Último dia
(Manoel Carlos Pinheiro)
Naquele dia de outubro de 1950
o Recife estava estranhamente cinzento e soturno. A notícia logo
se espalhara. Como e por quais meios, ninguém jamais saberá.
O fato é que todos, ao mesmo tempo, tiveram conhecimento da morte
do Mestre. Talvez por isto a tristeza e a melancolia pairassem no ar sufocante,
resultado do tempo mormacento. Outra grande perda, pois em maio (uma semana
após o centenário do Teatro Santa Isabel) já falecera
Mário Sette, um baluarte da cultura pernambucana.
Rapidamente organizaram o velório,
o mais concorrido de que se teve notícia até então.
As pessoas chegavam a pé, a cavalo, de charrete e, até mesmo,
de automóvel. O constante movimento fazia crescer, cada vez mais,
a já inacreditavelmente imensa multidão. Vinha gente de todo
lugar: Iputinga, Afogados, Casa Forte, Alto do Pinho, Cajueiro, Apipucos
e Beberibe; até mesmo de Moreno, Maria Farinha, Jaboatão,
Itamaracá, Camaragibe, Tejipió e Aldeias. Havia todo tipo
de gente: homens e mulheres; idosos e jovens; pobres e ricos; simples e
sofisticados; famosos e anônimos.
Pernambuco inteiro queria homenagear
aquele que revolucionara o frevo e que, tão repentinamente, partira.
O Mestre conquistara o respeito, a admiração e a estima de
todos que, de uma forma ou de outra, acompanharam a sua trajetória.
Tornara-se uma legenda e, nas duas últimas décadas, consagrara-se
como o mais popular compositor de frevos de rua. Formara escola, com inovações
estilísticas adotadas pelos novos e talentosos compositores: Capiba,
Nelson Ferreira, Duda, Senô e tantos outros, os quais, juntamente
com o povo na rua, os passistas, os músicos, os admiradores, deram-lhe
o título de Mestre, mais que maestro, compositor ou arranjador:
o professor, na música e na vida, um exemplo a ser seguido.
Como em todo velório,
as conversas eram sobre os mais variados assuntos. Houve até quem
dissesse que a tristeza pela perda da Copa do Mundo o deixara acabrunhado
e que seu coração não resistira, mas quem convivia
com ele sabia não ser verdade.
Entre
tantas personalidades, como era de se esperar, destacava-se Mário
Melo, o qual ostentava o título, não de Presidente do Instituto
Arqueológico, Histórico e Geográfico de Pernambuco,
de menos valia naquele ambiente, mas o de fundador da Federação,
além de Presidente de Honra das principais agremiações
carnavalescas pernambucanas. Centro das atenções, Mário
Melo passava de um a outro assunto. Ora tratava das semelhanças
e diferenças entre um maracatu rural e um maracatu nação.
Ora do Santa Cruz e da importância de Lacraia, primeiro atleta negro
pernambucano, desde o primeiro time tricolor, em 1914. Também falava
de política: comentou que o General Abreu e Lima não se encontrava
neste cemitério pois o seu enterro foi proibido em solo pátrio,
estando do outro lado da rua, naquele outro cemitério, o dos ingleses,
na época considerado solo estrangeiro. Havia quem não conhecesse
a história de Abreu e Lima. Com sua característica e natural
simplicidade, Mário explicou que ele comandara exércitos
libertadores ao lado de Bolívar e outros heróis latino-americanos.
Finalmente, chegou a triste
hora do enterro. Prantos e mais prantos. Uns choravam silenciosamente,
alguns um choro abafado, outros choravam abertamente, mas havia aqueles
que apenas marejavam a dor. Começou a lenta e penosa caminhada quando
o inusitado ocorreu. O Mestre sentou-se no caixão. Foi um alarido:
gente a gritar e a correr para todo lado. O Mestre, aturdido, ainda com
algumas flores sobre o corpo, nada entendia. Os que permaneceram próximos
ajudaram-no a se levantar e a sair do caixão. Um médico explicou:
“foi um ataque de catalepsia”. Catalé o que? Pronto. A notícia
ganhou asas outra vez. O Mestre ressuscitou, está vivo! O Mestre
teve um ataque de catalé-sei-lá-o-que, está vivo!
O Mestre vivo! Para o resto de seus dias carregou o apelido de Mestre Vivo.
Ali mesmo começou a comemoração.
Os poucos barezinhos não comportavam a multidão que se espalhava
pelas ruas adjacentes. Muita Monjopina e Serra Grande, chambaril e caldinho,
não faltou o tradicional bate-bate. E o frevo comendo solto.
Num certo momento, o Mestre
começou a rabiscar umas cifras. Depois, mostrou a um excepcional
requintista, o qual, enquanto lia, meneava a cabeça em sinal de
aprovação. O papel de embrulhar pão circulou entre
alguns músicos. Os músicos de bloco (instrumentos de pau
e corda) guardaram os seus bandolins, violões, etc. Apenas os tocadores
de frevo de rua começaram a organizar uma verdadeira orquestra,
completa, com trinta e seis músicos: uma requinta em mi bemol, cinco
clarinetos em si bemol, dois saxofones-alto em mi bemol, dois saxofones-tenor
em si bemol, sete trompetes em si bemol, dez trombones em dó, duas
tubas em mi bemol, uma tuba em si bemol, um bombardino em dó e a
percussão: uma caixa-clara, uma caixa-surda, um pandeiro, um reco-reco
e um ganzá.
Depois do ocorrido, um milagre
a mais ou a menos não faria diferença. Sem qualquer ensaio
ou conhecimento prévio da música, a orquestra tocou o frevo
recém composto. Foi uma exibição sublime. Nem a Orquestra
Municipal ou a Banda do 14 RI, nem os futuros arranjos de Duda, de José
Menezes ou da Orquestra de Cordas Dedilhadas de Pernambuco conseguiriam
repetir aquela exibição primorosa.
Também foi uma exibição
muito estranha. Ninguém ousou marcar o passo. Ao contrário
de outros frevos de encontro (e era um legítimo frevo de abafo)
este, desta vez, não foi dançado. Em invulgar silêncio,
a multidão espremida acompanhou a exibição do frevo
ecoante, vertiginoso e rutilante, enfim: fervente. Se naquele momento,
outra orquestra viesse ao encontro, até um frevo coqueiro, com sua
estridência, faria o efeito das palhetas e semicolcheias de um frevo
ventania. A emoção tomou conta de todos e muitos choraram
em silêncio. Todos estavam habituados ao saudosismo nostálgico
dos frevos de bloco, mas aquele frevo de rua era pura melancolia. Ao final,
antes da multidão dispersar e silenciosamente rumar para casa, o
Mestre anunciou o título, pressentido por muitos, do frevo: Último
dia.
(*) Último
dia é um antológico frevo de rua (de encontro) composto em
outubro de 1950 por Levino Ferreira, Mestre Vivo, mentor e mais popular
compositor do frevo de rua pernambucano
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