1. Introdução:
Já tem sido ressaltada
a importância das plantas nas religiões de origem e influência
Africana no Brasil,
visto que a presença delas em qualquer situação de
culto é uma obrigação. Cada planta com propriedades
específicas podem ser misturadas a outras a fim de se obter preparações,
também específicas, tanto para fins medicinais como mágicos.
"Na medicina
as Convolvulaceae sempre tiveram aplicação. Muitas
são catárticas, outras emolientes e algumas passam por depurativas,
sucedâneos da 'salsaparrilha", conforme Hoehne (1939).
"São numerosas
as espécies deste gênero das Convolvulceae que se acham integradas
nos jardins do mundo inteiro, e algumas delas provindas do Brasil.
Talvez a mais apreciada seja a Ipomoea purpurea Roth."(Rizzini
& Mors,1976:164)
Embora várias
espécies de Ipomoea sejam empregadas em rituais de religiões
afro-brasileiras, o presente trabalho concentra suas atenções
no candomblé Ile ewe axe fun mi, de tradição
Queto, em São Paulo, onde são usadas a Ipomoea
purpurea (L.) Roth., I alba L. e I. pes-caprae Sw., visando
uma análise relacionada às atividades biológicas decorrentes
dos princípios ativos presentes na planta e seu emprego em rituais
religiosos.
Sabe-se da importância
das plantas e do papel que representam nos sistemas de crenças de
origem e influência africana, visto que nessas religiões o
transe é elemento primordial além, também de se colocar
em destaque seu valor terapêutico, razão de seu uso nos rituais
de cura. Ressalta-se aí, o valor que se dá ao estado de corpo
e espírito ideal dos mediuns para a ocorrência das incorporações.
Alguns autores se dedicaram
ao estudo da classificação e identificação
das plantas rituais, segundo o pensamento mágico religioso que envolve
essas religiões.
Verger (1968) chegou a classificá-las,
segundo suas propriedades, em excitantes e tranqüilizantes, sendo
que as primeiras, agindo nos orixás (divindades), de forma a propiciar
a possessão e as segundas para abrandar o transe, permitindo, assim,
alcançar o equilíbrio durante o mesmo.
Barros
(1983:111), tratou da identificação das plantas nas religiões
afro-brasileiras de tradição jêje-nagô na Bahia,
verificando que ela baseia-se no tamanho, forma, cor, cheiro, textura
e habitat. É o princípio da analogia que norteia os
usuários. Quanto à forma citam-se exemplos da Dracaena
fragrans Gaw. e Sansevieria zeilanica Willd., de formas alongadas,
própria de objetos cortantes como faca e espada. Quanto às
cores, segundo o autor, a simbologia é ressaltada, citando o exemplo
do "algodão" Gossypium sp, pertencente a Oxalá
e o vermelho da Jatropha spp, pertencentes a Xangô.
Acrescenta, ainda, que as cores escuras das folhas ligam-se aos orixás
masculinos e as claras às divindades femininas. Referente à
textura das folhas, as carnosas, com capacidade de retenção
hídrica, estão associadas às divindades femininas
ou ao seu esposo mítico comum Oxalá. Folhas enrugadas ou
com saliências são atribuídas ao orixá da varíola,
Obaluaiê. Os carrapichos pertencem a Oxossi. Pêlos urticantes,
espinhos e acúleos, associados ao fogo, pertencem a Xangô
e/ou Exu. Relativo ao odor das plantas liberado quando esmagadas entre
os dedos, tem-se os adocicados que são propriedade de áyábá,
como a "catinga-de-mulata", Tanacetum sp e, ainda, as plantas de
odor acre, ligadas aos éborá masculinos, como o "quitoco",
Plluchea
sp.
Segundo pesquisas efetuadas
para a realização deste trabalho verificou-se que outras
espécies de Ipomoea são também usadas em rituais afro-brasileiros,
tais como: I. carnea Jacq. ssp. fistulosa (Mart. et
Choisy) D'Austin, I, bona- nox L e I. salzmanii Choizy.
