As Cidades Mal Amadas
 
 
 
 
Edifício COPAM, São PauloTerminou ontem o soterramento do caipira que
queria ser moderno; ainda restavam uns pedaços
de  encanto  e  fantasia  a serem achados.
O aterro foi coberto com a pele dos nordestinos
que construíram o Edifício Itália e
sobre ele
foi posta uma passarela por onde desfilarão
os high-tecks sob os gestos e atitudes que
preencherão o nosso mais teatral cotidiano.

O cotidiano dos sorrisos amarelos,
que nos receptam todos os dias em elevadores,
repartições, ônibus, calçadas, salas de aula,
são os postais de uma artificialidade que brota
tão espontaneamente
do rosto da cidade.

A própria cidade com todos os seus aparatos publicitários
tenta se fazer sedutora.

Mas a cidade é impenetrável.

A cidade está dentro de cada um de nós.

 
Nós somos todos.

Todos não são ninguém.

O camelô do Vale do Anhagabaú imagina
que do décimo oitavo andar de um edifício
cinzento de autoridade
há uma secretária deliciosamente séria a observá-lo.

Ela também fantasia que de alguma janela
alguém a observa.

Todo mundo quer ser estrela,
um cometa que seja, vagando alucinado
por esse hiperespaço chapado de fuligem.

É o culto as imagens eletrobservadas
de janelas das caustisalas.

Os olhares das pessoas no trânsito congestionado
prova prova prova
provoca aperto
no peito de quem se comprometeu
a viver uma saga sem melodia,
aceitando ser vulgar por falta de sensibilidade
e se aquecendo na frieza da neurastenia.

É a pós-modernidade vestindo exatidão.
Vestindo podridão porque não consegue mais ser lírica.
E intitulando de brega a beleza sincera das mais
profundas utopias e desejos daqueles para os quais a
vida não passa de sofrimento falado pela boca dos poetas
em série.

Arranca a pele do homem futurista,
a navalha do pivete-escroto e, realmente,
debaixo dela há os sonhos do caipira, do nordestino,
do menino zumbi e do milionário
que ficou pobre da noite para o dia.

 
(MORDACIDADE, Rodrigo Evaristo)