São Paulo: dos jesuítas aos urbanitas, metrópole "da fé".

Rita Amaral
Antropóloga, Ph.D.
Núcleo de Antropologia Urbana da Universidade de São Paulo



 
 

 
 

As mil faces da Cidade


 No livro de contos "As Cidades Invisíveis”, o escritor Ítalo Calvino (1991) nos faz ver que é possível distinguir "diferentes" cidades numa única, conforme se privilegiem determinados aspectos. Assim, ele faz o personagem Marco Pólo "viajar" por cidades inteiramente distintas a partir do olhar que recai sobre o traçado das ruas, sobre as torres, a memória, a presença da música, sobre os encanamentos ou sobre os mortos, entre muitos outros aspectos. Do mesmo modo o faz a antropologia urbana, por meio da etnografia, ao pensar a cidade enquanto escolhas e delimitação das relações que diferentes atores sociais estabelecem com o ambiente urbano e com outros grupos no fragmentário sistema produtivo das urbes. Cada grupo social, com seu modo de ver o mundo, ou com interesses voltados para aspectos específicos, pode "construir" e "reconstruir" sua cidade, criativamente, a partir de elementos selecionados no amplo leque de opções disponíveis na cultura de uma dada sociedade. Ou seja: a cidade pode ser vista e compreendida a partir das dimensões do trabalho, do lazer, da economia, da religião, das artes, das formas de sociabilidade, das esquinas, das festas e sempre haverá uma cidade diferente a ser percebida, conforme se privilegiem aspectos específicos. 
 


Assim sendo, temos, num dado território, a cidade visível, feita de equipamentos, infraestrutura, edificações, serviços, monumentos históricos, população, trânsito, rios, parques, calçadas, telhados, tampos de bueiro, muros e grades, pichações etc., a cidade invisível (feita de relações de troca, trabalho, familiares, além das estruturas de água, energia elétrica, esgotos, telefonia, descartes etc.) e a cidade in-visível, perceptível e apenas por dentro e de perto: a dos percursos e leituras humanas da experiência urbana (Amaral, 1992: 38). Cidade lócus de trocas materiais e simbólicas entre grupos vários, de ressignificações, de memória e reconhecimento que se espelham nos espaços onde tiveram e/ou têm lugar relações significativas. 
 


Nesse sentido, entre as muitas cidades legíveis na metrópole paulistana, existe aquela formada pelos elementos do sagrado materializados, representando crenças e práticas que orientam o pensamento e a conduta de seus habitantes. Sob esse ponto de vista, embora São Paulo seja conhecida como o maior centro econômico do país, metrópole pós-moderna e pluricultural, de relações impessoais, individualistas e espaço social extremamente secularizado, a abordagem antropológica permite, ao observa-la mais demoradamente e em profundidade, encontrar uma cidade intimamente permeada pela religiosidade e, portanto, por crenças metafísicas, valores éticos e princípios filosóficos que se cria já abandonados em favor do racionalismo e da ciência. Observando atentos, veremos as torres com seus sinos, os pináculos encimados por cruzes, os anjos de bronze e mármore, os cruzeiros, santos, flores e imagens dos cemitérios, as lojas de artigos religiosos, as oferendas nas encruzilhadas, os nomes de santos, sacerdotes e sacerdotisas formando uma cartografia de bairros, ruas, escolas, largos, praças, estabelecimentos pios, públicos e comerciais revelando conteúdos simbólicos que orientaram – e continuam a orientar – as práticas culturais das quais a Cidade extrai seu sentido.
 
 
 
 
 

São Paulo dos jesuítas
 

Desde sua origem, a história da cidade de São Paulo foi marcada pela presença do sagrado. A cidade se desenvolveu ao redor das igrejas das várias ordens religiosas que vinham cuidar das almas de seus fiéis ou converter os habitantes do lugar, das quais a primeira foi a influente Companhia de Jesus. Após longa viagem pela Serra do Mar, em 25 de janeiro de 1554 – data em se comemora a conversão ao cristianismo do santo católico ao qual dedicavam grande devoção–, os jesuítas chegam ao lugar que os índios chamavam de Piratininga, onde fundam, com a celebração  de uma missa, o Colégio São Paulo, a fim de pacificar e catequizar os nativos do lugar e transmitir-lhes o modo de vida "civilizado". 
 


A primeira instalação do Colégio foi descrita pelo padre José de Anchieta como uma cabana de pau-a-pique com cerca de 90m². Graças à sua diligência, os jesuítas atrairam os casebres dos primeiros convertidos para as proximidades do Colégio. Com a ajuda destes, desenvolveram alguma agricultura de subsistência. Aos poucos, instalaram-se em redor das edificações dos jesuítas também os que se engajavam nas bandeiras em busca de ouro, pedras preciosas e ampliação das novas terras. Em 1556, concluiu-se a construção do Colégio e da Igreja de Bom Jesus, feitos em taipa de pilão. Sendo um centro para o qual convergia todo tipo de relações (religiosas, educacionais, econômicas e políticas), ao seu redor foram se distribuindo os moradores locais e em 1560 o pequeno povoamento ganha status e privilégios de Vila e um pelourinho; mas sua distância do litoral, o isolamento comercial e o solo inadequado ao cultivo de produtos de exportação condenavam a Vila a ocupar uma posição insignificante nos primeiros séculos da colonização portuguesa. Por isso ficou limitada ao que hoje se chama de Centro Velho de São Paulo. No mesmo ano, por influência dos jesuítas, a Câmara da Vila de São Paulo proíbe a escravização dos indígenas. Em razão de sua visão das relações entre a Coroa e a Colônia e de sua forte ascendência sobre os nativos locais, em 1640 os jesuítas são expulsos de São Paulo, onde as principais atividades já estão concentradas nas proximidades do triângulo formado por três ordens religiosas e suas igrejas: a dos carmelitas com a igreja de Nossa Senhora do Carmo (1592), a dos beneditinos  com a igreja de São Bento  (1600 ) e a dos franciscanos com a de São Francisco  (1674), ainda hoje existentes em São Paulo. 
 


