O Bálsamo de Ferrabrás
Maria Thereza Lemos de Arruda
Camargo
elo
livro História de Carlos Magno e dos Doze Pares de França
que tanto tempo circulou pelo Nordeste, inspirando cantores e poetas populares
que poetizaram capítulos como, Prisão de Oliveiros,
Batalha
de Carlos Magno em Malaco, rei de Fez, O cavaleiro Roldão,
Roldão
no Leão de Ouro, Traição de Gala e a
morte dos doze pares de França, ofereceu a Leandro Gomes de
Barros tema para o poema A Batalha de Oliveiros com Ferrabrás.
No capítulo II, A fé de Carlos Magno, as batalhas e façanhas
dos doze pares de França, que culminaram com a completa derrota
e morte do Almirante Balão, narra-se a batalha travada entre
Oliveiros e Ferrabrás que o poeta aproveitou quase integralmente,
conforme se observa, quando comparados trechos do capítulo com versos
do poema. Sobre o assunto, deve ser lembrado o trabalho realizado
por Sebastião Nunes Pereira (1:143) que trata de
um estudo comparativo relacionado ao mesmo poema e o texto em prosa encontrado
no livro de Carlos Magno. Focalizarei neste trabalho o episódio
da apreensão do bálsamo milagroso que estava em poder de
Ferrabrás, o uso que dele fez Oliveiros, curando-se e vencendo a
batalha com o mouro. Como se sabe, o poema relata como o destemido
turco Ferrabrás, rei de Alexandria e filho do almirante Balão,
procura um rei para pelejar. Sabendo que corria pela Europa a fama
de Carlos Magno e seus doze pares , como valentes guerreiros, com insultos
e menosprezo propõe ao imperador um desafio para pôr em prova
que era o mais forte, pois julgava capaz de, sozinho, ir contra o exército
francês. Carlos Magno manda Roldão, mas este se recusa
a ir. Então, vai Oliveiros que, embora ainda muito ferido
em conseqüência das últimas lutas, se apresenta para
o desafio. Ferrabrás ao se deparar com seu contendor, vendo-o
tão pequenino, com desprezo lhe diz que só pode lutar com
quem de sangue real. Oliveiro fala de sua origem nobre e diz a Guarim de
Lorena, aquele que o levará preso ou morto ao seu senhor.
Ao dar início a luta, o turco percebe que tinha à sua frente,
não um pobre soldado, mas um dos valentes guerreiros de Carlos Magno
e pergunta-lhe qual dos pares era ele. Oliveiros se identifica e Ferrabrás
se desculpa por não tê-lo recebido como um fidalgo guerreiro,
propondo que não continuem a luta devido aos ferimentos que primeiro
deveriam ser curados. É neste momento que Ferrabrás
oferece-lhe o bálsamo milagroso capaz de fechar suas feridas e restituir-lhe
as forças perdidas. Oliveiros, embora com a vida em risco,
não aceita dizendo que só se serviria dele se o tomasse pela
espada. A batalha continua e o turco que é ferido por Oliveiros,
toma o bálsamo e se cura, deixando seu inimigo estarrecido.
Por fim, o valente cavaleiro, cobrindo-se com seu escudo, sai em direção
a Ferrabrás, conseguindo com sua espada arrancar-lhe o bálsamo,
bebe-o e joga o restante em um rio, após sentir-se curado e com
aa forças restituídas. A luta prossegue por mais algum
tempo e termina tendo Oliveiros como vencedor que, desejando a conversão
do mouro, poupa-lhe a vida diante da promessa que este lhe fizera de se
batizar.
A partir de uma
pesquisa bibliográfica e de uma análise histórico-comparativa
foi possível levantar algumas hipóteses sobre as relações
existentes entre o bálsamo do poema, os bálsamos bíblicos
e o Bálsamo de Ferrabrás, fórmula farmacêutica
surgida no século XVI, citado por Cervantes em sua obra Don Quixote
de la Mancha.
São, também,
acrescentadas algumas considerações sobre plantas medicinais
relacionadas a tais bálsamos, à medicina popular e os fatos
históricos ligados a Carlos Magno.
