AVALIAÇÃO CLÍNICA, RADIOGRÁFICA E LABORATORIAL DE   PACIENTES PORTADORES DE OSTEOGÊNESE IMPERFEITA

 

 

 

 

 

José Olympio Catão Bastos Júnior

William Martins Ferreira

 

 

 

 

 

RESUMO

A osteogênese imperfeita (O.I.) é uma doença determinada geneticamente caracterizando-se por alterações no colágeno do tipo I. Tem como sintoma cardinal a fragilidade óssea, predispondo à ocorrência de fraturas. Outros achados podem ser a dentinogênese imperfeita, as escleróticas azuis,  a surdez e a frouxidão ligamentar. Foram classificados 22 pacientes pelos critérios clínicos e radiográficos de Sillence. Após esta tipificação foram submetidos à avaliação laboratorial, mediante a dosagem de cálcio sérico e densitometria óssea. São discutidas as diferenças clínicas e laboratoriais encontradas entre cada um dos tipos. Algumas destas características foram significativas, e podem auxiliar  na diferenciação dos portadores da doença, repercutindo diretamente no estabelecimento do prognóstico.

 

 

unitermos: osteogênese imperfeita; escleras azuis; dentinogênese imperfeita.

 

ABSTRACT

Osteogenesis imperfecta is a genetic disorder, characterized by defects in type I collagen. Its cardinal symptom  is  bone fragility and fractures. Other clinical findings are dentinogenesis  imperfecta,  blue sclarae, early deafness, and joint laxity. There were  classified 22 patients by   Sillence’s  criteria and subject   to   laboratorial   exams  like   blood   calcium  level and  bone densitometry. We discuss every clinical and  laboratorial  differences,   some  of these are   remarkable   and can   help to classify   patients and to stablish prognosis.

 

 

Keywords: osteogenesis imperfecta, dentinogenesis imperfecta, blue sclarae.

 

 

 

 

 

INTRODUÇÃO

 

 

A  osteogênese  imperfeita  é uma doença  determinada geneticamente, na qual está afetada  a  estrutura  e  a  função  do  colágeno  do tipo  I, que representa mais de 90% do colágeno tecidual total, e é responsável  por  70 a 80%  do peso seco dos tecidos fibrosos densos que formam o sistema músculo-esquelético(1). O padrão de herança mais comum é autossômico dominante, podendo ser, com menor freqüência, recessivo. A alteração é determinada por mutações novas  nos cromossomos  7 e 17,  mais  especificamente  nos Loci COL1A1 e COL1A2, onde ocorre com maior freqüência a substituição da glicina por um outro aminoácido (2 e 3). Mutações novas localizadas nestes Loci determinam principalmente a O.I., mas podem também causar a síndrome de Ehlers-Danlos dos tipos VIIA ou VIIB e a síndrome de Marfan (3). Um grande número de mutações tem sido descrito, porém a correlação entre o defeito genético específico e o fenótipo produzido, ainda é pouco estabelecida.

 

A O.I. é uma doença rara, ocorrendo um caso em cada 15.000 a 20.000 nascimentos e sua prevalência é de 1 em 200.000 indivíduos (4 e 18). Não há citações na literatura sobre o predomínio em relação à raça ou quanto ao sexo. O espectro clínico é heterogêneo e variável, sendo no entanto marcantes a fragilidade óssea, a frouxidão cápsulo-ligamentar, a cor azulada da esclerótica e a surdez (4 , 5 e 6). A fosfatase alcalina sérica acha-se aumentada, não sendo porém, observadas alterações nos níveis sistêmicos do Ca, P, PTH ou mesmo da 1,25 vitamina D (1, 5, 7, 8, 9 e 10). Estudos mais recentes mostram o aumento na excreção urinária de cálcio, fósforo, magnésio, hidroxiprolina e glicosaminoglicanos (6 , 11 e 12). A presença de aminoacidúria, com a conseqüente diminuição dos aminoácidos séricos (5 e 8) pode ser encontrada, e mais raramente, podem ocorrer alterações metabólicas que elevam o risco de sangramentos e maior predisposição à hipertermia maligna (7 e 8).

 

O diagnóstico habitualmente é feito mediante a história clínica, exame físico e constatações radiográficas, não existindo no entanto, exame complementar específico para a confirmação da doença, nem tampouco uma adequada correlação clínico-laboratorial para cada tipo de apresentação.

