colonização portuguesa nos séculos XVI e XVII deixou
profundas marcas nas práticas médica populares do Brasil
de hoje. A medicina era exercida pelos físicos, cirurgiões
e barbeiros, como foram denominados aqueles que sabiam curar e sangrar
e estes eram poucos, de condições humildes e de pouca instrução,
permitindo, assim a proliferação do curandeirismo.
Os abusos foram tais que em Piratininga nomeou-se um juiz de ofícios
dos físicos, o barbeiro António Rodrigues (Farina,
1981:41). Sem sua licença ou carta de examinação ninguém
podia curar ou sangrar. Mesmo assim leigos continuaram a exercer o ofício.
Todos esses profissionais praticavam uma medicina impregnada de espírito
de religiosidade marcada pela fé cristã, tal como era em
Portugal e em outros países da Europa medieval, quando a medicina
era ensinada nos conventos e onde, também, os livros médicos
eram escritos. Daí a permanência até hoje na medicina
popular a nomenclatura relativa aos órgãos humanos, tais
como: bucho (intestino), goela (garganta), bofe (pulmão).
Em Anatomista popular: um estudo de caso, (Ibáñes-Novión,
1978:87) em uma pesquisa realizada em Minas Gerais, destaca partes do corpo
humano com a mesma nomenclatura acima referida. No século XVIII
o médico Francisco de Mello Franco condenava o uso de enfaixar bebês,
principalmente meninas, imaginando que as mesmas teriam a cintura fina.
O referido médico dizia que apertando o peito, o bofe não
se pode dilatar perfeitamente (...). (Herson,
1996:220)
Os bofes de raposa
tem grande virtude para curar asma.
O pó do
intestino e o excremento do lobo é excelente remédio nas
cólicas ordinárias.
Caganitas de ratos pizadas
com ortigas e algum assucar e beber hua xicara piquena, para quem deyta
sangue pela boca.
O esterco de rato em pó
é admirável para dores de cólica.
Essas são receitas entre
muitas outras que estavam no século XVIII presentes nas famosas
obras divulgadas em Portugal, quais sejam: A Polyanthea Medicinal,
Notícias
Galênicas e Chymicas e as Observaçoens Medicas Doutrinaes
de cem casos gravissimos (...) de João Semedo. (Santos,1992:13-40)
Mário
de Andrade (1939) se ocupou da medicina dos excretos. Sobre a urina,
citando Malhado Filho (1933) faz referência à ação
curativa bastante aceita em Portugal do século XVIII quando era
comum o uso da Essência de Urina. O autor refere-se,
também, ao Parnassus Medicalis no século XVII o qual
afirmava que se tendo urina de gente em casa, pode-se passar muito bem
sem o resto dos remédios da botica.
Comenta, ainda, que o uso
da urina estava nos livros de medicina divulgados pelo dr. Francisco da
Fonseca Henriques Trasmontano, médico de D.João V, nos quais
indicava a urina do enfermo na cura do mau olhado além do jasmim
de cachorro (excremento seco de cachorro) nas doenças mais
fisiológicas.
Pesquisa realizada em Ibiúna,
SP com informantes nordestinos apontou o uso de urinar sobre ferimentos
nos pés com instrumentos agrícolas durante trabalhos no campo.
A "Matéria Médica
Indígena", além dos vegetais empregavam sangue humano,
saliva, urina, cauda e cabeça de cobra, gorduras de animais, bicos
de aves, chifres e ossos calcinados, entre outros. O sangue era reconstituinte,
a saliva cicatrizantes, a urina excitante e vomitiva. (Santos
Filho, 1947:12)
Com o exposto acima, observa-se
a participação tanto portuguesa como indígena na preservação
de práticas médicas ligadas aos excretos.
Purgar e sangrar eram os
procedimentos comuns do Brasil no século XVI. Anchieta quando de
sua permanência em São Vicente e em Piratininga, relata em
carta, (Leite, 1954, v.2:159-61), que serviu de médico,
barbeiro, curando e sangrando índios e aplicando emplastros, além
de levantar espinhelas e preparar mezinhas.
Era preocupação
dos jesuítas a salvação da alma pelo batismo.
Muitos
dos profissionais que vieram para o Brasil eram de ascendência judaica
e chegaram como cristãos novos, pois era comum aderirem à
vida religiosa dos mosteiros, a fim de se protegerem da Inquisição.
