Compradas as bebidas,
resta ainda verificar se há pratos e copos em número suficiente
para os convidados. Ultimamente é bastante comum vermos o povo-de-santo
comendo o ajeun em pratinhos de papel, com garfos de plástico, em
lugar do tradicional ajeun servido em folhas de mamona e comido com as
mãos, descrito tantas vezes na etnografia clássica sobre
o candomblé
.
É preciso, ainda,
providenciar flores e folhas para enfeitar o barracão, fazer os
laços com os ojás (panos no formato de echarpe que o povo-de-santo
amarra na cabeça, na cintura, nos atabaques...), além de
manter tudo rigorosamente limpo. Durante estes dias é preciso que
alguém providencie alimentação "profana" e bules e
mais bules de café para os que estão trabalhando no terreiro.
A não ser nos momentos
mais importantes, como o sacrifício e outros rituais, o pai ou mãe-de-santo
estarão ocupados com outros afazeres. Em geral estão atendendo
os clientes através do jogo de búzios ou da realização
de ebós (um tipo de "limpeza" ritual, que inclui um sacrifício
animal), ou boris (cerimônia de "dar de comer à cabeça",
visando fortificá-la ou prepará-la para a vinda do orixá).
Quer dizer, dando os primeiros passos na direção da próxima
festa, seja pela transformação do abiã, que agora
está recebendo/dando o bori, num futuro iaô, seja pela transformação
do cliente que veio jogar búzios num novo abiã. Todos os
clientes são convidados para a festa. Alguns, vendo a correria para
a sua preparação, resolvem até ajudar.
"Tem os clientes,
também, que ajudam, que vêm e ajudam; às vezes até
a pegar numa vassoura e varrer. Acho isso muito válido. É
estas que de vez em quando passam pra abiã" (Mãe Sylvia de
Oxalá).
Os custos da Festa
Outro aspecto importante,
no que diz respeito à festa de candomblé, são seus
custos, porque devemos ter em mente que o povo-de-santo, em sua maioria
é composto de pessoas pobres, contando com a presença, evidentemente,
de representantes das classes média e alta
. Apesar das condições econômicas em que vive, é
um grupo que consegue promover, com freqüência intrigante, festas
que, como pudemos perceber, são bastante dispendiosas.
As festas de iniciação
e as de obrigação são as mais caras. Entre as festas
de obrigação a mais cara é a de 7 anos, conhecida
como decá. Nas despesas com tais festas deve ser computada a manutenção
do filho-de-santo e dos que trabalham no terreiro durante o período
de recolhimento, além de ser obrigatório o sacrifício
de um bicho de "quatro pés" e quatro frangos (um para cada "pé"
do bicho, diz-se. Chama-se este procedimento de "calçar" o bicho
de quatro pés). Praticamente repete-se a iniciação,
com acréscimos, pois já foram assentados os 5 ou 7 orixás
do enredo, o caboclo, etc. que também "comem".
Mesmo no caso de uma festa
simples (comemorativa de um orixá), pelo menos uma comida seca cada
orixá deve receber, como vimos, Exu deve comer e o santo homenageado
receber um "quatro-pés" calçado. Este "quatro-pés"
geralmente é um bode ou uma cabra. Mas há até quem
ofereça um boi a seu orixá ou caboclo, conforme a situação
financeira da casa e/ou do indivíduo permitam. Mas geralmente se
oferece bem menos que isso, "negociando-se" com o orixá, prometendo-se
dar-lhe o devido mais tarde.
Apenas as comidas secas,
porém, já consomem uma considerável quantia em dinheiro
do povo-de-santo, além das despesas com gás, luz, água,
alimentação (e tempo!) dos que trabalham na casa, inevitáveis
em qualquer atividade do terreiro. Assim, vemos que o mínimo gasto
numa festa de orixá, é de 500 dólares, sem incluir
as bebidas do ajeun, que podem variar do simples refresco em pó
até cervejas e refrigerantes (em geral não se bebe abertamente
álcool no candomblé: a exceção feita à
cerveja deve-se à crença de que ela é a bebida favorita
de Xangô). No caso de uma festa de iniciação, uma das
mais caras festas de candomblé, os custos chegam a 1500 dólares.
No decá, multiplique-se pelo menos por três essa quantia.
Não é possível
reproduzir, no espaço deste artigo, a lista dos artigos necessários
para a feitura de um iaô
.
É suficiente dizer que ela consta de 206 itens, sem levar em conta
as unidades, como 10 obis, 3 quilos de contas etc. Além do preço
dos artigos, devemos somar, também, os honorários do pai-de-santo,
chamados de "mão" ou "salva de chão" e que representa o custo
dos seus serviços religiosos, a serem pagos pelo iaô, em dinheiro
ou, quando isso não é possível, em trabalho no terreiro
.
A lista do material de feitura contém todos os artigos necessários
não só ao assentamento do santo (a feitura, propriamente
dita), mas também aos ebós, o material do bori, da roupa
de santo e do iaô e o sustento do pessoal que trabalhará na
"roça" (terreiro) durante o período. Feitas as contas, uma
iniciação considerada "barata", como a de Ogum (pois há
orixás considerados "baratos", como Ogum, Oxum, Oxossi e outros
considerados "caros", como Logun-Edé e Oxalufã.), não
poderá ser realizada por menos de 1500 dólares, e as mais
caras, como as de Logun (que “come tudo aos casais, como um casal de faisões,
um casal de coelhos, etc), 2000 dólares
.
Não é nada
fácil, portanto, para o povo-de-santo, conseguir recursos para a
iniciação ou mesmo para a festa comum. No caso da iniciação,
pode demorar anos
.
Pode se tornar impossível. Muitas vezes, pede-se ajuda aos demais
e, outras vezes, quando há emergência, pode-se fazer o santo
"de esmola", o que significa que o próprio indivíduo ou o
pai-de-santo pedirão aos filhos e clientes da casa que dêem
algo da lista ou pelo menos parte, conseguindo, ao fim de um certo tempo
tudo o que é necessário
.
