As
mil faces da Cidade
No
livro de contos "As Cidades Invisíveis”, o escritor Ítalo
Calvino (1991) nos faz ver que é possível distinguir
"diferentes" cidades numa única, conforme se privilegiem determinados
aspectos. Assim, ele faz o personagem Marco Pólo "viajar" por cidades
inteiramente distintas a partir do olhar que recai sobre o traçado
das ruas, sobre as torres, a memória, a presença da música,
sobre os encanamentos ou sobre os mortos, entre muitos outros aspectos.
Do mesmo modo o faz a antropologia urbana, por meio da etnografia, ao pensar
a cidade enquanto escolhas e delimitação das relações
que diferentes atores sociais estabelecem com o ambiente urbano e com outros
grupos no fragmentário sistema produtivo das urbes. Cada grupo social,
com seu modo de ver o mundo, ou com interesses voltados para aspectos específicos,
pode "construir" e "reconstruir" sua cidade, criativamente, a partir de
elementos selecionados no amplo leque de opções disponíveis
na cultura de uma dada sociedade. Ou seja: a cidade pode ser vista e compreendida
a partir das dimensões do trabalho, do lazer, da economia, da religião,
das artes, das formas de sociabilidade, das esquinas, das festas e sempre
haverá uma cidade diferente a ser percebida, conforme se privilegiem
aspectos específicos.
Assim
sendo, temos, num dado território, a cidade visível,
feita de equipamentos, infraestrutura, edificações, serviços,
monumentos históricos, população, trânsito,
rios, parques, calçadas, telhados, tampos de bueiro, muros e grades,
pichações etc., a cidade invisível (feita de
relações de troca, trabalho, familiares, além das
estruturas de água, energia elétrica, esgotos, telefonia,
descartes etc.) e a cidade in-visível, perceptível
e apenas por dentro e de perto: a dos percursos e leituras humanas da experiência
urbana (Amaral, 1992: 38). Cidade lócus
de trocas materiais e simbólicas entre grupos vários, de
ressignificações, de memória e reconhecimento que
se espelham nos espaços onde tiveram e/ou têm lugar relações
significativas.
Nesse
sentido, entre as muitas cidades legíveis na metrópole paulistana,
existe aquela formada pelos elementos do sagrado materializados, representando
crenças e práticas que orientam o pensamento e a conduta
de seus habitantes. Sob esse ponto de vista, embora São Paulo seja
conhecida como o maior centro econômico do país, metrópole
pós-moderna e pluricultural, de relações impessoais,
individualistas e espaço social extremamente secularizado, a abordagem
antropológica permite, ao observa-la mais demoradamente e em profundidade,
encontrar uma cidade intimamente permeada pela religiosidade e, portanto,
por crenças metafísicas, valores éticos e princípios
filosóficos que se cria já abandonados em favor do racionalismo
e da ciência. Observando atentos, veremos as torres com seus sinos,
os pináculos encimados por cruzes, os anjos de bronze e mármore,
os cruzeiros, santos, flores e imagens dos cemitérios, as lojas
de artigos religiosos, as oferendas nas encruzilhadas, os nomes de santos,
sacerdotes e sacerdotisas formando uma cartografia de bairros, ruas, escolas,
largos, praças, estabelecimentos pios, públicos e comerciais
revelando conteúdos simbólicos que orientaram – e continuam
a orientar – as práticas culturais das quais a Cidade extrai seu
sentido.
São
Paulo dos jesuítas
Desde
sua origem, a história da cidade de São Paulo foi marcada
pela presença do sagrado. A cidade se desenvolveu ao redor das igrejas
das várias ordens religiosas que vinham cuidar das almas de seus
fiéis ou converter os habitantes do lugar, das quais a primeira
foi a influente Companhia de Jesus. Após longa viagem pela Serra
do Mar, em 25 de janeiro de 1554 – data em se comemora a conversão
ao cristianismo do santo católico ao qual dedicavam grande devoção –,
os jesuítas chegam ao lugar que os índios chamavam de Piratininga ,
onde fundam, com a celebração
de uma missa, o Colégio São Paulo, a fim de pacificar e catequizar
os nativos do lugar e transmitir-lhes o modo de vida "civilizado".
A
primeira instalação do Colégio foi descrita pelo padre
José de Anchieta como uma cabana de pau-a-pique com cerca de 90m².
Graças à sua diligência, os jesuítas atrairam
os casebres dos primeiros convertidos para as proximidades do Colégio.
Com a ajuda destes, desenvolveram alguma agricultura de subsistência.
Aos poucos, instalaram-se em redor das edificações dos jesuítas
também os que se engajavam nas bandeiras em busca de ouro, pedras
preciosas e ampliação das novas terras. Em 1556, concluiu-se
a construção do Colégio e da Igreja de Bom Jesus,
feitos em taipa de pilão .
Sendo um centro para o qual convergia todo tipo de relações
(religiosas, educacionais, econômicas e políticas), ao seu
redor foram se distribuindo os moradores locais e em 1560 o pequeno povoamento
ganha status e privilégios de Vila e um pelourinho; mas sua distância
do litoral, o isolamento comercial e o solo inadequado ao cultivo de produtos
de exportação condenavam a Vila a ocupar uma posição
insignificante nos primeiros séculos da colonização
portuguesa. Por isso ficou limitada ao que hoje se chama de Centro Velho
de São Paulo. No mesmo ano, por influência dos jesuítas,
a Câmara da Vila de São Paulo proíbe a escravização
dos indígenas. Em razão de sua visão das relações
entre a Coroa e a Colônia e de sua forte ascendência sobre
os nativos locais, em 1640 os jesuítas são expulsos de São
Paulo, onde as principais atividades já estão concentradas
nas proximidades do triângulo formado por três ordens religiosas
e suas igrejas: a dos carmelitas com a igreja de Nossa Senhora do Carmo
(1592), a dos beneditinos
com a igreja de São Bento
(1600
) e a dos franciscanos com a de São Francisco
(1674), ainda hoje existentes em São Paulo.
Até
o século XIX, nas ruas do triângulo (atuais ruas Direita,
XV de Novembro e São Bento) concentravam-se o comércio, a
rede bancária e os principais serviços de São Paulo.
Juntava-se a elas, em importância, a Matriz de São Paulo,
de 1616, construída em local escolhido pelo cacique Tibiriçá,
líder dos Guaianá (Porchat, 1954),
onde teve curta duração. Em meados do século XVIII,
encontrava-se em ruínas e o Santíssimo Sacramento da freguesia
teve que ser transferido para a igreja da Misericórdia, tida como
situada em melhor lucal e a Matriz foi reformada em 1764 .
