Meleagro de Luís da Câmara
Cascudo e Namoros com a medicina de Mário de Andrade, num
estudo comparativo
Maria Thereza Lemos de Arruda
Camargo
Centro de Estudos da Religião
“Duglas Teixeira Monteiro”
USP/PUC-SP
presente
trabalho baseia-se em um estudo comparativo envolvendo Meleagro – depoimento
e pesquisa sobre a magia branca no Brasil, de Luís da Câmara
Cascudo (1898-1986), publicado em 1951 e Namoros com a medicina – a.
Terapêutica musical b. Medicina dos excretos de Mário
de Andrade (1893-1945), em 1939.
Embora vivessem em pontos
geograficamente distantes um do outro, mantiveram forte laço de
amizade, unindo-os em parceria quando de suas andanças pelo Nordeste,
atraídos por interesses que, embora distintos, se completavam. Câmara
Cascudo foi atrás da magia branca e Mário de Andrade atrás
da musica de feitiçaria encontradiça no sertão nordestino,
aquele palmilhado desde tenra idade por seu amigo potiguar.
A contemporaneidade que caracteriza
as pesquisas que encetaram, realizadas na primeira metade do século
XX, foi chave para este trabalho, visto que ambos, embora que indiretamente,
versaram seus escritos sobre aspectos da medicina popular, aqueles voltados
a práticas mágicas, com o envolvimento não só
das plantas medicinais, como da música de um modo geral. Assim,
acreditamos ser esta reunião, dedicada aos Estudos Cascudianos,
uma oportunidade ímpar, para colocarmos lado a lado Meleagro
e Namoros com a medicina para um estudo comparativo de seus conteúdos.
Em Meleagro, Câmara
Cascudo declarou que a idéia precípua da pesquisa que encetara,
era esclarecer com precisão o que se entendia, em sua época,
por catimbó e Mário de Andrade foi buscar em meio aos catimbozeiros
a música que os envolvia em rituais para, mais tarde analisá-la
e enquadrá-la como recurso terapêutico, visto que, discretamente,
exercia forte poder sobre os envolvidos com o catimbó.
Certamente, Câmara
Cascudo teria gostado de saber que aqui estaríamos, mais de meio
século depois, reunidos, a fim de discutir Meleagro – depoimento
e pesquisa sobre a magia branca no Brasil, resultado dos 20 anos vasculhando
o catimbó nordestino, onde estavam os “mestres”, doutores na arte
de curar os males da alma e do corpo e preparar feitiço. E,
mais ainda, com certeza gostaria de saber que teria ao seu lado o amigo
Mário de Andrade, aquele que trilhou os mesmos caminhos de seu Nordeste,
a fim de conhecer a musicalidade de seu povo e ver de perto o Catimbó.
Quanto a Mário de
Andrade, este, sem dúvida, já devia imaginar que estudiosos,
num futuro não muito distante, ao se debruçarem sobre sua
obra, não deixariam Namoros com a medicina de lado, livro
que reúne dois ensaios: Terapêutica musical e A medicina dos
excretos. Certamente, era sua intenção reeditá-lo,
conforme se deduz do material deixado por ele, hoje depositado no Arquivo
do Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo.
Porém, esta sua vontade não se concretizou, visto que a morte
repentina o levou prematuramente, aos 52 anos de idade. Provavelmente,
tivesse imaginado que um dia seu livro viria à baila, pois os assuntos
ali tratados, no mínimo intrigantes, estavam bastante distantes
daqueles aos quais se dedicava rotineiramente, como poeta e ficcionista,
como musicólogo, crítico literário e de artes plásticas,
também interessado pela literatura de cordel, procurando sempre
acompanhar a produção poética dos trovadores nordestinos.
Em Terapêutica musical,
Mário de Andrade se dedicou à análise do valor da
ação fisiológica da música, particularmente
dos instrumentos musicais, no íntimo dos indivíduos, tanto
naqueles que a escutam, como naqueles que a produzem. Relatou, ainda, experiências
em hospitais psiquiátricos, com resultados surpreendentes. Quanto
à Medicina dos excretos, o autor tratou da aplicação
terapêutica de excrementos humanos e de outros animais, bastante
difundida na medicina popular no Brasil. Baseado em ampla bibliografia,
o autor foi buscar as raízes dos fatos observados e relatados por
seus informantes, em autores nacionais e estrangeiros, mormente portugueses.
Para a realização
do presente estudo comparativo, foram delimitados 3 campos de interesse
para análise comparativa, a saber:
1- Dos critérios
metodológicos adotados pelos autores para a realização
das pesquisas de campo e bibliográfica e organização
da documentação;
2- Do posicionamento crítico
no julgamento de valores culturais e sociais, relacionados aos objetos
das pesquisas.
3- Da contribuição
de suas obras para estudos correlatos.
Meleagro Depoimento e
pesquisa sobre a magia branca no Brasil
O catimbó no Nordeste
do Brasil permanecia inalterado na confiança popular, segundo o
autor, com suas receitas vegetais, despachos, tecendo amor, provocando
a morte. Entendeu que a feição mais decisiva dessa manifestação
folclórica era a da feitiçaria européia, onde se dispensava
a iniciação. Porém, salientou que o feitiço,
não tinha nada a ver com o diabolismo bruxo europeu, com suas invocações
e pactos com Demônio.
No íntimo do Catimbó
estava a presença dos ensinamentos sobre a flora transmitidos pelos
índios, sendo que seus mestres foram ex-escravos, cujas vidas sem
história, ressurgiam como soberanos nos reinos da Vajucá
e de Juremal. Os mais antigos mestres do catimbó eram negros. Segundo
Cascudo, teria sido influenciado, na primeira fase, pelo catolicismo e,
posteriormente, na época de sua pesquisa, pelo espiritismo com seu
vocabulário, cerimonial e dialética catequizante .
