O que se diz sobre as cidades?
 
 
 
"Apesar de ainda muito aceitos atualmente (basta lermos os jornais: a vida nas cidades é sempre citada como a causa da violência, da solidão, das neuroses, alienação, comportamentos desviantes, anomia etc.), os pressupostos dos autores que viam a cidade como deletéria à vida humana  não resistem a uma análise antropológica ou sociológica mais profunda, como mostraram obras posteriores.
Notou-se que "toda a atmosfera [das análises da cidade] é fortemente reminiscente do mito da expulsão do homem do paraíso e do começo da vida social e histórica . O homem não pode voltar a uma mítica vida rural e deve suportar as durezas da vida urbana `no suor do seu rosto', mas o desejo inconsciente de retornar a um edênico útero rural emerge constantemente" (Oliven, 1982: 22) . Lembremos que muitos dos autores que viam a cidade como um "mal" eram pastores protestantes, como é inclusive o caso de Louis Wirth.
A falta de conhecimento aprofundado sobre os modos de vida urbano e que levassem em conta os aspectos mais subjetivos (simbólicos por exemplo) dela  não permitia ver o fato de que nem a vida no campo era tão integrada (especialmente após a emergência do capitalismo) e nem a vida nas cidades era o caos que tantos autores supunham.
A cidade passa a ser vista, então, como o contexto no qual se desenvolvem vários processos e fenômenos sociais. Ela certamente não é a principal causa destes fenômenos (nem sua principal consequência), embora algumas de suas instituições possam intervir em seu desenvolvimento.
Essas questões estão interrelacionadas, já que os autores que consideram a cidade como variável independente tendem a lhe atribuir a gênese de uma "cultura urbana", cujo caráter principal seria a desorganização social e cultural. Na verdade são três as perspectivas principais sobre a cidade (Oliven, 1982) como categoria sociológica:

Algumas proposições da Escola de Chicago sobre as consequências da vida urbana foram questionadas por pesquisas posteriores. Estas pesquisas demonstraram que nas cidades de desenvolvimento de capitalismo tardio e dependente, como é o caso do Brasil, onde o tradicional se articula com o "moderno" e nas quais o desenvolvimento se dá de forma desigual, são negadas tais proposições pelos fatos empiricamente observáveis.
No que diz respeito à religião, por exemplo, a secularização que foi apontada freqüentemente como uma consequência inevitável da urbanização, apresentou-se como um processo muito mais complexo do que poderia parecer numa primeira observação. O número de festas religiosas registradas pelos viajantes e pelos estudiosos mostra, desde sempre, uma efervescência religiosa nas cidades brasileiras, desde sua formação até o presente. Neste caso específico, não só inexistia secularização, como também a própria religiosidade servia (como serve, ainda) de elemento integrativo dos grupos e classes sociais, que se organizavam em função da realização das procissões, festas de padroeiros etc. A cidade brasileira sempre foi uma cidade religiosa e festiva. E essa festividade, de cunho religioso, serviu, por muito tempo como aquilo elemento de construção da sociabilidade e da sociedade brasileiras (Amaral, 1998).
Resta comentarmos  a famosa e recorrente crítica à "impessoalidade" e "superficialidade" nas relações sociais urbanas. Antes, porém, é preciso dar conta de quem é, e como vive, este "homem urbano".