Roger
Bastide
Tradução:
Rita Amaral
NAU-USP
A
Antropologia religiosa se constituiu, em sua origem, como uma ciência
das mutações - e de mutações que seriam feitas
linearmente, desde o pré-animismo ou o fetichismo até o monoteísmo
ou às sociedades sem deuses. Esta Antropologia, entretanto, embaraçando-se
em questões insolúveis, como a da origem da religião,
ou tematizando sobre a multiplicidade irritante de teofanias, rejeitando-se
a se deixar alinhar no cordel da teoria, esta Antropologia está
morta, para dar lugar, hoje, a conjuntos de pesquisas mais restritas, mais
localizadas, mas também mais científicas. Isto não
quer dizer, naturalmente, que o problema das mutações não
se coloque mais, mas que ele se coloca diferentemente. Esta exposição
não tem outro objetivo que o de indicar algumas orientações
de estudos contemporâneos nesse domínio.
Antes
de abordá-las, contudo, devemos sublinhar - como ponto de partida
- a contradição interna que existe entre o substantivo e
o qualificativo no enunciado de nossa exposição: entre "mutação"
ou "mudança", de um lado, e "religião", do outro. Porque
toda religião, mesmo universalista, se quer "comemoração"
- o rito não é outra coisa senão a repetição
do mito das origens - porque toda religião, mesmo histórica,
se quer imitação da vida do fundador. Ela não se inscreve
na história senão para fazê-la parar e fixá-la
num momento: aquele em que o presente comungou ou encarnou o Eterno.
Em
todos os seus livros, mas talvez sobretudo em seus Quadros Sociais da Memória,
Holbwachs esclareceu suficientemente este aspecto do religioso como perpetuação
de lembranças (e isto até entre os místicos que querem
transcender a memória coletiva) para que precisemos insistir mais
nisso. Mas as lembranças não são o passado; elas são
apenas sua reconstituição na vida mutável dos homens,
grupos ou instituições. Para se inserir no presente (e um
presente sempre novo), é preciso que elas se adaptem; elas devem
ao menos sofrer uma seleção, e aquelas que passam não
têm o mesmo valor semântico - ou afetivo - de quando, em vez
de serem comemoração, eram acontecimentos vividos. Devemos
conservar presente, ao longo desta exposição, este caráter
voluntariamente "conservador", "imobilista" da religião; este papel
de freio ou de obstáculo dirigido contra a mudança, as transformações
e as mutações das mentalidades, das estruturas, do social
sob todos seus aspectos.
Mais
exatamente, a religião não nega a mudança, mas ela
não a considera senão como uma perda, ou uma regressão
às origens; como enfraquecimento da dinâmica das Igrejas,
da vida interior dos homens, como um resfriamento do fervor das criações.
Isto é verdade tanto para as religiões universalistas quanto
para as religiões ditas tradicionais. Quando estas, feridas de morte
pela colonização, não conseguem mais reequilibrar
o cosmos (atingido ao mesmo tempo em que o social por ritos apropriados)
não resta mais, para o messianismo, que retornar a este momento
do passado onde o caos foi ordenado pelos deuses ancestrais. Quando as
igrejas cristãs não se sentem mais de acordo com mundo à
sua volta, mudam remontando, elas também, às origens ou ao
que elas acreditam ser as verdadeiras origens do cristianismo. A ideologia
da Reforma protestante, por exemplo, não é uma ideologia
da mudança, mas do retorno à pureza do passado; ela se recusa
como "mutação" para se apresentar como "recuperação"
e como fidelidade à memória coletiva.
Trata-se,
entretanto, apenas, de ideologias que escondem, sob a continuidade, rupturas
e mudanças profundas - ou que dissimulam, com a ajuda de fatores
tranqüilizantes, as verdadeiras causas das mutações
religiosas.
