Quem nunca teve oportunidade
de ir a muitas festas de candomblé certamente sentirá
alguma dificuldade para imaginar o que ela pode representar em termos da
estruturação simbólica e social desta religião.
Nem pode imaginar, também, a rede de significados e alianças
que ela implica e, tampouco, o prazer estético que vai se desvendando
desde o momento em que se ouve, ainda do lado de fora do terreiro, o som
dos atabaques tocando para os deuses. Para que este artigo pudesse fazer
sentido também para os que não sabem o que se passa numa
festa de candomblé é que optei por descrever uma das
106 festas a que assisti durante a pesquisa de campo que realizei por
6 anos, como auxílio do CNPq e da FAPESP no candomblé paulista.É
claro que a simples descrição não pode dar conta da
emoção que envolve os acontecimentos, nem do profundo sentimento
religioso com que os participantes encaram a festa. Mas pode servir de
referência para a melhor compreensão da análise que
faço, a seguir, da festa como fenômeno estrutural do candomblé;
não só do ponto de vista da religião mas, principalmente,
de seu papel na construção de identidades individuais e de
manutenção da coesão das comunidades dos terreiros.
E que ultrapassa a dimensão religiosa, espraiando-se pela vida cotidiana
dos adeptos do candomblé, criando uma disposição
durável (Geertz,1978) específica nos iniciados, delineando
o que se pode chamar um estilo de vida (Bourdieu, 1983) do povo-de-santo.
Disposição que se revela na cantiga que costuma abrir as
festas, quando se chama Ogum, o deus da guerra, cantando: Awon xirê,
Ogun!". "Vamos brincar, Ogun!"
Festa
de Boiadeiro com Saída de Equede (São Paulo, 1988)
"Neste
dia, um quente 03 de Dezembro, chegamos ao terreiro aproximadamente às
19:30 hr. Como estávamos sob a vigência do horário
de verão e não queríamos estar na estrada escura e
sem iluminação, com longos trechos de buracos e curvas sinuosas
(e cerca de um quilômetro de estrada de terra) durante a noite, preferimos
chegar um pouco mais cedo e esperar na própria roça o início
da festa, marcado para as 21 horas. Contudo, a festa, propriamente dita,
só começou, realmente, às 24 horas em ponto. Como
tínhamos que esperar, fomos visitando as dependências da roça
e conversando com o pessoal da casa.
O
Boiadeiro Laçador
é a entidade mais querida na Casa de Wilson de Iemanjá, o
pai-de-santo chefe desta casa (ou o "tata" como se diz no rito angola),
também conhecido, entre o povo-de-santo, pela dijina de Zunzodoazambi.
Sua roça (terreiro), situada em Parelheiros é uma das maiores
e mais bonitas de São Paulo. Sua área construída tem
cerca de 3.000m2, num terreno de 2 alqueires. Sendo uma espécie
de "sítio", lá Wilson planta muitos tipos de legumes, frutas,
verduras e também cria animais como cabras, galinhas, porcos e até
bois. Nesta área, foram construídas casas separadas para
Exu, Ogum, Xangô, Iansã, Balé (eguns
) e, chamando a atenção de quem chega, uma especialíssima
casa para o boiadeiro Laçador, feita de taipa, coberta de sapé,
circular, no estilo das malocas indígenas. Esta casa foi construída
por descendentes de uma tribo indígena que habita o bairro do Cipó.
Estes índios fazem a manutenção temporária
da cobertura da casa do boiadeiro, que deve ser refeita de tempos em tempos
por causa das chuvas. O chão desta "maloca" é de terra batida
e, nos dias de festa como este, coberto por um verdadeiro tapete de folhas
de "são gonçalinho", uma erva extremamente perfumada, com
um cheiro quembra o do cravo-da-índia e que, sendo pisada durante
as danças ou pelo simples andar, espalha seu perfume de modo marcante.
No dia da festa do boiadeiro vêem-se, em frente à casa deste,
hasteadas, duas bandeiras: a do Brasil, porque o boiadeiro representa a
parte brasileira do culto, incorporada pelo rito angola, e a bandeira de
Minas Gerais, terra do Boiadeiro Laçador que, segundo Wilson, é
"originário da cidade de Diamantina".
Dentro
da casa do boiadeiro, pendurados no mastro central, vêem-se o chapéu
do boiadeiro, seu laço, suas esporas e boleadeiras; uma cadeira
coberta por um grande pedaço de couro de boi e seu assentamento
, colorido, cercado por alguidares cheios de frutas, oferendas feitas pelos
filhos-de-santo da casa. Junto à parede ficam os três atabaques
do culto aos caboclos, pois os que tocam para os orixás (inkices,
no angola) não tocam para os caboclos, e vice-versa.
O
barracão do terreiro também é muito grande, construído
em duas águas, retangular e dividido ao meio, no sentido do comprimento.
Separada do espaço onde acontece a "roda-de-santo" por uma mureta
que forma um "patamar" sobre o qual ficam os alabês e os atabaques,
vê-se uma grande mesa de banquete feita em alvenaria, forrada, nos
dias de festa, por esplêndidas toalhas brancas bordadas pelas filhas-de-santo.
Esta mesa recebe, durante o ajeun, as personalidades mais importantes do
culto. Mesmo assim, poucos são os que ficam sentados à mesa.
A maioria prefere comer com o prato na mão, ao ar livre, "batendo
papo" mais informalmente. No centro desta imensa mesa sempre existe um
enorme arranjo de flores.
Nesta
festa o boiadeiro havia recebido, como oferenda, um boi "calçado"
por quatro frangos para cada pé do boi, num total de 16 frangos.
A carne deste boi seria servida no ajeun, em forma de churrasco, acompanhada
de muito chope. Além do caboclo, comeu Exu, evidentemente..
