abe-se
que muitas plantas aromáticas empregadas como condimento, também
chamadas de especiarias, tem propriedades medicinais. Seu uso na
culinária brasileira tem sido mencionado por vários autores.
(1), (2), (3), (4),
(5), (6),(7),(8).
Os primeiros registros sobre
o uso de plantas condimentícias datam da era das pirâmides,
no Egito, por volta de 2.600 a 2.100 A.C. O papiro de Ebers apresenta
uma lista de cerca de 800 plantas incluindo as especiarias.
Na Antiguidade eram consideradas
artigo de grande de grande valor ao lado dos metais preciosos, pérolas,
jóias, sendo usadas em transações comerciais.
Reputavam-lhes enorme valor, provavelmente, devido não só
às propriedades mencionadas e aromatizantes como também medicinais,
e, à ação anti-séptica dos óleos essenciaispresentes
em quase todas aquelas plantas, que, adicionadas aos alimentos permitem-lhes
a preservação, evitando o desenvolvimento de baterias e fungos
que facilitam sua decomposição (9) (10).
Porém, com o passar
do tempo, outros recursos preservativos de alimentos foram sendo empregados,
mas aquelas plantas então utilizadas, passaram a ser ingredientes
necessários a enriquecer o aroma e sabor. Todavia, as propriedades
anti-sépticas dessas plantas não são desconhecidas
daqueles que as utilizam associadas, geralmente, ao sal, vinagre ou limão,
na preparação dos molhos ou dos vinha d'alhos, para temperar
as carnes em geral e que não necessitam ir à geladeira até
o momento de serem cozidas, assadas ou fritas.
É conhecido o papel
dos condimentos nos órgãos do aparelho digestivo, e, a importância
de certas especiarias na dieta de alguns povos se manifesta como uma forte
necessidade parecendo ter fundamento fisiológico, (11)
ao serem estudadas a atividade de excitantes salivares dos pimentões
e pimentas de origem americana. Os autores observaram um ação
estimulante da secreção salivar em ambos (12).
Muitas plantas condimentícias
procedentes de outros países,empregadas na culinária brasileira
foram perfeitamente aclimatadas no Brasil, permitindo dessa forma, que
hábitos alimentares de povos procedentes de outros países
fossem também introduzidos, resultando, daí, todo o processo
aculturativo que assistimos no campo da culinária e da medicina
popular que também se utiliza dos condimentos com finalidades terapêuticas.
Esse fato, certamente, se ajusta a outros países que absorvem elementos
culturais de outros povos através das correntes migratórias.
Esse fato, certamente, se ajusta a outros países que absorvem elementos
culturais de outros povos através das correntes migratórias.
Material e método
O trabalho orientou-se pela
pesquisa de campo e pela pesquisa de campo com informantes do bairro da
Cachoeira, Ibiúna, SP, e pela pesquisa bibliográfica voltada
aos assuntos de interesse da pesquisa.
Dentre as várias plantas
com propriedades medicinais empregadas como condimento, foram selecionadas:
alho (Allium sativum L.) e canela (Cinnamomum zeylanicum Nees.).
Tal seleção
decorreu da incidência em maior escala quanto ao uso medicinal dessas
espécies, na culinária da região pesquisada, empregadas
em pratos salgados e doces.
As espécies botânicas
são apresentadas com seus nomes científicos, família,
origem, parte da planta usada, nomes vulgares em língua nacional
e estrangeira, composição química, atividades biológicas,
usos na medicina popular, discussão e conclusão.
A pesquisa de campo compreendeu
visitas aos informantes do bairro da Cachoeira, com aplicação
de questionário sobre a indicação e contra indicação
do uso das plantas condimentícias junto aos alimentos, no tratamento
e prevenção de enfermidades.
A pesquisa bibliográfica
obedeceu ao seguinte critério metodológico:
-
- Leitura de obras acadêmicas
e não acadêmicas sobre as plantas selecionadas para o estudo
no campo da medicina popular;
-
- Leitura de obras relacionadas
à Botânica, Etnobotânica e áreas de Ciências
Farmacêuticas;
-
- Outras leituras que serviram
de suporte para discussões quanto à análise e interpretação
dos casos levantados.
Resultados
No quadro abaixo as
plantas selecionadas para o trabalho, acompanhadas de referências
taxonômicas, parte usada na medicina popular e nomes vulgares.
|
Nome vulgar
|
Binômio
|
Família
|
Parte usada na medicina
popular
|
|
Alho
|
Allium sativum
L.
|
Liliaceae
|
Bulbo
|
|
Canela
|
Cynnamomum zeylanicum
Nees
|
Lauraceae
|
Casca do caule
|
Allium sativum
L.
