Maria Thereza Lemos de Arruda Camargo

 

 
 
 

Contribuição ao estudo etnobotânico de plantas do gênero Erythrina usadas em rituais de religiões afro-brasileiras
 
 

 Maria Thereza Lemos de Arruda Camargo



 
 
 
 
 
 
 
 

objetivo do presente trabalho é o estudo de espécies do gênero Erythryna - Leguminosae Papilionoideae, conhecidas por mulungu, usadas nas curas e nos rituais religiosos afro-brasileiros.
Visa, ainda, analisar a correlação existente entre os princípios ativos, atividades biológicas e os usos nas curas de doenças segundo a cosmovisão médica própria dos ambientes religiosos investigados

As espécies selecionadas para o trabalho foram:
Erythrina verna Velloso (E. mulungu Mar.)
E.corallodendron Linné
E. speciosa  Andrews

Ërythrina spp - Gênero pantropical e subtropical, com espécies bastante numerosas em ambos os hemisférios; no Brasil, melhor representado no Sudeste e, depois, na Amazônia.  Árvores de variadas dimensões, com madeira mole e flores grandes, vistosas, vermelhas ou mais raramente alaranjadas, só em E. amazonica Krukoff, róseas."(1)
Gabriel Soares de Souza (2) já registrara no século l6 comedoi (tupi), que quer dizer: cuman+= o feijão que, por si mesmo se solta, ao tratar da Erythrina verna Velloso (E. mulungu Mart.).
Mulungu corresponde a mulungo, segundo os comentários e notas de Pirajá da Silva sobre a obra quinhentista mencionada.
No século l8 já se fazia referência ao mulungu, também chamado argueiro, usado como emoliente e resolutivo.(3)
O Dicionário Português-Umbundo (4) apresenta o verbete mulungu: o mesmo que mulungo e equiparado ao "muave" e que se emprega em provas judiciais como prova de veneno, ombuloungo.  "Muave", planta venenosa conhecida por pau-dos feiticeiros, " üfila-nganga".
Umbundo é lingua falada no centro de Angola.
Considera-se, ainda, que na África existem espécies de Erythrina tais como: E.abyssinica (DC.) Lam., E. caffra Thumb. E. tomentosa (A. Rich.) R.Br., conhecidas por "murungu" pelo povo Shabala e pelo povo Manika e "mungu"pelo povo Sucuma. (5)
Segundo o Dictionary of modern yoruba (6), há referência à Erythrina senegalensis Chevalier, "Ologúnsesè",  nome dado a uma árvore dedicada ao deus da caça.
Cascudo (8) citando Ferreira (9), "o termo mulungu é empregado para designar o Ser Supremo em 25 línguas e dialetos do Leste africano, desde o Baixo Zambeze até o lago Vitória e da costa até o rio Luangua. Esse Ser Supremo vulgarmente tido como Criador, é associado ao trovão, ao relâmpago e à chuva."
Um estudo sobre a medicina indígena americana, diz que as plantas do gênero Erythrina eram usadas por índios da América do Sul e da América Central com propósitos tóxicos e medicinais.
É sabido que muitas plantas conhecidas dos negros na África, foram no Brasil identificadas por eles, passando a usá-las.  Entre elas, certamente estavam as várias espécies de Erythrina, principalmente a E.verna à qual foi dado pelos negros o nome vulgar de mulungu.
.Os dados sobre as espécies de Erythrina apresentadas neste trabalho foram obtidos através de pesquisa de campo e bibliográfica.
A pesquisa de campo compreendeu entrevistas com pai-de-santo de candomblé de tradição queto e com informantes conhecedores do assunto ora em estudo, fora de seus ambientes  de trabalhos religiosos.  As plantas indicadas pelos informantes foram coletadas e conservadas em herbário de referência, após identificação no Departamento de Botânica do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo.
O trabalho apresenta a relação das plantas selecionadas para o estudo, com indicação dos nomes científicos e vulgares em língua nacional e estrangeira, composição química, atividades biológicas, usos nas práticas médicas populares e nos rituais afro-brasileiros.
 Os nomes em língua estrangeira foram obtidos nas obras consultadas.
As informações apresentadas neste trabalho visam constituir subsídios para uma melhor compreensão e interpretação dos papéis desempenhados pelas plantas nos rituais de cura e rituais religiosos das religiões afro-brasileiras.
Material e método
Os critérios metodológicos foram orientados pela pesquisa de campo em candomblé queto da cidade de São Paulo e pela pesquisa  bibliográfica.
Dentre as espécies do gênero Erythrina, foram  selecionadas as seguintes:
               E. verna Velloso
               E.corallodendron Linné
               E. speciosa Andrews
 