Às vezes os filhos de santo saem à rua, oferecendo um punhado
de pipocas curativas de Obaluaiê, em troca de algum dinheiro para
a iniciação. Outras vezes é o próprio orixá
que exige que tudo seja feito de esmola, ensinando assim a humildade a
seus filhos. E se não for desse modo, muitas vezes o abiã
não terá nunca recursos para fazer seu santo. Mas não
é comum que o abiã conte muito com os outros para se iniciar.
Primeiro porque pedir a quem tem pouco, como a maioria do povo-de-santo,
é na verdade conseguir muito pouco. E depois parece haver uma questão
de orgulho envolvendo o assunto. Nada, entretanto, nesse "orgulho" impede
o abiã de aceitar presentes - que podem ser escolhidos na lista
- para seu orixá, e isso acontece freqüentemente. Clientes
que simpatizam com o abiã, com o pai-de-santo ou, principalmente,
que se julgam em dívida para com o orixá que será
feito, ou que desejam "agradá-lo", costumam "presenteá-lo"
diminuindo em alguma coisa o número de itens ou a quantia a ser
despendida pelo futuro iaô. Para muitas pessoas, entretanto, é
uma questão de honra gastar o que for preciso para satisfazer seu
orixá. Muitos adeptos do candomblé trabalham anos a fio para
ter, um dia, a condição de oferecer uma esplêndida
festa em honra de seu orixá, de fazê-lo do modo mais perfeito
possível.
Giselle Binon-Cossard observa:
"Essas múltiplas
despesas impõem-lhe enormes sacrifícios.[...] Ninguém
pode imaginar a quantidade de trabalho, os serões e o cansaço
que a entrada em público, nos dias de festa, representa para as
filhas de santo.[...] Elas, no entanto, tiveram sua hora de glória”.
(Binon-Cossatd, 1981: 148).
São provavelmente
essas horas de glória o que compensa todo o sacrifício, todos
os gastos do povo-de-santo com as festas. A renovação das
obrigações, a preocupação com as festas dos
outros membros do terreiro e com as suas próprias, fazem com que
elas sejam uma preocupação constante dos adeptos dessa religião,
que devem organizar a própria vida cotidiana em função
do trabalho que deverá realizar na "casa de santo" para a festa
do orixá da casa (ou do seu), e as festas de outras casas a que
deseja assistir, ou seja, a vida no candomblé é a constante
produção da festa. Constante produção das horas
de glória.
Para Pierre Verger, esses
momentos fortalecem os iiniciados elevando sua auto-estima ao promoverem
um sentimento de honra e de prestígio, que ultrapassa os muros do
terreiro:
"O candomblé
é uma religião de exaltação da personalidade.
Ela faz com que as pessoas se sintam honradas. Uma vendedora de acarajé
tem prestígio. Compra-se dela com muito respeito porque ela é
filha de Oxum, de uma deusa, porque sua deusa baila bem. A gente não
se sente humilhado." (Declaração de Pierre Verger a Goulart
de Andrade, no programa Comando da Madrugada, em 16/11/90).
Os Deuses entram em Cena
A festa de candomblé,
por suas características intrínsecas de ludismo, através
do canto e da dança, de ultrapassamento do "eu", no transe, de um
figurino e papéis previamente conhecidos por todos os que dela participam,
assume características de um drama ritual, semelhante ao drama teatral,
onde são vividas as histórias dos deuses e a dos homens do
povo-de-santo. É o tipo de festa que Duvignaud chama de festa de
participação (Duvignaud, 1976).
É na festa que os
orixás vêm à terra, no corpo de seus filhos, com a
finalidade de dançar, de brincar, de xirê, que
em ioruba significa exatamente isto. É através dos gestos,
sutis ou nervosos, dos ritmos efervescentes ou cadenciados, das cantigas
que "falam" das ações e atributos dos orixás, que
o mito é revivido, que o orixá é vivido, como a soma
das cores, brilhos, ritmos, cheiros, movimentos, gostos.
A vida dos orixás,
embora seja o principal tema (e a vinda dos orixás o principal motivo)
da festa, não é o único. Os filhos-de-santo, mesmo
fora do transe, representam também papéis construídos
material e simbolicamente em termos de tempo de iniciação,
hierarquia (da casa e dos orixás) ou mesmo quanto à possibilidade
de entrar em transe ou não, já que nem todos os membros da
religião podem experimentá-lo.
Desempenhar um papel religioso
no candomblé (ser "do santo"), uma religião fundamentada
na possessão dos homens pelos deuses, implica pertencer a uma das
duas categorias básicas que organizam a religião: a dos "rodantes"
(os que entram em transe) e a dos "não-rodantes" (os que nunca entram
em transe). Na categoria dos "não-rodantes" encontram-se os ogãs
e as ekedes. Todos os demais são "rodantes". Dentro destas duas
categorias surgem "papéis" (estou chamando de "papéis" o
que o candomblé chama de cargos). Entre os "não-rodantes"
masculinos, chamados de ogãs, temos os "papéis" de axogum
(ogã que sacrifica os animais), pejigã (o ogã responsável
pelo quarto de santo, o peji), os alabês (ogãs que tocam os
atabaques), entre outros. Entre os "não-rodantes" femininos, chamadas
de ekedes, somente o papel de iatebexê (ekede responsável
pelos cantos, em alguns candomblés) é diferenciado. Como
todos os que não entram em transe são, depois de "confirmados"
(iniciados), por definição, ebomis (sejam do sexo masculino
ou feminino), a hierarquia entre eles se faz a partir do tempo de confirmação
e/ou a partir do oye (cargo que o indivíduo ocupa na casa). Não
devemos esquecer, principalmente, os chamados "ogãs-de-sala", que
são responsáveis pela recepção dos convidados
nas festas e pelo cuidado para que nada saia da ordem nessas ocasiões.
Geralmente são pessoas sociáveis, simpáticas e que
falam bem, sobre vários assuntos, mas que segundo alguns pais-de-santo,
"são desajeitados pras coisas de fundamento".
