Maria Thereza Lemos de Arruda Camargo

 

 

CONTRIBUIÇÃO AO ESTUDO DA Ipomoea purpurea Roth., I. alba L. E  I. pes-caprae Sw.
EMPREGADAS NA MEDICINA POPULAR E EM RITUAIS DE RELIGIÕES DE ORIGEM 
E INFLUÊNCIA AFRICANA NO BRASIL
 

Maria Thereza Lemos de Arruda Camargo
 

Centro de Estudos da Religião  - CER
Departamento de Sociologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da 
Universidade de São Paulo
 
 

VI Simpósio Argentino de Farmacobotanica
I Reunion de Farmacobotanica de Paises integrantes Del Mercosur
Posadas, Missiones, Argentina 1998



 
 
 

Resumo: Em continuidade aos estudos de plantas empregadas em rituais de religiões de origem e influência africana no Brasil, o presente trabalho visa apresentar um estudo sobre Ipomoea purpurea Roth., I. alba Linné, I. pes-caprae Sw., Convolvulaceae. A metodologia empregada baseou-se em pesquisa de campo em candomblé de tradição queto, na cidade de São Paulo, coleta do material botânico, identificação e conservação no Herbário do Departamento de Botânica do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo e no Herbário Etnobotânico do Centro de Estudos da Religião, sediado no Depto.de Sociologia da Universidade de São Paulo, além de pesquisa  bibliográfica referente à medicina popular e aos assuntos relacionados à etnobotânica, antropologia e às ciências médicas e farmacêuticas. A pesquisa indicou o uso de folhas e de sementes nas preparações que são oferecidas aos iniciantes nos sistemas de crença em estudo, a fim de propiciar estados de transe, levando em conta a importância de sua ação catártica. Conclui-se que justificam-se os usos destas espécies botânicas aos fins a que se propõem.O trabalho compreende descrição, nomes vulgares, princípios ativos, atividade biológica, usos e discussão sobre o papel que essas plantas desempenham nos ambientes propostos pela pesquisa, nas circunstâncias em que ocorrem.

 
 
1. Introdução

Já tem sido ressaltada a importância das plantas nas religiões de origem e influência
 Africana no Brasil, visto que a presença delas em qualquer situação de culto é uma obrigação. Cada planta com propriedades específicas podem ser misturadas a outras a fim de se obter preparações, também específicas, tanto para fins medicinais como mágicos.
 

"Na medicina as Convolvulaceae sempre tiveram aplicação.  Muitas são catárticas, outras emolientes e algumas passam por depurativas, sucedâneos da 'salsaparrilha", conforme Hoehne (1939). 
"São numerosas as espécies deste gênero das Convolvulceae que se acham integradas nos jardins do mundo inteiro, e algumas delas provindas do Brasil.  Talvez a mais apreciada seja a Ipomoea purpurea  Roth."(Rizzini & Mors,1976:164) 


Embora várias espécies de Ipomoea sejam empregadas em rituais de religiões afro-brasileiras, o presente trabalho concentra suas atenções no candomblé Ile ewe axe fun mi, de tradição Queto,  em São Paulo,  onde são usadas a Ipomoea purpurea (L.) Roth., I alba L. e I. pes-caprae Sw., visando uma análise relacionada às atividades biológicas decorrentes dos princípios ativos presentes na planta e seu emprego em rituais religiosos.

Sabe-se da importância das plantas e do papel que representam nos sistemas de crenças de origem e influência africana, visto que nessas religiões o transe é elemento primordial além, também de se colocar em destaque seu valor terapêutico, razão de seu uso nos rituais de cura. Ressalta-se aí, o valor que se dá ao estado de corpo e espírito ideal dos mediuns para a ocorrência das incorporações.

Alguns autores se dedicaram ao estudo da classificação e identificação das plantas rituais, segundo o pensamento mágico religioso que envolve essas religiões.
Verger (1968) chegou a classificá-las, segundo suas propriedades, em excitantes e tranqüilizantes, sendo que as primeiras, agindo nos orixás (divindades), de forma a propiciar a possessão e as segundas para abrandar o transe, permitindo, assim, alcançar o equilíbrio durante o mesmo.