A
decoração do barracão foi idealizada por tata Wilson
e realizada com a ajuda dos filhos-de-santo. As colunas que separam as
duas águas do teto estavam totalmente cobertas por folhas de palmeira,
sobre as quais foram colocados grandes arranjos de frutas (comida dos caboclos),
entre elas pequenos mamões, melões, goiabas, bananas, laranjas
etc. que, além de um efeito muito colorido ainda traziam um delicioso
perfume ao ambiente. Nas paredes brancas, muitas folhas e algumas bonequinhas
feitas de cabacinhas pintadas. Grandes cascos de tartaruga d'água
(cinco, gigantes) ornamentavam as paredes fazendo alusão a Zazi,
um dos orixás do pai de santo). Na parede do fundo, onde ficam a
cadeira do tata e da mãe-pequena, uma pintura de Iemanjá
Ogunté, vestida de verde, com os ombros nus e o rosto coberto pelo
filá que desce do adê (coroa). Um arranjo de flores brancas
e amarelas ao lado da cadeira do tata completa a decoração.
Sobre a mesa enorme, o arranjo também é composto por várias
frutas e flores.
Um
dos motivos do atraso para o início da festa era o mesmo que acontece
em todos os candomblés e em todas as festas: o atraso dos alabês.
O atraso de certas pessoas, fundamentais ao andamento das festas em que
o pai-de-santo entra em transe (como esta) e deve portanto entregar o comando
da festa a outra pessoa, pode retardar o início da festa. Para completar
a lista de razões para o atraso, neste dia, a bomba d'água
da casa havia quebrado e os filhos-de-santo precisaram fazer mil "acrobacias"
para lavar a louça, limpar tudo, e tomar os banhos rituais (maiongas).
Outro problema atormentava os filhos da casa: não havia a serpentina
necessária para que fossem servidos os 160 litros de chope que acompanhariam
o churrasco do boiadeiro Laçador. Todos se movimentavam tentando
consegui-la, o que foi ficando cada vez mais difícil à medida
que o tempo passava. Telefonou-se para várias pessoas. Por fim,
já bem tarde, foi possível alugar uma por 15 mil cruzados
que todos acharam caríssimo mas, uma vez que não haveria
outra solução, às 11 horas da noite, mais uma cotização
foi feita.
Enquanto
isso, era possível observar as filhas-de-santo surgindo, aos poucos,
impecáveis em suas "baianas" (roupa de festa, com muitos saiotes,
pano da costa, camisu etc.) alvíssimas ou multicoloridas. As roupas
coloridas sempre faziam alusão ao orixá da pessoa ou a seus
caboclos. As rendas também, através de seus desenhos (muito
observados pelo povo-de-santo), homenageavam os orixás de cabeça
da filha-de-santo. Assim, rendas brancas com pequenas folhas prateadas
eram usadas por uma filha de Catendê (deus das folhas); rendas com
estrelas e flores para as filhas de Oxum. Leques para as filhas de Iansã,
luas para as de Iemanjá e muito richelieu (bordado vazado) para
todas e também para os filhos-de-santo, em abadãs e batas,
ou em barras de calçolões. Os ojá-ori (panos que cobrem
a cabeça) são cuidadosamente amarrados, terminando em "abas".
As roupas têm muito brilho, os tecidos são cuidadosamente
escolhidos. Muitas pulseiras nos braços das mulheres e dos homens.
Muitas contas, muitos anéis de prata, de ouro, de búzios
(o povo-de-santo preza muito este tipo de adorno e usa, também fora
do terreiro, muitas pulseiras, muitos anéis, muitos colares). Tudo
repleto de significado até o último detalhe: a cor, a forma,
a quantidade, os números. As mulheres parecem flores, tantos são
os saiotes engomados sob as delicadas saias em tecido de renda branca ou
colorida, musselina, seda, brocado, lamê, cetim ou algodões
estampados em cores vivas. Nos pés, infalivelmente, chinelinhos
sem salto (que os iaôs deixam do lado de fora do barracão)
brancos. As ebomis (e alguns ebomis homens também) usam um pouco
mais de salto. Curiosamente, esses chinelos ou "tamanquinhos" parecem ser
sempre um número menor que o pé, pois os calcanhares geralmente
"sobram" cerca de 1 centímetro para fora deles. Alguns dizem que
isso proporciona uma certa graça à dança. Uma impressão
de leveza, de delicadeza.
As
ekedes providenciam os últimos detalhes, carregando sobre os ombros
cuidadosa e majestosamente suas "toalhas" (símbolo do status e do
poder da ekede de "desvirar o santo", mandá-lo embora, o que ela
faz colocando essa toalha sobre a cabeça do filho-de-santo em transe
e dizendo palavras rituais). Enquanto isso os alabês chegam e começam
a afinar os couros dos atabaques ao mesmo tempo em que esquentam as mãos,
porque a festa é longa. Logo chegam outros alabês, de outras
casas, que revezarão com os "oficiais", uma vez que no rito angola,
sendo os atabaques tocados com as mãos (no ketu toca-se com varinhas
chamadas aguidavis), o cansaço é bem maior e tocar a noite
inteira (cerca de 6 horas, em média) fere as palmas de suas mãos.
Eu mesma já vi, apesar do revezamento, as mãos dos alabês
sangrarem.
Finalmente
ouve-se o som ininterrupto dos adjás, sinal de que o toque vai começar.
Tata Wilson vem à frente, todo vestido de branco, com um único
ombro de fora, à moda africana, usando contas escuras, acinzentadas.
Como o convite dizia que haveria também uma saída de ekede,
poderia ser homenagem ao santo dela. Wilson traz nas mãos um adjá
dourado de 4 campânulas. As ekedes (e outros ebomis) entram a seguir,
todas com suas toalhas e brajás, símbolos da senioridade.
Os iaôs vêm em "barcos", ordenados também conforme seu
tempo de iniciação. Todos usam seus erindiloguns (colares
com 16 fios de contas, soltos, que serão presos em gomos aos 7 anos
de iniciação) e mocãs, além de estarem descalços,
enquanto os ebomis usam chinelos ou tamancos.
Começa
o padê, quando se canta louvando Exu e lhe são oferecidos
farinha, água e uma vela. Canta-se para Bombogira, Aluvaiá
e outros Exus de angola e alguns de ketu. É o próprio pai-de-santo
que, acompanhado pela mãe-pequena, despacha Exu, para que ele vá
buscar os orixás. E também para que ele não perturbe
a harmonia que se deseja que haja na festa. Por isso ele deve comer primeiro.
