REVISTA DIGITAL DE ANTROPOLOGIA URBANA :::::: ISSN: 1806-0528
 
 
 
 
 

A  RUA  E  A  EVOLUÇÃO  DA  SOCIABILIDADE

 

José Guilherme Cantor Magnani







Um antecedente ilustre: as ruas de Paris
 

Uma das mais sugestivas referências para pensar a rua enquanto espaço e suporte de sociabilidade é sem dúvida  a imagem das ruas de Paris de meados do século XIX com seus personagens, comportamentos e incidentes vividos e cantados pelo contemporâneo Baudelaire, cuja experiência, retomada nos célebres textos de Walter Benjamin, não cessa de inspirar novas leituras. Tal é o caso de um autor mais recente, Marshall Berman, para quem "o novo boulevard parisiense foi a mais espetacular inovação urbana do século XIX, decisivo ponto de partida para a modernização da cidade tradicional". (BERMAN, 1989, p. 145)

Os bulevares faziam parte de um projeto mais amplo da reforma urbana desencadeada por G.E. Haussmann, prefeito de Paris, que botou  abaixo centenas de edifícios, deslocou milhares de pessoas, destruiu bairros inteiros, mas ... "franqueou toda a cidade, pela primeira vez em sua história, à totalidade de seus habitantes. Agora, após séculos de vida claustral, em células isoladas, Paris se tornava um espaço físico e humano unificado". (idem, ibidem, p.146)

Berman está falando da "aventura da modernidade" e descrevendo a forma emblemática e visível de uma experiência  resultante de processos que  vinham sendo gestados desde há muito. O autor, evidentemente, não desconhece o contexto mais amplo dessa experiência, nem se deixa seduzir apenas pelo glamour  dos novos cafés, restaurantes, lojas, terraços e calçadas parisienses. Ao analisar o que denomina de "cena primordial" -  tema do poema "Os olhos dos pobres", de Baudelaire, ressalta que ela revela as ironias e contradições na vida da cidade moderna: trata-se, com efeito, do inesperado, momentâneo e incômodo encontro  entre  personagens de mundos separados, o romântico par que desfrutava do novo café na esquina de um novo bulevar e a família de pobres que apreciava, extasiada, a beleza do  estabelecimento.

É que as vias rasgadas por Haussmann no velho tecido da cidade medieval, permitindo os novos fluxos e as novas experiências, tornaram também visíveis e próximos outros atores sociais, as então "classes perigosas" (CHEVALIER, 1978) cuja presença nas ruas não seria atestada, em ocasiões posteriores e em distintos contextos, apenas pelo  incômodo olhar.

Sem levar adiante uma necessária e mais completa análise do fenômeno, cabe sinalizar, nos limites deste texto,  que as conseqüências das contradições vislumbradas pelos protagonistas daquela cena primordial chegaram a tal ponto que  décadas mais tarde, frente à inadequação do desenho urbano diante das formidáveis transformações induzidas pelo desenvolvimento capitalista - rapidez dos deslocamentos de veículos, volume de tráfego, heterogeneidade funcional, novas tecnologias e necessidades, aumento da população e outros  fatores mais - posiciona-se outro movimento de reforma, a do urbanismo racionalista.

Seu mais ilustre representante, Le Corbusier, afirmou: "Precisamos matar a rua"!  A proposta é conhecida: contra a confusão, a mistura e a falta de racionalidade seria preciso  garantir  espaços  cuidadosamente separados para  morar, circular, divertir-se, trabalhar -  as necessidades básicas que a cidade da "Carta de Atenas" deveria  satisfazer.(LE CORBUSIER, 1989)
 
 
 

A rua que interessa
 
 

Pois justamente essa rua que se quis matar é que desperta o interesse do olhar antropológico: ela é "boa para pensar" (LEVI-STRAUSS, 1975). É a rua que resgata a  experiência da diversidade, possibilitando a presença do forasteiro, o encontro entre desconhecidos, a troca entre diferentes, o reconhecimento dos semelhantes, a multiplicidade de usos e olhares - tudo num espaço público, e regulado por normas também públicas. Este é o espaço que se opõe, em termos de estrutura, àquele outro, o do domínio privado, da casa, das relações consangüíneas. (DA MATTA, 1985) Mas - é lícito perguntar -  existe, ainda, uma rua desse tipo? Como encontrá-la, por exemplo, no contexto de uma metrópole como São Paulo - cuja escala já nada  tem a ver  com a  cidade  de Baudelaire  e seus dândis, flâneurs, boêmios, poetas  e nem mesmo  com a daquela idealizada por Le Corbusier?