A fitolatria, com destaque
para a planta jurema, era um dos pontos altos do universo catimbozeiro,
cujo nome catimbó era moderno, quando Cascudo, em 1928, iniciou
sua pesquisa. Nos séculos XVIII e XIX, segundo ele, dizia-se
beber
jurema ou adjunto da Jurema, entendido como reunião, sessão
ou agrupamento. Faziam a bebida com a jurema (Mimosa hostilis Benth,
Leguminosae) e bebiam-na. Era remédio, alegria, desabafo e sublimação.
Bebiam, amavam, sonhavam em reuniões clandestinas. A jurema, através
da possessão, fazia perpetuar a memória dos mestres que viveram
no Pernambuco e na Paraíba naquele século e mesmo antes.
Eram dotados de poderes extraordinários, podendo tornar-se invisíveis,
atravessar quarteirões com um único salto, serem videntes,
curadores, telepatas (Carvalho, 1989). “Beber
jurema” continuou como sinônimo de feitiçaria e de reunião
catimbozeira.
As plantas que curam, conhecidas
dos pajés, juntavam-se às tradições do
bruxo europeu e do negro, também grande conhecedor dos segredos
das ervas, assumindo a posição do mestre orientador, o dono
dos segredos, uma constante etnográfica de grande poder psicológico,
segundo Cascudo. Acentuava-se o receituário de procedência
vegetal, chás, infusões, fricções, fumigações,
ou traziam junto ao corpo um amuleto, orações fortes, lasca
de jurema ou outra madeira sagrada que tivesse passado pelas cerimônias
votivas.
O fundamento da magia no
catimbó, conforme viu Cascudo, ligava-se à velha concepção
universal da continuidade simpática. Entendia-se que o homem era
uma unidade indivisível e tudo que lhe pertencia ou sofria contato,
fazia parte de seu todo, como roupa, cabelo, sangue, saliva, etc., constituindo
elemento vivo, mesmo depois de destacado e distante do corpo. Qualquer
ação sobre esses fragmentos refletiria sobre a pessoa.
1-Dos critérios
metodológicos adotados pelo autor para a realização
das pesquisas de campo e bibliográfica.
Câmara Cascudo,
nesta sua obra, deixa bastante clara a obediência a uma metodologia
própria, fundamentada em dois princípios básicos:
o conhecimento adquirido através de incansáveis leituras
e sua experiência de sertanejo, marcada pela convivência direta
com os costumes não só do sertão, como, também,
com a cidade. O fundamental era: Registrar o que foi visto, como já
enfatizava logo quando de seus primeiros escritos. É pela
simplicidade, pela convivência que Cascudo acreditava poder ver as
coisas que os outros intelectuais eram incapazes de perceber, comenta (Neves,
2001).
A pesquisa bibliográfica
e documental e depoimentos orais era sua arma de pesquisa. Dizia
que a melhor escola era a liberdade, tendo descoberto a tempo o perigo
de se filiar a uma corrente ou um pesquisador, o que implicava em aceitar,
também, os defeitos dele. Porém, deixou clara sua preocupação
em se deter na análise dos dados recolhidos de seus contatos com
os informantes e das leituras que fizera no decorrer de 20 anos de pesquisa
sobre a magia branca. Deixou evidenciar, ainda, sua vasta erudição,
conforme é possível ser observado quando percorremos as inúmeras
referências bibliográficas apresentadas em todo o corpo do
livro (Gigo, 2006).
Durante os anos de pesquisas
sobre magia branca, Câmara Cascudo foi acumulando dados recolhidos
de suas andanças atrás de pistas que o levassem a melhor
entender este aspecto do folclore nordestino. Tais dados foi reunindo em
crônicas sobre o que via e ouvia quando de suas pesquisas, as quais
eram publicadas em jornais do Rio Grande do Norte. Os registros em crônicas
significavam para ele, Preparar os elementos da Posteridade, como costumava
dizer (Neves, 2001:2). A posteridade fará sua casa com o material
que juntamos no presente (Cascudo, 1952-1956).
Foi intensa sua correspondência
com Mário de Andrade: desde 1924 trocavam cartas. Insistia
para que seu amigo fosse ao Rio Grande do Norte para comer, beber, respirar
e ver o Nordeste. Típico. Autêntico. Completo
(Neves, 2001:4). Tendo manifestado o desejo de atender ao convite
do amigo, em carta de 26 de setembro de 1924, afirma ter “enorme fome”
pelo Norte. Em 26 de junho do ano seguinte, confessa:
Meu Deus! Tem
momentos em que eu tenho fome, mas positivamente, fome física, fome
estomacal de Brasil agora. Até que enfim sinto que é
dele que me alimento. Ah! si eu pudesse nem careceria você
me convidar, já faz sentido que tinha ido por essas bandas do norte
visitar vocês e o norte. (Andrade, 1991:35)
2- Do posicionamento
crítico no julgamento de valores culturais e sociais, relacionados
ao objeto da pesquisa.
Está certa Vânia
Gigo (2006), quando diz que Cascudo foi motivado por
dois impulsos originários: um mais acadêmico/formal e outro
contaminado pela subjetividade, denunciando na escritura de seus textos,
a emoção e a sensibilidade. Certamente, a sensibilidade a
que se refere a autora, adivinha da constante convivência com o homem
simples e sua maneira de sentir e pensar as coisas que o cercava, fossem
de ordem material ou espiritual. Porém, uma leitura cuidadosa de
Meleagro, nos coloca diante de um Cascudo imparcial nos relatos, nas observações
e análises dos dados levantados, mantendo um posicionamento horizontal,
sem os altos e baixos impulsionados pelas impressões sobre o que
via e ouvia. Deduz-se, da leitura desta obra, que este cultor do
saber popular manteve-se isento de qualquer juízo preconceituoso
ou preconcebido, ao lidar com as coisas do Nordeste e de sua gente.