Até o século XIX, nas ruas do triângulo (atuais ruas Direita, XV de Novembro e São Bento) concentravam-se o comércio, a rede bancária e os principais serviços de São Paulo. Juntava-se a elas, em importância, a Matriz de São Paulo, de 1616, construída em local escolhido pelo cacique Tibiriçá, líder dos Guaianá (Porchat, 1954), onde teve curta duração. Em meados do século XVIII, encontrava-se em ruínas e o Santíssimo Sacramento da freguesia teve que ser transferido para a igreja da Misericórdia, tida como situada em melhor lucal e a Matriz foi reformada em 1764. Na mesma igreja de Nossa Senhora da Misericórdia  funcionou a Santa Casa, fundada pela Confraria da Misericórdia de São Paulo de Piratininga, por volta de 1560.
 


Em 1653, Fernão Dias Paes, tio do bandeirante de mesmo nome, homem influente, negocia a volta dos jesuítas para a Vila de São Paulo. O Governador do Brasil e o Rei de Portugal dão-lhes garantias para que voltem ao país, pois seu admirável trabalho na área da educação era imprescindível. O Colégio, que sofrera sérios danos na ausência dos padres missionários, teve de ser praticamente reconstruído. Ali, os jesuítas desenvolveram o ensino e a catequese.  Como se nota, os primórdios da história de São Paulo se deram em torno de um agrupamento religioso, que zelava para que o catolicismo não apenas fosse professado, mas para ampliar o número de conversões, especialmente dos índios. 
 


O crescimento populacional e a devoção aos muitos santos, especialmente num ambiente hostil, com fauna e flora desconhecidas, deram ocasião a muitas promessas pagas com construções de capelas e igrejas e propiciaram a formação de irmandades, congregações e confrarias que se dedicavam não apenas à devoção espiritual, por meio de procissões e festas, mas, principalmente, às obras de caridade e sociais, ao redor das quais se desenvolvia a sociabilidade da Colônia (Del Priore, 1993).
 


Em 1681, São Paulo foi considerada a cabeça da Capitania de São Paulo e em 1711 a Vila foi elevada à categoria de Cidade de São Paulo. No entanto, ainda era um lugarejo pobre, ponto de passagem de viajantes, vivendo de agricultura e pequeno comércio. 
 
 

Em 1759 os jesuítas são novamente expulsos, desta vez do Brasil, por ordem do Marquês de Pombal, ministro da Coroa portuguesa, devido à influência que exerciam junto aos índios, fato que preocupava os colonizadores. A ofensiva de Pombal contra a Companhia de Jesus prolongou-se, junto com as cortes de Bourbon, até a extinção da Ordem religiosa, em 1773, pelo papa Clemente XIV, que expulsa os jesuítas de toda a América e os extingue em todo mundo. O Colégio dos jesuítas torna-se, então, o Palácio dos Governadores, representantes da Coroa Portuguesa, e a construção de 1653 é inteiramente descaracterizada. É dessa época, também (1774), o Mosteiro da Luz, criado pelo, então bispo, Frei Antônio Galvão (recentemente santificado pelo papa Bento XVI como Santo Antônio de Santana Galvão, o primeiro santo brasileiro), onde também se situa o Museu de Arte Sacra de São Paulo, que mantém uma das maiores coleções de arte sacra da América do Sul. 
 
 


A Companhia de Jesus só seria restaurada em 1814, pelo papa Pio VII, retornando às suas atividades. Em 1896 a Igreja de Bom Jesus, administrada pela Diocese na ausência dos jesuítas, desaba  e parte do altar-mor, de 1680, é levada para a Igreja do Sagrado Coração de Maria, em Santa Cecília. O Pátio do Colégio é conhecido, nessa época, como "Largo do Palácio". Em 1932, o Palácio dos Governadores passou a abrigar a Secretaria da Educação do Estado de São Paulo. Em 1953, como um dos marcos da comemoração dos 400 anos da cidade, que ocorreria no ano seguinte, o Pátio do Colégio foi devolvido aos jesuítas e o prédio do Palácio dos Governadores demolido. Em 1979, dentro da réplica construída no espaço histórico do "Pátio do Colégio", foram inaugurados o Museu Anchieta (que reúne todo o histórico da vida do sacerdote) e a Igreja do Beato José de Anchieta. Atualmente o Pátio do Colégio é um precioso ponto estudos históricos, sociais e arquitetônicos, entre outros, e um dos principais pontos de turismo histórico da cidade. 
 
 


As muitas igrejas da cidade constituem, também, não só valioso patrimônio histórico de São Paulo como referências de identidade para os moradores locais. O bairro do Brás, por exemplo, teve origem na capela erguida pelo português José Brás em louvor ao Senhor Bom Jesus de Matosinhos, no século XVIII. Teve sua vocação definida a partir da implantação da ferrovia, em 1877, e influiu decisivamente na posterior configuração social do espaço pelo fato de haver atraído para suas margens atividades industriais e comerciais. Seus terrenos alagadiços, de baixo custo e as indústrias que começavam a se instalar transformaram-no num bairro popular, onde a influência italiana se fez sentir de maneira decisiva a partir do final do século XIX. Também testemunham esse processo as igrejas de São Vito, no Brás, São Genaro, na Mooca e Santo Emídio na Vila Prudente, além das de Nossa Senhora Achiropita e de Nossa Senhora de Casalucce, santos cujas festas de rua - com procissões, barracas de comida típica e música folclórica - revivem, anualmente, a identidade cultural italiana em São Paulo (Amaral, 1996). 

 
 
 

A partir de 1760, o café chega ao Vale do Paraíba. Ali prosperam as fazendas de café, fazendo com que a região sofra grande mudança. A cafeicultura torna-se, rapidamente, a principal atividade agrícola do país, liderada por São Paulo, em razão, principalmente, da existência no local da chamada "terra roxa", ideal para seu plantio. 
 
