Maria Thereza Lemos de Arruda Camargo

 
 
 

Tropeirismo, farinha de milho e de mandioca: de que modo mudanças culinárias se associam a movimentos sociais e migratórios e o feijão tropeiro no Centro de Tradição Nordestina em São Paulo

Maria Thereza Lemos de Arruda Camargo
Centro de Estudos da Religião "Duglas Teixeira Monteiro" USP / PUCSP

 

Encontro Cultural de Laranjeiras
Aracaju, 2005





Desde épocas pretéritas as farinhasde milho e de mandioca vêm desempenhando importante papel na alimentação dos brasileiros, tanto das regiões tropicais como sub-tropicais, emprestando às dietas elementos nutricionais  reconhecidamente, valorativos. Elas emprestam, ainda, aos pratos que as levam como ingredientes básicos, seu toque de cultura regional, visto que tanto uma como outra têm território bem definido, demarcado geograficamente, pelas culturas das respectivas plantas das quais são derivados, ou seja:m: mandioca (Maniot sculenta Crant. - Euphorbiaceae) e milho (Zea mays, L. - Gramineae).  Os  regionalismos podem ser investigados sob diferentes perspectivas de pesquisa; inclusive, e a que me interessa neste trabalho, aquelas  relacionadas a movimentos sociais nos quais os grupos optam por dietas que têm por elementos básicos, as farinhas de milho e de mandioca.

Os movimentos sociais, de maior ou menor magnitude já ocorridos em diferentes partes do Brasil, a exemplo de Canudos e do cangaceirismo, que deixaram marcas indeléveis na história do nordeste e, presentemente, o movimento dos "sem terra" espalhado por todo o território nacional, estes movimentos, que levavam e ainda levam seus protagonistas a se deslocarem de uma região para outra, se instalando aqui e acolá, de forma improvisada, por tempo prolongado, certamente deram alguma contribuição para transformações culturais, no que toca aos hábitos alimentares, influenciando a culinária das regiões de ocorrência.

Monumento ao Tropeiro, painel de Poty Lazzarotto, em Lapa, ParanáEmbora, não entendendo o tropeirismo, que teve seu período áureo nos séculos XVIII e XIX, nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste, como sendo um movimento social, por não ter sido imbuído de espírito reivindicatório, ele pode ser entendido como um processo que envolvia o trânsito de indivíduos entre regiões do país, cujas atividades por eles desenvolvidas visavam os mesmos objetivos. De sua história, foi possível extrair dados que nos levaram a melhor conhecer os domínios das farinhas de milho e de mandioca e o porquê das preferências desta ou daquela farinha nas áreas em que o mesmo se desenrolou.

O tropeirismo, bastante pesquisado por estudiosos como: Afonso Arinos (1921), Carlos Borges Schimidt (1959), José Alípio Goulart (1961), Aluísio de Almeida (1981), Tom Maia & Thereza R. C. Maia (1981), Jaelson Bitran Trindade (1992), assim como outros autores, que abordaram o assunto e documentaram importantes aspectos desta atividade, de suma importância para a história da economia nacional, visto que era o tropeiro quem, no lombo de mulas, atravessava vastas regiões, negociando muares e levando cargas através de longas viagens, a fim de serem comercializadas.

Até o advento das estradas de ferro, diz Morse (1970:35, 151-3), as tropas continuavam a obra dos bandeirantes, ligando as regiões mais afastadas, inclusive comercializando as mulas do Rio Grande do Sul, que eram levadas para a feira de Sorocaba, a dezoito léguas da cidade de São Paulo, onde esse comércio era centralizado.  Entretanto, como refere Goulart (1961:168), não era só esta cidade o ponto de venda de muares.  Santos, também, era centro de negócios desses animais de carga, assim como Congonhas do Campo, em Minas Gerais onde, por ocasião das romarias, havia um mercado onde os mesmos já eram vendidos há três séculos atrás, embora outras pequenas feiras, em outras localidades, tenham sido instaladas.

Foram os tropeiros, também, responsáveis pela implantação e localização de estradas e cidades, nos séculos XVII e XVIII, conforme Kelly von Knoblauch, especialista em história das sociedades.

A dieta dos tropeiros deixou marcas na culinária do brasileiro das regiões por eles percorridas, no tocante ao uso das farinhas de milho e de mandioca, visto que os alimentos empregados no preparo de suas comidas tinham de ser duráveis e, sobretudo, secos, prevalecendo  farinhas.

Tendo como pano de fundo o Tropeirismo, o presente trabalho,  apoiado numa fitogeografia traçada pelos cronistas que andaram pelo Brasil, visa trazer à tona subsídios, os quais nos permitam entender melhor quais foram, a partir do século XVI, as áreas em que a mandioca e o milho e as respectivas farinhas deles derivados, tiveram seus domínios nas regiões onde esta atividade se desenvolveu, visando, ainda, avaliar a influência da dieta dos tropeiros  na culinária das mesmas regiões. Estendendo tal influência aos hábitos alimentares de nordestinos que vivem em São Paulo, este trabalho traça alguns comentários sobre o feijão tropeiro, prato presente nos cardápios dos restaurantes do Centro de Tradição Nordestina.

Espero que os dados aqui apresentados, sirvam de subsídios para estudos mais aprofundados, de forma a podermos cada vez mais, entender as preferências do brasileiro por esta ou aquela farinha, elementos estes tão presentes na mesa do brasileiro, não só das regiões aqui tratadas, mas de todo o território nacional.

 
 
 

Material e método

O trabalho orientou-se pelos seguintes critérios metodológicos:

1- consulta ao fichário Ernani da Silva Bruno e aos relatos dos cronistas estrangeiros que circularam pelas áreas de ocorrência do tropeirismo nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste, os quais  registraram a presença das culturas do milho e da mandioca  e a produção das respectivas farinhas;
2- registro de dados, obtidos nas mesmas fontes, referentes à dieta dos tropeiros, da qual originou o prato denominado feijão tropeiro;
3- pesquisa sobre o histórico do Centro de Tradição Nordestina em São Paulo e a presença do feijão tropeiro nos cardápios dos restaurantes ali localizados;
5- visitas ao CTN e entrevista com nordestinos freqüentadores do local; 
6- resultados e discussão; 
7- Considerações finais.

 

Resultados e discussão

As farinhas de milho e de mandioca nas áreas de ocorrência do Tropeirismo 

As áreas de ocorrência do  tropeirismo tratadas neste estudo, considerando sua importante participação na história da economia do Brasil, foram: Sul, Sudeste e Centro-Oeste, áreas estas que, por ocasião da chegada dos primeiros colonizadores, no século XVI, eram dominadas pelos índios guarani, divididos em várias nações do mesmo grupo etnolingüístico estes que, nas regiões sub-tropicais do continente sul-americano eram conhecidos, tradicionalmente, como cultivadores de milho.

 

Dos relatos dos cronistas que, a partir do século XVI, andaram pelo Brasil registrando o que viam no tocante aos costumes das populações das regiões mencionadas, foram levantados dados importantes relacionados às áreas de cultivo da mandioca e do milho, assim como sobre a preparação das respectivas farinhas e seu emprego na alimentação nas mesmas áreas, as mesmas transitadas pelos tropeiros.  Tais relatos forneceram, ainda, importantes  subsídios que permitiram, um melhor conhecimento  dos domínios de cada uma das farinhas, complementos indispensáveis na dieta dos tropeiros.                     

Dentre os primeiros dados obtidos, destaca-se os fornecidos por Pero de Magalhães Gandavo (1980:42,95) em sua História da Província de Santa Cruz, impressa em 1576 em Lisboa, referindo-se às coisas que são gerais por toda costa do Brasil, menciona a mandioca. inclusive descrevendo a maneira como era preparada a farinha  em São Vicente. Também, Gabriel Soares de Sousa (1974.:91) em 1587 dizia: Dá-se outro mantimento em todo o Brasil, natural da mesma terra a que os índios chamam de ubatin (...), nome que davam à mandioca.  Ainda no século XVI, carta do Pe. Manuel da Aorubas, enviada da Bahia, em 1549, aos padres e irmãos de Coimbra, dizia: (...) el mantenimiento común de la tierra es uma raiz de palo, que llaman mandioca por qual se hacen em São Paulo harina, de que comemos todos (Leite, 1954 vol.I:47).  Sobre este documento, pode-se perguntar qual seria a razão do padre fazer menção à farinha que comiam, feita em São Paulo, estando ele na Bahia?

Quanto à farinha obtida da raiz da mandioca, segundo Maestri Filho (1978:85), os primeiros portugueses que chegaram ao Brasil já puderam constatar que entre a gama de produtos derivados dela, o indígena produzia a farinha.  Esta era resultante das raízes colocadas de molho em áreas alagadas ou em uma depressão à margem de rios e de igarapés, visando tornar mais fácil a retirada das cascas.  Em seguida, as raízes eram raladas e passadas pelo tipiti, para compressão e expressão.  A massa obtida era peneirada e levada ao tacho do forno alimentado por fogo vivo onde, por meio de um rodo e de uma meia cuia, a mesma massa era revolvida e espalhada até sua secagem (Pereira, 1974:163, 169).  Essas operações eram denominadas farinhada.