Tal seleção decorreu do fato de serem essas as espécies mais conhecidas por mulungu, segundo a pesquisa.
As espécies botânicas são apresentadas com seus nomes científicos, família, distribuição, parte usada, nomes vulgares em língua nacional e estrangeira, composição química, atividades biológicas, usos nas práticas médicas populares e nos rituais afro-brasileiros.
A pesquisa de campo compreendeu entrevistas no candomblé de tradição queto Ileaxé fun mi, na cidade de São Paulo.
A pesquisa bibliográfica obedeceu ao seguinte critério metodológico:
  •  Leitura de obras relacionadas à Botânica, Etnobotânica, áreas de Ciências Farmacêuticas e Ciências Sociais.
  •  Leituras de obras acadêmicas sobre as plantas selecionadas para o estudo das práticas médicas populares de cura e dos rituais religiosos de influência e origem africana no Brasil.
  •  Outras leituras que serviram de suporte para discussões quanto a análise e interpretação dos dados levantados.
Resultados
Abaixo as plantas selecionadas para o trabalho, segundo Krukoff. (11)
Erythrina speciosa AndrewsErythrinaverna Velloso
E. mulungu Martius
Corallodendron mulungu (Martius) Kuntze
Erythrina flammea Herzog
Distribuição: Centro e Sul do Brasil e leste da Bolívia
Erythrina corallodendron Linné
E. spinosa Miller
E. inermis Miller
E. corallifera Solisbury
Corallodendron occidentale Kuntze
Distribuição: Jamaica e Haiti
Erythrina speciosa Andrews
E. poianthes ,Brotero
 E. graefferi  Tineo
E. poianthes var. subnermis  Lindley
E. reticulata Presl. 
Micropteryx reticulata (Presl.) Walpers
Stenotropis bertoroi Hasskarl
Corallodendron reticulatum (Presl.) Kuntze
Distribuição: da Bahia a Santa Catarina

 
Nomes vulgares:
Bico-de-papagaio, comedoi (tupi), molongo-branco, muchocho, mulungu, murungu, pau-coral, pau-imortal, sananduva, suinã, suiná, sapatinho-de-judeu.
África: ológùnsesè (ioruba)
Colombia: chocho, coral
Conchichina: cay-boung
Costa Rica: popróblanco
Cuba: bucare, piñondecosta, piñon espinhoso, eféke, yerin (lucumi), fosóngako (congo)
EUA: coral tree
Inglaterra: coralbeantree
Martinica: imortalle
México: arbolmadre
Taiti: atae
Venezuela: parichigue, peonia
 
 
 

Composiçãoquímica:

As Erythrina spp relacionam-se com as plantas do gênero Chondondendron e Strycnos , com alcalóides de ação curarizante.(l2)  Os alcalóides presentes nas Erythrina spp, eritrina e eritroidina, este constituído de dois alcalóides isômeros, alfa e beta-eritroidina, ambos dextrógeros.(l3)  Estão, ainda , presentes eritrocoraloidina e migurrina (glucóside análogo à saponina)(l4) e Da Matta faz referência à rotenona, substância cristalina com ação inseticida.(l5) Segundo Raffaut (l6) estão presentes os alcalóides: ërysodine, dihidrooerysodine, glaco-erysodine, tetrahidro-erysodine, reysonine, erysothiopine, erysothiovine, erysovine, erythraline, erytramine, erythratiodine, erythratine, dihidro-erythratine, erytrina base, alfa- erythroidine, beta-erythroidine, hypaphorine, hypoguavine." Os alcalóides eritratidina, erisodina e erisovina foram isolados da E.flacata. (36) (37)  Da espécie E.dominguezzii foram isolados: erisodina, erisopina e erisovina.(37) Da E. cristagalli, os alcalóides: erisolina, erisopina e erisovina. (37)  Das sementes da E. falcata foram isolados: erisopina, erisodina, erisonina e eritrotidina. (38) Há, ainda, o alcalóide erysocine de ação semelhante ao curare, isolado de diversas espécies de Erythrina. (l7) 

