Maria Thereza Lemos de Arruda Camargo

 

 

Plantas usadas como anti-helmíntico na medicina popular
 

Maria Thereza L.Arruda Camargo
Orestes Scavone



 
 
 

s verminoses representam um dos problemas da saúde pública, notadamente nas zonas de grande concentração demográfica. Zucato & Carvalho (1976:750) tratando das parasitoses intestinais dizem: "As verminoses constituem um dos aspectos mais importantes da patologia da criança brasileira, particularmente pela grande disseminação, chegando em certas coletividades a atingir 100% das crianças em idade escolar".

Rodrigues Filho et alii (1975:302) referindo-se ao tratamento das verminoses intestinais dizem que o aparecimento de novas drogas veio alterar a antiga orientação do tratamento, oferecendo armas poderosas e de efeito mais seguro, embora o seu emprego ainda continue sujeito a certas limitações.

Os quimioterápicos usados atualmente para combater as verminoses intestinais são praticamente isentos de reações secundárias, apresentando alta eficácia contra parasitoses intestinais e fáceis de serem ministrados. As plantas anti-helmínticas foram empregadas na medicina clássica durante muito tempo conforme já foi citado por vários autores, tais como Bouchardat (1881:141:450), Chernoviz (1890:207:693), Gilbert & Michel (1918:286), Martin (1929:327:499), Monteiro (1921:64) e Coimbra (1942:138:165).

Não obstante o grande progresso em terapêutica das verminoses intestinais, a medicina popular procura resolver este problema através do uso de plantas medicinais, às quais são atribuídas propriedades anti-helmínticas. Entre os fatores que justificam o uso de plantas medicinais no meio popular, destaca-se o baixo nível sócio-econômico existente, particularmente nas comunidades que se formam em São Paulo, resultantes das correntes migratórias.

Pesquisas realizadas nas referidas comunidades permitiram observar que os mecanismos de defesa contra as verminoses são representados pelas formas de comportamento herdadas de seus antepassados, somadas aos novos conhecimentos que vão sendo adquiridos dentro dos grupos sociais a que passam a pertencer. Sabe-se que a influência indígena deixou profundas marcas nas diferentes áreas da nossa cultura, notadamente na medicina popular, quando esta permanece viva e atuante em todas as camadas sociais e culturais das sociedades contemporâneas.

O cruzamento cultural entre o colono português e os diversos grupos indígenas estendidos pela costa e o planalto paulista, fez com que os costumes fossem se modificando, à medida que iam aceitando reciprocamente os elementos culturais daqueles com os quais passavam a conviver. Evidentemente, o mesmo ia ocorrendo em outras regiões do país, onde esses contatos e cruzamentos étnicos iam se verificando e favorecendo o desenvolvimento de todo o processo de aculturação hoje observado.

O presente trabalho visa, portanto, contribuir para um melhor conhecimento de plantas 
anti-helmínticas empregadas na medicina popular, destacando-se as que permanecem como herança da medicina indígena do Brasil colonial.
 
 

Material e método

As plantas empregadas como anti-helmíntico foram coletadas nas seguintes favelas de São Paulo: Vila Prudente, Heliópolis, Jardim Brasil, Aeroporto, São Mateus e Parque Novo Mundo, durante o período de 1975 a 1977.  A identificação delas foi feita no Departamento de Botânica do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo. O trabalho de campo foi baseado no método de pesquisa de Sales (1976:4) com algumas adaptações, mas obedecendo, basicamente, o seguinte: a área (condicionamento geográfico); o tempo (condicionamento histórico), considerando as características históricas da comunidade; a população (condicionamento histórico-geográfico), tendo em vista a distribuição do homem na área e sua composição étnica e a cultura (resultante dos três primeiros condicionamentos)
 
 
 

Resultados
 
 
 
 
 
 

QUADRO DE REFERÊNCIA DOS ANTI-HELMINTICOS

Plantas mais usadas como anti-helmíntico nas áreas pesquisadas.

No quadro abaixo estão relacionadas estas plantas acompanhadas de referências taxonômicas, parte usada na medicina popular e a indicação pela Farmacopéia Brasileira.