Dirijamo-nos
primeiramente à Etnologia para procurar estas causas. A Etnologia
clássica nos habituou a estabelecer uma correlação
entre os sistemas religiosos e os gêneros de vida ou, entre os marxistas,
as formas de produção. Bem recentemente ainda (só
usarei como exemplos pesquisas recentes), Claude Meillassoux distinguia
a religião dos caçadores daquela dos agricultores da África
pela oposição da visão da terra como "objeto" entre
os primeiros, e como um "meio" de trabalho entre os segundos. A floresta
com sua caça e seus frutos é, para o caçador, o lugar
da possibilidade da sobrevivência, a fonte da vida; enquanto que,
para o agricultor, ela é o lugar do espantoso, o mundo dos espíritos
e dos mistérios. O pigmeu coloca, portanto, seus deuses no céu;
o Bantu, na mata. A sociedade de caçadores é uma sociedade
de iguais, unindo nos bandos ou hordas os homens da mesma idade. A memória
genealógica não pode remontar, então, a mais de duas
gerações; não existe culto dos ancestrais. A agricultura,
sedentarizando os indivíduos e suscitando-lhes desse modo a preocupação
com o futuro, vai direcionar o interesse dos espíritos pela ligação
das gerações; o culto masculino dos ancestrais aparece ao
mesmo tempo em que a religião feminina da fecundidade. Mas o gênero
de vida das populações muda no correr do tempo e, com as
transformações econômicas, novas formas de religião
surgem.
Em
vez de partir da economia, também poderíamos ter partido
da política. Porque a África é o lugar das migrações,
das conquistas e das alianças, portanto do aparecimento de novas
religiões, aquelas das linhagens dos conquistadores, desconhecidas
das linhagens conquistadas. Aqui, todavia, se mudanças se produzem
efetivamente no domínio religioso, não se pode falar de verdadeiras
mutações; as antigas religiões subsistem. Trata-se,
portanto, antes de simbioses, de complementaridade ou estratificação
de crenças e de ritos, que de revoluções. Ao contrário
do que acontece na economia, com a criação de novas formas
de produção.
A
Etnologia é uma ciência ainda muito próxima dos fatos
atuais para que possa nos dar (pelo menos em relação às
sociedades não-aculturadas) o testemunho de profundas mutações.
Todavia, ela nos permite descobrir, a posteriori, pela análise das
instituições presentes, alguns poucos processos de mudanças
passadas. Os cultos de possessão que se desenvolvem alhures, ao
que parece mais rapidamente hoje do que há alguns anos, nos revelam
dois desses processos. O primeiro muito próximo daquele que Lévi-Strauss
chamou de "bricolagem"; no sentido de que ele estrutura uma realidade nova
com a ajuda de antigas instituições desestruturadas, como
a entronização real, a iniciação tribal, as
formas de adivinhação etc. Mas, toda mutação
não é, no fundo, um fenômeno de reestruturação?
O segundo é um processo de transformação semântica
de velhas formas que mudam de sentido à medida que as estruturas
da sociedade global evoluem; como, por exemplo, as relações
de dominação/subordinação (de sexos, castas
ou etnias) substituem as relações de complementaridade e
de troca igualitária. Mas, uma mudança semântica não
é, freqüentemente, uma mudança mais importante que uma
simples mudança morfológica?
O
que parece verdade é que as mutações se fazem, sem
dúvida, mais lentamente que nas nossas sociedades, porque todos
os grupos vivem na mesma temporalidade, enquanto que os grupos de nossas
sociedades ocidentais apresentam leques enormes de temporalidades, que
necessitam de mais violentos esforços de reequilíbrio. É
preciso acrescentar, também, que ao contrário de nossas religiões
(que se situam na história e, conseqüentemente, isolam a teofania
que não é mais da permanência, mas do passado), as
religiões tradicionais se situam no cosmos - tanto que o diálogo
com sagrado torna-se cotidiano -, disto resultando que a mudança
se faz lentamente e não, como entre nós, brutalmente. Porque
este diálogo é o reflexo, no religioso, de variações
infinitesimais da vida profana. Desse modo, entre os índios da América
do Norte, os espíritos pessoais dão, em revelações,
novos passos de dança, remédios mágicos originais,
rezas mais eficazes, na medida de suas necessidades. Desse modo vemos ainda,
na Oceania, a permeabilidade entre o mundo dos sonhos e o mundo dos mitos
permitir à religião ficar em equilíbrio com as mudanças
introduzidas na sociedade por ligeiras modificações ou enriquecimento
na trama das imagens míticas, imagens-respostas aos novos stimuli
que são as imagens dos sonhos.