 

No presente estudo os autores apresentam os resultados obtidos na avaliação de 22 pacientes portadores da doença e tentam estabelecer algumas destas correlações práticas no diagnóstico diferencial.

 

 

MATERIAL E MÉTODOS

 

No período de dezembro de 1999 a julho de 2000 foram avaliados clínica e laboratorialmente 22 pacientes portadores de Osteogênese Imperfeita (O.I.).

 

O levantamento inicial junto ao (SAME) Serviço de Arquivo Médico e Estatístico do Hospital Central da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, indicou 63 nomes registrados com o diagnóstico de Osteogênese Imperfeita. Na primeira seleção dos prontuários, 13 não foram encontrados, e assim averiguamos os prontuários de 50 pacientes. De posse destes prontuários tivemos que excluir 17, pois estavam rotulados erroneamente, sendo na realidade portadores de outras doenças como: displasias ósseas, raquitismo etc. Dos 33 pacientes convocados compareceram 26, mesmo após a segunda chamada. Aos 26 convocados, acrescentamos mais 3 pacientes: dois (2) eram parentes dos doentes em avaliação e outro nos foi encaminhado do Pronto Socorro, por apresentar-se com fratura no período do estudo.

 

Desta forma, iniciamos a avaliação clínica de 29 doentes portadores de O.I., sendo que no decorrer do estudo foram excluídos sete (7) pacientes, dos quais, 4 (quatro) por não retornarem nas reavaliações previstas e 3 (três) por ingressarem tardiamente no grupo, não havendo tempo hábil para a realização dos exames complementares protocolados no escopo do trabalho. Restaram assim, 22 pacientes que foram reavaliados clínica e laboratorialmente no período de dezembro de 1999 a junho de 2000, devido às dificuldades de privacidade de um ambulatório num grande centro e, considerando que estes pacientes psicologicamente estressam-se no ambiente hospitalar, criamos um período especial para o seu atendimento ambulatorial.

 

Todos os pacientes ou seus responsáveis, receberam o consentimento informado e concordaram com seus termos.

 

O protocolo de avaliação clínica constava de identificação completa do paciente e incluía dados quanto ao peso e estatura, presença ou não de alteração na dentinogênese (figura 1), coloração das escleras, antecedente familiar da doença, idade da primeira fratura, número total de fraturas, interrogatório sobre a capacidade auditiva e quanto à evolução até o estado atual da capacidade deambulatória independente do paciente, e relação das deformidades músculo-esqueléticas existentes.

 

A avaliação da estatura com diferencial quanto ao sexo e idade, foi cotejada com os dados normais da tabela de desvios padrão da população brasileira (20).

 

A avaliação radiográfica foi baseada em radiografias nas incidências ântero-posterior e perfil dos ossos já fraturados. Incluiu também a coluna vertebral nos casos de deformidades constatadas no exame clínico, além de radiografia da bacia abrangendo o fêmur proximal em todos os casos. As radiografias foram avaliadas quanto à presença de deformidades, espessura da cortical e observação macroscópica da densidade do trabeculado ósseo na medular no fêmur proximal. A análise radiográfica foi realizada por três ortopedistas e um radiologista, prevalecendo em todos os casos, o consenso da maioria. Quanto aos critérios de classificação para a escoliose, consideramos que valores angulares menores que 20º eram leves, valores entre 20º e 40º moderados e acima de 40º eram graves.

 

Após a avaliação clínica e radiográfica, os pacientes foram classificados segundo os critérios da classificação de Sillence et al (13).

 

Tipo I : herança autossômica dominante, moderada fragilidade óssea, placa de crescimento normal, escleras azuladas (figura 2), dentinogênese imperfeita (subtipo B) ou normal (subtipo A), perda prematura da audição em 30% dos casos, baixa estatura, escoliose discreta e deformidades discretas nos membros (figura 3). Prognóstico compatível com a vida e permitindo a deambulação normal. É a forma mais comum e amena da doença.

 

Tipo II : herança autossômica dominante ou recessiva. Fraturas e deformidades ocorrem no período intra-uterino, frouxidão cápsulo-ligamentar ligeiramente acentuada e escleras azuis ou acinzentadas. Prognóstico péssimo, recém-nascidos geralmente prematuros, com elevado índice de óbito intra-uterino ou nos primeiros dias de vida. Forma rara e extremamente grave.