Sobre a farinha-de-pau, como os portugueses chamavam a farinha de mandioca, disse Pero de Magalhães Gandavo (op.cit.:42-95): Este he o mantimento a que chamão de pão, com que os moradores e gentio desta Província se mantém.  Há todavia farinha de duas maneiras: huma se chama de guerra e outra fresca.  A de guerra se faz desta mesma raiz, e depois de feita fica muito seca e torrada de maneira que dura mais de hum anno sem se danar.  A fresca he mais mimosa e de melhor gosto: mas nam dura mais dous ou três dias, e como passa delles, logo se corrompe.  Desta mesma mandioca, fazem outra maneira de mantimentos que se chamam beijus, os quais sam de feição de obreas, mas mais grossos e alvos, e alguns deles estendidos da feição de filhós. 

Sobre a farinha-de-guerra, conforme Gabriel Soares de Sousa,(op.cit.:91) se diz porque o gentio do Brasil costuma chamar-lhe assim pela sua língua; porque quando determinam de ir fazer a seus contrários algumas jornadas fora de sua casa, se provêm desta farinha, que levam ás costas ensacadas em uns fardos de folhas (...), enquanto Rocha Pita, que relatou a Guerra dos Emboabas, ocorrida por volta de 1725, citado por Afonso de Taunay (1954:83), esclarece que a farinha-de-guerra era assim chamada por ter sido a munição de boca dos soldados.

Jean de Lery (1972:131), também, descreveu as farinhas que os indígenas preparavam, quando de suas viagens ao Brasil no século XVI.  Dizia ele: fazem farinha de duas espécies: um muito cozida e dura(...), usada nas expedições guerreiras, outra menos cozida e tenra(...) Embora estas farinhas constituam um bom alimento,(...) não se prestam em absoluto ao fabrico do pão. (...)prestam-se para papas, a que os selvagens chamam de mingau.  No entanto, Johann Nieuhof (1942:289) no século XVII, dizia: É com sua farinha que os brasileiros bem como portugueses, holandeses e negros crioulos fazem pão que, depois do de trigo, é de todos o melhor.

Sobre o que se comia em São Paulo setecentista, Alcântara Machado (1978:69) refere-se à farinha-de-mandioca, chamada pelos portugueses de farinha-de-pau.  Esta, certamente, procedia de áreas próximas, onde a planta poderia ser cultivada, se considerarmos que eram as condições climáticas e de solo que determinavam as áreas ideais para seu cultivo, fatores estes que os indígenas bem conheciam, conforme observou Martius (Schmidt, 1976:12), em 1818, ao transitar por esta província, verificando a agricultura pouco desenvolvida, onde a mandioca não dava bem, apodrecendo nos solos barrentos e frios das baixadas cobertas de matas.

Hoje, sabemos que tais locais ideais para o plantio da mandioca são as áreas planas, com uma declividade máxima de 10º, sem impedimentos físico e químico que interfiram no desenvolvimento da raiz, com textura variando de franco/arenosa a argilo/arenosa, com pH entre 5,0 e 6,0, desaconselhando solos sujeitos a encharcamento e excessivamente argilosos, concordando, assim, com a observação de Martius quanto ao solo de São Paulo, não propício para a mandioca.  Sabe-se, também, que são muitas as variedades de mandioca existentes no Brasil, sendo que as mesmas podem ser divididas em dois grupos: a mandioca brava, própria para a industrialização é imprópria para alimentação, devido ao alto teor de glicosídio cianogenético, com cerca de 0,02% a 0,03%; mandioca mansa com baixo teor do glicosídio (cerca de 0,005% )(FIBGE, 1980).

Spix e Martius, no século XIX, por não terem encontrado a mandioca em estado silvestre, chegaram a admitir sua origem africana, com base na lenda de Sumé  ou São Tomé divulgada por Anchieta, na qual  dizia que o Apóstolo São Tomé a teria trazido consigo para o Brasil (Pereira, 1980:373). Dizia Anchieta que em São Vicente estavam as pegadas de çumé que devia ser de São Tomé (Rodrigues, s/d:21). Também, disse Manuel da Nóbrega em carta: é tradição antiga que veio o bem-aventurado apóstolo São Tomé a esta Bahia e lhes deu a mandioca e a banana São Tomé (Cascudo, 1980: 723). 

Porém, sabe-se que a mandioca (Manihot esculenta Crant (Euphorbiaceae), tem sua origem na América do Sul (Brasil) (Joly &Leitão Filho, 1979:74)

Os domínios da mandioca e do milho e o preparo das respectivas farinhas, nos anos que se seguiram ao descobrimento, podem ser conhecidos quando nos inteiramos do que disseram os cronistas e viajantes, principalmente aqueles que percorreram no século XIX, as regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste, as mesmas palmilhadas pelos tropeiros. 

Sobre a farinha-de-mandioca, Martius (1981 v.I:184) observou que era de uso, na região norte de São Paulo, assim como, também, no Rio de Janeiro, norte de Minas, Mato Grosso, Goiás, Rio Grande do Sul, Paraná e Santa Catarina e no norte do país.  Concordando com este autor, Saint Hilaire (1936:64, 1931:245), em 1820,  observou que em Santa Catarina e Paraná, na região litorânea, alimentavam-se, quase exclusivamente de peixes frescos ou secos, mariscos e farinha de mandioca.

 Spix e Martius (1938, v.1:211) em sua Viagem pelo Brasil (1817-1820), passando por Minas Gerais, sem, contudo dizer qual a região mineira, disseram: planta-se aqui pouca mandioca, porém mais milho. Os habitantes daqui dizem que a farinha de mandioca é pouco saudável, tal como os habitantes do norte dizem da farinha de milho. Desta informação, subentende-se que não se tratava do norte de Minas, onde ele havia observado a mandioca predominando.

Teodoro Sampaio (1978:39), lá pelos idos de 1893, em sua Viagem à serra da Mantiqueira - Campos do Jordão e São Francisco dos Campos, esta, uma fazenda já em território mineiro, percorrendo área que já tinha sido centro de mineração de ouro, se deparou com o plantio de milho, junto a outros produtos agrícolas.

Saint Hillaire (1938:206), como botânico e grande observador, citado por Carlos Borges Schmidt (op.cit.:13), delimitou bem as áreas de cultivo do milho e mandioca em Minas Gerais, no século XIX. Percorrendo aquela região e verificando a agricultura regional, faz referência ao milho como a principal lavoura, mas, que nas áreas desertas do rio São Francisco, cedia sua vez à mandioca, região em que a farinha dela obtida tomava a preferência à do milho.  Porém, em sua segunda viagem por Minas Gerais a caminho de São Paulo em 1822 (1954:65-6), observou que na região da Serra da Juruoca, região sujeita a geadas nas partes mais baixas, plantava-se pouca mandioca, mas, muito milho, em decorrência da preferência na região pela farinha de milho por ser mais nutritiva e de melhor sabor, segundo informantes da região. Este botânico, em comentário, diz que essa preferência, certamente, não poderia dever ao fator geada, pois esta, se atacasse a planta da mandioca, não afetaria suas raízes.  Porém, Saint-Hilaire (1975:66), na mesma obra, sobre sua viagem nos arredores de Ouro Preto, em 1816, dizia que comia feijão preto cozido com toucinho e farinha de milho ou, às vezes de mandioca, denotando-se daí que ambas farinhas eram comuns nesta região, inclusive nas cercanias de Paracatu, também em Minas Gerais, onde encontrou lavouras de  milho e de mandioca (1944:269).

Ainda, aquele botânico (1939:29, 160), quando de sua passagem pelo Rio Grande do Sul, verificou que a mandioca era bastante cultivada, sendo que em  Santa Catarina, nos terrenos arenosos, a mandioca era o principal cultivo, assim como,  em sua viagem ao norte do Rio de Janeiro e já no Espírito Santo, verificou que a mandioca e o milho  eram os cultivos com os quais mais se ocupavam.   Tal fato foi, também, observado por Jorge Gardner (1975:41) na região da serra dos Órgãos, em sua Viagem ao interior do Brasil, em 1837, quando registrou o uso das duas farinhas, dizendo: Cobria a mesa uma toalha limpa, em que numa das pontas se amontoava uma porção de farinha de mandioca e, na outra, de farinha de milho.  Sobre uma destas se colocava grande prato de feijão cozido com um pedaço de toucinho no meio.  Também,  sobre a mandioca e sua respectiva farinha no Rio de Janeiro, Maria Graham, em 1821, ao passar por esta cidade disse: O grande artigo da alimentação aqui é a farinha de mandioca (...). Na mesa dos ricos é usada em todos os pratos que se comem, tal como comemos pão.  Os pobres empregam-na de todas as formas: sopa, papa, pão.    

