Pela letra da música
aprendida nas escolas de primeiro grau depreende-se que todos os índios
são iguais. Vivem do mesmo modo, têm os mesmos deuses, falam
a mesma língua. Vivem felizes e sem problemas.
O Brasil tem quase
quinhentos anos, mas ainda desconhece a imensa sociodiversidade indígena
que existe em seu território. Desconhece seus índios. A maioria
das pessoas desconhece até mesmo quantos povos ou quantas línguas
indígenas existem. O reconhecimento, mesmo que pequeno, dessa diversidade,
não ultrapassa os restritos espaços da academia especializada.
Hoje, alunos do ensino fundamental,
ou mesmo professores, que queiram saber mais sobre os povos indígenas
brasileiros contemporâneos, enfrentarão dificuldades.
A imagem do índio
conhecida pela população é a do índio romântico,
a do índio selvagem, a do caboclo de umbanda. E existem várias
razões para isto.
A primeira é que existem
poucos espaços para a expressão dos índios no cenário
cultural e polítco do país. Vivendo a maioria deles em locais
de difícil acesso, com condições quase que exclusivamente
orais de comunicação e falando geralmente apenas sua língua,
com domínio relativo do português, as diferentes etnias encontram
dificuldades para se expressar no mundo dos não-índios. Sua
cultura e pontos de vista são tomados geralmente fora dos
contextos onde vivem, mediados por intérpretes quase sempre inadequados
e, finalmente, registrados como fragmentos incompreensíveis
Basta mencionar, por exemplo, que das 206 etnias conhecidas (entre as mais
de mil que segundo estimativas existiam antes da invasão do Brasil
pelos europeus) e das cerca de 170 línguas, no máximo a metade,
talvez, foi objeto de pesquisa por parte de etnólogos e lingüistas
e a maior parte dos resultados, em geral teses acadêmicas, não
está publicada e nem é acessível. ou o é apenas
em línguas estrangeiras (Ricardo, 1995).
O público leigo interessado
em conhecer mais a respeito dos índios está diante de um
vácuo cultural e tem que se contentar com uma bibliografia didática
precária, quando não preconceituosa e desinformada .Também
na imprensa, apesar do interesse da mídia pelos índios nos
últimos anos, o que se informa, e portanto, o que se sabe e se aprende
sobre o assunto, são versões jornalísticas de fatos
isolados, fragmentados, histórias superficiais e imagens genéricas,
tremendamente reducionistas em relação à realidade.
É bastante comum lermos
ou ouvirmos na imprensa noticias com o nome das "etnias" trocado, escrito
ou pronunciado de maneira errada, sem nenhuma preocupação
em buscar a correção. Ttambém não é
difícil vermos um determinado povo indígena ser associado
a locais diferentes daquele onde vive ou, ainda, a imagens que na
verdade são até mesmo de outro povo indígena (Ricardo,
1995).
Os arquivos das redações
dos jornais, mesmo os diários, têm informações
descontínuas sobre as tribos em pauta, sem nenhuma densidade cultural
ou histórica específica. Basta lembrar, por exemplo, as etnias
que por circunstâncias históricas ocuparam concretamente o
espaço do "indio de plantão" no noticiário e no imaginário
do país em diferentes épocas. Isto aconteceu na década
de 40, com os Karajá da Ilha do Bananal, com os Xavante de Mato
de Grosso (que logo após os primeiros contatos com os civilizados
apareceram, nos anos 50, vestindo ternos brancos numa loja da Ducal em
São Paulo) e depois voltaram nos anos 70 com Mário Juruna.
Ou ainda os Krenakarore, os "indios gigantes", pacificados e removidos
para que uma rodovia ligando Cuiabá a Santarém fosse aberta
na floresta, também na década de 70. Ou ainda os Kayapó
guerreiros, de Raoni e Paiakã, do sul do Pará, nos anos 80.
Some-se-lhes os Yanomami de Roraima, vítimas da invasão garimpeira
há 10 anos e, mais recentemente, o retorno dos Guarani, cujos jovens
passaram misteriosamente a cometer suicídio coletivamente. Até
os famosos "índios do Xingu", que na década de 80 ocuparam
muitos noticiários e são presença obrigatória
em qualquer coleção de cartões postais do Brasil,
não passam de uma generalização reducionista e grosseira
ao se tratar de um conjunto de dezessete povos que vivem atualmente no
Parque Indigena do Xingu, alguns deles tão diferentes entre si quanto
brasileiros e japoneses.