 

Tipo III : herança autossômica recessiva, fraturas múltiplas, cifoescoliose progressiva, retardo de crescimento, escleras inicialmente azuladas que tendem a se opacificar com o passar do tempo e dentinogênese imperfeita. Prognóstico compatível com a vida, com alta incidência de mortalidade na terceira e quarta década de vida, devido a insuficiência e infecções respiratórias (figura 4). Forma rara e progressivamente deformante.

 

Tipo IV : herança autossômica dominante. Fraturas ocorrem logo após o nascimento, ossos com baixa densidade e curtos, alterações na placa de crescimento, deformidades ósseas freqüentes, baixa estatura, escleras azuladas que tendem a se opacificar com a idade, dentinogênese anormal (subtipo B) ou normal (subtipo A) e alterações auditivas infreqüentes. Prognóstico compatível com a vida, mas estabelece seqüelas, permite deambulação com auxílio de órtese em alguns casos, porém a maioria é dependente da cadeira de rodas (figura 5).

 

Na avaliação laboratorial, foi realizada a dosagem sérica de cálcio e o exame de densitometria óssea de corpo total em todos os pacientes. Foi utilizado o método da densitometria duo-energética (DEXA), e em todos os casos foi utilizado o mesmo aparelho (LUNARâ), na Unidade de Densitometria Óssea do Hospital. Com este método se realiza a mensuração da densidade mineral óssea (BMD) do esqueleto, e após a correção de fatores raciais e antropométricos, os resultados são comparados com um padrão de normalidade para a mesma idade, peso, sexo e raça do paciente. Os resultados são finalmente expressos em desvios padrão (DP) da normalidade.

 

Foram comparados três diferentes grupos de pacientes, cotejando-se a estatura (dada em desvios padrão para a idade e sexo), o número total de fraturas, a dosagem do cálcio e a densitometria óssea (dada em desvios padrão para a idade, sexo, peso e raça).

 

Para a avaliação estatística, aplicamos o teste não paramétrico de Mann-Whitney, utilizando-se software S.P.S.S. 8.0 for Windows, segundo orientação do Departamento de Estatística do Hospital. Optamos por este método, pois avalia duas amostras independentes da mesma variável e também por não conhecermos a distribuição das variáveis pesquisadas, além do fato dos grupos conterem pequeno número de pacientes.

 

 

 

 

 

RESULTADOS

 

Dentre os 22 pacientes analisados, obtivemos que 14 eram do sexo feminino (63,6%) e 8 (36,4%) do sexo masculino, e foram avaliados com uma média de idade no grupo de 22,2 anos (variando desde os 2 até os 54 anos).

 

Quanto à classificação pelos critérios de Sillence para Osteogênese Imperfeita, encontramos nove pacientes portadores do tipo I, cinco pacientes do tipo III e oito do tipo IV (Gráfico I).

 

Tipo I de Sillence:

Dos nove pacientes classificados como portadores do tipo I, tivemos 8 mulheres (88,9%) e 1 homem (11,1%), com uma média de idade de 22 anos (variando de 4 a 41 anos). Cinco deles (55,5%) tinham história familiar da doença. A média de idade em que ocorreu a primeira fratura foi aos 2,7 anos, variando desde o nascimento até os 9 anos de idade. Ocorreram no total 70 fraturas neste grupo, gerando uma média de 7,8 fraturas por paciente. Todos estes pacientes são deambuladores e apresentam as escleras azuis. A diminuição da capacidade auditiva confirmada por avaliação otorrinolaringológica, foi constatada em dois pacientes (22,2%). Seis pacientes (66,7%) são do subtipo IA de Sillence, pois não apresentam a dentinogênese imperfeita e três (33,3%) são do subtipo IB de Sillence, onde a dentinogênese está alterada. Em relação à estatura, obtivemos que neste grupo a média estava 2,2 desvios padrão (DP) abaixo da normalidade, sendo que 5 pacientes (55,5%) tinham a estatura abaixo do percentil 2,5. A dosagem de cálcio esteve abaixo do valor de referência em 6 (66,7%) pacientes (Tabela I e Gráficos II, III e IV).

