No limiar do século
XXI, grupos humanos com as mais variadas configurações sociais,
filosóficas e religiosas perguntam-se ainda sobre questões
essenciais que sempre povoaram as grandes polêmicas da História.Percebe-se
a permanência de indagações que assumem a forma
deantagonismos e que dividem os grupos humanos, causando os grandes conflitos
e posições irreconciliáveis que tem apontado, entre
outras, para duas grandes tendências da modernidade: o individualismo,
e seus poderosos aliados - o racismo, os fundamentalismos e os fanatismos
de toda ordem.
Este grande caldeirão
social e filosófico -no qual posições extremadas parecem
radicalizar-se- coloca lado a lado barbárie e civilização:
assiste-se, on line, a um intenso desenvolvimento tecnológico
convivendo com formas brutais e primitivas de combate xenófobo,
em cuja lógica prepondera a intolerância e a incapacidade
absoluta de conciliar, dialogar e fazer conviver a diversidade quer seja
ela de tipo cultural, religiosa, étnica ou social.
Apesar deste quadro aparentemente
insólito que parece, à primeira vista, um labirinto sem
saída, algumas alternativas
vão sendo construídas por grupos humanos que buscam expandir
sua influência cultural através de outras vias (que
não a xenofobia e os extremismos)
construindo processos de
comunicação e democratização do conhecimento.
Para
exemplificar, poderia ser
citada a atuação eletrônica dos terreiros de candomblé
no Brasil.
A TRADIÇÃO
REVISITADA NA MODERNIDADE
Sem pretender generalizações
apressadas, mas à guisa de estímulo à reflexão,
pode-se examinar por quais caminhos expande-se a influência
de vários grupos praticantes da religião afro-brasileira:
os inúmeros e variados sites e home-pagesdos terreiros de
candomblé na INTERNET apontam para a convivência entre modernidade
e tradição. Ao mesmo tempo em que grupos significativos
de candomblé no Brasil buscam afirmar sua tradição
-origens culturais e raízes “autênticas” (estas entendidas
enquanto africanidade[1]),
procuram também afirmar sua modernidade situando-se no cyberespaço,
em vez de buscar afirmação fechando-se sobre si mesmo. Esta
nova lógica resulta num esforço de convivência, que
alia modernidade e tradição eaponta para uma atuação
aberta ao intercâmbio com a sociedade como um todo, ao mesmo tempo
em que potencializa a informatização e a comunicação
eletrônica como um canal de diálogo, democratização
do conhecimento e construção de processos de incorporação
cultural[2].
Segundo o antropólogo
Raul LODY
(1987), o candomblé, originário da África, é
uma congregação de sobrevivências étnicas
que teve grande disseminação e reinterpretação
como cultura afro-brasileira em nosso país. De acordo com o autor,
a produção cultural constrói a aliança entre
os planos do sagrado e do humano. Assim, a música, dança,
canto, gestos e alimentos emanam a força vital e as máscaras,
esculturas, adornos e pinturas contribuem na unidade do grupo social, simbolizando
seus ciclos e passagens. A sociedade do candomblé é controlada
e protegida por dois elementos fundamentais: a natureza, o meio ambiente,
corporificados e santificados nos orixás e as expressões
dos antepassados.
