Glauce, de Brasília
Nasci no dia 18 de Setembro de 1980 em Brasília, onde moro. Logo ao nascer fui encaminhada para o Hospital Sarah Kubitschek, pois tinha o quadril luxado e as mãozinhas e os pés “caidos”, sem firmeza. Desconfiavam de ser um caso PC e dai em diante meus pais começaram a maratona em busca do meu diagnóstico preciso. Pulava de médico em médico para obter uma resposta. Não cheguei a andar e aos 3 anos começaram as fraturas. Muitas vezes sofria fraturas nas mãos dos médicos e fisioterapeutas por desconhecerem o grau da doença. Tomei toda espécie de medicamentos que vocês possam imaginar. Fazia até dietas. Em 93, com a certeza do diagnóstico comecei a fazer o tratamento com a medicação correta, acompanhada de uma dieta adequada e, em 98, comecei a fazer hidroginástica, que foi essencial na melhora da massa óssea. Porém, nada disso impediu que tivesse uma infância e uma adolescência normais. Enquanto engessada, passava o todo tempo livre montando peças do Lego ou construindo casas pra Barbie, lendo gibis, vendo os desenhos animados preferidos, jogando baralho, dominó, banco imobiliário, detetive, atari, e todos aqueles joguinhos maravilhosos dos anos 80. Apesar de não poder correr, brincava de pique-esconde sendo empurrada às carreiras, fazendo ziguezague entre as pilastras dos prédios em que morava, ou então de passar correndo pelas poças d’água na rua. Graças a Deus não fui uma criança solitária; tive muitos primos da minha idade que sempre estavam por perto e os colegas de escola. Até que os brinquedos perdessem a graça. E então, como qualquer garota de 14-16 anos, queria ir às festas, às boates, barzinhos, boliche, ao cinema, shopping. E ia mesmo. Até exagerando nas bebidas alcóolicas de vez enquando. Não para afogar as mágoas, mas por estar me divertindo com os amigos. Sempre procurando, é claro, os lugares mais fáceis de se chegar com uma cadeira de rodas. Mas se houvesse algum obstáculo, os seguranças do local ou meus acompanhantes davam um jeito para eu chegar ao destino. Fui alfabetizada em casa por uma prima mais velha, que veio morar em minha casa quando eu tinha 3 ou 4 anos de idade, e dedica sua vida até hoje a cuidar de min. Graças a ela entrei no colégio público na 2ª série sem nenhum atraso. A partir da 6ª série, passei a estudar em colégio particular. Passei no vestibular no segundo semestre de 1999, após um semestre de cursinho puxado estudando cerca de 10 horas por dia, para o curso de Comunicação Social da Universidade Católica de Brasília. Porém, ao contrário de todos, não fiquei feliz pois meu sonho ERA ser psicóloga. Agora já estou entrando no 6º semestre de Jornalismo, pensando na possibilidade de me habilitar também em publicidade. Trabalho atualmente na Assessoria Internacional do Ministério das Comunicações, com muito orgulho, pois é meu primeiro emprego. Me formo no curso de inglês provavelmente em fevereiro deste ano.
Impossível contar 21 anos de história em poucas palavras. Mas o que émais importante nisso tudo é que, apesar de todo o sofrimento, que não foi pouco, hoje posso olhar para trás e agradecer a Deus por todas as coisas boas que eu pude fazer. E pensando bem, não me lembro de nada que eu quisesse fazer e não tenha conseguido. Logicamente, passei por maus momentos por preconceito de pessoas ignorantes, mas foi também por causa delas que me tornei a pessoa que sou hoje, feliz com meus estudos, com meu trabalho, com minhas crenças. Porque cada vez que alguém me ofende eu reúno mais forças para mostrar para aquela pessoa o quanto ela está errada. Acredito que Deus nos coloca no mundo com um propósito, e cada um terá seu momento de aprender qual o real sentido da vida. Alguns mais rápidos, outros mais devagar. E eu tenho certeza que nessa escola eu estou só começando.
Frase: "Nada
é coincidência, tudo está escrito"