Introdução
No
dia 07 de agosto do presente ano de 2000, foi publicado no diário
oficial do governo federal brasileiro, um decreto lei do Presidente da
República, instituindo o "Registro de Bens Culturais de Natureza
Imaterial que constituem o patrimônio cultural brasileiro". Tal decreto,
como afirmou o Ministro da Cultura, vem atender a uma "demanda histórica",
presente tanto nos debates acadêmicos sobre o conceito de patrimônio,
quanto entre a própria população interessada. Inclusive,
o texto da constituição federal de 1988, em seu artigo 216,
já reconhecia a dupla natureza material e imaterial dos bens culturais,
estabelecendo tanto o tombamento quanto o registro. Como o tombamento é
um processo inadequado para a preservação de práticas
culturais intangíveis e dinâmicas, necessita-se de "instrumentos
de identificação, valorização e apoio que favoreçam
a sua permanência"
. Se por um lado
a instituição do registro vem garantir a ampliação
do conceito de patrimônio cultural, o decreto presidencial pode proporcionar
uma estrutura administrativa e financeira para uma política pública
de cuidado com esses bens culturais.
O
debate em torno destas ações já conta alguns anos,
como nos mostra o trabalho de vários intelectuais como Aloísio
Magalhães, Gilberto Velho e Rita Amaral. Aloísio Magalhães,
em 1989, em um artigo para a revista do IPHAN, já antecipava inclusive,
discorrendo sobre as ações do antigo CNRC, as medidas de
identificação, registro e indexação presentes
no texto do decreto 01.
Gilberto
Velho, na mesma revista, questiona também sobre a ineficiência
do tombamento para lidar com certos fatos culturais, "onde passado e presente
estão indissoluvelmente associados". Sem desqualificar a atuação
dos órgãos existentes e retomando as reflexões de
Mário de Andrade, argumenta que deve-se ampliar sua atuação
permitindo o reconhecimento pela nação de sua própria
complexidade.
O
referido decreto, então, vem oficialmente consagrar a ampliação
do conceito que já é notório não só
no meio acadêmico mas também na mídia em geral e nos
debates entre cidadãos envolvidos, como já disse. Nessas
menções feitas freqüentemente a esse patrimônio
cultural ampliado, sejam as artes, os saberes, as celebrações,
etc., costuma-se colocar em foco a relevância de sua preservação
em virtude de dois motivos, a questão da identidade nacional, por
um lado, num pensamento macrossocial, abrangendo a história da formação
brasileira,
e por outro lado, a nível micro, a preocupação com
as manifestações culturais de grupos minoritários
que se vêem constantemente ameaçadas pelo marcha da sociedade
industrial moderna.
Em
carta ao Presidente, o Ministro da Cultura afirma que "a inscrição
de um bem em um dos Livros de Registro terá sempre como referência
sua relevância para a memória, a identidade e a formação
da sociedade brasileira, assim como sua continuidade histórica,
tomada aqui no melhor sentido de tradição, isto é,
de práticas culturais que são constantemente reiteradas,
transformadas e atualizadas, mantendo para o grupo um vínculo do
presente com o seu passado".
Enfim,
a afirmação da identidade do povo brasileiro parece depender,
segundo intelectuais e políticos, desde Mário de Andrade
e Getúlio Vargas, da preservação e do cuidado dos
bens culturais espalhados de forma heterogênea e complexa pelo território
nacional. O trabalho de pesquisa e registro destes bens, que de certa forma
já vem sendo realizado, se mostra volumoso e provavelmente será
alvo de grande debate, uma vez que muitos interesses políticos e
econômicos estarão em jogo, tanto a nível nacional
quanto local, dentro das pequenas comunidades. O campo da cultura é
complexo e polêmico, gerando dificuldades
em
estabelecer consenso nas definições dos registros e de conceitos
relevantes. Basta olhar a história dos órgãos ligados
à preservação para perceber as inumeráveis
polêmicas que surgem em torno destas decisões.