Na categoria dos rodantes
estão os iaôs e os ebomis, conforme tenham menos de sete anos
de "feitos", ou sete anos ou mais (e no caso dos abiãs, não
terem ainda passado pela cerimônia de iniciação, ou
confirmação, conforme sejam eles rodantes ou não).
Os ebomis podem assumir inúmeros cargos no terreiro, como pai ou
mãe-de-santo, pai ou mãe-pequenos, iamorô (responsável
pela ajuda nos rituais em geral), ialaxé (a que cuida dos axés
dos orixás), jibonã (responsável pelos cuidados com
o iaô recolhido, e que também é chamada de "mãe-criadeira",
especialmente no rito angola), iabassê (cozinheira dos santos), dagã
e sidagã (responsáveis pelo padê de Exu), ialaxó
(responsável pela roupa dos orixás) etc. Há também
o olossaim (responsável pela busca das folhas rituais e que deve
conhecê-las muito bem), os obás e outros mais, determinados
pela casa.
A ocupação
destes cargos é designada, a maior parte das vezes, pelos orixás
incorporados, durante a festa, num ato chamado de "suspensão" e
que consiste numa "escolha" feita pelo orixá, que pega a pessoa
pelo braço e leva para junto dos atabaques, dançando, ou
ainda deitando-se aos pés do escolhido, numa atitude de reverência
do deus ao homem e colocando-o sentado numa cadeira "de honra"
. Estes momentos costumam ser muito emocionantes tanto para os filhos da
casa como para a assistência, pois algumas vezes é do público
que assiste à festa que o orixá "suspende" alguém.
Evidentemente, a construção
dos papéis
rituais não se faz na festa, mas é principalmente nela que
eles se expressam em sua plenitude, pois é quando se encontram reunidos
os membros do grupo podendo (no "palco" que é o barracão),
contracenar entre si na presença do público assistente.
"A sala onde acontecem
as festas é um teatro. Cada cerimônia é uma representação
religiosa, da qual participam atores e espectadores" (Binon-Cossard,
1981:130).
Neste "teatro", cada
papel é construído com base numa série de mitos, movimentos
ritualizados, roupas, signos próprios além, é claro,
de tempo, conhecimento, direitos e deveres específicos. Por exemplo:
O orixá Ogum pode
ser identificado, minimamente, a partir de alguns elementos: a cor azul
cobalto e um facão, gestos de luta executados durante a dança,
postura bravia e viril. Para os mais conhecedores, pelo ilá (grito
característicos de cada orixá, que comporta variações).
Se for orixá de um ebomi, quando parado, colocará os braços
para trás, apoiando as costas das mãos sobre os rins. Se
for o orixá do pai-de-santo, quando ele entrar em transe todos os
rodantes filhos da casa também "virarão" em seus orixás.
Todos os ebomis, rodantes
ou não, têm seu "figurino" composto, minimamente, por um colar
de contas feito em "gomos", na cor característica de seu orixá
pessoal, um ojá na cintura, pelo uso de "abas" no ojá ori
(pano que se enrola na cabeça) e, principalmente, pelo uso do adjá
(sineta ritual, usada para chamar os orixás). O papel dos ebomis
não-rodantes, na festa, pode ser comparado ao de "coadjuvante" no
teatro, e sua "deixa" (sinal para que um personagem atue) é geralmente
outro papel, como o de orixá por exemplo, começar a ser desempenhado
por alguém.
Os iaôs recém-iniciados
podem ser reconhecidos pela sua postura corporal (geralmente andam de cabeça
baixa), pelo uso do kelê (colar símbolo da iniciação,
usado rente ao pescoço, durante pelo menos 3 meses) e pelo uso do
mocã (trançado de palha da Costa com uma espécie de
"boneca" de palha na ponta, relacionado aos antepassados), do erindilogun
(colar de 16 fios de contas) e dos contra-eguns (trancinhas de palha da
Costa que são amarradas nos braços dos iaôs, bem apertadas
e que visam espantar os espíritos de mortos, chamados de eguns).
Os iaôs "de folha", recém iniciados, geralmente têm
ainda o cabelo muito curto; além disso, só sentam no chão,
separados dos demais iaôs e ebomis, comem por último etc.
Outros elementos também
são levados em conta na delimitação dos papéis
religiosos, sem contudo abandonarem o referencial do tempo de iniciação.
A posição que o indivíduo ocupa na "roda-de-santo",
por exemplo, é determinada nesta base. Assim, os ebomis estarão
no "começo" da roda, seguidos pelos iaôs em ordem decrescente
de tempo de iniciação, ficando no "fim" da roda os abiãs.
Há, contudo, casas em que, além destas distinções,
estabelece-se também uma distinção entre os gêneros:
mulheres à frente e homens no "final" da roda (ainda assim respeitando,
para a ordenação, o "tempo de santo").
A posição e
os papéis dos indivíduos no sistema religioso também
se manifestam por ocasião da troca de bênçãos
entre os filhos da casa e outros que estejam dançando durante a
festa. O mais novo pedirá a bênção ao mais velho,
todos pedirão ao pai ou mãe-de-santo, os iaôs e abiãs
pedem aos ogãs, ekedes e outros ebomis; pessoas de um mesmo barco
(iniciados no mesmo dia na mesma casa, pelo mesmo pai-de-santo) trocam
bênçãos entre si e assim por diante, numa complicadíssima
e por vezes ininteligível rede de bênçãos. Já
vi muita gente ressentida porque não lhe tomaram a bênção
na hora devida, ou mesmo porque acabou pedindo a bênção
(beijando a mão do outro), quando devia dar (receber o beijo na
mão primeiro). Entre o povo-de-santo, esta "gafe" é muito
comum e pode ser o início de antagonismos.
