s
verminoses representam um dos problemas da saúde pública,
notadamente nas zonas de grande concentração demográfica.
Zucato
& Carvalho (1976:750) tratando das parasitoses intestinais dizem:
"As
verminoses constituem um dos aspectos mais importantes da patologia da
criança brasileira, particularmente pela grande disseminação,
chegando em certas coletividades a atingir 100% das crianças em
idade escolar".
Rodrigues
Filho et alii (1975:302) referindo-se ao tratamento das verminoses
intestinais dizem que o aparecimento de novas drogas veio alterar a
antiga orientação do tratamento, oferecendo armas poderosas
e de efeito mais seguro, embora o seu emprego ainda continue sujeito a
certas limitações.
Os quimioterápicos
usados atualmente para combater as verminoses intestinais são praticamente
isentos de reações secundárias, apresentando alta
eficácia contra parasitoses intestinais e fáceis de serem
ministrados. As plantas anti-helmínticas foram empregadas na medicina
clássica durante muito tempo conforme já foi citado por vários
autores, tais como Bouchardat (1881:141:450),
Chernoviz
(1890:207:693), Gilbert & Michel (1918:286),
Martin
(1929:327:499), Monteiro (1921:64) e Coimbra (1942:138:165).
Não obstante o grande
progresso em terapêutica das verminoses intestinais, a medicina popular
procura resolver este problema através do uso de plantas medicinais,
às quais são atribuídas propriedades anti-helmínticas.
Entre os fatores que justificam o uso de plantas medicinais no meio popular,
destaca-se o baixo nível sócio-econômico existente,
particularmente nas comunidades que se formam em São Paulo, resultantes
das correntes migratórias.
Pesquisas realizadas nas
referidas comunidades permitiram observar que os mecanismos de defesa contra
as verminoses são representados pelas formas de comportamento herdadas
de seus antepassados, somadas aos novos conhecimentos que vão sendo
adquiridos dentro dos grupos sociais a que passam a pertencer. Sabe-se
que a influência indígena deixou profundas marcas nas diferentes
áreas da nossa cultura, notadamente na medicina popular, quando
esta permanece viva e atuante em todas as camadas sociais e culturais das
sociedades contemporâneas.
O cruzamento cultural entre
o colono português e os diversos grupos indígenas estendidos
pela costa e o planalto paulista, fez com que os costumes fossem se modificando,
à medida que iam aceitando reciprocamente os elementos culturais
daqueles com os quais passavam a conviver. Evidentemente, o mesmo ia ocorrendo
em outras regiões do país, onde esses contatos e cruzamentos
étnicos iam se verificando e favorecendo o desenvolvimento de todo
o processo de aculturação hoje observado.
O presente trabalho visa,
portanto, contribuir para um melhor conhecimento de plantas
anti-helmínticas
empregadas na medicina popular, destacando-se as que permanecem como herança
da medicina indígena do Brasil colonial.
Material e método
As plantas empregadas como
anti-helmíntico foram coletadas nas seguintes favelas de São
Paulo: Vila Prudente, Heliópolis, Jardim Brasil, Aeroporto, São
Mateus e Parque Novo Mundo, durante o período de 1975 a 1977.
A identificação delas foi feita no Departamento de Botânica
do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo.
O trabalho de campo foi baseado no método de pesquisa de Sales (1976:4)
com algumas adaptações, mas obedecendo, basicamente, o seguinte:
a área (condicionamento geográfico); o tempo (condicionamento
histórico), considerando as características históricas
da comunidade; a população (condicionamento histórico-geográfico),
tendo em vista a distribuição do homem na área e sua
composição étnica e a cultura (resultante dos três
primeiros condicionamentos)
Resultados
QUADRO DE REFERÊNCIA
DOS ANTI-HELMINTICOS
Plantas mais usadas como
anti-helmíntico nas áreas pesquisadas.
