"Na religião,
então, mal se passa do Credo logo vem o enjôo,
se a didática do
catecismo passa das perguntas e das respostas mais singelas."
(José Ferreira Carrato.
Igreja, Iluminismo e Escolas Mineiras Coloniais, 1968).
INTRODUÇÃO
Para que se possa compreender
com mais facilidade a carga emocional contida nas promessas, festas religiosas,
romarias e procissões, dentre outras manifestações
que materializam a fé, faz-se mister um estudo pormenorizado da
religiosidade popular.
O presente trabalho, entretanto,
não busca estabelecer classificações distintivas entre
o catolicismo popular e a religiosidade popular. Grandes mestres como Riolando
Azzi, José Comblin e Francisco Cartaxo Rolim, dentre outros, dividem-se
a respeito ou, mesmo, desconsideram possíveis distinções.
Oscar
Beozzo, por exemplo, defende a substituição da expressão
"religiosidade popular" por "práticas religiosas das classes populares",
do qual, salvo melhor juízo, julgamos lícito discordar, pois
o autor insiste em tê-la como exclusivo "patrimônio de classes
sociais exploradas e oprimidas" (BEOZZO, 1982:745),
desconsiderando que as manifestações de religiosidade popular
independem de classe social. Dependem talvez do grau de relação
de "ortodoxia" que o devoto mantém com -no caso em tela- o catolicismo
oficial.
Günter Paulo Süss,
no entanto, é muito pertinente ao defender que o catolicismo popular
estabelece um limite com a religiosidade popular global, tendo em vista
que esta "abrange todos os costumes e vivências religiosas do povo,
sejam eles de origem africana, indiana, protestante, católica, espírita
ou pagã." (SÜSS, 1979: 28)
Assim, seja acolhida de bom
grado a observação do autor supra, pois não obstante
se trabalhar com a Igreja católica como sistema de referência,
já que "falar de religião popular é sempre contrapô-la
a outra coisa, a uma outra forma de religião" (ISAMBERT,
1992:13), opta-se pela terminologia "religiosidade popular", por entender-se
que a mesma se presta melhor ao caráter tributário de todas
as formas sincréticas, possibilitando com isso um maior conforto
e amplitude de análise.
Sejam as práticas
do catolicismo oficial, sejam as manifestações de religiosidade
popular, ambas se sustentam em alicerce comum: a noção do
sagrado. A clivagem do "sagrado", no entanto, é o "nó górdio"
não só dos que elaboram as doutrinas que nortearão
qualquer ortodoxia religiosa, mas também do historiador das religiões.
Mircea Eliade, com propriedade,
já lançara tal ensinamento ao afirmar que "é quando
se trata de delimitar a esfera da noção de 'sagrado' que
as dificuldades começam". (ELIADE, 1993:07).
Efetuar esse processo de clivagem é sem dúvida difícil.
Até meados do século XIX caracterizava-se a noção
de "popular" como "a de tudo que representasse o supersticioso, o grosseiro,
curioso, vulgar", (CESAR, 1976:07) ou seja,
estava adjunto ao termo um caráter de certa forma pejorativo.
De qualquer forma, a designação
de "popular" é normalmente empregada em relação às
classes sociais subalternas, ou aos indivíduos que ocupam uma posição
periférica na organização espacial de uma dada sociedade.
Refere-se, dessa forma, às manifestações de memória
coletiva, aí incluídas a linguagem e a religiosidade.
PARA UMA DEFINIÇÃO
DE RELIGIOSIDADE POPULAR
Se a definição
de "popular" já é por demais polêmica, outra grande
dificuldade é definir religiosidade popular de uma forma tal que
se obtenha unanimidade. François André Isambert afirma que
"a própria noção de religião popular foi objeto
de inúmeras tentativas de definição e de contestações
freqüentemente renovadas, chegando até a dar a impressão
de um recomeço indefinido dos mesmos equívocos. Porém,
ao nos aprofundarmos, encontramos outras noções, designando
os grandes componentes da noção-mãe: preces, devoções,
peregrinações..." (ISAMBERT, 1992:13).