Imagem da Ipomea purpuraBarros (1983:111), tratou da identificação das plantas nas religiões afro-brasileiras de tradição jêje-nagô na Bahia, verificando que ela  baseia-se no tamanho, forma, cor, cheiro, textura e habitat.  É o princípio da analogia que norteia os usuários.  Quanto à forma citam-se exemplos da Dracaena fragrans Gaw. e Sansevieria zeilanica Willd., de formas alongadas, própria de objetos cortantes como faca e espada.  Quanto às cores, segundo o autor, a simbologia é ressaltada, citando o exemplo do "algodão" Gossypium sp,  pertencente a Oxalá e o vermelho da Jatropha spp,  pertencentes a Xangô. Acrescenta, ainda, que as cores escuras das folhas ligam-se aos orixás masculinos e as claras às divindades femininas. Referente à textura das folhas, as carnosas, com capacidade de retenção hídrica, estão associadas às divindades femininas ou ao seu esposo mítico comum Oxalá. Folhas enrugadas ou com saliências são atribuídas ao orixá da varíola, Obaluaiê. Os carrapichos pertencem a Oxossi. Pêlos urticantes, espinhos e acúleos, associados ao fogo, pertencem a Xangô e/ou Exu. Relativo ao odor das plantas liberado quando esmagadas entre os dedos, tem-se os adocicados que são propriedade de áyábá, como a "catinga-de-mulata", Tanacetum sp e, ainda, as plantas de odor acre, ligadas aos éborá masculinos, como o "quitoco", Plluchea sp.
Segundo pesquisas efetuadas para a realização deste trabalho verificou-se que outras espécies de Ipomoea são também usadas em rituais afro-brasileiros, tais como: I. carnea Jacq. ssp. fistulosa (Mart. et Choisy) D'Austin, I, bona- nox L e I. salzmanii Choizy.

As Ipomoea spp já eram usadas no Brasil desde o século XVI,  como foi registrado por Souza (l974). Vários autores, oriundos do meio acadêmico, têm se preocupado com as plantas empregadas em rituais afro-brasileiros e sua identificação botânica, tais como: Fichte (1987), Barros(1983), Lody (1979,1992), Albuquerque (1994), Van den Berg (1988), entre outros. Neste sentido, pais-de-santo, chefes de casas de culto, também têm se dedicado à publicações de obras nas quais destacam o papel das plantas rituais, procurando trazer a público sua identificação botânica, sem, contudo, fornecer as fontes de tais informações.  Porém, devemos destacar que essas obras são importantes no sentido de obtermos através delas, mais dados sobre o emprego das plantas nos mais diferentes momentos ritualísticos dos sistemas de crenças de origem e influência africana no Brasil. 

O material botânico coletado para este estudo foi identificado no Laboratório de Sistemática do Departamento de Botânica do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo e acha-se conservado no Herbário do mesmo departamento e no Herbário Etnobotânico do Centro de Estudos da Religião, sediado no Departamento de Sociologia da mesma Universidade.

O presente trabalho visa, portanto, contribuir para um melhor conhecimento de plantas do gênero Ipomoea empregadas na medicina popular e nos rituais afro-brasileiros, tendo em vista a relação entre à atividade biológica a partir dos princípios ativos que a planta encerra e o papel que representam na medicina popular e nos rituais afro-brasileiros.
 

2.Material e método: 

A pesquisa orientou-se pelo seguinte critério metodológico: 

2.1. pesquisa de campo na casa de culto Ile axe ewe fun mi  de tradição queto, em São Paulo;
2.2. coleta do material botânico, identificação e conservação em herbário de referência;
2.3.pesquisa bibliográfica relacionada à medicina popular, Etnobotânica, Ciências Sociais e Ciências Médicas e Farmacêuticas, além de obras cujos autores são pais-de-santo, chefes de casas de culto;
2.4.resultados;
2.5.discussão;
2.6.conclusão.


3. Resultados:

 Pesquisas realizadas na casa de culto Ile axé ewe fun mi, permitiram verificar que são usadas três espécies de Ipomoea conhecidas por: gitirana-roxa (I.purpurea (L.) Roth.), gitirana-branca (Ipomoea alba L.) e salsa-da-praia (I. pes-caprae Sw.). 
 