Assim, a idéia de
quem sejam os índios e seu modo de viver e de pensar tem sido transmitida
de maneira displicente, não apenas pela mídia escrita (revistas,
jornais) como também pela televisao, pelo rádio e pelos professores,
apoiados em livros escolares mal preparados, além da informação
subjetiva diária transmitida por imagens utilizadas em produtos
ou em referências diagonais.
Nem sempre (ou quase nunca),
contudo, esta imagem corresponde à realidade dos diferentes grupos
indígenas brasileiros. Concerne, antes, a uma estereotipia que concebe
os índios de modo simplista, como primitivos e distantes de nossa
cultura, especialmente no que diz respeito à tecnologia. Geralmente
essa imagem é, ela mesma, influenciada pela idéia romântica
dos índios, encontrada nos livros escolares, nos romances e poemas
como os de José de Alencar e Gonçalves Dias e, também,
pela literatura dos viajantes da época colonial, que os retratava
com olhos etnocêntricos e de rapina, que preferiram ver nos índios
homens incapazes de gerirem por si só suas terras e riquezas, além
de inferiorizá-los em termos de sua fé.
Da impressão etnocêntrica
de que os grupos que não fizeram as mesmas escolhas tecnológicas
e culturais que os ocidentais são grupos inferiores é que
vem, ainda, a noção de que os índios são prequiçosos,
ignorantes, perigosos, vingativos, traiçoeiros e que, vivendo ab
origene, portanto não partilhando o processo civilizatório
europeu, devem ser vistos como selvagens incompetentes ou, no outro extremo,
como o bon sauvage de Rousseau.
Da televisão emana,
ainda, a imagem do índio norte-americano, freqüentemente confundido
com o brasileiro, que deste é completamente diferente, assim como
dos desenhos e revistas em quadrinhos. Recentemente, Maurício de
Souza, desenhista brasileiro, criou um personagem indígena em suas
histórias infantis, o indiozinho Papa-Capim, que transmite a imagem
de um indiozinho simpático, mas que vive nu e de arco e flecha em
punho. Na televisão, o programa infantil Glub-Glub, transmitido
pela TV Cultura, emissora do Estado, tem como introdução
ao programa apresentado por dois peixinhos (e não por dois indiozinhos,
o que é significativo), a cena, em desenho animado, de um índio
que navega numa piroga carregada de eletromésticos, mostrando que
os índios já têm interesses por esse tipo de objetos
(que ao mesmo tempo só existem alí como pretexto para os
peixinhos do rio terem uma televisão), mas desempenha o mero papel
de referência. Este índio aparece nu e vestido de penas, como
sempre. Pouco além disso existe que fale dos índios para
crianças, e é basicamente da mídia e dos desenhos
que as crianças obtêm atualmente suas referências sobre
a imagem dos índios, além da escola. Fora disso, no cotidiano,
as imagens dos índios são encontradas fragmentadas em produtos
que carregam nomes indígenas, como Biscoitos Aymoré, Café
Cacique, Mudanças Anhanguera. E em nomes de cidades, bairros e ruas,
poucas vezes percebidos como nomes indígenas, como Itu, Araraquara,
Jundiaí, Cumbica, Pirituba, Piqueri, Ibirapuera, Anhangabaú,
Itu, Jaú, Itaim, Morumbi, Sacomã, Itaú etc. Apesar
disso, pouco se lida com a imagem e a identidade dos índios no cotidiano
urbano.
Existe, também, a
imagem muito particular do índio construída no universo religioso
da Umbanda, religião de origem africana, que muitos conhecem. É
a imagem dos caboclos, ou caboclos de pena, entidades espirituais
consideradas indígenas e que também´são cultuadas
nos candomblés do rito angola. Essa entidade é dita ser o
espírito dos antepassados indios, e faz parte do imaginário
do indio romântico. Quando incorporadas em transes, essas entidades
costumam usar cocar e colares de sementes e fumar charuto ou cachimbo.
Poucas vezes tais entidades se referem a tribos de origem e, na maioria
das vezes, têm nomes em português, como "Pena Branca"
"Treme Terra", "Sete Flechas," "Pedra Preta" etc. Mas existem algumas poucas
que se referem a tribos e nomes indígenas, como os caboclos Tupinambá,
Ubirajara, cabocla Moema, Jurema etc. Nas lojas que vendem artigos religiosos
é possivel encontrar imagens em gesso dessas entidades. Geralmente
representando índios e índias de pele escura, seminus, vestindo
saiote de penas e cocar, com pinturas aleatórias pelo corpo, sem
relação com pinturas étnicas. Outras vezes essas imagens
representam claramente índios norte-americanos, com calças
compidas com franjas e alpargatas e machadinhas, talvez porque este índio
corresponda melhor a um certo padrão moral, já que contrariamente
ao índio brasileiro, aparece sempre vestido. Ou porque se os vê
bem mais em filmes na televisão que aos índios brasileiro
sob qualquer circunstância. Resumindo: o índio brasileiro
tem pouca visibilidade e isto se revela nas imagens deles que se vê,
quando se as vê.
