Estudo etnofarmacobotânico da
espécie
Vitex agnus-castus L. Verbenaceae,
usada em rituais afro-brasileiros
Maria Thereza Lemos de Arruda Camargo
(VIII Simpósio Latinoamericano
de Farmacobotânica, Montevideu Uruguai, 1996.)
presente trabalho visa o estudo da espécie Vitex agnus-castus L.
Verbenaceae, usada em curas de doenças e em rituais religiosos afro-brasileiros,
tendo por objetivo, ainda. uma análise da correlação
existente entre os princípios ativos, atividades biológicas
e as circunstâncias em que são empregadas.
Vitex agnus-castus
L. é conhecida desde a Antiguidade conforme verificado pelos
escritos de Dioscórides, em Quer (l978): Tiene
el agno virtude clinty estíptica. Su semiente, bebida, es útil
a los mordidos de fieras emponzoñadas, a los enfermos del bazo y
a los hidrópicos. Bebida della una dracma con vino atrae la
leche a las tetas, provoca el menstruo, deseca la esperma, tienta el celebro
y da gana de dormir. El cocimiento de la hierba y de la simiente, si se
sientam sobre él, conviene mucho a las inflamaciones y a cualquiera
otra indisposición de la madre. Llámase, en griego,
esta planta agnos, que quiere decir casta y entera, porque las matronas
que guardaban castidad en los sacrificios de Ceres se acostaban sobre sus
hojas. Su simiente bebida e aplicada, desminuye el apetito venéreo,
y esto no solamente desecando el humor espermático, empero también
resolviendo, más que ningún otro remedio, las ventuosidads
del cuerpo, sin la importunidad de las quáles no se mueve madona
Venus.
Em
Corrêa
(l926,v.1:36), na Idade Média usavam o lenho como amuleto e comiam
os frutos aqueles que faziam voto de castidade.
Conforme Hoehne
(1939:250),atribuiam os antigos a propriedade de atenuar as sensações
sexuais. Por isto as donzelas castas espalhavam folhas e flores dele
em seus leitos e os monges prescreviam o uso do chá da mesma
nos conventos ou preparavam xaropes com tais matérias para ministrarem
a título de peitoral aos noviços. Mas o decocto era também
considerado emenagogo e os frutos fortemente picantes serviam para combater
moléstias sifilíticas. O emprego do decocto das flores e
folhas de outras espécies de Vitex, para efeitos emenagogos
generalizou-se e vem sendo feito até aos nossos dias e tanto prova
que elas devem encerrar uma substância ativa mais ou menos tóxica.
Lima
(l975:260), citando Maurizio ,
povos antigos, na busca de "fortificantes" a serem introduzidos na preparação
de cerveja, entre outras plantas, empregavam ramos e bagos de Vitexagnus-castus
L. Segundo aquele autor era um trabalho feminino de carater mágico,
em que se utilizavam plantas capazes de produzir efeitos fisiológicos
intensos.
Lewis
& Elvin Lewis (l977:332) dizem: Vitex agnus-castus L. has been
know since antiquity as the symbol of chastity; the ground fruit substituted
for pepper is supposed to reduce libido
Material e método
Os critérios
metodológicos orientaram-se pela pesquisa de campo no candomblé
queto Ile Axe Ewe Fun mi, na cidade de São Paulo e
pela pesquisa bibliográfica de obras ligadas à Botânica
em geral, às Ciências Farmacêuticas, à Antropologia
e Sociologia voltadas à religiões afro-brasileiras, assim
como consultas a especialistas em assuntos relacionados com a pesquisa.
A espécie
botânica é apresentada com seu nome científico, família,
origem, parte usada, nomes vulgares em lingua nacional e estrangeira, princípios
ativos, atividades biológicas e usos em curas e em rituais afro-brasileiros.
O material botânico
coletado e identificado acha-se conservado no herbário d referência
do Centro de Estudos da Religião "Duglas Teixeira Monteiro", no
Departamento de Sociologia da Universidade de São Paulo.
Resultados
Vitex agnus-castus
L.
Família: Verbenacae
Origem: Europa (Correa,
1926,v.l:36)
Descrição:
Arbusto
lignoso, ramoso, velloso, que alcanza alturas de 2-3 m. Hojas semipersistentes,
pecioladas, opuestas, compuestas de 5-7 folíolos lanceolados, enteros,
de matiz verde por el haz y plateado y velloso por el envés.
Sus flores tubulosos, campanuladas, bilabiadas y de color lila están
reunidas en panículas axilares. Florece en verano, dando lugar
a un fruto druposo. Toda la planta exhala un olor a pimienta.