 

Com relação à avaliação radiográfica, encontramos alterações com diminuição na espessura da cortical e/ou diminuição do trabeculado ósseo da medular no fêmur proximal em três pacientes; e em dois (22,2%) havia comprovação de escoliose moderada (inclusive uma paciente submetida a correção cirúrgica com instrumentação posterior devido à deformidade), mas ambas sem outras alterações radiográficas (Tabela I).

 

Na avaliação da massa óssea pela densitometria, apenas num paciente (11,1%), dos nove classificados como tipo I de Sillence, o resultado foi inferior ao esperado, estando 2,8 DP abaixo da normalidade (Tabela I e Gráfico IV).

 

Tipo III de Sillence:

Neste grupo, todos os 5 pacientes são do sexo feminino, nas quais obtivemos uma média de idade de 27,6 anos (variando entre 10 e 54 anos). Três pacientes (60%) tinham história familiar da doença. O primeiro episódio da fratura ocorrera logo ao nascimento em 4 destas pacientes e com apenas 1 mês de vida na outra. No total ocorreram 202 fraturas até o momento, nestas 5 pacientes, com média de 40,4 fraturas por paciente. Nenhuma destas pacientes chegou a deambular em algum momento de suas vidas, e todas apresentam dentinogênese imperfeita. A audição é normal em todas elas e 4 (80%) apresentam escleras azuis. Neste grupo a média de desvios padrão em relação a estrutura foi 7,51 DP abaixo da normalidade e todas as pacientes tinham a estrutura abaixo do percentil 2,5. A dosagem de cálcio esteve abaixo do valor de referência em todas as pacientes (Tabela II e Gráficos II, III e IV).

 

Com relação a avaliação radiográfica, observamos que todas as pacientes apresentavam diminuição na espessura da cortical e do trabeculado ósseo da medular no fêmur proximal; além disto havia escoliose grave em quatro pacientes (80%) e moderada em uma (Tabela II).

 

Na avaliação da massa óssea pela densitometria, em todas as pacientes deste grupo obtivemos resultados abaixo do esperado, sendo na média 3,4 DP abaixo da normalidade (Tabela II e Gráfico IV).

 

Tipo IV de Sillence:

Foram classificados como portadores do tipo IV da doença, 8 pacientes (36,4% do total); sendo uma mulher (12,5%) e sete homens (87,5%), com uma média de idade de 19,1 anos (variando de 2 a 41 anos). Apenas um paciente (12,5%) neste grupo tinha história familiar da doença. O primeiro episódio de fratura ocorrera na média aos 9,2 meses de vida (variando desde o nascimento até os 3 anos de idade). No total ocorreram 155 fraturas neste grupo, gerando uma média de 19,4 fraturas por paciente. Todos apresentavam audição normal e 7 tinham escleras azuis (87,5%). Três pacientes eram do subtipo IVB (37,5%), pois apresentavam dentinogênese imperfeita enquanto que cinco (62,5%) não apresentavam esta alteração (subtipo IVA). Quanto à deambulação, três (37,5%) deambulavam sem auxílio, dois (25%) deambulavam com muletas e três (37,5%) não deambulavam mais. Todos já haviam deambulado em alguma época da vida (diferentemente dos pacientes do tipo III, que nunca chegaram a deambular). Neste grupo a média de desvios padrão em relação à estrutura foi de 3,2 DP abaixo da normalidade e cinco pacientes (62,5%) apresentam estrutura abaixo do percentil 2,5. A dosagem de cálcio esteve abaixo do valor de referência em sete (87,5%) pacientes (Tabela III e Gráficos II, III e IV).

 

Com relação à avaliação radiográfica, identificamos que em sete destes pacientes (87,5%), havia diminuição na espessura da cortical e no trabeculado ósseo da medular no fêmur proximal. Constatamos também, a presença de escoliose moderada em cinco pacientes e grave em dois doentes. Na avaliação do paciente mais jovem de toda a amostra, com dois anos de idade, não observamos alteração na cortical ou no trabeculado ósseo da medular no fêmur proximal, não havendo também escoliose, apesar das graves deformidades nas coxas e pernas e o antecedente de 8 fraturas até o momento (Tabela III).