“Assim,
a energia da naturezae os heróis e reis divinizados são alguns
dos principais motivos do plano do sagrado, íntimo e cotidiano para
o homem africano. Esta presença está na casa, no santuário,
no comércio, nas tarefas, nos campos, nos rios, no mar, no
desenvolvimento das técnicas artesanais...desenhando dessa maneira
o próprio ser cultural”.(p.9)
Claro está, pelas considerações
acima, que elementos da tradição - natureza e conhecimento
ancestral - permanecem como eixos essenciais da prática do candomblé
desde seus primórdios. Num clássico artigo intitulado “Iansã
não é Santa Bárbara” largamente difundido na
INTERNET, várias Iyalorixás da Bahia reivindicam a pureza
da tradição. Diz o documento:
“As
iyás e babalorixás[3]
da Bahia não querem também permitir mais que sua religião
seja tratada como folclore, seita, animismo ou religião primitiva
como sempre vem ocorrendo nesta cidade“[4]
O ENCONTRO RELIGIOSO NO CYBERESPAÇO
No Brasil, os terreiros de
candomblé e umbanda representam uma força social significativa
de
afirmação
da cultura afro-brasileira. Como estratégia de expansão de
sua influência, esta rede humana penetra a extensa rede de computadores
-a INTERNET- que emerge como uma poderosa aliada na inserção
e veiculação da sua prática. São inúmeros
os grupos que possuem suas home-pages na rede. Alguns exemplos são:
Ilé
Axé Opô Afonjá (Bahia), Sociedade
Africana Ilê Oxum Docô e Ilê
Nagô Kaô Xangô Okanimô (Rio Grande do Sul),
Axé
Ilê Obá,
Pai Celso
de Oxalá e Pai Danilo do Ogum (São Paulo), Abassá
de Odê (Santa Catarina) entre outros, em várias localidades
do país. Existem ainda inúmeros links para bibliotecas e
livrarias especializadas[5],
editoras, programas de rádio[6],
organizações não-governamentais, empresas alternativas[7],
listas de bibliografia, boletins[8]
e manifestos de apoio ou repúdio a iniciativas neste campo[9].
Em âmbito internacional, também há vários outros
exemplos de páginas de cultura de origem africana na rede[10].
A convivência entre
tradição e modernidade é um desafio para a época
atual. A rapidez e
conseqüente fluidez
de acontecimentos e transformações em todas as áreas
do conhecimento ocupa o nível “macro” da sociedade, mas resiste,
em nível microssocial a vontade e a ação de grupos
humanos no sentido de manter e/ou redefinir suas tradições
sem abdicar totalmente delas. Ao contrário, estes grupos parecem
sentir a necessidade de expandir sua influência e assim, resistir
à massificação globalizada. Esta redefinição
e/ou luta pela manutenção das tradições culturais
vê-se defronte a novas necessidades e demandas criadas pela modernidade
e transmitidas pelas novas tecnologias, rapidamente popularizadas pelo
mercado.
Embora freqüentemente
estes grupos culturais polarizem-se na dualidade “aderir” ou “rejeitar”
as mudanças tecnológicas,
uma parcela significativa acaba optando pelo caminho da incorporação,
qual seja, aproveitamento dos elementos facilitadores que as tecnologias
carregam sem perder de vista a tradição.
THOMPSON
(1990) afirma que a mudança tecnológica sempre foi crucial
para a transmissão
cultural ao longo da história,
pois altera a base material e meios de produção e recepção
dos quais este processo depende. Dentro desta concepção,
a mudança tecnológica implica em
alterações
nos processos de transmissão cultural. Claro está porque
os grupos humanos que
organizam-se sobre bases
e práticas culturais -como os praticantes do candomblé- vêem-se
na contingência de assimilarem e adequarem suas práticas assentadas
sobre bases tradicionais às novas tecnologias, equipando-se com
fax e secretária eletrônica, criando home-pages na INTERNET,
produzindo vídeos inclusive para veiculação em TVs
a cabo, etc. THOMPSON lembra ainda que a comunicação de massa
se interessa pela produção e transmissão de formas
simbólicas produzidas e desenvolvidas por meio de tecnologias da
mídia. Ora, se as formas simbólicas podem desta maneira propagar-se,
porque os grupos culturais interessados em difundir suas práticas
não estariam interessados nestas tecnologias? Por que opor, então,
tecnologia e tradição? E neste sentido inverte-se a lógica
mesma, intrínseca, do modelo de globalização hegemônico.
Esta implica em descaracterização
regional e cultural e submissão
à lógica do consumo que ignora origens grupais e valores
ancestrais e promove mudanças tecnológicas tão velozes
que qualquer idéia de permanência se dissolve.