Despachado
Exu, tata Wilson entra novamente, com a mãe-pequena e as ekedes,
sob o dobrar dos couros (deferência às autoridades do culto)
que devem dobrar sempre que um ebomi entra no barracão, interrompendo
o toque a qualquer momento. Ao som de uma cantiga específica, Wilson
acende um cartucho de pólvora e uma nuvem de fumaça branca
se espalha no ar. Logo em seguida são cantadas algumas cantigas
para a pemba (pó sagrado) e Wilson sopra a pemba em pó (ou
efun, no ketu) por todo o barracão. Em sinal de deferência
ele oferece a seu irmão de santo, Guiamazi, um pouco de pó
para que este sopre. Enquanto isso os iaôs, agachados, e os ebomis,
em pé, aguardam cantando:
"O
Kipembê, o kipembe ewiza
kassanje
ewiza d'angola
o
kipembê samba d'angola"
Só
então começa o xirê, que é uma estrutura seqüencial
de cantigas para todos os deuses cultuados na casa ou pela nação,
indo de Exu a Oxalá. Como sempre, ele começa por cantigas
para Ogun seguido por Oxossi e por Catendê (uma divindade do rito
angola), depois por Obaluaê, Tempo (outra divindade do rito angola),
Nanã, Oxum, Logun-Edé, Xangô, Iemanjá, Ewá,
Obá, Oxumarê, Iemanjá e Oxalá.
Quando
se toca e canta para determinadas qualidades dos orixás (identificadas
pelas cantigas) os filhos destes entram em transe ("viram") e acontece
uma coisa interessante: viram também todos os seus irmãos
de barco. Ao se cantar para o orixá da jibonã (mãe-criadeira)
, viram todos aqueles que foram criados por ela. Ao se cantar para os orixás
do pai-de-santo, os filhos todos viram. Ao se cantar para seus próprios
juntós, estes viram. Se o orixá do pai-de-santo vira, todos
os orixás da casa (mesmo os dos ebomis), viram junto. Com todos
esses momentos de transe seria impossível retirar todos os orixás
para desvirarem no roncó (pois Wilson já tinha, nessa época,
cerca de 70 filhos-de-santo). Assim, as várias ekedes (10 nesse
dia, em que também estava sendo confirmada mais uma) desviram os
santos no barracão mesmo, através do procedimento já
descrito. Apenas o santo do pai-de-santo é levado para desvirar
no quarto de santo. Fora isso, os iaôs só são retirados
virados, do barracão, se forem vestir seu santo para a dança
ritual.
Depois
de se cantar para Tempo (cerca de 3 a 5 cantigas foram cantadas para cada
orixá, neste dia), os atabaques páram e ouve-se a cantiga
tipicamente angola:
"Toté,
toté de maiongá
ô
maiongombê
Toté,
toté de maiongá"
Com
essa cantiga, entra no barracão, coberta por um alá (espécie
de dossel), a ekede de Nanã, trazida pela mão de Wilson,
que toca o adjá. Ela vem com roupas totalmente brancas (tipo baiana)
e com a cabeça totalmente depilada e pintada de branco. Dá
uma volta no barracão, saudando os atabaques e o ariaxé e
sai, sempre sob o alá, que é segurado por ebomis. Depois
disso, o toque continua até as cantigas de Iansã, quando
tata Wilson se dirige a seu irmão de santo, tata Guiamazi, e lhe
põe nas mãos o adjá, entregando-lhe, com este gesto,
a condução da festa. Os filhos-de-santo agacharam-se e continuaram
cantando. Wilson e Guiamazi dançam em torno do ariaxé (ponto
central do barracão) e Guiamazi agita fortemente o adjá sobre
a cabeça de Wilson, enquanto todos cantam para Iansã, até
que ela incorpora seu filho. Iansã é o terceiro orixá
de tata Wilson. Seu transe é bonito, discreto. Todos os filhos viraram
juntos, o que é um espetáculo à parte, pois os orixás
gritam seus ilás
criando um som único, que só pode ser ouvido num candomblé
e quando vira o pai-de-santo. Enquanto Iansã saúda o ariaxé
e os atabaques, as ekedes desviram os filhos-de-santo. Depois, Iansã,
que veio para dar o nome da Nanã da ekede, é retirada para
vestir suas roupas rituais, roupas que o orixá só veste em
dias de festa. Quando Iansã sai, é feito um pequeno intervalo
e todos saem do barracão (exceto uma parte da assistência,
que teme perder o lugar nas cadeiras uma vez que muita gente foi chegando
e já havia quase duzentas pessoas assistindo à festa, muitas
delas em pé) para tomar ar fresco, fumar, comentar a primeira parte
da festa, conversar com amigos, paquerar, fazer perguntas etc. Pergunta-se
pelos que não vieram. Geralmente estão envolvidos com a produção
de outras festas, filhos "recolhidos" etc. Comentam-se outras festas. Fala-se
de qualidades de orixás, como se vestem, o que comem, relembram-se
momentos da própria iniciação. Os mais íntimos
vão até a cozinha buscar um cafezinho, que a noite já
é alta. O céu estrelado, na noite de verão, no meio
do mato, onde é possível ouvir cigarras e ver vagalumes,
cria uma atmosfera de misticismo e magia. As cadeiras brancas em torno
das pequenas palmeiras, espalhadas pelo grande terreiro, são ocupadas
para bate-papos informais enquanto se fuma (o que não pode ser feito
dentro do barracão). As ekedes visitantes lembram sua iniciação.
Comentam a dureza da religião. Alguns, ao ouvirem pedaços
de conversa, trocam olhares debochados e maliciosos.
Ouve-se
novamente o esquentar dos atabaques, sinal de que o toque vai recomeçar.
Todos correm para seus lugares. Algumas pessoas da casa, contudo, já
não voltam para a festa, pois devem começar a preparar as
coisas para o ajeun (refeição ritual) que, neste dia, sendo
churrasco, compreendia acender o fogo da churrasqueira, preparar as carnes,
abrir os pães, preparar o barril de chope, os copos etc.
No
barracão, Iansã, a deusa dos ventos e das tempestades, deusa
do fogo e da sensualidade, entra toda vestida de vermelho, trazendo um
maço de flores num braço e um grande leque branco na outra.
Ela traz também, de braços dados, a ekede de Nanã.