Tudo
leva o sociólogo, portanto, a se voltar antes para o lado da história
que, dando-lhe séries cronológicas, tem mais chances de lhe
permitir elaborar uma sociologia das mutações religiosas.
E, com efeito, ela lhe oferece, talvez, o critério que distingue
o tipo mutacional de outras formas de mudança. Dumézil provou
que todas as transformações históricas dos indo-europeus
se fizeram no quadro de um mesmo sistema tripartite: os demônios
podem bem suceder aos deuses e estes demônios, mais tarde, transformarem-se
em anjos. Deuses, demônios ou anjos se localizam num conjunto de
funções que permanece imutável. Não falaremos
de mutação enquanto permanecemos numa mesma estrutura; reservaremos
este termo para toda mudança que se define como a passagem de uma
estrutura a outra, como subversão de "sistemas". Mas a história
nos ensina também outra coisa. Georges Gurvitch sublinhou e insistiu
nisso: enquanto a sociologia privilegia a descontinuidade, a história
só quer ver a continuidade. Nas séries cronológicas,
as revoluções que, à primeira vista, seriam a marca
de descontinuidades estruturais, são apenas sintomas (de tomada
de consciência) de transformações amortecidas, de resistência
de temporalidades lentas às temporalidades mais rápidas,
do desejo dos indivíduos de passar mais rápido das desestruturações
traumatizantes aos reequilíbrios mais tranqüilizantes. A agitação
revolucionária é apenas um momento de uma continuidade que
começou bem antes e que prossegue após o reavivar das chamas.
Ou, se se prefere, as descontinuidades das formas políticas (ou
aquelas que se produzem na circulação das elites) se inscrevem
na continuidade de desestruturações e reestruturações
econômicas ou sociais. As revoluções da rua (1830-1848)
não interessam ao historiador senão recolocadas numa revolução
contínua, aquela à qual se deu o nome de "Revolução
Industrial".
Se,
no entanto, a história nos dá o critério da definição
de uma verdadeira mutação como a passagem de uma estrutura
social a outra, ela nos coloca, por outro lado, um problema. Se, com efeito,
a igreja tem uma estrutura, a religião, ela é uma estrutura?
Nós não devemos considerá-la, para empregar a terminologia
de Marx, como uma superestrutura? Seja porque ela forneça (como
no caso da revolta dos camponeses estudada por Engels ou no do messianismo
bakongo, descrito por George Balandier), uma linguagem (a única
utilizável no momento cronológico) para significar "outra
coisa" que não o religioso, seja porque ela se torne (como na análise
da reforma protestante proposta por Eric Fromm), a expressão de
um mecanismo compensatório e de uma ideologia racionalizadora, destinada
a resolver alguns problemas colocados pela passagem da sociedade medieval
à sociedade moderna? De todo modo, as superestruturas se modificam
necessariamente, se bem que com atraso (e um atraso tanto maior quanto
nós tenhamos definido o religioso pela memória e o passado
ou em relação com a subversão das estruturas econômicas
e sociais) mas as mudanças que podem afetar os sistemas religiosos
não são então, como nós dissemos acima, senão
fenômenos de adaptação e reequilíbrio com relação
a uma realidade que não é de natureza religiosa. Estes são
os fatos de "retorno" ou de "ressonância" ou de "reação
em cadeia numa gestalt". O que quer dizer que, ao menos no domínio
da dinâmica, a antropologia religiosa não é uma ciência
à parte; ela é apenas um capítulo de uma ciência
mais vasta e que engloba a antropologia social. Certamente, toda a história
das religiões, desde há alguns anos (eu penso particularmente
em L. Febvre e E. Leonard), substituindo a causalidade interna pela causalidade
externa, mostra, na origem das revoluções religiosas, crises
da espiritualidade ou angústias de ordem mística. Nós
estamos inteiramente de acordo. O que não quer dizer que estas crises
espirituais (ou, se se prefere, estas novas experiências do sagrado)
não se enraízem numa mais vasta inquietude. O sagrado encarnando-se
num corpo social, toda crise desse corpo entranha, com efeito, uma nova
apreensão e, conseqüentemente, uma nova experiência do
sagrado. A fisiologia religiosa é presa à fisiologia do organismo
global. Toda experiência religiosa é, por definição,
uma experiência impura.
