O triunfo do amor inquebrável
BRASÍLIA _ A primeira
cena de Corpo fechado, (Unbreakable), filme com Bruce Willis e Samuel L.
Jackson, em cartaz nos cinemas, me fez voltar no tempo. As imagens do
nascimento de Elijah Price me levaram à madrugada do dia 20 de maio de 1991
quando eu, Valéria e meu filho Pedro Ivo fomos ao Hospital Santa Helena, em
Brasília, esperar o nascimento de Isadora, minha quarta filha.
Tipos _ Como Elijah
Price explica a David Dunn, na cena em que se encontram pela primeira vez, a osteogenesis
imperfecta possui quatro tipos. Pode ocorrer na forma gravíssima (tipo 4), que
normalmente provoca a morte do bebê no útero materno ou logo após o seu
nascimento, até em forma mais leves (tipo 1) - a mesma do personagem do filme.
A osteogenesis imperfecta é rara. Embora contestadas por especialistas, devido
ao pouco conhecimento, inclusive dos médicos, e às dificuldades para
diagnosticar os casos, as estatísticas oficiais indicam 1 doente a cada 20 mil
nascidos vivos. Ou seja, 0,005% da população mundial. Por esses números, no
Brasil teríamos cerca de 9 mil portadores.
Os anos passaram e fomos apreendendo a conviver com a
doença. Todos os médicos que consultamos, inclusive os da Rede Sarah de
Hospitais do Aparelho Locomotor, em Brasília, que Isadora freqüenta desde que
nasceu, diziam que a doença não tinha cura e que não havia o que fazer, exceto
cuidar das fraturas e criar condições para que ela pudesse levar uma vida a
mais próxima possível da normalidade. Segundo esses prognósticos, seria praticamente
impossível Isadora andar.
*Secretário de
redação do JB em Brasília
Depois de vencer o ceticismo e a resistência inicial dos
médicos da Rede Sarah conseguimos que o tratamento continuasse no Brasil,
coordenado pelo geneticista Carlos Speck, do Sarah. Hoje, depois de cinco
aplicações, a densidade óssea da Isadora cresceu 85%, as fraturas praticamente
cessaram - desde que começou o tratamento ela só teve mais duas, por acidentes,
um deles um atropelamento na faixa de pedestres -, e sua força muscular e
mobilidade apresentaram melhoras. Muito mais do que os exames, a vida nos
mostrou os resultados positivos. Em dezembro, Isadora caiu da cama no meio da
noite e não sofreu absolutamente nada. Se isso tivesse acontecido antes, com
certeza teríamos mais algumas fraturas na nossa estatística pessoal.
Site _ Toda essa
nossa experiência pessoal rendeu também outros frutos. A partir dos contatos
feitos pelo site brasileiro de osteogenesis e da lista de discussão sobre a
doença na internet participamos, em dezembro de 1999, da fundação da Associação
Brasileira de Osteogenesis Imperfecta , ABOI, que hoje, um ano depois, conta
com cerca de 200 associados, entre portadores, familiares e médicos, em todo o
país. Além disso, o tratamento com pamidronato já começa a ser aplicado no
Brasil em cerca de 40 crianças, em São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília,
Fortaleza, Porto Alegre e Rio Branco, abrindo uma nova esperança para as
crianças brasileiras portadoras da "doença dos ossos de cristal".
Primeiro caso é de 1.000 A.C.
Embora a primeira descrição da osteogenesis imperfecta
conhecida na literatura médica seja a de P. Amand, em 1715, existem
confirmações anteriores. No Museu Britânico, em Londres, há uma múmia egípcia,
de 1.000 A.C., com alterações no esqueleto, nos dentes e nos ossos longos,
típicas da doença. O líder da invasão escandinava na Inglaterra, no século 9,
"Ivar, o sem ossos", tinha a patologia. Além disso, um fêmur
esquerdo, do século 7, foi achado na Inglaterra. Quem primeiro identificou a
doença nos recém-nascidos e a nominou foi Willem Vrolik, anatomista alemão, em
1849. Em 1831, o também alemão Edmund Axmann descreveu a doença nele mesmo e
nos seus irmãos. Em 1859, o inglês Edward Latham Ormedod relatou o caso de uma
mulher de 68 anos, com apenas 1 metro de altura, que passou a doença para um
filho e uma filha. O esqueleto dela está no Real Colégio de Cirurgiões de
Londres. (M.O.F.)
Moacyr continuou o
tratamento de Isadora no Brasil.
Feliz, ela agora está
aprendendo a caminhar
Respostas no código genético
AGÊNCIA JB
SÃO PAULO _
Para que um prédio se sustente, estruturas firmes funcionam como base. Na
osteogenesis imperfecta o problema ocorre na sustentação dos ossos, que, sem
solidez, quebram à toa. Chefe da Ortopedia Pediátrica da Santa Casa de
Misericórdia de São Paulo, Cláudio Santili explica que o corpo humano é
formado por vários tipos de tecidos _ o principal é o conectivo _ formados por
cadeias de colágeno (substância gelatinosa) com textura diferente em cada parte
do corpo. Na pele, o colágeno é mais elástico; no osso, mais rígido. Na
estrutura, o cálcio formaria as paredes, a Cortical óssea. "Na doença, o
tecido de sustentação é alterado. Embora absorva o cálcio, é frágil", diz.
Segundo o médico, o sistema ósseo do ser humano é trocado 20 vezes na vida.
"O osso é uma estrutura viva. Ao mesmo tempo que o organismo põe o cálcio,
ele o retira para o controle da coagulação e do batimento cardíaco",
explica. A doença pode ser transmitida geneticamente ou adquirida por uma
mutação nos genes. Segundo o médico, os cromossomos envolvidos são o 7 e o 17,
na cadeia de 46 com a herança genética. A osteogenesis tem quatro graus, com
maior e menor intensidade. Há quem passe a vida sem descobri-la e outros que
não sobrevivem ao parto. O tratamento é complexo. Apesar de os doentes
normalmente consolidarem os ossos fraturados, não podem engessá-los. "Nos portadores,
a perda de cálcio tem que ser evitada. O melhor é fazer com que mantenham a
movimentação muscular, que estimula a vitalidade. "Como a estrutura é
sensível, deformações são comuns. Os ossos se envergam com o peso".
Um roteiro milionário
Diretor faturou US$ 15 milhões pela história
RODRIGO FONSECA
Dirigido por M. Night Shyamalan (do megassucesso O sexto
sentido, de 1999), que vendeu seu roteiro pela cifra mais cara da indústria do
cinema _ U$ 15 milhões _, o filme mostra a transformação na vida de Dunn quando
este escapa ileso de um acidente ferroviário e passa a ser procurado por
Elijah, que o interpela com perguntas sobre sua saúde e com a estranha teoria
de que é um super-herói, invulnerável. Mesclando ficção e suspense, Shyamalan
joga a dúvida do espectador e o resultado está nas bilheterias: U$ 85 milhões
em apenas três semanas em cartaz.