Com efeito,  o dado da experiência cotidiana  mostra um quadro de contrastes exacerbado pela heterogeneidade e desigualdade social e cultural, pela fragmentação e compartimentação de espaços de moradia e vivência, pela violência, pela degradação e perversa distribuição dos equipamentos coletivos. Centro e periferia, favelas e condomínios fechados, mercado de ambulantes e shopping-centers, cortiços e mansões, o carro individualizado e transporte público deficiente, o desperdício e a miséria... a lista de contrastes parece não ter fim. Sabe a romantismo anacrônico pensar em "rua, suporte de sociabilidade", nesse contexto. No entanto, tudo  depende  de que rua se está falando.  Certamente não é a rua unívoca, definida  a partir do  eixo classificatório unidimensional (vias expressas, coletoras, locais, binárias, etc.), dado pela  função de circular. A  rua que interessa e é identificada pelo olhar antropológico é recortada desde outros e variados pontos de vista, oferecidos pela multiplicidade de seus usuários, suas tarefas, suas referências culturais, seus horários de uso e formas de ocupação. A rua, rígida na função tradicional e dominante - espaço destinado ao fluxo - às vezes se transforma e vira outras coisas:  vira casa (SANTOS e VOGEL, 1985), vira trajeto devoto em dia de procissão, local de protesto em dia de passeata, de fruição em dia de festa, etc. Ás vezes é vitrine, outras é palco,  outras ainda lugar de trabalho ou ponto de encontro.

Uma classificação com base em múltiplos eixos não produz tipologias rígidas porque não opera com espaços ou significados unívocos e sim com sistemas de relações:  a prática social dos atores,  que opera esses sistemas de classificação abrindo-os ou  fechando-os  é o que mantém e enriquece a diversidade da dinâmica urbana, a qual, "além de ser uma propriedade das cidades, deve ser reconhecida como o princípio que as torna cidades" (SANTOS e VOGEL, op. cit., pg. 78).

Se esta é a rua que  interessa - sem esquecer a dura realidade da vida cotidiana nos grandes centros urbanos, já apontada,  então fica claro que se está falando não da rua em sua materialidade, mas em experiência da rua. Aí então é possível recuperar a novidade introduzida pelos bulevares de Paris e criticar a ausência de esquinas em Brasília; contrapor as regras do  condomínio fechado e fortificado às relações  no âmbito de uma vila que subsistiu em meio à verticalização; lamentar a falta de segurança que impede as pessoas de usufruir do centro da cidade e protestar contra a abertura de vias que destroem praças, largos, cantos e becos.

E porque  está-se falando não da rua em si,  mas de experiência da rua, então é possível também descobrir onde, em meio ao caos urbano, ela se refugiou - não como espaço de circulação, mas enquanto lugar e suporte de sociabilidade. Talvez se descubra, por exemplo, que para determinados grupos e faixas etárias e em determinados horários seja o espaço do shopping-center  que ofereça a experiência da rua; para outros, recantos do centro como galerias e imediações de certas lojas é que constituem o local de encontro, troca  e reconhecimento; na periferia, um salão de baile nos fins de semana, ou a padaria no final do dia são os pontos de aglutinação; às vezes, um espaço é hostil ou indiferente durante o dia, mas acolhedor à noite. E assim por diante.

Esta é a riqueza que caracteriza a experiência urbana e que a rua, em sua relação metonímica com a cidade, evidencia. Não se pode ler a cidade a partir de um eixo classificatório único: é preciso variar os ângulos de forma a captar os diferentes   padrões culturais que estão na base de formas de sociabilidade que existem, coexistem, contrapõem-se ou entram em confronto no espaço da cidade.

Só que para puxar o fio dessa rede é preciso treinar o olhar, senão,  apenas como usuário, está-se sujeito aos múltiplos e incessantes estímulos  da metrópole, responsáveis pela sensação descrita  por Simmel como blasé  (SIMMEL, 1987). Por detrás da aparente desordem e do caos urbano existem regularidades - no espaço, nos comportamentos, nos estilos de vida -  que uma leitura  antropológica pode  revelar.
 
 
 

 A especificidade do olhar antropológico.
 

