Vestígios da medicina
popular da população
litorânea do Brasil
do período colonial, nas práticas médicas populares
de hoje.
Maria Thereza Lemos de Arruda
Camargo
Conferência proferida
no Congresso "Cultura Caiçara"
promovido pela Secretaria
da Cultura do Estado de São Paulo, São Paulo, 1996
medicina popular no Brasil de hoje apresenta características que
remontam ao período colonial, quando começaram chegar os
primeiros colonos portugueses atracando em sua costa.
Este trabalho pretende focalizar
alguns aspectos que marcaram o universo cultural que foi se formando no
trecho que compreende hoje o litoral de São Paulo, demarcada
no início da colonização pela Capitania Hereditária
de São Vicente, nos séculos XVI e XVII, onde portugueses
representantes da medicina da época e padres da Companhia de Jesus
desempenharam papel de destaque, influenciando, assim, o comportamento
da população, face a problemas de saúde.
Segundo Frei Gaspar da Madre
de Deus em suas Memórias, escrito em 1797, O comprimento da Capitania
ao longo da costa do mar estendia-se por espaço de 100 léguas,
e não de 50, como dizem os autores, sem fundamento algum; e a sua
largura confinava com as terra de Espanha, compreendendo nos fundos um
sertão imenso, de muitos centos de leguas. As ditas 100 leguas da
sua extensão não eram contínuas, mas separadas em
duas porções, no meio das quais ficavam como encravadas 10
léguas, pertencentes à Capitania de Santo Amaro.(...)Ela
conservou o nome de São Vicente até o ano de 1710, em que
o Senhor D.João o V, de gloriosa memória, foi servido criar
General para São Paulo, e Minas Gerais, na pessoa de Antônio
de Albuquerque Coelho: desse tempo por diante entraram a chamar Capitania
de São Paulo às que antes se denominavam de São Vicente
e de Santo Amaro (...)
Muitos daqueles que exerciam
a medicina em Portugal vieram voluntariamente para o Brasil devido à
sua ascendência cristã-nova, pois era comum aderirem à
vida religiosa dos mosteiros, a fim de se protegerem da Inquisição;
pois, o manto da Companhia de Jesus ou de outra ordem religiosa acobertava
o perigo imediato. Muitos padres cristãos-novos tornaram-se católicos
sinceros, ou ganharam a fama de o serem (Herson,
1996:47) . Sabe-se, todavia, que outras ordens religiosas estiveram no
Brasil no período em que os jesuítas estiveram atuando em
seus trabalhos de catequese. Beneditinos e carmelitanos também fundaram
colégios em localidades pertencentes à capitania de São
Vicente, tais como em São Paulo e Santos.
Foi Martim Afonso de Sousa
que deu início ao processo de colonização do Brasil,
com a criação das capitanias hereditárias, surgindo,
assim, São Vicente, a primeira povoação histórica
brasileira. Em sua expedição vieram homens trazendo a cultura
da cana de açúcar, proveniente da Madeira e construíram
os primeiros engenhos, trazendo, também, sementes; berinjela,
alho, ervilha, lentilha, pepino, melão eram cultivadas no Brasil
do século XVI (França, 1926)
Dentre os primeiros religiosos
que vieram estava Padre Manuel da Nóbrega com alguns companheiros.
José de Anchieta, também acompanhado de outros padres, veio
mais tarde, com Duarte da Costa, segundo Governador do Brasil. Estes,
chegaram à baia de Todos os Santos por volta de 1553. Porém,
Nóbrega já se achava em São Vicente quando José
de Anchieta chegou ao Brasil.(Vasconcelos, 1943:15)
Os valores da nova terra
colonizada eram elogiados pelos religiosos que enalteciam suas qualidades,
tal como diziam em cartas enviadas a Portugal. Tal foi a repercussão
na Europa que padres doentes desejaram vir para se curarem, visto que o
próprio Anchieta incentivava-os a virem para o Brasil. Porém,
essas impressões, com o passar do tempo, foram sendo desvanecidas,
uma vez que novas observações permitiam verificar que,
com a colonização, problemas de saúde iam surgindo
e, assim, o clima tropical foi sendo responsabilizado pelas doenças
a que os europeus eram acometidos. Falava-se, também, dos alimentos
da terra provocando doenças. (Santos Filho,
1947:27-29)
Vieram nas primeiras expedições
homens que exerceram a medicina como físicos, cirurgiões
e barbeiros e estes, além de suas condições humildes
e pouca instrução, eram poucos, permitindo, assim a proliferação
do curandeirismo. Os abusos eram tais que em Piratininga nomeou-se
um "juiz de ofício dos físicos". Sem sua licença
ou "carta de examinação", ninguém podia curar ou sangrar.