No quadro abaixo estão
relacionadas estas plantas acompanhadas de referências taxonômicas,
parte usada na medicina popular e a indicação pela Farmacopéia
Brasileira.
| Nome
vulgar |
Binômio |
Família |
Ordem |
Parte
Usada
(Farmacopéia
Brasileira) |
Parte
Usada
(Medicina
Popular) |
|
aboboreira
|
Cucúrbita pepo
Linné.C.máxima Duchesne |
Cucurbitaceae
|
Cucurbitales
|
semente
|
semente
|
|
alho
|
Allium sativum Linné |
Liliaceae
|
Liliiflorae
|
|
bulbo
|
|
coentro
|
Coriandrum sativum
Linné |
Umbelliferae
|
Umbellifloae
|
fruto
|
fruto
|
|
erva-de-santa-maria
|
Chenopodium ambrosioides
Linné |
Chenopodiaceae |
Centrospermae
|
folha
|
parte aérea
|
|
hortelã
|
Mentha spp |
Labiatae
|
Tubiflorae
|
folha e sumidade florida
|
folha
|
|
losna
|
Artemisia absinthium
Linné |
Compositae
|
Campanulales
|
folha e sumidade
florida
|
planta toda
|
|
mamoeiro
|
Carica papaya Linné |
Caricaceae
|
Violales
|
|
semente e fruto verde
de onde se extrai o látex
|
|
pacová
|
Renealmia exaltata Linné |
Zingiberaceae
|
Scitamineae
|
semente
|
semente
|
|
poejo
|
Mentha pulegium Linné |
Labiatae
|
Tubiflorae
|
folha e sumidade florida
|
planta toda
|
|
romanzeira
|
Punica granatum Linné |
Punicaceae
|
Myrtiflorae
|
casca do caule e
da raiz
|
casca do caule,
da raiz e do fruto
|
As
plantas acima referidas são usadas sob as formas de chá abafado,
cozimento, sumo e em garrafadas. Esta é constituída por uma
combinação de componentes de origem diversa, destacando-se,
entre eles, as plantas mencionadas.
As sementes de abóbora,
comumente empregadas para combater solitárias ou tênias, são
torradas e moídas até formar uma paçoca. Como se trata
de planta sem toxicidade, a dose empregada pode variar de uma xícara
das de chá a um copo. O tratamento costuma iniciar durante a fase
da lua-nova, e a dose indicada é ingerida de uma só vez,
em jejum, com leite de coco ou de vaca, não se alimentando o indivíduo
durante o dia todo. À noite, toma-se um purgativo na dosagem de
uma colher das de sopa de óleo de rícino. Outros preferem
tomar esta dose do purgante parceladamente, durante o dia e a noite.
Caso a solitária não seja eliminada, repete-se o tratamento,
geralmente depois de um mês, coincidindo com a mesma fase lunar.
No caso do alho usa-se,
em geral, um dente que é espremido e tomado com leite, em jejum,
não havendo necessidade de purgativo. Também é usado
na forma de chá, deixando descansar uns dez minutos, tomando-se
em jejum. O alho pode, ainda, ser torrado, junto com a hortelã,
e depois preparado sob a forma de chá, que se toma o dia todo.
Com relação
ao coentro, usa-se apenas o fruto, verde ou maduro, fresco ou seco,
sob a forma de chá ou em leite quente, tomando-se três vezes
ao dia. O coentro é ainda ministrado sob a forma de sumo dos frutos
com leite, e tomado três vezes ao dia, sendo a primeira dose, em
jejum.
No caso da erva-de-santa-maria,
usa-se tomar, em jejum, o sumo da planta toda, na dose de uma colher das
de chá em meio copo de leite de vaca, para crianças de dois
anos, repetindo-se essa dose à noite. O tratamento é feito
durante três dias, sem necessidade de ministrar purgante, recomendando-se
alimentação leve. Com mais de três anos de idade, a
dose indicada é de uma colher das de sopa, nas mesmas condições:
para adultos, meio copo ou leite quente, tomando-se uma dose em jejum e
outra à noite. Há ainda os que preferem o chá dos
frutos, ligeiramente torrados. No meio popular, sabendo tratar-se de planta
tóxica, usa-se colocar o preparado, chá ou sumo, no sereno,
durante a noite toda.
A hortelã,
geralmente, é associada a outras plantas, como o alho, o poejo ou
o pacová, sob a forma de chá, tomando-se dose única,
em jejum, durante três ou quatro dias.
A losna pode ser usada
isoladamente, na forma de sumo, ou então associada a outras plantas,
em chá, preferindo-se este por ser julgado menos tóxico.