Rita
Amaral, em artigo
sobre o tombamento feito em 1990 pelo CONDEPHAAT-SP do terreiro de Candomblé
Axé Ilê Obá, chamou a atenção para algo
que deve ser considerado pelos projetos de proteção ao patrimônio:
"levar em consideração o conjunto de valores culturais de
um grupo, mesmo se eles não têm sido reconhecidos como tais
pela história oficial". O caso por ela documentado me parece bom
para pensar o conceito de patrimônio investido de dinamismo, considerando
que a tradição não é algo congelado, mas construída
diariamente,
sendo
"abandonada, reinventada ou recuperada". Se esses órgãos
de defesa pretendem protegê-las, deve-se considerar primeiramente
os processos particulares de cada manifestação, fazendo uma
leitura de seus significados partindo de dentro do grupo, suas necessidades,
seus valores, não permitindo que os interesses da sociedade mais
ampla atropele os processos locais. Daí, a defesa desses bens deve
garantir as condições para a realização da
cultura em seu dinamismo e liberdade. Nas palavras de Rita Amaral, deve
garantir "... minimamente a liberdade de escolha do próprio destino
pelo grupo. E esta
liberdade,
sim, pode ser entendida como o verdadeiro patrimônio cultural".
No
artigo 6, parágrafo 2, o decreto afirma que o Ministério
da Cultura vai assegurar ao bem registrado sua "ampla divulgação
e promoção". Talvez seja cedo para querer saber o que pretendem
dizer com ampla divulgação, mas certamente é pertinente
chamar atenção para o problema da ameaça massificadora
da sociedade moderna. Tal ameaça está presente tanto no processo
de crescimento industrial de grandes centros, que atinge o campo pela exigência
econômica, forçando o êxodo, esvaziando as pequenas
cidades e arraiais, grandes depositários desta cultura de que se
fala. Por outro lado, e é o que me interessa no
presente,
existe uma ameaça, igualmente preocupante, que se desenvolve por
parte da indústria do turismo. Se por um lado o turismo tem condições
de frear o êxodo e garantir a essas populações locais
sua manutenção e a de suas tradições, por outro,
expressa sua ambigüidade por deslocar grande número de pessoas,
na maioria sem consciência ampla de preservação, que
gera um processo de depredação, tanto dos bens materiais
quanto imateriais, estes ainda mais frágeis e volúveis.
De
certa forma o turismo coloca em movimento novos processos de inter-relações
que exigem um esforço de adaptação, por parte de populações
locais, que freqüentemente pode exceder as capacidades institucionais
e psíquicas das pessoas envolvidas. Se a industrialização
e a massificação das grandes cidades geraram o perecimento
de várias práticas culturais, preservadas desde o Império,
por outro, muitas se mantiveram, em parte, em função de seu
isolamento. Tal isolamento, tem diminuído progressivamente, não
em função do maior desenvolvimento industrial, mas em função
do deslocamento das pessoas
das
metrópoles em suas excursões culturais. As mais longínquas
grotas, praias e sertões do país estão em contato
com as grandes cidades em função destes deslocamentos que
aumentam cada vez mais. Boa parte da movimentação do turismo,
o chamado turismo cultural, ocorre justamente em função destes
bens culturais que devem ser preservados. Daí, faz-se urgente medidas
por parte dos órgãos oficiais, da população,
dos intelectuais e artistas e dos empresários do setor, no sentido
de ampliar não só o conceito de patrimônio, mas também
o de conscientização.
O
Caso de Tiradentes
Dentro
deste debate insere-se minha pesquisa sobre as procissões da Semana
Santa na cidade histórica de Tiradentes e o turismo que se inflama
nesta época, muito em função desta manifestação
religiosa. A descrição que se segue evidencia a importância
de se cuidar destas práticas, dentro de uma realidade em que se
insere um turismo cultural e também várias práticas
de preservação do patrimônio histórico e cultural.
O
ponto alto das celebrações de Semana Santa em Tiradentes
são as procissões, que somam 11 ou 12 num período
de dezesseis dias. Essas procissões são de grande importância
simbólica para os nativos, ocorrendo diversas outras durante o ano,
por motivo de outras festas. Para o turista também é importante,
uma vez que, juntamente com os monumentos, é um evento esperado
e procurado.
A
seqüência de procissões e celebrações,
em todas cidades católicas acompanham a ordem da narração
do mito da Paixão, a começar pelo Domingo de Ramos, até
a Ressurreição. No entanto, em Tiradentes a procissão
dos Passos e do Encontro, que em todos os lugares se realiza na Quarta-feira
Santa, ocorre duas semanas antes. Este fato, que tem origens históricas
mais remotas, é justificado, pela tradição. Desde
sua implantação, em 1722, é realizada nesta data e
por isso não há motivo para mudar, segundo os organizadores
da festa.