A DEMOCRACRATIZAÇÃO
DAS NOVAS TECNOLOGIAS
Claro está, portanto,
que a tecnologia pode ser utilizada a favor de uma outra concepção
de
globalização.
Esta concepção pode ser o avesso da hegemônica -que
pressupõe o reinado do mercado do consumo de bens e a massificação
da informação e da comunicação- e repropor
o contato interplanetário para a democratização cultural,
política e social. CADOZ
lembra que, pela tecnologia o ser humano pode, no passado, obter um prolongamento
de si. Inicialmente a mão, estendida pelas primeiras ferramentas
e depois, com signos, linguagens e escritas estendeu o alcance espacial,
temporal, social e histórico de sua comunicação e
conhecimento. E assim, através também da ferramenta, ou da
tecnologia, modificou sua relação com o mundo. Ao modificá-la,
alterou sua cultura. Entretanto, é bom salientar que não
há fatalismos neste processo intra-influente: os grupos culturais
não submetem-se simplesmente à lógica tecnológica;
eles a transformam e sobre ela influem, num vaivém contínuo
de receber e transmitir influências. O momento atual é marcado,
porém, por uma singularidade, como analisa CADOZ:
a informática é radical ao alterar a relação
ser humano/mundo, porque intervém em três dimensões:
ação, observação e conhecimento do real e da
comunicação. “E por outro lado envolve
todos nossos atos e problemas e os transforma em atos e problemas de informação”
(1997:66). Ou seja, não é difícil aceitar que os recursos
tecnológicos caracterizam-se atualmente por constituirem-se em realidade
em si mesmos, interferindo em ações, emoções
e opiniões. A vivência da possibilidade de constituição
de uma realidade virtual, plena de complexidades é um exemplo de
como ações, emoções e opiniões podem
constituir-se num plano exterior à realidade concreta tal como se
concebia há poucos
anos atrás. A linha divisória entre real e virtual é
cada vez mais tênue, de modo que virtual é parte do real mesmo,
uma convivência cada vez mais cotidiana para aqueles que vivem em
sociedades altamente desenvolvidas em termos tecnológicos.
DOS LOCAIS DE CULTO AO CIBERESPAÇO:
O CASO DE SANTA CATARINA - BRASIL
As religiões afro-brasileiras
em Santa Catarina tem uma história particular de resistência
e busca de afirmação. Examinando sua trajetória, veremos
que as estratégias evoluíram do enfrentamento não-violento[11]
até a ocupação coletiva do espaço público.
Atualmente, os
terreiros e barracões
do chamado “povo-de-santo”[12],
integram-se definitivamente à Era da Informação, utilizando-se
do espaço virtual e seus recursos para aproximar-se não só
de seus praticantes, como também potencializar a web como fórum
democrático de divulgação e debate de questões
pertinentes aos religiosos. Estas são desde as mais corriqueiras,
como por exemplo, o conjunto de preceitos necessários para fazer
um “amaci”[13],
até o debate de
dogmas essenciais.
Na Grande Florianópolis,
alguns terreiros buscam expandir seu campo de atuação e extrapolar
os muros de sua limitação geográfica colocando suas
home-pages na Internet. Entre eles estão a Tenda de Umbanda Cabocla
Marola do Mar, de Biguaçu, Ilê Àsé Olorunfúnmí,
de Florianópolis, que funciona articulado ao Centro de Estudos e
Pesquisa da Cultura Afro-Brasileira Orunmilá e a Tenda Espírita
Caboclo Cobra Verde, em Barreiros. A Comunidade Terreiro Abassá
de Odé, praticante do Candomblé de Angola também já
possuiu home-page mas no momento encontra-se desativada. Faremos
uma breve análise dos dois primeiros terreiros, cujos sites estão
em atividade há mais tempo.
A Tenda de Umbanda Cabocla
Marola do Mar disponibiliza suas informações através
da
entidade civil Associação
Beneficente e Cultural Marola do Mar. Os principais acessos são
assim denominados: Quem Somos, Prece, Entidades, Deveres de um médium,
Os Dez Credos da Umbanda, Guia de Segurança, Magias da Carmencita,
Magias da Limpeza, Para Refletir.
