Na
primavera de 1996, tive meu primeiro encontro com a comunidade de
amputados e devotees. Conectei a Internet, digitei "amputada"
em um site de busca, e me vi confrontada com um mundo que jamais
soube que existisse. Os endereços de vários websites apareceram
diante de mim, todos eles prometendo companhia e amizade para pessoas amputadas.
Estes sites ofereciam sala de bate-papo, anunciavam oportunidades e locais
onde os devotees e as pessoas amputadas poderiam se encontrar, continham
anúncios pessoais e vendiam fotografias e vídeos de mulheres
amputadas. Porém, os websites pareciam ter, principalmente, o objetivo
de explicar e defender as ações e motivações
dos devotees. "Devotees," rapidamente aprendi, eram
homens e mulheres que se sentiam atraídos por pessoas com amputações
e outras deficiências. Em outras palavras, homens atraídos
por mim.
Uma comunidade arrepiante
Tive uma estranha sensação
de familiaridade, quando visitei esses sites, apesar de nunca ter ouvido
falar sobre devotees antes. A familiaridade, contudo, era
devida não tanto a um sentido de comunhão, mas a um sentimento
de resignação. Devido aos olhares e respostas hostis
que recebia nas ruas, eu me sentia perturbadoramente
sem atrativos , convencida de que ninguém poderia amar alguém
como eu. Ninguém - isto é - exceto um devotee. Visitando
aqueles sites, percebi que as pessoas que me encaravam na rua não
eram a aberração, os devotees é que eram. O
mero fato de eles estarem agrupados na Internet para defenderem
seu desejo por mulheres amputadas testemunhava a natureza singular
de sua atração. A retórica defensiva desses sites
confirmou meu temor de que a sociedade visse as mulheres como eu como sem
atrativos e indesejáveis. Caso contrário - argumentei comigo
mesma - por que tais organizações seriam necessárias?
O descobrimento da comunidade de amputados e devotees on-line me
encheu de resignação: ela parecia oferecer minha única
chance de comunhão, apoio e companhia. Eu estava, subitamente,
incluída numa comunidade da qual eu não queria fazer parte,
uma comunidade que me arrepiava até os ossos.
Reenfocando as Mulheres
Em meus primeiros encontros
com os grupos de amputados e devotees as mulheres deficientes nestas
organizações eram invisíveis para mim. Apesar de minha
intenção original de aprender mais sobre as mulheres amputadas,
apesar do espaço na Internet dedicado às fotografias e
histórias dessas mulheres, tudo o que eu podia ver eram as histórias
dos devotees. A idéia de um fetichismo pela deficiência
era tão nova para mim que esqueci das mulheres tentando
entender os homens. Com o passar do tempo, e como eu me interessei
pelas barreiras específicas que as mulheres com deficiência
tinham que enfrentar, me vi retornando para as mulheres amputadas
envolvidas nestes grupos. O que elas encpntravam nessa comunidade de amputados
e devotees que eu não estava entendendo? Embora, eu tivesse
ignorado estas mulheres em minhas primeiras inserções no
grupo, agora me via compelida a conhecer suas histórias. O que motivava
o envolvimento delas em organizações que muitas pessoas percebiam
como exploradoras e detestáveis? Que possíveis benefícios
resultariam da interação delas com outras pessoas com amputações
e com os devotees?
Acho
este tipo de pergunta intrigante porque a maioria das pesquisas publicadas
sobre a comunidade de amputados e devotees focalizou exclusivamente
os
devotees. Não foram levantadas questões sobre as
experiências e motivações das mulheres amputadas envolvidas
em tais grupos e elas constituem a inspiração para este artigo.
No outono de 1999, voltei à comunidade de amputados e devotees
e perguntei a Jama Bennett, a fundadora da Coalizão Mundial de Apoio
aos Amputados (ASCOTWorld), se
ela estava disposta a discutir o grupo e sua participação
nessa comunidade. Comecei
uma exploração preliminar entre as mulheres amputadas para
descobrir como elas percebiam a ASCOTWorld e sua função
na vida delas. A própria Bennett sugere que a ASCOTWorld é
um lugar de empoderamento para mulheres amputadas, resistindo
aos estereótipos culturais dominantes sobre a assexualidadee
das mulheres deficientes.