Desde a entrada da roda-de-santo
no barracão, todos os papéis religiosos são vividos
intensamente, numa atuação sincrônica cujos elementos
ordenadores são dados pelo xirê, que é a estrutura
que organiza a entrada das cantigas e danças ao som do ritmo dedicado
a cada orixá, cujo transe é previsto neste momento. Assim
que o orixá "vira", outros papéis são imediatamente
acionados: a ekede, que deve acompanhá-lo, vesti-lo, secar-lhe o
suor do rosto e dançar com ele; o pai-de-santo, que deve receber
a reverência do orixá; o dos alabês, que devem saber
o quê, e de que modo, deve ser tocado para este orixá etc.
Além de ser uma estrutura
seqüencial ordenadora das cantigas (louvações), o xirê
denota também a concepção cosmológica do grupo,
funcionando como elemento que "costura" a atuação dos personagens
religiosos em função dos papéis e dos momentos adequados
à sua representação.
Um exemplo de como o xirê
expressa a visão cosmológica do grupo pode ser dado por esta
ordenação, costumeira do candomblé ketu:
Primeiro toca-se para Exu,
no padê, (porque ele é o intermediário entre os homens
e os orixás, entre o mundo do além e o da terra); depois
para Ogum (porque é o dono dos caminhos e dos metais e sem ele e
suas invenções da faca e da enxada o sacrifício aos
orixás e o trabalho na terra estariam impedidos), Oxossi (porque
é irmão de Ogum e porque também está ligado
à sobrevivência através da caça e da pesca),
Obaluaiê (porque é o orixá da cura das doenças,
ou aqueles que as traz), Ossaim (dono das folhas que curam, daí
sua ligação com Obaluaiê e também porque nada
se faz sem folhas no candomblé), Oxumarê (por sua ligação
com Xangô, como escravo deste e como aquele que faz a ligação
entre o céu (nuvens) e a terra), Xangô (deus do trovão
e do fogo, trazido por Oxumarê), Oxum (esposa favorita de Xangô),
Logum-Edé (o filho de Oxum, mas com Oxossi), Iansã (que no
mito criou Logum-Edé juntamente com Ogum quando Oxum o abandonou);
Obá (tida em muitas casas como irmã de Iansã e a terceira
mulher de Xangô), Nanã (a mais velha das iabás - orixás
femininos), Iemanjá (a dona das cabeças e mulher de Oxalá)
e, finalmente Oxalá, o senhor de toda a criação.
Algumas casas, entretanto,
seguem outra ordem:
Exu é louvado antes
do começo da festa, geralmente às 6 horas da tarde, sendo
"despachado". Quando começa a festa toca-se para Ogum, Oxossi e
Ossaim (porque são irmãos); Obaluaiê, Oxumarê,
Ewá e Nanã (três irmãos e sua mãe, respectivamente,
tidos como uma "família" da nação jeje); Oxum e Logum-Edé
(mãe e filho); Iansã e Obá (duas irmãs), Xangô,
Iemanjá e por fim Oxalá (filho e seus pais respectivamente).
Esta seqüência parece privilegiar os vínculos de parentesco
e de nação, enquanto a primeira privilegia os acontecimentos
míticos que colocam em relação os orixás. Seja
qual for a seqüência e sua concepção cosmológica,
ela costuma ser fixa para cada casa. É ela que, de alguma forma,
norteia os acontecimentos da festa, fazendo, entre outras coisas, com que
os filhos observem, através das músicas, os momentos apropriados
ao cumprimento da etiqueta religiosa como, por exemplo, dançar de
certa maneira ou pedir a bênção à mãe-criadeira
quando se toca para o orixá dela
.
Sendo a música um
elemento constitutivo do candomblé (e imprescindível às
festas, universalmente), ela também fará parte da identidade
religiosa do indivíduo. O próprio nome religioso (dijina)
do filho-de-santo é freqüentemente inspirado por termos que
compõem as letras das cantigas sendo possível identificar,
através da dijina, o orixá da pessoa.
Além do repertório
pessoal, o indivíduo participa, ainda, do repertório do grupo,
que consiste nas cantigas do orixá do pai ou mãe-de-santo,
dos ebomis da casa como ogãs e ekedes, da mãe-criadeira,
irmãos de barco, enfim aquelas que, ao determinar a ordem das reverências
(quem pede e quem dá a bênção) durante a festa,
estabelecem publicamente a hierarquia do terreiro e localizam o indivíduo
numa determinada posição. Existem, inclusive, cantigas próprias
dos cargos da casa ou do status religioso:
A chegada dos ebomis em visita
a uma casa, durante uma festa, também obriga a uma ligeira interrupção
da música, para que os "couros" (atabaques) "dobrem" em homenagem
ao recém-chegado. Estando a música intimamente relacionada
à condição hierárquica, até mesmo as
pausas entre uma cantiga e outra revelam isto: a roda dos iaôs e
abiãs deve agachar-se enquanto a roda dos ebomis
permanece em pé. Ainda o paó (palmas ritmadas), com o qual
se louvam os orixás e se reverenciam os ebomis, indica, musicalmente,
a alta posição de quem o recebe. E, mais, se considerarmos
os terreiros de ritos diferentes, poderemos ver que a identidade constrastiva
é construída também através da música.
Um terreiro se diz ketu porque, entre outras coisas, toca os ritmos
do ketu, canta em "yorubá", toca seus atabaques com aguidavis (varinhas).
Outro terreiro é angola porque toca os ritmos de angola, canta em
língua "banto" e toca seus atabaques com as mãos. Como a
música constitui elemento fundamental também nos rituais
privados, é comum, nas festas, durante determinadas cantigas em
que são rememorados momentos da iniciação (ou outros,
marcantes da vida do filho-de-santo) que essa identidade seja chamada a
se expressar de modo intenso, como pede o espírito da festa. É
então que o indivíduo entra em transe de seu orixá.
A vivência desse momento
de intensidade é dinamizada pelo ritmo dos atabaques, que fornece
a "atmosfera" adequada ao caráter mais ou menos vibrante de cada
orixá.