Neste caso, torna-se menos
dificultoso um delineamento do termo religiosidade popular, não
pelo que ele representa, mas, ao contrário, pelo que não
representa: a religiosidade popular, portanto, não é corpo
eclesial nem corpo doutrinário, configurando-se em uma
religiosidade dotada de razoável independência da hierarquia
eclesiástica -incluindo-se aí toda a documentação
oficial da Igreja e todos os teólogos elaboradores da doutrina-,
independência essa do caráter sistemático do catolicismo
oficial, materializada em uma explosão quase íntima do "sagrado",
humanizando-o, sentindo-o próximo, testando-o e sentindo sua força
por métodos criados, não pelo clero, mas pelos próprios
devotos, métodos esses que são transmitidos, em sua grande
totalidade, oralmente. Em suma, o vivido em oposição
ao doutrinal.
RELIGIOSIDADE POPULAR:
ORIGENS, CONSEQÜÊNCIAS E REPERCUSSÕES
Que motivos levam o Brasil
a ser tributário da religiosidade popular desde o período
colonial? Por outras palavras, que fundamentos e razões levam o
Catolicismo oficial a conviver com as mais variadas formas de religiosidade
popular?
As causas são várias
e diversas, e têm como pano de fundo a implantação
da fé católica em Portugal e as condições de
seu domínio americano. Inúmeros grupos étnicos implantaram
no território português, aberto ao mar e vizinho à
África, um vasto caleidoscópio cultural, onde uma religiosidade
de caráter híbrido plasmou-se ao longo dos séculos,
tendo como principais vertentes o catolicismo, o islamismo e as práticas
fetichistas africanas, todas permeadas de rituais, feitiçarias e
superstições.
Somando-se a isto a predominância
do caráter rural, têm-se o quadro de uma religiosidade sui
generis, muito mais afeita ao misticismo e à continuidade das
crenças pagãs do que próxima a uma religiosidade consentânea
aos padrões desejados pela ortodoxia católica.
Instalado a partir do século
V na Galícia Espanhola e no noroeste do que seria o futuro Portugal,
o reino dos suevos aderiu ao catolicismo em meados do mesmo século,
tornando oficial sua nova crença em 556, com o rei Carriarico. Institucionalizou-se
na Galícia a mesma relação entre soberano e episcopado
estabelecida na Itália a partir de Constantino, que em 313 decidiu
dar liberdade de culto a todas as religiões.
Visando primordialmente ao
cristianismo, os membros do clero passaram a ter proteção
real e a gozar de vários benefícios, como, por exemplo, a
isenção do serviço militar e o privilégio de
foro. Deve-se a São Martinho de Dúmio, inicialmente monge
na Galícia, bispo de Dúmio em 556 e metropolita de
Braga em 570, a conversão dos suevos ao catolicismo. Com largo trânsito
entre as autoridades governamentais e eclesiásticas, São
Martinho fez de Carriarico um aliado aos seus objetivos, formalizando a
união entre Igreja e Estado. A questão, todavia, carrega
tríplice complexidade. A primeira é de cunho étnico-social.
A Igreja deparava-se com
uma região já invadida por celtas, romanos e bárbaros,
cada qual inserindo suas especificidades religiosas. A segunda diz respeito
à própria relação do Estado com a Igreja. O
posicionamento imperial em face da religião desaguou na eliminação
dos limites entre ambos, instaurando-se aí "um sistema político
eclético ou bifronte, diante de tão avassaladora impregnação
religiosa do secular, com ingerência de monta nos assuntos morais
e jurídicos e na formulação e controle das instituições."
(MONTENEGRO, 1972:13)
A terceira, de cunho religioso,
devia-se ao Priscilianismo, disseminado por todo o território
e adotado em mosteiros galicianos, mera continuação dos "cultos
pagãos", ou seja, "camponeses":
"Conquistando
massas sempre mais numerosas, e onde as mulheres exerciam um papel preponderante,
a síntese teológica de Prisciliano, reinterpretada nas camadas
populares, tinha reencontrado e feito renascer nas consciências uma
visão do mundo que fora a das populações autóctones:
veneração religiosa dos astros, importância social
dos prenúncios obtidos a partir de prodígios astronômicos
e de catástrofes atmosféricas e climatéricas".