Agora a ekede vem vestida com suas roupas próprias: o ojá
na cintura, a cabeça coberta por outro ojá, os brajás
e todos os signos que indicam a senioridade, especialmente a toalha. A
ekede dançou muito com Iansã as cantigas que lhe são
dedicadas, cumprindo assim, já neste momento, uma das funções
da ekede, que é a de dançar com o orixá. Ela também
secou, com sua toalha, o suor do rosto de Wilson, para que, escorrendo,
não perturbasse a dança de Iansã. Depois de algum
tempo desta dança, Guiamazi parou o toque e pediu à deusa
que dissesse, para que todos pudessem ouvir, pela primeira e última
vez na vida da ekede, o nome da Nanã que havia sido iniciada. Este
é um momento de grande expectativa, pois os atabaques páram
de tocar e apenas os adjás são ouvidos. Iansã gira
em torno de si mesma e, num grito rápido, diz o nome da Nanã.
Todos os filhos entram em transe e algumas pessoas de fora também.
Novamente o som dos ilás, todos juntos, pôde ser ouvido. Os
atabaques recomeçam a tocar num ritmo frenético. As ekedes
desviram os filhos-de-santo e Iansã, depois de dançar um
pouco mais, saúda novamente os atabaques, o ariaxé e finalmente
entrega as flores que trouxera nos braços para Guiamazi, em sinal
de homenagem e respeito. Depois disso se retira, deixando a ekede no barracão,
dançando com as outras ekedes (enquanto isso, os iaôs permanecem
agachados, cantando apenas) cantigas que fazem alusão ao cargo por
ela recebido e compartilhado pelas demais:

"Ê,
ê, ekede zinguê
ekede
zingá
Ê,
ê, ekede kissangá"
Depois
que a roda de ekedes termina suas cantigas, o toque pára e "vira
para caboclo ",
através de uma cantiga própria:
"Sequecê
di quando andalunda
Sequecê
di quando eu andá..."
Como
o número de convidados é muito grande, em vez de todos se
dirigirem à casa do Boiadeiro Laçador, o homenageado, são
trazidos para o barracão os atabaques que estavam em sua casa. Tata
Wilson volta, dança um pouco as cantigas de caboclo, juntamente
com os filhos-de-santo e vira no boiadeiro Laçador. No mesmo momento
os caboclos de todos os filhos-de-santo viram também. Todos são
levados para vestir suas roupas rituais e segue-se mais um intervalo.
O
clima começa a esfriar e, assim, fica difícil permanecer
do lado de fora da casa. A região é fria e, na madrugada,
ainda mais, apesar do verão. Do lado de fora vêem-se os filhos-de-santo
e as ekedes correndo de lá pra cá, com roupas e coisas de
todo tipo, a pedido dos caboclos.
Os
atabaques recomeçam. Voltamos rapidamente para dentro. Guiamazi
grita:
"Xetu
marrumba xetu!"
E
ao som de "Toté, toté de maiongá" entra no barracão
o boiadeiro Laçador. Sua figura é muito bonita, pois tata
Wilson é um mulato forte, alto, de ombros largos e rosto expressivo
que, vestido totalmente de branco, com atacans
que deixam os ombros de fora (nas bordas dos laços dos atacans há
um acabamento feito com uma tirinha de pele de onça), um grande
chapéu de vaqueiro em couro branco e o inseparável laço,
dá a este boiadeiro uma imagem de força, coragem e brasilidade
carismática. Ele entra no barracão dançando e, aproximando-se
dos atabaques pára e canta sua "ladainha":
"Boiadeiro,
prenda seu gado
não
deixe beber dessa fonte
eu
venho de muito longe
atravessei
sete montes.
Quando
atravessei o rio
Eu
vi meu gado na fonte
Sou
Laçador, senhor do sertão
No
meu cavalo, trago laço na mão".

Depois
disso ele canta mais algumas cantigas de caboclo e dança. Sua dança
é vibrante. As cantigas empolgam a assistência, que canta
junto, talvez porque agora ela entenda o significado das palavras, o que
não acontece com as cantigas em língua banto, pois diferentemente
do que acontece nos toques para orixás e inkices, os caboclos cantam
em português, com algumas poucas palavras em banto ou tupi. Entram,
depois disso, os outros caboclos da casa. Todos se vestem do mesmo modo
que o boiadeiro Laçador mas, evidentemente, com cores diferentes,
e em cetim. Eles trazem cordões de pano retorcido ao redor da testa
e apenas um deles, sendo um caboclo "de pena" (índio) traz uma pena,
presa numa fita, atrás da cabeça. Nenhum outro usa chapéu
de vaqueiro, também. As cores de suas roupas variam em tons de verde
e azul escuro, com detalhes em amarelo, branco e vermelho. Como alguns
caboclos que desviraram não tivessem voltado a virar para serem
vestidos (os de alguns ebomis que ajudaram a vestir os outros caboclos
entre eles), Guiamazi canta uma cantiga que geralmente faz com que os caboclos
venham:
"Venha
ver sua aldeia..."
Como
alguns caboclos insistem em não vir, cantou a cantiga que
é considerada "infalível" para chama-los:
"Ainda
tem caboclo
debaixo
da samambaia..."
Todos
os caboclos "viram" e os "retardatários" também são
levados para vestir. Cada um deles, ao chegar no barracão, canta
sua "ladainha", uma cantiga relacionada com seu mito e que é particular
de cada caboclo.
Depois
de dançarem e cantarem bastante, os caboclos fumaram charutos, beberam
seu vinho (a jurema) e o ofereceram aos presentes e, principalmente, deram
conselhos a todos. Alguns caboclos foram para fora do barracão,
onde o churrasco já começava a ser assado. Como eu permanecesse
no barracão com um amigo,, observando a deliciosa dança dos
caboclos, um deles, o "seu Gentileiro", veio conversar comigo. Sendo um
caboclo de um filho de Oxum, seus conselhos eram sobre amor. Saí,
então, para ver o que acontecia lá fora, enquanto o boiadeiro
Laçador se retirou para sua casa, onde recebeu o cumprimento das
pessoas, conversou e deu conselhos. Formou-se uma fila para isto. Já
se comia o churrasco e tomava o chope, ao mesmo tempo em que se conversava
com os caboclos como se fossem velhos amigos. Um caboclo de um filho de
Oxóssi, "seu Caçador", dirigiu-se a mim. Deu-me conselhos
sobre o trabalho e a saúde e, depois de apagar a brasa de seu charuto
sob a sola do pé descalço, cortou um pedaço e me deu,
para que eu usasse como proteção. Depois disse que sabia
que eu tinha um grande amigo que não estava ali e que eu havia pensado
nele naquele momento (e devo dizer: pensei mesmo) e ele estava mandando
para este amigo o outro pedaço do charuto. Quando olhei novamente,
os caboclos estavam em toda parte, dentro e fora do barracão, dando
consultas, indicando remédios, dando conselhos.