Nesta rápida e limitada
pesquisa, procurei saber de que modo 40 crianças que estavam iniciando
o acesso ao mundo das imagens que a sociedade brasileira e a mídia
transmitem (na faixa etária entre 5 e 10 anos de idade, sendo 50%
delas já totalmente alfabetizadas e 50% em processo de alfabetização),
concebiam a imagem dos índios. Se teriam alguma noção
de quem são e como vivem os índios, do processo de aculturação,
se os concebiam como próximos ou distantes de nós, brancos,
negros ou orientais de cultura marcadamente ocidental. Se tinham noção
da diversidade étnica interna à categoria "indios" (se sabem
que há indios de diversas nações, completamente diferentes
entre si) e como compreendem o caráter dos índios (maus,
bravos, preguiçosos, ou bons, corajosos etc.).Para tanto, foi pedido
às crianças, por meio da intermediação das
professoras, de uma sala de aula da 3a série do primeiro grau e
outra de pré-escola, que desenhassem um índio, numa folha
de papel, com material de livre escolha.
Da série de imagens
por elas produzidas tomei os dados para o estudo desta apreensão.
Nestas imagens foram avaliadas não apenas as cenas, mas também
os planos, as cores, a presença de elementos pertinentes ou não
à cultura indígena, expressões, objetos, animais que
aparecessem ou não etc. Foram recolhidos 40 desenhos, alguns dos
quais aparecem aqui. Buscando compreender que tipo de informações
as crianças têm que vêm do campo cultural, mais amplo,
foram ainda fotografadas e analisadas outras imagens de índios como
as que aparecem em pinturas, desenhos animados, revistas infantis, livros,
lojas etc, que ajudam a compor o conjunto a que eventualmente o imaginário
infantil se refere. Aqui, uma primeira revelação: fora do
universo religioso da umbanda e do candomblé, quase não se
vê referências a índios nos espaços da cidades
senão em seus topônimos. As poucas encontradas estão
em nomes fantasias de empresas ou produtos, mas são realmente reduzidos.
Nestas aparecem geralmente apenas cabeças de índios, de expressao
fechada, de cocar, relacionando-se portanto com a liderança dos
caciques.
Resultados:
A concepção
que as crianças fazem dos índios é a tradicional.
Corresponde melhor à concepção dos antigos livros
escolares e do imaginário (sempre reiterado pela cultura) do que
à realidade indígena. Não se sabe que muitos índios
vivem em casas de alvenaria, em cidades, nem que alguns estão nas
universidades, usam computadores, dirigem carros, pilotam helicópteros,
participam de projetos de educação e da politica nacional
ou internacional.
Para as crianças.
os índios têm pele escura e cabelos pretos, lisos, longos
ou curtos. Os olhos poucas vezes são retratados amendoados. Quase
sempre têm pinturas faciais, mas não se referem a nenhuma
etnia
em particular (em apenas um caso desenho do índio mostrava a tentativa
de representar grafismos indígenas no corpo e um corte de cabelo
diferenciado), e as crianças em geral nem conheciam este termo.
Três traços coloridos espalhados nas duas faces e adornos
plumários, enfeites nos nariz e colares apareceram e 23 desenhos.
Os índios são sempre muito enfeitados, mostrando que o aspecto
diferencial por eles observado é basicamente estético.
A maioria das crianças
pensa que os índios vivem nus. Ou vestem-se só com saiotes
de penas. Vivem sempre na floresta, comendo frutas e raízes, ou
alguma caça.
Apenas seis desenhos representaram
índios vestidos. Também do universo da televisão e
dos filmes de cowboy parece vir o vestiário dos índios quando
eles aparecem vestidos. Geralmente com roupas de franjas e as índias
se parecendo com Pocahontas, quando estão vestidas. Talvez por causa
da muito recente exibição do desenho animado de Walt Disney
Mas aparecem também muitas indias com seios de fora e tanga. Foi
interessante constatar que existem nos desenhos tanto índios quanto
índias. E ambos realizam as mesmas tarefas, o que não corresponde
à realidade indígena mas a um novo conceito das relações
entre homens e mulheres ocidentais.