Estavam no catimbó
visto e pesquisado por Câmara Cascudo muitos dos elementos essenciais
para a análise do fenômeno mágico embutido em suas
práticas. Dentre aqueles elementos estavam as plantas de poder,
herança indígena, principalmente as nativas brasileiras (Camargo,
1999), com destaque para o fumo (Nicotiana tabacum L. Solanaceae),
chamada “marca”, provocadora do transe e a jurema (Mimosa hostilis
Benth. - Leguminosae), com a qual era preparado o “cauim”, uma bebida ritual
à base de aguardente e raiz de jurema, consumida enquanto o “mestre”
fumava em um cachimbo feito de raiz da mesma planta. Durante as sessões
não se fala. Fuma-se e bebe-se muito.
Com o ato de fumar, dizia
Cascudo, se obtinha o transe, com inalações profundas. Herança
indígena, quando o pajé, segundo o autor, preparava o cigarro
com a entrecasca, ou o liber mais fino da árvore conhecida por tauari
(Courataria tauary Berg – Lecythidaceae), comum no interior da Amazônica.
Este invólucro era muito usado para enrolar cigarros, sendo que
por vezes os índios reforçavam o poder inebriante, aspirando
o pó do paricá (Anadenanthera peregrina Benth.
Leguminosae (Cruls, 1976).
Catimbó era o cachimbo,
porque sem cachimbo não havia catimbó, visto que com ele
se invocava os “mestres do além”, com o fumo sagrado. O cachimbo
era o verdadeiro catimbó e seu segredo, o qual chamavam de “marca
mestra” ou simplesmente “marca”. Outros chamavam de “marca”, a vareta
que tinha na extremidade o cabacinho, com caroços secos, o maracazinho.
Dizia-se “mesa” ou “fazer
a mesa” para as sessões de catimbó que podiam ser, também,
denominadas “fumaça”, havendo a voltada para a direita com trabalhos
para o bem ou “fumaça” para a esquerda com trabalhos para o mal,
sendo que quem as dirigia eram os “mestres do além”, acostados nos
“mestres de mesa”. A fumaça para o ritual propiciatório de
abertura da sessão, era uma mistura de incenso, benjoim, alecrim,
plantas aromáticas. Para alguns trabalhos, o “mestre” operava
com fumo, mata-pasto, jurubeba, casco-de-burro, jurema, fumado pelo “mestre”
em seu cachimbo, às avessas, pondo a boca no fornilho e soprando
a fumaça pelo canudo. Lembrou Cascudo que o uso do cachimbo
foi ensinado pelos negros e sua importância era tal que o cachimbo
era o verdadeiro catimbó e seu segredo, sendo que sem ele não
havia catimbó.
Herança indígena,
também era o uso do maracá de sementes, feito com cabaço
(Crescentia sp Bignoniaceae), que, posteriormente, em alguns lugares
foi substituído pelo maracá de folha de flandres, embora
predominasse o de origem vegetal. Havia, ainda, o denominado “marca mestra”,
o maracazinho já citado, aquele que tem na extremidade de uma varinha
um cabacinho com sementes, sempre em número ímpar.
De influência do catolicismo,
Cascudo destacou a presença do Cristo em posição de
crucificação sem a cruz, imagens de Santo Antônio e
Santa Bárbara, incenso, velas acesas e a chave lembrando aquela
do Sacrário, usada na abertura e fechamento das sessões e
em rituais de fechamento de corpo.
O transe do “mestre da mesa”
decorria das profundas inalações do fumo tragado de seu cachimbo,
somadas à absorção da bebida ritual à base
da jurema, denominada cauim, destacando que não havia no catimbó,
“mestre” abstêmio. Durante a sessão, o próprio “mestre
do além”, incorporado, pede cauim, entregando-lhe a garrafa cheia.
De seu conteúdo ele absorve só o “espírito”,
devolvendo-a cheia mas já enfraquecida, visto que o “mestre
do além” já havia consumido seu espírito.
Cascudo fez referência
à influência do Espiritismo kardecista infiltrado no catimbó,
nivelando as visitas austrais, permitidas a qualquer assistente, visto
que outrora, o único a receber a visita do além, eram os
“mestres”, os únicos que podiam conhecer os “mestres invisíveis”.
Aos “mestres” ficaram-lhe reservados os direitos de supervisionar as receitas,
abrir e fechar as sessões e guardar os segredos da arte de fechar
o corpo, de preparar garrafadas, feitiços para o amor, para o ódio
e para os bons negócios. Admitia que havia no tempo de sua
pesquisa a figura do charlatão com poderes sobre a popularidade,
embora não houvesse um sinal de legitimidade do “real mestre” que
era a semente. Esta era uma saliência que os “mestres” traziam
por debaixo da pele da mão ou no lóbulo da orelha, colocadas
secretamente pelos “mestres do além”, a quem de merecimento, sagrando-os
“mestres”.
Na ocasião da pesquisa
de Cascudo disse-lhe um “mestre”, que a maioria dos consulentes procurava-o
fora da sessão, pois as reuniões com muita gente estavam
cada vez menos importantes. Oitenta por cento eram para “trabalhos
de esquerda” contra alguém e vinte por cento para pedir remédio
e conselhos, cujo preço para o trabalho era estipulado. Quase não
mais existia sessão dos “mestres curadores”, com a consulta popular.
Para as sessões de
fechamento de corpo depois do ritual, o candidato toma o cauim, a aguardente
com raiz de jurema.
Referente à flora
medicinal, esta era essencial nos receituários verbais, acrescentando
que quem preparava os remédios não era o “mestre da mesa”
e, sim, um fabricante, visto que o mestre apenas indicava as raízes,
folhas, sementes etc., que eram encontradas nos mercados públicos.
Os mestres ensinavam a preparar os cozimentos, as defumações,
os lambedores (xarope), chás, emplastros, fricções,
banhos, fumigações, etc. e as partes e quantidades das plantas
para cada caso particular.