 


A assinatura do Tratado de Aliança e Amizade, firmado entre o Brasil e Inglaterra em 1810, e a desativação da Inquisição portuguesa permitiram oficialmente a vinda de imigrantes não-católicos ao Brasil. A liberdade de culto, estabelecida a partir da promulgação da Constituição Imperial de 1824, foi determinante na escolha do Brasil (e de São Paulo pela possibilidade de trabalho) como destino por vários grupos de imigrantes. Em 1840, o café produzido em São Paulo era responsável por quase metade da renda obtida com exportações e São Paulo o estado mais rico do país. A cidade sofre, então, profundas mudanças econômicas e sociais decorrentes do fim da escravidão e do afluxo de imigrantes europeus para trabalhar na expansão da lavoura cafeeira e na construção da São Paulo Railway Company (1867), ligando o planalto paulista ao litoral. Com a imigração vieram, também, outros costumes, tradições e, principalmente, outras formas de religiosidade. A cidade de São Paulo é assinalada por novos ícones de crenças que testemunham a diversidade cultural e a vocação de São Paulo para a aceitação das múltiplas formas de ser e de viver humanas. Nessa época chegaram à cidade muitos judeus, protestantes e muçulmanos. 
  
 
 

São Paulo dos urbanitas
 

Em 1895 a população de São Paulo era de 130 mil habitantes (71 mil deles estrangeiros), chegando a 239.820 em 1900. Nesse período, a área urbana se expandiu para além do perímetro do triângulo, surgindo as primeiras linhas de bondes, os reservatórios de água e a iluminação a gás. Enriquecida pela exportação do café, surge uma elite paulista conhecida como “os barões do café", que começa a deixar suas fazendas, no interior do estado, para se instalar na capital em busca de educação para os herdeiros, vida social e negócios. São Paulo vive uma explosão urbana. Os novos e influentes moradores, detentores do poder político estadual e nacional, iniciam uma remodelação do espaço, adaptando a cidade ao seu gosto e ideologia. Essas transformações modelam uma metrópole que mostra, ainda hoje, na forma de ocupação urbana, a complexidade de seu crescimento arrebatado, desordenado e veloz, os conflitos sociais que a perpassaram e a rica diversidade cultural de seu povo. A cidade que surge dessa mudança é marcada, também,  por contrastes e fronteiras, mas, sobretudo, por novos pactos, trocas e traduções culturais. 
 
 
 

A religiosidade, contudo, permaneceu em seu papel de dar sentido às ações humanas. Novos ícones de religião o testemunham, seja em destaque na paisagem ou ocultos nas dobras e vãos urbanos, visíveis somente aos que decodificam seus signos e sabem ouvir os sons da memória gravados nas pedras. Muitos nem se dão conta de que apenas na região central da cidade existem, pelo menos, 23 templos católicos: 
 

 


Capela de Anchieta (1979), no Pátio do Colégio, Capela de Nossa Senhora dos Aflitos (1774), na R. dos Aflitos, Capela do Menino Jesus e Santa Luzia (1901), na R. Tabatingüera, Capela Militar de Santo Expedito (1942), na R. Dr. Jorge Miranda, Capela da Santa Cruz dos Enforcados (1902), Praça da Liberdade, Catedral Metropolitana (1913/1954/2002), Praça da Sé, Igreja da Ordem Terceira do Carmo (1804), Av. Rangel Pestana, Igreja das Chagas do Seráfico Pai São Francisco (Ordem 3a.) (1670/ 1787), Largo de São Francisco, Igreja de Santa Ifigênia (1912), R. Santa Ifigênia, Igreja de Santo Antônio (1590/1889), Praça do Patriarca, Igreja de São Cristóvão (1856), Avenida Tiradentes, Igreja de São Francisco de Assis (1647), Largo. de São Francisco, Igreja de São Gonçalo (circa 1770), Praça João Mendes, Igreja de Nossa Senhora Auxiliadora (1923), R. Três Rios, Igreja de Nossa Senhora da Boa Morte (1810), Rua do Carmo, Igreja de Nossa Senhora da Consolação (1799/1970), R. da Consolação, Igreja de Nossa Senhora da Paz (circa 1940), R. do Glicério, Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos (1906), Largo do Paissandu, Igreja de Nossa Senhora da Luz (1774/1822), Avenida Tiradentes, Igreja de São Bento (1600/(1922), Largo de São Bento, Santuário do Sagrado Coração de Jesus (1901), Largo do Coração de Jesus, Igreja Católica Ortodoxa Antioquina da Anunciação a Nossa Senhora (1904), R. Cavalheiro Basílio Jafet e a Catedral Metropolitana Ortodoxa (1934/circa 1970), na R. Vergueiro.

  


No período colonial foi pouco significante a presença dos protestantes em São Paulo. Apenas no início do século XIX, com a mudança da corte portuguesa para o Rio de Janeiro, é que o protestantismo inseriu-se na sociedade brasileira de modo mais efetivo. A partir de 1810, instalou-se no Brasil o chamado "protestantismo de imigração", quando todos os protestantes no Brasil eram estrangeiros, especialmente ingleses (anglicanos) e alemães (luteranos). Depois foi a vez do "protestantismo de missão", a partir de 1855, com as missões européias e estadunidenses. A Igreja Presbiteriana do Brasil é a denominação protestante mais antiga do país, trazida pelo missionário estadunidense Ashbel Green Simonton em 1859. Seu primeiro templo foi instalado na R. Nova de São José (atual R. Líbero Badaró), no Centro. O presbitério da R. 24 de Maio foi inaugurado em 1884. Em 1903 constitui-se a primeira Igreja Presbiteriana Independente de São Paulo, mas seu templo (na R. Nestor Pestana, no bairro da Consolação), data de 1910. Os anglicanos, por sua vez, chegaram ao Brasil no início do século XIX; mas só por volta de 1890 é que passaram a integrar brasileiros. Um de seus belos templos na cidade de São Paulo é a Catedral Anglicana (Igreja Episcopal Anglicana do Brasil), na R. Comendador Elias Zarzur, no bairro de Alto da Boa Vista onde, aos domingos, são celebrados cultos em inglês e em português. A história da Igreja em São Paulo remonta ao século XIX, quando os ingleses vieram ao Brasil para construir a estrada de ferro São Paulo Railway (Santos-Jundiaí). A igreja original foi construída em 1873, perto da Estação da Luz, no centro de São Paulo. O atual edifício da igreja, na região de Santo Amaro, foi consagrado em 1967. 
 