Nome vulgar Binômio Família Ordem Parte Usada
(Farmacopéia Brasileira)
Parte Usada
(Medicina Popular)
aboboreira
Cucúrbita pepo Linné.C.máxima Duchesne
Cucurbitaceae
Cucurbitales
semente
semente
alho
Allium sativum Linné
Liliaceae
Liliiflorae
 
bulbo
coentro
Coriandrum sativum Linné
Umbelliferae
Umbellifloae
fruto
fruto
erva-de-santa-maria
Chenopodium ambrosioides Linné Chenopodiaceae
Centrospermae
folha
parte aérea
hortelã
Mentha spp
Labiatae
Tubiflorae
folha e sumidade florida
folha
losna
Artemisia absinthium Linné
Compositae
Campanulales
folha e sumidade  florida
planta toda
mamoeiro
Carica papaya Linné
Caricaceae
Violales
 
semente e fruto verde de onde se extrai o látex
pacová
Renealmia exaltata Linné
Zingiberaceae
Scitamineae
semente
semente
poejo
Mentha pulegium Linné
Labiatae
Tubiflorae
folha e sumidade florida
planta toda
romanzeira
Punica granatum Linné
Punicaceae
Myrtiflorae
casca do caule e  da raiz
casca  do caule, da raiz e do fruto

 
 
 
 

As plantas acima referidas são usadas sob as formas de chá abafado, cozimento, sumo e em garrafadas. Esta é constituída por uma combinação de componentes de origem diversa, destacando-se, entre eles, as plantas mencionadas.

As sementes de abóbora, comumente empregadas para combater solitárias ou tênias, são torradas e moídas até formar uma paçoca. Como se trata de planta sem toxicidade, a dose empregada pode variar de uma xícara das de chá a um copo. O tratamento costuma iniciar durante a fase da lua-nova, e a dose indicada é ingerida de uma só vez, em jejum, com leite de coco ou de vaca, não se alimentando o indivíduo durante o dia todo. À noite, toma-se um purgativo na dosagem de uma colher das de sopa de óleo de rícino. Outros preferem tomar esta dose do purgante parceladamente, durante o dia e a noite.  Caso a solitária não seja eliminada, repete-se o  tratamento, geralmente depois de um mês, coincidindo com a mesma fase lunar.

No caso do alho usa-se, em geral, um dente que é espremido e tomado com leite, em jejum, não havendo necessidade de purgativo. Também é usado na forma de chá, deixando descansar uns dez minutos, tomando-se em jejum. O alho pode, ainda, ser torrado, junto com a hortelã, e depois preparado sob a forma de chá, que se toma o dia todo.

Com relação ao coentro, usa-se apenas o fruto, verde ou maduro, fresco ou seco, sob a forma de chá ou em leite quente, tomando-se três vezes ao dia. O coentro é ainda ministrado sob a forma de sumo dos frutos com leite, e tomado três vezes ao dia, sendo a primeira dose, em jejum.

No caso da erva-de-santa-maria, usa-se tomar, em jejum, o sumo da planta toda, na dose de uma colher das de chá em meio copo de leite de vaca, para crianças de dois anos, repetindo-se essa dose à noite. O tratamento é feito durante três dias, sem necessidade de ministrar purgante, recomendando-se alimentação leve. Com mais de três anos de idade, a dose indicada é de uma colher das de sopa, nas mesmas condições: para adultos, meio copo ou leite quente, tomando-se uma dose em jejum e outra à noite. Há ainda os que preferem o chá dos frutos, ligeiramente torrados. No meio popular, sabendo tratar-se de planta tóxica, usa-se colocar o preparado, chá ou sumo, no sereno, durante a noite toda.

A hortelã, geralmente, é associada a outras plantas, como o alho, o poejo ou o pacová, sob a forma de chá, tomando-se dose única, em jejum, durante três ou quatro dias.

A losna pode ser usada isoladamente, na forma de sumo, ou então associada a outras plantas, em chá, preferindo-se este por ser julgado menos tóxico.

No caso do mamoeiro, usa-se o látex do fruto verde e, ainda, as sementes frescas ou secas, ingeridas com banana ou miolo de pão. A dose, dependendo da idade, varia de uma ou mais gotas de látex, assim como as sementes, ministrada durante alguns dias.