Inicialmente vale lembrar que a antropologia clássica desenvolveu seus métodos de trabalho e construiu seus  arcabouços conceituais com base principalmente na observação e análise dos então denominados povos "primitivos" -  sociedades de pequena escala, numa  terminologia mais atual. Apesar de não mais se aceitar - com razão -  a oposição entre "sociedades simples" versus "sociedades complexas" para estabelecer o ponto de corte entre aqueles grupos tradicionalmente estudados pelos antropólogos e as sociedades urbano-industriais, não se pode negar que o modo de operar da antropologia, seja qual for o contexto de seu estudo, carrega inevitavelmente as marcas das primeiras incursões a campo. Que não deixam de ser particularmente sentidas - seja como vantagem ou dificuldade - quando o que se tem pela frente são questões, objetos e temas próprios das sociedades contemporâneas, na sua escala e complexidade características. Mas como, afinal,  opera a antropologia?

A prática da etnografia, que caracteriza o métier do antropólogo, supõe  a delimitação de contextos empíricos onde seja possível trabalhar com determinados  instrumentos tais como a observação direta de comportamentos, a observação participante (quando há um maior envolvimento no cotidiano), coleta de depoimentos, de histórias de vida, narrativas orais, termos de parentesco e termos técnicos, descrição de rituais, etc.

Cabe observar, contudo, que etnografia não é uma mera descrição,  coleta de dados brutos a serem posteriormente trabalhados: o que se observa, e a forma como se ordenam as primeiras observações constituem parte integrante do processo de interpretação.

Esta forma de operar, portanto,  não exclui - ao  contrário, supõe - a utilização  de quadros teóricos mais amplos, o conhecimento de variáveis mais abrangentes, a inserção em processos históricos pertinentes. A alternância entre ambos níveis de trabalho - o trabalho com os significados em nível local e sua colocação em quadros mais gerais -, descrita por Geertz através dos termos "experience-near" e "experience-distant", (GEERTZ, 1983)  caracteriza a dinâmica do trabalho do antropólogo, dentro de uma perspectiva interpretativa.

Existem algumas precauções que o  antropólogo urbano procura tomar e uma delas diz respeito à forma como encara seu objeto de estudo. Se diante de uma cultura radicalmente diferente da sua  a atitude  é no sentido de procurar transformar o "exótico", ou melhor, o que lhe aparece inicialmente como estranho, sem sentido - porque ainda não conhecido -  em familiar, o caminho do daquele que enfrenta sua própria sociedade é inverso: trata-se, aqui, de transformar o familiar, o que já é (aparentemente) conhecido   em estranho, de forma a escapar à armadilha do senso comum. (DA MATTA, 1974; VELHO e VIVEIROS, 1978).

O segundo cuidado  é resistir à tentação de encarar o objeto de pesquisa escolhido - este ou aquele bairro, tal ou qual seita religiosa, instituição social, prática cultural ou movimento popular - como se constituíssem uma "aldeia", nos moldes de algumas das sociedades tradicionalmente estudadas pelos antropólogos. Seja qual for o recorte escolhido, é preciso levar em consideração a malha de relações que mantém com a sociedade envolvente: a dinâmica de um espaço  não se esgota no seu perímetro, assim como o significado mais amplo de uma comunidade religiosa afro-brasileira vai além dos limites do terreiro.

O desafio é manter as características da pesquisa etnográfica - a tradição da descrição e análise minuciosas, do contato prolongado, da busca de relação  direta com os informantes - sem perder de vista o quadro mais amplo no qual os fenômenos culturais se desenvolvem, nas sociedades modernas.

Tendo apresentado, de forma resumida, algumas das especificidades do olhar e do modo de operar da antropologia, trata-se agora de mostrar  resultados mais concretos a respeito do tema proposto. As observações que seguem - em torno  das categorias manchas, pedaços, trajetos, pórticos - são o produto de  pesquisas que venho realizando sobre práticas de lazer, locais de encontro e formas de sociabilidade no contexto da cidade de São Paulo.

Tais categorias constituem uma tentativa de  identificar espaços, personagens e  comportamentos tendo em vista a inevitável e característica diversidade das práticas urbanas. Seu propósito é perceber regularidades,  padrões e significados lá onde muitas vezes o senso comum não vê senão o resultado de escolhas feitas de forma individual e aleatória.

Para apreciar diferentes tipos de experiências da rua, conforme a denominação dada neste texto, às vivências  de sociabilidade em determinados espaços da cidade, foram escolhidos, dois contextos, o do bairro e o centro.
 