O bálsamo
do poema e os bálsamos bíblicos
O bálsamo
citado no poema de Leandro Gomes de Barros, A batalha de Oliveiros
com Ferrabrás, poema calcado no Capítulo II do livro
de Carlos Mágno (op.cit.) e que, provavelmente tenha sua origem
na canção de gesta do século XII que leva o nome Ferrabrás
e, segundo a Enciclopédia Universal (8:1243),
(...) relata a fabulosa cruzada de Carlos Magno al oriente, em busca
de preciso bálsamo, que sérvio para él entierro de
Cristo e que retenia em su poder el emir de Egito. Describe extraordinários
combates, siendo el más notable de ellos, uno que da comienzo el
poema y que tiene lugar entre Oliveiros uno de los Doce Pares y Fierabrás
hijo Del emir. Oliveiros resulta vencedor pero a conseqÜência
de otras aventuras os Doze Pares caen prisioneros (...), deixa
transparecer uma marcante influência bíblica fácil
de ser constatada se compararmos versos do poema de Leandro com citações
referentes a bálsamos que Bíblia Sagrada apresenta:Nas edições
de 1909, 1913 e 1920, segundo a Literatura popular em verso – Antologia
Tomo II (18:152, 250), lêem-se os seguintes versos:
Eu tenho o bálsamo
sagrado
Com que teu Deus foi
ungido,
Bebe-o porque estás
ferido
Bebendo ficas curado.
Comparando estes
versos com o texto narrado no livro História do Imperador
Carlos Magno e dos Doze Pares de França (13:33),
verificamos como o poeta aproveitou quase as mesmas palavras para poetizar
esse episódio. (...) e deste bálsamo foi teu Deus ungido
e embalsamado, quando o desceram da cruz e foi posto no sepulcro; bebe-o
que logo sararás de todas as feridas e ficarás com as tuas
forças dobradas.
No Novo Testamento da Bíblia
Sagrada podemos encontrar nos evangelhos a descrição da crucificação
e sepultamento de Jesus. Assim, temos por exemplo em São João
cap. 19, ver. 39 40: E Nicodemos, o que havia ido de noite buscar
a Jesus,veio também trazendo uma composição de quase
cem libras de mirra e de aloés Tomaram pois o corpo de Jesus
e o ligaram envolto em lençóis depois de embalsamado com
aromas da maneira que os judeus tam por costume sepultar os mortos
(Bíblia Sagrada, 2: 97).
O bálsamo
usado por Ferrabrás e Oliveiros pode estar perfeitamente relacionado
com a composição de mirra e áloes
citados por São João em seu Evangelho, uma vez que estes
já foram componentes usados em medicamentos denominados bálsamos,
que se popularizaram no Brasil através dos dicionários e
formulários médicos muito encontrados nos lares brasileiros
do fim do século XIX e começo do século XX, a exemplo
de Langgard (1873:248) e Chernoviz
(1908:396, 1052), que apresentam as fórmulas do Bálsamo do
Comendador, Bálsamo de Fioravante e o Bálsamo de Gilead ou
de Salomão, que leva em seu nome, influência bíblica.
Quanto à
propriedade revitalizadora do bálsamo com que Deus foi ungido, apregoado
por Ferrabrás, pode-se fazer uma comparação com o
que diz o salmo 89, ver.20 Achei o Davi, meu servo;
com
meu santo óleo o ungi.21 Com ele minha mão ficará
firme e meu braço o fortalecerá. 22O
inimigo não o importunará, nem o filho da perversidade o
afligirá. 23E
eu derribarei os seus inimigos perante a sua força, e ferirei
os que o aborrecem (Bíblia Sagrada (1967). O santo
óleo aí mencionado deve estar relacionado com aquele em Êxodo
cap. 30, ver. 22
Falou
mais o Senhor a Moisés, dizendo: 23Tu
pois toma para ti das principais especiarias, a mais pura mirra
quinhentos siclos +, e de canela
aromática e metade, a saber, 250 siclos de cálamo
aromático 250 siclos. 24E
de cássia 5000 segundo o siclo do Santuário, e de
azeite de oliva 1 hin ++. 25
E disto fará o Azeite da Santa Unção, o perfume
composto a obra do perfumista; (...) (Bíblia
Sagrada, 1967).
A mirra
citada no Evanglho de São João cap. 19. ver.19 e em Êxodo
cap. 30, ver. 23, está também na bebida que deram a Jesus
na hora da crucificação, conforme descrito em São
Marcos cap. 15, ver. 23 E deram-lhe a beber vinho misturado com mirra;
e não o tomou. Porém, em São Marcos cap.27
ver. 34, em lugar de mirra está fel, da mesma maneira
que Leandro Gomes de Barros cita em seu poema, nos seguintes versos da
edição de 1920.
427 Pelo vinagre
e fel
428 Que Cristo bebeu
na Cruz.
Consultado o dicionário
que acompanha a Bíblia Sagrada (2:104), encontramos
a seguinte referência ao fel: Um ingrediente desta espécie
chamado fel, em Mt 27,34 ou mirra em MC 15,23, foi oferecido
a Cristo, misturado com vinho, antes de sua crucificação,
como aliás era oferecido a todos os crucificados como analgésico
que lhes mitigasse um pouco o sofrimento, mas Jesus recusou.