Clifford
Geertz entendeu a briga de galos em Bali, como um "comentário metassocial"
sobre distribuições hierárquicas, mais que reforço
e discriminação de status. Da mesma forma poderia entender
as procissões não por uma função de classificação
social e espacial, mas como apresentação de discursos sobre
como as coisas estão sendo dispostas. As coisas a serem dispostas,
em questão para esse trabalho, é o turista e o nativo. Colocando
a procissão de Senhor dos Passos em contraposição
à procissão do Senhor Morto que acontece na Sexta-feira da
Paixão, ponto alto do feriado, pelas diferenças e semelhanças
que apresentam, pode-se dizer que estão, dentro de um "sistema de
comunicação", elaborando
diferentes
narrativas sobre como devem ser definidas as relações entre
nativo e turista, a partir de sua inserção no ritual. Tal
inserção dependerá do sentido dado ao objeto religioso,
resultante da manipulação de referências significativas
em vigor, história, arte e religião.
A
partir dessas considerações podemos afirmar de antemão
que a procissão do Senhor dos Passos traz uma narrativa em que predomina
a visão de mundo nativa, ou pelo menos uma delas, e na procissão
do Senhor Morto, durante o feriado, a narrativa local é transpassada
de tal forma por elementos de fora que a estrutura do evento se modifica.
Percebe-se
que a Festa do Senhor dos Passos, em que ocorrem na verdade três
procissões, e que ainda se completa com as fases de preparação
da Imagem, e do andor nos intervalos, é estruturada por pelo menos
três elementos fundamentais: a contrição, marcada pela
reclusão, pelo ritmo solene e pelo silêncio; o foco primordial
na tradição, herdada dos antepassados; e a definição
de espaços simbólicos.
A
reclusão, no sentido de velar, encerrar, faz parte de alguns momentos
importantes, como o sigiloso gesto de vestir a Imagem de Roca 02
que é velada na primeira procissão, a do Depósito3,
e os altares cobertos por um pano roxo. Essa atitude é importante
para gerar um clima de mistério em torno da veneração,
o que realça seu caráter sagrado. O ritmo, garantido pelos
sinos das igrejas, que toca o mesmo dobrado de quando anuncia-se a morte
de alguém, marca o andamento solene dos cortejos, chamando atenção
para uma atitude de sofrimento e tristeza próprias de um funeral.
O silêncio está presente desde o preceito de que não
se
pode
falar durante a cerimônia até à pouca informação
e divulgação da festa, que não chega principalmente
ao turista. O silêncio é enfatizado em vários momentos,
mostrando que é um elemento importante e que os outros dois convergem
para ele.
A
procissão é um ritual que, narrando um mito bíblico,
superpõe, através de sua representação dramática,
uma tradição vivida e definida localmente. Mais do que simplesmente
falar da Paixão e morte do filho de Deus, o tiradentino, pela lembrança
de seus antepassados e da herança cerimonial que deixaram, está
vinculando-se à tradição, evocando e afirmando preceitos
morais e uma visão do seu mundo social que serão fundamentais
na ordenação de suas relações. É
importante consagrar, a cada ano, os gestos rituais que fazem as cerimônias,
desde vestir a imagem longe dos olhos curiosos e a preparação
de ervas aromáticas no andor, até a relação
distanciada com o clero, mero funcionário da festa, assim como era
no séc. 18. Nessas lembranças afirmam-se valores e
aprendizados
passados de pai para filho através de gestos palavras e exemplos
de vida. Em algumas entrevistas confirmou-se como um valor social o costume
de falar comedidamente. Esses valores que foram passados pelos pais e avós
não eram à base de repressão forçada, mas através
de uma conversa sutil e delicada, próprias de quem é contrito
e silencia mais do que fala. Nessa evocação da tradição
reafirma-se o silêncio, enfocando como um preceito importante na
regulação do comportamento social.