Neste artigo, discuto
este potencial de resistência. Argumento que, embora a participação
de mulheres deficientes na ASCOTWorld possa não romper fundamentalmente
com o discursos dominante a respeito da assexualidade das mulheres
com deficiências, essa participação tem um efeito positivo
em suas vidas. O potencial de resistênciada ASCOTWorld
deve ser entendido como uma negociação entre seus
efeitos na cultura envolvente e seu impacto na vida pessoal de cada
mulher deficiente.
Estereótipos ePatologia
Discutindo as presuposições
das pessoas não-deficientes em relação
às portadoras de deficiências, Jama Bennett afirma que "há
uma devastadora percepção, por parte da comunidade
temporariamente não-deficiente, de que as pessoas
deficientescias são assexuadas e eternamente infantis". Devido
a este estereótipo, acrescenta ela, "muitas mulheresque
tiveram amputações recentes (incluindo eu mesma) imaginam
se ainda podem ser desejáveis ou atraentes para um homem novamente"
.
As observações de Bennett originam-se em suas próprias
experiências, numa cultura na qual a sexualidade do corpo deficiente,
particularmente do corpo feminino deficiente, é continuamente ignorada,
negada ou patologizada.
A maioria da literatura sobre
a comunidade de amputados e devotees perpetua estes estereótipos.
A maior parte dos estudos focaliza, principalmente os devotees retratando
as amputadas como silenciosos e passivos objetos do desejo masculino. Além
disso, porque esta literatura, analisa as causas e as repercussões
da atração dos devotees por amputadas, isto elenca a atração
como uma patologia, que deve ser tratada ou eliminada. Não
quero debater o mérito médico desse diagnóstico. Particularmente,
quero iluminae as concepções culturais sobre a sexualidade
das mulheres deficientes que subjazem a tal caracterização.
Se classificamos os
devotees como "doentes", o que estamos dizendo
a respeito da desejabilidade de mulheres deficientes? É patológico
achar atraente uma mulher deficiente? Mulheres amputadas não
são vistas nessas discussões destas questões e quando
aparecem é apenas como vítimas que foram molestadas ou enganadas
por
devotees.
Fetiche, Pornografia Ou?
Algumas feministas reforçam
esta tendência quando vêem os devotees como praticantes
de uma forma perigosa de pornografia. R. Amy Elman,
por exemplo, afirma que as publicações de devotees
contribuem "para que as mulheres e meninas, particularmente as
deficientes, continuem a ser consideradas e tratadas como de segunda categoria"
.
Ela examina várias edições da Amputee Times,
revista dirigida aos devotees, que focaliza "a fetichização
da vulnerabilidade feminina" e os comentários de devotees
a respeito da compilação de um catálogo de mulheres
deficientes atraentes. Embora eu concorde com Elman que o comportamento
de alguns devotees é preocupante, particularmente a intenção
de criar um banco de dados de amputadas "disponíveis", alguns dos
comentários dela também me preocupam. Elman vê
as mulheres deficientes apenas como vítimas objetificadas, carentes
de proteção; não como agentes ou sujeitos. Além
disso, ela ignora as mulheres que se vê na pornografia com deficientes
e só discute os fotógrafos e editores dessa imaginária.
Ao fazer isso ela sugere que as mulheres deficientes só estariam
interessadas em posar para imagens "sexy" se fossem enganadas ou
coagidas a fazê-lo.
Freqüentemente, as mulheres
deficientes são dissuadidas de qualquer forma de expressão
sexual, e as mulheres que residem em instituições enfrentam
censuras particularmente rudes à sua exualidade. Gayla
Frank discute a experiência de Dianne DeVries, uma amputada quadrilateral
que frequentemente encontrou críticas sobre suas escolhas de vestuário
no centro de reabilitação. Frank explica que a equipe médica
designada para DeVries queria que el\a usasse cosméticas pernas
protéticas e braços braços protéticos, mangas
compridas e saias largas e longas para diminuir sua aparência de
deficiente. Sua recusa em usar estes dispositivos consternava seus médicos,
que consideravam sua decisão como um sinal "desajustamento" mais
do que de independência. Sua preferência por vestidos sem manga
e tops de mangas curtas eram ainda mais enervantes para a equipe,
que considerava sua aparência "sem atrativos e possivelmenteperturbadora"
.
Sua equipe médica sugeria roupas mais discretas não para
facilitar suas funções físicas, mas para tornar sua
aparência menos chocante para os outros. No intuito de tornar invisíveis
as deficiências de DeVries, seus médicos efetivamente tornaram
DeVries invisível: suas opiniões e desejos sobre seu próprio
corpo e deficiência foram ignorados no julgamentos deles de
suas escolhas e ações, consideradas desviantes, mal
ajustadas e sem sem atrativo.