O pacová, comum em garrafadas contra verminose, é também empregado na forma de chá, isolado ou associado ao poejo à hortelã. Com relação à romãzeira, prefere-se, hoje, usar a casca do fruto, sob a forma de chá, porque consideram tóxicas a casca do caule e da raiz.
 

Plantas anti-helmínticas que permanecem como herança da medicina indígena do período colonial do Brasil

Embora tenham sido coletadas diversas plantas utilizadas como anti-helmínticas, apenas as seguintes permanecem como herança da medicina indígena do Brasil Colonia: erva-de-santa-maria (Chenopodium ambrosioides Linné) e mamoeiro (Carica papaya Linné) .

ERVA-DE-SANTA-MARIA 
Sinonímia vulgar: quenopódio, erva-formigueira, chá-do-méxico, mastruz, mastruço, mentrusto, cravinho-do-mato, erva-ambrósia, quenopodio, 
Té de Mejico (Esp.)
Chénopode, peperomie, thé du Mexique, herbe aux vers (Fr.): 
Teekraut, mexican gaesefuss (Al.)
Mexican goossefoot, saltwort (Ing.)
Chenopodoi (It.)
Paico, pasote (Venez.)
Yerba de Santa Maria, paico (Arg.)
Kaaré, paico (Parag.)
Epazolt (Mex.)
American worm seed, jerusalen oak (USA).

Referências taxonômicas: 
binômio: Chenopodium ambrosioides Linné: 
Família: Chenopodiaceae: ordem: Centrospermae.
Origem: América Tropical e Subtropical, Antilhas, México e Américas Central e do Sul.
Características botânicas: planta herbácea anual ou bianual, muito aromática, ramificada de 30 a 60 cm de altura. Folhas alternas, lanceoladas, de 3 a 6 cm. de comprimento: as inferiores irregularmente denteadas e as superiores inteiras. Flores envolvidos pelo cálice. Semente lenticular com cerca de 1 mm de diâmetro, escura e brilhante. Floresce no verão e se reproduz por sementes.
Componentes químicos:  A planta contém óleo essencial rico 
em ascaridol (60 a 70%), p-cimeno, -terpineno, l-limoneno e metadieno (MERCK INDEX,1976).

MAMOEIRO
Sinonímia vulgar: mamão, papaia, chamburu; mamão, papaia.
Mamón, papay (Port.) 
Papayer cmmum (Esp.)(Fr.): 
Papaya (Fr.)(USA) 
Papaw-tree, pawpaw, papain (USA)(Ing.): 
Melonenbaun(Al.)

Referências taxonômicas: 
Binômio: Carica papaya Linné:
Família: Caricaceae: ordem: Violales.
Origem: América Tropical (Claus 1968:370)
Características botânicas: Planta arbórea, de tronco geralmente reto e não ramificado, provida de látex branco e abundante. Folhas alternas palmatipartida, grandes, com até 60 cm. de diâmetro e longipeioladas. Segundo Joly (1976:402), referindo-se ao gênero Carica diz: plantas só com flores hermafroditas e femininas, ou, então, com flores masculinas e hermafroditas (raras) em outras plantas. Segundo Cavalcante (1972:37), o mamoeiro, com relação ao sexo, é "polígamo-dióico", isto é, existem plantas exclusivamente femininas, as que dão frutos normais e plantas masculinas, obviamente as que não frutificam e são conhecidas por mamoeiro macho. Algumas vezes, entre as flores masculinas, ou na extremidade das inflorescências do mamoeiro macho, aparecem algumas flores hermafroditas com ovários fertilizáveis, produzindo frutos com um longo talo, conhecido por mamão de corda ou mamão macho. Frutos durante o ano inteiro. Reproduz-se por semente.
Componentes químicos: O látex do mamoeiro contém várias enzimas, destacando-se a papaína.
 
 

Discussão

A medicina popular, sendo dinâmica e nunca estática, vai se modificando espontaneamente, influenciada não só pelos meios intelectualizados e de comunicação, como também pelo entrelaçamento de traços culturais entre habitantes de um mesmo grupo social. Portanto a realização de pesquisa de campo possibilitou um levantamento das manifestações populares, nas áreas pesquisadas, relacionadas com o uso de plantas medicinais.