 
 

Sociabilidade no bairro

O primeiro contexto onde se pode perceber a relação entre uma forma de sociabilidade  e determinada delimitação do espaço urbano é o bairro, e bairro popular, de periferia. Justamente para descrever e explicar um tipo particular de relações entre ambos os níveis é que foi elaborada a categoria pedaço, no decorrer de uma pesquisa sobre formas de cultura popular e modalidades de lazer  que ocupam o tempo livre dos trabalhadores, nos bairros da periferia da cidade de São Paulo. ( ) Ao invés de pensá-las simplesmente como um  mecanismo de reprodução da força de trabalho, o que se pretendia era, através da abordagem antropológica,  detectar seu significado a partir do discurso e da prática concreta dos personagens diretamente envolvidos nessa rede de lazer.

Inicialmente tratava-se de demonstrar que, ao contrário de uma afirmação bastante em voga, os fins de semana dos trabalhadores não eram utilizados apenas para complementar, através de "bicos", os magros  orçamentos domésticos,  nem eram gastos diante dos intermináveis e "alienantes" programas populares na TV. Um contato mais estreito com os moradores de determinado bairro começou a revelar a existência de múltiplas formas de diversão, entretenimento e encontro através das quais se desfrutava  o tempo livre: festas de casamento, almoços de batizado, comemorações de aniversários, bailes, torneios e festivais de futebol de várzea,  festas de candomblé e umbanda, quermesses, circos, excursões, etc.

Por outro lado,  essas modalidades de lazer tampouco constituíam um todo indiferenciado, disponível e desfrutável por todos, de forma aleatória: havia uma ordem. Era possível distinguir, por exemplo, formas de entretenimento características de homens, por oposição às de mulheres;  de crianças versus  de adultos; de rapazes e moças, e assim por diante. Outra classificação ordenava as formas de lazer segundo o local  do desfrute, através dos eixos "em casa" e "fora de casa". "Fora de casa", por sua vez, subdividia-se em "no pedaço" e "fora do pedaço".

Este último, pedaço, aparecia em outras situações, denotando lealdades, códigos compartilhados,  pertencimentos; a recorrência de seu uso apontava para uma riqueza de significados que valia a pena investigar. Era, sem dúvida, uma "categoria nativa" que não podia deixar de ser incorporada, após, evidentemente, algum trabalho dedicado a determinar seu campo de aplicação e remontá-la, em outro nível.

E assim ocorreu. Uma primeira análise mostrou que a categoria pedaço era formada por dois elementos básicos: um de ordem espacial, físico, sobre o qual se estendia uma determinada rede de relações. O primeiro configurava um território claramente demarcado: o telefone público, a padaria, este ou aquele bar, o terminal da linha de ônibus, talvez um templo ou terreiro e outros pontos  mais delineavam seu entorno.

As características desses equipamentos definidores de fronteiras mostravam que o território assim delimitado constituía um lugar de passagem e encontro. Entretanto, não bastava passar por esse lugar ou mesmo freqüenta-lo com alguma regularidade para "ser do pedaço"; era preciso estar situado numa peculiar rede de relações que combina laços de parentesco,  vizinhança, procedência, vínculos definidos por participação em atividades comunitárias e desportivas, etc. Assim, era o segundo elemento - a rede de relações - que instaurava um código capaz de separar, ordenar, classificar: era, em última análise,  por referência a esse código que se podia dizer quem era e quem não era "do pedaço", e  em que grau - "colega", "chegado", "xará", etc.

"O termo na realidade designa aquele espaço intermediário entre o privado (a casa) e o público, onde se desenvolve uma sociabilidade básica, mais ampla que a fundada nos laços familiares, porém mais densa, significativa e estável que  as relações formais e individualizadas  impostas pela sociedade." (MAGNANI, 1984, p. 138).
 

É aí que se tece a trama do cotidiano : a vida do dia-a-dia, a prática da devoção, o desfrute do lazer, a troca de informações e pequenos serviços, os inevitáveis conflitos, a participação em atividades vicinais. Para uma população sujeita às oscilações do mercado de trabalho, à precariedade dos equipamentos urbanos e a um cotidiano que não se caracteriza,  precisamente, pela vigência dos direitos de cidadania, pertencer a um pedaço significa dispor de uma referência concreta, visível e estável - daí a importância do caráter territorial na definição da categoria. Pertencer ao pedaço significa também poder ser reconhecido em qualquer circunstância, o que implica o cumprimento de determinadas regras de lealdade que até mesmo os "bandidos" da vila, de alguma forma, acatam.
 