Um dos processos tradicionais
do catimbó era a fricção aromática ou o cauim,
aguardente com jurema. Com orações surdas o “mestre”
esfregava a aguardente e raspas de jurema nas “partes fracas”, nas entradas
como curvas das perna e braços, pulsos, testa, pescoço, sobre
as pálpebras e narinas
Cada mestre tem sua “linha”,
um canto de melodia simples, resumindo a ação sobrenatural
e as excelências do poder, disse Cascudo. Mestre Carlos era
muito conhecido dos catimbozeiros, sempre pronto, tanto para o “bem” como
para o “mal”. Quando “acostava”, o médium ficava estrábico,
fazem bico com os lábios.
A “linha” era o canto entoado
pelo “mestre da mesa”, continuado pelo “mestre do além”, invisível.
Segundo Cascudo, o canto agia diretamente sobre a emoção,
criadora da energia psíquica, sugerindo um estado, um nível
de extrema receptividade. A melodia era privativa de cada um. A letra,
fácil ou obscura, nada mais significava que um simples pretexto
rítmico. A linha era entoada pelo “mestre” para invocar um “mestre
invisível”. Quando este “acostava”, mudava o timbre, visto
que já era o próprio invocado que cantava, sempre acompanhado
pela “marca-mestra” que ia ritmando a divisão dos períodos
musicais.
Explica que de 1928 a 1949
estudou a magia dos catimbós e feiticeiros, rezadeiras, curiosos,
curadores, sem qualquer idéia de provar qualquer coisa. Era apenas,
e essencialmente, ver, ouvir, verificar um estado normal de alta percentagem
da população brasileira, presente e contemporânea.
Cascudo procurou evidenciar
a antiguidade de muitos dos elementos do catimbó, se reportando
à Antiguidade Clássica e os segredos da Idade Média,
como se tudo continuasse até nossos dias.
4-Da contribuição
de sua obra para estudos correlatos.
Com toda certeza, Meleagro
constitui leitura obrigatória àqueles que vão em busca
de subsídios para o estudo o analítico do catimbó
nordestino, com destaque para os aspectos das práticas médicas
de cunho mágico-terapêutico a base de plantas medicinais.
O trabalho detalhista deste
eminente potiguar representa importante contribuição aos
estudos ligados às religiões populares, predominantemente
orais, a exemplo da jurema, do catimbó nordestino e pajelança
do Norte, com vistas a estudos posteriores da dinâmica desses sistemas
de crença.
Namoros com a medicinaI.
Terapêutica musical – II. A medicina dos excretos
Mário de Andrade,
justifica a temática do livro ora em estudo, dizendo:
Resta explicar,
rapazes, porque ligo tanto à medicina. Ninguém, ignora
que uma das ... pegas infantis mais vulgarizadas no Brasil, e talvez, no
mundo, é perguntarem ao rapazinho o que ele vai ser na vida.
Foi o que fizeram também comigo uma vez, eu não teria 10
anos. Fiquei atrapalhado, com muita vergonha de mim, e de repente,
escapei: - Vou ser médico.
Foi daí que se
habituou a fichar tudo que ouvia e via sobre a medicina que o povo adotava.
Em ADVERTÊNCIA, na
abertura de livro, diz:
Sei, juro que
sei que estes ensaios valem pouco. Valem aliás o que verdadeiramente
sou: Aquela “pachorra investigadora” que a crítica sutil de Gilberto
Freire decidiu de minha literatura. Minha maneira de trabalhar é
assim: vou lendo, desgraçadamente sem muito método, aquilo
que pelo seu autor ou seu assunto me dá gosto, ou responde às
perguntas do meu ser muito alastrado. Como desde muito cedo tive
memória pouca mas estimo ter resposta pronta às minhas perguntinhas,
tomei o hábito virtuoso de fichar. Por que eu fichava? Fichava sem
saber porque fichava. Fichava por causa daquela resposta de menino e porque
os instintos viciados, ignorantes das proporções e dos anos,
continuam imaginando que ainda serei médico um dia.
Os ensaios: Terapêutica
musical e Medicina dos excretos foram reproduzidos, primeiramente em Publicações
Médicas, conforme ele escreveu em Advertência, a 22 de novembro
de 1937, em São Paulo, constante da edição de 1939,
cujos dados bibliográficos estão assim representados:
Namoros com a medicina
– I. Terapêutica musical – II. A medicina dos Excretos. Porto Alegre:
Livraria do Globo; 1939.
Porém, na contra-capa
da edição de 1939, na apresentação da relação
das obras do autor, consta como Namoros com a medicina – Crítica
e folclore, sem indicação do local e editora, publicado
em 1938.
Sobre esta obra, disse Pedro
Nava (2003:50): Mário de Andrade – o admirável polígrafo
paulista que no seu livro Namoros com a medicina inaugurou, no Brasil,
um verdadeiro sistema de investigação das informações
que o folclore pode fornecer ao estudo das concepções empíricas
do povo, sobre doença e os remédios.
Ensaio I – Terapêutica
musical
1-Dos critérios metodológicos
adotados para a pesquisa de campo e bibliográfica..
Para a realização
deste ensaio, Mario de Andrade utiliza-se de métodos próprios,
diferentes daqueles hoje requeridos pela academia, tal como a elaboração
de um projeto com detalhamento do método científico de pesquisa
a ser seguido.
Em ADVERTÊNCIA, declara:
(...) Como desde
muito cedo tive memória pouca mas estimo ter resposta pronta às
minhas perguntinhas, tomei o hábito virtuoso de fichar. Os anos,
não eu, reuniram assim um regular deserto de fichas. Apelidei
“deserto” aos meus fichários, não vaidoso do número
de minhas fichas, apenas porque incomparavelmente menos numerosas que os
grãos de areia de qualquer prainha, quanto mais deserto. Disse
“deserto” mas foi por causa das miragens. Há os que chamam me chamam
de culto apenas porque tenho alguma paciente leitura. Há momentos
em que me acredito estar seguro de um assunto, apenas porque sobre ele
tenho cento e vinte fichas. Perigosas miragens. Não.