Em 1818, Luis D'Alincourt (1953:45), engenheiro português, em sua obra Memórias sobre a viagem do porto de Santos à cidade de Cuiabá, traz detalhadas descrições dos trajetos por ele percorridos, nas quais faz referência aos hábitos dos habitantes de São Paulo relacionados ao consumo do milho, quando de sua passagem por esta província.  Passando pela região do morro de Jaraguay, há três léguas da cidade, diz que os moradores tinham como pão a farinha de milho, cujo preparo consistia em colocar os grãos de milho de molho em água até sua fermentação, pilando-o e torrando a farinha, a qual, misturada em água, forma uma bebida refrescante, à qual dão o nome de jacuba.  Ainda, nas imediações da cidade de São Paulo, só plantavam o milho o quanto bastasse para o sustento dos moradores.  D'Alincourt, no trajeto de São Paulo até Cuiabá, comentando sobre o que se plantava pelo caminho até aquela cidade como alimento, o milho estava sempre presente, o que não ocorria com a mandioca, pois esta só aparece quando chega à Província de Goiás, sendo que daí até Cuiabá, ambas culturas seguiam juntas  Este fato foi, também, observado por Kalervo Oberg (1949), citado por Schmidt (op.cit.:8), que verificou entre os Terena no sul do Mato Grosso, em fins do século XIX, que eles cultivavam o milho e a mandioca, embora considerassem a cultura da mandioca superior à do milho.

Certamente, o trajeto percorrido por D'Alincourt, que vai de São Paulo a Goiás, não apresentasse terras propícias para o cultivo da mandioca, razão da maior incidência do milho na região, o que vem a corroborar na idéia quanto ao fato do consumo da farinha de milho predominar naquela região, antes de atingir as áreas onde ambas plantas vicejavam. Todavia, vale lembrar que a farinha de milho que ele documentou em São Paulo era, na realidade, o fubá.

Em visita recente a Goiânia em 2004, o autor do presente trabalho, visitando o Mercado Central, verificou a gama enorme de variedade de farinha de mandioca, com grande variação de textura, às quais dão, entre outros nomes,  os de beijuzinho miúdo, beijuzinho branco, beijuzinho torrado, farinha baiana, bem fina e alva, cada uma delas apresentando aspectos diferentes, ao lado da farinha de milho bem amarela, também em beijus e do fubá. Perguntado aos comerciantes de onde procediam as farinhas, disseram eles ser das cercanias da capital, onde a mandioca e o milho são cultivados.  Deduz-se daí que nas imediações de Goiânia, há terras boas para ambas culturas, como ocorre  em áreas que circundam Cuiabá, conforme observou  D'Alincourt.
Em se tratando da farinha de milho, parece não estar sua origem nas práticas indígenas, como dizia Gilberto Freire (1987:124) que, segundo ele, teria sido da mulher índia, a acuña, que nos veio o melhor da cultura indígena, tendo sido ela que nos ensinou a manipular o milho, preparando com ele a farinha (abatiuí), a canjica (acanijic), a pamonha (pamuna), a pipoca.

Porém, sobre esta farinha, Otoniel Mota (1941: 43, 45), diz que a cunhã já conhecia e preparava o abati-ui, que seria o fubá.  Diz ele que, quando Fernão Cardim (1980), no século XVI se referia à mistura de farinha de milho e de arroz para se preparar o pão, estava falando de fubá de milho e de fubá de arroz e, portanto, a farinha de milho no Nordeste e Norte, por aquela época, seria o fubá.  

Sobre os costumes de Piratininga, diz Otoniel Mota, citando João Vamprê, no volume XIII da Revista do Instituto Histórico de São Paulo, sem detalhar dados bibliográficos, diz que a farinha de milho era feita com ele posto em fermentação, socado no monjolo, peneirado e torrado.  Diz Mota, então, tratar-se de costume nem de bugre nem de demais brasileiros, sendo, pois, da região de Porto Feliz, antiga Araritaguaba, a beira do rio Tietê e, sendo que dali, aos poucos, irradiou-se para regiões do leste, atingindo o sul de Minas. Mas, Otoniel Mota (op.cit.:38), embora afirme que a farinha de milho, o bandeirante de Piratininga, no século XVII, não comia, conforme constatou em exaustiva pesquisa em importantes documentos sobre a história de São Paulo, tais como nos 30 volumes de Inventários e testamentos, Atas do Conselho, Registro Geral, Documentos interessantes e Revista do Arquivo, coloca em discussão a época em que se começou a preparar a farinha de milho. 

Porém, por volta de 1726 já se falava em farinha de milho em Araraitaguaba, a Porto Feliz de hoje, de onde saíam as monções, visto que, por este ano saiu a expedição de Rodrigo Cezar de Menezes, a 6 de julho, levando como provisão,  farinha de mandioca e farinha de milho,   feijão e farinha de trigo.  A farinha de milho predominava sobre a de mandioca, por esta época, disse Taunay (1953:61).   

Em 1751, quando da viagem do conde de Azambuja a Cuiabá, ele teve que se deter por tempo prolongado em Araritaguaba, a fim de esperar que crescesse o milho e o feijão e se fizessem as farinhas e toucinhos.  Durante esta expedição, o Conde de Azambuja conta que nas proximidades do rio Pardo ficava a fazenda de Camapuan, onde era possível abastecer as canoas com mantimentos, pois tem sempre grande abundância de milho, de farinha do mesmo, feijão, arroz, porcos e vacas (...)  Contava Azambuja que (...) durante a viagem se costuma cozinhar á noite, o que há de comer no outro dia e porque se não pode acender o fogo ao jantar, se come frio o feijão cozinhado da véspera.  O virado paulista, prato preparado com feijão, toucinho e farinha era um grande recurso dos monçoeiros   (AfonsoTaunay, 1953:61).  Como o virado paulista não se faz com fubá, certamente a farinha empregada fosse, realmente, a farinha proveniente do monjolo que, possivelmente, já se fizesse em Araritaguaba por aquela época.

Hercules Florence (1977:34) em sua Viagem fluvial do Tietê ao Amazonas, diz que em 1826, em Porto Feliz, ao meio dia abdicava-se para jantar.  Comia-se a essa hora um prato de feijões feitos de véspera com toucinho e que, depois de aquecidos, misturaram-se a farinha de milho.  Em São Paulo, SP, em 1825, Florence diz: Não comem pão, em seu lugar usam farinha de milho ou de mandioca que sabem preparar com perícia, alva como leite, e muito boa ao paladar.  Fato que difere bem dos primeiros tempos desta cidade, quando era a farinha de mandioca que dominava, como já mencionado atrás, evidenciando que no século XVI, ainda não se conhecia farinha de milho em São Paulo.

Ao passar Martius (1981 v.I:166-184) pela região de Porto Feliz em 1817, fez menção à terra boa para o plantio do milho que produzia excelentemente, naquela região.  Seguindo para Minas Gerais, na imediações de Santana do Sapucaí, observou que, com a sucessiva míngua do rendimento do ouro, os fazendeiros passaram à lavoura, aproveitando as férteis terras para o cultivo do milho, comentando sobre a colossal provisão dessa gramínea que enchia os paióis até o teto, das fazendas da região, onde se produzia a farinha, a partir de seus grãos.  Em 1818, na região de Contendas, também em Minas Gerais, observou as numerosas e abundantes roças de milho. Região de terra preta, denominada massapé, tal como as da Bahia, que, segundo ele, a preferida para o cultivo dessa gramínea 

Continuando em Otoniel Mota (op.cit.), este autor diz que  nos 30 volumes dos inventários e testamentos pesquisados, não aparecem os termos canjica, fubá, angu e farinha de milho.  O termo pilão surge por volta de 1711.   Em Portugal, pilão seria o que aqui em São Paulo chamam mão de pilão, não sendo, pois, o vaso de madeira onde os cereais são limpos e, sim, o instrumento que os tritura e esfola.  O trigo poderia ser limpo a pilão, sem existir ainda o brasileiro pilão ou vaso de pilar.  Assim, segundo o autor, o termo pilão, teria tido no Brasil a translação do sentido, admitindo que pilão, sem o artigo que o precede, ou seja a pilão, entendido como vaso, é nosso, sem, contudo, determinar a época em que ocorreu tal transição de sentido.  Porém, acrescenta não haver dúvida quanto a ser o vaso inseparável do índio e do negro. Sua ausência nos inventários decorria, certamente, do fato de ter sido utensílio das senzalas ou das malocas, tão somente.

