"Hoje,
em grande parte graças a editores como Re/Search e Loompanics, Autonomedia
e Amok Press, muitas pessoas estão familiarizadas com o movimento
"modern primitives"[primitivos modernos]. Elas sabem que ele envolve um
tipo estranho de justaposição de alta tecnologia e “baixo”
tribalismo, animismo e intervenção no corpo - uma espécie
de 'Tecnoxamanismo”, se se quiser. Ao mesmo tempo “transe” de possessão
e dança cinética. Em livros como Count Zero, de William Gibson,
Inteligências Artificiais (IAs) ultra-complexas tomam a personalidade
dos deuses do voudu haitiano e capturam a mente dos iniciados através
de redes mentais criando uma tecnoreligião.
A
idéia
"primitivo" é, claro, uma das idéias do evolucionismo social
do passado, abandonadas pela Antropologia. Embora criada com a simples
função de descrever fases temporais, funcionou inevitavelmente
como um termo valorativo, sugerindo que aquelas sociedades às quais
eram aplicadas eram inferiores em termos de escrita, conhecimento, tecnologia,
organização social ou julgamento moral - em uma palavra,
de sua falta de “civilização”. A noção era,
claro, inescapavelmente etnocêntrica, pois assumia que todas as sociedades
do planeta moviam-se numa escala para o padrão da cultura ocidental,
no que diz respeito à religião (monoteísmo), casamento
(monogamia), economia (mercado livre), governo (representação
democrática), etc. O “primitivo” era, ao mesmo tempo, injuriado
e romantizado, especialmente por artistas românticos fascinados com
os tabus e o exótico, e filósofos oscilavam em direção
à imagem e à liberdade do Nobre Selvagem.
Enquanto
uma Antropologia culturalmente mais relativista procurou limpar as idéias
pejorativas associadas com "primitivismo", preferindo descrever ideograficamente
mais que evolucionariamente as menos “avançadas”, pré-modernas,
sociedades indígenas do planeta, a noção de "primitivo"
continuou poderosa na cultura ocidental, que internalizou representações
de "primitivos" de dentro (Nativos Americanos) e de fora (Oceanianos, Africanos
etc.). Para muitas pessoas na órbita das civilizações
ocidentais (que aos poucos cobrem o planeta inteiro), o "primitivo" ainda
significa um pré-moderno, alternativa imaculada" para a industrialização,
o capitalismo e o iluminismo europeus. Representa um passado dourado, de
coisas deixadas de lado na marcha do progresso, ao qual poderia ser justaposto
um futuro tecnológico distópico.
E,
então, eis a modernidade. O que significa ser um moderno e ainda
perguntar-se sobre o quanto deixamos a condição da modernidade
para trás. A modernidade foi provavelmente a visão de que
o futuro poderia ser radicalmente diferente (e de preferência melhor)
que o presente. Certamente, nas artes, a modernidade foi associada com
Futurismo, envolvendo um tendência para a ação, velocidade,
poder, abstração e mudança, bem como outros movimentos
de vanguarda - Surrealismo, Dadaísmo, Expressionismo etc. A Modernidade
significou basicamente experimentação para muitas pessoas;
uma recusa a ser constrangido pelas convenções do passado
e uma demanda por chocar a moral e a tradição da burguesia.
Novos territórios - a mente inconsciente, por exemplo -, estavam
abertos à investigação e criação.
Pós-modernismo,
se algo, é em essência, uma combinação de modernidade
e pré-moderno - um tipo de marca do abandonado e do não tentado.
Num mundo onde o velho (tradição, superstição,
crenças populares etc.) é mais e mais abandonado, nada pode
ser mais novo e vanguarda do que reintroduzi-lo mais uma vez; este é
o estado irônico da pós-modernidade.
Nenhum
movimento pode ser mais pós-moderno que o dos "primitivos modernos,"
determinados a seguir simultaneamente as trilhas do passado e do futuro,
rumo à sua inevitável colisão. Tendo abraçado
ao mesmo tempo um passado mítico “low-tech” e um mítico futuro
“high-tech”, os "primitivos modernos são preeminentes negadores
do pós-moderno, era do tempo cíclico.
Os
"modern primitives" como Stelarc
e Fakir Mustafar são
talvez mais conhecidos por seu uso da distorção do corpo,
modificação (alongamento, coloração etc.) e
perfuração. Muitos modernos estavam familiarizados (pela
Antropologia visual) com práticas encontradas em culturas menos
“civilizadas” como enfaixamento dos pés, alongamento do pescoço
ou crânio ou incisões rituais. A manipulação
do corpo não é estranha à modernidade, com seu uso
de clinicas de cirurgia plástica, mais anti-sépticas;
mas até então nem se tatuava e nem se furava o corpo.
Os Modernos nunca se entregaram ao impulso de inscrever e marcar o corpo
ou alterar e distorcer suas feições. Na verdade, a biopolítica
de Foucault sugere que uma característica preeminente da modernidade
foi a busca de normas somáticas inatingíveis, especialmente
para mulheres. Ainda, muitos povos vêem a marcação
do corpo (tatuagem) como transgressiva, exótica e “primitiva”, e
esta é uma das razões pela qual os “modern primitives” abraçam
estas práticas como um costume.