Mesmo assim leigos continuaram a exercer o ofício.Essas são
algumas das razões que fizeram os padres serem mais aceitos na arte
de curar, pois tinham algum conhecimento de patologia, terapêutica
e botânica.
Purgar e sangrar eram os
procedimentos comuns do Brasil desde o século XVI. Anchieta,
quando de sua permanência em São Vicente e em Piratininga,
relata em carta, (Leite, 1954 v.2:159-61) que serviu
de médico e barbeiro, curando e sangrando índios e aplicando
emplastros, além de levantar espinhelas e preparar mezinhas. Era
preocupação dos jesuítas a salvação
da alma pelo batismo. Os procedimentos para a realização
das curas pareciam ficar em outro plano, conforme, mesmo, relata Anchieta
em correspondência com outros irmãos. Segundo ele, quando
o doente recusava o batismo, a morte sobrevinha como se fora castigo.(Op.cit.3.v.:250,455)
A idéia de cura milagrosa como pregavam Anchieta e os religiosos
em geral, e do castigo divino provocando "dolencias e muertes" se
propagou pelo Brasil, desde o tempo da colonização até
nossos dias.
A fé na cura milagrosa
e a superstição, que marcaram profundamente a medicina em
Portugal, estão documentadas nas confissões e denunciações
do Santo Ofício, durante o período da Inquisição,
quando obrigavam os depoentes a relatarem com pormenores os fatos acontecidos.Todas
essas crenças foram trazidas para o Brasil. As orações
faziam, também, parte dos processos de cura, visto que para cada
doença havia uma oração de garantida eficácia.
Sabemos que a oração para reforçar a cura é
uma constante, hoje nas práticas médicas de benzedeiras e
curandeiros em geral. Cita-se a seguinte reza para curar cobreiro,
recolhida em pesquisa de campo em Ibiúna, SP:
Que tende Pedro
Cobreiro senhor
Co que eu curo
Co ramo de monte
E água da fonte
(Camargo, 1985:26)
Segundo bibliografia
consultada, a primeira referência à cura de cobreiro no Brasil,
liga-se à forma religiosa acrescida de medicação tópica
indicada por Anchieta: "... a doença, perigosa, que alguns chamam
de cobrelo... mandou o irmão que fosse lavar-se com a água
da fonte milagrosa que ali está e acabado de lavar-se (cousa maravilhosa)
de improviso ficou não só sem dor, mas sem sinal ou resto
do mal...(Vasconcelos, 1943:47) Ainda
no século XVI, Amato Lusitano recomendava ferver em água
da fonte rodelas de raiz -da -China a fim de preparar remédio para
curar pleurite ou exquisita, doença que ataca os pulmões,
conforme se deduz ao ler a descrição da mesma.
Em Portugal, na época
do descobrimento do Brasil, a medicina era praticada nos conventos e as
igrejas se incumbiam de atender peregrinos e pobres, distribuindo remédios
e fazendo curativos, conforme Herson (1996:74-6),
acrescentando que no sec. XVI, em Portugal, existiam os clínicos
leigos árabes e judeus que iam de cidade em cidade armando barracas
em lugares públicos e ali operavam hérnias, olhos e
arrancavam dentes, recebendo dinheiro pelos seus trabalhos.
Era nos conventos que os
livros médicos eram escritos.
Prevalecia naquele tempo
a medicina não só de Galeno, como a árabe, ditada
por Avicena. Porém, o estudo de anatomia era rudimentar, visto que
muçulmanos, católicos e judeus não dessecavam cadáveres
e sim animais, vindo daí a nomenclatura da medicina popular no Brasil
de hoje relativa aos órgãos humanos, tais como: bucho
(intestino), goela (garganta), bofe (pulmão).
Chaga nos bofes era
designação que a tuberculose recebia em Portugal
e que os colonos trouxeram para o Brasil.(Camargo,
1978:89)
Os excretos de animais, assim
como o sangue, carne de cobra, faziam parte de receitas portuguesas. (Lusitano,
s/d,v.II:111,123)
No Brasil contemporâneo,
o jasmim-de-cachorro ou jasmim-do-campo,
como são conhecidas as fezes do cão, como de outro animais,
a medicina popular emprega na preparação de remédios.
Cita-se como exemplo as: fezes de cachorro para sarampo e varíola,
de gato para terçol, de papagaio para dor de ouvido, de galinha
para curar espinhas no rosto E o sangue de boi é usado para curar
tuberculose.(Araújo, 1961:149)
O estrume de boi misturado
com fumo e sal é hoje usado nas inflamações conforme
pesquisas realizadas em favela de São Paulo. O fumo, herança
indígena, passou a fazer parte da terapêutica adotada
pelos portugueses para combater o máculo (Farina,
1981:49), doença trazida pelo negro, também conhecida por
doença-de-bicho,
a qual se curava com fumo, também conhecido por erva-santa.