A
urbanização e a industrialização colocaram
um desafio para as igrejas cristãs organizadas no quadro da sociedade
rural. A crise modernista, o nascimento de sacerdotes operários,
o desenvolvimento da sociologia do catolicismo como introdução,
ou substituição, à antiga pastoral, os recentes concílios,
as encíclicas pontificais e o ecumenismo aparecem como respostas
a esse desafio; as mutações internas das igrejas são
apenas a "ressonância" das mutações de "fora", que
exigem destas igrejas reequilíbrio com uma sociedade nova. Sem dúvida,
pode-se colocar, a respeito desse equilíbrio a questão de
E. Poulat:
"É
preciso falar de mudanças na Igreja ou de mudanças da Igreja?".
Apenas
as últimas, colocando em questão a Igreja ela mesma, tal
como foi moldada pelos séculos anteriores ao nosso, mereceriam o
nome de "mutações". Mas para nós não há
dúvida de que se assiste, atualmente, malgrado as resistências,
a alguma coisa mais que um rearranjo eclesiástico, a uma modificação
das estruturas mentais cristãs, para empregar os termos, aqui ainda,
de E. Poulat. Não se deve esquecer, entretanto, que essas metamorfoses
não estão pura e simplesmente a reboque das mutações
de estrutura da sociedade envolvente; elas se querem também construtivas.
As Igrejas não se limitam a se reestruturar para se reequilibrar;
elas continuam fiéis à sua função sociológica,
definida por Peter Berger como uma luta contra a anomia social; o que quer
dizer que elas não se reestruturam senão para melhor poder
reestruturar à volta delas a realidade mutante. E é preciso
não esquecer, também, esta profunda observação
de H. Desroche: "O binômio infra-estrutura contestante versus superestrutura
contestada não é suficiente para dar conta destas mudanças
ocorridas. Ela 'desprende' por assim dizer, uma contestação
vertical. Mas há também uma relação de contestante
a contestado entre duas superestruturas ocorrendo entre dois fenômenos,
duas convicções, dois comportamentos igualmente religiosos;
alguma coisa como uma contestação horizontal: `Crux Sociologorum'".
E ele acrescenta que se pode perguntar "se a primeira, sem a segunda, encontraria
sua consciência, ou mesmo se ela emergiria como contestação.
Do mesmo modo que, segundo Durkheim, uma sociedade não nasce como
sociedade senão numa e por uma 'sobressociedade', de modo que uma
sociedade mudaria se sua mudança não fosse selada numa e
por uma `sobremudança', da qual a mudança religiosa e a contestação
que ela implica são uma das manifestações maiores"
(Desroches, 1967).
Essas
duas últimas observações nos sugerem que se as mutações
provocadas pelas mutações da sociedade - ou da cultura que
lhe é ligada - operam no domínio das superestruturas, elas
devem forçosamente revestir-se de aspectos particulares, determinados
pela especificidade mesma das superestruturas em oposição
com as estruturas. Estes são os aspectos particulares que nós
precisamos, agora, desmembrar.