Na mesma igreja de Nossa Senhora da Misericórdia
funcionou a Santa Casa, fundada pela Confraria da Misericórdia de
São Paulo de Piratininga ,
por volta de 1560.
Em
1653, Fernão Dias Paes, tio do bandeirante de mesmo nome, homem
influente, negocia a volta dos jesuítas para a Vila de São
Paulo. O Governador do Brasil e o Rei de Portugal dão-lhes garantias
para que voltem ao país, pois seu admirável trabalho na área
da educação era imprescindível. O Colégio,
que sofrera sérios danos na ausência dos padres missionários,
teve de ser praticamente reconstruído. Ali, os jesuítas desenvolveram
o ensino e a catequese. Como se nota, os primórdios da história
de São Paulo se deram em torno de um agrupamento religioso, que
zelava para que o catolicismo não apenas fosse professado, mas para
ampliar o número de conversões, especialmente dos índios.
O
crescimento populacional e a devoção aos muitos santos, especialmente
num ambiente hostil, com fauna e flora desconhecidas, deram ocasião
a muitas promessas pagas com construções de capelas e igrejas
e propiciaram a formação de irmandades, congregações
e confrarias que se dedicavam não apenas à devoção
espiritual, por meio de procissões e festas, mas, principalmente,
às obras de caridade e sociais, ao redor das quais se desenvolvia
a sociabilidade da Colônia (Del Priore, 1993).
Em
1681, São Paulo foi considerada a cabeça da Capitania de
São Paulo e em 1711 a Vila foi elevada à categoria de Cidade
de São Paulo. No entanto, ainda era um lugarejo pobre, ponto de
passagem de viajantes, vivendo de agricultura e pequeno comércio.
Em
1759 os jesuítas são novamente expulsos, desta vez do Brasil,
por ordem do Marquês de Pombal, ministro da Coroa portuguesa, devido
à influência que exerciam junto aos índios, fato que
preocupava os colonizadores. A ofensiva de Pombal contra a Companhia de
Jesus prolongou-se, junto com as cortes de Bourbon, até a extinção
da Ordem religiosa, em 1773, pelo papa Clemente XIV, que expulsa os jesuítas
de toda a América e os extingue em todo mundo. O Colégio
dos jesuítas torna-se, então, o Palácio dos Governadores,
representantes da Coroa Portuguesa, e a construção de 1653
é inteiramente descaracterizada. É dessa época, também
(1774), o Mosteiro da Luz, criado pelo, então bispo, Frei Antônio
Galvão (recentemente santificado pelo papa Bento XVI como Santo
Antônio de Santana Galvão, o primeiro santo brasileiro), onde
também se situa o Museu de Arte Sacra de São Paulo, que mantém
uma das maiores coleções de arte sacra da América
do Sul.
A
Companhia de Jesus só seria restaurada em 1814, pelo papa Pio VII,
retornando às suas atividades. Em 1896 a Igreja de Bom Jesus, administrada
pela Diocese na ausência dos jesuítas, desaba e parte
do altar-mor, de 1680, é levada para a Igreja do Sagrado Coração
de Maria, em Santa Cecília. O Pátio do Colégio é
conhecido, nessa época, como "Largo do Palácio". Em 1932,
o Palácio dos Governadores passou a abrigar a Secretaria da Educação
do Estado de São Paulo. Em 1953, como um dos marcos da comemoração
dos 400 anos da cidade, que ocorreria no ano seguinte, o Pátio do
Colégio foi devolvido aos jesuítas e o prédio do Palácio
dos Governadores demolido. Em 1979, dentro da réplica
construída no espaço histórico do "Pátio do
Colégio", foram inaugurados o Museu Anchieta (que reúne todo
o histórico da vida do sacerdote) e a Igreja do Beato José
de Anchieta. Atualmente o Pátio do Colégio é um precioso
ponto estudos históricos, sociais e arquitetônicos, entre
outros, e um dos principais pontos de turismo histórico da cidade.
As
muitas igrejas da cidade constituem, também, não só
valioso patrimônio histórico de São Paulo como referências
de identidade para os moradores locais. O bairro do Brás, por exemplo,
teve origem na capela erguida pelo português José Brás
em louvor ao Senhor Bom Jesus de Matosinhos, no século XVIII. Teve
sua vocação definida a partir da implantação
da ferrovia, em 1877, e influiu decisivamente na posterior configuração
social do espaço pelo fato de haver atraído para suas margens
atividades industriais e comerciais. Seus terrenos alagadiços, de
baixo custo e as indústrias que começavam a se instalar transformaram-no
num bairro popular, onde a influência italiana se fez sentir de maneira
decisiva a partir do final do século XIX. Também testemunham
esse processo as igrejas de São Vito, no Brás, São
Genaro, na Mooca e Santo Emídio na Vila Prudente, além das
de Nossa Senhora Achiropita e de Nossa Senhora de Casalucce, santos cujas
festas de rua - com procissões, barracas de comida típica
e música folclórica - revivem, anualmente, a identidade cultural
italiana em São Paulo (Amaral, 1996).
A partir
de 1760, o café chega ao Vale do Paraíba. Ali prosperam as
fazendas de café, fazendo com que a região sofra grande mudança.
A cafeicultura torna-se, rapidamente, a principal atividade agrícola
do país, liderada por São Paulo, em razão, principalmente,
da existência no local da chamada "terra roxa", ideal para seu plantio.
A
assinatura do Tratado de Aliança e Amizade, firmado entre o Brasil
e Inglaterra em 1810, e a desativação da Inquisição
portuguesa permitiram oficialmente a vinda de imigrantes não-católicos
ao Brasil. A liberdade de culto, estabelecida a partir da promulgação
da Constituição Imperial de 1824, foi determinante na escolha
do Brasil (e de São Paulo pela possibilidade de trabalho) como destino
por vários grupos de imigrantes. Em 1840, o café produzido
em São Paulo era responsável por quase metade da renda obtida
com exportações e São Paulo o estado mais rico do
país. A cidade sofre, então, profundas mudanças econômicas
e sociais decorrentes do fim da escravidão e do afluxo de imigrantes
europeus para trabalhar na expansão da lavoura cafeeira e na construção
da São Paulo Railway Company (1867), ligando o planalto paulista
ao litoral .