Num
certo momento, alguns caboclos voltaram ao barracão para dançar.
O clima foi se descontraindo e do modo grave e sacral como começou,
passou a um modo descontraído, pois os caboclos chamaram as pessoas
da assistência e demais convidados para dançar com eles. Uma
das danças consistia em pular sobre um pé e outro, ao ritmo
dos atabaques, sobre um ojá torcido, estirado no chão, sem
pisar nele. Quem pisa cai fora e o caboclo chama outra pessoa. Os caboclos
jamais pisam no ojá. A alegria é contagiante com a torcida
que se forma. Os alabês buscam na memória mais e mais cantigas.
Os caboclos sabem muitas. Aos poucos os caboclos vão se retirando
e são os homens que começam a cantar suas músicas
profanas, as cantigas de "sotaque", maliciosas e provocativas, dando início
a uma deliciosa roda-de-samba
que vai até o dia clariar. As cantigas de "sotaque" têm letras
como estas:
provocação:
"Aqui
nesta casa não tem homem
Que
não seja meu amigo
Os
homem dorme com homem
As
mulher deles comigo" 
resposta:(insinuando
que a pessoa deve se "retirar")
"Fulano
quando for dê
Lembranças
a quem for de lá
Corre,
viado,
Caçador
vem te pegá!"
Há
ainda outras cantigas, cuja finalidade é a insinuação
ou simplesmente brincar maliciosamente:
"Aqui
fizeram efó
Me
chamaram pra comer
O
efó saiu mal feito
Eu
quero efó dê no que dê"
"Se
na minha roça
Você
não acredita
Encosta
mais perto
Moça
bonita"
"É
difícil
Conseguir
o teu amor
É
difícil
Me
dê logo, por favor"
Ri-se
muito dessas brincadeiras cantadas que se assemelham aos desafios
nordestinos. Do sotaque, passa-se à ao samba-de-roda e à
roda-de-samba, com músicas populares, geralmente com sambas de Clara
Nunes, Martinho da Vila e Zeca Pagodinho e outros, que geralmente mencionam
o candomblé e a umbanda em suas músicas, e que só
acaba quando o dia amanhece e o sono chega.
oOo
Desde os primeiros estudos,
os autores que investigaram os cultos afro-brasileiros nas diferentes regiões
do país, como o candomblé baiano, o xangô pernambucano,
o tambor-de-mina maranhense, o batuque gaúcho e a macumba carioca,
constataram a realização de festas onde os grupos religiosos
se reuniam para louvar seus deuses, que nestas ocasiões possuíam
em transe aqueles que para eles eram iniciados. A respeito do candomblé,
Nina Rodrigues, no final do século passado, afirmava:
"Chamam-se de candomblés
as grandes festas públicas do culto iorubano, qualquer que seja
a sua causa" (Rodrigues, 1935:141).
Mais tarde, também
Arthur Ramos diria, a respeito do termo candomblé:
"As denominações
de candomblés, macumbas, catimbós (...) que inicialmente
designavam os festejos fetichistas, por extensão passaram a significar
os próprios lugares ou centros onde se realizam as ceremônias.
É nos terreiros que são (...) celebrados os cultos comuns
e as grandes festas annuaes (candomblés propriamente ditos), afora
outras festas profanas chamadas pelos negros bahianos de afochés.
É nos afochés que os paes-de-santo 'brincam' com ídolos,
cuja tendência à assimilação com os próprios
santos é cada vez maior" (Ramos,
1934:42).
Em 1948, Edison Carneiro
observava que o termo passara a designar ainda mais:
"O lugar em que
os negros realizam as suas características festas religiosas tem
hoje o nome de candomblé, que antigamente significou somente as
festas públicas anuais das seitas africanas" (Carneiro,
1948:43).
Fica evidente, nessas
citações, o caráter de sinônimo que o termo
candomblé assume para com o termo festa, desde os seus primórdios
no Brasil. Mas isto não parece ter sido levado em conta na análise
dos vários autores que escreveram sobre ele. Nos estudos sobre as
religiões afro-brasileiras a festa foi entendida, geralmente, como
o final comemorativo do processo de iniciação, pelo nascimento
de um novo orixá, de uma "nova pessoa", ou então como o momento
ritual em que os deuses incorporam seus filhos, no transe .
Muitos diziam mesmo que o "verdadeiro candomblé não se vê
publicamente". Com o olhar voltado para aspectos mais relacionados com
os interesses científicos da época, tais como raça,
sobrevivências culturais, psiquiatria e transe etc., foi impossível
perceber que a festa, mais que um momento ritualizado do transe, é
um elemento estrutural e estruturante do candomblé, pois em torno
de sua realização é que se organizam várias
dimensões da religião sendo, ao mesmo tempo, sua síntese.
Ainda atualmente, pouca atenção tem sido dada aos aspectos
mais públicos do culto, e no entanto eles se revelam de extrema
importância para a compreensão da adesão crescente
de vários contingentes populacionais ao candomblé e, também,
das estratégias e políticas de crescimento destas religiões.
Neste artigo, procuro dirigir o foco da observação para a
relevância da festa como elemento estruturante do candomblé,
que o explica e é por ele explicada, e que corresponde aos anseios
de grupos e indivíduos por relações mais diretas e
por espaços de manifestação da individualidade. Sua
relevância para a compreensão da adesão ao candomblé
é tanta, que escapa do espaço religioso, chegando a constituir
os termos da estruturação de um gosto específico,
pelos valores hedonicos, dionisíacos, delineando o que se pode chamar
de estilo de vida do candomblé.