Otoniel Mota (op.cit.), diz, ainda, que na documentação pesquisada, não encontrou, também, o termos quirera e monjolo, este, imprescindível para se fazer farinha de milho, embora se soubesse que já existia em Santos desde o tempo de Braz Cubas, segundo a Historia do Brasil de Varnhagen, cuja palavra devia ser manjolo, conforme foi grafado por Saint- Hilaire, no século XIX, época em que as farinhas de milho e de  mandioca eram comuns em Minas Gerais, como relatou Orville A. Berby (1977:172), em carta a Capistrano de Abreu, em 1º de abril de 1900,  quando esteve no Brasil de 1870 a 1873 e de 1885 até 1915.  Em suas andanças entre São Paulo e Minas, comenta que a farinha de milho era a preferida.  Diz este autor que os antigos paulistas eram comedores de farinha de milho e angu, e até onde eles foram, encontram-se monjolos e rodas de fubá. Acrescenta que eram vistos até Diamantina, não tendo encontrado a farinha de milho fora da região de 'mineração.  Segundo ele, seguindo para o sul, a farinha de mandioca desaparece gradualmente. Ricos e pobres preparam a farinha de milho socando no monjolo, depois de macerado (e freqüentemente apodrecido, especialmente em São Paulo), os grãos, assando depois a massa num forno como o de mandioca.

Citando Sergio Buarque de Holanda, em Caminhos e fronteiras, Adriana M.Vaz de Oliveira (2004:292) diz que o monjolo de água veio do Extremo Oriente, não precisando, contudo a data de sua chegada.

Não há noticia, todavia, que revele quando o monjolo começou a produzir a farinha de milho no Brasil, embora se saiba que com ele, também, se preparava o fubá, ao qual se dava, também, o nome de farinha, como registrou Debret (op.cit.:177-8), no Rio de Janeiro na primeira metade do século 19 e Oliveira (2004:370) em Goiás, quando descreve o uso do monjolo para quebrar o milho e preparar o fubá e a farinha de milho.

Em 1818, Saint-Hilaire (1975:99) em Goiás, descreveu com pormenores essa máquina: a manjola ou monjolo, que também chamam de preguiça, já foi descrita por alguns viajantes: todavia não acho inútil dar aqui, em poucas palavras, uma idéia dessa engenhoca notável pela simplicidade.  Sobre uma peça de madeira vertical e imóvel é colocada, à maneira de uma gangorra, outra peça de madeira, móvel e horizontal; esta última é colocada em uma das extremidades como uma larga colher, e, na outra, é armada de um soquete bem resistente.  A máquina está sempre colocada como já disse, debaixo de uma pequena queda d'água.  O líquido, caindo na espécie de colher que, de um lado termina a viga oscilante, faz inclinar-se esta para o mesmo lado enquanto a extremidade oposta, armada na parte inferior com o soquete que descrevi, se ergue descrevendo um arco de circunferência; mas enquanto a extremidade escavada se inclina, a água escorre, o peso do pilão sobrepuja o da colher, a máquina range, e o pilão cai pesadamente com cocho destinado a receber o grão.

Passando este botânico francês (1974:164) pelo Rio Grande do Sul, em Tupanciretã, no ano de 1821, disse: Os habitantes deste distrito, quase todos estrangeiros, fabricam farinha de milho e, se servem  como em Minas, do monjolo (máquina hidráulica para quebrar o milho.

Nos Autos da devassa da Inconfidência Mineira, vol VI, p.45,  nas imediações de Juiz de Fora,  Minas Gerais, em 1816, citado por Saint-Hilaire (1975:56), consta o seguinte: A espécie de máquina denominada monjolo, faz ouvir seu monótono ruído à margem de um regato (...) É quase sempre no fundo dos vales que se constroem os ranchos e as habitações, porque aí se acham regatos e se podem represar as quedas de água necessárias ao movimento da máquina de que falei há pouco, e que é indispensável à fabricação de farinha-de-milho. Da mesma forma, também, no Rio de Janeiro, Parish Kidder (1972:131) documentou a presença de monjolos, com os quais era preparada a farinha. 

Johann Pohl (1976:110) em sua Viagem no interior do Brasil, descreveu a fabricação da farinha de milho, dizendo: molha-se e descasca-se o grão, pila-se, com a adição de água, mexe-se ao fogo brando numa frigideira de cobre ou (como se faz em Goiás) sobre a chapa de xisto quartzífero, e passa-se pela peneira.  Desse processo obtinha-se a farinha grosseira, pois a farinha mais fina, também chamada de fubá, era conseguida no moinho.  

Este depoimento é mais um atestado da confusão que havia na época, com relação ao que seria farinha de milho e fubá., visto que o mesmo ocorreu com  D'Alincourt,  em 1818, na mesma região, como também já foi referido  por Debret (1949:178), em 1816, no Rio de Janeiro, quanto ao fubá  que chamavam de farinha. Encontrou ele, também, naquela cidade, a jacuba que os paulistas tratavam como bebida e que nesta cidade era considerado alimento muito procurado pelos tropeiros, o qual era comido e não bebido, mistura a frio de farinha de milho, rapadura e água.  Nesta oportunidade, Debret  mostra a diferença que havia entre o fubá e a farinha de milho, dizendo que a farinha, simplesmente moída e separada do farelo por meio de uma peneira de bambu, chama-se fubá, enquanto a farinha, alimento dos homens livres é mais bem preparado.  Separa-se o milho da casca no monjolo; põe-se um pouco de água na calha para facilitar a separação da casca e impedir o grão de saltar.  Limpo, mergulha-se o milho noutras calhas, renovando-se a água sem cessar, durante dois ou três dias, ou mais.  Quando a fermentação começa, torna-se a colocar o milho no monjolo, a fim de fazer uma espécie de massa; esta é passada através de uma peneira em cima de um caldeirão raso com fogo em baixo.  A massa seca se reduz a um pó grosseiro, que constitui essa farinha com as quais se polvilham os alimentos e que é mais saborosa e nutritiva do que a farinha de mandioca.  é a Confusão, traz, ainda, Saint-Hilaire (1975:74), quando de sua passagem por Formiga, MG, durante sua viagem ao rio São Francisco, quando ele diz que o fubá é  farinha de milho simplesmente moída; a farinha é o milho separado do seu invólucro e transformado em pasta com o auxílio de uma máquina denominada monjolo.  Depois de seco em uma caldeira profunda ele é finalmente reduzido a um pó grosso.  Este mesmo autor, na mesma obra, à p.142, nas imediações de Paracatu, MG, conta: Colocaram-me numa dependência ampla, onde ficava localizado o monjolo, e enquanto escrevia, o milho ia sendo moído perto de mim, para fazer o fubá. Tal observação nos faz admitir que o monjolo era aí utilizado apenas para triturar o milho, para depois transformá-lo em fubá por meio de outros recursos.

Ainda Saint-Hilaire (1975:126,142), em sua viagem às nascentes do rio São Francisco, e, também, a Araxá e a Paracatu, em Minas, encontrou monjolos, sendo que em Paracatu, ele era usado para preparar, também, o fubá.  Deste relato é possível admitirmos que Saint-Hilaire não estivesse confundindo fubá com farinha-de-milho, visto que em suas citações ele faz referência a cada um desses produtos derivados do milho, pois ele conhecia o monjolo, assim como sabia que para se fazer o fubá era necessário o uso de um moinho, como descreveu John Mawe (1978:128), em sua viagem pelo interior do Brasil entre 1807 e 1810, quando diz ter encontrado na Fazenda do Conde de Linhares, em Minas Gerais, um moinho de milho, movido por rodas hidráulicas horizontais, de grande força.  

O  tropeirismo 

Como já foi mencionado na Introdução, a atividade dos tropeiros, teve seu apogeu nos séculos XVIII e XIX, sendo que a primeira rota regular ligando as vilas de Curitiba a Sorocaba, então pertencentes à Capitania de São Paulo, foi em fins do século XVII.  Esta atividade foi de suma importância para a história da economia do Brasil. Percorrendo caminhos e trilhas que ligavam as distantes localidades das regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste, os tropeiros foram responsáveis pelo desenvolvimento do comércio de mercadorias e de animais de carga, assim como foram os tropeiros, também, responsáveis pela implantação e localização de estradas e cidades, nos séculos XVII e XVIII. 

Trindade (1992:52) também menciona a várias cidades que surgiram quando da abertura do Caminho do Sul, como Sato Antônio do Registro, hoje Castro, Lages e ao sul de São Paulo, entre Sorocaba e Itararé, as vilas de Itapetininga e Itapeva da Faxina. Diz, ainda, este autor que o "país dos tropeiros" ficava nos Campos Gerais do atual Estado do Paraná e a "cidade dos tropeiros" era, sem dúvida, Sorocaba, onde havia a feira de fama nacional.