Escondendo e Disfarçando
O
impulso para esconder a deficiência é forte. Embora DeVries
tenha se rebelado contra os pedidos de seus doutores para que ela cobrisse
seus cotos com roupas e próteses cosméticas, muitos
amputados voluntariamente usam roupas folgadas como camuflagem para suas
deficiências. A atitude expressa pelos médicos de DeVries
- de que um coto amputado visível é "sem atrativo e
perturbador" é a única que muitos amputados têm
encontrado. Este ponto de vista dos "especialistas", combinadose
com a relativa ausência de imagens de amputados na mídia e
na esfera pública, desencoraja os amputados de tornar visíveis
os seus corpos alterados ou abreviados. A construção cultural
das mulheres com deficiências como assexuadas, desviantes e
e sem atrativos afeta sua auto-percepçãao e sua auto-representação,
impelindo-as a disfarçar - e se envergonhar de - suas deficiências.
Como a própria Bennett declara: "Eu usei saias e vestidos longos
durante dez anos, nunca shorts ou bermudas, para esconder
meu coto, porque eu sentia que devria mantê-lo escondido"
.
No correr de sete anos, desde
o seu primeiro encontro com a comunidade de devotees, Bennett mudou
dramaticamente, sua atitude em relação ao próprio
corpo. "Depois que eu descobri sobre os devotees", ela explica,
"comecei a usar bermudas, shorts e maiôs que deixam à
mostra meu coto.
Eu me dei conta de que esta é apenas minha
perna, e se alguém prefere não vê-la, pode simplesmente
não olhar"
.
Os comentários de Bennett revelam o impacto imediato que a comunidade
de devotees causou em sua autoconfiança. Simplesmente saber
da existência de homens que a achariam atraente por sua amputação,
e não apesar dela, fez com que mudasse radicalmente a compreensão
de sua deficiência e foi essa mudança que a levou a se envolver
na ASCOTWorld e à sua interpretação da organização
como um lugar de resistência.
Lolly Gibbs, uma amputada
por problemas com diabetes, envolveu-se com a ASCOTWorld logo após
perder seu noivo. Ele a deixou após a amputaçãao porque
não conseguiu adaptar-se à sua dependência de uma cadeira
de rodas. Gibbs, eventualmente, encontrou dois membros da comunidade de
devotees,
através de um anúncio em um jornal local. "Nunca tinhaouvido
falar de devotees", explica, "mas os dois homens
eram muito simpáticos, atenciosos e compreensivos.
Eles
me deram muito o que ler e aprender sobre suas preferências
e me falaram dos Fins-de-Semana Fascinação"
.
Após ir a uma série de Fins de Semana e freqüentar a
ASCOTWorld,
Gibbs apresentou uma transformação como a de Bennett: "Finalmente
me senti fazendo parte...atraente e até mesmo sexy. Não me
envergonhava mais de ser vista em público"
.
Empoderamento e Valorização
Ambas, Gibbs e Bennett, descrevem
seus encontros com os devotees como experiências fortalecedoras.
Após serem tratadas constantemente como feiaas e assexuadas, essas
mulheres encontraram homens que as achavam mais desejáveis que as
mulheres não deficientes. Valorizando as mulheres com deficiências,
os devotees parecem ignorar os ideais dominantes de beleza, escolhendo
mulheres que outros homens rejeitaram como sendo não-sexy e não-desejáveis.
Bennett explica que qualquer coisa que dê às mulheres deficientes
mais confiança ou crença em sua sexualidade é positiva
e ela confia em organizações como a ASCOTWorld
para fazer exatamente isto por ela e para inúmeras outras mulheres
.
Bennett considera que na
ASCOTWorld, a refutação da assexualidade das mulheres deficientes
extende-se paraa vendas de suas fotos e vídeos e a veiculação
de suas imagens em sites da Internet, acessados só por assinantes.
Bennett estima que existam mais de 28.000 instantâneos de mulheres
deficientes. Qualquer amputada que queira posar para fotos ou participar
de vídeos recebe assistência de Bennet e da
ASCOTWorld.
Muitos desses vídeos são vendidos por US$100,00,
dos quais 60% vão para a modelo e 40% ficam na Associação
para cobrir custos de "reprodução, postagem,mão-de-obra
e propaganda"
.