No caso do mamoeiro,
usa-se o látex do fruto verde e, ainda, as sementes frescas ou secas,
ingeridas com banana ou miolo de pão. A dose, dependendo da idade,
varia de uma ou mais gotas de látex, assim como as sementes, ministrada
durante alguns dias.
O pacová, comum
em garrafadas contra verminose, é também empregado na forma
de chá, isolado ou associado ao poejo à hortelã.
Com relação à romãzeira, prefere-se,
hoje, usar a casca do fruto, sob a forma de chá, porque consideram
tóxicas a casca do caule e da raiz.
Plantas anti-helmínticas
que permanecem como herança da medicina indígena do período
colonial do Brasil
Embora tenham sido coletadas
diversas plantas utilizadas como anti-helmínticas, apenas as seguintes
permanecem como herança da medicina indígena do Brasil Colonia:
erva-de-santa-maria (Chenopodium ambrosioides Linné) e mamoeiro
(Carica papaya Linné) .
ERVA-DE-SANTA-MARIA
Sinonímia vulgar:
quenopódio, erva-formigueira, chá-do-méxico, mastruz,
mastruço, mentrusto, cravinho-do-mato, erva-ambrósia, quenopodio,
Té de Mejico
(Esp.)
Chénopode, peperomie,
thé du Mexique, herbe aux vers (Fr.):
Teekraut, mexican gaesefuss
(Al.)
Mexican goossefoot, saltwort
(Ing.)
Chenopodoi (It.)
Paico, pasote (Venez.)
Yerba de Santa Maria,
paico (Arg.)
Kaaré, paico (Parag.)
Epazolt (Mex.)
American worm seed, jerusalen
oak (USA).
Referências taxonômicas:
binômio: Chenopodium
ambrosioides Linné:
Família: Chenopodiaceae:
ordem: Centrospermae.
Origem: América
Tropical e Subtropical, Antilhas, México e Américas Central
e do Sul.
Características
botânicas: planta herbácea anual ou bianual, muito aromática,
ramificada de 30 a 60 cm de altura. Folhas alternas, lanceoladas, de 3
a 6 cm. de comprimento: as inferiores irregularmente denteadas e as superiores
inteiras. Flores envolvidos pelo cálice. Semente lenticular com
cerca de 1 mm de diâmetro, escura e brilhante. Floresce no verão
e se reproduz por sementes.
Componentes químicos:
A planta contém óleo essencial rico
em ascaridol (60 a 70%),
p-cimeno, -terpineno, l-limoneno e metadieno (MERCK INDEX,1976).
MAMOEIRO
Sinonímia vulgar:
mamão, papaia, chamburu; mamão, papaia.
Mamón, papay
(Port.)
Papayer cmmum (Esp.)(Fr.):
Papaya (Fr.)(USA)
Papaw-tree, pawpaw, papain
(USA)(Ing.):
Melonenbaun(Al.)
Referências taxonômicas:
Binômio: Carica
papaya Linné:
Família: Caricaceae:
ordem: Violales.
Origem: América
Tropical (Claus 1968:370)
Características
botânicas: Planta arbórea, de tronco geralmente reto e
não ramificado, provida de látex branco e abundante. Folhas
alternas palmatipartida, grandes, com até 60 cm. de diâmetro
e longipeioladas. Segundo Joly (1976:402), referindo-se
ao gênero Carica diz: plantas só com flores hermafroditas
e femininas, ou, então, com flores masculinas e hermafroditas (raras)
em outras plantas. Segundo Cavalcante (1972:37),
o mamoeiro, com relação ao sexo, é "polígamo-dióico",
isto é, existem plantas exclusivamente femininas, as que dão
frutos normais e plantas masculinas, obviamente as que não frutificam
e são conhecidas por mamoeiro macho. Algumas vezes, entre as flores
masculinas, ou na extremidade das inflorescências do mamoeiro macho,
aparecem algumas flores hermafroditas com ovários fertilizáveis,
produzindo frutos com um longo talo, conhecido por mamão de corda
ou mamão macho. Frutos durante o ano inteiro. Reproduz-se por semente.
Componentes químicos:
O látex do mamoeiro contém várias enzimas, destacando-se
a papaína.
Discussão
A medicina popular, sendo
dinâmica e nunca estática, vai se modificando espontaneamente,
influenciada não só pelos meios intelectualizados e de comunicação,
como também pelo entrelaçamento de traços culturais
entre habitantes de um mesmo grupo social. Portanto a realização
de pesquisa de campo possibilitou um levantamento das manifestações
populares, nas áreas pesquisadas, relacionadas com o uso de plantas
medicinais.