 
Atividadesbiológicas
São apresentadas aquelas indicadas nas obras consultadas e as obtidas em pesquisa de campo.
As sementes das plantas do gênero Erythrina contêm alcalóides de ação curarizante. As propriedades farmacológicas do beta-eritroidina e de seu derivado diidro são muito semelhantes da d.tubocurarina, alcalóide isolado do gênero Chondondendron.  O compostos diferem do curare em 3 aspectos: ação paralítica menos potente sobre as junções neuromusculares, duração mais breve da paralisia e eficácia oral.  Ao contrário do curare, causa depressão do SNC em doses clínicas.(l3)
O alcalóide eritrina é usado como antídoto da estricnina (l8) e a ingestão da casca pode causar morte.(l9)
A eritrocoraloidina presente nas cascas das hastes e folhas é de ação hipnótica, béquica e peitoral, não ocasionando forte hiperemia para o cérebro. (l5)
A casca tem ação purgativa, diurética e calmante nas excitações nervosas, e a folha de uso tópico, de ação antiodontálgica e para curar úlceras e hemorróida. (20) (21)
As propriedades da casca da Erythrina corallodendron Linné foram apresentadas em l930 pelo Laboratório Silva Araújo, a partir do extrato fluido ou da tintura, como sendo hipnótico e sedativo, recomendado como preferível ao ópio e à beladona, por provocar sono tranquilo, "sem determinar congestão dosanguepara os centros cerebrais." Acrescenta que acalma as tosses das bronquites e modera os acessos de asma.(23)

 
Usos naspráticasmédicas populares
Dizer que alguém merece chá de mulungu é publicidade bastante em diagnóstico psicopático.  Na sombra do mulungu não brincam crianças e sim meninos já taludos.  A penumbra da árvore enfraquece, debilita, esgota.  Por isso tranqüiliza os candidatos sôfregos da insanidade.(24)
A espécie de mulungu na Amazônia é a Erythrina corallodndron Linné.(l5) Nessa região o mulungu é confundido com molongo (Ambelania grandiflora Hub.), também conhecida por pepino -doce. (25) O verdadeiro mulungu é empregado (casca) contra excitações nervosas, na inflamação do fígado e baço.(35)
As plantas do gênero Erythrina já eram usadas pelos índios da América do Sul e América Central com propósitos tóxicos e medicinais, como hipnótico, diaforético e emenagogo, além de seu uso como veneno para a pesca.(10)
Erythrinaverna Velloso é usado no Estado da Paraíba na forma de decocto da casca no tratamento da asma e afecções intestinais.  (26)
A mesma espécie citada acima é empregada no Estado do Paraná como hipnótico e sedativo suave do sistema nervoso.(27)
Na Bolívia as sementes de E.corallodendron Linné são venenosas e a casca e talos machucados  empregam para entorpecer peixes.(28)
No México, a casca da mesma espécie citada acima é usada na bronquite, asma e nervralgias crônicas, além de ser hipnótica e sedativa.(l4)
Na Argentina, entre as espécies indígenas estão a Erythrina crista-galli Linné, também chamada "seibo" e considerada "flor nacional argentina". A casca dessa planta é empregada como cicatrizante, possuindo propriedade adstringente, narcótica e calmante.(29)(30) Quanto às flores e folhas, estas são também de ação narcótica e calmante. (31)

 
 