As Ipomoea spp já
eram usadas no Brasil desde o século XVI, como foi registrado
por Souza (l974). Vários autores, oriundos do meio acadêmico,
têm se preocupado com as plantas empregadas em rituais afro-brasileiros
e sua identificação botânica, tais como: Fichte (1987),
Barros(1983), Lody (1979,1992), Albuquerque (1994), Van den Berg (1988),
entre outros. Neste sentido, pais-de-santo, chefes de casas de culto, também
têm se dedicado à publicações de obras nas quais
destacam o papel das plantas rituais, procurando trazer a público
sua identificação botânica, sem, contudo, fornecer
as fontes de tais informações. Porém, devemos
destacar que essas obras são importantes no sentido de obtermos
através delas, mais dados sobre o emprego das plantas nos mais diferentes
momentos ritualísticos dos sistemas de crenças de origem
e influência africana no Brasil.
O material botânico
coletado para este estudo foi identificado no Laboratório de Sistemática
do Departamento de Botânica do Instituto de Biociências da
Universidade de São Paulo e acha-se conservado no Herbário
do mesmo departamento e no Herbário Etnobotânico do Centro
de Estudos da Religião, sediado no Departamento de Sociologia da
mesma Universidade.
O presente trabalho visa,
portanto, contribuir para um melhor conhecimento de plantas do gênero
Ipomoea
empregadas na medicina popular e nos rituais afro-brasileiros, tendo em
vista a relação entre à atividade biológica
a partir dos princípios ativos que a planta encerra e o papel que
representam na medicina popular e nos rituais afro-brasileiros.
2.Material e método:
A pesquisa orientou-se pelo
seguinte critério metodológico:
2.1. pesquisa
de campo na casa de culto Ile axe ewe fun mi de tradição
queto, em São Paulo;
2.2. coleta do material
botânico, identificação e conservação
em herbário de referência;
2.3.pesquisa bibliográfica
relacionada à medicina popular, Etnobotânica, Ciências
Sociais e Ciências Médicas e Farmacêuticas, além
de obras cujos autores são pais-de-santo, chefes de casas de culto;
2.4.resultados;
2.5.discussão;
2.6.conclusão.
3. Resultados:
Pesquisas realizadas
na casa de culto Ile axé ewe fun mi, permitiram verificar
que são usadas três espécies de Ipomoea conhecidas
por: gitirana-roxa (I.purpurea (L.) Roth.), gitirana-branca (Ipomoea
alba L.) e salsa-da-praia (I. pes-caprae Sw.).
3.1. Ipomoea
pupurea (L.) Roth.
3.1.1 Descrição:
Trepadeira, com flores violáceas e folhas em forma de coração
(Rizzini & Mors, 1976). Caule alto e piloso, folhas alternas,
pecioladas, cordiformes, agudas ou acuminadas, pubescentes, flores purpúreas,
brancas, violáceas, variegadas, campanuladas, axilares, reunidas
em pedúnculos 3-5 flores (Corrêa, 1926, v.1:209).
3.1.2 Nomes vulgares:
África: morning
glory, pupa (iorubá), ijalapha, ijalamu,
ijalambu
(Zulu)
Bolívia: campanilla,
camotillovioleta,
yeticanu
Brasil: canuto-de-pito,
cariola,
getirana-roxa,
campainha, bons-dias
Cuba: aguinaldo purpúrea
E.U.A: morning glory
3.1.3. Princípios
ativos: Conforme Watt & Breyer-Brandwijk (1962:309), they isolated
4-8 per cent of resin which is the active principle. (...) They,
also, isolated 0,018 per cent of a pale yellow volatile oil with a characteristic
odour, approximately 0,2 per cent of potassium chloride and nitrate, and
a trace of tannin. (...) The plant contains the dihydric alcohol
ipuranol, found also in olive bark. Convolvulin "a colorless amorphous
and purgative glucoside.
3.1.4. Atividade
biológica: Preparations of the plant, therefore, will act
as an excllent purgative but are useless as a specific remedy in syphilis.
It has been suggested that the purgative principle is convolvulin.
(Watt & Breyer-Brandwijk, 1962:309)
Convolvulin - A
colorless amorphous and purgative glucoside from 'jalapa' (Dorland, 1945:366).
