REVISTA
DIGITAL DE ANTROPOLOGIA URBANA :::::: ISSN: 1806-0528
A Morte
do Pai-de-Santo: implicações e dificuldades para a
continuidade
dos terreiros de candomblé
Rita
Amaral
NAU-USP
"A
morte
é, sem dúvida, para todos os grupos e para todas as sociedades,
um evento desestruturante. Não só pela perda das pessoas
queridas mas também porque deixa vago, na estrutura familiar, social,
grupal etc., um espaço nem sempre preenchível, principalmente
em termos da relação particular do indivíduo que morre
com os outros. Ainda que seu "lugar" venha a ser ocupado por algum "substituto",
o conteúdo das relações nem sempre - ou quase nunca
- pode permanecer inalterado. Para o candomblé, a morte pode ser
bastante mais complexa, especialmente quando se trata da morte de um chefe
de terreiro . As várias mortes de pais-de-santo ocorridas recentemente
em São Paulo demonstram isto e levantam algumas questões
sobre esta problemática que devem ser discutidas e eu gostaria de
dar um primeiro impulso a esta discussão.
O
primeiro
problema diz respeito às questões rituais. No candomblé
acredita-se que o morto, quando ainda recentemente falecido, pode causar
perturbações aos vivos, seja porque se sente ainda ligado
aos que amou, seja porque deseja ser ajudado a desvencilhar-se dos vínculos
com o mundo material. Há também a questão de que o
orixá que foi assentado na cabeça do iniciado falecido (e
em representações materiais), deve ser "libertado" para que
possa retornar à "energia natural" da qual, na forma de um orixá
particular, era apenas um avatar, uma "qualidade", uma fração.
Por este motivo é realizado o ritual denominado axexê, ou
cirrum, que visa "despachar o egun", isto é, libertar os espírito
das relações com o mundo dos vivos e "encaminhá-lo"
ao mundo dos mortos, livrando também o orixá.
A
maioria
dos adeptos do candomblé não sabe explicar, contudo, o que
seja este "mundo dos mortos". Muitos dizem mesmo que depois da morte não
existe nada. "Morreu, morreu. Acabou". Este desconhecimento, e também
um certo "desinteresse" pelo que se passaria no pós-morte leva o
povo-de-santo a pelo menos duas diferentes atitudes:
1 - A morte e o morto são entregues à
religião hegemônica, no caso o catolicismo, que se encarrega
de ritualizá-la através do enterro católico, orações,
missa de sétimo dia etc. Quando se trata de um iaô, os assentamentos
costumam ser simplesmente "despachados" (geralmente jogados num rio ou
num cemitério) com cerimônias menores;
2
- É realizado o axexê, a cerimônia funeral do candomblé,
dedicada em geral apenas aos ebomis que têm filhos-de-santo. Neste
caso o ritual se torna imprescindível e é exigido tanto pelas
famílias-de-santo quanto pela comunidade do povo-de-santo em geral.
Estabelece-se assim uma diferenciação das pessoas também
diante da morte causando um certo estranhamento o fato de iniciados não-ebomis
não necessitarem do axexê para libertarem seus orixás
e seus vínculos com a família-de-santo. Mas existem razões
para que as coisas se passem assim.
A
realização
do axexê, uma grande e trabalhosa cerimônia, tem sido reservada
apenas para chefes de terreiro não só pela grande quantidade
de vínculos (com seu pai-de-santo, seus irmãos-de-santo,
filhos-de-santo, netos-de-santo, sua família carnal etc.) que estes
mantêm mas também pelos grandes obstáculos que devem
ser vencidos antes de sua efetuação. Um deles é a
falta de sacerdotes com conhecimento suficiente para realizar o axexê.
Sendo uma religião mágica, o processo ritual, os detalhes,
as "fórmulas" mágicas são sempre motivo de extremado
cuidado, medo e desconfiança. Qualquer mínimo erro, descuido
ou engano pode ser a fonte de grandes desgostos e problemas. Principalmente
quando se lida com o absoluto desconhecido que é a morte.