 
 

Entre os ingleses e americanos, vieram, ainda, os metodistas, cujo primeiro templo em São Paulo é de 1922. Os batistas são representados por vários templos em São Paulo, entre eles os da Primeira Igreja Batista de São Paulo (1957), na Praça Princesa Isabel, a Igreja Evangélica Batista Luz, na R. Prates e a Igreja Evangélica Batista da Liberdade, na R. Santo Amaro. Os adventistas e as várias dissidências pentecostais posteriores, inclusive neopentecostais, como a Assembléia de Deus, a Igreja Internacional da Graça, a Igreja Universal do Reino de Deus, a Igreja Renascer em Cristo, a Igreja Deus é Amor, a "Bola de Neve" Church e outras denominações, espalham-se por toda São Paulo, ocupando velhos cinemas, galpões, casas e barracões pouco distinguíveis na paisagem urbana; mas que, segundo dados do CEM/CEBRAP, já chegavam, em 2002, a 225 templos da IURD, mais 698 da Assembléia de Deus, para se ter uma idéia da proliferação da religiosidade evangélica na cidade. Vieram, também, em 1935, os mórmons, com a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, que, recentemente, construíram um suntuoso templo na R. Francisco Morato, no bairro Butantã.
 



A data que representa a fundação da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil, em São Paulo, é de 1891, quando o pastor Emil Bamberg reúne 80 famílias e institui-se a "Egreja Evangélica Alleman". Seus estatutos, entretanto, só foram publicados em 1907. Enquanto organizavam-se campanhas e arrecadavam-se doações para a construção de um templo próprio, os cultos foram celebrados numa Igreja Presbiteriana. Só em 1908 – dezessete anos depois da constituição da Comunidade – surge o primeiro "templo" luterano em São Paulo, localizado na Av. Rio Branco, no centro da cidade. O templo – o primeiro em estilo neogótico da capital – ficou conhecido como "Igreja Matriz" e foi "rebatizado", em 1991, como Igreja Martin Luther. Ali se celebram cultos em alemão e em português. A comunidade luterana descentralizou-se em 1959, quando foi inaugurada a Igreja da Paz, na zona sul, segunda paróquia luterana da capital, a Paróquia Santo Amaro. A União Paroquial São Paulo, constituída em 1972, congrega, atualmente, dez comunidades.

 
 
 

Embora já estivessem aqui antes, a organização comunitária dos protestantes só foi possível com a vinda da Corte Imperial. Havia, entretanto, grandes dificuldades. O parágrafo quinto da Constituição do Império rezava:
 
 


"A religião católica apostólica romana continuará a ser a religião do Estado. Todas as demais religiões serão toleradas, em casas para tanto destinadas, sem qualquer forma exterior de templo”. 

 


Isso significava que não seriam permitidos quaisquer signos ou símbolos de outras religiões. Dada a preponderância do catolicismo no país (sendo ainda sua religião oficial), os protestantes, fossem estrangeiros ou brasileiros, enfrentaram sérios problemas ao longo do século XIX. Seus locais de culto não podiam ter a forma exterior de templos, eles não podiam se casar legalmente e nem registrar seus filhos. Viviam em concubinato – pois o casamento, para ser válido, deveria acontecer diante do padre – e os matrimônios dos evangélicos não tinham validade. Até os batismos chegaram a não ser reconhecidos, pois não existia o registro civil. Os protestantes estavam impedidos de participar da vida política e as crianças eram discriminadas nas escolas públicas, havendo diferentes formas de intolerância mal disfarçada. Outra restrição imposta aos protestantes dizia respeito ao destino de seus mortos. No período colonial não havia cemitérios no Brasil. Os mortos, geralmente, eram sepultados sob o piso ou nas paredes das igrejas e dos conventos católicos. Foi o Tratado de Comércio e Navegação, celebrado entre Portugal e Inglaterra, que concedeu, em seu Artigo 12, liberdade de culto aos ingleses e tolerância religiosa a outros não-católicos residentes no Brasil. O artigo dizia: 
  
 


"Permitir-se-á também enterrar, em lugares para isso designados, os vassalos de Sua Majestade Britânica que morrerem nos territórios de Sua Alteza Real o Príncipe Regente de Portugal"

 


A partir de 1828, por razões de saúde pública, as leis determinaram a criação de cemitérios municipais "a céu aberto", que só começaram a ser usados em 1850. A legislação também contemplava os cemitérios particulares, pertencentes às irmandades. Nos poucos cemitérios públicos, pelo fato de serem consagrados pela igreja católica, eram proibidos os enterros protestantes.





Imposta por lei, a inumação nos cemitérios a céu aberto, desvinculada do catolicismo, levou à secularização dos chamados "campos-santos". Fora da igreja (no âmbito da qual a vinculação a uma determinada ordem ou a própria localização de um túmulo mais próximo ou mais distante do altar, marcavam a posição social do falecido e de seus familiares), a elite construiu esplêndidas obras tumulárias, estendendo à morte sua posição social em vida, em busca de sacralização e monumentalização de sua passagem pelo mundo. Os barões do café, os imigrantes nouveau-riches, artistas, intelectuais, políticos, médicos, juristas e professores povoam os cemitérios da Consolação (1858), na rua de mesmo nome, o do Araçá (1887), na Av. Dr. Arnaldo e o São Paulo, na R. Cardeal Arco Verde. Como verdadeiros monumentos, os túmulos, livres dos olhos reprovadores da Igreja católica, são, também, um modo de homenagear seus próprios feitos e esforços e, principalmente, a riqueza conquistada (Osman & Ribeiro, 2007).
 
 
 

Como também não era permitido aos judeus sepultarem seus mortos nas igrejas católicas, estes – e outros não-católicos –, passaram a ser sepultados no Cemitério dos Protestantes, criado, em 1859, num terreno doado pela Marquesa de Santos, na atual R. Sergipe, nº 177, no bairro de Higienópolis. Atualmente, tanto os judeus, quanto os muçulmanos têm seus cemitérios comunitários: o Cemitério Israelita da Vila Mariana (1923)  e o Cemitério Islâmico de Guarulhos (circa 1968), assim como os japoneses têm um cemitério exclusivo para membros de sua colônia no interior de São Paulo, na cidade de Álvares Machado.
 




A presença judaica em São Paulo se mostra nas 25 sinagogas da cidade, sem contar as existentes no interior de escolas e clubes. A primeira delas foi fundada em 1912: a Sinagoga Comunidade Israelita Kehilat Israel, na R. da Graça, no bairro do Bom Retiro. A religiosidade judaica também insere outros ícones na cidade, especialmente ligados à sua visão de mundo, como a Sociedade Hebraica, o Centro de Cultura Judaica (grande construção que tem, externamente, a forma da Tora, livro fundamental do judaísmo) e o Hospital Israelita Albert Einstein.
 