O material botânico,
uma vez identificado, possibilitou a avaliação de suas propriedades
terapêuticas em função dos princípios ativos
que encerram. No caso do óleo-ação anti-helmíntica
é referida pela maioria dos autores. O mesmo acontece com o látex
do mamoeiro, que contém papaína, e a semente do seu fruto,
cujo óleo, segundo Coimbra (1942:165) é
vermífugo eficaz. Os óleos essenciais que, geralmente são
estomacais, carminativos e antissépticos, ocorrem na maioria das
plantas empregadas como anti-helmínticas. A sua ação
vermífuga, nem sempre referida pelos autores, poderia ser considerada
como uma propriedade adicional, isto é, própria das plantas
selecionadas.
A abóbora está
inscrita nas Farmacopéias Brasileiras I e
II onde consta como parte usada a semente fresca. Os autores, em geral,
como Pessoa (1946:407), Youngken (1959:1105). Font Quer (1978:773), Claus
& Tyler (1968:156), destacam a ação antihelmíntica
das sementes de abóbora, particularmente como tenífugo. A
sua eficácia na teníase é incontestável, não
sendo irritante e nem tóxica, permitindo elevar a dose sem problemas,
donde seu grande valor em pediatria. Pessoa (1946:407) diz: as sementes
de abóbora são usadas principalmente para crianças,
na dose de 50 a 100 g., sendo que depois de secas e trituradas com açúcar
são ministradas com leite açucarada, em jejum: o purgativo
pode ser dado duas horas depois. Quer (1978:773)
recomenda as sementes de abóbora mondadas, deixando apenas as amêndoas,
as quais se reduzem a uma pasta, adicionando-se um pouco de açúcar.
Segundo este autor, emprega-se 50 gramas de açúcar mascavo
para 130 gramas de sementes mondadas até formar uma massa homogênea.
Esta massa é dividida em três porções iguais,
ministrando-se uma porção em jejum, outra na hora do almoço
e a última na hora do jantar, não ingerindo outro alimento
durante todo o dia.
Passada uma hora, depois
da ingestão da última porção, ministrar ao
paciente 30 gramas de óleo de rícino.
Na pesquisa de campo verificou-se
que são usadas sementes de abóbora torradas, contrariando
assim a recomendação dos autores consultados. Por outro lado,
a dose empregada na medicina popular varia muito, mas nota-se uma certa
despreocupação a esse respeito, sabendo-se tratar de sementes
sem toxicidade.
Com relação
ao princípio ativo, Youngken (1959:1105)
diz: admite-se que os componentes ativos
são de caráter
resinoso e se acham localizados no embrião e na membrana verde da
semente. Shauenberg & Paris (1972:38) fazem referência a uma
substância isoprenóide, a cucurbitacina, cuja ação
anti-helmíntica é notável.
Convém lembrar que
o insucesso no uso das sementes de abóbora deve ser atribuído
à dose empregada, geralmente muito baixa. A sua ação
tenífuga é referida pelos autores, justificando seu uso na
medicina popular.
O
alho, cuja parte usada é o bulbo fresco, não está
inscrito nas Farmacopéias Brasileiras, mas seu emprego como vermífugo
é freqüente na medicina popular. A planta apresenta cerca de
0.9 % de óleo essencial sulfurado, que seria o responsável
pelo efeito anti-helmíntico dessa planta. Coimbra
(1942:26) faz referência ao alho como vermífugo, usado no
tratamento da ascaridíase e oxiurose em épocas remotas, hoje
raramente empregado como anti-helmíntico. Quer
(1978:887) recomenda de 20 a 30 ml do suco como vermífugo. Valnet
(1972:135) em Aromathérapie faz referência ao alho
como vermífugo (ascarídeo, oxiúro e tênia),
recomendando várias formas do seu emprego para esse fim, como o
sumo, na dose de 20 gramas em 200 gramas de leite, tomado em jejum.
Na medicina popular usa-se
o alho em doses variáveis, sob as formas de sumo ou chá,
evitando-se fervê-lo. Quer (1978:887) diz que
o decocto de alho perde suas propriedades medicinais porque o seu óleo
essencial é arrastado pelo vapor d'água. Este autor lembra
o seguinte refrão: alho fervido, alho perdido.