Ït is a gummy mass, with active purgative properties (Gould's,
1947: 351)
Pesquisa sobre a presença
de derivados do ácido lisérgico em sementes de espécies
de Ipomoea revelaram teste negativo com I. purpurea, revelando,
todavia, 0,7% em I. tricolor, segundo Hahn (1990:349).
3.1.5. Usos em
rituais afro-brasileiros: No Ilê axé ewe fun mi,
da gitirana-roxa (Ipomoea purpurea (L.) Roth. são empregadas
as sementes as quais são amassadas em água formando uma massa
que deve ser ingerida. É folha do vento, que propicia leveza, quando
a pessoa está deprimida. Usa-se em trabalhos individuais.
Chama-se "pupa" em iorubá. Pertence á divindade Iansã.
3.1.6. Usos na
medicina popular: Pesquisa de campo quanto ao uso de Ipomoeapurpurea
Roth. na medicina popular, verificou seu emprego como purgativo.
Esta espécie pertence
à flora medicinal boliviana, a qual, segundo De Lucca D. & Zalles
A.( 1992:207), Se la usa en infusion como diurética, el
cocimiento en lavajes para detener la hemorragia de las heridas."
Na África is used
by the Zulu as a purgative and as an antisyphilitic. The root and
stem are both used as a pugative by the Zulu (Watt & Breyer-Brandwjik,
1962:309).
3.2. Ipomoeaalba
Linné
3.2.1. Descrição:
Trepadeira
robusta de raízes tuberosas e caules tubérculos na proximidade
dos nós; folhas longo-pecioladas, cordiformes inteiras ou 3-lobadas
ou anguladas ou sinuoso-dentadas, sempre agudas até 15cm de comprimento
e 10cm de largura; flores brancas de 15cm de diâmetro e tubo estreito
de 8cm de comprimento, reunidas em pedúnculo comum de 1-7; fruto
cápsula ovóide-acuminada, de 4cm, geralmente contendo 4 sementes
pretas, bastante duras (Correa, 1926,v.1:309).
3.2.2 Nomes vulgares:
Argentina: bella de noche
Brasil: boa-noite,
coerana,
flor-da-noite
Ceilão: alanga
Cuba: bejuco depuerco,
bejuco
de vaca
Inglaterra: moonflower
Paraguai: isopó-moroti
3.2.3. Princípios
ativos: não encontrados na bibliografia consultada.
3.2.4. Atividade
biológica: não encontradas na bibliografia consultada.
3.2.5. Usos em
rituais afro-brasileiros: Espécie da flor branca de caule com
espinhos verdes e macios, de cuja espécie usa-se a semente preta
e a folha, sendo que esta é macerada em água fria, podendo
ser ingerida ou usada em banho, a fim de propiciar o estado de abertura
da mente, facilitando o transe, segundo o pai-de-santo do Ile axe
ewe fun mi, a casa de culto pesquisada. Chama-se ewe iya
(folha da mãe) e funfun, em iorubá.
3.2.6. Usos na
medicina popular: As sementes foram usadas torradas e reduzida a
pó pelos africanos escravos como sucedâneo do café
(Correa, 1926, v.1:309)
3.3. Ipomoeapes-caprae
(L.) Roth.
3.3.1.Descrição:
Planta
rastera. Las hojas son carnosas suborbiculares con el ápice roído,
de modo que parece bilobada; la base acorazonada; la flor grande, embudada,
purpúrea (Roig y Mesa,1988:189).
3.3.2. Nomes
vulgares:
Brasil: salsa-da-praia,
cipó-da-praia
Cuba: boniato de play
África: Gboroáyábá
(iorubá)
3.3.3. Princípiosativos:
Segundo Watt & Breyer-Brandwijk (1962:309), The leaf, collected
in Florida, U.S.A., contains mucilage, volatile oil, a complex resin, a
fat, a phytosterol, bitter substances and a red pigment but no alkaloid,
glucoside or saponin.
3.3.4. Atividade
biológica: O látex é catártico e as
folhas gozam de reputação como anti-hidrópicas
(Correa, 1926,v.1:309).