O que é a festa
de candomblé
Na festa de candomblé
acontece o transe dos deuses em relação aos quais se constrói
o pensamento religioso; na festa, a identidade do grupo se manifesta com
a sua força total (canta-se na "língua da nação",
veste-se de cor ou jeito tal, dança-se de dada maneira porque se
é do ketu, do angola, do jeje, do fon etc.); é na festa que
toda a organização hierárquica do candomblé
se apresenta; enfim, é o momento em que tudo aquilo que o grupo
é e acredita em termos de valores religiosos e estéticos
se mostra com força total. Não é à toa, portanto,
que o termo candomblé passou com o tempo, a designar a própria
religião, depois de ter designado o lugar onde as festas eram realizadas.
Arthur Ramos chega a apontar o candomblé saindo às ruas,
numa versão profana, o afoxé, que até hoje existe
e mantém estreitas ligações com esta religião.
Autores contemporâneos
também relatam um sem-número de festas realizadas nos terreiros
em que fazem suas pesquisas, nas diferentes regiões do Brasil .
Tenham o nome e a origem que tiverem, as religiões afro-brasileiras
realizam, sistematicamente, festas para seus deuses. E os cultos muitas
vezes (e não por acaso) são denominados por termos que indicam
aspectos da festa, como a música. É assim que temos o "batuque"
no Rio Grande do Sul, em referência à música ritual,
tocada por atabaques, ou o "tambor-de-mina" no Maranhão, referência
não só ao aspecto musical do culto mas também diferenciando-o
dos demais através do termo "mina", que indica a origem étnica
do grupo fundante, o jeje.
As festas ocupam boa porção
do tempo e consomem uma significativa parte do dinheiro do povo-de-santo,
mantendo o grupo coeso em função de sua produção
e realização. Ela ocupa uma posição especial
na vida dos adeptos do candomblé que, dentro ou fora do terreiro,
é marcada pela constante ocupação e preocupação
com tais festas. A própria vida dentro do terreiro pode ser pensada
como a permanente produção de festas pois inclui, através
de aspectos dramatizados ou outros, sua continuidade pelos tempos futuros.
Sendo uma religião
cujo panteão é composto, em São Paulo, por uma média
de 16 orixás e algumas entidades como Caboclos e Boiadeiros, que
são cultuados recebendo oferendas comidas e, principalmente, festas.
pode-se ter uma idéia de seu grande número. Lembro ainda
que um orixá só pode incorporar regularmente seu filho após
ser "feito" (iniciado) em sua cabeça .
Ao final da iniciação é realizada uma festa, chamada
Festa de Saída (ou Festa de Iaô), pois acontece após
o período de recolhimento para a "feitura", momento em que o abiã
(aspirante à iniciação) torna-se um iaô (iniciado
que, até ter dado a obrigação-confirmação
de sete anos, recebe este nome). A iniciação (a "feitura")
deverá ser confirmada após 1, 3, 5 e 7 anos de ocorrida,
estendendo pelo tempo as festas de candomblé. Cada pessoa tem, ainda,
pelo menos mais um santo (o juntó) e, às vezes até
7, compondo o que se chama, no candomblé, de "enredo de santo",
e que deverão ser (todos) cultuados, comemorados. Caboclos e boiadeiros,
entidades "paralelas" também costumam ser assentados (fixados) e
recebem festas anualmente. Como os terreiros em geral têm muitos
filhos, imagine-se a quantidade de festas em potencial.
Em São Paulo, excetuando-se
a época da Quaresma, pode-se esperar assistir, nos finais de semana,
a várias festas de candomblé, havendo ainda a possibilidade
de escolha entre as diversas "nações" (ritos originários
de diferentes regiões e etnias africanas, como ketu, fon, angola,
jeje, etc.), terreiros, bairros e modalidades de festas (Festa de Saída
de Iaô, Festa de Saída de Ogã, Festa de Saída
de Ekede, Festa de Erê, Festa de Decá, Festa de Ogum, de Xangô
etc.). A importância de se realizarem tantas festas é explicada
pelos pais-de-santo Sidney de Ogum e Marcos de Obaluaiê:
"Tem candomblé
que dá festa periodicamente a título de se mostrar, porque
até no candomblé existe o que nós chamamos de propaganda;
se você não mostrar o que é, um pouco, você não
consegue atrair pessoas pro culto e ele se fecha, ele morre".
"A festa é onde a
gente mostra a beleza, o que a gente sabe, os orixás da nossa casa".
Percebe-se, nestas palavras,
uma das fortes razões de a festa ser realizada com tanta freqüência
pelos terreiros: ela é uma espécie de "vitrine" da religião.
É um modo de mostrar ao público a identidade do culto, muito
mais ampla e complexa, mais bonita e lúdica do que o que possa parecer
num contato com finalidades "instrumentais" com o culto, como é
o caso da consulta ao jogo de búzios e da realização
de ebós. A cena dos orixás vestidos com roupas brilhantes,
com seus filás escondendo os rostos dos iniciados, é a cena
da festa, freqüentemente vista em revistas, televisão, livros
e discos. A festa mostra o que o grupo é. Nesse sentido a festa
pode ser entendida como o "proselitismo" do candomblé.
Os terreiros que já
contam com um determinado número de "filhos" (como são chamados
os iniciados, pelos pais ou mães-de-santo) costumam estabelecer
um calendário mais ou menos fixo de festas anuais e que pode ou
não conter as festas particulares relacionadas com momentos da vida
religiosa dos filhos da casa. Ou seja, no Ipetê de Oxum (uma festa
especialmente dedicada à deusa Oxum), de um determinado terreiro,
podem acontecer também, por exemplo, a saída de um iaô
(iniciado) de Logum (orixá filho da deusa Oxum, no mito), de Oxum
mesmo, ou de qualquer outro orixá (geralmente com alguma relação
mítica com o orixá da festa), ou a entrega de um Decá
(título de senioridade do candomblé, que o pai ou mãe
de santo entrega ao iniciado após a obrigação de 7
anos).
Do calendário fixo
geralmente constam apenas as festas oferecidas aos orixás considerados
mais importantes para o grupo de um determinado terreiro. Quando não
há um "motivo" específico para uma festa, a reunião
visando à possessão dos iniciados pelos orixás recebe
o nome de "toque". Ainda com este nome o ritual guarda suas semelhanças
com a festa pois, como o nome indica, trata-se de uma cerimônia essencialmente
musical. Canta-se e dança-se para cada orixá que então
incorporam seus filhos, dançam e vão embora de volta à
"África", encerrando com sua partida a cerimônia. Neste tipo
de ritual não são usadas roupas especiais quando os orixás
"viram" (incorporam), nem há a comida votiva dos deuses oferecida
à assistência ao final das festas e que recebe o nome de ajeun.