O coentro está inscrito
na Farmacopéia Brasileira (1959:250)
onde consta como parte usada o fruto. As suas propriedades carminativa
e estomacal são referidas pelos porém, citando Dioscórides
diz: bebida una poca de su semiente com vino paso, extermina las lombrices
del ventre (...). Como o coentro é usado para este fim na medicina
popular, essa planta deveria ser melhor estudada a fim de justificar o
seu emprego como anti-helmíntico, considerando que seu fruto contém
óleo essencial, cujo teor varia de 0,20 a 1%, conforme a variedade
e procedência. O coentro é geralmente, usado nas formas de
infuso e decocto a 2,5 % na dose de 50 a 200 ml por dia, segundo Coimbra
(1942:92). Valnet (1972:180) recomenda uma colher
das de café de coentro para uma xícara de água, deixando
ferver por 10 minutos. Tomar uma xícara antes de cada refeição.
Como essa planta encerra óleo essencial, deve-se preferir o seu
emprego sob a forma de infuso e não de decocto.
A erva-de-santa-maria está
inscrita na Farmacopéia Brasileira I (1959:505) onde consta como
parte usada a folha. Na Farmacopéia Brasileira
II (1959:387) está incluída apenas a essência de
quenopódio ou de erva-de-santa-maria, obtida dos ramos floridos
e frutificados, devendo conter, no mínio, 60% e no máximo,
80% de ascaridol. O rendimento do óleo essencial e de 1 a 2%, sendo
que o ascaridol, princípio anti-helmíntico, ocorre em todos
seus órgãos, mas em maior teor no fruto.
Hoje, praticamente está
abandonado o emprego do óleo de quenopódio como vermífugo,
devido à sua toxidez. Em dermatologia, porém, vem sendo usado,
associado ao colódio, para tratamento local da helmintíase
migrante (larva migrans), mais conhecida como "bicho-geográfico".
Youngken
(1959:387), que indica como parte usada o fruto dessecado, diz ser o quenopódio
eficaz, tanto para platelmintos como nematelmintos. Este autor recomenda
empregar o decocto a 5% ou a planta fresca misturada com mel, assim como
o óleo essencial na dose única de 1ml, para adulto, em cápsula.
Coimbra (1942:133) indica como parte usada a folha,
segundo a orientação da Farmacopéia Brasileira I,
(1959:505) destacando como empregos medicinais: vermífugo, peitoral
e vulnerário. Hoehne (1919:128) refere-se
ao uso da planta toda, ou só as sumidades floridas, não só
como inseticida ou anti-helmíntico, mas para vários fins.
Valnet (1972:168) faz referência ao uso das
folhas, dos frutos e sobretudo do óleo de quenopódio para
combater verminoses, como ascarídeo, ancilóstomo, oxiúro
e tênia. Mas, como foi mencionado acima, este óleo é
muito tóxico.
Na medicina popular a erva-de-santa-maria
é a planta referida como vermífugo, provavelmente pela facilidade
de obtenção, uma vez que ocorre com freqüência
em terrenos baldios.
Com
relação às hortelãs, algumas espécies
vêm sendo cultivadas entre nós. Na Farmacopéia Brasileira
II (1959:528) está inscrita a menta-japonesa ou hortelã-do-brasil,
que segundo Moreira Filho
(1972:58) é a Mentha arvensis Linné subsp. haplocalix
Briquet var. piperascens Holmes, originária do Japão, sendo
o Brasil o seu maior produtor, seguindo-se o Japão e a China. Este
autor também faz referência à hortelã-pimenta,
Mentha
piperita Linné, cuja origem é incerta, cultivada no Brasil,
porém seus maiores produtores são E.U.A. e Inglaterra, constando
apenas na Farmacopéia Brasileira I (1959:508). As partes usadas
são as folhas e a sumidade florida. Na medicina popular as hortelãs
são empregadas indistintamente, podendo ser usada isolada ou associada
a outras plantas medicinais, como o poejo e o pacová, sob a forma
de chá ou em garrafadas.