(SANCHIS, 1979:247)
Foi contra esse panorama
religioso que São Martinho de Dúmio dirigiu o II Concílio
de Braga, em 584, cabendo-lhe fazer valer a hierarquia eclesiástica
e substituir as velhas crenças, em prol de uma unicidade
religiosa que resultasse na edificação da nacionalidade sueva.
Nestas circunstâncias, iniciou-se naquela região um esforço
da Igreja no sentido de implantar seu domínio sobre as populações
rurais. Ali acentuavam-se os traços mais fortes das crenças
primitivas. Por viverem nos campos -pagus- esses adeptos dos cultos voltados
à natureza, pagãos, foram considerados sem fé e religião,
tendo-lhes sido negada sua identidade cultural e religiosa, à semelhança
do mundo romano. Dessa maneira, "o 'outro' simbólico é simplesmente
apagado, rejeitado, nas trevas porque negativamente identificado a si próprio,
como um avesso maléfico; correlativamente, o 'outro' real, o grupo
social cujo comportamento embasava a sua existência, se encontra
negado na sua especificidade e sua diferença, para tornar-se, dentro
de uma síntese integrada e coerente, a 'porção maldita'
da sociedade". (SANCHIS, 1979:249)
A manutenção
e consolidação da fé romano-cristã entre os
suevos era um dos objetivos da Igreja, não faltando para isso manobras
de desmoralização das antigas tradições religiosas.
Considerando os afastados de seu aprisco como seguidores do demônio,
intenta a hierarquia eclesiástica estabelecer a hegemonia do catolicismo
por meio da imposição das celebrações e da
catequese. No entanto, "não conseguiu vencer em profundidade
a resistência dos antigos cultos. Estes continuaram a se manifestar,
de forma sincrética ou mesmo camuflada, através de formas
populares de fé católica, como as festas de santos e romarias".
(AZZI, 1987, p.79)
Esta célere expansão
do cristianismo não poderia trazer resultados em que se notasse
um aprofundamento das convicções em assuntos de fé
por parte do povo. Ao contrário, o caráter "epidérmico"
da difusão da ortodoxia religiosa permitia numerosas imbricações
de cultos e religiões primitivas ao catolicismo, formadoras da insolúvel
equação denominada religiosidade popular.
Transportadas para o ultramar,
essas deficiências estruturais da religião católica
tornam mais cômodo entender no Brasil a geração de
uma religiosidade popular brasileira, em muitos casos impregnada
de regionalismos, bem distante dos cânones
estabelecidos pelo Concílio de Trento (1545 -
1563). As heranças feudais tributárias à mentalidade
religiosa do Brasil não são poucas, tendo em vista que "o
português adere mais ao feudalismo que o espírito da burguesia,
sustando a larga diferenciação social e, portanto, a abertura
intelectual. Forçosamente, a religião em Portugal não
seria fator de ativismo cultural." (MONTENEGRO,
1972:18-19)
Dentre essas heranças,
segundo Luis Weckmann, temos como transplantes do mundo feudal a experiência
mística, a organização eclesiástica e diversos
aspectos da cultura popular, máxime os que mais nos interessam,
quais sejam, os religiosos. Observe-se, "en passant", sob essa ótica,
o que ocorre na Europa:
"Assim, nos fins
da Idade Média, pode-se notar uma concepção ultra-realista
da fé popular em tudo o que se relaciona com os santos. Tinham-se
estes se tornado tão reais e tão familiares na religião
corrente que se encontravam ligados aos mais superficiais impulsos religiosos.