Os orixás expressam,
através dos ritmos particulares, suas características, criando
um momento musical em que elas se tornam inteligíveis e plenas de
sentido religioso. A sincronia entre dança, cores e ritmo é
tão perfeita, que é possível entender o orixá
como este conjunto, ou ainda o orixá como cor, como ritmo, como
movimento. Daí podermos falar dos ritmos mais tocados no candomblé
em termos do que representam e de sua relação com os orixás
aos quais "pertencem".
O adarrum é o ritmo
característico de Ogum. É um ritmo "quente", rápido
e contínuo e que lembra o galope frenético de um cavalo.
Ele também é um ritmo executável pelos atabaques apenas,
sem canto. A este som Ogum, o deus da guerra e do ferro, deus violento
e implacável, dança vestido com suas roupas de azul profundo,
de capacete e empunhando um facão, numa dança cheia de movimentos
rápidos, "abrindo os caminhos" e "guerreando" com vigor. O adarrum
também pode ser tocado com o objetivo de acelerar o acontecimento
do transe. O toque de bolar, por exemplo, se faz ao som do adarrum.
O aguerê é o
ritmo de Oxossi, deus das matas e da caça, deus astuto e paciente.
É um ritmo acelerado, cadenciado e que exige agilidade na dança,
do mesmo modo que a caça exige habilidade do caçador. Vestido
de azul claro (no rito ketu) ou de verde (no rito angola), Oxossi, com
seu chapéu de plumas, o ofá (arco e flecha) e o eruxim (rabo
de cavalo preso por um cabo, símbolo de realeza), dança com
movimentos de cavalgada e de caça, agitando a assistência,
que é contagiada pela música.
O ritmo de Obaluaiê,
deus das epidemias, rei da terra, é um ritmo pesado, lento, "quebrado"
por pausas, chamado de opanijé. Obaluaiê, coberto de palha,
dança o opanijé encurvado, ameaçando cair, apontando
suas "feridas" pelo corpo. Os filhos e a assistência são tomados,
neste momento, por grande circunspecção e reverência.
O bravum, embora não
seja atribuído especialmente a algum orixá, é freqüentemente
escolhido para a dança de Oxumarê e Ewá. É um
ritmo de andamento rápido, dobrado e repicado. Oxumarê, deus
do arco-íris, deus-serpente, dança com movimentos ondulantes,
atirando-se por vezes ao chão, imitando o bote da serpente. Já
Ewá, em muitas casas é tida como uma deusa que já
não se "faz" (porque perderam-se os fundamentos, dizem) e cuja única
forma de culto que recebe são justamente as cantigas, nas festas
.
A dança de Xangô
se faz ao som do alujá, um ritmo fogoso, vibrante, entusiasmado,
que expressa a força e a realeza do deus senhor dos trovões,
rei de Oyo, que o dobrar do rum (o maior dos atabaques, de som mais grave)
relembra, emocionando os que ouvem. É muito comum ver-se alguém
levantar, na assistência, e dançar para Xangô, imitando
os movimentos da coreografia da roda. O alujá parece irresistível
para a maioria das pessoas e não raro alguém acaba bolando
nessa hora.
Ijexá é o único
ritmo tocado com as mãos no rito ketu e é, por excelência,
o ritmo consagrado a Oxum, deusa da água doce, da beleza, da riqueza,
da sensualidade e do amor. É um ritmo cadenciado e profundamente
envolvente. Vestida de amarelo, segurando na mão seu abebê
(espelho), Oxum dança mostrando suas ricas pulseiras, "banhando-se
nas águas", penteando vaidosamente seus cabelos. O Ijexá
é tocado ainda para o deus-menino filho de Oxum e Oxossi, conhecido
como Logum-Edé. Ele dança como seu pai e como sua mãe,
tanto ao som do Ijexá como ao do aguerê, vestindo azul e amarelo,
com o ofá e o abebê. Nestes momentos, geralmente, "o bailão
ferve" como diz o povo-de-santo.
Para Iansã, divindade
dos raios e dos ventos, toca-se o agó, ilu, ou aguerê de Iansã,
termos que designam um mesmo ritmo que, de tão rápido, repicado
e dobrado também é conhecido como "quebra-prato". É
sem dúvida o mais rápido ritmo do candomblé ketu,
correspondendo à personalidade agitada, ardente, desinibida e sensual
desta deusa dos ventos e das tempestades, deusa guerreira, mulher de Xangô,
que vestida de vermelho (ou cor-de-rosa) dança com sua espada de
cobre e eruxim (um rabo de cavalo preso por um cabo), "espantando os eguns",
ou "agitando os ventos", rápida como os elementos que rege.
Quando chega Nanã,
a deusa dos abismos, da lama, dos pântanos, considerada a mais velha
das iabás, toca-se o sató, um ritmo vagaroso e pesado, apropriado
aos lentos movimentos desta deusa que dança curvada, "varrendo"
o mal. É também apropriado para Iemanjá, deusa do
mar, que dança imitando os movimentos das ondas, o que é
muito bonito se vemos, sobre suas roupas de um azul quase branco, os peixes
prateados pendurados por longas correntes.
O batá, talvez um
dos ritmos mais característicos do candomblé ketu, pode ser
tocado em dois andamentos: o batá rápido e o batá
lento. O batá lento é tocado para todos os orixás
cuja dança denota cansaço e lentidão, como a dança
de Oxalufã, o velho deus arcado, senhor da criação
que, totalmente vestido de branco, "arrasta-se" pelo barracão, apoiado
em seu paxorô (cajado). O batá rápido é tocado
para Oxaguiã, entre outros. Este Oxalá moço dança
guerreando, todo de branco, carregando uma "mão de pilão"
e uma espada, símbolo da justiça deste deus.
A vamunha é um outro
ritmo, também conhecido por nomes variantes deste, que é
tocado para todos os orixás. É um toque rápido, empolgado
e tocado em situações específicas, como a entrada
ou saída dos filhos-de-santo no barracão e para a retirada
do orixá incorporado
. É nesse momento que, após dançar suas coreografias
específicas, o orixá saúda os pontos de axé
da casa e se retira, sob a aclamação dos presentes.