Além das informações
específicas do grupo, suas entidades-guia, endereço, objetivos,
etc. há ainda uma seleção de conteúdos
que visam proporcionar um aprofundamento dos conhecimentos religiosos.
Em “Magias da Carmencita” são fornecidas algumas fórmulas
e seus objetivos, indicadas por uma das entidades da casa[14],
a Cigana Carmem. Além destas, a Associação possui
ainda uma lista de participantes via e-mail para os quais fornece, constantemente,
todo tipo de mensagem religiosa. Alguns títulos são: Pensamento
do Dia, O Poder da Prece, A importância do Perdão, Oração,
Decálogo do Cotidiano, Lenda Oriental, Sonhos e Poemas, Umbanda
Virtual, etc.
Desta forma, sem violar preceitos,
o terreiro desvenda suas atividades práticas e orientações
espirituais a quem deseja
conhecê-las, possibilitando um acesso democrático e contribuindo
para a desmistificação da religião. Pode-se afirmar
que esta é uma estratégia de expansão de sua influência,
na qual a INTERNET emerge como uma poderosa aliada da modernidade na inserção
e veiculação das tradições do povo-de-santo.
Além disso, o espaço virtual significa, para o grupo de médiuns
deste terreiro, uma importante fonte de informações nas “atividades
de estudo” realizadas semanalmente, além da participação
em listas de discussão que o colocam “em rede” com outros terreiros.
Em todo o Brasil, são inúmeros os grupos que possuem
suas home-pages na rede, o que multiplica ao infinito esta convergência
entre modernidade e tradição e a possibilidade de manter
uma interelação multifacetada.
Lévy
(1998) aponta a emergência do ciberespaço como a mais marcante
manifestação de uma revolução contemporânea
ímpar, que resulta numa mutação antropológica
de grande amplitude. Ele faz uma generalização que considera
“audaciosa”: quanto mais um regime político, uma cultura, ou um
estilo de organização tem afinidades com a intensificação
das interconexões, mais sobreviverá com resistência
e mais brilhará na era contemporânea. Não se trata
de dissolução de fronteiras, alerta, mas de considerar que
a melhor forma de desenvolver uma coletividade não é construir,
manter ou ampliar fronteiras, mas melhorar a qualidade das relações
tecidas neste conjunto. Esta parece ser a perspectiva do povo-de-santo
da Grande Florianópolis que está disposto a veicular práticas
e valores ancestrais e mesmo perpetuá-los na medida do possível,
através de sua difusão massiva e utilizando-se do espaço
virtual para reforçar laços, debater preceitos e tornar-se
visível e presente na atualidade. Além disso, como
indica Lévy, o ciberespaço permite, simultaneamente, a reciprocidade
na comunicação e a partilha de um contexto, contribuindo
na construção de uma memória coletiva, que, ao invés
de originar-se de um “centro emissor Todo-Poderoso” [sic] emerge da interação
entre os participantes.
O Ilê Àsé
Olorunfúnmí, do Babalaô Guaraci E. Fernandes encaixa-se
nesta definição. O objetivo da home-page do Centro é
possibilitar o acesso a “milhares de anos de cultura e sabedoria ainda
não conhecidos”. Na apresentação, destaca-se a home-page
como fonte de pesquisa “além do conhecimento
de causa adquirido por nossa vivência neste culto, através
da tradição oral, peça fundamental na transmissão
do conhecimento nesta cultura”. Os links remetem a informações
sobre aspectos da tradição cultural de origem yorubá
tais como: eguns, orixás, Oráculo de Ifá, cânticos,
etc. Há ainda uma apresentação do grupo responsável
e dados sobre a história do Centro, além das formas de entrar
em contato com o babalaô responsável. No link “Quem somos”,
este declara:
“Fui
prometido a um Caboclo de Umbanda por minha mãe dizendo ela a esta
entidade: o filho através dela gerado se viesse ao mundo iria receber
o seu nome, Guaraci, semi-sol da nação
Tupi-Guarani”.