Geralmente, a tropa, nas regiões em estudo, pertencia ao tropeiro, homem livre que negociava o transporte de animais e cargas de terceiros como, também, comercializava com cargas de sua propriedade, às vezes adquiridas de outros, para serem revendidas. Porém, houve, também, o grande fazendeiro capitalista que comprava centenas de animais chucros, que depois de domados eram entregues  a um capataz que transportava as cargas, sob responsabilidade do patrão. Assim, se tornaram tropeiros muitos fazendeiros de café que, com tropas próprias, conduziam seu produto ao porto, seguindo seus capatazes, dormindo nos pousos e comendo o mesmo feijão com torresmo e carne-seca (Almeida, 1981:113). Vale lembrar, ainda, os tangedores de manadas, também conhecidos por tropeiros, além do que eram, também, chamadas de tropa, o conjunto das canoas das monções, conforme documentou Afonso de Taunay (1953:185): (...) levava três canoas pequenas, as quais vão adiante para pescarem, caçarem, longe do ruído que faz a tropa (...)e chamam a estas canoas de montaria.

Foram, em grande parte, os castelhanos os primeiros comerciantes de animais, tendo sido com eles que os paulistas aprenderam a lidar com o negócio de animais e usar o nome, visto que nenhum documento brasileiro apresenta as palavras tropeiro e tropa, no sentido de rebanho de animal.  Porém, argentinos e peruanos desde fins do século XVI e em todo o século XVII já as utilizavam.  Nesse período, por sua vez, já existia abundância de gado no Sul, até Curitiba, conhecidos por boiada. 

Havia uma hierarquia na tropa, como diz Trindade (1992:38), diferenciando social e economicamente seus integrantes.  O tropeiro propriamente dito, era o dono do negócio, ou seja, dos animais, podendo não ser único dono. Os camaradas da tropa eram aqueles que o acompanha, compreendidos de : capataz, os peões e os assalariados.  Às vezes o capataz fazia o papel de tropeiro.  

A diferença entre tropeiros negociantes de animais e aqueles que transportavam cargas, está que estes conduziam as tropas a maiores ou menores distâncias e estavam sempre andando, levando e trazendo mercadorias, enquanto os negociantes de animais iam parando pelo caminho, tendo domicílio em vários lugares, onde as  paradas eram obrigatórias.  Nem mesmo o casamento os obriga a se estabelecerem definitivamente num determinado lugar, visto que as esposas, geralmente, os acompanhavam, tendo, mesmo, seus filhos junto aos encostos (Almeida, op.cit.:156). 

Os tropeiros transitavam entre o interior e os portos marítimos, como o de Nossa Senhora da Estrela, na Guanabara e o de Santos.  O primeiro caminho de São Paulo a este porto foi a trilha dos indígenas e a segunda foi o caminho do Padre Anchieta, enquanto os indígenas do Paraíba desciam para São Vicente por Mogi das Cruzes e Bertioga.  Eram passagens estreitas, por onde passava um só homem.  Em 1850 existiam outros caminhos para o mar, nos atuais territórios paulista e fluminense, como aquela dos bandeirantes, saindo do alto da Mantiqueira atingindo Parati, outra de Caçapava para o porto de São Sebastião e porto de São Francisco, enquanto de São Bento de Sapucaí chegava-se a Ubatuba, passando por Pindamonhangaba e São Luís do Paraitinga, com ramais para Guaratinguetá.  Havia, também, o caminho de Bananal, em território fluminense, que atingia o mar por Jurumirim e, também, do porto fluminense de Mambucaba, de onde havia uma ligação com São Paulo por duas estradas, uma que passava pela serra do Quebra-cangalha, Cachoeira, Embaú e atingia o alto da serra de Itajubá, com ramais para Queluz e Silveiras e outra que chegava ao Salto e ponte do Paraíba entre Queluz e Rezende (Almeida, op.cit.:34).

De 1730 a 1880, o Rio Grande do Sul foi o único mercado produtor de muares para todo o Brasil do centro e do sul e para quase todo o Brasil dos outros quadrantes, diz Aluísio de Almeida (op.cit.:110). A partir desse período, os antigos compradores passaram a criar seus muares nos campos gerais de Curitiba, em Lages, em Santa Catarina atual e na Lapa no Paraná, onde os animais eram negociados em  pequenas feiras.


A feira de Sorocaba, em São Paulo, criada em 1750, com a instalação do Registro de animais, tornou-se importante centro de negócios devido sua localização geográfica que, segundo alguns observadores, estava no limite em que terminam os campos e começam as matas, razão porque Saint-Hilaire considerou os Campos Gerais começando em Sorocaba, seguindo até o Prata, com as matas de capões.  Desta forma, pode-se entender como sendo o encontro das regiões de pecuária com as de agricultura, local onde propiciaria um intercâmbio comercial de vários produtos, devendo-se considerar, ainda, a localização de Sorocaba em pleno Trópico de Capricórnio, que permitia poupar, tanto o nordestino de enfrentar o frio das regiões mais abaixo, como, também, livrar o gaucho dos calores do Brasil Central. Para Sorocaba iam mineiros, baianos, fluminenses, paulistas a comprar e paranaenses, riograndenses e argentinos a vender.  A última feira de Sorocaba ocorreu em 1897, fato que decorreu de um surto de febre-amarela, além dos problemas de ordem política que estavam ocorrendo no sul do país. (Almeida, op.cit.:42-3, 50, 64-5).  Também, a introdução da rede ferroviária, com as estradas de ferro Sorocabana, Mogiana e Paulista, que até o final do século XIX cobria extensa região do interior paulista, ao lado das estradas de rodagem.  Com isto Sorocaba perdeu o monopólio da distribuição de muares (Trindade, 1992:68).

O comércio de animais que vinham do Sul para a feira de Sorocaba deu origem a fortunas, permitindo aos seus donos posições políticas especiais, chegando muitos a receber títulos de nobreza, como Barão de Iguape, Barão do Tibagi, Barão de Antonina, Visconde de Guarapuava, entre outros (Trindade, 1992:44).

Com o descobrimento das minas no final do século XVII, grande número de pessoas se deslocou para a região das jazidas.  Por esta razão, havia interesse do governo português em povoar a região das minas, visto que, quanto mais se extraísse o metal nobre, maiores seriam as rendas em quintos. Foi assim que os mamelucos, esses paulistas de Piratininga, dada sua condição mestiça, filhos de colonos com índias da região, falando o tupi-guarani e dado o seu convívio com as comunidades indígenas, se tornaram mestres nas andanças pelos rios e sertões afora.  Tais condições, somadas aos treinamentos oferecidos pela Coroa no reconhecimento e nas técnicas de prospecção de metais e pedras preciosas",(...) culminou no miraculoso sucesso na descoberta dos mais ricos depósitos de ouro e diamantes conhecidos até o fim do século XVII, na região das Alterosas (Sevcenko, 2004:313-4). 

Monjolo Nos primeiros anos de mineração, já no século XVIII, havia carência de animais de carga.  Índios e negros escravizados e o mameluco assalariado, conforme diz Goulart (1961:28, 29), se tornaram os meios de transporte, não só nos curtos trajetos, como nas longas jornadas, transitando pelo célebre caminho do mar, que ligava Santos ao planalto de Piratininga, passando pela serra do Paranapiacaba, conhecido pelo caminho de torturas, onde o homem animalizado, deixava nas encostas das montanhas, os sulcos gravados com suas unhas.  

Também, na Bahia, como narrou Maximiliano (1958:469), quando de sua viagem ao Brasil, dos anos 1815 a 1817, viu grupos de doze, vinte e mais negros, carregando pesadas cargas, levadas do porto à cidade.  Também, em Atas da Câmara Municipal de São Paulo, em 1721, consta que os carregadores humanos alugavam-se para ir às Minas (...), gastando de 3 a 4 meses de viagem. Porém, não só entre Santos e São Paulo se viam as bestas humanas transportando cargas para as regiões das minerações, como narra Rodolfo Garcia (1956:135) (...) dos sertões da Bahia e de outros pontos mais ao norte, vinham eles vergados ao peso de cargas destinadas ao povo das minas.

A partir de 1699 resolveu-se tributar yas pipas de azeite de baleia que entrava na capitania, de forma a permitir que parte da arrecadação fosse empregada  para consertar o caminho de Santos, fazendo com que  a perigosa estrada para escravos-cargueiros, se transformasse em caminho com calçamento de pedras em certos trechos, para as cavalgaduras. Assim, em 1792, o futuro conde de Sarzedas dizia: Está finalmente concluído o caminho desde esta cidade até Cubatão da vila de Santos, de sorte que até de noite se segue viagem por ele.  A serra é toda calçada, e com largura para poderem passar tropas de bestas encontradas sem pararem (...) (Almeida, op. cit.:27-8), tendo levado, então, perto de cem anos para ser concluída.