Porém, esses médicos tinham idéias religiosas que
contrariavam o pensamento da igreja católica. Enquanto esta
admitia que a doença era castigo divino e que o homem não
podia intervir nos desígnios de Deus sem autorização
prévia dos clérigos, enquanto os médicos judeus julgavam
que a arte de curar era dom divino, sendo pois, dever religioso curar os
doentes. As disputas entre a Igreja e os rabinos foram intensas.
Discutia-se quanto o homem tem o direito de intervir na doença,
visto que a Igreja admite ser castigo de Deus, por seus pecados.
Antes de se iniciar qualquer tratamento era necessário ouvir um
conselho eclesiástico. Se o doente até o 3º dia
não se confessasse a um padre, o médico era obrigado a interromper
o tratamento sob pena de castigo de perder o direito de exercer a medicina.
Os médicos judeus
gozavam de alta reputação devido à sua fama de eruditos,
além de se empenharem em serem respeitados pela sua capacidade de
curar, embora fossem caluniados e perseguidos. O sucesso da medicina judaica,
segundo a Igreja era atribuída à obra do demônio.
Muitos médicos judeus vieram fugidos da Inquisição,
pois não podiam mais exercer a profissão em Portugal devido
ao decreto de 1671, quando El Rei determinou a proibição
sob pena de morte.(Herson:1996:75-7,107).
Era esse o panorama médico
nos primeiros tempos de colonização no Brasil.
A medicina popular de hoje
continua a apoiar-se na fé religiosa que reforça o sentimento
de culpa e do castigo divino, quando diante de problemas de saúde.
As terapias adotadas são sempre acompanhadas de orações,
penitências, promessas, visando o merecimento da graça da
cura.
Podemos observar no Brasil,
a proximação da medicina popular com os mais diferentes sistemas
de crenças. Entre as formas adotadas para a realização
das curas, estão os procedimentos de carater mágico religioso,
a fim de reforçarem as terapias adotadas.
Essa religiosidade presente
na medicina popular deve-se em parte à herança portuguesa
dos primórdios do Brasil, a qual trouxe a crença nas curas
milagrosas através da intercessão de santos católicos
junto aos poderes de Deus. Como diz Santos (1992:3)
sobre a medicina em Portugal do século das luzes estava incrivelmente
agarrada a práticas e superstições ancestrais, algumas
bem obscurantistas e, segundo o autor, se o século XVIII
foi uma época de luzes, tentando impor a razão, foi ao mesmo
tempo a época das trevas, confundindo-se religião com ciência,
conforme mostram receitas médicas indicadas para as doenças
correntes. Era uma medicina que recorria aos santos advogados e estes
eram tantos que havia no século XVIII em Portugal, um catálogo
elucidativo com os males do corpo e do espírito e os santos advogados
em número de 80. E dessa tradição portuguesa
herdamos a crença em santos cuja orações a eles dedicadas
são comuns no Brasil, a exemplo da reza a São Bento para
proteger de picada de cobra, como registra Araújo
(1961:258):
São Bento,
Água benta,
Jesus Cristo no Altar,
abri esses caminhos
que neles quero passar.
Santa Luzia também
catalogada em Portugal no século XVIII protetora dos olhos está,
também no Brasil presente em rezas tal como informa Langowiski
(1973:94)
Santa Luzia passai
por aqui,
com seu cavalinho comendo
capím,
sangue de Cristo, pingai
aqui.
E, ainda, registrada
por
Campos (1955:180)
Corre, corre,
cavaleiro
Pela porta de São
Pedro
Vai dizer a Santa Luzia
Que me mande o lenço
branco
Pra tirar esse argueiro
Nessa medicina de cunho
religioso, são comuns os passes, orações, além
de bentinhos, medalhas, patuas, crucifixos, escapulários colocados
junto aos doentes, citando alguns exemplos.
As rezas para reforçarem
as curas são uma constante nas práticas médicas das
benzedeiras e curandeiros, em nossos dias.