A pesca não apareceu
em nenhum desenho, nem as plantações. Uma única cesta
foi desenhada e algumas poucas cerâmicas, mostrando que as crianças
não estão bem informadas sobre a importância da cestaria
e da cerâmica, não só como objetos utilitários
mas também na distribuição de papéis sociais
e de gênero nas tribos. Em apenas duas cenas os indios aparecem em
torno de uma fogueira e em uma apenas estão tocando um tambor estilo
trocano.
Poucas vezes os indios aparecem
sem suas flechas e arco, mas também poucas vezes estão sendo
usados. Arco e flecha parecem fazer parte do que se poderia chamar de "estojo
de identidade" indígena, compondo a imagem, sem no entanto relacionar-se
diretamente à sua função de arma para caça
e defesa. Um dos alunos desenhou um alvo dentro da maloca indígena,
indicando que a idéia do uso da flecha passa pelo treinamento da
técnica. Ou como entretenimento. Flecha e arco são
geralmente carregados às costas. Apenas um desenho retrata uma ave
sendo ferida por uma flecha, e em outro o índio a aponta para uma
serpente, curiosamente uma naja. Em apenas dois casos os índios
usam suas flechas contra seres humanos, ambos os casos contra brancos ameaçadores.
A julgar pela expressão
facial dos índios desenhados, eles são alegres, simpáticos,
sorridentes, amistosos. Vivem em grupo (os índios em quase todos
os desenhos apareceram acompanhados), isolados dos brancos.
As mulheres índias
apareceram muitas vezes com os homens.
A maloca (oca) aparece em
muitos desenhos, mostrando que uma idéia bastante marcante é
a de que eles moram de modo diferente dos brancos. (Segundo alguns etnólogos
da área indígena, também para os índios, a
idéia de que os brancos moram de modo diferente é marcante).
Algumas crianças misturaram a casa de alvenaria com a cobertura
de palha.
Nos únicos três
desenhos em que o branco apareceu, apareceu em atitude hostil ou para entrevistá-los.
Apenas neste desenho a cultura branca não é agressora. As
duas situações de conflito são representadas com os
brancos e não com outros índios. Isso mostra que elas não
têm noção de que os índios vivem em tribos diferentes,
às vezes até inimigas, e que do vêem e aprendem na
escola deduzem que o inimigo natural do índio é o branco.
Num dos desenhos um branco atira num índio já aculturado
(usa roupas comuns, e sabe-se que é um índio porque ele usa
uma pena na cabeça) em sua própria maloca com revólver.
Este branco pode ser um cowboy de filme americano, pois usa um chapéu
deste tipo. Mas pode também ser um seringueiro.
Em outro desenho, um índio
atira uma flecha num branco que pode ser um português, pois usa um
grande bigode, e este é o modo como os brasileiros costumam retratar
os portugueses. Nesse caso a referência seria à historia da
colonização, quando houve muitos conflitos entre brancos
e índios. Um dos desenhos mais marcantes mostra um índio
sendo entrevistado pela televisão (o que se deduz pelo tipo de microfone,
com logomarca), e declarando, meio envergonhadamente, que as coisas
melhoraram na aldeia porque agora eles têm escola, como se reconhecendo
que não estudar é ruim. Isso também mostra o desconhecimento
que as crianças têm do quanto os índios conhecem e
sabem e com quem aprendem as coisas quanto não têm escola.
Assim, os índios são visto como ignorantes enquanto não
têm acesso a esta.
Significativamente, alguns
índios aparecem posssuindo cavalos. Num dos desenhos aparece o índio
é representado montando, inclusive. Com um longo cocar, sugere um
índio norte-americano, um apache de cinema, já que no Brasil,
apenas os Kadiwéu domesticaram os cavalos e são uma etnia
pouco conhecidos.
Poucos animais aparecem nos
desenhos. Alguns pássaros. Nenhuma galinha, nenhuma paca, nenhum
tatu. Nenhum macaco. A "floresta" dos índios infantis não
é perigosa, mas bucólica e hospitaleira.
Conclusão:
A imagem dos índios
representada pelas crianças é fortemente influenciada pela
mídia e é a que grande parte da sociedade tem.
Os índios do passado,
vestindo-se de penas, vivendo exclusivamente da caça (nem pescam),
em torno de uma fogueira, felizes. Estão completamente distanciadas
do fato da diversidade étnica. Existe O INDIO e não se sabe
que são diferentes entre si. Eles são sempre muito diferentes
dos brancos. São melhores. São mais alegres por viverem na
floresta. E pertencem ao passado, o que se depreende das imagens
e mesmo de uma legenda que diz "as armas que eles usavam". Muito dessa
situação se deve não apenas aos meios de comunicação
(que transmitem essa idéia, que inclusive é sedutora), mas
também aos livros didáticos; ao modo como se aprende sobre
os índios nas escolas.