Em virtude do aumento de tropeiros com a exportação do açúcar de Itu e Campinas, começaram a surgir ranchos para abrigá-los durante as viagens, por ordem dos últimos governadores da Colônia. Assim foram construídos 5 ranchos entre Santos e Itu.  O rancho de tropeiros de Cubatão tornou-se o maior de São Paulo, como diz Aluísio Almeida (op.cit.:30).  Também, entre Campos Gerais e Sorocaba os tropeiros encontravam pousos em ranchos abertos cobertos de palha e inúmeras rondas, terrenos com fechos naturais, bons para a guarda dos animais durante os pernoites (Trindade, op.cit.:60)

Na medida em que a mineração se expandia para o Oeste, iam aumentando as distâncias entre o interior e o litoral, assim como cresciam as necessidades de meios de transporte, o qual foi resolvido com a introdução do muar para enfrentar o problema, conforme diz Goulart (op.cit: 31), pois aqueles muares não existiam em São Paulo e em Minas Gerais e, nem mesmo na Província do Mato Grosso, citando D'Alincourt (1828).  Por esta época, esses animais eram comprados em outras Províncias.

Muitos paulistas, não seduzidos pelo ouro, preferiram tocar a atividade de capturar e negociar índios para trabalharem nas lavouras e nos engenhos. No extremo sul do País, encontraram nas savanas o gado solto, sem dono, como um presente a esperá-los, pois lá estavam cavalos e éguas, burros e bestas, bois e vacas, como disse Goulart (op.cit: 35), corroborado  por Tindade (1992:22), acrescentado, este, que as Missões jesuíticas no Sul, se aproveitavam desta situação, fazendo do gado sua maior riqueza. Apesar das dificuldades de tanger as manadas do extremo-sul para as regiões centrais, foi por volta de 1730 que teve início a exportação sistemática desses animais. Foi a partir dessa época que surge o muar, animal híbrido, resultante do cruzamento de jumento com égua ou de cavalo com jumento, para o desenvolvimento sócio-econômico de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso e Espírito Santo.  

Intensificou-se, assim, com a abertura da estrada para São Paulo, via Curitiba, o comércio de muares, tendo sido fortificada a estrada do Rio Grande junto ao mar.  E, partindo dos campos do Viamão, nome dado à região tributária da foz do rio Guaíba, iniciaram o povoamento do interior (Trindade, op.cit.:26)

A princípio, os preadores paulistas iam buscar os muares no Rio Grande do Sul, sendo que depois, muitos começaram a instalar currais naquela região, criando estâncias, as quais passaram a funcionar como intermediários no comércio desses animais. As primeiras instaladas no Sul do Brasil foram as dos Campos de Curitiba, ou dos Campos Gerais, no Paraná, formadas em fins do século XVII e início do XVIII, todos fazendo parte da Capitania de São Paulo, denominada Província a partir de 1822.  Eram de criatórios e engorda de animais.  Saint-Hilaire (1974) em sua viagem ao Rio Grande do Sul foi quem melhor documentou essa região, onde estavam as estâncias, percorrendo desde a parte costeira até o Chui, observando aí a produção de charque. Desta forma, com o desenvolvimento deste comércio, surgiu o sistema de transporte, a tropa de muares, atendendo as áreas de mineração e de lavoura de café.  

Assim, os tropeiros que escalavam a Mantiqueira, seguindo o caminho dos bandeirantes, logo atingiam Minas Gerais, alcançando São João Del Rei. Daí em diante, diminuíam os paulistas e eram os mineiros que tangiam as bestas até Vila Rica, ou, mineiros e baianos, deixando as terras do ouro, saíam à procura das de diamante para, daí, se afundarem nos Currais da Bahia, onde se juntavam aos vaqueiros do São Francisco, para seguirem em direção à feira de Santana.

Os tropeiros foram regionalizando hábitos alimentares que iam adquirindo em seu dia-dia, os quais os obrigavam a adotar durante as longas viagens, principalmente, durante os pousos, quando paravam para descanso e para se alimentarem.  No que tange à sua dieta, esta era, em geral, baseada em alimentos não sujeitos à ação do tempo, como o feijão, toucinho, fubá, farinha, café e carne salgada. Porém, quando os pousos aconteciam próximos a algum lugarejo, logo se viam à venda bacalhau e lingüiça, além de outros alimentos, os quais permitiam uma refeição mais variada.  No Rio de Janeiro eram preparados o toucinho, lombo  e entrecostos de porco salgado que duravam um ano (Goulat, op.cit.:121, 223). Trindade (op.cit.:124) diz que no meio do dia os homens que andavam pelo Caminho do Sul paravam para repouso e almoço, que chamavam de sesteada ou hora da bóia. Comia-se o feijão que era cozido com toucinho, durante a noite, no pouso, preparava o arroz com charque, que chamavam de charque carreteiro e a farinha era adquirida no caminho, assim como, galinha, mandioca, pão e até café.  

Na tropa de paulistas, o cozinheiro era o mais novo, geralmente, um menino de 12 anos para cima.  Num pouso ou num encosto ao ar livre, o cozinheiro descarregava sua bateria e o feijão, assim como o toucinho, os quais eram cozidos em um caldeirão suspenso por uma corrente ou correia presa a um tripé de ferro, sob o qual era aceso o fogo.  A mesa era o ligal, couro inteiro de boi, seco, sobre o qual colocava-se a farinha de milho ou de mandioca, os pratos de ferro batido ou  cuias de chifre e as colheres. À noite alcançavam o pouso que era quase sempre um rancho.  Durante a ceia, comia-se feijoada com bastante gordura e carne seca com farinha, conforme Almeida (op.cit.: 61, 76-7).

Sobre a comida denominada feijoada, nos faz lembrar A.J.Sampaio (1944:255), quando se refere à alimentação sertaneja, apontando traços que se assemelham à feijoada preparada para a ceia dos tropeiros.  Assim, dizia ele: Na forma mais simples, feijão cozido em água e sal; freqüentemente leva vários temperos e gordura ou azeite; não raro também, carne seca e, assim, crescendo o número de ingredientes (lingüiça, verduras, etc).  Sabe-se que a comida denominada feijoada, foi bastante mencionada pelos viajantes que, no século XIX, percorreram o Brasil.   

Por volta de 1867 (|Almeida, op.cit.:78), dos chapadões matogossenses vinham os tropeiros, passando pelo alto Araguaia, Paranaíba, Uberaba e Rio Grande.  Estes como descendentes de paulistas e sorocabanos, mantinham os mesmos costumes alimentares, inclusive se jacubavam, ou seja, tomavam jacuba, a mistura de rapadura, farinha de milho e água, bastante comum em São Paulo.  O cozinheiro, nos pousos, não tinha descanso, pois era ir logo colocando a cozinhar o feijão e a carne seca. Sobre um couro estendido ao chão, eram colocados os pratos de estanho e não de ferro batido, como acima mencionado.   

Sobre o charque que era exportado do Sul para regiões mais quentes do Brasil, por conservar-se por muito tempo e podendo ser transportado a bordo nas longas viagens, Luccock (1975:142), em sua passagem por Pelotas, RS, por volta de 1809, observa que era a carne em manta, salpicada com sal e seca ao sol.  Herbert Smith (1922:135) em 1882, passando por Pelotas, diz (...) tendo comido carne-seca difícil de diferenciar-se da fresca; sem o mínimo inconveniente passei tendo este por único alimento animal, comido como churrasco ou na universal feijoada.

A.J.Sampaio (op.cit.:238), ao tratar da alimentação sertaneja, diz que charque é conserva de gado ou peixe, salgada (curada) e seca ao vento e sol; no Nordeste, correntemente, o charque é chamado carne-seca (de gado). Comenta este autor sobre os produtos de primeira ordem, das xarqueadas, e os de qualidade inferior, a pequena industria; e por vezes a imperfeição do preparo ou conserva deficiente, dando lugar à carne-seca ardida (...)  Em 1787, Luís dos Santos Vilhena (1922:162-3), em Notícias soteropolitanas e brasílicas, referindo-se à carne salgada, conhecida por carne do sertão, dizia que esta, junto ao peixe e toucinho salgados, que vinda muita dela ardida do calor das embarcações, em que vem empilhada, concorria para a falta de saúde da Bahia, visto que, por ser mais barata que a fresca, era vendida aos pobres e aos ricos para darem aos seus escravos. 

Zaluar (1954:163), em 1861, referindo-se ao tropeiro procedente do Rio Grande do Sul, diz que estes, em Sorocaba, por ocasião, certamente das feiras, comiam o feijão do caldeirão e o velho churrasco.  Este churrasco era de carne-seca, como era de uso em Pelotas.

Jean-Baptiste Debret (1940, t.1:179) em sua Viagem pitoresca ao Brasil, no Rio de Janeiro de 1816/1831, diz: (...) estão sendo cozidos alguns feijões-pretos e um pedacinho de toucinho.  Este prato modesto, bastante suculento aliás, misturado a um bom punhado de farinha de mandioca bem amassada,forma um bolo substancial suficiente para alimentação diária de um preto. Tais dados concordam com Tschudi (1953:54-5), quando este comenta que naquela cidade,  por volta de 1857, o feijão preto, a carne seca e a farinha de milho, faziam parte da alimentação dos escravos.