O material botânico, uma vez identificado, possibilitou a avaliação de suas propriedades terapêuticas em função dos princípios ativos que encerram. No caso do óleo-ação anti-helmíntica é referida pela maioria dos autores. O mesmo acontece com o látex do mamoeiro, que contém papaína, e a semente do seu fruto, cujo óleo, segundo Coimbra (1942:165) é vermífugo eficaz. Os óleos essenciais que, geralmente são estomacais, carminativos e antissépticos, ocorrem na maioria das plantas empregadas como anti-helmínticas. A sua ação vermífuga, nem sempre referida pelos autores, poderia ser considerada como uma propriedade adicional, isto é, própria das plantas selecionadas.

A abóbora está inscrita nas Farmacopéias Brasileiras I e II onde consta como parte usada a semente fresca. Os autores, em geral, como Pessoa (1946:407), Youngken (1959:1105). Font Quer (1978:773), Claus & Tyler (1968:156), destacam a ação antihelmíntica das sementes de abóbora, particularmente como tenífugo. A sua eficácia na teníase é incontestável, não sendo irritante e nem tóxica, permitindo elevar a dose sem problemas, donde seu grande valor em pediatria. Pessoa (1946:407) diz: as sementes de abóbora são usadas principalmente para crianças, na dose de 50 a 100 g., sendo que depois de secas e trituradas com açúcar são ministradas com leite açucarada, em jejum: o purgativo pode ser dado duas horas depois.  Quer (1978:773) recomenda as sementes de abóbora mondadas, deixando apenas as amêndoas, as quais se reduzem a uma pasta, adicionando-se um pouco de açúcar. Segundo este autor, emprega-se 50 gramas de açúcar mascavo para 130 gramas de sementes mondadas até formar uma massa homogênea. Esta massa é dividida em três porções iguais, ministrando-se uma porção em jejum, outra na hora do almoço e a última na hora do jantar, não ingerindo outro alimento durante todo o dia. 
Passada uma hora, depois da ingestão da última porção, ministrar ao paciente 30 gramas de óleo de rícino.

Na pesquisa de campo verificou-se que são usadas sementes de abóbora torradas, contrariando assim a recomendação dos autores consultados. Por outro lado, a dose empregada na medicina popular varia muito, mas nota-se uma certa despreocupação a esse respeito, sabendo-se tratar de sementes sem toxicidade.

Com relação ao princípio ativo, Youngken (1959:1105) diz: admite-se que os componentes ativos 
são de caráter resinoso e se acham localizados no embrião e na membrana verde da semente. Shauenberg & Paris (1972:38) fazem referência a uma substância isoprenóide, a cucurbitacina, cuja ação anti-helmíntica é notável.

Convém lembrar que o insucesso no uso das sementes de abóbora deve ser atribuído à dose empregada, geralmente muito baixa. A sua ação tenífuga é referida pelos autores, justificando seu uso na medicina popular.

O alho, cuja parte usada é o bulbo fresco, não está inscrito nas Farmacopéias Brasileiras, mas seu emprego como vermífugo é freqüente na medicina popular. A planta apresenta cerca de 0.9 % de óleo essencial sulfurado, que seria o responsável pelo efeito anti-helmíntico dessa planta. Coimbra (1942:26) faz referência ao alho como vermífugo, usado no tratamento da ascaridíase e oxiurose em épocas remotas, hoje raramente empregado como anti-helmíntico. Quer (1978:887) recomenda de 20 a 30 ml do suco como vermífugo. Valnet (1972:135) em Aromathérapie faz referência ao alho como vermífugo (ascarídeo, oxiúro e tênia), recomendando várias formas do seu emprego para esse fim, como o sumo, na dose de 20 gramas em 200 gramas de leite, tomado em jejum.

Na medicina popular usa-se o alho em doses variáveis, sob as formas de sumo ou chá, evitando-se fervê-lo. Quer (1978:887) diz que o decocto de alho perde suas propriedades medicinais porque o seu óleo essencial é arrastado pelo vapor d'água. Este autor lembra o seguinte refrão: alho fervido, alho perdido.

