"De que é composta a cultura de um indivíduo? Como é que alguém vem a preferir alguns dos modos de ver de sua própria cultura em relação a outros? Posso eu, como um indivíduo, possuir minha própria cultura ou sou um membro de um grupo maior, que representa uma cultura? Nas próximas poucas páginas pretendo sugerir que na atual sociedade, mediada e conseqüentemente virtual, eu sou, como o é cada indivíduo, o centro da cultura para mim mesmo. É desta cultura individual, com crenças comuns, significados e valores que se deriva a dita cultura de massa. Começarei examinando duas instâncias de visões mediadas de cultura. E sugerirei que, através da mediação, a sociedade se torna virtual. Este artigo continuará, então, usando alguns significados da palavra cultura que os estudantes de comunicação têm proposto e como estas definições dividem e depreciam a idéia de uma cultura individual. Usando técnicas mais aditivas que subtrativas, é concebível perceber uma “única e autoritária definição de cultura” (O’Conners, 1990) sem evitar a investigação das discordâncias que partidários de várias definições apresentarão. Continuarei, então, com a discussão desta técnica aditiva para examinar uma “cultura do indivíduo”. O artigo concluirá propondo futuras aplicações deste método de estudo da cultura no campo da comunicação.
Comecemos examinando dois exemplos de visões mediadas de cultura. O primeiro exemplo é da abertura do filme Zardoz (Boorman, 1974). O segundo exemplo é do episódio "Birthright, Part 1" da série de televisão americana Star Trek: The Next Generation (Braga, 1993).
Zardoz
começa com a cabeça sem corpo de Arthur Frane flutuando ao
redor da tela e gradualmente se aproximando do espectador. Durante esta
distração visual, Frane fala diretamente ao espectador enquanto
explica algumas regras, ou práticas, que controlam o mundo que o
espectador está prestes a experimentar.
Neste
filme, Frane cria as realidades que muitos personagens do filme experimentam.
Ao mesmo tempo, Frane é parte da realidade que Boorman criou para
o espectador experimentar. É Frane que também quem apresenta
a questão de se Boorman [o autor] e nós, espectadores, não
somos, nós também, parte de uma realidade para algum outro
ser experimentar.
Aqui se coloca a questão das múltiplas realidades. Múltiplas realidades não são nenhuma novidade para pesquisadores das teorias da melhoria ou da realidade social (ver Hawkins & Pingree, 1982; Ogles, 1987). Cada uma das realidades tem regras, práticas e protocolos que precisam ser seguidos. E tais rituais devem ser seguidos ou indivíduo não se tornará um membro daquela sociedade, daquela cultura, daquela realidade.
No
nosso segundo exemplo de cultura mediada, Comandante Data (Brent Spiner),
o oficial andróide a bordo da nave Enterprise,
experimenta uma visão de seu criador, Doutor Soong Data, buscando
um conselho do Capitão Jean-Luc Picard (Patrick Stewart) sobre como
interpretar esta visão. E a seguinte conversa tem lugar:
Picard:- “E o que você encontrou?”
Data: - “Fui incapaz de encontrar uma explicação única para as imagens que vi enquanto estava desligado. O martelo, por exemplo, tem alguns significados. A cultura Klingon vê o martelo como um símbolo de poder. Entretanto, a tribo Tapo de Nagor vê nele um ícone de coração e casa. Os Ferengii o vêem como um sinal de relação sexual”.
Picard:- “Estou curioso, Sr. Data. Por que o senhor está procurando em todas estas outras culturas?”
Data:- “A interpretação de visões e outras experiências metafísicas são quase sempre culturalmente derivadas e eu não tenho cultura pessoalmente”.
Picard: - “Sim, você tem. Você é uma cultura de um. O que não é menos válido que uma cultura de um bilhão. Talvez a chave para compreender sua experiência seja parar de procurar em outras fontes de significado. Quando olhamos para o Davi de Michelangelo ou para a tumba de Seme não perguntamos o que isto significa para outros povos. A questão real é o que significa para nós. Explore esta imagem, Data. Deixe-a excitar sua imaginação Centralize nela. Veja onde isso mexe em você. Deixe-a inspira-lo”.
Um
andróide é uma máquina viva, uma inteligência
artificial que surge na forma humana. Não há outros como
ele dentro da realidade de Star Trek The Next Generation. Data é
um andróide e, contudo, único. Por causa de sua unicidade
ele diz que não tem cultura. Picard, entretanto, explica que não
é o que os outros pensam que os símbolos, ícones e
signos significam o que importa, mas o que significam para o indivíduo.