A hortelã contém
cerca de 1% de óleo essencial, cujo componente principal é
o mentol. Este, quando procedente de fontes naturais é levógiro
e quando produzido sinteticamente é racêmico. A hortelã
é usada mais como carminativo e soporífero, de acordo com
a maioria dos autores. Quer (1978:707), fazendo um
histórico sobre a hortelã diz que, segundo Dioscórides,
esta planta era empregada para combater lombrigas.
É interessante observar
a freqüência de seu uso na medicina popular, principalmente
para crianças, embora não faça referência a
esta planta como anti-helmíntica.
A losna, conhecida
por absinto, está inscrita na Farmacopéia Brasileira I (1959:565),
onde conta como partes usadas a folha e sumidade florida. Na medicina popular,
porém, usa-se a planta toda, mesmo que não esteja florida.
É uma espécie amarga, usada geralmente como aperiente, estomacal,
emenagogo, abortivo e também como vermífugo, de acordo com
citação de vários autores. Quer
(1978:819), Uphof (1968:50), Coimbra
(1942:133), Hoehne (1919:147), Shauenberg
& Paris (1972:212) e Valnet (1972:97), destacam
o seu uso para combater ascarídeo, oxiúro e tênia.
Essa planta é tóxica, principalmente quando usada na forma
de sumo, preferindo-se o chá para verminose. No comércio
encontra-se o licor de absinto preparado com essa planta, cujo uso prolongado
pode causar uma intoxicação grave (absintismo), provocando
um processo de degeneração irreversível do S.N.C.,
segundo Shauenberg & Paris (1972:212).
Estes autores dizem que o agente responsável por esta intoxicação
é a essência, rica em tuiona. A planta contém, ainda,
um glicosídeo, um princípio amargo (absintina) que é
uma lactona sesquiterpênica.
O mamoeiro está
inscrito na Farmacopéia Brasileira I (1959:570), constando como
parte usada a flor masculina, mas esta é empregada apenas nas afecções
as vias respiratórias. Em medicina popular, na área pesquisada,
usa-se como vermífugo o látex e a semente do mamoeiro. O
látex contém várias enzimas, destacando-se a papaína
que é uma enzima proteolítica inscrita na Farmacopéia
Brasileira I e II. Trease (1972:172) diz que essa
enzima é conhecida por pepsina vegetal, agindo em meio ácido,
neutro e alcalino. Youngken (1959:758) referindo-se
à papaína, destaca sua ação anti-helmíntica,
devido a seu poderoso efeito proteolítico desintegrando o corpo
do verme. Mingoia (1967:680) faz referência
à ação nematecida da papaína, esclarecendo
que a camada externa da cutícula dos nematóides consta de
uma queratina resistente às proteases intestinais, mas não
a outras enzimas proteolíticas, como a papaína, que digere
essa queratina, provocando a morte dos parasitas, tais como o ascarídeo,
tricocéfalo e oxiúro. Coimbra (1942:165)
faz referência ao óleo obtido das sementes do fruto maduro
como vermífugo eficaz, notadamente quando se trata do Enterobius
vermiculares (oxiúro). Watt & Breyer-Brandwijk
(1962:171) destacam a importância dessa planta como anti-helmíntica,
recomendando o emprego das sementes sob a forma de pó ou de decocto,
Hoehne
(1919:42) faz também referência às sementes do
mamão como vermífugo,
que, segundo Caminhoá, as sementes, mastigadas, passam por
vermífugas e tenífugas,
bem como o lactescente do fruto e do tronco... Hoehne cita, ainda,
Peckolt que afirma: As sementes
gozam de grande fama como anti-helmínticas.
Na medicina popular usa-se
o látex, empregado sob a forma de gotas, assim como as sementes,
frescas ou dessecadas.
O pacová, está
inscrito na Farmacopéia I (1959:640), onde consta como parte usada
a semente contendo óleo resina, princípio este considerado
como vermicida. Na medicina popular, conforme pesquisa de campo,
as sementes, geralmente, são usadas junto com o poejo e a hortelã,
provavelmente para reforçar o seu efeito anti-helmíntico.
Embora o pacova ocorra entre nós, no meio popular há preferência
pelas sementes adquiridas no comércio.
O poejo está
inscrito na Farmacopéia Brasileira I (1959:742), onde consta como
partes usadas a folha e sumidade florida. Na medicina popular verificamos
o uso do ramo, independente da presença de flor. A composição
química do poejo é semelhante à da hortelã,
mas sua essência, segundo Youngken (1959:971),
é mais rica em pulejona, podendo constituir 80 a 95% dessa essência.