Cita-se a seguinte
reza para curar cobreiro:
Em nome de Deus
eu curo
Cobreiro brabo
Corto cabeça e
rabo
Segundo a bibliografia
consultada, a primeira referência à cura do cobreiro
no Brasil liga-se à forma religiosa acrescida de medicação
tópica indicada por Anchieta: "(...) a doença perigosa,
que alguns chamam de santo Antão, outros de cobrelo(...), mandou
o irmão lavar-se com água-da-fonte milagrosa que ali está
e acabado de laver-se (cousa maravilhosa) de improviso ficou não
só sem dor, mas sem sinal ou resto do mal (...) Camargo
(1998:175), citando Vasconcelos (1943:47)
A água-da-fonte
era empregada nas receitas portuguesas do século XVI, conforme Amato
Lusitano (s/d,v.3:12), para curar pleurite, também conhecida por
exquisita. "Amato Lusitano ou João Rodrigues de Castelo Branco,
judeu perseguido, o maior médico do Quinhentos, autor das Centúrias,
naturalista e comentador dos clássicos, professou Anatomia em Ferrara".(Farina,
1979:67)
A água da fonte
era indicada possivelmente por conter menos impureza do que água
armazenada.
No interior do Estado de
São Paulo, na zona rural da região de Ibiúna, área
pesquisada, predominam curadores que benzem e rezam, práticas essas
ligadas a um catolicismo que se popularizou através das crenças
nas forças protetoras de santos católicos.
Os benzimentos, que geralmente
acompanham as oraçôes, transformaram algumas plantas introduzidas
no Brasil pelos portugueses em instrumentos de valores mágicos
Alguns rezadores acompanham a reza com um raminho verde de preferência
arruda ou alecrim.
As terapias nos primórdios
do Brasil eram praticamente as mesmas adotadas em Portugal, onde as plantas
desempenhavam importante papel na preparação dos remédios.
Os jesuítas as conheciam muito bem, visto que mantinham boticas
onde atendiam aos doentes e forneciam-lhes as plantas, quase todas vindas
de Portugal. Dentre essas plantas estavam: manjericão, salsa,
arruda, bredo, hortelã, coentro, beringela, alho, ervilha, lentilha,
pepino, melão. (França, 1929)
Com as dificuldades que tinham
para receber tais plantas, visto que as viagens levavam muito tempo, eles
passaram a substituí-las por plantas indígenas, pois de seu
contato com os indígenas, a qual já vinha se processando,
muito foi sendo aprendido e, assim, muitas plantas nativas foram incorporadas
às coleções mantidas nas boticas. Dos índios
aprenderam o emprego de infinitas ervas medicinais, cujas virtudes ensinaram,
aos outros jesuítas dos 180 colégios, dos 90 seminários,
das 160 residências, quantos havia, espalhados pelo mundo, no fim
do século XVII. (Calmon, 1935:122)
Acrescenta este autor que foi em São Paulo onde os jesuítas
cultivaram as espécies indígenas ao lado das exóticas
trazidas da Europa, procurando aclimatá-las no novo habitat.
Era
conhecida a "Caixa de botica", arca de madeira que continha as drogas.
O cirurgião barbeiro e o aprendiz de boticário que chegaram
com os primeiros colonizadores trouxeram essas caixas e os jesuítas
também. O aprendiz virou boticário com sua loja e os
jesuítas carregavam consigo nos trabalhos de catequese. As boticas
vendiam 'mesinhas' e concorriam com as lojas de barbeiros. Os jesuítas
eram autores de fórmulas secretas preparadas com produtos da terra,
tendo ficado famosa a "Coleção de receitas" e a "Teriaga
Brasílica", composta de 56 substâncias, as quais foram arroladas
entre os bens dos jesuítas quando de sua expulsão do Brasil
em 1760. Não menos famosa foi a coleção de receitas
publicada com o nome de "Purchas", a qual continha receitas do Irmão
Manuel Tristão, enfermeiro do colégio da Bahia. Foi
através dessa publicação que a ipecacuanha tornou-se
conhecida. (Santos Filho, 1947:27,31)
Os próprios médicos
apesar do alvará real de 1561 proibir-lhes de preparar e vender
drogas, até o fim do século passado, principalmente no interior
do pais, eles manipulavam e vendiam suas receitas.