3.3.5. Usos nos
rituais afro-brasileiros: No Ile axé ewe fun mi, em São
Paulo, usa-se a folha, devido ao látex de suma importância
para os fins a que se propõem, dentro dos rituais de iniciação.
As folhas são maceradas em água fria e esta, tanto é
bebida como usada em banhos. Seu uso no candomblé pesquisado é
importante durante o processo de iniciação religiosa, tendo
em vista o látex presente nas folhas. É planta pertencente
às santas mulheres, ou seja a todas as Iabás, orixás
femininos.
Salsa-da-praia quer dizer:
"aceite a palavra da mãe"
Nas casas de santo jêje-nagô
em Salvador, Bahia, usa-se a Ipomoea pes-caprae, planta ligada a
todas Ayábá. Esta espécie botânica compreende
uma das 8 folhas fixas utilizadas em banhos, de acordo com o santo que
está sendo feito. As sete outras plantas são: toto
(iorubá) cardamomo Renealmia brasiliensis; Jókòjé
(iorubá) papo-de-peru Aristolochia brasiliensis;
ágbao
(iorubá) umbamba Cecropia palmata; tètèrègún
(iorubá)
cana-de-macaco, Costus spicatu;
rínrín
(iorubá) alfavaquinha-de-cobra
Piperonia pellucida;
ogbó
(iorubá)
orobó GarciniaKola; étiponlá
(iorubá) erva-tostão
Boerhavia hirsuta
(Barros, 1983:114).
Na Casa das Minas, no
Maranhão, esta espécie de Ipomoea faz parte do rol de plantas
sagradas chamadas "aconcône', empregadas em banhos, amassis de purificação
e para forrar o chão do 'pegi' (espaço triangular sagrado),
durante certas cerimônias. (Berg, 1988:485).
3.3.6. Usos na
medicina popular: Na pesquisa de campo foi constatado o uso das folhas
medicinais como purgativo, assim como as folhas trituradas e aplicadas
sobre abscessos, provocam a supuração das mesmas. Seu decócto
é emoliente e vulnerário.
No Pará, Região
Amazônica, são preparados remédios utilizando-se folhas
de Ipomoea pes-caprae para serem aplicados sobre edemas e
contusões, segundo Furtado et alii (1978:20)
Na República Dominicana,
las
hojas se usan como purgantes y vomitivas. Untadas con sebo de Flandes
'abrem los pulmones'. Son también vermífugas y su zumo se
emplea para curar úlceras (Lopez & Llinas & Suarez,
1992:143). Em Cuba se usa al interior en decocción para
combatir las visceralgias; al exterior contra los dolores artríticos.
(Roig & Mesa, 1988:189).
4. Discussão:
Desde o século
XVI é registrada a presença de espécies de Ipomoea
no Brasil, usadas medicinalmente. Segundo Souza (1974), no século
XVI, referindo-se a elas diz: (...) uma herva, que nasce pelos campos
e lança por cima da terra uns ramos como batata (...) que são
maravilhosas para purgar.
Embora a casa de culto pesquisada
se utilize das espécies Ipomoea purpurea, I. alba
e I. pes capre, outras casas em diferentes regiões do Brasil,
se utilizam de outras espécies.
Na Casa das Minas, em São
Luís do Maranhão, também são usadas em rituais
três espécies de Ipomoea, com indicação
de duas fontes de identificação botânica: boa-noite
(I. bona-nox L.) segundo Correa e Convolvulus duartinus, segundo
Rêgo; jalapa (I. jalapa Pursh.) segundo Correa e (Convolvulusoperculatus
L.) segundo Rêgo e salsa-da-praia (I. pes-caprae Sw.),
segundo Fichte (1985:245-6).
Em Pernambuco, conforme Albuquerque
& Andrade (l994), nos rituais afro-brasileiros empregam a espécie
Ipomoeaasarifolia
Roem & Schult., conhecida naquele estado por salsa.
Na Bahia, segundo Barros
(1983), são usadas a Ipomoea salzmanii e a I.batatas.