Assim,
poucos são os sacerdotes que se "arriscam" a realizar o axexê,
preferindo entregá-lo aos mais antigos sacerdotes, mesmo pagando
um alto preço por seus serviços religiosos. Como a realização
desta cerimônia tem se revelado bastante lucrativa, aqueles que a
conhecem profundamente têm evitado ensiná-las até mesmo
aos seus próprios filhos-de-santo mantendo, desse modo, o "monopólio"
do conhecimento religioso. Os especialistas em axexê, em São
Paulo, cobram em média 1000 dólares para realizá-lo.
E não é fácil, para os grupos de filhos dos terreiros,
conseguir este dinheiro e até mesmo superar questões como
"quem vai realizar o axexê, de que modo, quando, por quanto etc.",
pois a morte do chefe de um terreiro gera situações gravemente
desestruturantes.
Estas
situações chegam mesmo a colocar em risco a continuidade
da casa-de-santo, pois surgem muitas dúvidas: quem seria o sacerdote
mais indicado para realizar o axexê? Quem será o novo ou nova
chefe do terreiro? A casa continuará e o indivíduo permanecerá
nela, ou fechará (o que é mais comum) e o filho de santo
precisará ser adotado por outra casa, devendo, neste caso, reestruturar
toda sua vida religiosa?. Caso a casa seja extinta, quem adotará
os filhos-de-santo do morto, cuidando de seus orixás? Muita gente,
especialmente ogãs e ekedes, fica sem rumo, sem saber o que fazer
de sua vida religiosa:
"Eu
sou ekede do caboclo. Fui suspensa pra ser ekede dele; assentei minha Iansã
pra ser ekede dele. Agora que ele morreu, o que é que eu faço?
Pra que terreiro eu vou? Vou como ekede? Mas de quem? De Iansã?
Mas não foi ela que me suspendeu! Eu não sei o que fazer
da minha vida nem pra onde levar meu assentamento" (Telma de Iansã,
14 anos de iniciada).
Além
do axexê, que rompe os laços do homem com o orixá e
com o mundo dos vivos é preciso ainda que o filho-de-santo rompa
seu laço individual com o morto, através da cerimônia
de "tirar a mão de vume", que consiste em apagar a marca do pai-de-santo
na cabeça do filho, impondo-lhe outra, nova, de um novo pai ou mãe-de-santo.
Mas antes de qualquer outra coisa é preciso realizar o axexê
do pai-de-santo, sem o qual todos os outros procedimentos ficam impedidos.
Para tanto, é preciso que haja, imediatamente após a morte
do chefe da casa, a cotização da família-de-santo
para financiar a cerimônia do axexê. Sendo uma soma tão
alta (especialmente para o povo-de-santo, formado por gente pobre em sua
maior parte), essa cotização pode desestruturar a vida financeira
dos filhos, que precisam contribuir para que se consiga pagar o sacerdote
que realizará a cerimônia e para a compra do material necessário,
também bastante caro, quase outros mil dólares. Muitas vezes
os filhos-de-santo recorrem a estranhos, clientes do pai-de-santo, vendem
móveis, objetos e outras coisas do terreiro, pedem às lojas
de artigos religiosos onde o pai-de-santo comprava material para sua casa
que forneçam pelo menos parte do material, fazem listas, rifas etc.
Tudo isto tem que ser feito em prazo muito curto e nem sempre é
possível realizar o axexê no devido tempo. E os "especialistas"
não costumam baixar seus preços. Na melhor das hipóteses
podem parcelar em duas vezes seus honorários. Muitas vezes nem mesmo
permitem que os interessados comprem o material do ritual (encarregando-se
eles próprios disto), temendo que o fornecimento da lista seja um
primeiro passo para a quebra do "segredo".
Vê-se
que um problema gera outro. A falta de sacerdotes que conheçam o
ritual (poucas vezes ensinados, sejamos justos) cria um monopólio
de "conhecedores" bastante restrito que, por sua vez põem um preço
altíssimo em seus serviços, criando dificuldades econômicas
que poucas vezes podem ser superadas a contento pelos filhos-de-santo.
Com isso, realizam-se cada vez menos axexês e tais especialistas
correm o risco de, a médio prazo, verem seus serviços se
tornarem desnecessários com a extinção desse rito
no candomblé, o que parece já estar acontecendo. Talvez estes
"conhecedores", "especialistas", não tenham quem "bata " seu próprio
axexê por falta de quem possa fazê-lo.