Os vídeos são destinados à promoção
pessoal, apresentando "mulheres solteiras para devotees que possam
querer conhecê-las nas reuniões de fim de semana"
.
ASCOTWorld não é o único grupo a oferecer tais serviços.
A CD Produções, operada por Carol Davis é outra organização
que produz e distribui fotos e vídeos de mulheres amputadas.
Amante de Uma Perna Só
Ambas, Davis e Bennett, asseguram
que estas fotos e vídeos são benéficos para as modelos
não só do ponto de vista financeiro como também por
promover um aumento em sua autoconfiança e maior consciência
de sua sexualidade. Joy, uma das modelos da CD, explica: "Eu sei o que
é ser rejeitada por homens por causa da falta de um membro. Sinto-me
gratificada por ser admirada como eu sou"
.
Outras mulheres fazem eco a Joy. Kath Duncan, em seu VT "Minha Amante
de Uma Perna Só", comenta como foi excitante essa sessão
de fotos, pois foi capaz de colocar todo seu corpo à mostra e sentir
seus cotos como sendo sexy. Estes comentários sugerem que encontrar
um ambiente no qual seus corpos sejam não apenas aceitos mas
apreciados parece produzir um formidável impacto na auto-estima
das mulheres deficientes.
A proliferação
de imagens representando deficientes como sexy e atraentes poderá
ser benéfica não só para as modelos mas também
para todas as deficientes. Jane Elder Bogle e Susan L. Shaul contam que
um dos maiores problemas para a expressão da sexualidade das mulheres
com deficiência é a falta de exemplos. Para muitas mulheres,
particularmente as que sofrem amputações em uma idade mais
avançada, é difícil aprender a incorporar cadeira
de rodas, próteses, cicatrizes e braçadeiras à idéia
das coisas "sexies"
.
ASCOTWorld
é um dos poucos lugares onde uma mulher amputada encontra imagens
de mulheres que são iguais a ela e que estão incorporando
suas deficiências às suas noções de sexy. Ao
divulgar essas imagens, ASCOTWorld as provê de com modelos de integração
entre sexualidade e deficiência para resistir à assexualizaação
imposta sobre elas pela cultura não deficiente
Propriedade e Gerencia
de Mulheres
Além disso,
como notou
Barbara Waxman Fiduccia, muitas das organizações
de devotees são dirigidas atualmente por amputadas
.
Fascinação,
ASCOTWorld
e Produções CD são propriedade de e são
dirigidas por amputadas. Elas decidem a forma de conduzir e os estatutos
das organizações. Todo o lucro
dos vídeos e das fotos é entregue às modelos. Waxman
Fiduccia enfatiza o aspecto radical dessas empresas que é: elas
possibilitaram às mulheres deficientes arrancar suas vidas sexuais
do controle dos médicos, psicólogos e, por extensão,
dos próprios devotees. As mulheres rstão no controle
de sua própria produção.
Embora ainda sinta algum
desconforto a respeito da noção de devotees, começo
a sentir uma afinidade em relação às as modelos amputadas
e empresáriaasr. Essas mulheres estão se recusando a aceitar
em silêncio os estereótipos impostos a elas pela cultura dos
não deficientes. Ao afirmar ativamente seu direito a falar sobre,
usar e dispor de seus corpos da forma como consideram adequada, elas estão
dando poderosos exemplos de modos alternativos de se observar o corpo feminino
com deficiência.
De
qualquer forma, o impacto que essas imagens causam na sociedade em geral
ainda precisa ser determinado. Mesmo que a participação na
comunidade de devotees possa mudar a percepção que
algumas mulheres têm de si mesmas, isto pode não ter nenhum
efeito sobre o juízo que as pessoas não deficientes fazem
delas. De fato, algumas pessoas podem entender a formação
de grupos como ASCOTWorld como prova de que pessoas deficientes são
completamente Outro. A existência da comunidade dos devotees
pode levar a crer que somente eles podem achar mulheres deficientes atraentes;
e que sentir desejo por uma mulher deficiente é uma "condição"
que só "afeta" alguns membros "desviantes" da maioria da população.
Tais pontos de vista não estão limitados aos não-deficientes.
Eu, no princípio, via os sites como o ASCOTWorld
não como uma prova de minha desejabilidadeda, mas de indesejabilidade.
Visto dessa maneira, o envolvimento das amputadas na comunidade devotee
pode reiterar a noção de que as mulheres deficientes são
assexuadas e de que não são desejáveis, negando desse
modo, o potencial de resistência da ASCOTWorld.