 

"Pessoas de pedaços diferentes, ou alguém em trânsito por um pedaço que não o seu, são muito cautelosas: o conflito, a hostilidade estão sempre latentes, pois todo lugar fora do pedaço é aquela parte desconhecida do mapa e, portanto, do perigo" (idem, ibidem, p. 139)
 

Resumindo, nem a universalidade abstrata do mundo legal, nem o particularismo das obrigações e deveres ditados por laços de parentesco:

"Para além da soleira da casa, portanto,  não surge repentinamente o resto do mundo. Entre uma e outro situa-se um espaço de mediação cujos símbolos, normas e vivências permitem reconhecer as pessoas diferenciando-as, o que termina por atribuir-lhes uma identidade que pouco tem a ver com a produzida pela interpelação da sociedade mais ampla e suas instituições" (idem, ibidem, p. 140)
 

Até aqui, o contexto do bairro e da pesquisa sobre formas de cultura popular e modalidades de lazer na periferia de São Paulo. A pergunta que se seguia era: e o que acontece em outros pontos do território urbano? Pedaço  serviria para designar outros estilos de apropriação do espaço e sociabilidade em regiões centrais da cidade? Em outros termos: existem pedaços no centro?
 
 
 

Sociabilidade no centro
 

Se o uso da categoria pedaço no contexto do bairro  tinha como referência a moradia e vizinhança,  na pesquisa que se seguiu ( )  tal conotação desaparece:  as  unidades de análise eram, agora,  definidas em função exclusivamente  de práticas de lazer e encontro. O que se queria saber é se por ocasião dessas práticas, num território heterogêneo e acessível a todos como é o centro da cidade, estabelecem-se vínculos, sinais de reconhecimento e delimitação de espaço  - de forma que aí também seja possível definir quem é e quem não é "do pedaço". ( )

Neste novo contexto foi possível distinguir duas formas de relação entre os  componentes básicos da categoria - o  simbólico e o espacial - com sensíveis diferenças nos estilos de apropriação e uso do espaço em uma e outra.

Num primeiro caso, o componente determinante que dá o tom é o simbólico. Os códigos são de tal maneira explicitados que não há lugar para dúvidas: é o que acontece em determinados espaços gay - bares e locais de encontro, espetáculos e dança de "entendidos" e "entendidas"; bares, lojas de discos e cabeleireiros black; salões de dança de clubbers; pontos de encontro e zoada de punks, góticos, funções, carecas; bares happy-hour de yuppies; o café dos artistas nas imediações do Ponto Chic no Largo do Paissandu, ponto de encontro de artistas circenses às segundas-feiras e assim por diante. Como exemplo de identificação de pedaço, um trecho do relatório da pesquisa:
 

"(...) a caminhada mesmo começa na rua 24 de Maio. Chama a atenção a calma reinante nessa rua, em contraste com a costumeira agitação de um dia útil; é até possível perceber um grupo de punks  e mais adiante outro, de funções, estes últimos  possivelmente dirigindo-se à loja Piter, bem a seu gosto, com grifes acessíveis ao orçamento de office-boys. Nessa rua, porém, destaca-se uma das tantas galerias da região: Centro Comercial Presidente, ocupada por lojas de discos funk, disco e outros ritmos dançantes (Disco Mania Blacks, Truck's Discos) além de outros serviços como cabeleireiros black (Gê Curl Wave, Almir Black Power, Gueto Black Power) que reforçam a particular "gramática"  de  sua  ocupação característica: é um pedaço negro  que aglutina rapazes e moças em torno de algumas marcas de negritude - determinada estética,  música, ritmo, freqüência a shows e danceterias (Chic Show. Zimbabwe, Skina Club, etc.)" ("Os Pedaços da Cidade",  p. 52)
 

Quando jovens negros saem de suas casas e dirigem-se  a este  seu pedaço, no centro da cidade, não o fazem, necessariamente, para dar um trato no visual ou comprar discos: vão até lá para encontrar seus iguais, exercitar-se no uso dos códigos comuns, apreciar os símbolos escolhidos para marcar as diferenças. É bom estar lá, rola um papo legal, fica-se sabendo das coisas... e é assim que a rede da sociabilidade vai sendo tecida.

A diferença, pois, com a idéia do pedaço tradicional é que aqui os freqüentadores não necessariamente se conhecem - ao menos não por intermédio de vínculos construídos no dia-a-dia do bairro - mas sim se reconhecem enquanto portadores dos mesmos símbolos  que remetem a gostos, orientações, valores, hábitos de consumo,  modos de vida semelhantes.