Devo ser mais modesto e principalmente mais hábil diante de mim.
Não ouso recusar que haja bastante inteligência no que escrevo.
Nós, Brasileiros, somos muito inteligentes, já se costumou
a falar. Mas que de perguntinhas, meu Deus! Que de desertos...
Paralelamente ao seu
hábito de colecionar fichas, tinha especial interesse por fotografias,
as quais lhe chegavam ás mãos, por correspondência,
além das que ele próprio tirava do Brasil e seu próprio
rosto modernista. Um rosto que procura resgatar, e porque não,
registrar, cenas que caracterizam marcas de uma identidade nacional (Carnicel,
2002).
Nas décadas de 30,
40 e 50 recebeu farta correspondência, cerca de 7.000, as quais vêm
sendo catalogadas no Instituto de Estudos Brasileiros da USP. Da correspondência
ativa, denota-se que era grande seu desejo de conhecer o Brasil e de ir
ao encontro das manifestações folclóricas, conhecidas
através das fotos que recebia seguidamente. Eram envelopes que chegavam
e partiam levando textos, bilhetes, recortes, documentos, cartões
postais e fotografias. Mais que isto: cartas que transportavam idéias
do maior epistológrafo brasileiro de sua época, conforme
comenta o autor citado acima.
Em carta a Câmara Cascudo,
seu amigo, Mário de Andrade faz um agradecimento:
Junho de 1925.
Você nem imagina
o gosto que me deu o campeiro vestido de couro que você me mandou.
Andei mostrando pra toda gente e mais a fotografia do maravilhoso cacto.
As três fotografias já estão guardadinhas na minha
coleção. Se lembre sempre de mim quando vir fotografias da
nossa terra aí dos seus lados.(Andrade, 1991:35)
Em outra oportunidade escreve
a Cascudo dizendo:
Novembro de 1925.
Recebi sua carta de 10
de outubro, recebi fotografias de coisas de Igaraçu... por acaso
você tiver um encontro ou pessoal ou por carta com o home das fotografias,
fale para ele que ainda não respondi por causa de doença.
Na semana que vem talvez eu me sente à máquina e mande para
ele minha gratidão e o entusiasmo baita que tive por Igaraçu.
(Andrade, 1991:48)
Mário de Andrade
já tinha manifestado ao amigo seu desejo de conhecer o Norte, quando
em carta de 26 de setembro de 1924, afirma ter “enorme fome” pelo Norte.
As dificuldades de ordem
econômica impediram Mário de Andrade de viajar. Mas,
ao atender um convide de Câmara Cascudo para conhecer o Nordeste
e particularmente, Natal, solicitou ao amigo a elaboração
de um projeto para conferências em algumas capitais, a fim de poder
equilibrar as finanças, permitindo-lhe a viagem. Esta não
se concretizou por vários motivos, inclusive devido à perspectiva
de realização da sonhada viagem ao Amazonas, a qual concretizou-se,
indo para lá em companhia de Olívia Guedes Penteado, sua
sobrinha, Margarida Guedes Nogueira e a filha de Tarsila do Amaral, Dulce
do Amaral já programada há algum tempo.
Então, escreve a Cascudo,
em carta de 5 de abril de 1927 e fala de sua nova expectativa:
Desconfio que
parto no mês que vem pra esses nortes de vocês. Imagine
que por aqui uma comitivinha dumas oito pessoas, pretendendo subir o Amazonas
e subir o Madeira até a Bolívia... É sublime
como viagem. É verdade que tenho pouco tempo pra conversar com você...
e não poderei desta feita assuntar bem cocos e bumbas-meu-boi.
Meus estudos se prejudicarão...(Andrade, 1991:7)
De 10 de dezembro a 24 de
fevereiro de 1929, vai ao Nordeste, viagem custeada pela função
de cronista do Diário Nacional, com a coluna diária que chamará
durante sua ausência de São Paulo de O turista aprendiz.
Em Natal, Câmara Cascudo é o anfitrião, indo com ele
aos bairros pobres onde encontrou o catimbó, seus mestres e feiticeiros
(Lira, 2003). Das crônicas publicadas no referido diário,
as datadas de 15, 22, 26, 27, 28, 29, 31/12 de 1928, faz referência
aos ritmos de feitiçaria e sobre o catimbó. Na crônica
de 22 de dezembro de 1928, diz:
Agora vou fazendo
algumas comunicações sobre a feitiçaria daqui.
Estes meus dias estão vendo pouca novidade e tenho trabucado bastante,
colhendo melodias, versos e outras assim eles passam.
Em julho de 1938, a Discoteca
Municipal, chefiada por Oneyda Alvarenga, dando continuidade aos projetos
propostos por Mário de Andrade quando ainda diretor do Departamento
de Cultura, manda ao Nordeste um grupo de pesquisadores, a Missão
de pesquisas Folclóricas, trazendo em sua bagagem material para
vários anos de estudos a que Oneyda Alvarenga dedicou-se integralmente,
por 20 anos.
A Missão era o sonho
de Mário de Andrade, Paulo Duarte e Oneyda Alvarenga que se concretizava.
Integravam a comitiva, além de Luís Saia, Martin Braunwieser,
Benedito Pacheco e Antonio Ladeira. Sobre esta Missão, escreve a
Câmara Cascudo:
São Paulo,
22/1/38.
Cascudinho.
Aí vai o Luís
Saia com a Missão. Me ajude que isto é coisa de vida
ou de morte pra mim. Qualquer dia estarei aí.
Abraços pra todos
e me abrace.