Família: Liliaceae
Origem: Ásia
Parte usada: bulbo
Nomes vulgares: alho
Alemanha: Knoblauch
África: garlic, ki
Argentina: ajo
China: suan
Espanha: all, ajo
E.U.A.: garlic
Inglaterra: garlic
Itália: aglio
Paraguai: ajo
Uruguai: ajo
Composiçãoquímica:
contém em todas suas parte, sobretudo no bulbo, uma substância
sulfurada inodoro chamada aliina que, pela ação
do fermento aliinasa contido no alho, se transforma em aliicina
e depois em dissulfuro de aliio, responsável pelo
odor (13). La alicina representa 0,24% de la masa
Del bulbo. El bulbo contiene, además, glúcidios (furctosanes)
elementos minerales, fosfolípidos y prótidos, entre estos,
derivados uslfurados a base de cisteina (14).
A alicina é formada pela interação do enzima aliinasa
e o substrato S-ethyl L-Cysteine (15).
Atividades biológicas:
São apresentadas para discussão, apenas aquelas que estão
diretamente ligadas aos usos populares, conforme as informações
obtidas na pesquisa de campo.
O alho com anti-helmíntico,
empregado de várias formas, como o sumo na dose de 20g em 200ml
de leite, tomado em jejum, combate ascarídeo, oxiúro e tênia
(16)
Aliicina e galicina apresentam
princípios antibióticos (16)
Ação hipotensora:
(14) (16) (17) (18)
Ação anti-helmíntica:
(13) (14) (16) (17)
Ação sobre
o sistema cardiovascular: (14) (16)
(17) (19)
Ação bactericida:
(14) (15)
Ação anti-microbiana
e fungicida: (14)
El ajo presenta
propriedades antibacterianas y sobre todo antifungicas, particularmente
sobre las levadoras patógenas y los dermatofitos. En aplicación
externa favorece la curación de las llagas. El poder bactericida
de la alicina ha sido verificado, manifestándose su acción
hasta en diluiciones del ordem de 1/100.000 sobre bacterias GRAM+ y GRAM-.
El ajo muestra, además,
una actividad antiviral, in vitro, contra herpes zoster e influenza B.
El ajo crudo o cocido
aumenta la actividad fibrinolítica respectivamente de 72%
y 63% menos de seis horas despues de la ingestión. Esa tasa
se matiene durante 12 horas. El diente de ajo provoca una inhibición
de la agregación plaquetaria en respuesta a la administración
de un agente coagulante. En el animal, la planta provoca una disminuición
de la tasa de colosterol y protege contra la arteiosclerosis experimental.
Una actividad hipotensora
fue puesta en evidencia en la rata y en el hombre, por via oral.
Por otra parte, el ajo ejerce una acción cronótropa e inótropa
negativa e induce a una vasodilatación coronaria.
El diente de ajo es un
diurético que presenta, además, propriedades carminativas.
Es un antihelmíntico
que a dosis de 1g/kg en el conejo, muestra actividad contra el Ankylostome
duodenale.
Por via interna, la ingestión
de vários dientes de ajo puede provocar quemaduras en el estomago
e irritaciones de las vias urinarias en personas que presentam una mucosa
digestiva sensible. Por via externa pueden provocar necrosis.
Ciertos trabajos han
permitido hacer resaltar uma actividad antiespasmódica en el hombre
en caso de dispepsia, una actividad analgésica por via intraperiónea
en el ratón, y un fuerte efecto de estimulación uterina en
el roedor en gestación. Una actividad antihepatotóxica,
in vitro e in vivo fue evidenciada en la rata (14)
Like most plants,
garlic contains more than 100 biologically useful secondary metabolites
including alliin, alliinase, allicin, S-allycystein, diallylsulfide, and
allymethyltrisulfide The oil of garlic contains the amino acid alliin which,
once the bulbs are crushed, is converted to allicin. The enzyme alline
lyase catalyses the formation of allicin, which is in turn the precursor
to several sulfur-containing compounds responsible for the flavor, odor,
and pharmacological properties of garlic (26), citando
outros autores. (On
line) www.wikes.edu/~kklemow/Allium.html
[20/06/2003]
Usos na medicina popular:
O alho como anti-helmíntico,
na medicina popular, é empregado de forma generalizante, indicado
para toda casta de helminto.
Segundo a pesquisa de campo,
o alho refogado ou cozido junto a alimentos é indicado aos portadores
de pressão alta, febre, gripe, resfriado, dor de cabeça e
verminose. Recomenda-se acrescentar á dieta alimentar de pós
parto, isto é, período de 40 dias que se seguem ao parto
para evitar hemorragia e leucorréia. Contra indicado aos portadores
de distúrbios gastrintestinais e hemorróida. E usado internamente
para combater micose e pelada, isto é, perda de cabelos em determinadas
áreas do couro cabeludo.
Discussão:
O alho é planta condimentícia conhecida desde a Antigüidade.
Foi considerado como panacéia pelos hebreus, gregos e romanos.
O egípcios davam-lhe grande valor. Os trabalhadores durante
as construções das pirâmides utilizavam do alho devido
suas propriedades tonificante e anti-séptica. Na Manchuria
antes da 2ª guerra mundial, operários chineses e coreanos acrescentavam
alho à alimentação que era à base de cereais,
verduras, legumes e pouca gordura, para agir não só como
condimento, mas também como reconstituinte (2)
(16) (20).
Na pesquisa de campo verificou-se
que o alho é usado cru ou cozido em diferentes situações
em que se exige sua incorporação junto aos alimentos ou sua
retirada, a fim de se buscar a cura ou prevenção de enfermidades.