Enquanto a profunda devoção se encontrava ainda centrada
em Cristo e sua mãe, uma multidão de crendices e fantasias
enxameava em volta dos santos. Tudo contribuía para os tornar
familiares e quase vivos. Vestiam-nos com trajos populares. Todos
os dias se encontravam os 'Senhores' S. Roque e S. Jaime nas pessoas vivas
dos peregrinos e de doentes." (HUIZINGA, 1996:174)
Do texto acima se pode
concluir a total disparidade entre o que se pode denominar de espírito
cristão e a simples manifestação de impulsos emocionais
traduzidos em manifestação religiosa. O contributo de João
Alfredo Montenegro é primoroso:
"O medievalismo
europeu se inclinará aos valores religiosos vazios de tensão
espiritual, numa época tipicamente de decadência, em que o
materialismo se ergue sobranceiro nas superstições e no ritualismo
mágico. E a um ponto tal que se torna impossível separar
o sagrado do profano. Tudo é elevado à categoria do religioso,
num movimento avassalador e afetado." (MONTENEGRO,
1972:07)
O Brasil, mesmo colonizado
na Idade Moderna, recebe como herança ibérica essa
forte comoção para o "místico desenfreado", e os aspectos
devocionais dão mais lugar à fantasia e aos arranjos
e conveniências do espírito do que ao cumprimento dos ditames
da ortodoxia:
"É talvez
difícil acreditar, embora seja um fato incontestável, que
um país como o Brasil, cujo nome é praticamente sinônimo
de modernidade, e cujos habitantes vêem quase que exclusivamente
o futuro, foi em seu começo uma verdadeira Terra de Santos e de
milagres. Realmente, as fontes primárias (e não unicamente
a hagiografia) registram o que a portugueses e índios contemporâneos
lhes pareceram aparições de santos, inclusive a Virgem Maria,
no contexto de uma intensa experiência mística que caracteriza
aqueles primeiros tempos [...] Santos protetores eram invocados (como o
seguem sendo) contra todos os tipos de enfermidades ou perigos, ou para
obter um remédio para muitos problemas pessoais, como o das donzelas
que procuravam marido." (WECKMANN, 1993:165)
Inúmeros são os
casos de aparições e imagens milagrosas no Brasil colonial.
Nossa Senhora revela-se em sonhos a Paraguassu para logo em seguida ser
achada na praia uma imagem da virgem, entronizada em uma capelinha que
daria origem à igreja de Nossa Senhora da Graça, em Salvador.
Escusado reportar-se ao caráter milagroso da imagem... Mas como
os sonhos podem ser tidos como devaneios, Nossa Senhora concedeu a graça
de aparecer em Ilhéus em 1559, por ocasião de um combate
entre portugueses e índios aimorés. Não bastando,
as crônicas ainda relatam que combatia montada em um cavalo, naturalmente
ao lado dos portugueses.
O
escalão celestial subordinado também se fez presente, ajudando
os lusitanos em seus embates pela dilatação da fé
católica, humanizando-se e participando vivamente dos interesses
terrenos dos fiéis. Sulcava destarte o caminho para a formação
da religiosidade popular brasileira. E assim, "São Cosme e São
Damião, por exemplo, santos patronos de Duarte Coelho em sua fundação
de Igarassú em 1534, foram vistos rezando, pairados no ar,
quando os portugueses guerreavam contra os índios
em feroz batalha." (WECKMANN, 1993:168)
Algumas vezes a intercessão
não se baseava somente em preces, mas em conselhos. Consta que Santo
Antônio de Pádua assessorou em sonhos o Padre Antônio
Vieira nas últimas etapas da expulsão dos holandeses do nordeste
brasileiro, e nosso grande orador sacro "no dia seguinte transmitia
aos comandantes portugueses os conselhos estratégicos do santo."
(WECKMANN, 1993:169)
Estas manifestações
de religiosidade popular acima demonstradas vão permear o imaginário
do povo brasileiro em suas relações com o sobrenatural, formando-se
em nosso país um catolicismo extra-oficial, de caráter pragmático,
popular e tributário de superstições tomadas à
outras religiões. A este opor-se-á o catolicismo romano,
clerical, tridentino, individual e sacramental.
Em outras palavras, o catolicismo
oficial, soteriológico e voltado para a salvação da
alma, fará frente a um "catolicismo de santos", em que a figura
de Cristo perde importância, a oração dá azo
às formulações mágicas e a resolução
dos problemas cotidianos tem primazia sobre a salvação da
alma. Os santos, cada um com sua "especialidade", serão os companheiros
de jornada nesta vida, auxiliando ou impedindo projetos e sendo por conseqüência
"recompensados" pelos fiéis com festas, romarias, pagamentos de
promessas e procissões, ou então "punidos", seja com blasfêmias,
seja com "castigos" impetrados nas imagens.