A intenção
de Mário de Andrade era unir as pesquisas de gabinete com as de
campo, esclarecendo:
já afirmei
que não sou folclorista. O folclore hoje é uma ciência,
dizem... Me interesso pela ciência porém não tenho
capacidade pra ser cientista. Minha intenção é
fornecer documentação pra músico e não passar
vinte anos escrevendo 3 volumes sobre a expressão fisionômica
do lagarto...(Andrade, 1991:20)
Somaram-se aos dados, recolhidos
aqui e acolá, outros que lhe foram passados por carta, atendendo
ao pedido de colaboração que fizera Mario de Andrade, ao
distribuir um questionário elaborado pela Sociedade de Etnologia
e Folclore do Departamento de Cultura de São Paulo, sob sua direção
Tal questionário reunia perguntas relacionadas a proibições
alimentares, danças dramáticas e cura do terçol por
anel. As respostas a esses questionários eram enviadas por
carta, sendo que em uma delas consta Mario de Andrade como sendo o presidente
da referida Sociedade.
A realização
de Terapêutica musical levou Mário de Andrade a ler muito
sobre a história da medicina universal, como denota a vasta bibliografia
apresentada no final deste ensaio. Suas leituras recaíam, desde
a feitiçaria dos medicine-men primitivos, passando pela medicina
popular, pelo empirismo, pela medicina teúrgica dos povos antigos,
indo buscar em Platão suas idéias sobre a música que,
segundo ele, era capaz de acalmar as perturbações da alma
e do corpo. Foi a Galeno e outros tantos doutores da Antiguidade Clássica,
até os da idade contemporânea, com relados de curas por meio
da música.
2- Do posicionamento
crítico no julgamento de valores culturais e sociais, relacionados
ao objeto da pesquisa .
Seu profundo e amplo conhecimento
de assuntos relacionados à música permitiu-lhe, através
de seu aguçado instinto de observação e análise,
compreender o valor da ação fisiológica da música,
particularmente dos instrumentos musicais, no íntimo dos indivíduos.
Sob sua ação, apresentam-se alterações não
só comportamentais, como fisiológicas, tais como aquelas
experimentadas por ele, durante um carnaval em Recife, quando assistia
as danças do Maracatu de Leão Coroado:
O pessoal composto
quase exclusivamente de negros e negras velhas,(...) Eram só instrumentos
de percussão, bombos, gonguês, ganzás violentíssimos,
num bate-bate tão possante que me era absolutamente impossível
escutar qualquer som de cantores. Interessadíssimo em minhas paixões
folclóricas, eu me introduzira indiscretamente na roda, para ver
se grafava a linha das melodias. (...) Desisti da melodia e me apliquei
apenas a registrar os ritmos dos diversos instrumentos que, num binário
fixo, formavam uma polirritmia de uma riqueza admirável. Estava
esquecido de mim, nesse trabalho de escrever, quando senti um mal estar
doloroso, a respiração opressa, o sangue batendo na cabeça
como um martelo, e uma tontura tão forte que vacilei. Senti
a respiração faltar, e cairia fatalmente se não me
retirasse afobado, daquele círculo de inferno. Fugi para longe...
Sobre este episódio,
Mário de Andrade em Compêndio da história da música,
diz:
Tão violento
ritmo que eu não poderia suportar. Era obrigado a me afastar
de quando em quando pra... por em ordem o movimento do sangue e do respiro.
Desta observação,
denota-se sua posição etnocêntrica, ao julgar uma situação
rotineira comum em dias de carnaval. Sabe-se, todavia, que a percussão
dos instrumentos musicais requeridos pelos carnavalescos para aquele momento
de festa, desempenha seu papel estimulador dos impulsos nervosos.
Quanto à expressão círculo de inferno, mencionada,
pode-se entender como herança cultural que prevalecia naqueles tempos,
quando os valores morais, éticos e religiosos que envolviam o carnaval,
ditados pelas religiões cristãs, o condenava por se tratar
de festa pagã, taxada como “coisas do diabo”, segundo pensavam os
mais intransigentes.
Vale relembrarmos, como já
ressaltado anteriormente, a medicina popular no Brasil prende-se substancialmente
a um universo sacralizado, controlador das forças sobrenaturais.
Diante desta premissa, podemos admitir que as práticas médicas
adotadas popularmente ligam-se a diferentes sistemas de crença com
os recursos materiais e imateriais de que dispõem, a fim de entender
aos males que afligem os homens e as formas de debelá-los.
Foi no universo mágico
do catimbó nordestino que Mário de Andrade foi buscar os
subsídios para seus estudos sobre terapêutica musical.
São incontestes os
valores contidos neste ensaio. Sem dúvida, Terapêutica
musical contribui enormemente para estudos, principalmente para áreas,
tanto da Etnomusicologia, como daquelas ligadas às áreas
médico-terapêuticas voltadas à psicologia e psiquiatria.
Sobre esta obra, diz Pedro
Nava (2003:50):
Mário
de Andrade – o admirável polígrafo paulista que no seu livro
Namoros
com a medicina inaugurou, no Brasil, um verdadeiro sistema de investigação
das informações que o folclore pode fornecer ao estudo das
concepções empíricas do povo, sobre doença
e os remédios.
Mário de Andrade,
no “Prefácio” para Na Pancada do ganzá, diz:
Não pretendi
fazer obra de etnógrafo, nem mesmo de folclorista, que isso não
sou: pretendi foi assuntar, atocaiar com mais garantias a namorada chegando.
(...) Se alguma nova eu terei fixado, foi sempre por essa precisão
que tem o amante verdadeiro, de conhecer a quem ama (Maya,
op.cit).
Vasco Mariz (1989), citando
Florestan Fernandes, ao comentar a contribuição de Mario
de Andrade ao folclore brasileiro, teria dito que seu esforço criador
foi paralelo com os trabalhos de Luciano Gallet (1934), exercendo-se em
um novo campo de investigação: a pesquisa e análise
do folclore musical.