Referindo-se à alimentação quando em trânsito, Georg Wilhelm Freireyss (1906:163), em Viagem ao interior do Brasil nos anos de 1814 e 1815, diz que no Rio de Janeiro: (...) levar consigo o trem de cozinha e, onde quiser pernoitar, mandar a sua gente preparar a carne-seca e o feijão preto.  Estes são os comestíveis quotidianos e, em vez do pão, usa-se no Brasil de farinha de mandioca (...) exceto no planalto e em toda Minas Gerais, onde se usa a farinha de milho.  Este cronista, certamente, não percorreu toda Minas Gerais, visto que se assim tivesse feito, verificaria que havia naquela província, áreas em que a farinha de mandioca substituía a de milho, como apontou Saint-Hilaire. Referindo-se, ainda, aos mantimentos que se costumava levar em viagem, Oscar Canstatt em Brasil a terra e a gente, em 1868, diz que em suas andanças pelo Brasil, levavam como mantimento, toucinho, feijão preto, farinha, sal e pimenta (2000:135).

Do exposto acima, fica evidenciado que até fins do século XIX, segundo relatos dos cronistas que andaram pelo Brasil, o feijão, a carne-seca e a farinha de milho ou de mandioca, eram os ingredientes básicos da dieta dos viajantes, assim como foi dos tropeiros e, certamente, dos povos que viviam nas localidades situadas ao longo dos caminhos por eles percorridos.

De uma toada do norte de Minas, foram extraídos os seguintes versos:

O tropeiro não goza prazer.
Sua vida contínuo penar;
Chega de tarde no rancho,
Que trabalho, meu Deus, vai me dar!
Comendo feijão com torresmo,
Escolher para cama um lugar;
Triste vida do tropeiro, coitado. (Goulart, 1961:140)

De acordo com Cristina Ávila, escrevendo sobre os Hábitos e costumes nos Arraiais mineradores da Comarca do Rio das Mortes, em Minas Gerais, o tropeiro apresentava-se como uma imagem lendária e peculiar à região mineira, aquele que conduzia animais levando mercadorias para os núcleos mineradores, existentes na época do ouro.  Diz esta autora que ele comia carne seca com feijão de corda, mais tarde denominado feijão tropeiro.  Acrescentava ao feijão a farinha de mandioca, angu de milho e torresmo, alimentos que se tornaram patrimônio afetivo da culinária mineira. 

O feijão tropeiro se expandiu por todo o caminho percorrido pelos tropeiros, certamente com variantes dependentes do que ofereciam as regiões, no tocante aos tipos de carne salgada, como no caso do Vale do Paraíba, conforme relatam Maia & Maia (1981:76), onde os tropeiros cozinhavam o feijão com pé e costelas de porco salgadas. sem esquecermos de mencionar a lingüiça, às vezes empregada no lugar da carne.

De Goiás, tangendo os versos, Coelho Vaz (2002:67), vai contando:

 

O tropeiro
Segue a guia
Mulas carregam bruacas com mantimentos reservados.
Alimentação perfeita,
-uma boa dose de cachaça -
rapadura,
queijo, paçoca, toucinho salgado 
e a sabor da
carne de manta 


Estes versos escritos por um filho de tropeiro, são como eco de suas conversas com o pai, como diz Ursulino Leão, prefaciando o livro.  Porém, denota-se destes versos, que os alimentos levados pelos tropeiros goianos, certamente, já do século XX, apresentavam elementos novos, nunca registrados por aqueles que estudaram o tropeirismo e que foram mencionados no presente estudo.  Tal fato nos leva a admitir a importância da realização de novas pesquisas sobre este tema, nas diferentes regiões brasileiras, onde esta atividade se desenvolveu.

Da dieta dos tropeiros, herdamos este prato batizado de feijão tropeiro, cujos ingredientes básicos são aqueles usados pelos tropeiros, tais como: feijão, farinha de milho ou de mandioca e carne-seca de gado e de porco, ou, ainda, lingüiça.  Este prato, agora inserido em um novo contexto, ou seja, fazendo parte dos cardápios dos restaurantes do Centro de Tradição Nordestina, torna-se objeto de algumas considerações quanto a transformações culturais na área da alimentação, tomando como amostragem a adesão do nordestino que vive em São Paulo a este prato típico das regiões Sul, sudeste e Centro-Oeste. 

 
 
 

O feijão tropeiro no Centro de Tradição Nordestina
 

Fundada em 1991, o Centro de Tradição Nordestina ocupa uma área de 25 mil metros quadrados, nos terrenos das várzeas do rio Tietê, no bairro do Limão, em São Paulo, cujo idealizador foi o deputado federal José de Abreu, fundador da Rádio Atual AM.  A idéia de sua criação deveu-se não só das necessidades humanas dos migrantes na busca do convívio identitário, como na necessidade de recompor de quando em quando o poder evocativo das lembranças, nos gostos, nos cheiros, nos sons, nos paladares, no encontro do outro, supostamente semelhante, assim como dar continuidade à idéia primeira, com a criação de uma rádio que servia, a princípio, somente, como meio de comunicação entre os nordestinos que vivem em São Paulo (Seabra, 1977)

Curiosamente, o CTN foi instalado em local onde não havia nordestinos, de forma que os moradores do bairro não vêm com simpatia sua presença  naquela área, devido ao congestionamento das vias de acesso e da instalação de barracas de comidas e bebidas nas imediações do Centro, em fins de semana.  Calcula-se que 25 mil pessoas circulam por lá, entre sexta-feira, sábado e domingo. Todavia, deve ser ressaltado que a freqüência àquele local não se deve só a nordestinos, mas, também, a outras pessoas que residem em São Paulo, inclusive turistas, que para lá se dirigem, a fim de desfrutar das opções de lazer oferecidas. 

As instalações compreendem o edifício da Rádio Atual, com um pequeno museu com peças do artesanato nordestino e o espaço reservado para as atividades de lazer, como: pequeno parque de diversões, área para  apresentação de shows e forró, uma igrejinha dedicada a frei Damião e a praça de alimentação.

Logo à entrada, estão as estatuas do padre Cícero e do frei Damião, assim como um mural enorme representando a Santa Ceia.

A praça de alimentação, com seus restaurantes típicos representado vários estados do Nordeste, é palco de verdadeira festa gastronômica.

Percorrendo os restaurantes, foi possível observar que o feijão tropeiro consta dos cardápios de todos eles, ao lado de pratos típicos nordestinos, como: baião de dois, buchada, carne de sol, sarapatel, cabrito, rabada, galinha caipira, frango frito e alguns complementares como: fava, mocotó, caldo de mocotó, caldo de piranha, codorna, batata e tripa.

O feijão tropeiro servido no Centro de Tradição Nordestina, prepara-se cozinhado o feijão mulatinho que, depois de cozido é separado da água e refogado na gordura onde foram fritos torresmo e lingüiça  Em seguida, acrescenta-se farinha de milho ao feijão, formando uma espécie de virado.  Este prato é arrumado em travessa, tendo ao centro o feijão guarnecido com o torresmo e ladeado com a lingüiça frita.  A carne salgada, tão do gosto do nordestino, foi aqui, substituída pela lingüiça, assim como a farinha-de-mandioca pela de milho.

 

Considerações finais

O tropeirismo, foi atividade de suma importância para a história da economia do Brasil, tendo vivido seu apogeu nos séculos XVIII e XIX. Percorrendo caminhos e trilhas que ligavam distantes localidades das regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste, foi responsável pelo desenvolvimento do comércio de mercadorias e de animais de carga, época em que o sistema de transporte dependia exclusivamente destes cargueiros.

Dos relatos dos cronistas que passaram pelo Brasil desde o século de seu descobrimento, percorrendo as mesmas regiões palmilhadas pelos tropeiros, registrando usos e costumes dos brasileiros, foi possível determinar as áreas de cultivo da mandioca e do milho, assim como demarcar os domínios das respectivas farinhas, através de seus usos na culinária das regiões de ocorrência do tropeirismo.

Quanto às farinhas de mandioca e de milho, sabe-se que os portugueses, quando chegaram à nova terra conquistada, encontraram a farinha de mandioca, que os indígenas lhes ensinaram como preparar. 

Dos relatos dos cronistas, os quais viram de perto onde as culturas  do milho e da mandioca eram desenvolvidas, ficou constatado que os primeiros habitantes da terra já sabiam que tais culturas dependiam de condições de clima e de solo para serem desenvolvidas.   Observações mais apuradas neste sentido, foram registradas no século XIX, principalmente,  por Spix e Martius, Saint-Hilaire e D'Alincourt,  que de certa forma, demarcaram as áreas de cultura de ambas as plantas nas regiões por onde passaram e, conseqüentemente, não só eles como outros cronistas que os seguiram, nos ajudaram a conhecer onde suas respectivas farinhas dominavam, assim como nos permitiram entender a influência que esses farináceos exerceram sobre a culinária em suas respectivas áreas de domínio.