Com a imigração vieram, também, outros costumes, tradições
e, principalmente, outras formas de religiosidade. A cidade de São
Paulo é assinalada por novos ícones de crenças que
testemunham a diversidade cultural e a vocação de São
Paulo para a aceitação das múltiplas formas de ser
e de viver humanas. Nessa época chegaram à cidade muitos
judeus, protestantes e muçulmanos.
São
Paulo dos urbanitas
Em
1895 a população de São Paulo era de 130 mil habitantes
(71 mil deles estrangeiros), chegando a 239.820 em 1900. Nesse período,
a área urbana se expandiu para além do perímetro do
triângulo, surgindo as primeiras linhas de bondes, os reservatórios
de água e a iluminação a gás. Enriquecida pela
exportação do café, surge uma elite paulista conhecida
como “os barões do café", que começa a deixar suas
fazendas, no interior do estado, para se instalar na capital em busca de
educação para os herdeiros ,
vida social e negócios. São Paulo vive uma explosão
urbana. Os novos e influentes moradores, detentores do poder político
estadual e nacional, iniciam uma remodelação do espaço,
adaptando a cidade ao seu gosto e ideologia. Essas transformações
modelam uma metrópole que mostra, ainda hoje, na forma de ocupação
urbana, a complexidade de seu crescimento arrebatado, desordenado e veloz,
os conflitos sociais que a perpassaram e a rica diversidade cultural de
seu povo. A cidade que surge dessa mudança é marcada, também,
por contrastes e fronteiras, mas, sobretudo, por novos pactos, trocas e
traduções culturais.
A religiosidade,
contudo, permaneceu em seu papel de dar sentido às ações
humanas. Novos ícones de religião o testemunham, seja em
destaque na paisagem ou ocultos nas dobras e vãos urbanos, visíveis
somente aos que decodificam seus signos e sabem ouvir os sons da memória
gravados nas pedras. Muitos nem se dão conta de que apenas na região
central da cidade existem, pelo menos, 23 templos católicos:
Capela
de Anchieta (1979), no Pátio do Colégio, Capela de Nossa
Senhora dos Aflitos (1774), na R. dos Aflitos, Capela do Menino Jesus e
Santa Luzia (1901), na R. Tabatingüera, Capela Militar de Santo Expedito
(1942), na R. Dr. Jorge Miranda, Capela da Santa Cruz dos Enforcados (1902),
Praça da Liberdade, Catedral Metropolitana (1913/1954/2002), Praça
da Sé, Igreja da Ordem Terceira do Carmo (1804), Av. Rangel Pestana,
Igreja das Chagas do Seráfico Pai São Francisco (Ordem 3a.)
(1670/ 1787), Largo de São Francisco, Igreja de Santa Ifigênia
(1912), R. Santa Ifigênia, Igreja de Santo Antônio (1590/1889),
Praça do Patriarca, Igreja de São Cristóvão
(1856), Avenida Tiradentes, Igreja de São Francisco de Assis (1647),
Largo. de São Francisco, Igreja de São Gonçalo (circa
1770), Praça João Mendes, Igreja de Nossa Senhora Auxiliadora
(1923), R. Três Rios, Igreja de Nossa Senhora da Boa Morte (1810),
Rua do Carmo, Igreja de Nossa Senhora da Consolação (1799/1970),
R. da Consolação, Igreja de Nossa Senhora da Paz (circa 1940),
R. do Glicério, Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens
Pretos (1906), Largo do Paissandu, Igreja de Nossa Senhora da Luz (1774/1822),
Avenida Tiradentes, Igreja de São Bento (1600/(1922), Largo de São
Bento, Santuário do Sagrado Coração de Jesus (1901),
Largo do Coração de Jesus, Igreja Católica Ortodoxa
Antioquina da Anunciação a Nossa Senhora (1904), R. Cavalheiro
Basílio Jafet e a Catedral Metropolitana Ortodoxa (1934/circa 1970),
na R. Vergueiro.
No
período colonial foi pouco significante a presença dos protestantes
em São Paulo. Apenas no início do século XIX, com
a mudança da corte portuguesa para o Rio de Janeiro, é que
o protestantismo inseriu-se na sociedade brasileira de modo mais efetivo.
A partir de 1810, instalou-se no Brasil o chamado "protestantismo de imigração",
quando todos os protestantes no Brasil eram estrangeiros, especialmente
ingleses (anglicanos) e alemães (luteranos). Depois foi a vez do
"protestantismo de missão", a partir de 1855, com as missões
européias e estadunidenses. A Igreja Presbiteriana do Brasil é
a denominação protestante mais antiga do país, trazida
pelo missionário estadunidense Ashbel Green Simonton em 1859. Seu
primeiro templo foi instalado na R. Nova de São José (atual
R. Líbero Badaró), no Centro. O presbitério da R.
24 de Maio foi inaugurado em 1884. Em 1903 constitui-se a primeira Igreja
Presbiteriana Independente de São Paulo, mas seu templo (na R. Nestor
Pestana, no bairro da Consolação), data de 1910 .
Os anglicanos, por sua vez, chegaram ao Brasil no início do século
XIX; mas só por volta de 1890 é que passaram a integrar brasileiros.
Um de seus belos templos na cidade de São Paulo é a Catedral
Anglicana (Igreja Episcopal Anglicana do Brasil), na R. Comendador Elias
Zarzur, no bairro de Alto da Boa Vista onde, aos domingos, são celebrados
cultos em inglês e em português. A história da Igreja
em São Paulo remonta ao século XIX, quando os ingleses vieram
ao Brasil para construir a estrada de ferro São Paulo Railway
(Santos-Jundiaí). A igreja original foi construída em 1873,
perto da Estação da Luz, no centro de São Paulo. O
atual edifício da igreja, na região de Santo Amaro, foi consagrado
em 1967.