O
terceiro ponto que chama a atenção nas procissões
é a definição de espaços nos rituais. Cada
uma das pessoas ligadas diretamente na produção das cerimônias,
tem a sua função e o seu lugar definido no cortejo, na maior
parte das vezes definidos por herança. Cada Irmandade tem o seu
território, cada personagem, padre, coroinha, andor, carregadores
de velas e lanternas, banda e coro, tem uma posição correta.
Paralelamente, são formadas duas filas uniformes que acompanham
o núcleo, formado por aqueles. Nelas as pessoas dispõem-se
com mais liberdade, mas não aleatoriamente. Nota-se que alguns procuram
caminhar
em pontos mais ou menos definidos. As beatas costumam ir na frente, puxando
a procissão, os mais devotos e emocionados em geral caminham junto
ao andor e os mais relapsos e que não estão muito interessados
em entrar na igreja, ou que gostam de ouvir a banda, sugestivamente podem
vir a escolher os últimos lugares. Isso lembra Roberto da
Mata
03
que anuncia as procissões no Brasil como rituais de "características
conciliadoras", com um núcleo hierarquizado seguido por todo o povo
compondo as fileiras com certa margem de liberdade de disposição.
Digo certa liberdade, porque apesar de poderem escolher pontos, não
rigidamente definidos horizontalmente, transversalmente é impossível
seu deslocamento durante a caminhada. Lembro-me que fui repreendido por
passar de um lado a outro procurando melhores ângulos para minha
filmadora. E ainda, creio que, por trás
desse
preceito, pode estar a idéia de que essas colunas, formadas pelo
povo, são como que alicerces sobre os quais se ergue, simbolicamente,
a autoridade da tradição e do sagrado. A regra mais importante
é que as pessoas se disponham de tal maneira que não se rompa
a uniformidade do cordão e que o ritmo não seja quebrado,
caminhando andor e colunas em harmonia e equilíbrio. A simetria
alcançada, somada às contorcidas ruelas por onde passa e
ao contraste entre o escuro das roupas (luto) e o brilho das lanternas,
assemelham-se demasiado às esculturas e pinturas barrocas com seus
rococós e seus contrastes. É a representação
ordenada e harmônica de uma sociedade no encontro de seus valores
e sua identidade mediante a reverência absoluta à tradição
e ao transcendente.
Um
espaço constitutivo da procissão, que está presente
particularmente em Tiradentes, e em outras cidades de realidade semelhante,
como São João D'el Rei e Ouro Preto, é o espaço
da platéia. Se o povo acompanha o cortejo formando colunas periféricas
ordenadas, os turistas, que não se arriscam a penetrá-las,
margeiam aleatoriamente, às vezes andando, às vezes parados
aguardando em frente aos Passos 04,
ao redor das praças por onde passa, ou próximos a bares e
pousadas que cerram as portas em sinal de respeito. Mas essa disposição
programada
só ocorre no segundo dia quando já estão sabendo das
celebrações, pois a procissão do Depósito é
feita com tanto silêncio e mistério que os surpreende na rua,
os quais, na maioria, estão mal informados. Alguns se espantam,
outros se emocionam e fazem reverência, enquanto outros ficam ávidos
por uma fotografia. Assim, ao turista é reservado um lugar, que
não é desprezível, mas aparece como um componente
vital do drama, o de espectador, que desperta no grupo uma vaidade importante
para sua auto-afirmação.
Durante
o feriado, semanas depois, a cidade recebe muito mais visitantes, que se
misturam às celebrações e modificam o ambiente. A
Sexta-feira da paixão, há alguns anos, e ainda hoje para
alguns, era época de total abstinência e silêncio. Não
se ligava rádio ou televisão, não se falava alto,
nem abriam os bares, ninguém trabalhava e nem casa se varria. Até
hoje tem muita gente que nem sai de casa nesse dia. As cerimônias
começavam tarde da noite, o Descendimento da Cruz 05
era feito dentro da igreja e o cortejo ganhava as ruas silenciosamente
já por volta da meia-noite, tudo no maior respeito e contrição.
Pelo que lembram os nativos, era ainda mais solene que a procissão
dos Passos. Hoje, esta última parece ser a depositária mais
importante desse respeito e lembrança da tradição
e da fé. Antes da Semana Santa propriamente dita, muitos nativos
contrastavam uma procissão a
outra,
dizendo que é completamente diferente e que o respeito e a tradição
estão mesmo marcados é na festa dos Passos, sendo que na
outra a quantidade de pessoas muda a configuração do ato.