3.1. Ipomoea pupurea (L.) Roth.
3.1.1 Descrição: Trepadeira, com flores violáceas e folhas em forma de coração (Rizzini & Mors, 1976).  Caule alto e piloso, folhas alternas, pecioladas, cordiformes, agudas ou acuminadas, pubescentes, flores purpúreas, brancas, violáceas, variegadas, campanuladas, axilares, reunidas em pedúnculos 3-5 flores (Corrêa, 1926, v.1:209).
3.1.2 Nomes vulgares
África: morning glory, pupa (iorubá), ijalapha, ijalamu, ijalambu (Zulu)
Bolívia: campanilla, camotillovioleta, yeticanu
Brasil: canuto-de-pito, cariola, getirana-roxa, campainha, bons-dias
Cuba: aguinaldo purpúrea
E.U.A: morning glory 

3.1.3. Princípios ativos: Conforme Watt & Breyer-Brandwijk (1962:309), they isolated 4-8 per cent of resin which is the active principle. (...) They, also, isolated 0,018 per cent of a pale yellow volatile oil with a characteristic odour, approximately 0,2 per cent of potassium chloride and nitrate, and a trace of tannin. (...) The plant contains the dihydric alcohol ipuranol, found also in olive bark.  Convolvulin "a colorless amorphous and purgative glucoside.