Claro exemplo dessa relação
de "intimidade, compadrio e desaforo" é o processo movido pelo Santo
Ofício a Pero do Campo Tourinho, donatário da capitania hereditária
de Porto Seguro. Homem esforçado e empreendedor, viu-se na contingência
de vender sua fazenda em Portugal para custear a vinda para o Brasil, trazendo
consigo por volta de seiscentos colonos para o sucesso da empresa. Não
se esquecera porém "do serviço religioso e da cura de tantas
almas, logrando contratar diversos sacerdotes." (ODULFO,
1940:26)
Tendo fundado oito vilas,
em cada uma delas levantou igreja e em Porto Seguro construiu duas. Devoto,
cumpria seus deveres religiosos com regularidade, confessando-se e comungando
anualmente, tendo também erigido em louvor a Santa Rita e Santo
Antônio um altar para cada um na igreja-matriz.
O donatário, não
obstante bom católico e bom administrador, haja vista o progresso
de sua capitania, não era homem de medir palavras, talvez porque
"mostrando-se tão generoso para com Deus e seus santos, achava que
o céu não lhe devesse negar um pedido ou desejo sequer."
(ODULFO,1940:27). Em seu conceito, os cardeais
e o papa "eram todos uns bugirrões sodomitigos tiranos que por dinheiro
casavam e descasavam a quem queriam". (SOUZA, 1995:48)
A procissão de Corpus
Christi também foi objeto das diatribes de Tourinho, pois, estando
no hemisfério sul, cria ser lógico transferir sua data para
outubro. Ao ser lembrado que só ao papa era dada tal autoridade,
teria respondido "'eu sou Papa' [...] jactando-se ainda de ser capaz de
enforcar padres". (SOUZA, 1995:48)
Ainda segundo Montenegro,
"a psicologia humana tem ensinado que a blasfêmia é prática
comum nas sociedades excessivamente impregnadas de religiosidade", (MONTENEGRO,
1972:21) e desse modo tem-se um Pero Tourinho que, não satisfeito
em blasfemar contra as autoridades religiosas, também voltava suas
imprecações contra os santos:
"Santa Luzia,
patrona dos olhos, foi alvo de sua ira num momento de doença, quando
sofria da vista: prometeu, na ocasião, jogá-la pela 'rocha
do mar abaixo', imprecando ainda contra sua honra. Santo Antônio
também foi alvo da fúria do donatário, que o responsabilizou
pela fuga de alguns escravos e prometeu oferecer-lhe uma candeia de merda".
(SOUZA, 1995:49)
Ressalta-se, portanto, no caso
de Tourinho, o exemplo acabado de transferência da visão da
sociedade medieval hierarquizada para a cosmovisão religiosa, em
que caberia aos santos, como suseranos, proteger os "devotos vassalos"
e a estes a função de prestar vassalagem, aqui entendida
como fidelidade aos senhores celestes.
O apelo, portanto, era para
o superior direto, qual seja, o santo. Deus estava demasiadamente afastado
dessa cadeia hierárquica e o diabo, sem "concorrentes" na Europa,
encontrava aqui feroz competição com as aparições
de espíritos indígenas, almas do outro mundo e entidades
do panteão africano.
Vítima da "livre concorrência"
das tentações das indígenas nuas e das dificuldades
intrínsecas da terra, o diabo passaria a ocupar lugar secundário,
não contribuindo para impingir terror, mas principalmente para ensinar
malícia.