Está-se entre iguais, nesses lugares: o território é claramente delimitado por marcas exclusivas. O componente espacial do pedaço, ainda que inserido num equipamento de amplo acesso, (no caso, uma galeria) não comporta ambigüidades porque está impregnado pelo aspecto simbólico que lhe empresta a forma de apropriação  característica.

O segundo caso é quando o fator determinante da apropriação é exercido pelo componente espacial: trata-se de lugares  que funcionam como ponto de referência para um número mais  diversificado de freqüentadores. Sua base é mais ampla, permitindo a circulação de gente oriunda de várias procedências. Estamos agora falando de manchas - neste caso, de lazer -  como  a do Bexiga, as da rua Augusta, a da região do Bar Avenida em Pinheiros, a dos Jardins, entre tantas outras.

Emprego o termo mancha  para designar uma área contígua do espaço urbano dotada de equipamentos que marcam seus limites e viabilizam - cada qual com sua especificidade, competindo ou complementando - uma atividade ou prática predominante. Um trecho descrevendo a caminhada pelo Bexiga pode dar uma idéia:

(...)"E já que o objeto de observação é basicamente o cenário, começa a delinear-se uma  ligação poderosa entre o Bexiga do lazer em toda sua variedade e o Bexiga-bairro: é este que fornece ao primeiro o espaço físico - o traçado das ruas, a contigüidade dos estabelecimentos, a escala das edificações, as próprias edificações -  transformadas em casas noturnas. É esse particular desenho e arranjo que explicam  o reforço, mais que a competição,  entre as casas, por obra do efeito  espelhamento: os estabelecimentos dialogam, conversam, opõem-se, complementam-se - uns ao lado dos outros e frente a frente. Existe um estímulo para passar de lá para cá, subir e descer, parar e espiar - antes de decidir-se por este ou aquele bar, boteco ou casa de show.

 tradição italiana garante o apelo para a gastronomia característica da cantina, enquanto a presença negra é associada à MPB; não se pode esquecer que  dos cortiços da região saem pizzaiolos, chapeiros, garçons, porteiros, ajudantes, seguranças - o sotaque é do Nordeste. Os botecos dão apoio (o sanduíche e a bebida mais em conta, o cigarro) antes ou depois do programa principal, assim como uma passadinha na livraria cai bem, sem dúvida.

Vai se configurando uma espécie de núcleo, um espaço que se pode percorrer a pé, em vários sentidos, e não apenas para se chegar a este ou aquele ponto. Passeia-se, mesmo quando se está dirigindo a um lugar em especial; não custa dar uma olhadinha pelas muitas  janelas ou portas, para sentir o movimento." ("Os Pedaços da Cidade", op. cit., p. 58-59)
 

Assim, numa mancha caracterizada pelo lazer como a do Bexiga, descrita mais acima, os equipamentos podem ser bares, restaurantes, cinemas, teatros, etc. que se complementam ou competem entre si, mas que no conjunto concorrem para o mesmo efeito.

O termo também se aplica a espaços marcados e procurados por outras atividades:

Faculdades /livrarias /bibliotecas /papelarias /xerox /cafés são, entre outros, equipamentos que delimitam uma área na cidade marcada pela atividade de ensino; Hospitais /consultórios particulares /centros de fisioterapia  /farmácias /raio X /lojas de material cirúrgico, etc. constituem uma mancha ligada à saúde. As lojas de tecidos e malhas, assim como as de aviamentos e produtos de couro no Brás - procuradas por atacadistas e varejistas, sustentam uma intrincada rede de sociabilidade que vai além da mera compra de produtos( ). E assim por diante.  Como se verá, uma mancha é recortada por trajetos e pode também abrigar  vários pedaços.

As marcas dessas duas formas de apropriação e uso do espaço - pedaço e mancha - na paisagem mais ampla da cidade, são diferentes. No primeiro caso, onde o determinante é o componente simbólico, o espaço enquanto ponto de referência é restrito, interessando mais a seus habituês. Com facilidade muda-se de ponto, quando então "leva-se junto o pedaço".

