As
marcas dessas duas formas de apropriação e uso do espaço
- pedaço e mancha - na paisagem mais ampla da cidade, são
diferentes. No primeiro caso, onde o determinante é o componente
simbólico, o espaço enquanto ponto de referência é
restrito, interessando mais a seus habituês. Com facilidade muda-se
de ponto, quando então "leva-se junto o pedaço".
A
mancha, ao contrário, sempre aglutinada em torno de um ou mais estabelecimentos,
apresenta uma implantação mais estável, tanto na paisagem
como no imaginário. As atividades que oferece e as práticas
que propicia são o resultado de uma multiplicidade de relações
entre seus equipamentos, edificações e vias de acesso, o
que garante uma maior continuidade, transformando-a, assim, em ponto de
referência físico, visível e público para um
número mais amplo de usuários
.
A cidade,
contudo, não é um aglomerado de pontos, pedaços ou
manchas excludentes: as pessoas circulam entre eles, fazem suas escolhas
entre as várias alternativas – este ou aquele, este e aquele e depois
aquele outro – de acordo com determinada lógica; mesmo
quando se dirigem a seu pedaço favorito, no interior de determinada
mancha seguem caminhos que não são aleatórios.
Estamos
falando de trajetos.
O
termo trajeto surgiu da necessidade de categorizar uma forma de uso
do espaço que se diferencia, em primeiro lugar, daquele descrito
pela categoria pedaço. Enquanto esta última, como foi visto,
remete a um território que funciona como ponto de referência
– e, no caso da vida no bairro, evoca a permanência de laços
de família, de vizinhança, origem e outros – trajeto
aplica-se a fluxos no espaço mais abrangente da cidade e no interior
das manchas urbanas.
Não que não
se possa reconhecer sua ocorrência no bairro, mas é justamente
para pensar a abertura do particularismo do pedaço que essa
categoria foi elaborada. É a extensão e principalmente
a diversidade do espaço urbano para além do bairro que colocam
a necessidade de deslocamentos por regiões distantes e não
contíguas: esta é uma primeira aplicação da
categoria. Na paisagem mais ampla e diversificada da cidade, trajetos
ligam pontos e manchas, complementares ou alternativos: casa /trabalho
/casa; casa /cinema /restaurante /bar; casa /posto de saúde /hospital
/curandeiro - eis alguns exemplos, dos mais corriqueiros, de trajetos possíveis.
Outra
aplicação é no interior das manchas. Tendo em vista
que a mancha supõe uma presença mais concentrada de equipamentos,
cada qual concorrendo, à sua maneira, para a atividade que lhe dá
a marca característica, os trajetos, nelas, são de curta
extensão, na escala do andar: representam escolhas ou recortes no
interior daquela mancha, entendida como uma área contígua.
Sanduicheria
Baguette /Cineclube /Café do Bexiga /Livraria Arte Pau Brasil, nessa
ordem; ou: Livraria Belas Artes /Cine Belas Artes /Bar e Restaurante Riviera
– são exemplos de trajetos já conhecidos, um
no interior da mancha do Bexiga e outro na mancha da esquina da Consolação
com Paulista, como resultado de escolhas concretas frente a alternativas
oferecidas pelas respectivas manchas.
A
construção dos trajetos não é aleatória
nem ilimitada em suas possibilidades de combinação. Estamos
diante de uma lógica ditada por sistemas de compatibilidades. No
exemplo: Livraria Belas Artes /Cine Belas Artes /Bar e Restaurante
Riviera, que mostra uma combinação não apenas
possível, mas bastante freqüente, não entra na seqüência
(nem como alternativa), o bar Metrópolis, apesar de estar situado
na mesma mancha. Outra é a gramática que permite compreender
o significado desse bar e do trajeto em que se inscreve: com características
de bar yuppie, apresenta um tipo de paquera com abordagens explícitas
que o distancia do bar Riviera, por exemplo. E no caso daquele
outro trajeto, recortado no Bexiga, não entra, por certo, o teatro
de sexo explícito “Márcia Ferro”, logo ali e ao mesmo tempo
tão distante, ao menos do ponto de vista de determinado padrão
de lazer.