(Juscafresa, 1975:42)
Princípios ativos:
óleo essencial (cineol, pineno, lineol), princípio amargo
(castina), alcalóide (viticina), dois materiais corantes, a vitexina
e a vitexinina, de natureza glucosídica ou tanosídica (Font
Quer,l978:638); glicosídios (vitessina e vitessinina) (Valnet,
l972:78)
Parte usada: folha
e fruto.
Atividades
biológicas: infusão concentrada da planta para psicoses
com transtornos digestivos, cardiovasculares, vertigem e insônia.
Os frutos são diuréticos, carminativos e estimulante geral,
conforme (Font Quer, l978:638). Anafrodisíaco,
"Las
hojas frescas colocadas debajo la almohada apagan los deseos sexuales e
evitan los sueños eróticos y la pérdidas de semen
durante la noche", segundo (Juscafresa, 1975:42).
Antiespasmódico, equilibrante do sistema vago-simpático em
(Valnet,l972:79)
Nomes vulgares:
alecrim-de-angola, alecrim-de-planta (PA), alfazemão, árvore-da-castidade,
erva-de-caboclo, liamba (PE), pau-de-angola (PA, MA) pimenta-dos-
monges, pimenteiro. Alemanha: Abrahamstrauch, Keuschbaum,
Keuschlamn,
Klosterpfeffer,
Moenchspfeffer.
Espanha: agno
casto, gatillo casto, pimiento loco, saucegatillo,
sauzgatillo,
zerobo.
França:
Agneau
chaste, arbre à poivre, gattilier.
Inglaterra: chaste
tree, monks pepper-tree.
Itália: agno
casto, vitice.
Portugal: agno-casto,
anho-casto,
agno-puro,
árvore-da-castidade, pimenteiro-silvestre.
Usos em rituais
afro-brasileiros: Na medicina dos candomblés, Bastide (1959:177)
indica a espécie Vitex taruma como anti-reumático,
tanto no catimbó do Ceará como nos candomblés da Bahia.
Segundo pai-de-santo do Candomblé de tradição queto
Ile Axe Ewe Fun Mi, em São Paulo, alfazemão
é planta de Oxalá, usada enquanto florida e com sementes,
em chá fervido, que é bebido no momento em que se toma o
banho com o mesmo preparado, para "limpar a aura física e dar
equilíbrio. Esse ritual ocorre a qualquer momento em que for necessário".
Figueiredo
(l983:35) refere-se a essa planta como sendo alecrim-de-angola, usada nos
banhos de cheiro, ariaches e amacis, nas casas de cultos afro-brasileiros
de Belém do Pará. Tais banhos, sabe-se serem utilizados em
várias situações ritualísticas, principalmente
com a finalidade de purificação.
Fichte(l985:246)
inclui o pau-de-angola na relação de plantas usadas na Casa
das Minas de São Luís do Maranhão.
Ferretti
(l986:196) faz referência ao pau-de-angola usado na mesma Casa das
Minas de São Luís do Maranhão, na preparação
de garrafas de banho, sem, contudo, apresentar sua identificação
botânica.`
Segundo estudos
realizados pelo pesquisador e mestre Ulysses Paulino de Albuquerque da
Universidade Federal de Pernambuco, sobre espécies vegetais dos
cultos afro-brasileiros em Recife, PE, Vitex agnus-castus L. está
entre as 10 mais empregadas nas benzeduras para fins terapêuticos
e em banhos de descarrego para "limpar o corpo de maus fluidos e tirar
mau olhado".
O chá das
folhas de alecrim-de-angola é empregado na medicina popular na Amazônia
e em outras regiões do Pais como antiespasmódico, antisséptico,
diurético, carminativo e contra dores de estômago e de cabeça,
segundo Albuquerque (1989:10).
Discussão
A ingestão
de bebida a base de Vitex agnus-castus L. somente foi registada
na pesquisa de campo no candomblé Ile Axe Ewe Fun mi, em
São Paulo, predominando seu uso em banhos. Seu emprego através
de bebida preparada com flores e sementes em busca do equilíbrio
pode ser justificado pela ação tranquilizante e inibidora
sexual, conhecida desde a Antiguidade, principalmente quando se sabe que
a abstinência sexual é uma das exigências para a realização
de determinados rituais de religiões afro-brasileiras. Quanto ao
seu uso em banhos nada consta da literatura pesquisada, acreditando-se
que o uso tópico de preparados a base dessa planta não apresente
efeitos que possam merecer atenções especiais.
Seu uso na medicina
popular como diurético e antiespasmódico tem respaldo na
interpretação científica relacionado a atividades
biológicas características dessa planta. Seu uso nas dores
de estômago e cabeça pode ter sua explicação
como equilibrante do sistema vago-simpático, visto ser indicada
em psicoses com transtornos digestivos, conforme registra a literatura
cienífica.
Maurizio,
A., Gesch. d. geg. Getränke. Verl. P. Parey, 132(l933).
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