Os limites do recurso
tecnológico estão explicitados: há um alerta no sentido
de que
“não
se pretende iniciar ninguém via Internet, mas deixar uma marca desta
cultura milenar
ancestral
a todos interessados”. Claro está, portanto que, neste
caso, a modernidade tecnológica propiciada pela Internet não
substituirá ou suplantará o valor da tradição,
mas apenas contribuirá para difundi-la e que, para este grupo, o
espaço virtual caracteriza-se como um fórum de debates, de
difusão de informações e de referência para
atuais e futuros contatos.
A possibilidade da confluência
de diversos tipos de saberes num espaço único, plural e multifacetado
dá uma nova significação à idéia de
espaço e de transmissão do conhecimento. No caso das religiões
afro-brasileiras na Grande Florianópolis, o ciberespaço alarga
o leque de influências do povo-de-santo local, além de gerar
a interelação multidirecional entre os próprios adeptos
e destes com a sociedade em geral. Democratiza-se o acesso à
tradição sem, entretanto, desvirtuá-la, na medida
em que os grupos participantes da rede é que são os autores
das informações ali disponibilizadas, as quais, por sua vez,
estão acessíveis a todos que acessam a rede, indistintamente.
O restrito espaço do terreiro ganha, assim, dimensão global,
sem perder a base física, permitindo a articulação
micro e macro simultaneamente, sem correr o risco de privilegiar um âmbito
em relação a outro, mas fazendo conviver dinâmicamente
as variadas possibilidades da prática religiosa.
A AUTENTICIDADE EM QUESTÀO
A América Latina caracteriza-se
por larga tradição de resistência popular e reproposição
aos modelos hegemônicos excludentes que lhe foram apresentados
ou impostos. Nesta longa luta pela democratização de
bens materiais e culturais, formaram-se frentes de atuação
social, econômica, étnica, ecológica e cultural
que buscaram organizar grupos e setores baseados em concepções
democratizadoras de atuação e convivência. No Brasil,
são particularmente relevantes as iniciativas de afirmação
cultural afro-brasileira organizadas em torno de ritmos e melodias, tais
como grupos baianos Olodum e o tradicional Afoxé Filhos de
Gandhi, as escolas de samba em várias cidades do país e outras,
com preocupações francamente pedagógicas e comunitárias[15].
No campo do sagrado, também os grupos de tradição
religiosa afro-brasileira -umbanda e o candomblé- adquirem especial
alcance ao buscarem transpor os limites geográficos e sociais de
seus terreiros e grupo de adeptos e enviar para o cyberespaço
suas mensagens, convites e cartas de intenções, numa clara
tentativa de expandir seu campo de influência.
É nesse redemoinho
de transformações tecnológicas que inserem-se os praticantes
do candomblé buscando apresentar seu trabalho, suas propostas e
intenções. É claro que, entre os inúmeros sites
que surgem a partir das palavras-chave “candomblé”, “orixás”
“religião afro-brasileira” e outras é preciso fazer uma triagem
cuidadosa, visando, por exemplo, a discernir os grupos que atuam em uma
linha comunitária e de afirmação cultural e outros,
com intenções preponderantemente comerciais e sensacionalistas.
A dualidade e risco da inserção na rede eletrônica
não foge à arguta percepção de lideranças
de grupos ligados à religião afro-brasileira, como atesta
este alerta dado pela organização baiana Ilé
Axé Opô Afonjá, no documento “Algumas considerações”:
“Agora
uma nova configuração se instala. Neste fim de século
com a corrosão das instituições religiosas tradicionais....
o candomblé, agora considerado religião é visto também
como uma agência eficiente.. ..Mais do que nunca as Iyalorixás
e Babalorixás se questionam. As armadilhas, os caça-fugitivos,
estão instalados. São os congressos, a TV -é
a mídia- os livros, a web, em certo sentido.