Entre
os ingleses e americanos, vieram, ainda, os metodistas, cujo primeiro templo
em São Paulo é de 1922. Os batistas são representados
por vários templos em São Paulo, entre eles os da Primeira
Igreja Batista de São Paulo (1957), na Praça Princesa Isabel,
a Igreja Evangélica Batista Luz, na R. Prates e a Igreja Evangélica
Batista da Liberdade, na R. Santo Amaro. Os adventistas e as várias
dissidências pentecostais posteriores, inclusive neopentecostais,
como a Assembléia de Deus, a Igreja Internacional da Graça,
a Igreja Universal do Reino de Deus, a Igreja Renascer em Cristo, a Igreja
Deus é Amor, a "Bola de Neve" Church e outras denominações,
espalham-se por toda São Paulo, ocupando velhos cinemas, galpões,
casas e barracões pouco distinguíveis na paisagem urbana;
mas que, segundo dados do CEM/CEBRAP, já chegavam, em 2002, a 225
templos da IURD, mais 698 da Assembléia de Deus, para se ter uma
idéia da proliferação da religiosidade evangélica
na cidade. Vieram, também, em 1935, os mórmons, com a Igreja
de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, que, recentemente,
construíram um suntuoso templo na R. Francisco Morato, no bairro
Butantã.
A
data que representa a fundação da Igreja Evangélica
de Confissão Luterana no Brasil, em São Paulo, é de
1891, quando o pastor Emil Bamberg reúne 80 famílias e institui-se
a "Egreja Evangélica Alleman". Seus estatutos, entretanto, só
foram publicados em 1907. Enquanto organizavam-se campanhas e arrecadavam-se
doações para a construção de um templo próprio,
os cultos foram celebrados numa Igreja Presbiteriana. Só em 1908
– dezessete anos depois da constituição da Comunidade – surge
o primeiro "templo" luterano em São Paulo, localizado na Av. Rio
Branco, no centro da cidade. O templo – o primeiro em estilo neogótico
da capital – ficou conhecido como "Igreja Matriz" e foi "rebatizado", em
1991, como Igreja Martin Luther. Ali se celebram cultos em alemão
e em português. A comunidade luterana descentralizou-se em 1959,
quando foi inaugurada a Igreja da Paz, na zona sul, segunda paróquia
luterana da capital, a Paróquia Santo Amaro. A União Paroquial
São Paulo, constituída em 1972, congrega, atualmente, dez
comunidades.
Embora
já estivessem aqui antes, a organização comunitária
dos protestantes só foi possível com a vinda da Corte Imperial.
Havia, entretanto, grandes dificuldades. O parágrafo quinto da Constituição
do Império rezava:
"A
religião católica apostólica romana continuará
a ser a religião do Estado. Todas as demais religiões serão
toleradas, em casas para tanto destinadas, sem qualquer forma exterior
de templo”.
Isso
significava que não seriam permitidos quaisquer signos ou símbolos
de outras religiões. Dada a preponderância do catolicismo
no país (sendo ainda sua religião oficial), os protestantes,
fossem estrangeiros ou brasileiros, enfrentaram sérios problemas
ao longo do século XIX. Seus locais de culto não podiam ter
a forma exterior de templos, eles não podiam se casar legalmente
e nem registrar seus filhos. Viviam em concubinato – pois o casamento,
para ser válido, deveria acontecer diante do padre – e os matrimônios
dos evangélicos não tinham validade. Até os batismos
chegaram a não ser reconhecidos, pois não existia o registro
civil. Os protestantes estavam impedidos de participar da vida política
e as crianças eram discriminadas nas escolas públicas, havendo
diferentes formas de intolerância mal disfarçada. Outra restrição
imposta aos protestantes dizia respeito ao destino de seus mortos. No período
colonial não havia cemitérios no Brasil. Os mortos, geralmente,
eram sepultados sob o piso ou nas paredes das igrejas e dos conventos católicos.
Foi o Tratado de Comércio e Navegação, celebrado entre
Portugal e Inglaterra, que concedeu, em seu Artigo 12, liberdade de culto
aos ingleses e tolerância religiosa a outros não-católicos
residentes no Brasil. O artigo dizia:
"Permitir-se-á
também enterrar, em lugares para isso designados, os vassalos de
Sua Majestade Britânica que morrerem nos territórios de Sua
Alteza Real o Príncipe Regente de Portugal" .
A
partir de 1828, por razões de saúde pública, as leis
determinaram a criação de cemitérios municipais "a
céu aberto", que só começaram a ser usados em 1850.
A legislação também contemplava os cemitérios
particulares, pertencentes às irmandades. Nos poucos cemitérios
públicos, pelo fato de serem consagrados pela igreja católica,
eram proibidos os enterros protestantes .
Imposta
por lei, a inumação nos cemitérios a céu aberto,
desvinculada do catolicismo, levou à secularização
dos chamados "campos-santos". Fora da igreja (no âmbito da qual a
vinculação a uma determinada ordem ou a própria localização
de um túmulo mais próximo ou mais distante do altar, marcavam
a posição social do falecido e de seus familiares), a elite
construiu esplêndidas obras tumulárias, estendendo à
morte sua posição social em vida, em busca de sacralização
e monumentalização de sua passagem pelo mundo. Os barões
do café, os imigrantes nouveau-riches, artistas, intelectuais,
políticos, médicos, juristas e professores povoam os cemitérios
da Consolação (1858), na rua de mesmo nome, o do Araçá
(1887), na Av. Dr. Arnaldo e o São Paulo, na R. Cardeal Arco Verde.
Como verdadeiros monumentos, os túmulos, livres dos olhos reprovadores
da Igreja católica, são, também, um modo de homenagear
seus próprios feitos e esforços e, principalmente, a riqueza
conquistada (Osman & Ribeiro, 2007).
Como
também não era permitido aos judeus sepultarem seus mortos
nas igrejas católicas, estes – e outros não-católicos
–, passaram a ser sepultados no Cemitério dos Protestantes, criado,
em 1859 ,
num terreno doado pela Marquesa de Santos, na atual R. Sergipe, nº
177, no bairro de Higienópolis. Atualmente, tanto os judeus, quanto
os muçulmanos têm seus cemitérios comunitários:
o Cemitério Israelita da Vila Mariana (1923)
e o Cemitério Islâmico de Guarulhos (circa 1968), assim
como os japoneses têm um cemitério exclusivo para membros
de sua colônia no interior de São Paulo, na cidade de Álvares
Machado.
A
presença judaica em São Paulo se mostra nas 25 sinagogas
da cidade ,
sem contar as existentes no interior de escolas e clubes. A primeira delas
foi fundada em 1912: a Sinagoga Comunidade Israelita Kehilat Israel, na
R. da Graça, no bairro do Bom Retiro. A religiosidade judaica também
insere outros ícones na cidade, especialmente ligados à sua
visão de mundo, como a Sociedade Hebraica, o Centro de Cultura Judaica
(grande construção que tem, externamente, a forma da Tora,
livro fundamental do judaísmo) e o Hospital Israelita Albert Einstein.