Isso evidencia que os acontecimentos de Sexta-feira não foram ocasionais,
mas de certa forma são ritualizados, uma vez que previstos.
O
feriado deste ano foi um dos mais concorridos de sua história, havia
muita gente nas ruas, tanto de dia quanto de noite, e Sexta-feira foi culminante.
Os preparativos da Imagem de Jesus morto e do esquife, foram feitos de
dia, com a igreja apinhada de gente, cheia de turistas que disputavam curiosamente
uma melhor visão do trabalho, que ao contrário da outra,
não tinha nada de recluso. Um altar foi desvelado para se retirar
a imagem, uma tumba foi aberta para firmar a cruz na nave da igreja, o
mistério começava a ser quebrado e os bastidores do espetáculo
migravam para o palco, se mostrando ao olhar atento de seu público.
O
ritmo da cidade alterou-se completamente, turismo é sinônimo
de agito e a rotina diária é completamente quebrada. Com
isso, a atmosfera religiosa de contrição e silêncio
fica parcialmente dissolvida e o sentido fervoroso do drama, que começa
a ser representado desde cedo, contagia-se pelo sentido histórico,
tendendo mais a um espetáculo cultural que de fé. É
um dia de festa, brincadeiras e arte, entre um desses eventos incluía-se
a procissão, como era declarado pelos turistas. Um casal discutia
se iria à procissão, pois ele era católico e ela protestante,
mas argumentavam que era um evento cultural e por isso deveriam ir.
Acabaram
chegando a um acordo, resolvendo "dar uma sapeada", como diziam, ao invés
de acompanhar. Boa parte dos turistas "sapeavam", ou seja, entravam e saiam
das filas do cortejo à sua vontade e com toda liberdade. Ao contrário
dos espaços definidos na procissão dos Passos, as pessoas
circulavam com desenvoltura e sem cerimônia.
A
tradição de certa forma resiste ao assédio exagerado
e desconexo do turista, com suas músicas, arranjos, imagens e figurinos
bíblicos que somavam uns setenta personagens. No entanto, o ritmo,
o mistério e o silêncio já tinham sido quebrados desde
cedo. Na hora do Descendimento da Cruz as ruas em frente a igreja estavam
lotadas de gente, mesmo assim, em seguida, a procissão se formou
ordenadamente e começou sua caminhada, acompanhada pelo toque fúnebre
da banda. Mas, na medida em que aproximava-se do centro, começavam
a aparecer os carros na rua, os turistas nos bares e restaurantes abertos
e mais abaixo na rua Direita uma multidão disputava espaços
mais confortáveis para ver passar o "desfile". Nesse trecho, uma
equipe de filmagem, que realizava um curta-metragem na cidade, produzido
em associação entre pessoas da cidade e pessoas de Belo Horizonte,
se preparava para uma "tomada", com a desenvoltura e o agito próprios
de quem tem experiência em set. Começaram a filmar assim que
a procissão apontou, pedindo que os transeuntes se retirassem da
frente. Imagine o quadro, transeuntes entre uma procissão soleníssima
e uma equipe de filmagem que não se sabia de quê. Um nativo,
Rogério Nogueira, juiz dos Passos 06,
se posicionava de fora da procissão escandalizado com a "falta de
respeito" que presenciava. As primeiras pessoas passavam e entre elas,
ao invés das beatas tradicionais, havia um cego que chamava atenção.
Alguns minutos depois, esse suposto deficiente, passou com os óculos
escuros na mão procurando a equipe. Além desse personagem
novo, que a procissão não conhecia, inseriram um homem bêbado
07
que tropeçava nas pessoas posicionadas nas colunas.
A procissão
segue toda "arrebentada", como dizem os nativos, fragmentada, sem compasso,
desordenada, esquife para um lado, pessoas para outro. A ordem e o equilíbrio
enfatizado na procissão dos Passos dá lugar à desorganização
e ao inusitado. O espaço simbólico, antes tão definido,
agora é disputado pelos de fora, que não se incomodam de
entrar e sair, "sapeando" de acordo com suas próprias vontades.