Moldenk (13:314),
pesquisador da flora bíblica (21: 314), opina
a respeito: O vinho com a mirra, foi oferecido bondosamente a Jesus
antes da crucificação, para mitigar-lhe o sofrimento como
antes do tempo da anestesia se davam bebidas inebriantes aos pacientes
por ocasião de grandes operações. Mas Jesus
não aceitou para suportar com conseqüência as dores de
ser pregado na cruz.
Vejamos como Leandro Gomes
de Barros pôs em versos o episódio, onde Oliveiros recusa
o Bálsamo oferecido por Ferrabrás:
387 Estou com
a vida arriscada
388 Sei do poder que
tem ele
389 Porém só
me sirvo delle
390 Tomando-o pela espada
Mas, só ser
serve dele com o poder de sua espada, como nos mostram os versos seguintes:
473 E deu uma
cutilada
474 Que desceu arnéis
e tudo,
475 E dando outra a miúdo,
496 A Ferrabrás
offendeu
477 O céu o favoreceu
478 Um revez escapoliu
479 O bálsamo
delle cahiu
480 E Oliveiros bebeu
Assim: Oliveiros
se cura:
485 Viu Oliveiros
curado
486 De todas suas feridas.
O Bálsamo
de ferrabrás
O Bálsamo
de Ferrabrás, composição medicinal, segundo Grand
Larousse (10:1004), foi preparado no século XVI
por Hervé Fierabrás, cirurgião charlatão, que
em 1550 publicou Méthode brief e facile de garder la santé,
d’éviter la malade avec aucuns de l’âme, non encorre ruis
em Lumière.
Esse bálsamo
que também foi dicionarizado no Lello Universal em dois volumes
(17:1007), na Grande Enciclopédia Portuguesa e
Brasileira (11:136) e no Grand Dictionnaire Universel
du XIXe. Diècle (9:393), sem apresentar sua fórmula,
apresenta neste último, a seguinte informação: Baum
de fier-á-bras baume legendaire et merveilleux, fameux dans
lês romances de chevalerie, et que avait lê vertu de guérir
toutes lês blessures. Don Quixote l’ invoque, à chaque
norion qu’il a reçu.
Hipóteses quanto à
origem do nome Bálsamo de Ferrabrás.
Bálsamo de Ferrabrás,
medicamento surgido no século XVI teria recebido o nome de Ferrabrás
por influência daquela canção de gesta do século
XII que também leva esse nome e narra a batalha entre Oliveiros
e Ferrabrás, o sarraceno que tinha em seu poder o bálsamo
de poderes miraculosos, capaz de fechar feridas e restituir forças
perdidas.
O nome Ferrabrás
teria surgido de Guillaume au court nez (ou au courb nez), appeléaussi
Guillaume d’Orange, ou Guillaume Fièrabrace (ferabrachia), ou Guillaume
de Narbonne, (...) (Granges, 12: 37). Segundo
Réau &Cohen (21: 228, 230, 240), Guillermo
de la nariz corta, o Fierabrace (brazo poderoso), en el Cantar de Guillermo
(Ciclo de Guillerme de Orange). Su sobrenombre de terrible brazo
(fièrabrace) del que humoristicamente hará Cervantes el Fierabrás
del Quixote.
Hipótese provável.
Esta última hipótese parece ser a mais viável, uma
vez que está relacionada com as citações que, realmente,
Cervantes faz em seu Don Quichote de la Mancha
nos capítulos X e XVII. (...) É um bálsamo
–
responde D. Quixote – de que eu tenho a receita na memória, com
a qual ninguém pode ter medo da morte, nem se morre de ferida alguma
(... .) basta dois tragos do dito bálsamo, e ver-me hás
ficar são que um pêro. Mais adiante, Cervantes apresenta
com detalhes a maneira de prepará-lo. (...) pelo que ficou
inteiramente convencido de que havia atinado com o bálsamo de Ferrabrás,
e podia d’ali em diante metter-se em qualquer rixas, pendência e
batalhas, sem medo nenhum, por mais perigoso que fosse Saavedra, 5:
52,90-1).
Algumas considerações
sobre os prováveis componentes dos bálsamos e sobre plantas
medicinais popularmente conhecidas por bálsamos.
Segundo Keller (15:
190), a origem do bálsamo bíblico já deu motivos a
muitas discussões, principalmente quanto à origem de seus
componentes e identificação botânica das plantas empregadas.