O coentro está inscrito na Farmacopéia Brasileira (1959:250) onde consta como parte usada o fruto. As suas propriedades carminativa e estomacal são referidas pelos porém, citando Dioscórides diz: bebida una poca de su semiente com vino paso, extermina las lombrices del ventre (...). Como o coentro é usado para este fim na medicina popular, essa planta deveria ser melhor estudada a fim de justificar o seu emprego como anti-helmíntico, considerando que seu fruto contém óleo essencial, cujo teor varia de 0,20 a 1%, conforme a variedade e procedência. O coentro é geralmente, usado nas formas de infuso e decocto a 2,5 % na dose de 50 a 200 ml por dia, segundo Coimbra (1942:92). Valnet (1972:180) recomenda uma colher das de café de coentro para uma xícara de água, deixando ferver por 10 minutos. Tomar uma xícara antes de cada refeição. Como essa planta encerra óleo essencial, deve-se preferir o seu emprego sob a forma de infuso e não de decocto.

A erva-de-santa-maria está inscrita na Farmacopéia Brasileira I (1959:505) onde consta como parte usada a folha. Na Farmacopéia Brasileira II (1959:387) está incluída apenas a essência de quenopódio ou de erva-de-santa-maria, obtida dos ramos floridos e frutificados, devendo conter, no mínio, 60% e no máximo, 80% de ascaridol. O rendimento do óleo essencial e de 1 a 2%, sendo que o ascaridol, princípio anti-helmíntico, ocorre em todos seus órgãos, mas em maior teor no fruto. 

Hoje, praticamente está abandonado o emprego do óleo de quenopódio como vermífugo, devido à sua toxidez. Em dermatologia, porém, vem sendo usado, associado ao colódio, para tratamento local da helmintíase migrante (larva migrans), mais conhecida como "bicho-geográfico". Youngken (1959:387), que indica como parte usada o fruto dessecado, diz ser o quenopódio eficaz, tanto para platelmintos como nematelmintos. Este autor recomenda empregar o decocto a 5% ou a planta fresca misturada com mel, assim como o óleo essencial na dose única de 1ml, para adulto, em cápsula.  Coimbra (1942:133) indica como parte usada a folha, segundo a orientação da Farmacopéia Brasileira I, (1959:505) destacando como empregos medicinais: vermífugo, peitoral e vulnerário. Hoehne (1919:128) refere-se ao uso da planta toda, ou só as sumidades floridas, não só como inseticida ou anti-helmíntico, mas para vários fins. Valnet (1972:168) faz referência ao uso das folhas, dos frutos e sobretudo do óleo de quenopódio para combater verminoses, como ascarídeo, ancilóstomo, oxiúro e tênia. Mas, como foi mencionado acima, este óleo é muito tóxico.
Na medicina popular a erva-de-santa-maria é a planta referida como vermífugo, provavelmente pela facilidade de obtenção, uma vez que ocorre com freqüência em terrenos baldios. 

Com relação às hortelãs, algumas espécies vêm sendo cultivadas entre nós. Na Farmacopéia Brasileira II (1959:528) está inscrita a menta-japonesa ou hortelã-do-brasil, que segundo Moreira Filho (1972:58) é a Mentha arvensis Linné subsp. haplocalix Briquet var. piperascens Holmes, originária do Japão, sendo o Brasil o seu maior produtor, seguindo-se o Japão e a China. Este autor também faz referência à hortelã-pimenta, Mentha piperita Linné, cuja origem é incerta, cultivada no Brasil, porém seus maiores produtores são E.U.A. e Inglaterra, constando apenas na Farmacopéia Brasileira I (1959:508). As partes usadas são as folhas e a sumidade florida. Na medicina popular as hortelãs são empregadas indistintamente, podendo ser usada isolada ou associada a outras plantas medicinais, como o poejo e o pacová, sob a forma de chá ou em garrafadas.