De
1908 até 1941 (véspera da eclosão da Segunda Guerra
Mundial) chegaram ao Brasil cerca de 188 mil japoneses agricultores para
trabalhar nas fazendas de café do interior do Estado. Em 1912, 92,6%
dos japoneses dedicavam-se ao cultivo do café. Em 1942, 24,3% deles
cultivavam café e algodão (39,2%), culturas suburbanas (verduras,
legumes, frutas) e praticavam a avicultura (19,9%). Ao final da II Guerra,
deixaram a zona rural para morar e trabalhar nas cidades (na Capital ou
no interior). Tornaram-se pequenos comerciantes (estabelecendo lavanderias,
mercearias, feiras, pastelarias, cabeleireiros, oficinas etc.) dedicando-se
à educação dos filhos .
Em razão dessa imigração, no Brasil o budismo adquiriu
características peculiares, pois, segundo alguns religiosos, a maior
colônia de japoneses e descendentes do mundo trouxe consigo sacerdotes
e instrutores budistas em distribuição expressivamente diversa
da que existe no Japão e adaptações e reinterpretações
locais foram necessárias. As vertentes relacionadas à
tradição Nitiren alcançaram admirável proliferação,
assim como a Honmon Butsuryu-Shu do Brasil (HBS) e a associação
de leigos Soka Gakkai. Como testemunho da presença efetiva do budismo
no campo religioso brasileiro, existem pelo menos 204 templos budistas
no Brasil, 83 deles no estado de São Paulo. Alguns são de
proporções monumentais, como o Zu Lai, em Cotia. O templo
Bushinji, da tradição Soto Zen, instalou-se em São
Paulo em 1955, numa casa alugada no bairro da Liberdade e, mais tarde,
transferido para a sede atual, na R. São Joaquim.
Em
1894, sobre o leito drenado do rio Tamanduateí surgiu a Rua 25 de
Março, uma das mais importantes ruas de comércio da cidade
de São Paulo. No pequeno porto que havia neste rio eram desembarcados
os produtos vindos da Europa e do Oriente que chegavam do porto de Santos.
Assim, as ruas que margeavam o porto começaram a receber comerciantes,
em geral imigrantes oriundos do Oriente. A maioria dos imigrantes árabes,
entretanto, era cristã. Os muçulmanos chegariam a São
Paulo sobretudo durante a Primeira Guerra Mundial, nos anos 20, e durante
a guerra do Líbano, nos anos 60. Só a partir de então
é que chegariam mais muçulmanos ao país. A primeira
mesquita de São Paulo foi fundada pela Sociedade Beneficente Muçulmana
em 1955: a Mesquita Brasil, na Av. do Estado, no bairro do Cambuci. De
acordo com o Conselho Superior para Assuntos Islâmicos no Brasil,
vivem em São Paulo, hoje, cerca de um milhão de muçulmanos.
O estado também concentra boa parte das mesquitas do país:
cinco na capital mais outras dez no interior e litoral.
Os
vários grupos religiosos se encarregaram de educar seus filhos conforme
seus costumes e tradições, providenciando, para isso, que
os métodos educacionais de suas culturas de origem estivessem disponíveis
no Brasil. Assim, vários colégios e faculdades confessionais
foram fundados e até hoje são mantidos por grupos descendentes
de imigrantes. Entre eles, o Instituto Presbiteriano Mackenzie (1870),
na Vila Buarque, a Universidade Metodista (1938), em Rudge Ramos, o Colégio
Batista Brasileiro (1902), no bairro de Perdizes, o Colégio Luterano
São Paulo (1933), no bairro do Moinho Velho. Fora estes, os católicos
inseriram a Pontifícia Universidade Católica (1946) ,
no bairro de Perdizes, a Faculdade São Bento (1908), no Centro e
vários colégios que se tornaram tradicionais na educação
da elite paulistana, como o Colégio São Luís (1867/1917),
o Colégio de São Bento (1903), no Centro, o Colégio
Assunção (1933), no Jardim Paulista, o Cristo Rei (1933),
na Vila Mariana, o Colégio Nossa Senhora do Sion (1901), em Higienópolis,
o Externato São Francisco de Assis (1926), no Centro, o Colégio
São José (1880), no bairro da Liberdade e outros. Os muçulmanos
criaram, em 1968, a Escola Islâmica Brasileira, na Vila Carrão.
Os
afrodescendentes, de imigração imposta no período
escravista, professam diferentes religiões. A igreja de Nossa Senhora
do Rosário dos Homens Pretos, por exemplo, no Largo do Paissandu,
testemunha sua adesão ao catolicismo. Esta igreja nasceu de uma
petição que, em 1802, a Irmandade dos Homens Pretos da Freguesia
da Penha de França dirigiu ao bispo de São Paulo, suplicando
autorização para a construção de uma capela.
Segundo a memória popular, foi construída por escravos e
servia às práticas religiosas da população
negra. Em 1903, foram desapropriados os terrenos e prédios necessários
à ampliação do Largo do Rosário, pertencentes
à Irmandade. Pelo acordo entre a Prefeitura e a Irmandade, a municipalidade
adquiriu o edifício da igreja e as outras dependências para
a Câmara, pagando a indenização de duzentos e cinqüenta
mil cruzeiros e doando um pequeno terreno, no Largo do Paissandu, para
a construção de outra igreja. Enquanto não se concluíam
as obras do novo templo, a Irmandade instalou-se provisoriamente, com todos
os pertences, na Igreja de São Pedro da Pedra, que ficava no Largo
da Sé. A transladação das imagens e a inauguração
do novo templo ocorreram em 1906. No subsolo da Igreja funciona uma escola,
gratuita, mantida pelo SESI no salão da Irmandade.