Valores
e Preconceitos
A
comunidade de devotees ainda reflete muitos dos valores da sociedade
em geral e seus preconceitos. No vídeo "Minha Amante de Uma Perna
Só", Duncan expressa sua decepção ao descobrir
que os devotees são tão críticos em relação
aos corpos das mulheres quanto os outros homens. Podem ir contra a corrente
ao considerar cotos sensuais, mas também criticam mulheres que são
gordas ou feias. Em outras palavras, os devotees não estão
numa esfera utópica na qual a beleza e a aparência física
sejam irrelevantes. Rrejeitando o estereótipo de que as mulheres
deficientes são indesejáveis muitos devotéed perpetuam,
ao mesmo tempo, os ideais hegemônicos de beleza.
Além disso, alguns
segmentos dos amputados e devotees refletem o heterossexismo que
permeia a cultura ocidental. Embora haja vários sites na Internet
destinados a homens amputados e devotees gays, os sites destinados
a lésbicas são menos comuns. Um dos poucos sites para lésbicas
que descobri é freqüentado principalmente por homens
devotees
heterossexuais à procura de "deusas do amor lésbicas e
amputadas. Esse site foi atacado, pelo menos uma vez, com comentários
e desenhos homofóbicos. Outro exemplo eloquente desse preconceito
é a opinião de uma mulher amputada com quem conversei: ela
acha que a existência de deficientes lésbicas é uma
prova da necessidade dos devotees. Segundo ela, muitas mulheres
com deficiências se tornam lésbicas porque não podem
encontrar parceiros masculinos. Para ela, se essas mulheres conhecessem
os homens devotees não seriam "forçadas" a se tornar
lésbicas para ter relacionamentos saudáveis. Seus comentários
refletem o preconceito cultural segundo o qual todas as lésbicas
são heterossexuais fracassadas. Embora tais crenças
não sejam exclusivas da comunidade de amputadas/devotées,
ela sugere que a comunidade pode ser fortalecedora apenas para algumas
mulheres deficientes. Assim, nesta comunidade, a sexualidade de lésbicas
deficientes é negada, patologizada e/ou ignorada.
Molestamento
e Agressão
Também
quero ressaltar que nem todas as mulheres deficientes partilharam a experiências
com devotees como receptivas e fortalecedoras. Muitas mulheres deficientes
tiveram encontros assustadorres com fetichistas por deficência, inclusive
sendo perseguidas por devotees que as fotografaram sem sua permissão.
Outras mulheres, incluindo eu mesma, tiveram seus nomes e descrições
físicas disseminados pela comunidade de devotees sem seu
conhecimento ou consentimento. Embora nem todos os devotees se comportem
dessa maneira excusa, alguns têm, o que faz com que algumas mulheres
com deficiências desconfiem da comunidade toda. O potencial da ASCOTWorld
de contribuir para a elevação da auto-estima sexual das mulheres
deficientes deve ser pesado contrapondo-se-lhe o molestamento por devotées
que algumas mulheres têm experimentado.
Embora estas preocupações
sejam importantes e acusações de coerção e
molestamento, não devam ser descartadas, os efeitos de ASCOTWorld
não podem ser considerados como completamente negativos. Para Bennett
e as mulheres amputadas de ASCOTWorld,
sua participação na comunidade de amputados e devotees
mudou totalmente sua percepção da própria deficiência.
Assim, para algumas mulheresdeficientes, ASCOTWorld atua como um lugar
de resistência pessoal que lhes permite restaurar a auto-estima,
independência e atividade sexual. Embora posar para fotografias e
participar de conferências não possa contribuir, fundamentalmente,
para alterar ou desmantelar os estereótipos sobre o corpo feminino
deficiente, o impacto que elad acreditam que tais atividades tiveram em
suas vidas pessoais não deveria ser ignorado. Nas palavras de Lolly
Gibbs: "Finalmente eu mesentia pertencer a algo, que eu era atraente
e até mesmo sensual. Eu não estava mais envergonhada..."
Notas
Título
original : "Amputated Desire, Resistant Desire: Female Amputees in the
Devotee Community". Palestra proferida na Society for Disability Studies,
Chicago, em junho de 2000 e, posteriormente, publicada no webzine Disability
Word n. 3, June-July, 2000 . As imagens contidas no texto são
de autoria do fotógrafo alemão Rasso Bruckert e mais sobre
seu trabalho com pessoas deficientes pode ser visto em http://www.bildagentur-querschnitt.de/
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