Tudo isto é transformado, por nós, em pinças
para
separar o joio do trigo... Diferenciação é
conhecimento, candomblé é religião, não é
seita”. (grifo meu).
Claro está, portanto
que a rede é vista como um instrumento dual, multifacetado, em relação
ao qual cabe o papel das lideranças dos grupos de religião
afro-brasileira encaminharem, escolherem e decidirem as formas mais adequadas
de sua utilização. Se, por um lado, há a crítica
à tecnologia (mídia, web), por outro, há a relativização
e a compreensão da complexidade do fenômeno tecnológico
na atualidade, expressas na expressão “em certo sentido”, do documento
Significa portanto, que a
informatização dos terreiros de candomblé e umbanda
é apenas um
facilitador para todos aqueles
que desejam contatos ou aprofundamento no conhecimento das práticas
religiosas. O trabalho de seleção, compreensão e discernimento
sobre concepções diferenciadas que embasam e sustentam os
grupos que surgem, por exemplo,a partir de uma palavra-chave feita na “busca”
fica a cargo do “internauta” que deve, portanto, munir-se de suficiente
embasamento teórico-prático para distinguir entre diferentes
propostas.
Esta análise aponta
para o fato de que a informática e as tecnologias em geral não
promoverão por si mesmas a democratização do
conhecimento, mas apenas podem facilitar o acesso a este. O semiólogo
Umberto ECO[16]
aponta para o labirinto que se constitui a rede informatizada quando não
existe, por parte do indivíduo, critérios, conhecimento ou
formação cultural suficientes para realizar o trabalho de
triagem e confronto de infomações. Ele vai ainda mais longe
afirmando que o excesso de informações -sem critérios-
pode significar um vazio equivalente a nenhuma informação.
CHOMSKY
(1998) acredita que a informação não é conhecimento.
Como exemplo, ele afirma que a população intelectualmente
subdesenvolvida não tem problema de falta de informação,
mas sim de entendimento. Além disso, o uso da INTERNET abre muitas
portas, mas há também o perigo do desaparecimento da singularidade
cultural, alerta o lingüista.
A educação,
a formação, os processos de construção do conhecimento
e do espírito crítico são, portanto, progressivamente
os elementos cada vez mais imprescindíveis na denominada Era da
Informação, para a constituição de um cidadão
que seja capaz de reconhecer, descobrir, escolher e exercer seu espírito
crítico em meio à grande quantidade de informações
que a informática e crescentemente em especial a INTERNET, proporcionam.
Do contrário, pode-se resvalar no perigoso terreno da apologização
da tecnologia e conseqüente esvaziamento do ser humano, de sua
história, cultura e possibilidades de construção do
conhecimento de ação propositiva em relação
à realidade.
BIBLIOGRAFIA
AMARAL,
Rita. Os Urbanitas.[on
line]. Disponível na INTERNET via http://www.aguaforte.com/antropologia
Arquivo capturado em 7 de novembro de 1998.
BOLETIM
AFRONOTÍCIAS. Informativo interativo sobre relações
raciais, África e cultura negra no Brasil. Universidade Cândido
Mendes/CEAA, nr.35, 23/10/98.
CACCIATORE,
Olga G. Dicionário de cultos afro-brasileiros. Forense Universitária.
Rio de Janeiro RJ, 1988.
CADOZ,
Claude. Realidade virtual. Ed. Ática. São Paulo: SP,
1997.
CHOMSKY,
Noam. Jornal Em Tempo. Belo Horizonte: MG, 8.11.1198. pág.2.
ECO, Umberto.
Entrevista concedida ao Programa Hipermídia. GNT, 1997.
FÓRUM
DE ENTIDADES DE DIREITOS HUMANOS DO ESTADO DA BAHIA E COMISSÃO
DE
DIREITOS HUMANOS DA ASSEMBLÉIA LEGISLATIVA DA BAHIA. AXE, ZUMBI
- ONGS
DA
BAHIA. Exposição de Museu agride cultura negra na Bahia.