 

Na avaliação da massa óssea pela densitometria, em todos os pacientes deste grupo observamos resultados abaixo do esperado. Estes pacientes do grupo IV, apresentaram na média 3,5 DP abaixo da normalidade. Neste grupo, o resultado da densitometria óssea no paciente de dois anos de idade não foi incluído por não existir padrão de comparação na aplicação desta técnica com este tipo de aparelho para pacientes com esta idade ( o resultado foi dado como abaixo do valor esperado, mas sem desvios-padrão). (Tabela III e Gráfico IV).

 

Tratamento estatístico dos resultados, na comparação entre os três diferentes tipos : comparados os resultados em relação à estatura, número total de fraturas, resultados da dosagem de cálcio (valores abaixo da referência) e valores obtidos com a densitometria óssea.

 

ESTATURA MÉDIA DO GRUPO :

 

Resultados do tipo I versus tipo III de Sillence : p=0,001 (significante).

Resultados do tipo I versus tipo IV de Sillence : p= 0,48 (não significante).

Resultados do tipo III versus tipo IV de Sillence : p= 0,011 (significante).

 

NÚMERO TOTAL DE FRATURAS:

 

Resultados do tipo I versus tipo III de Sillence : p= 0,002 (significante).

Pacientes do tipo I versus tipo IV de Sillence : p= 0,015 (significante).

Resultados do tipo III e tipo IV de Sillence : p= 0,127 (não significante).

 

RESULTADOS DA DOSAGEM DE CÁLCIO (VALORES ABAIXO DA REFERÊNCIA)

 

Não obtivemos diferença estatisticamente significante na comparação entre os três diferentes tipos.

 

DENSITOMETRIA ÓSSEA:

 

Resultados do tipo I versus tipo III de Sillence : p= 0,004 (significante)

Resultados do tipo I versus tipo IV de Sillence : p= 0,001 (significante).

Resultados do tipo III versus tipo IV de Sillence : p= 1,00 (no significante).

 

DISCUSSÃO

 

 

A osteogênese imperfeita (O.I.) é causada por um defeito quantitativo e qualitativo no colágeno do tipo I (8). O colágeno do tipo I é um heteropolímero constituído por duas cadeias alfa 1 e uma cadeia alfa 2, que assumem estruturalmente a forma de tripla hélice, e sua determinação genética ocorre nos Loci COL1A1 e COL1A2. Mutações novas localizadas nestes Loci determinam principalmente a O.I., mas podem também causar a síndrome de Ehlers-Danlos dos tipos VIIA ou VIIB e a síndrome de Marfan (3). Um grande número de mutações tem sido descrito, porém a correlação entre o defeito genético específico e o fenótipo produzido, ainda é pouco estabelecido (5). A herança geralmente obedece um padrão autossômico dominante, ou menos freqüentemente, recessivo. No presente estudo encontramos antecedentes de história familiar em 40,9% dos pacientes, não podemos no entanto, estabelecer o padrão de herança genética envolvendo estes doentes.

 

A O.I. é uma doença rara, ocorrendo 1 caso em cada 15000 a 20000 nascimentos e sua prevalência é de 1 em 200000 (4 e 18). Não encontramos citações na literatura sobre predomínio em relação à raça ou quanto ao sexo. Nossa amostra apresentou leve predomínio do sexo feminino em relação ao masculino, na proporção de 1,7 para 1, e uma distribuição racial com 59,1% de brancos, 22,7% de pardos e 18,2% de negros. Devido ao pequeno tamanho da amostra, não se pode afirmar que este seja o padrão de distribuição da doença.

 

A fragilidade óssea é o sintoma cardinal da O.I. (8), sendo que as fraturas muitas vezes podem ser reconhecidas antes mesmo do nascimento (18, 21 e 22). As fraturas intra-uterina podem ser detectadas por meio de ultrassonografia fetal, já no primeiro trimestre da gestação (8, 21 e 23). Estes pacientes são classificados, segundo os critérios de Sillence, como portadores do tipo II de O.I., sendo esta a forma mais rara e grave da doença. Caracteristicamente causam o óbito da criança antes ou logo após o nascimento (5, 6, 9, e 24). Isto justifica em parte, o fato de não termos pacientes portadores deste tipo de O.I., durante a realização deste trabalho.