Os livros de História,
ainda transmitem a impressão de que os índios começaram
a existir com a chegada dos europeus. Não se fala de sua existência
antes disso. E eles são cordiais e amigáveis. Ajudam os portugueses,
carregando o pau-brasil em troca de bugingangas e miçangas, construindo
fortes e casas que dão origem aos primeiros povoados e ensinam os
brancos a viver na nova terra.
Logo depois parece que os
índios começam a "atrapalhar" a colonização.
Aliam-se aos franceses para atacar os portugueses. De cordiais, os índios
passam a traiçoeiros. A colonização, entretanto, precisa
muito da força de trabalho dos indios, que é utilizada em
toda parte. Nesse momento o índio aparece junto dos bandeirantes,
ensinando os caminhos e sendo escravizado pelos portugueses, além
de ajudarem, logo em seguida, na recaptura de negros fugidos. Aliás,
a escravidao dos negros só começa porque, como ensinam vários
livros, "o indio não gostava de trabalhar, era preguiçoso
e seu amor à liberdade não permitia que ele vivesse como
escravo". Eles se matavam. Precisavam ser civilizados, catequisados.
Depois disso o índio
desaparece da História do país e deles só se sabe
que sao tupis, adoram Tupã, Guraraci (o sol) e Jaci (a lua) e moram
em tabas e ocas: Que ensinaram a técnica da queimada, a fabricação
de redes e de esteiras e criaram belas lendas. Depois, ao se falar da necessidade
de ocupar espaços vazios não se fala mais de índios.
"É
como se o Centro-Oeste e Norte do Brasil fossem virgens, como se ninguém
morasse lá. E no presente a coisa se complica. A maior parte dos
livros didáticos nem aborda a presença indígena no
presente. Alguns poucos apresentam dados pulverizados, às vezes
incorretos. Referem-se vagamente à existência de índios
na Amazonia e no Xingu, lembram os trabalhos de Candido Rondon e dos irmãos
Villas-Boas e da Funai".(GRUPIONI, 1995)
A imagem do índio
parece sofrer de uma contradiçao: Ou há índios vivendo
isolados, protegidos, ou já estao "contaminados" pela civilizaçao
e a aculturaçao é seu caminho sem volta. Como se ao
deixarem de andar nus,enfeitarem-se com penas e de caçarem, deixassem
também de ser índios. Os índios ou estão no
passado ou vão desaparecer em breve. Esta dicotomia parece corresponder
a duas perspectivas sempre a eles associadas: a do bom e a do mau selvagem.
Os indios de Rousseau e Hobbes. O primeiro argumentando que os índios
representariam um estágio primitivo da humanidadem vivendo basicamente
pelos seus instintos e o segundo, falando em degenerescência; os
indios viveriam num passado numa era sem ordem e caótica, bárbara,
e que só a civilização os levaria ao progresso. Parece
que ainda não conseguimos, nós mesmos, sair do passado e
aprender sobre nossa própria diversidade. A imagem que as crianças
têm dos índios reflete esta imagem social, e para que ela
mude, para que corresponda à realidade, é necessário
que o modo como as instituições tratam os índios mude.
BIBLIOGRAFIA
GRUPIONI,
Luis Donizete B. "Livros didáticos e fontes de informações
sobre sociedades indígenas no Brasil" IN: SILVA, Aracy Lopes e GRUPIONI,
Luis Donizete Benzi. (orgs) A Temática Indígena na
Escola MEC, MARI, UNESCO, Brasília, 1995 ( pp 481-526).
RIBEIRO,
Berta. O Índio na História do Brasil. Editora Global,
São Paulo, 1983.
RICARDO,
Carlos Alberto. "Os índios"e a sociodiversidade nativa contemporânea
no Brasil IN: SILVA, Aracy Lopes e GRUPIONI, Luis Donizete Benzi. (orgs)
A Temática Indígena na Escola MEC, MARI, UNESCO, Brasília,
1995
SILVA,
Aracy Lopes & GRUPIONI, Luis Donisete B. A Temática Indígena
na Escola. - novos subsídios para professores de 1o e 2o Graus.
MEC, MARI, UNESCO. Brasília, 1995
SILVA,
Aracy Lopes. A Questao Indígena na sala de aula. - Subsídios
para professores de 1o e 2o. Graus. Ed. Brasiliense, São Paulo,
1987.RIBEIRO, Berta. O Índio na História do Brasil. Editora
Global, São Paulo, 1983.