A
religiosidade de origem africana também se mostra nos milhares de
terreiros de umbanda e de candomblé espalhados pela cidade e nos
usos desta por parte de seus fiéis. São Paulo conta, inclusive,
com dois ilês de candomblé tombados como patrimônio
histórico e cultural: o Axé Ilê Obá, no bairro
do Jabaquara, (Amaral, 1991), e o Candomblé
de Santa Bárbara, na Vila Brasilândia. Além dos ilês,
para estes grupos toda a cidade constitui um grande “templo”, pois sua
mitologia associa os deuses (orixás, inquices, voduns e outras entidades)
a espaços naturais ou outros significativos para suas práticas
ligadas ao ciclo vital humano. O espaço de ruas, feiras-livres,
encruzilhadas e portas de bancos – ou outras instituições
onde o dinheiro flui – são o lugar de oferendas ao orixá
do movimento, Exu; as estradas de ferro, longas estradas e entradas de
quartéis são espaços tidos como pertencentes ao orixá
Ogum, o criador da metalurgia e da guerra; os lagos, lagoas, rios e córregos
são de Oxum, a deusa das águas doces e do amor; os parques
ajardinados pertencem aos Ibeji (gêmeos sagrados), crianças
divinizadas; os bosques e florestas são de Oxóssi, deus das
matas; os cemitérios espaços atribuídos a Nanã,
Obaluaiê, Omolu e Ewá, deuses associados à velhice,
à morte, às doenças e à transmutação
do corpo e assim por diante, com outros orixás. Os rios da cidade
são empregados, por essas religiões, como caminhos para o
mar, “o maior cemitério do mundo”, para onde é enviada a
maioria dos “carregos” (descartes dos rituais de purificação
espiritual, chamados ebós). Iemanjá, a deusa das águas
salgadas, é cultuada à beira do mar. Ossaim, o deus das folhas
curativas e mágicas, é cultuado, em bosques e, muitas vezes,
até mesmo em jardins de residências particulares. Não
é desconhecida da maioria dos paulistanos a imagem de despachos
nas esquinas da cidade, ao pé dos postes de luz elétrica,
diante de bancos, cemitérios etc., sinais das práticas afro-brasileiras
na cidade (Silva, 1996). O sincretismo afro-brasileiro
também faz com que muitas igrejas católicas sejam tomadas
como espaço de culto por certas comunidades destas religiões.
Assim, todo dia quatro de dezembro, Santa Bárbara se torna Iansã.
O mesmo acontece com São Jorge no dia 21 de abril, quando se torna
Ogum, com São João, em 24 de junho, quando se torna Xangô
e assim por diante. O Parque do Ibirapuera, espaço destinado ao
lazer e às atividades culturais, recebe oferendas de doces para
os Ibeji aos pés de suas árvores e para a deusa do amor,
Oxum, à beira do lago. O ginásio do Ibirapuera, no dia 21
de abril se torna um grande terreiro de Umbanda, em que milhares de fiéis
entram em transe de seus orixás na festa de São Jorge/Ogum.
Os cemitérios do Araçá e da Consolação,
como vários outros, recebem ebós em suas alamedas, pedindo
saúde e vida aos orixás
. As ruas do bairro do Jabaquara são sacralizadas em setembro pela
procissão das Águas de Oxalá realizada pelo candomblé
Axé Ilê Obá. Os afro-brasileiros também pontuam
a cidade com as lojas de artigos religiosos, como as lojas Luar, no Ipiranga,
Ilê Axé, na Cidade Ademar e a Casa de Velas Santa Rita, na
Liberdade, entre muitas outras que vendem material para seus cultos. Outras
religiões também têm seus fornecedores de materiais
espalhados pela cidade. De modo que se olharmos atentamente, poderemos
encontrar, em cada ponto da cidade, visíveis sinais da presença
do sagrado (Amaral, 2002).
Metrópole
"da fé"
No
começo do século XXI, encontram-se, em São Paulo templos
de diferentes crenças, algumas conhecidas apenas por grupos de imigrantes,
como a Igreja Católica Chinesa da Sagrada Família, na Vila
Olímpia, Igreja Armênia, na Ponte Pequena, a Igreja Escandinava,
na Boa Vista, a Igreja Evangélica Suíça e a Igreja
Internacional do Calvário (Batista), no bairro do Campo Belo, a
Igreja Maronita Eparquia Nossa Senhora do Líbano, no bairro da Liberdade,
a Igreja Messiânica Mundial do Brasil, na Vila Mariana, a Igreja
Seicho-No-Iê do Brasil, no Jabaquara, a Igreja Católica Inglesa
de Nossa Senhora Auxiliadora, na Chácara Flora, a Igreja Católica
Coreana de Nossa Senhora Rainha, na Vila Monumento, a Igreja Católica
Alemã de São Bonifácio, na Vila Mariana, a Igreja
Católica Lituana de São José, na Vila Zelina, a Igreja
do Evangelho Quadrangular, no bairro de Santa Cecília, a Igreja
Tenrikyo de Dendotyo, na Vila Mariana e inúmeras lojas maçônicas,
templos de tradições budistas e hinduístas (como a
Hare-Krishna), os múltiplos espaços neoesotéricos
(Magnani,1999), além dos incontáveis
templos sem sinais exteriores, como os dos centros espíritas kardecistas
e certas denominações protestantes, que não permitem
ao leigo divisar sua localização. A lista não tem
fim.
Como
se vê, um dossel sagrado cobre a cidade de São Paulo. São
nomes de lugares, de ruas, praças, largos, instituições
hospitais,
escolas, creches e asilos (mantidos ou não por igrejas e irmandades
religiosas), escolas confessionais, igrejas, capelas, catedrais, conventos,
mosteiros, cemitérios, lojas especializadas em material litúrgico,
livros, discos, filmes e um sem-número de símbolos que se
espraiam pela cidade cotidianamente, de modo mais ou menos visível
ao conjunto dos habitantes. Cada uma dessas instituições
guarda a memória do sagrado e a reproduz constantemente, adaptando-se
aos tempos para sobreviver ou guardando no conservadorismo sua identidade,
pela via da alteridade. Sobretudo, guardam o sentido da história
da cidade e de seus membros inscrita em seus livros mas, também,
em suas paredes, em seus cânticos, suas obras de arte constituindo-se
em repositório de técnicas muitas vezes já esquecidas.
São tesouros de arquitetura, engenharia, marcenaria, ourivesaria,
escultura, cinzelaria, entalhe, fundição, movelaria, pintura,
esmaltação, além de acervos documentais de inestimável
valor, entre os quais se encontram partituras e instrumentos musicais e
outros bens, geralmente conservados nas administrações, sacristias,
subsolos e casas paroquiais das muitas igrejas da cidade. Cada instituição
religiosa pode ser pensada como um pequeno memorial do grupo que nela se
reúne e convive, ritualizando e celebrando sua experiência
na cidade.