Símbolos, ícones, signos e todas as outras coisas que compõem
uma cultura vêm a ter um significado individual porque as experiências
de vida e tudo mais são interpretados através de filtros.
Mas quais são estes filtros, estas experiências de vida através
das quais todas as coisas são interpretadas?
É esta técnica adicional que pode explicar melhor os resultados de pesquisa quando se trabalha com cultura. Shrum e O'Guinn sugerem que existe a possibilidade de que "outros fatores estejam contribuindo para a realidade dos julgamento social além da variável assistir televisão” (1993: 437). Ang (1990:159) critica pesquisas de “uso e satisfação” como levando em conta "apenas o uso individual da mídia". McLeod e Chaffee (1972) sugerem que a realidade social é criada quando um indivíduo dá à nformação recebida através de uma forma de comunicação mediada a mesma importância relativa que teria dado a uma observação direta da realidade física. Esta realidade social então se torna parte e parcela desta cultura do indivíduo. Durante todo o dia eu, como um indivíduo, recebo informações através de ambos: percepção física pessoal e através de recepção tecnologicamente mediada. Por exemplo: meu dia começa com uma comunicação pessoa-a-pessoa, face-a-face com minha esposa. Esta é seguida pela comunicação mediada tecnologicamente online no cyberespaço com outros indivíduos a respeito de assuntos que nos interessam. Não é raro, em nossa casa, receber pelo menos uma chamada telefônica durante o começo da manhã. Uma conversa telefônica é uma comunicação tecnologicamente mediada na realidade. É artificial. Você não poderia estabelecer a conversação sem a tecnologia que a torna possível. Esta, como outras tecnologias são exemplos do que McLuhan (1964) chamou "extensões" de nós mesmos.
Saindo de minha casa, dirijo o carro ouvindo qualquer estação de rádio local, da qual eu recebo as últimas notícias e informações, ou uma fita cassete da minha música favorita atual, uma reprodução do trabalho do artista. Chegando à universidade posso ter uma ou mais conversas face-a-face antes da aula começar (interação interpessoal face-a-face ). Na aula, discutiremos informações que nos lemos na noite anterior, em livros criadas através de tecnologia. Depois da aula normalmente acesso outro sistema de mensagens por computador onde novamente tomo parte em discussões que interessam a mim. E também posso ter uma ou mais conversas face-a-face. Depois disso volto para meu carro onde eu ouço reproduções de performances artísticas até chegar em casa. Outra conversa face-a-face com minha esposa após o jantar, acompanhada da leitura da correspondência diária e uma projeção de um videoteipe de um filme de nossa escolha. Várias leituras, sessões de vídeo, e trabalho com um computador tomarão a maior parte do começo da noite. Outras conversas mediadas pelo telefone e face-a-face podem ocorrer. Podemos dirigir até um teatro local ou ver um filme do momento no cinema. O resto da noite é geralmente ocupado por uma mistura de comunicações face-a-face, ver televisão, textos e computador.
Significativamente, cada um destes bits de informação que são consumidos durante o dia, transformarão o modo pelo qual outros bits de informação que se seguirão serão recebidos. Decisões em que formas de comunicação mediadas tomarão parte a seguir serão baseadas em comunicações mediadas anteriores. Cada nova realidade é aceita com base em protocolos e regras que são postas para sua existência. As muitas realidades existem lado a lado simultaneamente.
Que importância, entretanto, tem esta percepção do indivíduo como o centro da cultura?
Como
sugere Ang (1990), abordagens etnográficas são capazes de
examinar os detalhes de como a mídia afeta nossas atividades diárias.
Estas abordagens etnográficas, sendo qualitativas na medida, são
holísticas na natureza e deverão considerar mais que simples
definições de cultura. Olhando para a cultura de cada indivíduo
pode o pesquisador passar a ver não apenas similaridades demográficas
mas o como e o porquê destas similaridades. A cultura do indivíduo
é criada continuamente. Esta cultura do indivíduo está
em constante estado de fluxo, sempre mudando, num processo contínuo,
mas também está criando os significados, valores e crenças
que serão repartidos com outros que atravessam experiências
similares. O indivíduo é, portanto, o centro da cultura,
porque é dentro da cultura do indivíduo que a cultura de
massa (ou mercado de massa, se se preferir) se torna possível".
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