Na África são
várias as espécies de Ipomoea usadas segundo Verger
(1995:33,179,381) tais como Ipomoea obscura, I. cairica,
I. hederifolia. Cita o exemplo da folha da batata-doce, Ipomoeabatatas
junto com folhas de Vernonia amygdalina e
Plumbagozeglanica
usadas em receita para curar varíola. Essa receita deve ser acompanhada
da seguinte encantação:
A varíola nunca
ousa atingir ewúro.
Kúkúndùkú
nunca se sente quente.
Inábìrì
está sempre fresco e calmo.
Ramon Pardal (1937:328) ao
tratar do ololiuhqui diz que os primeiros cronistas que tiveram
contato com os indígenas do antigo México referem-se ao uso
freqüente de um alucinógeno chamado coatlxoxouhqui ou
ololiuhqui.
Segundo este autor, por
la forma que tuvieron de emplearlo, se deduce que no fué utilizado
como una droga de uso consuetudinario, ni como um estimulante dinamógeno.
Su ingestión tenia como fin principal colocar al sujeto en un estado
especial de espíritu; en trance como diríamos hoy,
para intuir la causa, el diagnóstico y tratamiento de las enfermidades,
o para ejercer la advinación con el objeto de hallar las cosas o
personas extraviadas. La planta que la produce y las semillasque
empleaban eran objeto de veneración y respeto, identificándolas
con un ente divino dotado de poderes. (...) Se discute aún la identificaçión
de la planta a la que pertenecen las semillas que suministran el ololiuhqui.
(...) A mediados del siglo pasado Leonardo Oliva, en su lecciones de Farmacología,
catalogó entre los Convolvulus dentro de las Ipomoea, reconociendo
a la resina que produce, propriedades purgantes, semejantes a la Ipomoeajalapa.
Porém, segundo Amorim
(1974 55), Schultes em 1937, determinou a espécie como sendo Riveacrymbosa
Convolvulaceae. Mas, existe outra espécie de origem mexicana,
a Ipomoea violaceae, relacionada ao "ololiuqyu",
com os mesmos alcalóides.
O pai-de-santo da casa de
culto pesquisada, diz que para a realização do transe é
necessário que a pessoa esteja aberta no seu 'elemi', sua
parte mais profunda, a parte mais escondida onde está seu cerne,
sua essência. As folhas ajudam o homem a se despojar dos elementos
mundanos, teóricos e filosóficos, fazendo a força
do orixá chegar à essência. É lá
que se processa a iniciação. Acrescenta, ainda, que as Ipomoea
são folhas da criação e que põem o homem em
contato com o divino, propiciando, portanto o transe.
Essas observações
do pai-de-santo concordam com o que foi exposto acima, referente aos antigos
indígenas mexicanos, que além de usarem as sementes, tal
como ocorre na casa de culto pesquisada em São Paulo, a planta é
identificada com entidades divinas, ou seja, com os orixás das religiões
de origem e influência africana no Brasil.
Paralelamente, a ação
catártica própria das espécies de Ipomoea têm
valor significativo dentro do pensamento religioso que governa os adeptos,
visto que o indivíduo sob a ação dessas plantas, fica
"limpo de impurezas", propiciando condições físicas
ideais para a aproximação das divindades através do
transe. Nesse sentido e com referência à receita para
varíola usada na África acima citada, pode-se imaginar que
a presença da Ipomoea batatas possa indicar a ação
refrescante, visto que na medicina popular há a diferenciação
entre doenças quentes e frias e são consideradas quentes
as doenças que se manifestam com erupções de pele
com pústulas. Os "intestinos limpos", segundo o pensamento médico
popular, é a base para a cura dessas enfermidades. Este é
um procedimento que foi corrente na medicina do passado, que admitia que
"purgar" era um primeiro passo para se iniciar qualquer terapia, a fim
de debelar um número grande de doenças,
Observa-se que diferentes
espécies de Ipomoea são usadas em rituais de religiões
afro-brasileiras; porém, os autores consultados não dão
informações mais detalhadas quanto à parte da planta
utilizada e em quais situações ritualísticas são
empregadas.