O nativo, fervoroso, fica de fora e observa, invertendo a posição
com o turista, a ritualização de uma renovada realidade social,
da qual já não tem mais tanto controle. Esse espaço
simbólico certamente tem correspondência com espaços
concretos disputados a cada dia entre os "de dentro" e os "de fora", desde
espaços físicos, como moradia e comércio a espaços
sociais de decisão e
organização
política. Mesmo nessa disputa simbólica o nativo mantém
seu silêncio, retira-se do espetáculo para sua casa sem dizer
palavra, anônimo, aquele que na outra festa era o filho de "seu"
Nogueira, que ajudou a vestir o "santo" na noite soturna e carregou o andor
pesado com piedade e satisfação, seguindo os passos calcados
por seu pai e antepassados há quase trezentos anos. Mas não
é exatamente inversão, é mudança de discurso,
é uma
multiplicidade
de falas, onde se inclui a de outros nativos que se relacionam com o evento
de outros modos. Um dos organizadores dessa cerimônia me dizia, minutos
antes, que se admirava ao ver tanta gente presente e se orgulhava pelo
fato da cidade ser palco de uma oportunidade única dada ao turista.
Argumentava que em São Paulo ou Rio de Janeiro eles não teriam
condições de participar de um ato desses. Com ele seguem
muitos outros, talvez admirando, talvez disputando espaço.
A
procissão seguiu pelo corredor estreito que lhe sobra entre os carros
e, na medida em que passou pelo Centro Cultural 08,
que aguardou de portas fechadas, boa parte dos que acompanhavam se dispersaram,
voltando-se para um festival de Jazz que se realizava neste local. Foi
de lá que surgiu uma das manifestações mais interessantes.
Ao final do canto de Verônica, na igreja do Rosário ali perto,
que entoava "o plangente o vós omnes" ouviu-se gritos e aplausos
que vinham do Centro Cultural. Consagrou-se assim o sentido
puramente
cultural e artístico do turista, o espetáculo de fé
transformou-se em espetáculo comum, lugar de diversão e descontração.
Mais uma vez lembro-me de Da Matta que contrapunha esses dois rituais,
que aqui se completam, não sem conflito, representando em atos simbólicos
uma realidade social marcada pela tensão de valores e comportamentos
gestados em contextos sócio-culturais diferenciados. Mas não
só um jogo de falas, mas de falas e silêncios, onde o silêncio
muitas vezes é que define relações e espaços,
seja pelo mistério seja pela omissão. Há uma valorização
ética do silêncio, representados na atitude contrita proclamada
pela tradição, que permeiam as relações mais
concretas da vida
cotidiana,
tanto entre os nativos como entre nativos e turistas, vividos como num
jogo
de mostrar e esconder.
O que
se coloca, de fato, em questão é a manipulação
dos bens simbólicos, que dependendo como as disputas se configurem
podem decidir sobre o futuro desses símbolos e rituais que significam
muito mais do que pretendiam aqueles que os esculpiram em seu tempo.
Conclusão
Enfim,
o que eu gostaria de chamar atenção é para a necessidade
de se interpretar melhor os ambientes em que as pessoas circulam, sejam
de fora do lugar ou não. No que se refere ao patrimônio cultural
e ao turismo, é necessário uma interpretação
e uma educação adequada para que o comportamento das pessoas
não distoem de maneira agressiva do ambiente cultural e físico
para onde se dirigem. Prédios, meio ambiente natural, valores comportamentais,
rituais e símbolos, sofrem interferência inadequada, menos
por uma intenção negativa, mas principalmente pela falta
de informação e pelos limites de comunicação.
Stela
Murta analisa e propõe situações, nos locais de assédio,
que levem ao turista e aos moradores a uma melhor interpretação
do ambiente, com o objetivo de aumentar a compreensão pública
dos locais e acontecimentos, orientando o fluxo de pessoas e a proteção
dos objetos abordados. Acrescentaria, lembrando Schafer, que o ambiente
também está povoado de sons, existe uma "paisagem sonora"
a ser reconhecida e interpretada. Desde o canto de pássaros ao toque
de sinos, podemos afirmar que existe um patrimônio sonoro que é
significativo e deve ser valorizado para atingir uma compreensão
mais adequada dos processos culturais e naturais locais, permitindo ampliar
um sistema de
comunicação
entre o "de fora" e o "de dentro", evitando interferências desintegradoras.