De 1908 até 1941 (véspera da eclosão da Segunda Guerra Mundial) chegaram ao Brasil cerca de 188 mil japoneses agricultores para trabalhar nas fazendas de café do interior do Estado. Em 1912, 92,6% dos japoneses dedicavam-se ao cultivo do café. Em 1942, 24,3% deles cultivavam café e algodão (39,2%), culturas suburbanas (verduras, legumes, frutas) e praticavam a avicultura (19,9%). Ao final da II Guerra, deixaram a zona rural para morar e trabalhar nas cidades (na Capital ou no interior). Tornaram-se pequenos comerciantes (estabelecendo lavanderias, mercearias, feiras, pastelarias, cabeleireiros, oficinas etc.) dedicando-se à educação dos filhos. Em razão dessa imigração, no Brasil o budismo adquiriu características peculiares, pois, segundo alguns religiosos, a maior colônia de japoneses e descendentes do mundo trouxe consigo sacerdotes e instrutores budistas em distribuição expressivamente diversa da que existe no Japão e adaptações e reinterpretações locais foram necessárias.  As vertentes relacionadas à tradição Nitiren alcançaram admirável proliferação, assim como a Honmon Butsuryu-Shu do Brasil (HBS) e a associação de leigos Soka Gakkai. Como testemunho da presença efetiva do budismo no campo religioso brasileiro, existem pelo menos 204 templos budistas no Brasil, 83 deles no estado de São Paulo. Alguns são de proporções monumentais, como o Zu Lai, em Cotia. O templo Bushinji, da tradição Soto Zen, instalou-se em São Paulo em 1955, numa casa alugada no bairro da Liberdade e, mais tarde, transferido para a sede atual, na R. São Joaquim.
 



Em 1894, sobre o leito drenado do rio Tamanduateí surgiu a Rua 25 de Março, uma das mais importantes ruas de comércio da cidade de São Paulo. No pequeno porto que havia neste rio eram desembarcados os produtos vindos da Europa e do Oriente que chegavam do porto de Santos. Assim, as ruas que margeavam o porto começaram a receber comerciantes, em geral imigrantes oriundos do Oriente. A maioria dos imigrantes árabes, entretanto, era cristã. Os muçulmanos chegariam a São Paulo sobretudo durante a Primeira Guerra Mundial, nos anos 20, e durante a guerra do Líbano, nos anos 60. Só a partir de então é que chegariam mais muçulmanos ao país. A primeira mesquita de São Paulo foi fundada pela Sociedade Beneficente Muçulmana em 1955: a Mesquita Brasil, na Av. do Estado, no bairro do Cambuci. De acordo com o Conselho Superior para Assuntos Islâmicos no Brasil, vivem em São Paulo, hoje, cerca de um milhão de muçulmanos. O estado também concentra boa parte das mesquitas do país: cinco na capital mais outras dez no interior e litoral.




Os vários grupos religiosos se encarregaram de educar seus filhos conforme seus costumes e tradições, providenciando, para isso, que os métodos educacionais de suas culturas de origem estivessem disponíveis no Brasil. Assim, vários colégios e faculdades confessionais foram fundados e até hoje são mantidos por grupos descendentes de imigrantes. Entre eles, o Instituto Presbiteriano Mackenzie (1870), na Vila Buarque, a Universidade Metodista (1938), em Rudge Ramos, o Colégio Batista Brasileiro (1902), no bairro de Perdizes, o Colégio Luterano São Paulo (1933), no bairro do Moinho Velho. Fora estes, os católicos inseriram a Pontifícia Universidade Católica (1946), no bairro de Perdizes, a Faculdade São Bento (1908), no Centro e vários colégios que se tornaram tradicionais na educação da elite paulistana, como o Colégio São Luís (1867/1917), o Colégio de São Bento (1903), no Centro, o Colégio Assunção (1933), no Jardim Paulista, o Cristo Rei (1933), na Vila Mariana, o Colégio Nossa Senhora do Sion (1901), em Higienópolis, o Externato São Francisco de Assis (1926), no Centro, o Colégio São José (1880), no bairro da Liberdade e outros. Os muçulmanos criaram, em 1968, a Escola Islâmica Brasileira, na Vila Carrão.




Os afrodescendentes, de imigração imposta no período escravista, professam diferentes religiões. A igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, por exemplo, no Largo do Paissandu, testemunha sua adesão ao catolicismo. Esta igreja nasceu de uma petição que, em 1802, a Irmandade dos Homens Pretos da Freguesia da Penha de França dirigiu ao bispo de São Paulo, suplicando autorização para a construção de uma capela. Segundo a memória popular, foi construída por escravos e servia às práticas religiosas da população negra. Em 1903, foram desapropriados os terrenos e prédios necessários à ampliação do Largo do Rosário, pertencentes à Irmandade. Pelo acordo entre a Prefeitura e a Irmandade, a municipalidade adquiriu o edifício da igreja e as outras dependências para a Câmara, pagando a indenização de duzentos e cinqüenta mil cruzeiros e doando um pequeno terreno, no Largo do Paissandu, para a construção de outra igreja. Enquanto não se concluíam as obras do novo templo, a Irmandade instalou-se provisoriamente, com todos os pertences, na Igreja de São Pedro da Pedra, que ficava no Largo da Sé. A transladação das imagens e a inauguração do novo templo ocorreram em 1906. No subsolo da Igreja funciona uma escola, gratuita, mantida pelo SESI no salão da Irmandade.
 