Disse mais Florestan Fernandes
(1946:135-6) em Mário de Andrade e o folclore brasileiro:
A perspectiva
do tempo permitirá comparar a sua contribuição ao
folclore musical brasileiro às de Luciano Gallet, Renato Almeida,
Flausino do Valle, Guilherme T. Pereira, Luís Heitor, Mariza Lira,
Oneyda Alvarena, etc., e criará novas possibilidades, ao mesmo tempo,
na verificação de sua importância relativa na história
do folclore brasileiro. Esta mede-se não só por seus
estudos do folclore musical, mas também por outras investigações
do mesmo modo valiosas (...)
Uma leitura cuidadosa de
Música
de feitiçaria no Brasil, permitirá ao estudioso voltado
aos assuntos ali apresentados, se deparar com verdadeiro manancial de informações,
principalmente naquelas contidas nas 1.184 notas comentadas por Mário
de Andrade e arroladas no final, conforme estão na publicação
organizada por Oneyda Alvarenga.
Evidentemente, não
pode ser descartada a importância das 837 obras arroladas na bibliografia
de leituras iniciadas para Na pancada do ganzá, obra não
concretizada e onde Mário de Andrade foi buscar os subsídios
para suas análises e interpretação do precioso material
coletado em campo, que resultou em Terapêutica musical.
Em 1946, em homenagem a Màrio
de Andrade, António Cândido, o então jovem crítico
literário, assim se expressa:
Tenho a impressão
de que Mário de Andrade será um dos escritores mais estudados,
comentados e debatidos na nossa futura história literária.
E é possível (assim acontece a Machado de Assis) que apenas
trinta ou quarenta anos depois da sua morte consiga a posteridade traçar-lhe
o perfil de maneira mais ou menos satisfatória (Cândido,
1946:68).
Em 1987, volta Antonio Cândido
a dizer em entrevista, da importância da contribuição
de Mário de Andrade, quando à frente do Departamento de Cultura,
principalmente ao transformar a vida cultural em São Paulo.
Uma fermentação cultural incrível. Faz referência
à Sociedade de Etnologia e Folclore, importante centro de pesquisas
(Pontes, 2001)
Com relação
às inúmeras anotações em fichas recolhidas
de suas leituras e outras pesquisas, Mário Andrade (...) Destina
a elas um cuidado especial, como se soubesse que um dia, pesquisadores
das mais diferentes áreas do conhecimento tomariam esse material
para detalhados estudos e produção de trabalhos científicos.
Pode estar aí um pouco do material que, como profetizou Antonio
Cândido, contribui na tentativa de uma “vista mais completa de sua
obra e de seu espírito” (Carnicel, 2002).
São incontestes os
valores contidos neste ensaio. Sem dúvida, Terapêutica musical
contribui enormemente para estudos, principalmente para áreas, tanto
da Etnomusicologia, como daquelas ligadas às áreas médico-terapêuticas
voltadas à psicologia e psiquiatria.
Mário de Andrade,
no “Prefácio” para Na Pancada do ganzá, diz: Não
pretendi fazer obra de etnógrafo, nem mesmo de folclorista, que
isso não sou: pretendi foi assuntar, atocaiar com mais garantias
a namorada chegando. (...) Se alguma nova eu terei fixado, foi sempre por
essa precisão que tem o amante verdadeiro, de conhecer a quem ama
(Maya, op.cit).
Vasco Mariz (1989), citando
Florestan Fernandes, ao comentar a contribuição de Mario
de Andrade ao folclore brasileiro, teria dito que seu esforço criador
foi paralelo com os trabalhos de Luciano Gallet (1934), exercendo-se em
um novo campo de investigação: a pesquisa e análise
do folclore musical.
Disse mais Florestan Fernades
(1946:135-6), em Mário de Andrade e o folclore brasileiro:
A perspectiva
do tempo permitirá comparar a sua contribuição ao
folclore musical brasileiro às de Luciano Gallet, Renato Almeida,
Flausino do Valle, Guilherme T. Pereira, Luís Heitor, Mariza Lira,
Oneyda Alvarena, etc., e criará novas possibilidades, ao mesmo tempo,
na verificação de sua importância relativa na história
do folclore brasileiro. Esta mede-se não só por seus
estudos do folclore musical, mas também por outras investigações
do mesmo modo valiosas (...)
Uma leitura cuidadosa de
Música de feitiçaria no Brasil, permitirá ao estudioso
voltado aos assuntos ali apresentados, se deparar com verdadeiro manancial
de informações, principalmente naquelas contidas nas 1.184
notas comentadas por Mário de Andrade e arroladas no final, conforme
estão na publicação organizada por Oneyda Alvarenga.
Evidentemente, não
pode ser descartada a importância das 837 obras arroladas na bibliografia
de leituras iniciadas para Na pancada do ganzá, obra não
concretizada e onde Mário de Andrade foi buscar os subsídios
para suas análises e interpretação do precioso material
coletado em campo, que resultou em Terapêutica musical.
Em 1946, em homenagem a Màrio
de Andrade, António Cândido, o então jovem crítico
literário, assim se expressa: Tenho a impressão de que Mário
de Andrade será um dos escritores mais estudados, comentados e debatidos
na nossa futura história literária. E é possível
(assim acontece a Machado de Assis) que apenas trinta ou quarenta anos
depois da sua morte consiga a posteridade traçar-lhe o perfil de
maneira mais ou menos satisfatória (Cândido, 1946:68).
Em 1987, volta Antonio Cândido
a dizer em entrevista, da importância da contribuição
de Mário de Andrade, quando à frente do Departamento de Cultura,
principalmente ao transformar a vida cultural em São Paulo.