Em São Paulo dos primeiros tempos, por exemplo, plantava-se milho, visto que os solos barrentos de Piratininga não deixavam vicejar a mandioca, embora  se soubesse que os primeiros colonizadores, habitantes do planalto, consumissem muita farinha desta euforbiácea, com a qual preparavam pães,  conforme foram os relatos de Gabriel Soares de Sousa, Jean de Lery, Pero Magalhães Gandavo, assim como  jesuítas,  no século XVI.  Estes dados nos levam a admitir que a mandioca e sua respectiva farinha, consumida no planalto de Piratininga, procedesse das aldeias jesuíticas das proximidades, onde  o solo, certamente, permitia seu plantio.

A partir do século XIX, cronistas, conhecedores de botânica, começam traçar uma fitogeografia da mandioca e do milho, na medida em que avançavam pelas trilhas que os levavam através das regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste.  Ficou, assim, constatado que em quase toda a extensão do caminho que ligava São Paulo a Goiás, intensamente transitado pelos tropeiros, predominava a cultura do milho, enquanto a mandioca só começava a aparecer, ao se aproximar de Goiás.  A partir daí, até Cuiabá, ambas culturas seguiam juntas, garantindo a produção da farinha de milho e de mandioca, que eram consumidas pelas populações locais.  

Constatou-se que predominava em Minas Gerais a cultura do milho em quase toda sua extensão, principalmente onde havia a terra preta, chamada massapé, boa para o cultivo desta gramínea, com exceção de algumas áreas ao norte,  nas partes desertas próximas ao rio São Francisco e nas imediações do rio das Mortes, onde a mandioca substituía o milho. Denota-se daí a grande área mineira de produção de milho, e, conseqüentemente, a preferência pela farinha dele derivada, o que nos permite entender o porquê de sua influência na culinária mineira, embora esta farinha disputasse com a de mandioca a preferência dos mineiros nas áreas em que ambas plantas eram cultivadas.

Tomando outra direção, viajantes observaram o predomínio da cultura de mandioca nos terrenos arenosos da região litorânea do Rio Grande do Sul, de Santa Catarina e do Paraná, influenciando a culinária destas áreas, onde as populações tinham no marisco, peixe fresco ou seco e farinha de mandioca, a base de sua alimentação.

Observou-se, que nas regiões percorridas pelos cronistas, segundo suas observações, existiam  verdadeiros nichos com terras ideais para serem cultivados, tanto o milho como a mandioca, a exemplo de áreas  próximas à serra dos Órgãos, no Rio de Janeiro e nas áreas limítrofes com o  Espírito Santo, assim como no caminho de Goiás até Cuiabá, ao sul do Mato Grosso,  norte de Minas Gerais, e, também, nas proximidades de Paracatu e de Ouro Preto ainda em Minas, locais onde se cultivava tanto uma como outra planta, cujas farinhas delas obtidas, eram empregadas na preparação de comidas ou, ainda, usadas como acompanhamento dos pratos no momento de servi-los, como registraram os cronistas.

Porém, quanto à farinha de milho, conforme estudiosos, o índio não conhecia, pois a farinha que a cuña preparava a partir do milho era abatiui, o fubá, que durante algum tempo, foi confundido com a farinha de milho.  Tal confusão persistiu por longo tempo, dificultando estudiosos a definirem com precisão o que era uma coisa e outra, impedindo, assim, melhores esclarecimentos com respeito às observações de alguns cronistas.  Porém, outros, descrevendo o preparo de cada uma das farinhas e os instrumentos utilizados, ofereceram com isto, subsídios que permitiram melhor entendimento, inclusive com relação ao monjolo, maquinário indispensável para o preparo da farinha de milho, que segundo alguns, era usado, também, para se fazer o fubá, fato, ainda, pouco esclarecido.  

A farinha obtida a partir do milho, supõe-se  ter tido seu início de produção em Araritaguaba, atual Porto Feliz, à beira do rio Tietê, em São Paulo, local de onde partiam as monções, levadas pelos bandeirantes, segundo dados fornecidos por Otoniel Mota, extraídos de exaustiva pesquisa que realizou na documentação existente sobre este assunto.  Nem  mesmo, foi  possível  precisar a época em que se iniciou tal produção, assim como não foi possível determinar quando o monjolo, originário do Oriente, foi introduzido no Brasil, pressupondo que teria sido por ocasião de sua chegada, que se deu início ao fabrico desta farinha, visto que este era o instrumento com o qual o milho era trabalhado, a fim de se obter a farinha.

1726 é a data mais remota encontrada na bibliografia consultada, que faz referência à farinha de milho em Araritaguaba, visto que naquele ano saiu uma monção levando como provisão, esta farinha. Todavia, a referência que se faz a ela, não pode ser confundida com o fubá, posto que este nunca era levado em viagens rio acima, por ser alimento perecível, mais sujeito à ação tempo.

De Araritaguaba, a técnica empregada no preparo da farinha de milho seguiu em direção a leste, atingindo Minas Gerais e daí se expandindo pela região Centro-Oeste, assim como, tomando outra direção, foi se fixando em todo o Sudeste e Sul, conforme foi relatado pelos cronistas que passaram por estas regiões.  

As observações dos viajantes ajudam a explicar as preferências  quanto ao uso das farinhas, nesta ou naquela área, marcando de forma indelével, sua presença na culinária das regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste, por onde passaram, também, os tropeiros, visto que sua dieta  mostrava bem aquelas preferências, que, ora era a farinha-de-milho, ora  a farinha-de- mandioca que, junto com feijão, constituíam a base de sua alimentação, à qual agregavam as carnes salgadas. Porém, quanto a estas carnes, constatou-se  que o Sul, durante o período do tropeirismo, produzia o charque, a carne de gado em manta, salpicada de sal, seca ao vento e ao sol, que era exportado por embarcações para as regiões quentes do país, onde o denominavam carne-seca ou carne-de-sol, como hoje se diz.  Porém, mais na região da Mata nordestina do que no sertão, esta carne era de preparo local, provavelmente aquela que era enviada para as áreas auríferas, no tempo das minerações. O Rio de Janeiro e as imediações de Araritaguaba eram os locais, onde os cronistas registraram o preparo  das carnes de porco,  das mantas de toucinho com as quais se faziam o torresmo, assim como o lombo, os pés e as costelas salgadas, carnes estas, de uso comum dos tropeiros do Vale do Paraíba. Acrescenta-se que na época do tropeirismo, as carnes salgadas eram, por vezes, substituídas pela lingüiça.  Assim, por meio da dieta adotada pelos tropeiros, em suas viagens pelas regiões brasileiras por eles percorridas, foi possível  constatar que a escolha desta ou aquela farinha empregada em suas comidas, variava segundo eram as áreas onde predominavam as culturas, ora de milho, ora de mandioca ou ambas culturas na mesma área. 

É marcante a influência que os  tropeiros exerceram sobre a culinária das regiões por onde passaram, deixando-nos como legado, o prato hoje denominado feijão tropeiro, sempre presente na mesa dos brasileiros destes quadrantes, assim como nos cardápios de restaurantes que insistem em difundir a culinária regional.

Quanto à introdução do feijão tropeiro nos cardápios dos restaurantes do Centro de Tradição Nordestina, subentende-se ser decorrente do convívio prolongado dos nordestinos com os paulistanos que, de certa forma, tal como eles, sempre foram acostumados a comer  farinha em suas refeições.  Assim, o feijão tropeiro, onde a farinha de milho substitui a de mandioca, tão da preferência do nordestino que vive no Nordeste, ajuda-nos a entender um pouco do que seja ser nordestino em São Paulo, pelo menos no que diz respeito a hábitos alimentares. 

O Centro de Tradição Nordestina, fundada em 1991, ocupando uma área de 25 mil metros quadrados, nos terrenos das várzeas do rio Tietê, no bairro do Limão, teve como idealizador o deputado Federal José de Abreu, fundador da Rádio Atual AM, criada para servir como meio de comunicação entre os nordestinos que vivem em São Paulo.  Segundo ele,  a idéia de criação CTN deveu-se não só das necessidades humanas dos migrantes na busca do convívio identitário, como na necessidade de recompor de quando em quando o poder evocativo das lembranças, nos gostos, nos cheiros, nos sons, nos paladares, no encontro do outro, supostamente semelhante.

Assim, o estudo realizado envolvendo o prato denominado feijão tropeiro, nas circunstâncias em que se apresenta, compreende uma amostragem representativa do papel da comida no processo de socialização entre grupos culturalmente diferentes, tais como os nordestinos, hoje paulistanizados se confraternizando em fins de semana com outros moradores da cidade, de origens várias. Tal estudo deixa, ainda, evidente uma das facetas das transformações culturais que envolvem os nordestinos deslocados de suas regiões de origem, qual seja, sua perfeita adequação aos padrões de preferência alimentar relacionados à  farinha milho e à farinha de mandioca, na terra hospedeira.

 

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