A religiosidade de origem africana também se mostra nos milhares de terreiros de umbanda e de candomblé espalhados pela cidade e nos usos desta por parte de seus fiéis. São Paulo conta, inclusive, com dois ilês de candomblé tombados como patrimônio histórico e cultural: o Axé Ilê Obá, no bairro do Jabaquara, (Amaral, 1991), e o Candomblé de Santa Bárbara, na Vila Brasilândia. Além dos ilês, para estes grupos toda a cidade constitui um grande “templo”, pois sua mitologia associa os deuses (orixás, inquices, voduns e outras entidades) a espaços naturais ou outros significativos para suas práticas ligadas ao ciclo vital humano. O espaço de ruas, feiras-livres, encruzilhadas e portas de bancos – ou outras instituições onde o dinheiro flui – são o lugar de oferendas ao orixá do movimento, Exu; as estradas de ferro, longas estradas e entradas de quartéis são espaços tidos como pertencentes ao orixá Ogum, o criador da metalurgia e da guerra; os lagos, lagoas, rios e córregos são de Oxum, a deusa das águas doces e do amor; os parques ajardinados pertencem aos Ibeji (gêmeos sagrados), crianças divinizadas; os bosques e florestas são de Oxóssi, deus das matas; os cemitérios espaços atribuídos a Nanã, Obaluaiê, Omolu e Ewá, deuses associados à velhice, à morte, às doenças e à transmutação do corpo e assim por diante, com outros orixás. Os rios da cidade são empregados, por essas religiões, como caminhos para o mar, “o maior cemitério do mundo”, para onde é enviada a maioria dos “carregos” (descartes dos rituais de purificação espiritual, chamados ebós). Iemanjá, a deusa das águas salgadas, é cultuada à beira do mar. Ossaim, o deus das folhas curativas e mágicas, é cultuado, em bosques e, muitas vezes, até mesmo em jardins de residências particulares. Não é desconhecida da maioria dos paulistanos a imagem de despachos nas esquinas da cidade, ao pé dos postes de luz elétrica, diante de bancos, cemitérios etc., sinais das práticas afro-brasileiras na cidade (Silva, 1996). O sincretismo afro-brasileiro também faz com que muitas igrejas católicas sejam tomadas como espaço de culto por certas comunidades destas religiões. Assim, todo dia quatro de dezembro, Santa Bárbara se torna Iansã. O mesmo acontece com São Jorge no dia 21 de abril, quando se torna Ogum, com São João, em 24 de junho, quando se torna Xangô e assim por diante. O Parque do Ibirapuera, espaço destinado ao lazer e às atividades culturais, recebe oferendas de doces para os Ibeji aos pés de suas árvores e para a deusa do amor, Oxum, à beira do lago. O ginásio do Ibirapuera, no dia 21 de abril se torna um grande terreiro de Umbanda, em que milhares de fiéis entram em transe de seus orixás na festa de São Jorge/Ogum. Os cemitérios do Araçá e da Consolação, como vários outros, recebem ebós em suas alamedas, pedindo saúde e vida aos orixás . As ruas do bairro do Jabaquara são sacralizadas em setembro pela procissão das Águas de Oxalá realizada pelo candomblé Axé Ilê Obá. Os afro-brasileiros também pontuam a cidade com as lojas de artigos religiosos, como as lojas Luar, no Ipiranga, Ilê Axé, na Cidade Ademar e a Casa de Velas Santa Rita, na Liberdade, entre muitas outras que vendem material para seus cultos. Outras religiões também têm seus fornecedores de materiais espalhados pela cidade. De modo que se olharmos atentamente, poderemos encontrar, em cada ponto da cidade, visíveis sinais da presença do sagrado (Amaral, 2002).
 
 
 
 
 

Metrópole "da fé"


No começo do século XXI, encontram-se, em São Paulo templos de diferentes crenças, algumas conhecidas apenas por grupos de imigrantes, como a Igreja Católica Chinesa da Sagrada Família, na Vila Olímpia, Igreja Armênia, na Ponte Pequena, a Igreja Escandinava, na Boa Vista, a Igreja Evangélica Suíça e a Igreja Internacional do Calvário (Batista), no bairro do Campo Belo, a Igreja Maronita Eparquia Nossa Senhora do Líbano, no bairro da Liberdade, a Igreja Messiânica Mundial do Brasil, na Vila Mariana, a Igreja Seicho-No-Iê do Brasil, no Jabaquara, a Igreja Católica Inglesa de Nossa Senhora Auxiliadora, na Chácara Flora, a Igreja Católica Coreana de Nossa Senhora Rainha, na Vila Monumento, a Igreja Católica Alemã de São Bonifácio, na Vila Mariana, a Igreja Católica Lituana de São José, na Vila Zelina, a Igreja do Evangelho Quadrangular, no bairro de Santa Cecília, a Igreja Tenrikyo de Dendotyo, na Vila Mariana e inúmeras lojas maçônicas, templos de tradições budistas e hinduístas (como a Hare-Krishna), os múltiplos espaços neoesotéricos (Magnani,1999), além dos incontáveis templos sem sinais exteriores, como os dos centros espíritas kardecistas e certas denominações protestantes, que não permitem ao leigo divisar sua localização. A lista não tem fim.
 


Como se vê, um dossel sagrado cobre a cidade de São Paulo. São nomes de lugares, de ruas, praças, largos, instituições hospitais, escolas, creches e asilos (mantidos ou não por igrejas e irmandades religiosas), escolas confessionais, igrejas, capelas, catedrais, conventos, mosteiros, cemitérios, lojas especializadas em material litúrgico, livros, discos, filmes e um sem-número de símbolos que se espraiam pela cidade cotidianamente, de modo mais ou menos visível ao conjunto dos habitantes. Cada uma dessas instituições guarda a memória do sagrado e a reproduz constantemente, adaptando-se aos tempos para sobreviver ou guardando no conservadorismo sua identidade, pela via da alteridade. Sobretudo, guardam o sentido da história  da cidade e de seus membros inscrita em seus livros mas, também, em suas paredes, em seus cânticos, suas obras de arte constituindo-se em repositório de técnicas muitas vezes já esquecidas. São tesouros de arquitetura, engenharia, marcenaria, ourivesaria, escultura, cinzelaria, entalhe, fundição, movelaria, pintura, esmaltação, além de acervos documentais de inestimável valor, entre os quais se encontram partituras e instrumentos musicais e outros bens, geralmente conservados nas administrações, sacristias, subsolos e casas paroquiais das muitas igrejas da cidade. Cada instituição religiosa pode ser pensada como um pequeno memorial do grupo que nela se reúne e convive, ritualizando e celebrando sua experiência na cidade.
 