Conforme Calmon
(1935:115), um ano após a fundação de São Paulo,
citando Leite (1934), Anchieta avisava: "Temos uma grande escola de
meninos índios, bem instruídos em leitura, escrita e em bons
costumes, os quais abominam os usos de seus progenitores". Assim, irradiou
pelo planalto a instrução através dos cânones
do vernáculo, ensinando os filhos dos índios a ler, escrever,
contar e falar português, incluindo, certamente, novos costumes,
fazendo com que os meninos repudiassem suas tradições indígenas,
como sugere o aviso de Anchieta, acima referido.
Aqueles primeiros jesuítas
que vieram para o Brasil, ao lado do trabalho de catequese, desempenharam
funções de médico ao lado dos outros profissionais.
As terapias adotadas pelos
colonos e mesmo pelos jesuítas eram exatamente aquelas adotadas
em Portugal, acrescidas de umas práticas indígenas, às
quais os portugueses aderiram, principalmente quanto ao uso das plantas
nativas desconhecidas dos europeus.
Quanto à dietética,
voltada aos alimentos, deve-se a Galeno de Pérgamo (131-200 d.c.)
uma obra sistemática e canonizadora dos conhecimentos médicos
da época, então desorganizados devido a profusão de
escolas e a falta de uma base comum. Escreveu vários livros, entre
eles aqueles que tratavam sobre as faculdades dos purgantes, sobre as faculdades
e temperamentos dos medicamentos simples, mostrando uma diferença
entre fármaco e alimento, mantidas pouco claras desde os hipocráticos.
Tratou das faculdades dos bons e maus humores dos alimentos. Sobre o exame
dos médicos Galeno diz: Consideramos um médico experimentado,
hábil e científico aquele que é capaz de curar com
dieta e drogas as doenças que os cirurgiões tratam mediante
a excisão. (História do medicamento,
1993:57)
Podemos observar ainda hoje
na medicina popular no Brasil, os humores relacionados aos alimentos através
dos tabus alimentares voltados ao quente e frio.
Pesquisa em São Paulo
com imigrantes nordestinos, constatou que permanecem, ainda, a crença
na nocividade dos alimentos quentes e frios conforme são os estados
de saúde das pessoas. Quando o indivíduo está febril
não deve consumir alimentos considerados frios, à base de
peixe, ovo, ou tudo que se come cru, como verduras e frutas, principalmente
a melancia que é reimosa. Perguntado o que seria reimoso, disseram
tratar-se de tudo que dá em rama, como melancia, feijão de
corda, abóbora, etc. e que "ofende" o doente. Segundo eles, carne
de porco, de peixe, de boi e mocotó são também alimentos
frios. A carne de vaca é quente. Também não
se dá ao doente carne de frango de granja que é reimoso e
sim, carne de galinha criada em casa.Assim, reimoso acaba tendo um significado
mais genérico lembrando tudo que faz mal, numa determinada situação
de desordem na fisiologia do corpo humano.
Maués
(1980:17) em pesquisa realizada em Itapuã, Pará, diz que
"A referência aos humores é frequente quando se trata a
respeiro das causas das doenças naturais. Existe uma crença
geral de que uma pessoa só pode ser atingida por uma doença
natural se estiver com os 'humores ruim'. Segundo o autor humores
ruim pode ser o mesmo que sangue ruim, o que faz com que o corpo
fique quente. Este autor, citando Peirano (1975:29),
diz que foi constatada em pesquisa no litoral do Ceará, de dois
tipos de fenômenos, os quais denominou de quente-frio térmico
e
quente-frio
qualidade. Quente-frio térmico liga-se à temperatura
real dos alimentos e quente-frio qualidade independe das condições
reais de temperatura dos mesmos. Comer ou beber alimento frio depois de
um quente ou pisar no frio, assim como sair na chuva depois de ingerir
um alimento quente pode causar congestão.
É importante destacar
em toda a história da medicina popular no Brasil os procedimentos
médicos de carater mágico-religioso nas práticas de
cura que trazem em seu bojo certos traços da feitiçaria européia
que remontam ao período medieval.
Certamente, com as perseguições
impostas pela Inquisição as fugas para o Brasil propiciaram
a introdução de práticas de feitiçaria, então
em voga na Europa do século XVI, fazendo com que tais práticas
passassem a ser conhecidas das populações das localidades
para onde os fugitivos passavam a residir.