O
que torna o movimento “modern primitive” incomum é sua busca de
sensação. Emprestando isso da subcultura sexual S & M,
os “modern primitives” sugerem que um dos efeitos da modernização
e da industrialização tem sido o entorpecimento psíquico.
Para eles as pessoas raramente conhecem o autêntico prazer ou dor
e esqueceram as curiosas vias neuroquímicas nas quais estão
entranhados. A perfuração (piercing) é mais que apenas
inscrição; a perfuração de genitais ou outras
áreas sensíveis do corpo representam dor, especialmente durante
o intercurso sexual. Mas esta dor se torna parte do êxtase para os
ModPrims. Esta é a idéia do conhecimento através da
dor que a modernidade esqueceu.
Quando Mustafar ou Stelarc penduram a si mesmos por ganchos, ou perfuram-se com pontiagudos e dolorosos instrumentos, eles estão apenas repetindo uma prática encontrada em todo o mundo. Esta é a chave ritual para muitos "primitivos" e outras sociedades porque a pessoa entra em transe e demonstra sua "possessão" pelo divino, através da negação da dor e do ferimento. Os ModPrims clamam que suas performances são uma busca de transcendência, provando a capacidade da mente de ir além dos estabelecido e das limitações do corpo. Stelarc chama a si mesmo de um "Cyberhumano" apontando sua crença de que o futuro da evolução humana rumo a uma maior interconexão dos homens e das máquinas, demandará um maior domínio da humanidade sobre (mais que supressão) paixão, sofrimento e dor.
Sem
dúvida, dentro do movimento ModPrim existe uma espécie de
obsessão com respeito à invasão tecnológica
do corpo, através de próteses, modificações
genéticas, implantes e outras coisas do tipo. Esta invasão
corporal é ao mesmo tempo temida (enquanto uma espécie de
colonização pelo capital) e desejada (por permitir à
pessoa direta e neuralmente ligar-se à "alucinação
consensual " da Realidade Virtual de Gibson). O corpo é visto como
uma informação (o DNA provê o “código”) e sua
invasão pode ser tanto um ruído (através de vírus,
câncer, etc.) como uma “purificação” (pela remoção
dos “chiados” ou “distorções”). A modificação
tecnológica do corpo é vista como um refazimento da “desconstrução”
xamânica da era passada, onde o xamã é separado de
sua tribo por seus deuses e seus ossos e carne substituídos por
quartzo ou fogo, ou algo assim.
As
limitações do corpo precisam ser desacatadas. Pode-se viver
mais, ou ser mais saudável, através de órgãos
artificiais e pílulas de nanotec [nanotecnologia] Pode-se ser mais
forte e destro através de esteróides e do desenvolvimento
dos sinais de transmissão nervosos. A mente também pode ser
estendida, sua memória ou percepções ampliadas. Os
"homens primitivos" desejavam imitar e ser como seus deuses. Mas os ModPrims
também sabem que não há perigo em esquecer o corpo
- no cyberspaço as pessoas raramente estão em sintonia com
sua fisicalidade tangível e atiram-se por caminhos nos quais o "feedback"
da Matrix será ao mesmo tempo tátil e visual.
Os
ModPrims também adotam a “rave” [festas de delírio] como
um sinal de unidade entre o passado e o futuro. A “rave” é ao mesmo
tempo “primitiva”, com sua reunião de “tribos” de gente jovem para
experimentar a “participação mística” de Lévi-Bruhl
através de cinéticos e MDMA (Ecstasy), e “futurística”
(ou moderna) com seu uso de música sampleada e remixada digitalmente,
efeitos de luz e laser e exposições de multimídia.
Os “ravers” vestem-se ao mesmo tempo de modo que signifique passado
e futuro: perfurando suas orelhas com chips de computador, usando calças
dos anos 70 com bijouterias e hologramas futuristicos, combinando as modas
do folk e do punk. Eles se consideram os herdeiros da contracultura dos
anos 60 e também sua antítese, já que rejeitam sua
anti-tecnologia, o “pro-natural”, “paz e harmonia”, enfatizando ideais
de um ponto de vista mais pragmático, agressivo e tecnopositivo.
Para o “raver”, saber se uma droga é sintética ou orgânica
está fora de questão.
Além
das “raves” e do “piercing”, os ModPrims são talvez melhor conhecidos
por sua tentativa de justapor magia e ciência. Publicações
como Vírus 23 justapõem o ocultismo Crowleyano com teoria
do caos, Neo-Paganismo & Wicca com memética e teoria da informação
e o uso de antigos alucinógenos com as últimas descobertas
da neurociência. O xamanismo é apresentado como tendo uma
base na mecânica quântica, e o Hermetismo na cosmologia astrofísica.