 

As fraturas ocorrem freqüentemente nos primórdios da infância, atingem preferencialmente os membros inferiores e tornam-se menos comum após a puberdade. Sua freqüência e prematuridade de início estão diretamente relacionadas com a gravidade da doença (6,8 , 23 e 25). Na avaliação dos pacientes deste trabalho observamos que o número de fraturas e o início de sua ocorrência foram fatores fortemente indicativos para a classificação e, conseqüentemente, para a determinação do prognóstico. Encontramos diferença estatisticamente significante ao compararmos o número de fraturas dos pacientes dos tipos III e IV da doença em relação aos portadores do tipo I, sendo esta a forma mais branda e de melhor prognóstico no curso da doença. Observamos também que, na média, o primeiro episódio de fratura ocorreu mais precocemente no tipo III, seguido dos tipos IV e I, respectivamente.

 

As escleróticas azuladas e a dentinogênese imperfeita são também características marcantes dos pacientes portadores de O.I.(2). A maioria dos nossos pacientes (90,9%) apresentaram escleróticas azuis; caracteristicamente, todos os pacientes do tipo I eram portadores deste fenótipo, achado que coincide com a literatura (2 e 6). A dentinogênese imperfeita caracterizada por falha na formação de dentina, maior propensão dos dentes às cáries e que está presente em todos portadores do tipo III de O.I. (2 e 13) ; foi realmente encontrada em 100% dos nossos pacientes do tipo III, e em 50% do total de pacientes analisados.

 

A diminuição da acuidade auditiva decorrente da otosclerose é do tipo condutivo, inicia-se na 2a ou 3a década de vida, e tem caráter gradual e progressivo. Ocorre em até 40% dos pacientes portadores do tipo I da doença e é pouco freqüente nos demais grupos (6 e18). Observamos tal deficiência em 22,2% dos nossos pacientes com o tipo I de O.I., não havendo outros casos nos demais tipos.

 

As deformidades esqueléticas estão freqüentemente presentes, predominam nos membros inferiores e são decorrentes de fraturas consolidadas viciosamente. Estão diretamente relacionadas com a gravidade do acometimento e interferem no prognóstico de marcha (8, 13, 17, 14 e 15). Na avaliação do estado deambulatório dos nossos pacientes constatamos que, caracteristicamente, todos os pacientes do tipo I eram deambuladores, enquanto que os portadores do tipo III nunca deambularam. Os portadores do tipo IV apresentavam características deambulatórias variáveis, mas diferentemente daqueles do tipo III, mesmo os que atualmente não deambulam, fizeram-no em algum momento de suas vidas.

 

A baixa estatura é um achado comum nos pacientes portadores de O.I. (10, 16, 19 e 26). Foi observada em 68,2% dos nossos pacientes estatura abaixo do percentil 2,5. Esta constatação pode ser útil para a classificação dos portadores de O.I., pois houve diferença estatisticamente significante na comparação das estaturas entre os pacientes do tipo III com os pacientes dos tipos I e IV.

 

Nos casos mais graves da doença, podem ocorrer deformidades da coluna vertebral, sendo mais comum a escoliose, que ocorre em 20 a 40% dos pacientes. A escoliose além de contribuir para a baixa estatura, é responsável pela diminuição da capacidade cardiopulmonar, limitando assim a expectativa de vida nestes doentes (26). Em nossa casuística encontramos 63,6% dos pacientes com escoliose. Nos portadores do tipo III da doença, 80% dos pacientes apresentavam escoliose com curvas que excediam 40 graus, sendo que 2 pacientes com idade acima de 40 anos já apresentavam sintomas de insuficiência respiratória. Também pode ocorrer cifose, impressão basilar ou espondilolistese (23 e 26).

 

Pode ocorrer ainda, como parte do quadro clínico, o aumento da frouxidão cápsulo-ligamentar, tendência aumentada ao sangramento, facies triangular, alterações da pele e, menos freqüentemente, a hérnia inguinal, defeitos congênitos tardios e retardo mental (5 e 15).

 

Radiograficamente são encontradas alterações, que variam em qualidade e quantidade óssea segundo a gravidade da Osteogênese Imperfeita. Há, em geral, uma diminuição do trabeculado ósseo normal, uma diminuição da espessura da cortical e podem existir ou não deformidades angulares (8, 10, 14 e 18). Estas deformidades são mais comuns nos membros inferiores, podendo coexistir fraturas em várias fases de consolidação num mesmo paciente, nas convexidades dos ossos longos. Nas formas mais graves existem as chamadas calcificações em “pipoca” na região metafisária dos ossos longos. Podemos mais raramente encontrar casos com protusão acetabular (5, 6 e 10). Na observação sobre o trabeculado ósseo radiográfico e/ou da espessura do osso cortical na região proximal do fêmur dos nossos pacientes, os 4 diferentes observadores concordaram que estavam diminuídos em 68,2% dos casos.