Uma fermentação cultural incrível. Faz referência
à Sociedade de Etnologia e Folclore, importante centro de pesquisas
(Pontes, 2001)
Com relação
às inúmeras anotações em fichas recolhidas
de suas leituras e outras pesquisas, Mário Andrade (...) Destina
a elas um cuidado especial, como se soubesse que um dia, pesquisadores
das mais diferentes áreas do conhecimento tomariam esse material
para detalhados estudos e produção de trabalhos científicos.
Pode estar aí, um pouco do material que, como profetizou Antonio
Cândido, contribui na tentativa de uma “vista mais completa de sua
obra e de seu espírito” (Carnicel, 2002).
3-Da contribuição
de sua obra para estudos correlatos.
São incontestes
os valores contidos neste ensaio. Sem dúvida, Terapêutica
musical contribui enormemente para estudos, principalmente para áreas,
tanto da Etnomusicologia, como daquelas ligadas às áreas
médico-terapêuticas voltadas à psicologia e psiquiatria.
Sobre esta obra, diz Pedro
Nava (2003:50): Mário de Andrade – o admirável polígrafo
paulista que no seu livro Namoros com a medicina inaugurou, no Brasil,
um verdadeiro sistema de investigação das informações
que o folclore pode fornecer ao estudo das concepções empíricas
do povo, sobre doença e os remédios.
Uma leitura cuidadosa de
Música de feitiçaria no Brasil permitirá ao estudioso
voltado aos assuntos ali apresentados, se deparar com verdadeiro manancial
de informações, principalmente naquelas contidas nas 1.184
notas comentadas por Mário de Andrade e arroladas no final, conforme
estão na publicação organizada por Oneyda Alvarenga.
Evidentemente, não
pode ser descartada a importância das 837 obras arroladas na bibliografia
de leituras iniciadas para Na pancada do ganzá, obra não
concretizada e onde Mário de Andrade foi buscar os subsídios
para suas análises e interpretação do precioso material
coletado em campo, que resultou em Terapêutica musical.
Ensaio II - Medicina dos
excretos
1-Dos critérios
metodológicos adotados para a pesquisa de campo e bibliográfica.
Evidentemente, repete-se
neste ensaio, o mesmo esquema adotado por Mário de Andrade em Terapêutica
musical, visto que não era de praxe a elaboração prévia
de um método de pesquisa a ser seguido. Tinha maneiras próprias
de adquirir conhecimento sobre os assuntos de seu interesse
Para a realização
deste ensaio, Mario de Mário de Andrade, acumulou conhecimento sobre
o assunto, principalmente em leituras de obras, cujos autores abordavam
assuntos sobre medicina popular, crendices e superstições,
feitiçaria, ciências ocultas, medicina indígena, tradições
populares portuguesas, mitologia, cultura africana, em relatos dos viajantes,
além de livros médicos desde a Antiguidade Clássica,
até contemporâneos, com destaque para as publicações
portuguesas. Assim se deduz dos 79 obras citadas neste ensaio de 62 páginas.
2- Do posicionamento
crítico no julgamento de valores culturais e sociais, relacionados
ao objeto da pesquisa .
Este ensaio não teve
leitura pública. Com relação a este fato, Mário
de Andrade diz:
Deus-me-livre!
Nem poderia dizer o que nessa página escrevi, nem outros escutariam.
Os olhos são bem mais ásperos que os ouvidos, e aceitam com
mais facilidade a descrição de uns tantos escaninhos da vida.
Mas estou falando dos olhos sem razão. Nem eles são mais
resistentes, nem os ouvidos mais delicados. Tudo é questão
de inglesa decência, e os ouvidos requerem homem diante de homem.
As palavras escritas não: a gente pode ler no seu cantinho, afastado
dos seus iguais e capaz de quaisquer horrores.
Nestes dizeres, Mario de
Andrade deixa explicitado o predomínio do etnocentrismo da
cultura hegemônica, ditando normas de conduta, no que diz respeito
aos padrões de decência a serem obedecidos em sociedade pelo
homem de seu tempo. Mário de Andrade, sem nenhum constrangimento
vai descrevendo solto, tanto as informações que lhe são
passadas verbalmente, como aquelas compiladas das obras consultadas; porém,
quando estas palavras estão inseridas em parlendas, pegas e advinhas
escatófilas, ele usa abreviá-las, assim como os palavrões
e àquelas palavras ligadas a partes do corpo humano ou órgão
excretor, principalmente quando há um sentido pornográfico.
3-Da contribuição
de sua obra para estudos correlatos.
Evidentemente, este ensaio
oferece inúmeros subsídios para outros estudos relacionados
aos assuntos tratados por Mário de Andrade. Tem-se em conta,
ainda, a bibliografia citada, a qual remete a obras que abrem portas para
um desdobramento dos tópicos abordados, encaminhando a estudos mais
especializados em diferentes áreas do conhecimento humano.
Faço minhas as palavras
de Paulo Duarte (1946:156) ao referir-se à A medicina dos excretos.
Nele são analisados: a aplicação terapêutica
dos excretos, a obsessão pelas porcarias, pelas palavras feias,
coprolalia, o uso dos excrementos nas práticas mágicas –
nas esferas que chamamos de magia baixa. O material é riquíssimo,
sendo alguns elementos analisados do ponto de vista da filiação
histórica. Sem dúvida, A medicina dos excretos, tal
como se apresenta, abre novas pistas para estudos mais especializados em
diferentes áreas do conhecimento humano.
Concluindo
Sem dúvida, Luís
da Câmara Cascudo e Mário de Andrade têm suas histórias
que se misturam quando se fala da feitiçaria nordestina. Adotando,
cada um, critérios metodológicos próprios para desenvolverem
suas pesquisas, andaram juntos vendo as mesmas coisas e analisando-as segundo
eram seus interesses de pesquisadores: Câmara Cascudo buscando a
feitiçaria branca no catimbó nordestino e Mário de
Andrade, nesse mesmo catimbó, buscando conhecer sua música.
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