O toque pode ser entendido, portanto, como um chamado, uma oração,
pedindo aos orixás que se façam presentes junto a seus filhos,
trazendo seu axé (força vital) para fortalecê-los.
Os terreiros que seguem um
calendário de festas geralmente o organizam do seguinte modo:
Em janeiro costumam acontecer
muitas festas de caboclos, especialmente na época das festas para
São Sebastião, quando também acontecem muitas festas
para Oxossi. Em fevereiro, antes do Carnaval, acontecem muitas festas para
Ogum (por ser o início do ano e Ogum o orixá que abre
os caminhos, as portas, os períodos), o que também pode acontecer
em abril (dia de São Jorge, santo em quem é sincretizado
no estado de São Paulo) ou junho, quando ele é sincretizado
em Santo Antonio. Por ocasião do início da Quaresma, faz-se
o Lorogun (Festa de Oxaguiã), uma festa que encerra as atividades
do terreiro até a Páscoa .
Em junho são freqüentes as festas de Xangô (que é
sincretizado, em muitos terreiros, com São João ou mesmo
com São Pedro), geralmente realizadas junto a fogueiras. Em agosto
é impressionante a quantidade de Olubajés, as festas de Obaluaiê
(parece que ninguém se arrisca a desagradar o temido deus das doenças,
sincretizado ora em São Lázaro, ora em São Roque).
Em setembro acontecem centenas de festas de Erês (ou Ibeji, as entidades
infantis do candomblé) em razão do sincretismo com São
Cosme e São Damião, comemorados a 27 de setembro. Também
em setembro ocorrem as tradicionais festas das Águas de Oxalá
(um ciclo de três festas que se realizam durante três semanas),
que também podem acontecer em dezembro, seguindo-se o preceito do
candomblé de que tudo começa a partir de Exu e termina com
Oxalá (inclusive o ano) que é sincretizado com Cristo. As
festas dos orixás femininos, conhecidos como iabás, como
o Ipetê
de Oxum e o Acarajé
de Iansã, costumam acontecer em dezembro devido ao sincretismo mas,
a princípio, podem ocorrer em qualquer época do ano. As festas
de Iemanjá, entretanto, raramente ocorrem fora dos meses de dezembro
ou fevereiro, acompanhando o calendário das festas católicas
de Nossa Senhora da Conceição ou da Candelária, ou
ainda de Nossa Senhora dos Navegantes, nas quais é sincretizada
a deusa das águas.

Além desse calendário,
praticamente consensual entre o povo-de-santo, as festas podem ter motivos
variados, como iniciações, obrigações, aniversário
do santo (geralmente se faz esse tipo de comemoração só
depois dos 7 anos de feitura), festa do santo patrono da casa, festa do
orixá do pai-de-santo, festa oferecida a algum orixá por
motivo de "agrado" ou agradecimento por alguma coisa, festa para os erês
da casa, para os caboclos ou boiadeiros, enfim os motivos para a realização
de uma festa são diversos e não faltam. Ultimamente algumas
casas têm feito até festas de casamento no candomblé
no próprio barracão, após a cerimônia religiosa.
Estas festas não são previstas no calendário e tanto
podem acontecer nos períodos entre aquelas que nele constam, como
serem inseridas, de acordo com as possibilidades e/ou conveniência
do terreiro, nas próprias festas constantes do calendário,
uma vez que a preparação e realização de uma
festa de candomblé, por mais simples que seja, exige recursos financeiros
e humanos bastante consideráveis.
Preparando a Festa
Uma festa começa a
ser preparada muito antes do dia marcado para sua realização,
seja ela uma festa simples ou uma Festa de Saída (consideradas as
de Iaô e de Decá as mais trabalhosas e caras de todas as festas).
É preciso tempo para que sejam tomadas uma série de providências
para conseguir recursos a fim de satisfazer os anseios de todos em relação
ao acontecimento.
A perspectiva da festa mobiliza
uma série de recursos econômicos e simbólicos, dentro
e fora do terreiro, além de recursos humanos. Uma vez que se tenha
o motivo, começa a preparação.
A mãe ou o pai-de-santo
reúne o grupo e comunica que vai haver festa e que todos devem colaborar
com trabalho, oferendas, dinheiro ou tudo isso ao mesmo tempo. Nessas ocasiões,
geralmente, o pai-de-santo aproveita para avaliar a última festa
mais uma vez e lembrar os "erros" cometidos, os problemas acontecidos e
as soluções que foram dadas a eles.
Se
o terreiro tiver condições para tanto, manda-se imprimir
convites com data, motivo, endereço e até o traje adequado
para a ocasião. Se o terreiro não tiver condições
financeiras para isso, será mobilizada a rede de informação
do povo-de-santo, que é eficientíssima. Essa rede passa por
diversos ambientes freqüentados pelos adeptos do candomblé,
especialmente as festas de outros terreiros, as lojas de artigos religiosos,
escolas de samba, boates gays, além de mil telefonemas e, principalmente,
através das relações de parentesco de santo e de nação.
Tendo sido reunidos os recursos
para a compra dos artigos necessários, todos os membros do terreiro
devem estabelecer uma espécie de "escala de serviço" na casa,
pois sempre há necessidade de gente para dar conta de todos os detalhes
da preparação da festa e que são muitos. Até
mesmo os simpatizantes (clientes dos jogos de búzios e visitas presentes)
são chamados a contribuir.