3.1.4. Atividade biológica: Preparations of the plant, therefore, will act as an excllent purgative but are useless as a specific remedy in syphilis.  It has been suggested that the purgative principle is convolvulin.  (Watt & Breyer-Brandwijk, 1962:309)
Convolvulin  - A colorless amorphous and purgative glucoside from 'jalapa' (Dorland, 1945:366).  Ït is a gummy mass, with active purgative properties (Gould's, 1947: 351) 
Pesquisa sobre a presença de derivados do ácido lisérgico em sementes de espécies de Ipomoea  revelaram teste negativo com I. purpurea, revelando, todavia, 0,7% em I. tricolor, segundo Hahn (1990:349).
3.1.5. Usos em rituais afro-brasileiros: No Ilê axé ewe fun mi, da gitirana-roxa (Ipomoea purpurea (L.) Roth. são empregadas as sementes as quais são amassadas em água formando uma massa que deve ser ingerida. É folha do vento, que propicia leveza, quando a pessoa está deprimida. Usa-se em trabalhos individuais.  Chama-se "pupa" em iorubá. Pertence á divindade Iansã.
3.1.6. Usos na medicina popular: Pesquisa de campo quanto ao uso de Ipomoeapurpurea Roth. na medicina popular, verificou seu emprego como purgativo. 
Esta espécie pertence à flora medicinal boliviana, a qual, segundo De Lucca D. & Zalles A.( 1992:207),  Se la usa en infusion como diurética, el cocimiento en lavajes para detener la hemorragia de las heridas."
Na África is used by the Zulu as a purgative and as an antisyphilitic.  The root and stem are both used as a pugative by the Zulu  (Watt & Breyer-Brandwjik, 1962:309).
3.2. Ipomoeaalba Linné
3.2.1. Descrição: Trepadeira robusta de raízes tuberosas e caules tubérculos na proximidade dos nós; folhas longo-pecioladas, cordiformes inteiras ou 3-lobadas ou anguladas ou sinuoso-dentadas, sempre agudas até 15cm de comprimento e 10cm de largura; flores brancas de 15cm de diâmetro e tubo estreito de 8cm de comprimento, reunidas em pedúnculo comum de 1-7; fruto cápsula ovóide-acuminada, de 4cm, geralmente contendo 4 sementes pretas, bastante duras (Correa, 1926,v.1:309).
3.2.2 Nomes vulgares:
Argentina: bella de noche
Brasil: boa-noite, coerana, flor-da-noite
Ceilão: alanga
Cuba: bejuco depuerco, bejuco de vaca
Inglaterra: moonflower
Paraguai: isopó-moroti
3.2.3. Princípios ativos: não encontrados na bibliografia consultada.
3.2.4. Atividade biológica: não encontradas na bibliografia consultada.
3.2.5. Usos em rituais afro-brasileiros: Espécie da flor branca de caule com espinhos verdes e macios, de cuja espécie usa-se a semente preta e a folha, sendo que esta é macerada em água fria, podendo ser ingerida ou usada em banho, a fim de propiciar o estado de abertura da mente, facilitando o transe, segundo o pai-de-santo do Ile axe ewe fun mi, a casa de culto pesquisada. Chama-se ewe iya (folha da mãe) e funfun, em iorubá.
3.2.6. Usos na medicina popular: As sementes foram usadas torradas e reduzida a pó pelos africanos escravos como sucedâneo do café (Correa, 1926, v.1:309)
3.3. Ipomoeapes-caprae (L.) Roth.
3.3.1.Descrição: Planta rastera. Las hojas son carnosas suborbiculares con el ápice roído, de modo que parece bilobada; la base acorazonada; la flor grande, embudada, purpúrea (Roig y Mesa,1988:189).
3.3.2. Nomes vulgares:
Brasil: salsa-da-praia, cipó-da-praia
Cuba: boniato de play
África: Gboroáyábá (iorubá)
3.3.3. Princípiosativos: Segundo Watt & Breyer-Brandwijk (1962:309), The leaf, collected in Florida, U.S.A., contains mucilage, volatile oil, a complex resin, a fat, a phytosterol, bitter substances and a red pigment but no alkaloid, glucoside or saponin.
3.3.4. Atividade biológica: O látex é catártico e as folhas gozam de reputação como anti-hidrópicas (Correa, 1926,v.1:309). 
3.3.5. Usos nos rituais afro-brasileiros: No Ile axé ewe fun mi, em São Paulo, usa-se a folha, devido ao látex de suma importância para os fins a que se propõem, dentro dos rituais de iniciação.  As folhas são maceradas em água fria e esta, tanto é bebida como usada em banhos. Seu uso no candomblé pesquisado é importante durante o processo de iniciação religiosa, tendo em vista o látex presente nas folhas.  É planta pertencente às santas mulheres, ou seja a todas as Iabás, orixás femininos.
Salsa-da-praia quer dizer: "aceite a palavra da mãe"
Nas casas de santo jêje-nagô em Salvador, Bahia, usa-se a Ipomoea pes-caprae, planta ligada a todas Ayábá. Esta espécie botânica compreende uma das 8 folhas fixas utilizadas em banhos, de acordo com o santo que está sendo feito. As sete outras plantas são: toto (iorubá) cardamomo Renealmia brasiliensis; Jókòjé (iorubá) papo-de-peru Aristolochia brasiliensis; ágbao (iorubá) umbamba Cecropia palmata; tètèrègún (iorubá) cana-de-macaco, Costus spicatu; rínrín (iorubá) alfavaquinha-de-cobra Piperonia pellucida; ogbó (iorubá) orobó GarciniaKola; étiponlá (iorubá) erva-tostão Boerhavia hirsuta  (Barros, 1983:114).
Na Casa das Minas, no Maranhão, esta espécie de Ipomoea faz parte do rol de plantas sagradas chamadas "aconcône', empregadas em banhos, amassis de purificação e para forrar o chão do 'pegi' (espaço triangular sagrado), durante certas cerimônias. (Berg, 1988:485).
3.3.6. Usos na medicina popular: Na pesquisa de campo foi constatado o uso das folhas medicinais como purgativo, assim como as folhas trituradas e aplicadas sobre abscessos, provocam a supuração das mesmas. Seu decócto é emoliente e vulnerário. 
No Pará, Região Amazônica, são preparados remédios utilizando-se folhas de Ipomoea pes-caprae para serem aplicados sobre edemas e contusões, segundo Furtado et alii (1978:20)
Na República Dominicana, las hojas se usan como purgantes y vomitivas.  Untadas con sebo de Flandes 'abrem los pulmones'. Son también vermífugas y su zumo se emplea para curar úlceras (Lopez & Llinas & Suarez, 1992:143).  Em Cuba se usa al interior en decocción para combatir las visceralgias; al exterior contra los dolores artríticos. (Roig & Mesa, 1988:189).


4. Discussão:

 Desde o século XVI é registrada a presença de espécies de Ipomoea no Brasil, usadas medicinalmente.  Segundo Souza (1974), no século XVI, referindo-se a elas diz: (...) uma herva, que nasce pelos campos e lança por cima da terra uns ramos como batata (...) que são maravilhosas para purgar.

Embora a casa de culto pesquisada se utilize das espécies Ipomoea purpurea, I. alba e I. pes capre, outras casas em diferentes regiões do Brasil, se utilizam de outras espécies.