A relação
dialética entre Deus e o diabo, tão cara à Europa,
é mitigada pelo colonizador, que nas vicissitudes cotidianas precisa
é da intercessão de São Brás para curar seus
males da garganta, de São Bento para evitar a mordida de cobras,
de Santo Acácio para as dores de cabeça e "quando se perdia
dedal, uma tesoura, uma moedinha, Santo Antônio que desse conta do
objeto perdido". (FREYRE, 1990:LIX)
Em se considerando tantos
santos "especialistas", Deus torna-se então uma figura inacessível,
distante, e o diabo, mais prejudicado ainda, "despiu-se de grande parte
de sua grandiosidade e onipotência do seu ascendente europeu. Tornou-se
personagem inserida no cotidiano, um tentador medíocre, uma figura
risível e, por diversas vezes, um auxílio na necessidade."
(NOGUEIRA, 1995:159)
Ao acendrado pragmatismo
da religiosidade popular juntam-se também os fatores
mágicos, e a eficácia da divindade é constantemente
testada por meio de promessas para a obtenção de pedidos
ou mesmo a invocação perene de proteção
por meio de "breves", objeto de devoção formado por dois
pequenos quadrados de pano bento, com orações escritas ou
uma relíquia, que os devotos trazem ao pescoço.
Pólo oposto de um
catolicismo formal e distante, esta relação bastante humanizada
com o sobrenatural -para a qual a presença do sacerdote é
dispensável ou no máximo acessória- reúne
em sua prática uma vasta gestualização corporal, à
semelhança das religiões primitivas, tais como as persignações
excessivas, as genuflexões, a mecanização das preces,
o gosto pelo emocional exagerado e com vivos traços de exterioridade,
em que as penitências são sua expressão máxima.
Todavia, é lícito
afirmar-se que toda essa "visualização da fé" não
era gratuita, sendo tributária da longínqua e caudalosa repressão
colonial que constrangia no povo as demonstrações exacerbadas
de religiosidade. Visava-se com isso uma demonstração perfeita
de enquadramento aos ditames religiosos. Diz Eduardo Hoornaert
que,
"diante
deste clima de medo criado pelas denunciações, visitações,
deportações, repressões e confiscos, os brasileiros
reagiram de maneira inteligente: criaram um catolicismo ostensivo, patente
aos olhos de todos, praticado sobretudo em lugares públicos, bem
pronunciado e cheio de invocações ortodoxas a Deus, Nossa
Senhora, os santos. Todos tinham que ser 'muito católicos' para
garantir a sua posição na sociedade, e não cair na
suspeita de 'heresia'." (HOORNAERT, 1974:16)
Como se pode verificar, importava
muito mais a forma que o conteúdo e às manifestações
corporais juntavam-se as materiais. Em todas as casas estavam presentes
os símbolos da fé cristã, seja a gravura do santo
onomástico tendo ao lado um pouco de água benta, seja o rosário
na cabeceira da cama.
Imagens de Santos e de Padre
Cícero, no Ceará
Foto de Adenor
Gondim
ANOTAÇÕES
CONCLUSIVAS
A religiosidade popular
não deve ser estudada buscando-se um modelo padronizado -e nisso
reside de fato seu encanto como objeto de pesquisa-, pois sofre os influxos
socioculturais das regiões onde mais fortemente se manifesta. Se
possui características que lhe são comuns, nem por isso se
apresenta de forma homogênea. Em outras palavras, se o catolicismo
procura ser universal, a religiosidade popular é, sem dúvida,
regional. No máximo nacional. No entanto, seja qual for a linha
a ser seguida no estudo da religiosidade popular, deparamos com conceitos
básicos e comuns a ela, invariavelmente seguidos por teólogos,
historiadores, antropólogos e sociólogos, sem os quais a
matéria perde densidade e recai no campo da pura especulação.
Ao apresentarmos esses conceitos
básicos da religiosidade popular, visamos principalmente os que
iniciam seus trabalhos acadêmicos nessa área, em face do crescente
interesse sobre o tema no âmbito do Departamento de História
da Universidade de Taubaté. Nosso próximo artigo versará
sobre as diversas tipologias da religiosidade popular vistas pelos principais
tratadistas do tema, e poderá ser considerado uma continuação
do presente texto.
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ISNARD
DE ALBUQUERQUE CÂMARA NETO é Mestre em História pela
Universidade de São Paulo e Professor Assistente III no Departamento
de Ciências Sociais e Letras da Universidade de Taubaté.