No Brasil, durante o século
XVI o pinhão substituia a avelã européia conforme
confissão durante a 1ª Visitação do Santo Ofício
na Bahia, quando a confessante dizia ter aprendido preparar através
de complicado ritual, um pó feito com 3 pinhões, que reduzidos
a pó era dada à pessoa à qual a feitiçaria
era dirigida.
Hoje encontramos as mais
variadas fórmulas secretas de preparação de pós
usados para os mais variados fins, inclusive para causar doenças,
comuns à venda em mercados e lojas de material religioso no Brasil.
A própria medicina
popular voltada a práticas religiosas ditadas pelo cristianismo
do século XVI, presente em Portugal na época do descobrimento
do Brasil, invocando santos protetores a fim de intercederem nas curas
das mais diversas doenças, mantém ainda vivas tais práticas
entre os brasileiros de hoje, não obstante, mantendo também
vivo o ato de recorrer aos intercessores terrestres, como diz Santos
(1992:6) "os feiticeiros, os bruxos, os próprios curandeiros
- que ao uso de certos produtos naturais, manipulados com maior ou menor
dose de perícia, juntavam benzeduras, orações, gestos
exóticos que constituíam o ritual indispensável à
libertação do mal, físico ou psíquico.
As plantas originárias
da Europa, principalmente da Região Mediterrânea, introduzidas
no Brasil pelos portugueses, foram ganhando tal aceitação
a ponto de hoje fazerem parte do universo mágico religioso dos sistemas
de crenças de origem e influência africana, onde desempenham
papel sacral e terapêutico, além de terem seu espaço
garantido no panteão das divindades que regem as religiões
afro-brasileiras. Dentre essas plantas estão o alecrim, arruda,
alfazema, manjericão, entre muitas outras. São plantas
que em Portugal, além de desempenharem seu papel terapêutico,
faziam parte do universo mágico da feitiçaria européia
do século XVI e que hoje no Brasil transformaram-se em símbolos
de valor sacral junto às divindades das religiões afro-brasileiras.
Foram os negros, evidentemente,
que influenciaram tais transformações, pois sendo grandes
conhecedores das plantas rituais e de poderes mágicos, facilmente
absorveram os conhecimentos sobre as plantas trazidas pelos portugueses
e as incorporaram em seu universo mágico-religioso.
Nina
Rodrigues (1935) dizia que o negro empregava a magia imitativa como
as bruxas da Idade Média, crivando um objeto com furos para que
a pessoa a ser atingida sofresse dores, como também a magia contagiosa,
bastando tocar o fetiche para a doença tomar a pessoa.Essas
práticas são comuns hoje no Brasil.
No século XVIII, em
Portugal, num depoimento no Tribunal do Santo Ofício, segundo Rêgo
(1981: 19, 114), a ré diz ter sido levada pelo demônio
à casa de uma mulher a qual lhe ensinara a fazer as papas para matar
crianças, que matou e chupou (...) que umas suas amigas e mestras
lhe deram um boneco de cortiça cravado de alfinetes, ensinando-lhe,
e estivesse sempre pisando para matar a certa pessoa. Os depoimentos
apontam, também o emprego de pós, já referidos conforme
um relato, segundo o qual o demônio ia deitando pela casa uns
pós que fazia e levava, os quais faziam adormecer a gente, de sorte
que que não acordava tão facilmente.
A medicina popular e os procedimentos
por ela adotados segundo as diferentes culturas às quais se prendem,
percorrem através do tempo variados caminhos que em determinados
momentos se cruzam e se amalgamam para tomarem feições novas.São
transformações perceptíveis pelas quais a medicina
popular vem passando, embora conservando elementos oriundos de uma medicina
ancestral trazida com os conquistadores, que mesmo já estando vivendo
um período renascentista, conservava traços de uma cultura
medieval, os quais, atravessando todos esses séculos, permanecem
vivos na medicina popular do Brasil de hoje.
Em nosso País, várias
culturas se cruzaram, porém, destacam-se aquelas que deixaram marcas
indeléveis na fisionomia da medicina popular brasileira desde seu
descobrimento, quais sejam: a cultura européia representada pelos
portugueses, assunto tratado nesta conferência, a cultura indígena,
representada pelos legítimos donos da então terra conquistada
e a cultura negra trazida com o tráfico de escravos, desde os primórdios
de sua colonização.
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