No candomblé angola
há um número bem menor de ritmos (congo, congo de ouro, samba
de angola, cabula, barravento e muzenza) que estabelecem um gradiente de
intensidade dos momentos da dança durante a festa; assim, é
a interpretação de cada orixá e seu carisma, que fornecem
os elementos de beleza e personalidade a cada deus, uma vez que os cinco
ritmos são tocados para todos os inquices (Amaral
& Gonçalves da Silva, 1992).
A festa de candomblé
pode ser vista como um verdadeiro "espetáculo", de fundo religioso
e portanto a presença e a qualidade do público assistente
são muito importantes para um terreiro, pois é para ela em,
última instância, que os membros da casa apresentam o drama
dos orixás, segundo sua concepção. É para a
assistência que são exibidos os papéis, a identidade
da nação, da casa, a concepção religiosa do
grupo. Em 1948 Edison Carneiro já observava:
"...Uma das aspirações
mais constantes dos candomblés é ter um caminho por onde
possam passar automóveis, a fim de garantir uma assistência
seleta às festas" (Carneiro, 1948:43)
Como se vê, a preocupação
com a assistência e sua "qualidade" não é nova e revela
a importância dada pelo povo-de-santo ao diálogo com a sociedade
abrangente em relação à qual estabelece sua legitimidade
e também de onde extrai futuros iniciados que garantirão
a sobrevivência da religião, o que questiona a afirmação
do caráter sectário que se lhe costuma atribuir.
Para a assistência,
não iniciada, entretanto, conforme pude verificar, muito pouco do
que está acontecendo é inteligível, pois poucas pessoas
além do povo-de-santo dominam o complexo código religioso
ou mesmo a "etiqueta" do candomblé. Muitas pessoas estão
ali apenas para assistir, sem muito se perguntar por significados particulares.
Sabem que ali estão dançando os deuses, que pessoas estão
incorporando "entidades divinas". Muitos disseram que vão para ver
os orixás dançarem. Uma publicitária diz que se envolve
com o ritmo e se projeta nos orixás que dançam. Segundo ela:
"Uma festa de santo
é melhor, pra mim, que uma sessão de terapia. Saio leve daqui,
mesmo que fique a noite inteira" (Dedé, publicitária, 46
anos).
Para alguns, o candomblé
é também a única beleza possível, numa vida
de pobreza:
"Quando eu era criança,
minha família era muito pobre. Nós não tínhamos
nem o que comer em casa. Então nos fins-de-semana a gente ia pro
candomblé. Lá tinha música, tinha dança, roupas
bonitas, brilhantes. Lá tinha comida! O candomblé era a única
coisa bonita na minha vida. A única beleza. Então eu fiquei"
(Roberto de Oxum, ebomi).
E os chefes de terreiro
também percebem a existência deste elemento lúdico,
de lazer mesmo, da festa de candomblé:
"Candomblé
é boate de pobre" (Sandra de Xangô, mãe-de-santo).
Para os iniciados, a
festa também é uma espécie de "jogo" que consiste
em reconhecer peças, códigos, decifrar signos (que orixá
é aquele que virou, qual sua qualidade, o que as contas penduradas
no pescoço "dizem") ou ainda uma espécie de texto já
muito conhecido que se acompanha praticamente dizendo as falas do personagem
junto com os atores. Por exemplo, quem vai virar em que cantiga, o que
o orixá vai fazer quando se toca num certo ritmo, quais orixás
virão em determinadas festas, em determinadas casas, quem será
"suspenso" etc.
E não são apenas
os homens que se divertem na festa de candomblé:
"O candomblé
toca pra divertir orixá (...) Quer dizer que é uma festa
como quando você vai numa discoteca, como você vai num fundo-de-quintal
(samba-de-roda, pagode), vai pra se divertir então... o candomblé
é isso aí" (Mãe Adenir de Oxum).
É possível
perceber que a festa de candomblé assume, inclusive, o caráter
de "lazer", de espetáculo, a que se vai nos fins-de-semana, e do
qual é possível fazer parte, seja apenas assistindo, seja
dançando na assistência, seja aproximando-se, aos poucos,
da religião. Sendo o momento síntese de tudo que o povo-de-santo
pode apresentar publicamente em termos de imagem da religião, para
a assistência a festa é não só um verdadeiro
espetáculo, de estética ímpar, mas também uma
"vitrine" da alegria, do ludismo, da sensualidade e beleza vividos pelos
adeptos desta religião. Vitrine de um estilo de vida. A idéia
de que os próprios deuses vêm à terra para dançar
e se divertir, para "comer", para vestir belas roupas, parece influenciar
fortemente a visão de mundo do povo-de-santo. E é assim que
se justifica o apelo da música, da festa, e dos prazeres sensuais
para o povo-de-santo que é fortemente ligado a eles, seja no candomblé,
no pagode, na escola de samba, no futebol, no afoxé, ou feijoadas
e peixadas de fim de semana etc. Ao mesmo tempo, há a consciência
de que todo esse ludismo, essa alegria, têm seu preço em termos
de trabalho, dinheiro, empenho e dedicação envolvidos. E
sendo assim, a avaliação da qualidade e beleza desses eventos
é feita, como observou Bourdieu ao analisar
a construção dos “estilos de vida” (1983), tendo como padrão
de referência a complexidade do trabalho, a dedicação
e custos envolvidos. O tempo e o número de pessoas envolvidas. Cria-se,
a partir desses valores um habitus, cuja fórmula generativa é
dada por eles que, por sua vez, criam um gosto específico (um conjunto
de valores baseados na vivência religiosa, no terreiro) delineando,
a partir dela, um estilo de vida peculiar do povo-de-santo
.
Temos ainda que levar em conta que toda a dinâmica de reconhecimento
do povo-de-santo entre si é gerada em função da participação
dos membros do grupo nas festas, pagodes, afoxés etc. Por um conjunto
de práticas e consumos que constitui o estilo de vida do povo-de-santo
e que é um estilo de vida festivo. Vive-se um ethos da festa, como
se a própria vida fosse uma Festa. Dentro ou fora do terreiro. Assim,
a festa de candomblé constitui um fato social total, organizando
todas as dimensões da vida do povo-de-santo.