Entre os sons que podem compor um ambiente, é importante chamar
atenção para a presença do seu oposto, o pano de fundo
que é o silêncio. Este compreendido não como ausência
de sons, mas como presença de possibilidades sonoras, como presença
de mistério. A contemplação de um silêncio absoluto
pode levar a um sentimento de terror, segundo Schaffer. Seja quando se
entra numa câmara anecóica, ou quando se pensa na imensidão
do
universo,
e como Pascal pode proclamar: "O silêncio eterno desses espaços
infinitos me assusta". O misterium tremendum que Rudolf Oto considera elemento
fundamental da experiência do sagrado pode ser sentido pela contemplação
do silêncio, em muitas situações ritualísticas
é este que garante a vivência mística. No caso das
procissões bicentenárias de Tiradentes destacaria, a valorização
ritual e ética do silêncio e do mistério. Tais cerimônias
não podem ser compreendidas somente pelas suas correlações
com a tradição e a história, mas deve-se atentar para
seu elemento mais definidor que é a experiência religiosa
que sustenta o processo ritual, sendo o motivo de sua realização.
Sem considerar a experiência do sagrado que os domina, estes rituais
e festas mencionados não poderiam ser compreendidos, uma vez que
sem ela não se realizariam. Considero que, para o nativo, o silêncio
e o mistério, estruturantes não só dos momentos solenes,
mas de todo o ambiente que se forma dentro de um tempo sagrado, a Semana
Santa, é um dos mais importantes instrumentos que o fiel se vale
para experimentar o transcendente.
O
silêncio e o mistério por um lado trazem esse sentido do sagrado
e por outro estabelece regras de comportamento importantes para orientarem
as pessoas na circulação pela rede social. Como descrito
anteriormente, há uma valorização, por parte da cultura
local das atitudes comedidas e do jeito manso e restrito de conversar,
como num jogo de falas e silêncios que exige ao interlocutor ler
pelas entrelinhas. Assim, a presença "mal programada" de pessoas
de fora, em massa, pode afetar drasticamente aquilo que sustenta a manifestação
religiosa, o sentido do sagrado e também referências importantes
a códigos de comportamento. Está assim, ao invés de
preservar, depredando um bem que pode ser considerado patrimônio
cultural. A música dos corais, de bandas e orquestras, que executam
peças dentro e fora dos templos, compondo o ambiente religioso das
festas, bem como o silêncio e os dobres comunicativos dos sinos também
são parte do patrimônio cultural, um patrimônio sonoro.
Da mesma forma, o sentimento do misterium tremendum, a experiência
religiosa também se incluem nessa categoria de bens. Enfim, ao analisar
um patrimônio cultural deve-se considerar seus significados mais
profundos sem os quais festas, ritos e saberes perdem o sentido e o que
têm de mais vivo e pulsante.
Então,
o antropólogo tem um papel fundamental nesse processo de contato
entre visões de mundo e comportamentos diferentes, decifrar códigos,
interpretar espaços, comportamentos e rituais, além de contribuir
com suas reflexões para as decisões sobre a proteção
e o registro dos bens culturais mais fugidios. A participação
do antropólogo nas discussões e decisões sobre o patrimônio
não é nova, podendo citar vários nomes como Rita Amaral,
Magnani, Gilberto Velho, entre outros. Uma vez que possui uma prática
e um modo de pensar a cultura que muito tem a ver com os objetivos dos
órgãos responsáveis. Como afirma Velho, o
antropólogo
possui a "experiência de lidar com o outro. O jogo de estranhamento
e relativização pode ser um caminho fértil para captar
a importância simbólica de manifestações que
num primeiro momento não poderiam talvez ser enquadradas, de forma
automática, nas fórmulas hoje existentes de defesa do patrimônio
cultural da nação" 09.
Valoriza pois a observação participante e o exercício
de interpretar o significado de rituais e ambientes, considerando-os dentro
de seu contexto próprio. Segundo o autor, foi isto que deu possibilidade
de realizar o tombamento do terreiro de Casa Branca em Salvador, quando
se abriu um precedente importante nessas ações. Enfim, o
papel do antropólogo é "tentar um esforço interpretativo,
procurando estabelecer pontes entre diferentes códigos e sistemas
de valores existentes em uma sociedade complexa e moderna. Estas pontes
devem considerar, por um lado as instituições e por outro
o turismo, necessitando estabelecer nesses dois contextos muitas pontes
entre uma multiplicidade de atores.