Usos em rituais de religiões afro-brasileiras
Bastide (32) apresenta o mulungu (Erythrina corallodendron Linné) empregado no catimbó do Ceará como peitoral, calmante, emoliente e nos candomblés da Bahia é usado nas bronquites e como sedativo das doenças nervosas.
Cascudo (33) também indica a mesma espécie usada no catimbó do Rio Grande do Norte, como peitoral e calmante das excitações nervosas.
barbatimão (Stryphnodendron sp)Ainda a mesma espécie, segundo Figueiredo (24) em pesquisa na zona Bragantina, próxima a Belém.  Empregam-na em rituais religiosos de influência africana e na pajelança.  Nas práticas de cura usam o decocto da casca para tratar inflamações de fígado e baço.
 Conforme informações do pesquisador e mestrando Ulysses Paulino de Albuquerque da Universidade Federal do Pernambuco, a espécie usada em rituais afro-brasileiros em seu estado é a Erythrina velutina Wild., é empregada no preparo de banhos de "descarrego", com o propósito de trazer bem estar e tranqüilidade ao usuário, acrescentando, ainda, seu uso em garrafadas medicinais, às quais associam angico (Anadenanthera colubrina), barbatimão (Stryphnodendronsp) e aroeira (Schinus sp).
EgungumMarco António da Silveira, pai-de-santo do candomblé Ile axe ewe fun mi, pesquisado, diz que mulungu é planta pertencente a Egungum, que segundo ele são espíritos, monstros.  Informa, ainda, que as folhas batidas com outras plantas são empregadas em rito fúnebre e para "descarrego", ou seja, ação de afastar forças negativas de pessoas ou ambientes.
No mesmo candomblé pesquisado o decocto feito com lascas do tronco ou da raiz do mulungu é oferecido aos iniciantes durante o tempo de reclusão exigido, a fim de deixá-los tranquilos e relaxados.
Cápsulas de pó de mulungu podem ser adquiridas em lojas especializadas em artigos para rituais afro-brasiliros.
Devido às dificuldades de se obter a espécie Erythrina verna Velloso (E. mulungu),  o pai-de-santo da casa pesquisada a substitui pela E.speciosa Andrews, comun nos jardins da cidade de São Paulo como planta ornamental.

 
Discussão
Observa-se que a espécie Erythrina verna Velloso a que deu origem ao nome vulgar mulungu não é, praticamente,  mencionada na literatura exaustivamente pesquisada, onde são destacadas a E.corallodendro Linné, em raros casos a E.velutina Willd. e E. glauca Willd. e em um único caso a E.speciosa Andrews, usada no candomblé pesquisado.
Sabe-se através dos autores consultados que a gama de alcalóides presentes no gênero variam, segundo as espécies.
Dai deduzir que a escolha da espécie a ser utilizada depende tão somente da ocorrência na região em que se encontra o usuário.  Exemplo do pai-de-santo em São Paulo que usa a E.speciosa Andrews, que por ser também ornamental, é comum nos jardins da cidade de São Paulo, portanto fácil de ser encontrada.
 Os dados levantados em pesquisa bibliográfica e de campo permitem observar a unanimidade quanto à propriedade hipnótica da casca do mulungu e seu emprego como sonífero e calmante das excitações nervosas , consumidas oralmente, por meio de diferentes preparados.
Os efeitos causados pela ação dos alcalóides da Erythrina em banhos não foram mencionados nas obras consultadas, as quais não fazem referências quanto à absorção pela pele. Os índios da Amazônia já usavam contra excitação nervosa.
O uso tópico como cicatrizante foi comprovado pelas obras consultadas.
O emprego em garrafada associada ao angico (Anadenanthera colubrina), planta de ação no Sistema Nervoso Central,  pode ocasionar alteração comportamental ao usuário.
Como veneno para a pesca, os índios americanos já tinham conhecimento e a ação ictiotóxica certamente deve-se à  rotenona presente nas plantas do gênero Erythrina.
Conclusão
Os dados levantados permitem concluir que o uso de diferentes espécies do gênero Erythrina não interfere nos resultados desejados pelos usuários, visto que ficou constatado que os alcalóides responsáveis pelos efeitos ocorridos, estão em todas as espécies, certamente por meio de doses variáveis.
Justifica-se, assim, o fato de serem empregadas as espécies de fácil alcance do usuário, como a E.speciosa Andrews, usada pelo pai-de-santo em São Paulo.
Deve-se considerar que as plantas, tanto em rituais religiosos como nos rituais de cura, nos sistemas de crença afro-brasileiros são de modo geral as mesmas que o povo conhece das práticas médicas populares.
No caso das espécies de Erythrina spp empregadas nas curas, tanto de uso interno como externo foram estudadas conforme mencionado neste trabalho.
A eficácia oral justifica-se pela ação hipnótica e tranqüilizante obtida pelo extrato fluido e tintura comprovados pelos produtos do Laboratório Silva Araújo.
Destaca-se a influência banto quanto ao nome vulgar mulungu, dado pelos negros, nome que corresponde  a uma  planta tóxica empregada na África em provas judiciais.
Publicado em: Revista do Instituto de Estudos Brasileiros, (IEB/USP), Universidade de São Paulo, 1997
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