Tais atitudes podem ter seu respaldo na medicina científica, conforme
mostra a literatura consultada.
Cinnamomum
zeylanicum Nees.
A canela é mencionada
por antigos historiadores gregos e romanos, como por historiadores chineses
de 2.700 a. C. (10) (21). La
canela em polvo adicionada a los alimentos es útil para combatir
las neurastenias sexuales, por su acción afrodisíaca. A canela
foi a primeira especiaria oriental mais procurada das explorações
dos séculos 15 e 16, desempenhando papel vital na aproximação
do Ceilão com a Europa, como indiretamente, concorreu para a descoberta
da América. Quando os portugueses dominaram o Ceilão
em 1505, eles impiedosamente forçaram seus governantes a pagar como
tributo, grande quantidade de cascas das caneleiras (9).
Nome vulgar: canela, canela-do-ceilão,
canela-de-cheiro, canela-da-índia, canela-verdadeira.
Família: Lauraceae
Origem: Ceilão (20)
Cinnamomum cássia
(Nees.) Blume
Origem: Ilhas de Soonda,
Conchinchina, Malabar (20)
Nomes vulgares de ambas
canelas: canela, canela-de-cheiro, canela-da-índia, canela-verdadeira.
Alemanha: Zeylonzimt
Arábia: qurta
Argentina: canela rena
China: jou-kuei
França: cannelle-de-ceylon,
cannelle-de-chine
Inglaterra: ceylon cinamon
Itália: cannella
Japão: seiron-nikkei
Portugal: canela, cinamomo,
loureiro, canela-do-ceilão, canela-da-china
Rússia: koritsa
Composição
química: óleo essencial contendo aldeído cinâmico,
cariofileno, cimeno, pineno, eugenol, mucilagem e material corante (10)
(16) (21) (22) (25).
Aldeído cinâmico
também em Cinnamomum cássia (Nees.) Blume. (25)
La corteza contiene además
taninos, azúcares, cumarinas y dos diterpenos, la cinnzeylanina
y el cinnzeilanol (14) Cristais de oxalato de cálcio
em forma de agulhas (23).
Atividades biológicas:
La corteza presenta propriedades antifúngicas, antibacterianas.
Muestra um efecto anestésico local y presenta, in vitro , uma actividad
citotóxica (Leucemia L 1210). Otros trabajos hacen referência
a una actividad carminativa y a un efecto estrogênico. Posee,
asimismo, propriedades relajantes de la musculatura lisa (14).
Estomacal, carminativo y atringente (18) (20).
Emenagogo, antiséptico y antihelmintico (16).
Em doses concentradas é convulcionante (24).
Segundo autores quanto ao
aldeído cinâmico, foi observada alguma atividade antileucêmica
em preparações de culturas de células e também
uma acentuada inibição de tumores tipo W2K11 induzidos por
vírus SV 40 em camundongos. Ainda, foi observado em ratos o aumento
da secreção biliar após a ingestão de preparações
contendo aldeído cinâmico (25).
Usos na medicina popular:
Segundo a pesquisa de campo, usa-se adicionar canela em pau ou em pó
em certos doces para que estes não provoquem náuseas quando
ingeridos em certa quantidade. Dizem ainda que tal hábito
se usa para fazer despertar desejos sexuais em mulheres frias. Informam,
também, que doces com canela não devem ser consumidos quentes,
pois podem provocar dor de barriga. Aconselham acrescentar canela
aos alimentos de homens viciados em bebidas alcoólicas para que
estes tenham náuseas ao ingeri-las. O uso da canela é contra
indicado para mulheres grávidas, visto poder a mesma. provocar aborto.
Discussão:
O uso popular da canela adicionada a alimentos remonta a períodos
históricos, como demonstra a literatura consultada. A não
indicação do consumo de canela por mulheres em período
de gestação pode ter seu respaldo numa interpretação
científica, devido à sua ação emenagoga, assim
como à sua ação carminativa quando adicionada as certos
doces, visto que esta ação pode ser exacerbada quando consumida
quente, provocando grande desconforto, com cólicas na mulher grávida,
simulando um aborto. A mesma interpretação poderá
se estendida ao hábito de oferecer alimentos com canela aos alcoólatras,
com o intuito de provocar mal estar e náuseas.
Conclusão:
Os estudos das plantas condimentícias destacadas neste trabalho,
permitiram verificar seu papel nas diferentes terapias populares, em que
as mesmas são acrescentadas ou retiradas dos alimentos, tanto para
curar como para prevenir estados alterados da saúde das pessoas
que têm o hábito de consumi-las junto aos alimentos.
As plantas estudadas, além das propriedades estomacal, carminativa,
anti-séptica, hipotensora, entre outras, como apontou a literatura
consultada, elas são importantes, segundo os informantes,
no atendimento aos alcoólatras, nas dietas indicadas à mulheres
em estado de gestação, assim como estimulante sexual.
Publicado em: ROJASIANA vol.1(2) 1993. Facultad de Ciências Químicas,
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