Ao recortarmos a cidade pelas marcas empíricas do sagrado, surge, portanto, um ambiente pleno de devoções e ascese; uma verdadeira "metrópole da fé", com muito pouco da secularização "esperada” pelos teóricos da Cidade nos anos de 1920. Pelo contrário, pode-se ver novas formas de religiosidade brotando da rica experiência dos urbanitas no campo do sagrado paulistano. Mas que o leitor não se engane: seria possível provar o inverso. Seria possível dizer que São Paulo, ao contrário do que se afirma aqui, é a cidade do da luxúria, da gula, da vaidade, bastando para isso voltar os olhos aos ambientes e instituições relacionados, por exemplo, à gastronomia, ao sexo e seus derivados. E esse é o grande “milagre” que a metrópole realiza: o de crer e não crer, o de ser e de não ser, o de ter e não ter. De existir conforme a existência humana nela se reflita e se desenhe, se cante e se celebre.
 



Notas


Paulo de Tarso (São Paulo) é considerado o apóstolo que deu maior ênfase aos gentios, pois, segundo consta na Bíblia católica, seu chamado era destinado aos que estavam espalhados pelo mundo (Atos 13:47). Não é difícil, portanto, compreender por que os jesuítas, dedicados à evangelização dos povos do "Novo Mundo", tinham em São Paulo forte arrimo para sua obra e fé.
Piratininga, segundo o lexicógrafo, filólogo e tradutor brasileiro Francisco da Silveira Bueno (1898 —1989), é um vocábulo tupi que significa "peixe seco". Do indígena pira: peixe; e tininga: seco. O topônimo teria referência aos peixes que morriam à margem do rio Anhangabaú, depois que este transbordava pelas cheias e secavam expostos ao sol. (Silveira Bueno, 1993).
Pelos padres Manoel de Paiva, Afonso Brás, José de Anchieta e Manoel da Nóbrega.
"Taipa de pilão" é uma técnica construtiva de origem ibérica, que consiste em socar em um pilão a terra umedecida, à qual são adicionadas fibras vegetais, areia, estrume, óleo de baleia e, algumas vezes, sangue animal, até transforma-la em massa uniforme com a qual são preenchidas estruturas de madeira, retiradas após a massa estar completamente seca.
Coube ao Frei Mauro Teixeira a tarefa de fundar um mosteiro no território paulistano. Para tanto, a Câmara da Vila de São Paulo concedeu-lhe uma área que, anteriormente, havia sido a aldeia do cacique Tibiriçá, considerado um dos fundadores daquela Vila. A este respeito assim pronunciou-se o historiador Afonso de Taunay: “O local concedido a S. Bento era o mais illustre da villa, depois do Collegio, o lugar onde se assentara a taba do velho Tibiriçá, o glorioso índio que realisara a approximação euroamericana e permittira o surto da civilisação no planalto, salvando S. Paulo da aggressão tamoya de 1562.” Uma humilde capela dedicada a São Bento foi, então, edificada por Frei Mauro Teixeira no local. Alguns anos mais tarde, esta mesma capela deu origem ao Mosteiro, apontado por Dom Martinho Johnson como a instituição mais antiga de São Paulo.
Situada no Largo de São Bento, s/n, numa das extremidades do Viaduto Santa Ifigênia, deu origem ao Mosteiro de São Bento. O edifício atual é o quinto a ser erigido. Sua construção foi iniciada em 1911 e terminou em 1922. Em estilo normando-bizantino, a igreja abacial é dedicada a Nossa Senhora da Assunção e possui entre seus tesouros sagrados um crucifixo barroco de 1777, as estátuas dos Apóstolos dispostas ao longo da nave, a imagem da Virgem de Kasperovo, trazida por imigrantes russos que fugiram da revolução comunista, a capela do Santíssimo, ricamente decorada, os vitrais da Assunção (sobre o altar), dos Evangelistas (na fachada da igreja, visto apenas por quem está do lado de dentro) e de São Bento (no transepto) e o órgão de tubos feito pela casa Walcker, na Alemanha. Anualmente, o Mosteiro organiza um festival de música neste instrumento. Aos domingos, pela manhã, é possível assistir missa acompanhada de cantos gregorianos. No Mosteiro de São Bento estão sepultados os corpos do bandeirante Fernão Dias Paes Leme e sua mulher e do cacique Tibiriçá, entre outras personalidades marcantes da história de São Paulo.
Os monges beneditinos se instalaram em São Paulo no ano de 1598 e, desde então, nunca saíram do hoje chamado Largo de São Bento.
Situada no Largo de São Francisco, no Centro Velho. A atual construção data de 1970. Sua arquitetura é de estilo barroco e possui valiosas pinturas do século XVIII.
A igreja da Sé foi elevada à categoria de catedral em 1745. A atual edificação é de 1913. Sua construção demorou décadas em conseqüência, sobretudo, do uso de granito na maioria das paredes. Em 1954, ainda não havia sido concluída e durante os festejos do IV Centenário da cidade a Catedral foi inaugurada sem as torres, que seriam construídas mais tarde. Em 1999 a Arquidiocese de São Paulo decidiu realizar um grande plano de restauração e conclusão do prédio da Catedral da Sé. Devido aos desgastes do tempo, a estrutura do edifício e demais componentes da catedral apresentavam sérios riscos de perda e de acidentes para seus freqüentadores. O templo foi, então, fechado e iniciaram-se as obras, que implicariam no restauro e na conclusão do prédio até então inconcluso. Obviamente, as obras realizaram a planta original. Construíram-se as 14 torres laterais que faltavam e foram restaurados: o prédio, os vitrais, as obras de arte, as magníficas portas, a iluminação, o carrilhão de sinos, juntamente com uma limpeza geral de toda a construção e a musealização de seu acervo. Um dos cinco maiores templos góticos do mundo, a Catedral da Sé, restaurada e concluída, foi reaberta em 2002, após três anos de reformas, voltando a ter missas diárias e programação de outras atividades religiosas. Além disso, oferecem-se, agora, visitas monitoradas ao templo.
A Igreja da Misericórdia foi demolida em 1888.
No ano de 1560 foi criada a Confraria da Misericórdia de São Paulo dos Campos de Piratininga, alojada no Pátio do Colégio, depois nos Largos da Glória e Misericórdia, até ser inaugurado, na Vila Buarque, em 1884 o Hospital Central - sua sede até os dias de hoje.
A edificação atual é uma réplica da Seiscentista, pois em 1896 a igreja do Bom Jesus sofreu um desmoronamento e o Palácio dos Governadores foi demolido por volta de 1953, tendo o conjunto, no formato atual, sido reinaugurado em 1979. Mantiveram-se em seu interior, para estudos, partes da terceira construção, datada de 1681, segundo Taunay
Chamada, após 1946 de Estrada de Ferro Santos-Jundiaí.
Os cursos jurídicos em São Paulo tiveram inicio em 1828, no antigo Convento de São Francisco, numa sala ampla que fora a antiga sacristia. Em 1880, um violento incêndio destruiu o edifício, reduzindo a cinzas a maior parte do arquivo da Faculdade e a capela-mor da Igreja de São Francisco. Em 1935, por iniciativa do professor Alcântara Machado, o velho edifício do Convento foi demolido, sendo construído no mesmo local o atual prédio da Faculdade São Francisco. 
No século XX surgiram outras igrejas Presbiterianas, como a Igreja Presbiteriana Conservadora (1940), a Igreja Presbiteriana Unida do Brasil (1966) e outras. Na década de 1970 surgem grupos com características pentecostais, como a Igreja Cristã Presbiteriana, a Igreja Presbiteriana Renovada e a Igreja Cristã Reformada.
Assim, foi criado, no ano seguinte, o Cemitério dos Ingleses, no bairro da Gamboa, no Rio de Janeiro, possivelmente o mais antigo cemitério protestante do Brasil.
Mais tarde, em 1879, Saldanha Marinho apresentou um projeto de lei transferindo a administração dos cemitérios públicos para a exclusiva competência das câmaras municipais, sem intervenção de qualquer autoridade eclesiástica.
Tombado pelo Condephaat em 12 de Abril 2004.
Em 1954 foi criado o Cemitério Israelita do Butantã e, recentemente, o de Embu, inaugurado em 2001.
Segundo levantamento da Federação Israelita do Estado de São Paulo (Fisesp), de 2001.
Em 1988, 80% dos nipo-brasileiros estavam residindo na zona urbana, mas ainda continuam com a fama de agricultores.
Fusão da Faculdade Paulista de Direito com a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de São Bento, de 1908. Recebeu o título de Pontifícia em janeiro de 1947 pelo papa Pio XII.
É freqüente o uso desses espaços institucionais de modo diverso daquele a que foram destinados. Os grupos góticos, por exemplo, também fazem uso do cemitério para fins próprios (reuniões de grupos para a leitura de textos), assim como os afro-brasileiros para seus rituais.
 