I
- Nas Igrejas cristãs, e em particular na igreja católica,
prefere-se, para estabelecer sobre as novidades a continuidade de uma tradição,
falar de emergência antes que de mutações. Como se
todas as inovações apontadas pelas mutações
estivessem já presentes no núcleo arcaico do sagrado, mas
sob uma forma latente, recoberta e oculta, da qual a história faria
apenas explicitar as virtualidades. Temos, portanto, um primeiro modelo,
que se poderia chamar "orgânico", de mutações, por
analogia com a planta que já está contida na abertura da
semente ou a borboleta que se desenvolve a partir da crisálida.
O apelo do "de fora" - da sociedade global - seria de mesma natureza que
a periodicidade das estações para as plantas ou os animais:
é quem revela e suscita as metamorfoses, mas a metamorfose já
está presente na semente ou na crisálida.
Seria
errado pensar que este processo da emergência seja próprio
do cristianismo. Nós o encontraremos em obra em todas as religiões,
pois todas são superestruturas. Lévi-Strauss o encontra mesmo
nos mitos dos índios da América do Norte. Falando de diferentes
tipos do marido-estrela recenseados por Tompson, ele escreve que: "alguns
aparecem simultaneamente, outros em épocas diferentes: isto coloca
problemas dos quais nós não subestimamos o interesse. À
condição, todavia, que se nos concede, de que tipos cuja
emergência concreta parece tardia não saíram do nada
e que eles não aparecem, também, sob a exclusiva influência
de fatores históricos ou em resposta às solicitações
externas. Eles fazem, antes, passar à existência atual as
possibilidades inerentes ao sistema e, neste sentido, são tão
velhos quanto eles" (Lévi-Strauss, 1968 - Mitológicas
III pg. 223).
Não
seria possível dizer melhor. Ainda mais no domínio dos dogmas,
onde a teoria da emergência foi sobremaneira aplicada, pertencendo,
como aquele dos mitos, ao plano das superestruturas mentais, e que nós
podemos aplicar-lhe, conseqüentemente, as leis de transformação
do estruturalismo. As novas criações, que definem as mutações
religiosas, não podem se fazer senão respeitando "os constrangimentos
e consignações" (ou coações e "depósitos")
da experiência do sagrado. Se a reação do porco-espinho,
que interessa Lévi-Strauss, "responde à necessidade de ajustar
uma imagem do mundo para colocá-la em harmonia com as novas condições
de vida e de pensamento [somos nós que sublinhamos para que não
se percam de vista as analogias destas transformações míticas
com as mutações do catolicismo], segue-se, a título
de conseqüência, que todos os elementos do sistema de representação
anterior devem se transformar de uma maneira homóloga àquela
que afeta o elemento mais diretamente contestado".
Resumindo,
o que define nosso primeiro processo, o da emergência, é que
as mutações religiosas não se fazem aleatoriamente:
elas obedecem a regras, que são regras de transformação,
e se produzem no interior de uma certa gestalt que é dada pelo estado
anterior do sagrado.