 

A densidade óssea está diminuída nos doentes com O.I., e isto pode ser investigado por métodos radiográficos, pela densitometria óssea ou pela tomografia da coluna lombar. As radiografias mostram uma diminuição do trabeculado ósseo normal, que pode ser inferida segundo a classificação descrita por Singh (27).

 

A tomografia da coluna lombar embora seja também utilizada para se avaliar a qualidade óssea, não é descrita para pacientes portadores de O.I.

 

A densitometria óssea (DMO) atualmente é um método mais eficaz que a radiografia, pois consegue quantificar objetivamente a diminuição de massa óssea. A DMO também se presta para o seguimento dos pacientes que são tratados clinicamente com bisfosfonados ou outras drogas. Embora Moriwake (8) tenha encontrado a densidade de massa óssea (BMD) diminuída em todos os seus pacientes com O.I., na nossa casuística isto não ficou comprovado. Apenas um (11,1%) paciente, entre os nove classificados como do tipo I apresentou diminuição significativa da BMD, segundo o método utilizado. Todos os pacientes portadores dos tipos III e IV apresentaram níveis significantes de BMD abaixo do normal. Encontramos diferença estatisticamente significante ao compararmos os resultados da DMO dos pacientes do tipo I de O.I. com aqueles do tipo III e IV (que não apresentavam por sua vez, diferença significante entre si).

 

Em relação a dosagem do cálcio sérico, embora a literatura (1, 5 e 9) não relate alterações na sua dosagem, observamos que 81,8% dos pacientes avaliados apresentavam hipocalcemia. Não constatamos diferença estatística entre os diferentes tipos da doença ao avaliarmos esta variável.

 

Existe uma grande variabilidade de manifestações na O.I., e observamos que a “confirmação do diagnóstico” da doença se faz principalmente pela investigação clínica e o exame físico. Deve-se investigar a história familiar, o antecedente de fraturas com mecanismo de trauma que não se justificariam em pessoas com estrutura músculo-esquelética normal; e buscar a presença de alterações físicas características, como: escleróticas azuladas, dentinogênese imperfeita, escoliose, baixa estatura e deformidades angulares principalmente nos membros inferiores. A radiografia também auxilia no diagnóstico, ao detectarmos a diminuição do trabeculado ósseo e da cortical no fêmur proximal, além da avaliação das deformidades constatadas no exame clínico. No entanto, não podemos deixar de advertir quanto à dificuldade de se “fechar o diagnóstico”, principalmente em pacientes de menor idade e, considerarmos sempre a possibilidade de estarmos diante de outras displasias ósseas, síndrome da criança espancada etc., uma vez que não há sinal clínico ou exame complementar patognomônico que confirme o diagnóstico.

 

Consideramos ainda, que a classificação destes pacientes, com o objetivo de se determinar seu prognóstico e forma de tratamento é de fundamental importância. No entanto, os critérios para classificação proposta por Sillence et al nos parece de difícil emprego na distinção de alguns casos, principalmente entre os pacientes pertencentes aos tipos III e IV. Nesses casos, o fato do paciente nunca ter deambulado e a sua muito baixa estatura nos parecem as variáveis mais importantes para classificá-los como tipo III. Para distinguirmos no entanto, os tipos I e IV em casos onde haja dúvida, a DMO é o exame de maior valia.

 

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

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TABELA I - AVALIAÇÃO DOS PACIENTES CLASSIFICADOS COMO TIPO I DE SILLENCE

Iniciais

E.R.D.

A.P.S.B.

T.P.O.

C.O.A.

P.O.A.

F.G.A.C.

C.M.B

M.M.S.

O.O.S.

Sexo

F

F

F

F

F

M

F

F

F

Idade (anos)

41

11

39

13

19

4

11

21

39

Estatura (cm)

138

154

133

135

152

105

125

151

135

Antecedentes   familiares

Não