Para que a festa possa ser
realizada é necessário que os adeptos se organizem também
fora do terreiro. Como é preciso (e importante!) ajudar no trabalho
da casa-de-santo, muita gente trabalha horas extras no emprego, não
só para conseguir mais dinheiro e participar da festa, comprar uma
roupa nova para o seu orixá, oferecer-lhe algo, mas também
para ter tempo livre que possa ser usado nas tarefas do terreiro. É
comum que pessoas que trabalhem em hospitais, por exemplo, "dobrem" seus
plantões para ter um dia ou uma noite livres para dedicar-se aos
afazeres da "roça". Há empregadas domésticas que abandonam
o emprego para ser a "mãe-criadeira" de um iaô; diaristas
que faltam ao serviço (com o risco de perderem o trabalho) apenas
para poderem ajudar na "comida do santo". No caso dos iaôs, é
costume aproveitarem os períodos de férias (do trabalho ou
escolares) e se recolherem para a iniciação. Quem não
trabalha "fora" como algumas donas-de-casa, deve providenciar quem cuide
de seus filhos, maridos, suas casas. Quando não conseguem isto,
elas levam seus filhos para o terreiro. Sempre se dá um jeito. Em
época de "obrigação" nos terreiros é muito
comum ver-se crianças nos terreiros brincando, com pedrinhas, de
"jogar búzios". Elas brincam também de "dar dobale", "virar
no santo", "fazer ebós" e outras coisas que vêem nesta convivência
obrigatória com a prática do candomblé, ao acompanharem
seus pais .
Com antecedência, deve-se
lavar, passar e engomar as roupas de festa (sete saiotes para cada mulher
que dance na roda-de-santo, são lavados, passados e engomados!),
consertar as roupas dos orixás, que a cada festa perdem lantejoulas,
pedras, rasgam-se devido ao movimento nas danças. É preciso
polir as ferramentas (insígnias) dos orixás, as pulseiras
e os adjás dos ebomis (que geralmente são confeccionados
em latão ou zinco niquelado e escurecem com o tempo), pois eles
devem imitar o brilho do ouro, da prata e do cobre, metais favoritos dos
orixás. Além disso, devem ser respeitados tabus alimentares
e sexuais; é preciso correr a cidade em busca de avícolas
onde possam ser encontrados os animais caracteristicamente preferidos pelo
orixá comemorado (e que não podem ter nenhum tipo de defeito
físico), ao qual serão sacrificados - será preciso
que haja um carro à disposição do terreiro para todo
este circuito de compras - e depois sai-se à procura das folhas
que comporão o amaci (banho de "limpeza") dos filhos-de-santo antes
da festa. Se a casa tiver seus próprios alabês (ogãs
tocadores de atabaques), muito bem. Se não, eles deverão
ser contratados, pois uma festa não pode prescindir da música,
já que é ela que "traz" os orixás ao mundo dos homens.
É costume dizer, entre os adeptos, que "sem alabê não
tem candomblé".
Às vésperas
da festa os animais são sacrificados e as "comidas secas" (são
chamadas assim todas as "comidas-de-santo" que não sejam animais
sacrificados) oferecidas aos orixás. Essas comidas são preparadas
pela iabassê da casa (cozinheira que prepara as comidas dos santos
e que conhece os preceitos e "temperos" do gosto de cada orixá),
auxiliada por ekedes e iaôs. Cada orixá come um prato específico,
preparado de modo peculiar. Assim, Exu, como comida seca recebe farofa,
dendê e pinga (no padê, no dia da festa). Ogum deve comer pelo
menos um prato de feijão preto com cebolas; Oxossi receberá
milho com mel e coco; Ossaim, feijão fradinho com coco e mel; Obaluaê
um prato de pipocas; Xangô, um prato de quiabos (amalá); Oxumarê
batatas doces ou amendoins cozidos com casca e mel. Oxum come ovos cozidos
e omolucum (cuja base é o feijão fradinho). Logun-Edé
se satisfaz com ovos cozidos, camarões, milho e coco; Iansã
adora acarajés. Nanã, a deusa da lama e dos abismos pede
folhas de mostarda com arroz; Obá divide com Xangô o gosto
pelos quiabos enquanto Ewá gosta de frutas. O deus vegetal, Iroco,
come verduras e cebolas, enquanto Iemanjá come arroz com mel e manjar
branco e Oxalá, o senhor da criação, agradece um modesto
prato de arroz branco, sem tempero e algum inhame pilado e cozido.
Todo este cardápio
depende, entretanto, do que se chama de "qualidade" do orixá ,
que são avatares, caminhos do orixá e que são "partes
ou segmentos da sua própria biografia mítica, ou representações
de locais em que nessa forma foi ou é cultuado" (Prandi,
1989:157). Sendo assim, uma Iemanjá Ogunté, por exemplo,
comerá arroz com feijão preto (devido às suas ligações
com orixá Ogum) em lugar do simples arroz; isto acontece com todos
os orixás. Todas as comidas rituais são preparadas levando-se
em consideração os preceitos de cada orixá. A pipoca
de Obaluaiê (doburu), por exemplo, deve ser estourada na areia quente
e não no óleo. Quem o faz não pode falar enquanto
prepara, e assim por diante.
Além do orixá
homenageado, também Exu recebe sacrifícios animais. Exu,
aliás, sempre recebe homenagens, qualquer que seja o tipo de festa
ou trabalho que se realize no terreiro. Raras são, no entanto, as
festas de Exu no candomblé.
No caso das festas de iniciação,
depois do sacrifício ritual a cozinha do terreiro fica cheia de
pombos, frangos, galinhas d'angola etc. para serem depenados e suas vísceras
(axés), devidamente separadas e preparadas, conforme a preferência
dos orixás a que se destinam. Os "bichos de quatro pés" (que
podem ser porcos, cabritos, carneiros, tartarugas, coelhos etc., conforme
o orixá homenageado) são "pelados" e limpos pelos ogãs.
É muito comum serem vistas, curtindo ao sol nas casas-de-santo ou
mesmo na forma de pequenos "tapetes", as peles desses animais. É
conferindo as peles na parede que o povo-de-santo sabe (e verifica) quais
foram os animais sacrificados. É costume se contarem as peles e
ver se elas são novas.
Depois de limpos os bichos,
cozinham-se as carnes, separa-se o que cada orixá deseja e, no dia
seguinte são preparadas as comidas que serão servidas à
assistência da festa, no ajeun. É preciso lembrar que as mulheres
que cozinham as comidas do santo não podem, sob nenhuma hipótese,
estar menstruadas, o que também pode representar um problema para
a casa, que precisa estar ciente das datas de menstruação
de suas filhas antes de marcar qualquer obrigação a que estas
devam estar presentes. Por este motivo a iabassê quase sempre é
uma mulher que já esteja na menopausa, garantindo-lhe as condições
necessárias ao pleno desempenho de suas funções.
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