A hortelã contém cerca de 1% de óleo essencial, cujo componente principal é o mentol. Este, quando procedente de fontes naturais é levógiro e quando produzido sinteticamente é racêmico. A hortelã é usada mais como carminativo e soporífero, de acordo com a maioria dos autores. Quer (1978:707), fazendo um histórico sobre a hortelã diz que, segundo Dioscórides, esta planta era empregada para combater lombrigas. 

É interessante observar a freqüência de seu uso na medicina popular, principalmente para crianças, embora não faça referência a esta planta como anti-helmíntica.

A losna, conhecida por absinto, está inscrita na Farmacopéia Brasileira I (1959:565), onde conta como partes usadas a folha e sumidade florida. Na medicina popular, porém, usa-se a planta toda, mesmo que não esteja florida. É uma espécie amarga, usada geralmente como aperiente, estomacal, emenagogo, abortivo e também como vermífugo, de acordo com citação de vários autores. Quer (1978:819), Uphof (1968:50), Coimbra (1942:133), Hoehne (1919:147), Shauenberg & Paris (1972:212) e Valnet (1972:97), destacam o seu uso para combater ascarídeo, oxiúro e tênia. Essa planta é tóxica, principalmente quando usada na forma de sumo, preferindo-se o chá para verminose. No comércio encontra-se o licor de absinto preparado com essa planta, cujo uso prolongado pode causar uma intoxicação grave (absintismo), provocando um processo de degeneração irreversível do S.N.C., segundo Shauenberg & Paris (1972:212).  Estes autores dizem que o agente responsável por esta intoxicação é a essência, rica em tuiona. A planta contém, ainda, um glicosídeo, um princípio amargo (absintina) que é uma lactona sesquiterpênica.

O mamoeiro está inscrito na Farmacopéia Brasileira I (1959:570), constando como parte usada a flor masculina, mas esta é empregada apenas nas afecções as vias respiratórias. Em medicina popular, na área pesquisada, usa-se como vermífugo o látex e a semente do mamoeiro. O látex contém várias enzimas, destacando-se a papaína que é uma enzima proteolítica inscrita na Farmacopéia Brasileira I e II. Trease (1972:172) diz que essa enzima é conhecida por pepsina vegetal, agindo em meio ácido, neutro e alcalino. Youngken (1959:758) referindo-se à papaína, destaca sua ação anti-helmíntica, devido a seu poderoso efeito proteolítico desintegrando o corpo do verme. Mingoia (1967:680) faz referência à ação nematecida da papaína, esclarecendo que a camada externa da cutícula dos nematóides consta de uma queratina resistente às proteases intestinais, mas não a outras enzimas proteolíticas, como a papaína, que digere essa queratina, provocando a morte dos parasitas, tais como o ascarídeo, tricocéfalo e oxiúro. Coimbra (1942:165) faz referência ao óleo obtido das sementes do fruto maduro como vermífugo eficaz, notadamente quando se trata do Enterobius vermiculares (oxiúro). Watt & Breyer-Brandwijk (1962:171) destacam a importância dessa planta como anti-helmíntica, recomendando o emprego das sementes sob a forma de pó ou de decocto, Hoehne (1919:42) faz também referência às sementes do 
mamão como vermífugo, que, segundo Caminhoá, as sementes, mastigadas, passam por 
vermífugas e tenífugas, bem como o lactescente do fruto e do tronco... Hoehne cita, ainda, 
Peckolt que afirma: As sementes gozam de grande fama como anti-helmínticas.
Na medicina popular usa-se o látex, empregado sob a forma de gotas, assim como as sementes, frescas ou dessecadas.

O pacová, está inscrito na Farmacopéia I (1959:640), onde consta como parte usada a semente contendo óleo resina, princípio este considerado como vermicida.  Na medicina popular, conforme pesquisa de campo, as sementes, geralmente, são usadas junto com o poejo e a hortelã, provavelmente para reforçar o seu efeito anti-helmíntico.  Embora o pacova ocorra entre nós, no meio popular há preferência pelas sementes adquiridas no comércio.