Mas, não é o objeto deste trabalho penetrar nesse campo de
investigação.Pretendo apenas, nesta parte do trabalho, fazer
algumas considerações relativas a certos componentes
que, presumivelmente, tanto fazem parte do bálsamo a que Ferrabrás
se refere como sendo o óleo com que Deus foi ungido, como o bálsamo
referido por Cervantes em seu Don Quixote de la Mancha e
a outras plantas denominadas bálsamos que estão
ligadas a fatos documentados pela nossa História.
Segundo Hoehne (14:159),
as mirras e bálsamos usados pelos egípcios para prepararem
as múmias e pela Igreja Romana para os incensórios e de fumadores,
são as plantas do gênero Commiphora, com mais de 60
espécies existentes nas regiões da África Tropical,
Madagascar e Índia. São da família Burseraceae.
Pertencentes à essa mesma família botânica, temos no
Brasil Bursera balsamifera, B. gumifera, B. icicariba,
B. leptophloes, também chamadas imburna, umburana, almacega
e icica, que, segundo o mesmo autor, Anchieta identificou-as como sucedâneos
das verdadeiras, originárias do Oriente e consagrou-as para os cultos
e, também, segundo se sabe, os indígenas usavam medicinalmente
nas rupturas de epiderme.
O bálsamo
de Ferrabrás mencionado por Cervantes nos capítulos X e XVII,
de seu livro Don Quixote de la Mancha, continha rosmarino. Esse componente
não aparece nenhuma vez nos bálsamos bíblicos que
foram localizados na Bíblia Sagrada pesquisada para a realização
deste trabalho. O rosmarino, cientificamente denominado Rosmarinus
officinalis L., é o nosso alecrim, tão conhecido e empregado
na medicina popular, fazendo parte da composição do Bálsamo
Tranqüilo e do Vinho Aromático, indicado para ferimentos, segundo
Chernoviz (6: 600)
Dicese que fue
Arnan de Vilanova el primeiro que obteve la esencia de Romero em disolución
alcohólica, hacia el anô (...) una medicina que es igual del
bálsamo.
Un poco más tarde, durante el siglo XVI, empezó a preparar-se
el Agua de la Reina de Hungria, destilado com alchol las
sumidades floridas de romeno (Rosmarinus officinalis
L.). (Quer, 20:653)
Como se pode verificar,
foi por essa época que surgiu o Bálsamo de Ferrabrás,
ou seja, no século XVI.
Carlos Magno
e as plantas medicinais
Na Idade Média,
segundo Carmo (4: 281), no Império de Carlos Magno,
uma das célebres Capitulares, a denominada “De Villis”, se
ocupava dos problemas agrícolas e regulamentava o plantio de plantas
medicinais. Dentre as plantas das quais Carlos Magno se ocupou e
apregoou as virtudes, estava a Sempervivum sectorum L.. da
família Crassulaceae, uma planta que chamou sua atenção
não só pelas suas propriedades medicinais, como também,
pelo seu poder de evitar raios, quando plantadas sobre os telhados das
casas (Quer, 20: 300). Carlos Magno llegó
a ordenar que se plantara em los tejados de lãs casas de labor de
lãs fincas imperiales. Deram-lhe, então, o nome
de joubarbe, ou barba de júpiter, nome pelo qual essa
planta é até hoje conhecida na França.
Segundo o mesmo
autor citado acima, há cerca de 1300 espécies da família
botânica Crassulaceae espalhadas pelas regiões do Globo.
No Brasil, por não existir exatamente a espécie recomendada
por Carlos Magno, outras espécies da mesma família ocupam
lugar de destaque, uma vez, que são empregadas na medicina popular
devido às comprovadas propriedades balsâmicas. As mais
conhecidas são as dos gêneros Kalanchoe, Sedum
e Bryophyllum. As espécies pertencentes a estes gêneros
são conhecidas no Brasil por: bálsamo, saião,
folha-de-fortuna, folha-da-costa, folha-da-bahia, coirama-branca,
coerama,
coerama-de pernambuco, paratudo-de-alagoas.
Para concluir, faço
lembrar a ênfase que Leandro Gomes de Barros dá ao bálsamo
em seu poema A batalha de Oliveiros com Ferrabrás,
emprestando-lhe um aspecto mítico, tal como o faz Don Quixote ao
se referir ao bálsamo de Ferrabrás. O mesmo
ocorre com as composições balsâmicas ou plantas medicinais
com tais propriedades que, vendidas hoje em dia em feiras ou mercados,
principalmente do Nordeste, são apregoadas por seus vendedores como
sendo os bálsamos maravilhosos, capazes de curar tudo.
Publicado
originalmente naela
Revista do Instituto Histórico e Geográfico
de Goiás
. Ano 10 (10) 1982
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