II
- A função desse primeiro modelo, se nós não
o tomamos em sua acepção científica de grupo de transformação,
mas enquanto ideologia de uma religião, é a de dissimular
as descontinuidades sob a continuidade. Nós temos, todavia, a opor,
um outro modelo, cujo objetivo será, ao contrário, dissimular
a continuidade, maximizando as descontinuidades. Este será o da
mutação das igrejas em "chuvas" de seitas. Bem entendido,
os afastamentos - medindo as rupturas e por contragolpe as mutações
religiosas - se situam ao longo de uma linha horizontal, indo de afastamentos
mínimos (por exemplo, no protestantismo, "as seitas do livro" ou,
no catolicismo, as ordens religiosas, que escolhem, na multiplicidade de
experiências do sagrado, as possibilidades ainda não emergidas
ou, pelo menos, negligenciadas) a afastamentos máximos (por exemplo,
no protestantismo, as seitas do Espírito-Santo, ou de modo mais
geral, as novas revelações ou novas palavras de Deus aos
homens). Encarou-se, muito freqüentemente, o movimento sectário
como um movimento análogo àquele dos despertares religiosos:
de contestação contra a cristalização ou burocratização
das igrejas, com a única diferença de que os segundos se
manifestam no lado de dentro, enquanto que o primeiro se manifesta do lado
de fora. A idéia é justa, mas insuficiente, porque ela não
leva em conta o fato da ruptura. A ruptura não é devida à
oposição do "quente" e do "frio"- pois o quente pode se exprimir
"dentro", tanto como fora - mas ao fato de que com as seitas, e sobretudo
com as seitas de afastamento máximo, estamos tratando de uma mutação
no domínio do sobrenatural. Podemos exprimir ainda de modo diferente
a oposição entre seita e Igreja, dizendo que a Igreja, na
sua dupla vontade de readaptar-se à sociedade envolvente (quando
o "descolamento" se torna tal que ela se arrisca a morrer) e ao mesmo tempo
sublinhar ideologicamente que ela não se mexe, apesar das aparências,
guarda os significados antigos para fazer "pesar" a mutação
sobre os significados (os mesmos significados tomando, no curso do tempo,
significações diferentes), enquanto que a seita parte de
significados (quer dizer, experiências do sagrado) para inventar
- a fim de traduzir sua heterogeneidade - significantes novos. A mutação
das igrejas se situa no plano da semântica. A das seitas no plano
do vocabulário.
Definido
assim este processo em sua acepção mais ampla, chegamos,
contudo, à mesma conclusão que para o processo de emergência.
Nós encontramos a emergência nas sociedades tradicionais e
a encontramos igualmente no movimento sectário. Falou-se muito das
seitas proféticas sincréticas da Costa do Marfim; ora, a
inserção de elementos cristãos não deve nos
iludir porque, ao lado, temos seitas proféticas puramente pagãs
(o profeta é aquele que descobriu um novo fetiche mais poderoso,
seja por uma revelação mística, seja por compra, após
a contestação de sua eficácia, ou de qualquer outro
modo e que o impõe à sua linhagem, à sua aldeia ou
à sua região). O "fetichismo" da Costa do Marfim toma, conseqüentemente,
a forma de um esfacelamento em seitas, e esta "pulverização"
em seitas deve-se a que uma experiência particular do sagrado busca
constantemente, para se exprimir, novos significantes (uma pedra bizarra,
uma receita original, a água de um certo mar etc).
Podemos
mesmo ir mais longe e definir esta experiência particular do sagrado
que está na origem das seitas como sentimento de lacuna ou de distância.
Com a diferença de que, nas religiões da Costa do Marfim,
a distância vivida é a da experiência religiosa do cosmos
(cuja ordem não é eficazmente assegurada pelos ritos antigos),
enquanto nas religiões universalistas ela é a da experiência
religiosa da cultura (cuja ordem, toda humana, não é eficazmente
assegurada; a saúde não é mais possível por
meio de ritos ou dogmas antigos). Mas pouco importa que a perturbação
se coloque no nível da natureza ou no nível da cultura; nos
dois casos ela não pode ser acalmada a não ser pela descoberta
de novos significantes.
O
afastamento da seita em relação à Igreja não
é, portanto, senão a tradução de um outro afastamento
nas leis da natureza ou nas leis da sociedade. O que faz com que, paradoxalmente,
a emergência que quer esconder a mutação sob a continuidade
acabe em uma verdadeira revolução das mentalidades e das
sensibilidades - enquanto que o movimento sectário que insiste sobre
a descontinuidade não assegura senão reencontrar, finalmente,
uma continuidade perdida (a harmonia do cosmos ou a harmonia da sociedade).
A seita não buscará, portanto, um reequilíbrio do
religioso e do social; ela não tentará embaralhar as temporalidades
e velocidades diferentes ao ritmo de um mesmo relógio. Ela tentará,
ao contrário, separar o religioso do social (condenação
da mundanidade) e negar a temporalidade (que é o signo do pecado,
cósmico ou social).