Na Casa das Minas, em São Luís do Maranhão, também são usadas em rituais três espécies de Ipomoea, com indicação de duas fontes de identificação botânica:  boa-noite (I. bona-nox L.) segundo Correa e Convolvulus duartinus, segundo Rêgo; jalapa (I. jalapa Pursh.) segundo Correa e (Convolvulusoperculatus L.) segundo Rêgo  e salsa-da-praia  (I. pes-caprae Sw.), segundo Fichte (1985:245-6).

Em Pernambuco, conforme Albuquerque & Andrade (l994), nos rituais afro-brasileiros empregam a espécie Ipomoeaasarifolia Roem & Schult., conhecida naquele estado por salsa.

Na Bahia, segundo Barros (1983), são usadas a Ipomoea salzmanii e a I.batatas.

Na África são várias as espécies de Ipomoea usadas segundo Verger (1995:33,179,381) tais como Ipomoea obscura, I. cairica, I. hederifolia. Cita o exemplo da folha da batata-doce, Ipomoeabatatas junto com folhas de Vernonia amygdalina e Plumbagozeglanica usadas em receita para curar varíola. Essa receita deve ser acompanhada da seguinte encantação: 

A varíola nunca ousa atingir ewúro.
Kúkúndùkú nunca se sente quente.
Inábìrì está sempre fresco e calmo.

Ramon Pardal (1937:328) ao tratar do ololiuhqui diz que os primeiros cronistas que tiveram contato com os indígenas do antigo México referem-se ao uso freqüente de um alucinógeno chamado coatlxoxouhqui ou ololiuhqui.

Segundo este autor, por la forma que tuvieron de emplearlo, se deduce que no fué utilizado como una droga de uso consuetudinario, ni como um estimulante dinamógeno.  Su ingestión tenia como fin principal colocar al sujeto en un estado especial de espíritu; en trance  como diríamos hoy, para intuir la causa, el diagnóstico y tratamiento de las enfermidades, o para ejercer la advinación con el objeto de hallar las cosas o personas extraviadas.  La planta que la produce y las semillasque empleaban eran objeto de veneración y respeto, identificándolas con un ente divino dotado de poderes. (...) Se discute aún la identificaçión de la planta a la que pertenecen las semillas que suministran el ololiuhqui. (...) A mediados del siglo pasado Leonardo Oliva, en su lecciones de Farmacología, catalogó entre los Convolvulus dentro de las Ipomoea, reconociendo a la resina que produce, propriedades purgantes, semejantes a la Ipomoeajalapa.

Porém, segundo Amorim (1974 55), Schultes em 1937, determinou a espécie como sendo Riveacrymbosa Convolvulaceae. Mas, existe outra espécie de origem mexicana,  a Ipomoea violaceae, relacionada  ao "ololiuqyu", com os mesmos alcalóides. 

O pai-de-santo da casa de culto pesquisada, diz que para a realização do transe é necessário que a pessoa esteja aberta no seu 'elemi', sua parte mais profunda, a parte mais escondida onde está seu cerne, sua essência. As folhas ajudam o homem a se despojar dos elementos mundanos, teóricos e filosóficos, fazendo a força do orixá chegar à essência.  É lá que se processa a iniciação. Acrescenta, ainda, que as Ipomoea são folhas da criação e que põem o homem em contato com o divino, propiciando, portanto o transe.

Essas observações do pai-de-santo concordam com o que foi exposto acima, referente aos antigos indígenas mexicanos, que além de usarem as sementes, tal como ocorre na casa de culto pesquisada em São Paulo, a planta é identificada com entidades divinas, ou seja, com os orixás das religiões de origem e influência africana no Brasil.

Paralelamente, a ação catártica própria das espécies de Ipomoea têm valor significativo dentro do pensamento religioso que governa os adeptos, visto que o indivíduo sob a ação dessas plantas, fica "limpo de impurezas", propiciando condições físicas ideais para a aproximação das divindades através do transe.  Nesse sentido e com referência à receita para varíola usada na África acima citada, pode-se imaginar que a presença da Ipomoea batatas possa indicar a ação refrescante, visto que na medicina popular há a diferenciação entre doenças quentes e frias e são consideradas quentes as doenças que se manifestam com erupções de pele com pústulas. Os "intestinos limpos", segundo o pensamento médico popular, é a base para a cura dessas enfermidades. Este é um procedimento que foi corrente na medicina do passado, que admitia que "purgar" era um primeiro passo para se iniciar qualquer terapia, a fim de debelar um número grande de doenças,

Observa-se que diferentes espécies de Ipomoea são usadas em rituais de religiões afro-brasileiras; porém, os autores consultados não dão informações mais detalhadas quanto à parte da planta utilizada e em quais situações ritualísticas são empregadas. 