O poejo é mais usado como carminativo, mas Hoehne
(1919:133) diz que misturado com hortelã, sob a forma de chá,
é usado contra vermes intestinais em crianças. Na medicina
popular é também indicado para crianças, na forma
de chá, geralmente associado à hortelã e ao pacová.
A romãzeira
está inscrita na Farmacopéia Brasileira I (1959:779) onde
consta, como parte usada, a casca do caule e da raiz, destacando-se a peletierina
como seu alcalóide principal. A propriedade anti-helmíntica
da romãzeira é referida pelos autores em geral. Youngken
(1959:775) faz referência à casca dessa planta como tenífuga,
usada na dose de 2 g. sob a forma de decocto. Como essa preparação
tem sabor desagradável, podendo causar náuseas, aconselha-se
tomar bem frio, adicionando-se licor ou essência de menta.
Segundo Coimbra (1942:20) a dose indicada pode ser
ingerida em duas ou três vezes, com intervalos de meia-hora: após
duas horas, ministrar 30 g. de óleo de rícino. Convém
lembrar que na medicina popular não é indicado purgativo
depois da ingestão do decocto da romãzeira, e prefere-se
prepará-lo com a casca do fruto. Possivelmente por ser menos tóxica.
Aichelberg
(1972:41) falando sobre a medicina da antiga Roma, menciona Catão
indicando o sumo de romã contra tênia e ascarídeo.
A peletierina, princípio
alcaloídico da romãzeira, é tóxica, podendo
causar náuseas, vômito, vertigem e ambliopia, mas sob a forma
de tanato é melhor tolerada, sendo indicada como tenífugo,
na dose média de 0,25g. A peletierina, segundo Mingoia
(1967:669) tem efeito semelhante ao do extrato do feto-macho, isto é,
provoca paralisia dos vermes, particularmente da tênia, facilitando
sua expulsão.
Outro problema resultante
do estudo de plantas empregadas como anti-helmíntico, refere-se
às plantas que permanecem, na medicina popular, como herança
da medicina indígena do Brasil do período colonial. Autores
como Piso, Martius e Pardal,
que estudaram as plantas usadas na medicina indígena no combate
às verminoses, não somente fazem referência à
erva-de-santa-maria e mamoeiro, mas também ao angelin (Andira
anthelmíntica Bentham, Leguminosae), gravatá (Bromélia
fastuosa Lindley Bromeliaceae) e Ficus anthelmíntica,
Martius, Moraceae. Estas plantas, porém, não foram
relacionadas por não serem de uso corrente nas áreas pesquisadas,
embora seja possível admitir seu emprego em outras regiões.
Quanto à erva-de-santa-maria,
ela vem sendo usada desde os remotos tempos da América. Segundo
Pardal (1937:109), o Chenopodium ambrosioides L. já era usado
na América desde o México até o Rio da Prata e conhecido
pelos astecas como "epazotl". Gonzalez (1965:37),
estudando a medicina guarani-tupi do Paraguai pré-colonial, faz
a seguinte referência: (...) la anquilostomiasis existia sin duda
antes de la llegada de los españoles. Estas verminoses se trataban
con infusion de kaaré (Chenopodium ambrosioides).
De acordo com Vogel (1973:166), os maias já
utilizavam essa planta como vermífugo. No Brasil, século
XVII, Piso (1948:365), estudando as plantas usadas
na medicina indígena, encontrou o Chenopodium ambrosioides
empregado como vermífugo. Com relação ao mamoeiro,
segundo Martius (1979:242), o uso do látex
dos frutos não maduros do mamoeiro já era conhecido pelos
índios no combate às verminoses.
Conclusão
Das plantas empregadas na
medicina popular como anti-helmíntico, somente a erva-de-santa-maria
e o mamoeiro permanecem como herança da medicina indígena
do Brasil do período colonial..
A ocorrência de princípios
ativos, na maioria dessas plantas, justifica o seu emprego como vermífugo.
As plantas, não especificamente
anti-helmínticas, como a hortelã e o poejo, são usadas
associadas a outras plantas de ação anti-helmíntica.
Publicado
originalmente em Ciência & Trópico 6 (1)
Recife – Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais – 1978
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