[on line] Disponível na INTERNET via http://www.geocities.com/Athens/Acropolis/1322
Documento capturado em 17.10.98
GANTOIS,
Menininha do.Iyalorixá do Axé Ilê Iya Omin Iyamassé;
Stella de Oxossi, Iyalorixá
do Ilé Axé
Opô Afonjá; Tete de Iansã Iyalorixá do Ilé
Nassô Oká e Olga de Alaketo, Iyalorixá do Ilé
Maroia Lage. Iansã não é Santa Bárbara.Salvador:BA,
12.8.83. [on line] Disponível na
INTERNET via http://www.geocities.com/Athens/Acropolis/1322.
Documento
capturado em 22.10.98
ILÉ AXÉ OPÔ AFONJÁ.
Algumas considerações. Oni Kòwé. Salvador:BA,
outubro de 1996.[on line] Disponível na INTERNET via http://www.geocities.com/Athens/Acropolis/1322.
Documento capturado em 17.10.98
LODY,
Raul. Candomblé. Religião e resistência cultural.
Ed. Ática. São Paulo:SP, 1987.
MUNANGA,
Kabengele. Negritude. Usos e sentidos. Ed. Ática. São
Paulo:SP, 1988.
THOMPSON,
John B. Ideologia e cultura moderna. Teoria social crítica na
era dos Meios de comunicação de massa. Petrópolis:RJ,
1990.
TRAMONTE,
Cristiana. O samba conquista passagem. As estratégias e a ação
educativa das escolas de samba de Florianópolis. NUP/ DIALOGO/
Fondation pour le Progrès de L’Homme. Florianópolis:SC, 1995.
TENDA DE UMBANDA CABOCLA
MAROLA DO MAR http://clientes.brasilnet.net/liriobranco
TENDA ESPÍRITA CABOCLO
COBRA VERDE – MSN Web Community
Centro de Estudos e Pesquisa
da Cultura Afro-Brasileira Orunmilá - Ilê Àsé
Olorunfúnmí . http://clientes.brasilnet.net/xdesigner/ileache
LÉVY,
Pierre. A revolução contemporânea em matéria
de comunicação. In: Revista FAMECOS: mídia,
cultura e tecnologia. Faculdade de Comunicação Social,
PUCRS, n.9, dez. 1998.
NOTAS
[1]
Poderíamos chamar ainda de “negritude”. Segundo Kabengele MUNANGA
(1988),há cerca de cinquenta anos nascia o conceito e movimento
ideológico. O autor localiza ainda uma definição
cultural segundo a qual negritude seria a “afirmação do negro
pela valorização de sua cultura, a começar da
poesia e outros”.
[2]
Entende-se cultura nas duas instâncias apontadas por THOMPSON
(1990): a concepção descritiva e a concepção
simbólica. A primeira refere-se a um variado conjunto de valores,
crenças, costumes, e práticas de uma sociedade específica
ou de um período histórico. A simbólica aponta para
os fenômenos culturais como plenos de simbolismo eseu estudo está
interessado na interpretação destes símbolos e na
ação em que implicam.
[3]
Iyá = O mesmo que “mãe” em yorubá. Especifica cargo
hierárquico no candomblé. Babalorixá = Chefe de terreiro.
CACCIATORE, 1988
[4] O documento
contém a assinatura das seguintes lideranças do candomblé
baiano: Menininha do Gantois, Iyalorixá do Axé Ilê
Iya Omin Iyamassé; Stella de Oxossi, Iyalorixá do Ilé
Axé Opô Afonjá; Tete de Iansã Iyalorixá
do Ilé Nassô Oká e Olga de Alaketo, Iyalorixá
do Ilé Maroia Lage.
12/8/83
[5]
Vale conferir a excelente Biblioteca Comboniana da Bahia - comboni@ongba.org.br,
que possui consulta on-line e o acervo do Núcleo de Estudos Negros
- NEN, de Florianópolis (SC) pelo endereçonen@ced.ufsc.br
[6]
Pai Celso de Oxalá possui um programa de rádio denominado
“O Nosso Cantinho”,que vai ao ar de segunda a sexta-feira, com perfil informativo
e “objetivo de desmistificar o candomblé”, dirigido “Não
só aos adeptos mas a todos aqueles que querem ouvir algo novo”.