Interpretar
rituais, comportamentos, palavras, sons, etc., é interpretar todo
o ambiente em que as pessoas se inserem. A interpretação
do ambiente é fundamental para que o sujeito possa circular de forma
mais livre e respeitadora, por isso não pode ficar restrita no trabalho
do pesquisador e dos órgãos de preservação,
mas deve se estender às comunidades e aos turistas. Nesse sentido
um trabalho amplo de educação é muito importante.
Interpretar não é traduzir só para si, mas estender
aos outros, estabelecendo pontes de comunicações menos ruidosas.
Concordando com Stela Murta, é a "arte de apresentar lugares e objetos
às pessoas; a interpretação é elemento essencial
à conservação e gerenciamento do patrimônio,
uma vez que orienta o fluxo de visitantes visando também a proteção
do objeto da visita...O objetivo geral é portanto, aumentar a compreensão
pública do tema ou do ambiente, induzindo a atitudes de respeito
e proteção" 10.
Nesse sentido deve se pensar tanto em ações sistemáticas
de educação nas escolas, como em programar de forma adequada
os eventos culturais durante os feriados, principalmente feriados religiosos.
Tais ações educativas devem ter em mente tanto a informação
e a preservação do patrimônio cultural brasileiro,
quanto, e ao mesmo tempo, o respeito por uma cultura local, fundamental
para a orientação das pessoas que a vivem cotidianamente,
possibilitando que nesses processos de contato entre culturas diferentes,
possam estabelecer entre si uma comunicação mais transparente
e democrática, garantindo a liberdade de cada experiência.
BIBLIOGRAFIA
AMARAL,
Rita - O tombamento de um terreiro de candomblé em São Paulo.
Comunicações do ISER, no. 41, ISER, R.J., 1991
DA MATTA, Roberto - Carnavais Malandros e Heróis. R.J., 1983
DECRETO NO. 3.551, 04/08/2000 - Diário Oficial - Seção
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GEERTZ, Clifford - A Interpretação das Culturas. Zahar, R.J.
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MAGALHÃES, Aloísio - Bens Culturais: instrumentos para um
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MURTA, Stela Maris - Interpretação do Patrimônio para
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VELHO, Gilberto - Antropologia e Patrimônio Cultural. Em: Revista
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WEFFORT, Francisco - Carta ao Presidente da República, Brasília,
2000 -
IPHAN, Tiradentes
SCHAFER, Murray - O ouvido pensante. Ed.: UNESP, S.P., 1991
01
MAGALHÃES, Aloísio - 1984, p. 40
02
As imagens de roca, também chamadas santos de roca, são imagens
feitas de madeira, com os membros articulados, permitindo serem vestidos
com túnicas de pano; suas cabeças, em geral, são cobertas
por cabelos naturais.
03
DA MATTA, Roberto - 1983, p. 51
04
Passos são pequenas construções espalhadas pela cidade,
permanecem fechadas durante o ano, abrindo somente para as celebrações
da Semana Santa, simbolizando os passos de Jesus rumo ao Calvário.
05
Cerimônia realizada na frente do adro da Matriz, onde a Imagem articulada
de Jesus é
retirada
da cruz e colocada no esquife, sob o sermão do sacerdote, para em
seguida iniciar a
procissão
do Senhor Morto.
06
Juizes e Juizas são os responsáveis pela organização
da festa.
07
Segundo relato de Olinto Rodrigues em artigo publicado pelo jornal "Inconfidências"
08
Fundado há poucos anos para realizar eventos artístico-culturais
destinados ao público em geral e para conferências e
simpósios. Tem o nome de Yves Alves em homenagem ao diretor da Rede
Globo já falecido; tem ligação com a Fundação
Roberto Marinho.
09
VELHO, Gilberto - op.cit
10
MURTA, Stela Maris e GOODEY, Brian - 1995, p. 20.
INSTITUTO
SUPERIOR E CENTRO EDUCACIONAL LUTERANO BOM JESUS/IELUSC
IV ENCONTRO NACIONAL DE TURISMO COM BASE LOCAL
Redescobrindo a Ecologia no Turismo - 15 a 18/11/2000 - Joinville, SC