 

Bibliografia 


Amaral, Rita. Povo-de-santo, povo de festa. O estilo de vida dos adeptos do candomblé paulista; Dissertação de Mestrado, Universidade de São Paulo, São Paulo, 1992.

Amaral, Rita. Cidade em Festa. o povo-de-santo (e outros povos) comemora em São Paulo. In: Magnani, José Guilherme C. & Torres, Lilian de Lucca (orgs.) Na Metrópole - Textos de Antropologia Urbana. São Paulo, EDUSP, 1996.
Amaral, Rita. Festa "à Brasileira": sentidos do festejar no país que não é sério. São Paulo/IInternet, EbooksBrasil, 1998.
Amaral, Rita. "O tombamento de um terreiro de candomblé em São Paulo" In: Comunicações do ISER, no. 41, Rio de Janeiro, 1991. 
Amaral, Rita. Xirê! - O modo de crer e viver do candomblé. Rio de Janeiro, Ed. Pallas, 2002. 
Autos de Ereção e Patrimônio de Capelas (Livro 1-1-3 dos Arquivos da Cúria Metropolitana) 
Bettanini, Tonino  Espaço e Ciências Humanas. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1982.
Bueno, Francisco da Silveira. Vocabulário Tupi-Guarani-Português, São Paulo, Editora Gráfica Nagy Ltda, 1993, 2ª ed 
Bruno, Ernani da Silva. Tradições e Reminiscências da Cidade de São Paulo. São Paulo, Hucitec/SMC, 3 vol., 1984. 
Calvino, Ítalo As Cidades Invisíveis. Cia. das Letras, São Paulo, 1991.
Del Priore, Mary. Festas e utopias no Brasil Colonial. São Paulo, Ed. Brasiliense, 1993
Dias, Maria Odila Leite da Silva. Quotidiano e poder em São Paulo no século XIX. São Paulo, Brasiliense, 1984.
Duby, Georges. O tempo das catedrais. Lisboa, Ed. Estampa, 1988.
Fausto, Bóris. Trabalho urbano e conflito social (1890 -1920). Rio de Janeiro, Difel, 1977. 
Ferrara, Lucrécia D' A. Ver a cidade: cidade, imagem, leitura. São Paulo: Ed. Nobel, 1988.
Lévy-Strauss, Claude, Tristes trópicos. 1. ed.  São Paulo: Companhia das Letras, 1996.
Magnani, José Guilherme C. & TORRES, Lílian De Lucca (orgs.). Na Metrópole. Textos de Antropologia Urbana. São Paulo, EDUSP, 1996. 
Magnani, José Guilherme C. Mystica Urbe - um estudo antropológico sobre o circuito neo-esotérico na metrópole. São Paulo, Studio Nobel, 1999. 
Osman, Samira Adel & Ribeiro, Olívia C. F. Arte, história, turismo e lazer nos cemitérios da cidade de São Paulo. In: Licere, Belo Horizonte, v.10, n.1, abr./2007.
Porchat Rodrigues, Edith. Informações Históricas sobre São Paulo no Século de sua Fundação, São Paulo, Martins Editora, 1954. 
Silva, Vagner Gonçalves da. “As esquinas sagradas. O candomblé e o uso religioso da cidade”. In: MAGNANI, José Guilherme C. & TORRES, Lilian de Lucca (org.) - Na Metrópole. Textos de antropologia urbana. São Paulo, EDUSP, 1996.
Taunay, Afonso de E. São Paulo nos primeiros anos (1554 -1601). Tours, Imprenta de E. Arrault e Cia, 1920.

OS URBANITAS
 
Xangô numa rua do Recife
 

Site Meter