A mancha, ao contrário - sempre aglutinada em torno de um ou mais estabelecimentos - apresenta uma implantação mais estável, tanto na paisagem como no imaginário.  As atividades que oferece e as práticas que propicia são o  resultado de uma multiplicidade de relações entre seus equipamentos, edificações e vias de acesso - o que garante uma maior continuidade, transformando-a, assim, em ponto de referência físico, visível e público para um número mais amplo de usuários. ( )

A cidade, contudo, não é um aglomerado de pontos, pedaços ou  manchas excludentes: as pessoas circulam entre eles, fazem suas escolhas entre as várias alternativas - este ou aquele, este e aquele e depois aquele outro - de acordo  com determinada lógica;  mesmo  quando se dirigem a seu  pedaço favorito, no interior de determinada mancha seguem caminhos que não são aleatórios. Estamos falando de trajetos.

O termo trajeto  surgiu da necessidade de categorizar uma forma de uso do espaço que se diferencia, em primeiro lugar, daquele descrito  pela categoria pedaço. Enquanto esta última, como foi visto, remete a um território que funciona como ponto de referência - e, no caso da vida no bairro, evoca a permanência de laços de família, de vizinhança, origem  e outros - trajeto aplica-se a fluxos no espaço mais abrangente da cidade e no interior das manchas urbanas.

Não que não se possa reconhecer sua ocorrência no bairro, mas é justamente para pensar a abertura do particularismo do pedaço  que essa categoria foi elaborada.  É a  extensão e principalmente a diversidade do espaço urbano para além do bairro que colocam a necessidade de deslocamentos por regiões distantes e não contíguas: esta é uma primeira aplicação da categoria. Na paisagem mais ampla e diversificada da cidade, trajetos  ligam pontos  e manchas, complementares ou alternativos: casa /trabalho /casa; casa /cinema /restaurante /bar; casa /posto de saúde /hospital /curandeiro - eis alguns exemplos, dos mais corriqueiros, de trajetos possíveis.

Outra aplicação é no interior das manchas. Tendo em vista que a mancha supõe uma presença mais concentrada de equipamentos, cada qual concorrendo, à sua maneira, para a atividade que lhe dá a marca característica, os trajetos, nelas, são de curta extensão, na escala do andar: representam escolhas ou recortes no interior  daquela mancha, entendida como uma área contígua.

Sanduicheria Baguette /Cineclube /Café do Bexiga /Livraria Arte Pau Brasil, nessa ordem; ou: Livraria Belas Artes /Cine Belas Artes /Bar e Restaurante Riviera - são  exemplos de trajetos já "clássicos", um no interior da mancha do Bexiga, e outro na mancha da esquina da  Consolação com  Paulista, como resultado de escolhas concretas frente a alternativas oferecidas pelas respectivas manchas.

A construção dos trajetos não é aleatória nem ilimitada em suas possibilidades de combinação. Estamos diante de uma lógica ditada por sistemas de compatibilidades. No exemplo:  Livraria Belas Artes /Cine Belas Artes /Bar e Restaurante Riviera - que mostra uma combinação não apenas possível, mas bastante freqüente, não entra na seqüência (nem como alternativa), o bar Metrópolis, apesar de estar situado na mesma mancha. Outra é a gramática que permite compreender o significado desse bar e do trajeto em que se inscreve: com características de bar "yuppie", apresenta  um tipo de paquera com abordagens explícitas que o distancia do bar Riviera, por exemplo.   E no caso daquele outro trajeto, recortado no Bexiga, não entra, por certo, o teatro de sexo explícito Márcia Ferro, logo ali e ao mesmo tempo tão distante,  ao menos do ponto de vista de determinado padrão de lazer.

Assim, a idéia de trajeto  permite  pensar  tanto uma possibilidade de escolhas no interior das manchas como a  abertura dessas manchas e pedaços em direção a outros pontos de espaço urbano e, por conseqüência, a outras lógicas. Sem essa abertura corre-se o risco de cair numa perspectiva reificadora, restrita  e demasiadamente "comunitária" da idéia de pedaço - com seus códigos de reconhecimento, laços de reciprocidade, relações face a face.

Foi afirmado que o pedaço é aquele espaço intermediário entre a casa (o privado) e o público ou, para utilizar um sistema de oposições já consagrado,  entre casa e rua. (DA MATTA, 1985). Não é, contudo, um espaço fechado e impermeável a uma e outra; ao contrário. É a noção de trajeto que abre o pedaço para fora, para o espaço e âmbito do público.