Publicações enfeitadas com ciência, cheias de diagramas
de máquinas Tesla, motores antigravidade, sistemas de propulsão
UFO, projetos de energia grátis, máquinas de movimento perpétuo
e caixas radiônicas/psicotrônicas, combinam as fascinações
de eras passadas com os últimos princípios tecnológicos.
Os
hackers de computadores freqüentemente chamam a si mesmos de magos
por boa uma boa razão. Interferir, invadir programas de computador
nada mais é que um similar das encantações blasfemas;
diagramas lógicos elétricos freqüentemente se parecem
com as místicas Tábuas de Correspondências dos tempos
antigos; sistemas complexos são inevitavelmente suspeitos de interferência
insondáveis de entidades variadas chamadas "bugs," "glitches," ou
"gremlins." O tecnoxamã/hacker sabe que ele é parte de uma
elite cujo conhecimento é misticamente indecifrável para
o público geral, e que a sociedade tem posto uma fé quase
religiosa no poder dos computadores de resolver os problemas da sociedade:
das rotas de tráfego e comunicações pessoais ao diagnóstico
psiquiátrico e apoio à performance atlética.
Os
ModPrims adotam ansiosamente tecnoxamãs como Timothy
Leary, John
Lilly, Terrence
McKenna e José
Arguelles. O I Ching realmente se torna um código de computador
conectado aos ritmos da história e dos códons da seqüência
de DNA. O cogumelo alucinógeno se torna uma colônia de esporos
extraterrestres, buscando ligar a consciência humana com as rotas
cósmicas. O uso de drogas místicas como o LSD se torna um
meio de ativar circuitos normalmente inativos dentro do biocomputador conhecido
como cérebro, tornando a metaprogramação possível.
A comunicação humano-animal se torna a um tempo um dever
tecnológico e uma necessidade para compreender a interconectividade
de "Gaia," ou a identidade coletiva criada pela vida orgânica no
planeta.
Os
próprios ModPrims apontam a colisão do passado com o futuro.
Lendo McKenna, eles apontam os ciclos da história, e o modo pelo
qual muitas direções lineares (invenções cientificas
etc.) estão atingindo um ponto de estreitamento onde podem acelerar
exponencialmente (que se pensa ser o “Onda Zero” ou "Ponto Omega").
O “Principia Cybernetica Newsletter”
avança com a idéia de que as novas redes de telecomunicações
estão criando um "cérebro global" no qual os humanos são
neurônios individuais. Outros sugerem que o projeto Genoma Humano
pode desencadear o meio para o próximo grande avanço evolutivo.
Muitos ModPrims pensam que saímos da linha passado-futuro, tempo
histórico, e entramos em algum outro tipo de tempo cíclico,
ou talvez mesmo o “fim da história”.
Pessoas
interessadas em análises materialistas da cultura indagam se este
florescimento do primitivismo moderno, com sua explícita rejeição
de antigas noções de progresso linear e evolução
tem algo a ver com a mudança da base material da cultura. Existe
o fato de que nos entramos numa economia pós-industrial de informação
e serviço “desconectada” da produção material porque
a automação e outras forças similarmente desconectaram
as pessoas da idéia de uma marcha ordenada e racional do tempo.
Deste modo, um sentido de tempo foi essencial ao industrialismo,
no qual tempo era dinheiro e o critério puritano, mais que todos
os outros, foi tempo-eficiência, ou seja: um tempo “controlado e
não desperdiçado.' Em seu livro "Time Wars," Jeremy
Rifkin sugere que muitos dos conflitos entre grupos podem ter sido sobre
noções de tempo competindo. Rifkin vê o conflito de
nossa era como sendo entre o tempo “industrial”, que é individualista,
atomista, quantitativo, utilitário, artificial (baseado no relógio),
centralizado e mecanicista; e o que pode ser chamando de tempo “pós-industrial”,
que é comunitário, participativo, qualitativo, empático,
rítmico, cíclico, decentralizado e orgânico. Do ponto
de vista “industrial”, tempo é a fonte da progressiva criação
de riqueza, que não é para ser desperdiçado. Talvez
do ponto de vista “pós-industrial”, tempo seja a fonte da vida humana
e experiência. Reconhecendo a entropia, a pessoa que vive no tempo
pós-industrial sabe que o progresso material não é
indefinido ou sem custo externo.
Eu
sugeriria que o modo pelo qual os ModPrims possam, talvez, ser melhor compreendidos
seja como pessoas vivendo num diferente tempo ou sistema de valor de tempo.
Esta substituição ideológica é parcialmente
devida à transição das pessoas em direção
à economia pós-industrial, onde o sistema anterior de tempo
linear industrial já não faz sentido. Para eles, não
há contradição entre passado e futuro. Se o tempo
é um círculo, então é claro que passado e futuro
são títulos para seus pontos de união. No mundo pós-moderno
dos ModPrims, os "modernos" têm muito que aprender do sentido ecológico
de interconectividade dos primitivos e, vice-versa, os "prims" podem aprender
com a sensibilidade experimental dos "mods." Juntos eles podem, talvez,
girar a espiral do tempo de volta ao seu ponto de origem, um alto nível
de existência".
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