Conclusão
Fornecer matrizes para construção
de estilos de vida não é, obviamente, privilégio do
candomblé. Todas as religiões têm essa capacidade e,
na verdade, é a isso mesmo que se propõem. O estilo forjado,
entretanto, difere de acordo com os mitos e interpretações
deles que as religiões propagam como modelos para estar no mundo
e da noção do que é o homem e seu destino.
No caso do candomblé
a festa é o meio mais adequado de acesso a essa matriz (e de sua
expressão), por englobar os mitos, a hierarquia, o conjunto dos
valores religiosos e a vivência dos adeptos (por ser um fato social
total) pelo que ela representa da visão de mundo do povo-de-santo
Outras religiões, é claro, também têm a festa
como elemento capaz de agrupar seus fiéis em torno de objetivos
comuns e confraternização, como é o caso principalmente
do catolicismo popular, do pentecostalismo e em alguns momentos da umbanda,
com suas festas de Iemanjá e Cosme e Damião, que já
foram incorporadas pela maioria da população, adepta ou não
desta religião. Contudo, ainda que a festa esteja presente em quase
todas as religiões, é preciso compreender de que modo ela
se insere na estrutura religiosa; considerada como elemento constitutivo
dessa estrutura ou como elemento "exterior", usado para intermediar o sagrado
e profano de modo inteligível. No primeiro caso, que é o
caso do candomblé, a festa e a religião se fundem expressando
sua estrutura comum através dos eventos que marcam seu acontecimento.
Festa e Candomblé são sinônimos, explicitando-se um
no outro. A festa é estrutural. No segundo caso, a festa pode ser
vista como um meio que os homens usam para expressar seus sentimentos de
alegria e esperança diante de seu deus. Aqui, a festa é circunstancial,
conjuntural.
O candomblé é
capaz, através da dramatização, nas festas, de elevar
os homens, de fazê-los sentirem-se maiores. Como vimos na Festa do
Boiadeiro Laçador, ela foi transcorrendo num continuum, do religioso
para o profano, de modo quase imperceptível, através da humanização
dos deuses. Se a deusa Iansã surge no começo, como ápice
do sagrado, ela é ao mesmo tempo, como todos os orixás, uma
deusa bastante humanizada, pois é sensual, quente, livre, foi mulher
de vários orixás, e representa a natureza, os ventos, as
tempestades. Ao partir, Iansã deixa o caboclo-boiadeiro, entidade
que vive junto à natureza, mas em função da cultura:
ele cuida dos bois que devem ser domesticados. O mesmo acontece com os
outros caboclos. Quando os caboclos vão embora ficam os homens,
dançando e cantando. Assim, a festa é uma só, vivida
pelos deuses, pelos homens que já viveram ou por aqueles que ainda
vivem; reproduzindo uma certa escala de divindade, na qual os homens se
encontram no grau mais baixo e ao mesmo tempo, no mais alto, pois a festa
dos deuses e demais entidades só acontece no corpo dos homens. E
esses homens se tornam deuses à medida que fazem parte, ainda que
por pouco tempo, da matéria desses deuses dos quais são o
elemento fundamental, pois são eles que os concebem ao mesmo tempo
em que são concebidos por eles. É na festa, portanto, que
é possível vermos de que modo cada um desses homens pensa
seus deuses e por eles é pensado. No candomblé os deuses
são alegres. Os caboclos são alegres, os homens são
alegres. E essa alegria, apesar de todas as dificuldades vividas pelos
homens, e pelo povo-de-santo principalmente, consegue ultrapassar os limites
da religião. É uma gente alegre também fora do terreiro.
Porque é uma gente que faz parte de um povo que é único.
Um povo que tem um deus na cabeça, música no espírito,
uma energia "sobrenatural" no corpo. Um povo que sabe os segredos das folhas
e dos elementos da natureza. Inclusive da natureza humana, que é
vivida em toda a sua potencialidade. Uma gente que ama os trovões,
como Xangô, o mar como Iemanjá, os rios como Oxum, o trabalho
como Ogum, a terra como Obaluaiê, as árvores como Tempo, as
florestas como Oxossi, o pôr do sol como Ewá, o arco-íris
como Oxumarê. Respeita e glorifica os caboclos como homens que enfrentaram
a vida com sabedoria, porque sabiam como lidar com a natureza da qual fazem
parte. Uma gente que sabe que a vida é curta e que deve ser vivida
intensamente. Que a única coisa que realmente interessa é
ser feliz, expressar livremente todos os desejos, ter saúde, alegria,
amor e sucesso para serem festejados. Os problemas, resolvem-se no dia
a dia. Um a um. Com a ajuda dos orixás. Gente que muitas vezes gasta
tudo o que ganha para cultuar o santo. Seu santo. Uma gente do santo.Que
tem como palavra de ordem “awon xire!”. “Vamos nos divertir!”
Notas
Este artigo se baseia em resultados da pesquisa Povo-de-Santo, Povo
de festa. O estilo de vida dos adeptos do candomblé paulista,
realizada no período de 1986 a 1992 no candomblé de São
Paulo, com financiamento do Conselho Nacional de Pesquisa Científica
e Tecnológica (CNPq) e da Fundação de Amparo à
Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP). É parte do texto
mais amplo sobre o estilo de vida dos adeptos do candomblé que apresentei
em 1992 como Dissertação de Mestrado em Antropolologia Social
ao Departamento de Antropologia da Universidade de São Paulo. Durante
cinco anos a Editora Brasiliense o reteve, sob contrato, para finalmente
fugir à sua responsabilidade alegando dificuldades financeiras ainda
não esclarecidas. Em 2002 (portanto dez anos depois) a Editora Pallas
publicou uma síntese desta dissertação, sob o título
Xirê! o modo de crer e de viver no candomblé. O texto integral,
contudo, com imagens e anexos, só pode ser encontrado no Departamento
de Antropologia da USP.