(Santos Filho, 1947).
Acreditava-se na influência
dos astros na saúde e no aparecimento de doenças, crenças
trazidas também pelos portugueses e que permanecem na medicina popular
do Brasil contemporâneo. Anchieta dizia: las sangrias son
aquy muy necessarias, porque es mui subiecta esta tierra a prioris, maxime
en los naturales della, quando el sol torna a declinar hazia el norte,
que es en el mes de Deziembre y dally por delante; y sino acudiéssemos
con sangrias no ay dubda sino perecrian muchos.(Leite,
1954,v.III:454)
Pesquisa realizada em favelas
de São Paulo com informantes de várias procedências,
apontou que pessoas expostas ao sol por muito tempo, ao entrarem
em ambiente fresco, certamente ficam com pneumonia. As fases da lua influenciando
nos trabalhos de parto é conhecida da medicina popular.
Os portugueses trouxeram
consigo seus costumes, doenças e a formas de curá-las, sendo
que seus hábitos foram sendo adaptados aproveitando as plantas medicinais
nativas e a arte indígena de curar. Interessavam em levar para Portugal
as plantas que julgavam de interesse, principalmente econômico, como
também cultivar em terras conquistadas, plantas européias
ou de outros continentes.
Quando o Brasil foi descoberto,
os portugueses já exploravam as especiarias da costa ocidental da
África na busca de novos centros de produção e tais
plantas foram trazidas para cá.
Os primeiros contatos dos
colonos portugueses e particularmente dos jesuítas com os primitivos
habitantes, permitiram perceber os costumes destes com relação
às práticas de cura. Perfeitamente adaptados ao clima, os
índios eram resistentes às intempéries e resolviam
seus problemas de saúde com os recursos que a natureza lhes oferecia
e com os poderes de cura de seus pajés. Porém, com relação
aos portugueses, estes sim não eram tão resistentes, pois
vários problemas de saúde eram provocados por vento quente
e úmido, pelas altas temperaturas registradas durante os períodos
de exposição ao sol, e pelas alternâncias de clima.
Era comum vento provocar doenças de pele, golpes de ar frio fazer
desenvolver infecções nos olhos, as quais eram curadas com
sumo de arruda, tal como procediam nos conventos medievais portugueses.
Na época do descobrimento
do Brasil, os índios tupi-guarani, a maior família lingüística
existente, estavam distribuídos pela costa de norte a sul, sendo
que o tupi tornou-se a língua geral, também falada pelos
jesuítas, para a tarefa de catequese.
Dentre as doenças
mais comuns encontradas entre os indígenas estava a "espinhela caída",
assim chamada pelos portugueses. A medicina indígena aplicava para
este estado mórbido cataplasmas com plantas medicinais e ventosas
feitas com chifres.
Tratava-se de dor na região
epigástrica, decorrente da reentrância do apêndice xifóide,
provocando forte abatimento, com gastralgia, vômitos e dificuldade
para respirar, principalmente após farta refeição,
dificultando a digestão. Esta "patologia", encontramos ainda hoje
na medicina popular, cuja terapêutica e interpretação
remonta àqueles tempos coloniais.
A matéria médica
indígena, além dos vegetais, empregava sangue humano, saliva,
urina, cauda e cabeça de cobra, gorduras de animais, bicos de aves,
chifres e ossos calcinados, entre outros. O sangue era reconstituinte,
a saliva cicatrizante, a urina excitante e vomitiva. (Santos
Filho, 1947:12)
Os jesuítas que cuidavam
das boticas aprenderam colher plantas medicinais com os índios que
ensinavam manipulá-las, assim como aprenderam extrair os "maus humores",
causadores de doenças, chupando as partes afetadas do corpo. Eram
os pajés os detentores da arte de curar.
O negro, procedente de diferentes
grupos raciais africanos, destacando-se os bantos e sudaneses, teria vindo
para o Brasil na primeira metade do século XVI, a fim de substituir
o índio no trabalho escravo.
Com o negro, várias
doenças foram introduzidas no Brasil, tais como: o máculo,
tracoma, febre tifóide, a varíola e a lepra, cujas terapêuticas
adotadas para saná-las baseavam-se nas experiências dos médicos
portugueses e dos jesuítas, assim como dos indígenas e dos
próprios negros.
Do cruzamento entre brancos,
índios e negros, iniciou-se o grande processo de mestiçagem
nos séculos que se seguiram. Com essa mestiçagem que foi
se formando entre as populações costeiras da capitania de
São Vicente nos primeiros tempos de Brasil, é que partiram
para regiões interioranas as crenças e costumes que marcaram
de maneira indelével as práticas médicas populares
de hoje.
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