fazendo a festa na Tenda, porque se tornou pequeno. Agora a Festa
dos Carentes é no Ginásio de Esportes da Bela Vista. O pessoal
do ginásio sabe que é do pessoal da Umbanda e apoia, mas
porque é o nosso centro e já conhecem nosso trabalho”. (Babalorixá
Geovani)
Atualmente, um nova etapa está
sendo planejada pelos integrantes da TECCV e ASCOVE: a realização
de cursos profissionalizantes junto à comunidade do Morro do Pedregal.
O objetivo é um trabalho de formação com vistas à
construção da autonomia e rompimento da dependência:
“Não adianta só
dar o peixe, tem que ensinar a pescar. Isso foi orientado pelos mentores
do terreiro”. (Babalorixá Geovani)
Pelo exposto, pode-se
afirmar que a T.E. Caboclo Cobra Verde está atuando como um verdadeiro
centro de formação e educação, com uma concepção
que alia espiritualidade e solidariedade na prática. Sua ação
transforma não somente o grupo de médiuns, mas irradia-se
à toda a comunidade circundante. Em seu trajeto, vai transformando
preconceitos em espírito participativo e desejo de colaboração.
Além deste trabalho
mais sistemático desenvolvido pela Tenda, os centros realizam esporadicamente
algumas ações comunitárias. Por exemplo, nas ocasiões
festivas de homenagens aos orixás, geralmente há um momento
de confraternização ao final do ritual, quando alimentos
são servidos ou distribuídos a todos que desejem participar,
quer sejam freqüentadores do terreiro ou não, uma prática
generalizada entre o povo-de-santo.
A Tenda de Umbanda Cabocla
Marola do Mar, de Mãe Eldeni está projetando, através
da Associação Beneficente e Cultural Marola do Mar, uma sede
ampliada na qual instalará um centro assistencial. Neste, além
das sessões de Umbanda e estudo do Evangelho, haverá um depósito
de donativos angariados para a população carente, sala de
aula para reforço pedagógico e alfabetização
de adultos e espaço para creche abrigando crianças de 0 a
6 anos em período integral
.
O trabalho comunitário
educativo é encarado como oportunidade de crescimento espiritual
para os médiuns e como estratégia contra o preconceito e
integração, pela sua ação intercultural e social.
As divindades determinam os caminhos religiosos e assistenciais, imbricando-os.
A meta é a autonomia da comunidade, com o terreiro atuando como
centro de formação e educação comunitária
e intercultural, percorrendo, como assinala Fleuri (1999) “os complexos
itinerários de formação e produção cultural
em contextos já fortemente miscigenados”, como é o caso do
Brasil. A educação intercultural pode, neste sentido,
auxiliar na promoção dos sujeitos que muitas vezes estão
à margem dos processos de visibilidade social e cidadania. Neste
sentido, pode recuperar a centralidade da contribuição
dos grupos citados para a equidade, tolerância e convivência
democráticas em nossos país, aliando espiritualidade e solidariedade
na prática, cuja ação intercultural transforma o grupo
internamente e a sociedade envolvente.
Notas
Estatuto
social. Associação Beneficente Tenda de Umbanda Cabocla Marola
do Mar. 13 de maio de 1996.
Dados
retirados sem alterações da Agenda Umbandista. ABTUCMM, 1999.
Outras entidades da Tenda - Linhas (faixas de vibração,
dentro da grande corrente vibratória espiritual universal correspondente
a um elemento da Natureza, representada e dominada por uma potência
espiritual cósmica, um orixá também chamado Protetor
e que é chefe dos seres que vibram e atuam nesta faixa afim. É
subdividida em Falanges, dirigidas por representantes do orixá...”
conforme Cacciatore, 1988) de Povo d’água
- Cabocla Marola do Mar; de Caboclos – Caboclo Lírio Branco (Caboclo
de Xangô); Cabocla Juremi (Cabocla de Oxoce); de Ogum – Ogum Sete
Espadas; de Xangô - Xangô de Alafim; de Oxalá (Almas)
- Preto Velho Pai Tomás; Rita Benedita; de Erê - Mariazinha;
do Oriente - Princesa Iara; Ciganos – Carmem; Exús: Pomba Gira Maria
Padilha; Exú Sete Capas. Coordenador dos Trabalhos de Estudo do
Evangelho: Irmão Lázaro.
“Guia de frente = o mesmo que ‘orixá de frente’. Guia principal
da pessoa, seu Protetor, seu anjo-da-guarda. Também ‘guia de cabeça”
(Cacciatore, 1988)
Na
parede do centro há um lembrete: “A tenda de Umbanda que freqüentas
é coordenada pela entidade Cabocla Marola de Mar: é ela que
zela por ti e tuas entidades. Nada é feito sem sua aprovação.
O Caboclo Lírio Branco, caboclo de Xangô é a entidade
encarregada pela nossa guia espiritual de dirigir todos os trabalhos de
desenvolvimento, desobsessão limpeza magnética organização
das sessões, etc. Devemos a estas entidades nosso respeito, carinho,
gratidão, amor, confiança e sobretudo nosso esforço
para contribuir com o bom andamento dos trabalhos”.
Refere-se
à ação de desmanchar o ato de “obsedar”. “Obsedar
= perseguir. É o trabalho de correntes atrasadas que leva
os perseguidos às mais tremendas situações, inclusive
loucura... O obsessor, consciente ou inconsciente estende sua maléfica
atuação não somente sobre uma pessoa, mas diversas...Para
se livrar, devem os perseguidos procurar um centro kardecista ou de Umbanda,
respeitando o que for indicado pelos protetores”. Pinto, s/d.
“Limpar a casa = praticar atos rituais de purificação para
tirar do terreiro influências espirituais negativas” (Cacciatore,
1988).
Corrente
de energia espiritual.
A
título de ilustração: “No dia anterior ao trabalho,
o médium não deve ter relações sexuais; ficar
o mais calmo possível, mentalizando coisas boas, chamando pelos
guias mentalmente; evitar bebidas alcoólicas e fumar; tomar banho
de descarga antes da sessão; chegar 10 minutos antes do início,
acender sua vela de anjo de guarda e fazer suas orações;
procurar decorar os Pontos Cantados na Banda; estar atento aos trabalho
e guias para aprender; auxiliar quando necessário; manter sua pasta
de médium atualizada; estudar seu conteúdo e perguntar quando
tiver dúvidas; providenciar o material necessário para seus
guias: cigarros, bebidas, etc.; ser pontual e não faltar, manter
a mensalidade em dia; manter bom relacionamento com irmãos de fé;
evitar fofocas e conversas improdutivas”
Agenda
Umbandista, ABTUCMM, 1999.
“Pai-de-cabeça
= orixá masculino protetor principal de uma pessoa (homem). Tem
como juntó (orixá auxiliar na proteção do
orixá dono-da-cabeça sobre o filho. Segundo santo pessoal)
outro orixá feminino, a mãe. No caso de uma mulher é
geralmente firmada a mãe-de-cabeça”. (Cacciatore,
1988).
“Firmeza
= o mesmo que segurança. Conjunto de objetos com força mística
(axé) que, enterrados no chão protegem um terreiro e constituem
sua base espiritual” . (Cacciatore, 1988).
TECCV/10
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