O Boiadeiro Laçador era a entidade cabocla cultuada por Tata Zunzodoazambi
(Wilson de Iemanjá), falecido em 1992.
Almas, espíritos de mortos.
Representação material da entidade.
O
cruzado ainda era a moeda oficial.
Mulher
responsável pelos cuidados com o iaô durante o período
de recolhimento como, por exemplo, alimentação, banho, ensino
de rezas, cantigas, danças etc.
Grito
com que o orixá se identifica quando incorpora seu filho.
Chama-se
"virar pra Caboclo", à mudança da língua ritual e
das cantigas. Ou ainda dos atabaques. Separa-se- desse modo o culto aos
caboclos do culto aos orixás , delimitando-se o lugar de cada um
na estrutura religiosa. "Virar pra Caboclo" é visto como a introdução,
permitida pelos orixás, de um culto esporádico a estas entidades,
que segundo o povo-de-santo do rito angola, "realiza muito milagre, muita
bondade, dá muita solução a problemas".
Atacan
é o nome que se dá aos ojás quando amarrados no peito,
formando uma espécie de "x" que acaba em laços nas laterais.
A
roda-de-samba passa das cantigas de "sotaque" para sambas populares como
os de Martinho da Vila, Beth Carvalho, Clara Nunes e outros.
Tanto
homens como mulheres cantam esta cantiga.
Este
"for dê" é pronunciado "fodê".
Idem.
O
termo "roça", aqui, refere-se às relações sexuais
lésbicas.
Só
o povo-de-santo entende o cacófato edi (ânus) fícil,
que insinua que alguém está resistindo à conquista
sexual.
Apesar
de não ser mais uma religião exclusivamente negra, o termo
candomblé continua a designar não só a religião
como também os lugares de culto.
Ver as descrições das festas de candomblé feitas por
BASTIDE (1978), CARNEIRO (1948), RIBEIRO (1965), RODRIGUES (1935) e outros.
Ver
os trabalhos de GIROTO (1980), BINON-COSSARD (1981), SCHETTINI (1986),
GOLDMAN (1987), DANTAS (1988), PRANDI (1991), CORREIA (1990), FERRETTI,S.
(1986 e 1991) e FERRETTI, M. (1991), entre outros.
A
iniciação, com a "fixação" do orixá
na cabeça do adepto é chamada, pelo povo-de-santo de "feitura".
Sobre
o Lorogun, ver o trabalho de LEÃO TEIXEIRA, 1987.
Ipetê
ê é o nome da comida que se oferece à deusa Oxum, e
é feita à base de feijão fradinho e camarão.
Na
festa denominada Acarajé de Iansã, são oferecidos
acarajés à deusa Iansã e a toda assistência
da festa
René
Ribeiro (1965) descreve crianças pernambucanas que faziam isso e
que ele pôde observar durante suas pesquisas. Deoscóredes
dos Santos (1988) conta sua experiência de criança no candomblé,
quando junto com os amigos "cortou" um bicho para um "pedaço de
pau" que resolveram "sacralizar" e que mais tarde se tornou o "santo" do
afoxé de seu terreiro.
E
da nação à qual pertence o terreiro, além de
idiossincrasias dos próprios terreiros de uma mesma nação.
Vagner
Gonçalves da Silva estudou os processos transformativos por que
tem passado o candomblé paulista e suas conseqüências
em termos da estrutura da religião (GONÇALVES DA SILVA, 1995).
Entre
as pessoas que entrevistei, 66% recebiam entre 1 e 3 salários mínimos;
29% recebiam entre 3 e 8 salários mínimos e 5% recebiam mais
de 8 salários mínimos mensais.
A
lista me foi fornecida por uma cliente de uma loja de artigos para umbanda
e candomblé, quando comprava material para sua própria iniciação.
O
preço da "mão" do pai-de-santo varia muito. Vai de zero até
cerca de 2.000 dólares, conforme a casa, o pai-de-santo e, principalmente,
o cliente.
O
valor de um salário mínimo, hoje (dezembro de 1991), é
de 55 dólares.
Ver
sobre a questão, os trabalhos de BINON-COSSARD (1981), VOGEL (1987)
e PRANDI (1991), entre outros.
Este
processo também pode passar pela "negociação" com
o orixá e pela "adaptação" das roupas antigas dos
orixás da casa ( que já não são usadas) para
o novo orixá, através de uma "reforma".
O
termo "suspensão" refere-se a uma prática tradicional - pouco
vista atualmente em São Paulo - de, a mando do orixá, os
ogãs fazerem com os braços uma espécie de "cadeirinha"
suspendendo do chão o escolhido e levando-o, deste modo, para saudar
os pontos sagrados do barracão, sentando-o, em seguida, numa cadeira
de honra.
Estou
usando o termo papel em oposição ao termo função,
que remete a um funcionamento social mecânico, racional, orientado
para um fim. O "papel", no sentido da teatralidade, remete, pelo contrário,
a um tempo cíclico, a ações relacionais e, principalmente,
a "interpretações" individuais.
Sobre
a música como elemento propiciador do transe, ritualizando o momento
em que deve acontecer, ver ROUGET (1980). Sobre a música como elemento
estrutural que ordena e identifica papéis, rituais e outros eventos
do candomblé ver AMARAL & GONÇALVES DA SILVA (1992).
A
roda dos ebomis é uma roda que se forma dentro da roda normal, e
onde dançam apenas rodantes que já deram obrigação
de 7 anos, ekedes e ogãs.
No
entanto já vi, em casa de pai Idérito do Nascimento, em Guarulhos,
uma belíssima Ewá, toda vestida em palha, empunhando um arpão
e uma cabaça, dançando majestosamente ao som do bravum. Depois
disso, soube de mais algumas, mas não cheguei a ver.
Este
ritmo também é chamado de "rebate".
Ver
Amaral, 1992 e 2002.
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