Suponhamos,
para continuar nosso assunto, que o terreiro consiga passar pelas dificuldades
do axexê. Que consiga realizá-lo . Surge então um outro
problema: a sucessão da chefia da casa de candomblé. As sucessões
são geralmente bastante conflituosas, pois teoricamente vários
são os candidatos a ela, mais ainda se a casa tem muitos ebomis.
Na maioria das vezes existem ainda os descendentes carnais também
iniciados que se julgam herdeiros preferenciais. Como a resolução
passa pela consulta ao oráculo dos búzios e esta só
pode ser feita depois de realizado o axexê, arma-se uma rede de problemas
pois o tempo passa, os conflitos se definem em facções, acirram-se
e muita gente abandona o terreiro ou briga ferozmente por sua continuidade
que passa a ser, então, muito questionada em função
dos conflitos gerados pela morte do líder da casa. Intromissões
de gente de outros terreiros, ligada por vínculos do parentesco
religioso também é bastante comum.
Existe
ainda a questão legal. Muitos pais e mães-de-santo paulistas,
para usá-los como exemplo, são pessoas solteiras e sem filhos,
portanto sem herdeiros diretos. Com a morte, seus bens (inclusive o terreno
e o prédio onde se instala o terreiro, se este é de sua propriedade)
entram no inventário obrigatório para que seja efetuada a
partilha de bens entre os herdeiros legais como o pai, a mãe, irmãos,
sobrinhos etc. Como os chefes de terreiro costumam manter a propriedade
em seu nome (apesar de manterem os registros dos terreiros como sociedades
civis), mais um problema se põe para a continuidade do terreiro.
Porque geralmente os familiares que não fazem parte do candomblé
desejam vender o imóvel, dando fim, desse modo, ao terreiro. É
praticamente impossível ultrapassar este obstáculo. Em São
Paulo, até onde sei, apenas no caso de um único terreiro,
o Axé Ilê
Obá, herdado por uma sobrinha iniciada de pai Caio de Xangô,
mãe Sylvia de Oxalá, foi possível dar continuidade
às atividades religiosas , depois de passar por todos os estágios
anteriores de problemas que já mencionei.
Penso
que o crescimento do candomblé obriga a pensar mais detidamente
tais questões. Os sacerdotes que conhecem o axexê não
poderiam (ou deveriam) pensar em ensiná-lo a seus filhos e outros
interessados? Não poderiam diminuir sua ganância cobrando
menos ou então de acordo com as reais possibilidades de custeio
dos filhos de uma casa? Os chefes de terreiro não poderiam indicar
em vida seus possíveis sucessores? Não poderiam registrar
o imóvel de uso religioso como bem da Associação,
a fim de retirá-lo do alcance de herdeiros não envolvidos
com a religião, garantindo dessa forma, minimamente, a continuidade
de algo por que tanto lutou e viveu? Apresento ainda mais uma questão:
qual o papel das Federações de candomblé nestes momentos,
cruciais para os terreiros? Elas não poderiam minorar os problemas
se mantivessem sacerdotes conhecedores do rito do axexê dispostos
a realizar estas cerimônias, se não gratuitamente, pelo menos
por preços mais acessíveis? Para que servem estas Federações?
Qual seu papel junto ao candomblé e aos candomblés. De que
modo aplicam os recursos que têm?
Wilma,
filha de Iansã, ekede do boiadeiro de Pai Wilson de Iemanjá,
falecido recentemente diz:
"A
gente nunca tá preparado para a morte. A gente tá
preparado pra vida. A gente tá preparado pra festa!"
Seja
como for, apesar de o candomblé ser sinônimo de festa, de
alegria, de vida, por isso mesmo ele está ameaçado pela morte.
Talvez seja tempo de admiti-la e pensá-la para poder continuar vivendo.
Bibliografia
ELBEIN
DOS SANTOS, Juana. Os Nagô e a Morte. Petrópolis. Vozes.
1977
PRANDI,
Reginaldo. Os Candomblés de São Paulo. São
Paulo. Hucitec/EDUSP. 1991
VELHO,
Yvone Maggie Alves. Guerra de Orixá. Um estudo de ritual e conflito.
Zahar Editores, Rio de Janeiro. 1977.
(Publicado
originalmente no BOLETIM DA ABA .n..22, março/94. Associação
Brasileira de Antropologia, Florianópolis, 1994).