Ao
recortarmos a cidade pelas marcas empíricas do sagrado, surge, portanto,
um ambiente pleno de devoções e ascese; uma verdadeira "metrópole
da fé", com muito pouco da secularização "esperada”
pelos teóricos da Cidade nos anos de 1920. Pelo contrário,
pode-se ver novas formas de religiosidade brotando da rica experiência
dos urbanitas no campo do sagrado paulistano. Mas que o leitor não
se engane: seria possível provar o inverso. Seria possível
dizer que São Paulo, ao contrário do que se afirma aqui,
é a cidade do da luxúria, da gula, da vaidade, bastando para
isso voltar os olhos aos ambientes e instituições relacionados,
por exemplo, à gastronomia, ao sexo e seus derivados. E esse é
o grande “milagre” que a metrópole realiza: o de crer e não
crer, o de ser e de não ser, o de ter e não ter. De existir
conforme a existência humana nela se reflita e se desenhe, se cante
e se celebre.
Notas
Paulo
de Tarso (São Paulo) é considerado o apóstolo que
deu maior ênfase aos gentios, pois, segundo consta na Bíblia
católica, seu chamado era destinado aos que estavam espalhados pelo
mundo (Atos 13:47). Não é difícil, portanto, compreender
por que os jesuítas, dedicados à evangelização
dos povos do "Novo Mundo", tinham em São Paulo forte arrimo para
sua obra e fé.
Piratininga, segundo o lexicógrafo, filólogo e tradutor brasileiro
Francisco
da Silveira Bueno (1898 —1989), é um vocábulo tupi que
significa "peixe seco". Do indígena pira: peixe; e tininga: seco.
O topônimo teria referência aos peixes que morriam à
margem do rio Anhangabaú, depois que este transbordava pelas cheias
e secavam expostos ao sol. (Silveira Bueno, 1993).
Pelos
padres Manoel de Paiva, Afonso Brás, José de Anchieta e Manoel
da Nóbrega.
"Taipa
de pilão" é uma técnica construtiva de origem ibérica,
que consiste em socar em um pilão a terra umedecida, à qual
são adicionadas fibras vegetais, areia, estrume, óleo de
baleia e, algumas vezes, sangue animal, até transforma-la em massa
uniforme com a qual são preenchidas estruturas de madeira, retiradas
após a massa estar completamente seca.
Coube
ao Frei Mauro Teixeira a tarefa de fundar um mosteiro no território
paulistano. Para tanto, a Câmara da Vila de São Paulo concedeu-lhe
uma área que, anteriormente, havia sido a aldeia do cacique Tibiriçá,
considerado um dos fundadores daquela Vila. A este respeito assim pronunciou-se
o historiador Afonso de Taunay: “O local concedido
a S. Bento era o mais illustre da villa, depois do Collegio, o lugar onde
se assentara a taba do velho Tibiriçá, o glorioso índio
que realisara a approximação euroamericana e permittira o
surto da civilisação no planalto, salvando S. Paulo da aggressão
tamoya de 1562.” Uma humilde capela dedicada a São Bento foi, então,
edificada por Frei Mauro Teixeira no local. Alguns anos mais tarde, esta
mesma capela deu origem ao Mosteiro, apontado por Dom Martinho Johnson
como a instituição mais antiga de São Paulo.
Situada
no Largo de São Bento, s/n, numa das extremidades do Viaduto Santa
Ifigênia, deu origem ao Mosteiro de São Bento. O edifício
atual é o quinto a ser erigido. Sua construção foi
iniciada em 1911 e terminou em 1922. Em estilo normando-bizantino, a igreja
abacial é dedicada a Nossa Senhora da Assunção e possui
entre seus tesouros sagrados um crucifixo barroco de 1777, as estátuas
dos Apóstolos dispostas ao longo da nave, a imagem da Virgem de
Kasperovo, trazida por imigrantes russos que fugiram da revolução
comunista, a capela do Santíssimo, ricamente decorada, os vitrais
da Assunção (sobre o altar), dos Evangelistas (na fachada
da igreja, visto apenas por quem está do lado de dentro) e de São
Bento (no transepto) e o órgão de tubos feito pela casa Walcker,
na Alemanha. Anualmente, o Mosteiro organiza um festival de música
neste instrumento. Aos domingos, pela manhã, é possível
assistir missa acompanhada de cantos gregorianos. No Mosteiro de São
Bento estão sepultados os corpos do bandeirante Fernão Dias
Paes Leme e sua mulher e do cacique Tibiriçá, entre outras
personalidades marcantes da história de São Paulo.
Os
monges beneditinos se instalaram em São Paulo no ano de 1598 e,
desde então, nunca saíram do hoje chamado Largo de São
Bento.
Situada
no Largo de São Francisco, no Centro Velho. A atual construção
data de 1970. Sua arquitetura é de estilo barroco e possui valiosas
pinturas do século XVIII.
A
igreja da Sé foi elevada à categoria de catedral em 1745.
A atual edificação é de 1913. Sua construção
demorou décadas em conseqüência, sobretudo, do uso de
granito na maioria das paredes. Em 1954, ainda não havia sido concluída
e durante os festejos do IV Centenário da cidade a Catedral foi
inaugurada sem as torres, que seriam construídas mais tarde. Em
1999 a Arquidiocese de São Paulo decidiu realizar um grande plano
de restauração e conclusão do prédio da Catedral
da Sé. Devido aos desgastes do tempo, a estrutura do edifício
e demais componentes da catedral apresentavam sérios riscos de perda
e de acidentes para seus freqüentadores. O templo foi, então,
fechado e iniciaram-se as obras, que implicariam no restauro e na conclusão
do prédio até então inconcluso. Obviamente, as obras
realizaram a planta original. Construíram-se as 14 torres laterais
que faltavam e foram restaurados: o prédio, os vitrais, as obras
de arte, as magníficas portas, a iluminação, o carrilhão
de sinos, juntamente com uma limpeza geral de toda a construção
e a musealização de seu acervo. Um dos cinco maiores templos
góticos do mundo, a Catedral da Sé, restaurada e concluída,
foi reaberta em 2002, após três anos de reformas, voltando
a ter missas diárias e programação de outras atividades
religiosas. Além disso, oferecem-se, agora, visitas monitoradas
ao templo.
A
Igreja da Misericórdia foi demolida em 1888.
No
ano de 1560 foi criada a Confraria da Misericórdia de São
Paulo dos Campos de Piratininga, alojada no Pátio do Colégio,
depois nos Largos da Glória e Misericórdia, até ser
inaugurado, na Vila Buarque, em 1884 o Hospital Central - sua sede até
os dias de hoje.