Quanto às espécies
selecionadas para este trabalho, visto serem as usadas na casa de culto
pesquisada, sabe-se que da Ipomoea purpurea (L.) Roth. e
da I. alba L., são usadas as sementes e da Ipomoeapes-caprae
Sw., as folhas, dando-se valor ao látex presente nelas.
Uma análise mais aprimorada
sobre os efeitos dessas preparações à base de semente
e folha se torna difícil devido à escassez de trabalhos científicos
sobre essas espécies, que tratem do assunto.
A única observação
que se pode fazer é que os usuários desses preparados, admitem
a ação catártica dos mesmos, visto ser o objetivo
de seu uso, embora esteja aí, também embutido o valor simbólico
que a planta representa dentro desses sistemas de crença,onde as
plantas são identificadas com divindades, ganhando poderes através
delas.
De outro lado, existe a hipótese
da Ipomoea purpurea Roth. e da I. alba L., conterem
os alcalóides encontrados na Ipomoea violaceae L.,
espécie alucinógena., tal como ocorreu com a Ipomoeabonarienses
Hoocker, da qual foram isolados ergina e isoergina . Segundo Mandrile (1982:3),
que realizou um estudo comparativo entre as sementes da Ipomoeaviolacea
L. e as sementes secas de várias espécies das Ipomoea
que circulam no comércio de Buenos Aires e entre elas estavam as
duas espécies ora em estudo, aquele autor diz que um número
grande delas apresentavam tais alcalóides.
Certamente, podemos admitir
que através da transmissão oral de geração
a geração, o uso dessas espécies de Ipomoea usadas
em rituais religiosos, permite lembrar os costumes de povos antigos, como
os astecas citados acima, os quais admitiam que o efeito da droga visava
o estado ideal de espírito para se alcançar o transe.
Dessa forma, percebe-se que as diferentes espécies usadas nas casas
de culto no Brasil, variam conforme a facilidade em serem adquiridas.
Observa-se, ainda, que o
nome vulgar nos EUA, tanto da Ipomoea violaceae L. como da
Ipomoeapurpurea
(L.) Roth, é "morning glory", podendo-se imaginar
que os efeitos ocorridos com a ingestão de ambas espécies
sejam semelhantes, ou seja, apresentam os mesmos alcalóides, conforme
demonstrou a pesquisa de Mandrile (1982).
5. Conclusão
Com base nos dados coletados
em pesquisa de campo e bibliográfica, pode-se concluir que as diferentes
espécies do gênero Ipomoea usadas nos rituais religiosos
afro-brasileiros, variam segundo as possibilidades de tê-las à
mão com facilidade, visto que sabem que são plantas que agem
como purgativas, o que lhes interessa, pois visam esse efeito. A Ipomoeapes-caprae
L., todavia, foge a essa regra, visto que é sempre necessário
recorrer às regiões litorâneas para se obter exemplares.
Assim, a Ipomoea purpurea (L.) Roth. e a I. alba L.,
segundo o pai-de-santo, são encontradas facilmente, próximas
da casa de culto pesquisada.
Devido à escassez
da bibliografia científica referente aos princípios ativos
e atividades biológicas das espécies em estudo, este trabalho
permitiu apenas uma abordagem quanto à ação purgativa,
comum a várias espécies do gênero Ipomoea.
É possível
concluir que o uso de espécies de Ipomoea remonta a épocas
passadas, usadas por povos primitivos, a exemplo dos antigos astecas citado
acima, que atribuíam poderes sobrenaturais, cujo consumo permitia
estados ideais para a ocorrência do transe, tais como ocorre hoje
na casa de culto pesquisada. À semelhança dos antigos astecas,
o pai-de-santo usa as sementes, além de admitirem serem plantas
identificadas com as divindades cultuadas.
Percebe-se, também,
a influência da medicina erudita de gerações mais antigas
e da medicina popular, sua herdeira, no que se refere ao ato de purgar
o doente, antes de se iniciar qualquer terapia.
Tornam-se pois, necessários
mais estudos científicos sobre as espécies botânicas
popularmente usadas, a fim de possibilitarem melhor análise quanto
aos seus usos na medicina popular e nos rituais afro-brasileiros.
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