Resumindo:
1
- Malgrado seu caráter de comemoração e de eterno
recomeço de um mito de origem ou de um acontecimento histórico
passado, as religiões mudam como todos os fatos sociais; elas seguem
as grandes mutações que fizeram passar os homens do nomadismo
à sedentarização, das cidades aos impérios,
das civilizações rurais às sociedades industriais.
2
- Como as religiões se apresentam com relação
a estas mudanças de estruturas como superestruturas, e como as superestruturas
têm uma certa autonomia, obedecem a leis próprias, as mutações
religiosas se fazem segundo processos particulares. Demos dois exemplos
desses processos: a emergência e a multiplicação de
seitas, que escolhemos porque são contemporâneos, porque manifestam
a ressonância da urbanização e da industrialização
nas superestruturas das igrejas - e nós nos apercebemos que estes
processos se reencontram nas religiões primitivas ou tradicionais
do mesmo modo que nas nossas religiões universalistas; estamos,
portanto, autorizados a considerar esses processos menos como ideologias
do que como leis permanentes, válidas para todas as mutações
de sistemas superestruturais. Pelo menos nos limites de nossa pesquisa,
que deixou de lado as religiões orientais.
3
- Uma superestrutura é "um discurso sobre" fatos e não
um conjunto de fatos. Ela é, no caso que tomamos, o das mutações,
a tomada de consciência das subversões exteriores através
de uma linguagem anterior. Ora, toda linguagem é composta de significantes
e significados; pareceria, portanto, que não se pudesse encontrar
senão dois tipos de mutações que nós distinguimos,
um que leva sobre as significações, outro sobre a criação
de novos significantes (o que Mircea Eliade chamaria de aparição
de novas teofanias). Mas nossa exposição é uma exposição
de sociólogo; ela voluntariamente deixou de lado a psicologia, ou
seja, os modos pelos quais o sagrado é vivido. É possível
que, nesta outra via, encontrássemos outros tipos de mutação.
A propósito disso, um problema nos é posto pela mutação
em vias de se efetuar hoje e "que subverte todos os dados de nossa existência,
toda aquisição sobre a qual vivemos". Mas ela nos toca muito
de perto e nos falta a distância necessária para poder estudá-la
de um modo objetivo. Apenas citarei um texto emprestado de uma revista
cristã: "Não se trata, portanto, sobretudo não,
de querer construir uma cultura cristã, porque não há
cultura cristã, como não deveria haver civilização
cristã ou política cristã. Tudo o que é rotulado
desse modo é sempre a pior propaganda". O que parece indicar
a recusa do cristianismo como uma superestrutura. E adiante: "nos textos
evangélicos existe uma palavra quase técnica para designar
esta escolha e esta significação. É o termo metanóia
que se traduz algumas vezes por "arrependimento", ou "arrepender", e você
vê logo o resto: "eu não farei mais, eu errei, mea culpa",
toda essa maneira religiosa de evacuar a parte cultural, a parte política,
a parte humana desse retorno. Porque metanóia significa "mutação
de inteligência, retorno do pensamento e, muito literalmente, "revolução
cultural" pela qual os homens salvos pela palavra de Cristo entram numa
inteligência nova do mundo da história e da tarefa humana"
(Delteil, G. 1968:3-4). O que faria do cristianismo uma "leitura"
diferente da realidade profana, inteiramente transformada em palavras de
Deus que seria preciso decifrar. Donde, a mutação religiosa
não seria mais "posterior" às mutações econômicas,
sociais e culturais; ela seria sua "contemporânea" e se confundiria
com elas. Mas é muito cedo para julgar e para saber se esta mutação
não se restabelecerá, finalmente, numa das formas que examinei,
de reequilíbrio e de dialética entre o mundo dos significantes
e o dos significados.
1-
Sociologie des Mutations Religieuses in: BASTIDE, Roger. Le Sacré
Sauvage et autres essais Payot, Paris, 1975.