Finalmente, os trajetos levam de um ponto a outro através dos pórticos. Trata-se de espaços, marcos e vazios na paisagem urbana que configuram passagens. Lugares que já não pertencem ao pedaço ou mancha de lá, mas ainda não se situam nos de cá; escapam aos sistemas de classificação de um e outra e como tal apresentam a "maldição dos vazios fronteiriços"( ).

"Um dos pórticos para o Bexiga é constituído pelas duas quadras da  rua Martinho Prado, que passa por cima da avenida Nove de Julho: de um lado, uma sinagoga, de outro, o conhecido bar e restaurante "Ferros'Bar", ponto de encontro e freqüência de homossexuais femininas, as "entendidas". E mais nada; passa-se por aí rapidamente, seja em direção à rua Augusta ou ao Bexiga". ("Os Pedaços da Cidade", op. cit., p. 55)
 

Terra de ninguém, lugar do perigo, preferido por figuras liminares e para a realização de rituais mágicos - muitas vezes lugares sombrios que é preciso cruzar rapidamente, sem olhar para os lados...
 
 
 
 
 

Conclusão
 

Não se deve perder de vista o fato de as observações precedentes terem sido tiradas  de duas pesquisas que, apesar de  encadeadas por temática, orientação e metodologia, foram realizadas em contextos diferentes: as limitações de espaço não permitiram explicitar devidamente todas as pressuposições, passagens e mediações.

De qualquer maneira, o que se pretendia era mostrar que a metrópole - no caso, São Paulo - apesar de sua escala, diversidade e problemas comporta inúmeras e até mesmo surpreendentes formas através quais seus habitantes estabelecem vínculos entre si e com a cidade.  Algumas dessas formas podem ser apreciadas em sua relação com o próprio espaço no qual ocorrem: são as experiências da rua, para recuperar um termo usado no texto.

Ademais, e contrariamente ao que pensa o senso comum, a cidade não se impõe de forma homogênea e absoluta  sobre seus moradores. Há que se entender: não se trata de passar por alto ou minimizar  as profundas  contradições e perversidades  do  desenvolvimento urbano da metrópole paulistana. O que se propõe é apenas variar o ângulo, olhar desde outro lugar, apreciar a cidade do ponto de vista daqueles que, exatamente por causa da diversidade de seu modo de vida, se apropriam dela de forma também diferenciada.

Estas formas de apropriação não são o resultado de escolhas individuais, nem são aleatórias: são resultado de rotinas cotidianas - ditadas por injunções coletivas que regulam o trabalho, a devoção, a diversão, a convivência  e que deixam suas marcas no mapa da cidade. O resultado é um desenho bastante particular e que se sobrepõe ao desenho oficial da cidade: às vezes rompe com ele, outras vezes o segue, outras ainda não tem alternativa senão adequar-se.

Pode-se afirmar que, entre os dois padrões paradigmáticos de apropriação do espaço  - o privado e o público - existe uma gradação onde é possível distinguir inúmeros arranjos intermediários, escolhas reveladoras da dinâmica urbana: ora é o pedaço com sua lógica particularizante que agrupa os semelhantes e distingue  claramente os "de fora"; ora é a mancha - mais ampla, com base não tanto nos signos diferenciadores  mas na lógica  territorial e que permite, por isso mesmo,  encontros imprevistos mas desejáveis, propiciando toda espécie de trocas. Estabelecendo ligações entre uns e outras estão os trajetos que, através dos pórticos, também abrem  passagens por espaços ainda não  conquistados.

Como se pôde ver, de uma forma ou outra a rua e sua experiência estão vivas, assim como viva permanece, ao menos como ponto de referência, a "velha rua moderna", segundo a expressão usada por Berman para referir-se ao cenário da cena primordial.
 



Bibliografia
 

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Berman, M. - Tudo que é sólido desmancha no ar. São Paulo,    Companhia das Letras, 1986

Chevalier, L. - Classes laborieuses et classes dangereuses. Paris, Pluriel, 1987

Da Matta, R. -  A casa e a rua. São Paulo, Brasiliense, 1985

Da Matta, R. - O Ofício de Etnólogo ou Como ter Anthropological Blues, in Cadernos do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social. Rio, 1974

Geertz, C. - Local Knowledge. Basic Books, New York, 1983

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Velho, G. e Viveiros de Castro, E.B. - O Conceito de Cultura nas Sociedades Complexas: uma perspectiva antropológica, in Artefato, Conselho Estadual de Cultura, Ano I, n.1, Rio de Janeiro, janeiro de 1978
 
 

São Paulo, Setembro de 1993

José Guilherme Cantor Magnani


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