Assim,
a idéia de trajeto permite pensar tanto uma possibilidade
de escolhas no interior das manchas como a abertura dessas manchas
e pedaços em direção a outros pontos de espaço
urbano e, por conseqüência, a outras lógicas. Sem essa
abertura corre-se o risco de cair numa perspectiva reificadora, restrita
e demasiadamente "comunitária" da idéia de pedaço,
com seus códigos de reconhecimento, laços de reciprocidade,
relações face a face.
Foi
afirmado que o pedaço é aquele espaço intermediário
entre a casa (o privado) e o público ou, para utilizar um sistema
de oposições já consagrado, entre casa e rua.
(DA MATTA, 1985). Não é, contudo, um espaço fechado
e impermeável a uma e outra; ao contrário. É a noção
de trajeto que abre o pedaço para fora, para o espaço e âmbito
do público.
Finalmente,
os trajetos levam de um ponto a outro através dos pórticos.
Trata-se de espaços, marcos e vazios na paisagem urbana que configuram
passagens. Lugares que já não pertencem ao pedaço
ou mancha de lá, mas ainda não se situam nos de cá;
escapam aos sistemas de classificação de um e outra e como
tal apresentam a "maldição dos vazios fronteiriços"
. Terra de ninguém, lugar do perigo, preferido por figuras liminares
e para a realização de rituais mágicos, muitas vezes
lugares sombrios que é preciso cruzar rapidamente, sem olhar para
os lados...
Conclusão
Não
se deve perder de vista o fato de as observações precedentes
terem sido tiradas de duas pesquisas que, apesar de encadeadas
por temática, orientação e metodologia, foram realizadas
em contextos diferentes: as limitações de espaço não
permitiram explicitar devidamente todas as pressuposições,
passagens e mediações.
De
qualquer maneira, o que se pretendia era mostrar que a metrópole
– no caso, São Paulo – apesar de sua escala, diversidade e problemas
comporta inúmeras e até mesmo surpreendentes formas através
quais seus habitantes estabelecem vínculos entre si e com a cidade.
Algumas dessas formas podem ser apreciadas em sua relação
com o próprio espaço no qual ocorrem: são as experiências
da rua, para recuperar um termo usado no texto.
Ademais,
e contrariamente ao que pensa o senso comum, a cidade não se impõe
de forma homogênea e absoluta sobre seus moradores. Há
que se entender: não se trata de passar por alto ou minimizar
as profundas contradições e perversidades do
desenvolvimento urbano da metrópole paulistana. O que se propõe
é apenas variar o ângulo, olhar desde outro lugar, apreciar
a cidade do ponto de vista daqueles que, exatamente por causa da diversidade
de seu modo de vida, se apropriam dela de forma também diferenciada.
Estas
formas de apropriação não são o resultado de
escolhas individuais, nem são aleatórias: são resultado
de rotinas cotidianas, ditadas por injunções coletivas que
regulam o trabalho, a devoção, a diversão, a convivência
e que deixam suas marcas no mapa da cidade. O resultado é um desenho
bastante particular e que se sobrepõe ao desenho oficial da cidade:
às vezes rompe com ele, outras vezes o segue, outras ainda não
tem alternativa senão adequar-se.
Pode-se afirmar que,
entre os dois padrões paradigmáticos de apropriação
do espaço – o privado e o público – existe uma gradação
onde é possível distinguir inúmeros arranjos intermediários,
escolhas reveladoras da dinâmica urbana: ora é o pedaço
com sua lógica particularizante que agrupa os semelhantes e distingue
claramente os "de fora"; ora é a mancha – mais ampla, com base não
tanto nos signos diferenciadores mas na lógica territorial
e que permite, por isso mesmo, encontros imprevistos mas desejáveis,
propiciando toda espécie de trocas. Estabelecendo ligações
entre uns e outras estão os trajetos que, através dos pórticos,
também abrem passagens por espaços ainda não
conquistados.
Como se pôde ver,
de uma forma ou outra a rua e sua experiência estão vivas,
assim como viva permanece, ao menos como ponto de referência, a "velha
rua moderna", segundo a expressão usada por Berman para referir-se
ao cenário da cena que descreve como primordial.
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Versão revista e atualizada
do artigo “A rua e a evolução da sociabilidade”, originalmente
publicado em Cadernos de História de São Paulo 2, jan/dez
1993, Museu Paulista- USP.