Quanto às espécies selecionadas para este trabalho, visto serem as usadas na casa de culto pesquisada, sabe-se que da Ipomoea purpurea (L.) Roth. e da I. alba L., são usadas as sementes e da Ipomoeapes-caprae Sw., as folhas, dando-se valor ao látex presente nelas. 

Uma análise mais aprimorada sobre os efeitos dessas preparações à base de semente e folha se torna difícil devido à escassez de trabalhos científicos sobre essas espécies, que tratem do assunto.

A única observação que se pode fazer é que os usuários desses preparados, admitem a ação catártica dos mesmos, visto ser o objetivo de seu uso, embora esteja aí, também embutido o valor simbólico que a planta representa dentro desses sistemas de crença,onde as plantas são identificadas com divindades, ganhando poderes através delas.

De outro lado, existe a hipótese da Ipomoea purpurea Roth. e da I. alba L., conterem os alcalóides encontrados na Ipomoea violaceae L., espécie alucinógena., tal como ocorreu com a Ipomoeabonarienses Hoocker, da qual foram isolados ergina e isoergina . Segundo Mandrile (1982:3), que realizou um estudo comparativo entre as sementes da Ipomoeaviolacea L. e as sementes secas de várias espécies das Ipomoea que circulam no comércio de Buenos Aires e entre elas estavam as duas espécies ora em estudo, aquele autor diz que um número grande delas apresentavam tais alcalóides.
Certamente, podemos admitir que através da transmissão oral de geração a geração, o uso dessas espécies de Ipomoea usadas em rituais religiosos, permite lembrar os costumes de povos antigos, como os astecas citados acima, os quais admitiam que o efeito da droga visava o estado ideal de espírito para se alcançar o transe.   Dessa forma, percebe-se que as diferentes espécies usadas nas casas de culto no Brasil, variam conforme a facilidade em serem adquiridas.

Observa-se, ainda, que o nome vulgar nos EUA, tanto da Ipomoea violaceae L. como da Ipomoeapurpurea (L.) Roth, é "morning glory", podendo-se imaginar que os efeitos ocorridos com a ingestão de ambas espécies sejam semelhantes, ou seja, apresentam os mesmos alcalóides, conforme demonstrou a pesquisa de Mandrile (1982). 

5. Conclusão

Com base nos dados coletados em pesquisa de campo e bibliográfica, pode-se concluir que as diferentes espécies do gênero Ipomoea usadas nos rituais religiosos afro-brasileiros, variam segundo as possibilidades de tê-las à mão com facilidade, visto que sabem que são plantas que agem como purgativas, o que lhes interessa, pois visam esse efeito. A Ipomoeapes-caprae L., todavia, foge a essa regra, visto que é sempre necessário recorrer às regiões litorâneas para se obter exemplares. Assim, a Ipomoea purpurea (L.) Roth. e a I. alba L., segundo o pai-de-santo, são encontradas facilmente, próximas da casa de culto pesquisada.

Devido à escassez da bibliografia científica referente aos princípios ativos e atividades biológicas das espécies em estudo, este trabalho permitiu apenas uma abordagem quanto à ação purgativa, comum a várias espécies do gênero Ipomoea.

É possível concluir que o uso de espécies de Ipomoea remonta a épocas passadas, usadas por povos primitivos, a exemplo dos antigos astecas citado acima, que atribuíam poderes sobrenaturais, cujo consumo permitia estados ideais para a ocorrência do transe, tais como ocorre hoje na casa de culto pesquisada. À semelhança dos antigos astecas, o pai-de-santo usa as sementes, além de admitirem serem plantas identificadas com as divindades cultuadas.

Percebe-se, também, a influência da medicina erudita de gerações mais antigas e da medicina popular, sua herdeira, no que se refere ao ato de purgar o doente, antes de se iniciar qualquer terapia.

Tornam-se pois, necessários mais estudos científicos sobre as espécies botânicas popularmente usadas, a fim de possibilitarem melhor análise quanto aos seus usos na medicina popular e nos rituais afro-brasileiros.
 

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