O poejo está inscrito na Farmacopéia Brasileira I (1959:742), onde consta como partes usadas a folha e sumidade florida. Na medicina popular verificamos o uso do ramo, independente da presença de flor. A composição química do poejo é semelhante à da hortelã, mas sua essência, segundo Youngken (1959:971), é mais rica em pulejona, podendo constituir 80 a 95% dessa essência. O poejo é mais usado como carminativo, mas Hoehne (1919:133) diz que misturado com hortelã, sob a forma de chá, é usado contra vermes intestinais em crianças. Na medicina popular é também indicado para crianças, na forma de chá, geralmente associado à hortelã e ao pacová.

A romãzeira está inscrita na Farmacopéia Brasileira I (1959:779) onde consta, como parte usada, a casca do caule e da raiz, destacando-se a peletierina como seu alcalóide principal. A propriedade anti-helmíntica da romãzeira é referida pelos autores em geral. Youngken (1959:775) faz referência à casca dessa planta como tenífuga, usada na dose de 2 g. sob a forma de decocto. Como essa preparação tem sabor desagradável, podendo causar náuseas, aconselha-se tomar bem frio, adicionando-se licor ou essência de menta.  Segundo Coimbra (1942:20) a dose indicada pode ser ingerida em duas ou três vezes, com intervalos de meia-hora: após duas horas, ministrar 30 g. de óleo de rícino. Convém lembrar que na medicina popular não é indicado purgativo depois da ingestão do decocto da romãzeira, e prefere-se prepará-lo com a casca do fruto. Possivelmente por ser menos tóxica. Aichelberg (1972:41) falando sobre a medicina da antiga Roma, menciona Catão indicando o sumo de romã contra tênia e ascarídeo.

A peletierina, princípio alcaloídico da romãzeira, é tóxica, podendo causar náuseas, vômito, vertigem e ambliopia, mas sob a forma de tanato é melhor tolerada, sendo indicada como tenífugo, na dose média de 0,25g. A peletierina, segundo Mingoia (1967:669) tem efeito semelhante ao do extrato do feto-macho, isto é, provoca paralisia dos vermes, particularmente da tênia, facilitando sua expulsão.

Outro problema resultante do estudo de plantas empregadas como anti-helmíntico, refere-se às plantas que permanecem, na medicina popular, como herança da medicina indígena do Brasil do período colonial. Autores como Piso, Martius e Pardal, que estudaram as plantas usadas na medicina indígena no combate às verminoses, não somente fazem referência à erva-de-santa-maria e mamoeiro, mas também ao angelin (Andira anthelmíntica Bentham, Leguminosae), gravatá (Bromélia fastuosa Lindley Bromeliaceae) e Ficus anthelmíntica, Martius, Moraceae. Estas plantas, porém, não foram relacionadas por não serem de uso corrente nas áreas pesquisadas, embora seja possível admitir seu emprego em outras regiões.

Quanto à erva-de-santa-maria, ela vem sendo usada desde os remotos tempos da América. Segundo Pardal (1937:109), o Chenopodium ambrosioides L. já era usado na América desde o México até o Rio da Prata e conhecido pelos astecas como "epazotl". Gonzalez (1965:37), estudando a medicina guarani-tupi do Paraguai pré-colonial, faz a seguinte referência: (...) la anquilostomiasis existia sin duda antes de la llegada de los españoles. Estas verminoses se trataban con infusion de kaaré (Chenopodium ambrosioides).  De acordo com Vogel (1973:166), os maias já utilizavam essa planta como vermífugo. No Brasil, século XVII, Piso (1948:365), estudando as plantas usadas na medicina indígena, encontrou o Chenopodium ambrosioides empregado como vermífugo. Com relação ao mamoeiro, segundo Martius (1979:242), o uso do látex dos frutos não maduros do mamoeiro já era conhecido pelos índios no combate às verminoses.

Conclusão

Das plantas empregadas na medicina popular como anti-helmíntico, somente a erva-de-santa-maria e o mamoeiro permanecem como herança da medicina indígena do Brasil do período colonial..

A ocorrência de princípios ativos, na maioria dessas plantas, justifica o seu emprego como vermífugo.

As plantas, não especificamente anti-helmínticas, como a hortelã e o poejo, são usadas associadas a outras plantas de ação anti-helmíntica.
 

Publicado originalmente em Ciência & Trópico  6 (1) Recife – Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais – 1978
 

Bibliografia

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