A
edificação atual é uma réplica da Seiscentista,
pois em 1896 a igreja do Bom Jesus sofreu um desmoronamento e o Palácio
dos Governadores foi demolido por volta de 1953, tendo o conjunto, no formato
atual, sido reinaugurado em 1979. Mantiveram-se em seu interior, para estudos,
partes da terceira construção, datada de 1681, segundo Taunay.
Chamada,
após 1946 de Estrada de Ferro Santos-Jundiaí.
Os
cursos jurídicos em São Paulo tiveram inicio em 1828, no
antigo Convento de São Francisco, numa sala ampla que fora a antiga
sacristia. Em 1880, um violento incêndio destruiu o edifício,
reduzindo a cinzas a maior parte do arquivo da Faculdade e a capela-mor
da Igreja de São Francisco. Em 1935, por iniciativa do professor
Alcântara Machado, o velho edifício do Convento foi demolido,
sendo construído no mesmo local o atual prédio da Faculdade
São Francisco.
No
século XX surgiram outras igrejas Presbiterianas, como a Igreja
Presbiteriana Conservadora (1940), a Igreja Presbiteriana Unida do Brasil
(1966) e outras. Na década de 1970 surgem grupos com características
pentecostais, como a Igreja Cristã Presbiteriana, a Igreja Presbiteriana
Renovada e a Igreja Cristã Reformada.
Assim,
foi criado, no ano seguinte, o Cemitério dos Ingleses, no bairro
da Gamboa, no Rio de Janeiro, possivelmente o mais antigo cemitério
protestante do Brasil.
Mais
tarde, em 1879, Saldanha Marinho apresentou um projeto de lei transferindo
a administração dos cemitérios públicos para
a exclusiva competência das câmaras municipais, sem intervenção
de qualquer autoridade eclesiástica.
Tombado
pelo Condephaat em 12 de Abril 2004.
Em
1954 foi criado o Cemitério Israelita do Butantã e, recentemente,
o de Embu, inaugurado em 2001.
Segundo
levantamento da Federação Israelita do Estado de São
Paulo (Fisesp), de 2001.
Em
1988, 80% dos nipo-brasileiros estavam residindo na zona urbana, mas ainda
continuam com a fama de agricultores.
Fusão
da Faculdade Paulista de Direito com a Faculdade de Filosofia, Ciências
e Letras de São Bento, de 1908. Recebeu o título de Pontifícia
em janeiro de 1947 pelo papa Pio XII.
É
freqüente o uso desses espaços institucionais de modo diverso
daquele a que foram destinados. Os grupos góticos, por exemplo,
também fazem uso do cemitério para fins próprios (reuniões
de grupos para a leitura de textos), assim como os afro-brasileiros para
seus rituais.
Bibliografia
Amaral,
Rita. Povo-de-santo, povo de festa. O estilo de vida dos adeptos
do candomblé paulista; Dissertação de Mestrado,
Universidade de São Paulo, São Paulo, 1992.
Amaral,
Rita. Cidade em Festa. o povo-de-santo (e outros povos) comemora em São
Paulo. In: Magnani, José Guilherme C. & Torres, Lilian de Lucca
(orgs.) Na Metrópole - Textos de Antropologia Urbana.
São Paulo, EDUSP, 1996.
Amaral,
Rita. Festa "à Brasileira": sentidos do festejar no país
que não é sério. São Paulo/IInternet,
EbooksBrasil, 1998.
Amaral,
Rita. "O tombamento de um terreiro de candomblé em São Paulo"
In: Comunicações do ISER, no. 41, Rio de Janeiro,
1991.
Amaral,
Rita. Xirê! - O modo de crer e viver do candomblé.
Rio de Janeiro, Ed. Pallas, 2002.
Autos
de Ereção e Patrimônio de Capelas (Livro 1-1-3 dos
Arquivos da Cúria Metropolitana)
Bettanini,
Tonino Espaço e Ciências Humanas. Rio
de Janeiro, Paz e Terra, 1982.
Bueno,
Francisco da Silveira. Vocabulário Tupi-Guarani-Português,
São Paulo, Editora Gráfica Nagy Ltda, 1993, 2ª ed
Bruno,
Ernani da Silva. Tradições e Reminiscências da
Cidade de São Paulo. São Paulo, Hucitec/SMC, 3 vol.,
1984.
Calvino,
Ítalo As Cidades Invisíveis. Cia. das Letras,
São Paulo, 1991.
Del
Priore, Mary. Festas e utopias no Brasil Colonial. São
Paulo, Ed. Brasiliense, 1993
Dias,
Maria Odila Leite da Silva. Quotidiano e poder em São Paulo
no século XIX. São Paulo, Brasiliense, 1984.
Duby,
Georges. O tempo das catedrais. Lisboa, Ed. Estampa, 1988.
Fausto,
Bóris. Trabalho urbano e conflito social (1890 -1920).
Rio de Janeiro, Difel, 1977.
Ferrara,
Lucrécia D' A. Ver a cidade: cidade, imagem, leitura.
São Paulo: Ed. Nobel, 1988.
Lévy-Strauss,
Claude, Tristes trópicos. 1. ed. São
Paulo: Companhia das Letras, 1996.
Magnani,
José Guilherme C. & TORRES, Lílian De Lucca (orgs.).
Na
Metrópole. Textos de Antropologia Urbana. São Paulo,
EDUSP, 1996.
Magnani,
José Guilherme C. Mystica Urbe - um estudo antropológico
sobre o circuito neo-esotérico na metrópole. São
Paulo, Studio Nobel, 1999.
Osman,
Samira Adel & Ribeiro, Olívia C. F. Arte, história, turismo
e lazer nos cemitérios da cidade de São Paulo. In: Licere,
Belo Horizonte, v.10, n.1, abr./2007.
Porchat
Rodrigues, Edith. Informações Históricas sobre
São Paulo no Século de sua Fundação,
São Paulo, Martins Editora, 1954.
Silva,
Vagner Gonçalves da. “As esquinas sagradas. O candomblé e
o uso religioso da cidade”. In: MAGNANI, José Guilherme C. &
TORRES, Lilian de Lucca (org.) - Na Metrópole. Textos de antropologia
urbana. São Paulo, EDUSP, 1996.
Taunay,
Afonso de E. São Paulo nos primeiros anos (1554 -1601).
Tours, Imprenta de E. Arrault e Cia, 1920.
|