BOLETIM
AFRONOTÍCIAS, nr.35
[7]
A empresa de WEB Aguaforte
é um exemplo: oferece diversos serviços de cunho social,
entre eles classificados gratuitos ( “Coisas do Brasil”), mensagens espirituais
( “mercador de palavras”), além de “hospedar” diversos sites de
Candomblé. Mantém ainda, sob responsabilidade da Profa. Dra.
Rita Amaral, a excelente página
OsUrbanitas
que, entre outros assuntos, informa e atualiza sobre textos, endereços
e notícias de terreiros de candomblé (http://www.aguaforte.com/antropologia).
[8]
O Boletim Afronotícias, da Universidade Candido Mendes é
um ótimo informativo interativo sobre relações raciais,
África e Cultura Negra no Brasil.
[9]
A rede informatizada é também utilizada como veículo
de divulgação de idéias e posições políticas
e culturais e como fórum organizativo dos grupos que atuam com religião
afro-brasileira. Exemplo de articulação via eletrônicaé
o manifesto intitulado “Exposição de Museu agride cultura
negra na Bahia - Campanha pela devolução de objetos sagrados
aos terreiros de candomblé da Bahia”, difundido por grupos baianos,
entre eles AXÉ e a Organização Zumbi OnGs da Bahia,
além do Fórum de Entidades de Direitos Humanos do Estado
da Bahia e Comissão de Direitos Humanos da Assembléia Legislativa
da Bahia. Este documento protesta contra a referida exposição,
solicita a devolução de objetos expropriados em incursões
violentas da polícia aos terreiros, principalmente no passado,e
solicita o envio de telegramas de repúdio ao então governador
do Estado Paulo Souto. Diz o texto: “o que se pretende ensinar às
crianças e à juventude de várias escolas que freqüentam
aquele museu? O desavisado visitante verá numa mesma exposição:
máscaras mortuárias de criminosos decapitados, armas de fogo
e outros instrumentos de homicídio, baralhos viciados, dados falsos,
drogas diversas, testículos de bandidos, fetos deformados, cabeças
decepadas...e belas criações de arte sacra negra”.
[10]
Por exemplo, o site da Botanica Lucumí, com sede nos EUA, que oferece
desde produtos de cultos de origem africana a endereços e informes
diversos sobre o tema.
[11]
Refere-se à resistência ativa não-violenta expressa
pelo líder indiano Mahatma Gandhi.
[12]
Denominação usual para o grupo dos adeptos das religiões
afro-brasileiras.
[13]
“Amaci = líquido preparado com folhas sagradas, maceradas em água
das quartinhas* do roncó**, deixado a clarear (repousar) durante
sete dias no peji***. É destinado a banhar a cabeça das iniciandas...”.
Cacciatore, 1988. * “Quartinhas = vasilhas de barro...onde são colocados,
no peji, os líquidos para os orixás...” (idem) **“Roncó
= camarinha, quarto sagrado, espécie de claustro, onde as futuras
iaô [iniciandas]são recolhidas...” (idem) ***“Peji=Altar
dos orixás, onde ficam os símbolos...” ... (idem)
[14]
Diz “da casa” quando faz parte do conjunto de divindades que incorporam
nos médiuns que frequentam determinado centro; notadamente refere-se
às entidades incorporadas pelo chefe de terreiro.
[15]
Em trabalho anterior, busquei analisar as estratégias e a ação
educativa das escolas de samba de Florianópolis. TRAMONTE, 1995.
[16]
Programa Hipermídia. Entrevista concedida ao canal GNT. 1997.
(c)1er Congreso ONLINE del Observatorio para
la CiberSociedad
(c) Observatorio para la CiberSociedad
(c) Del autor