O
Homem Urbano
"Do
homem cuja vida é predominantemene urbana é possível
dizer que ele é um homem "multifacetado". Ou, "multidimensional".
Ele é, ao mesmo tempo, funcionário, eleitor, paciente, transeunte,
passageiro, espectador, pai, marido, freguês, fiel, cliente, munícipe,
aluno etc. É simultaneamente politicus, oeconomicus,
hierarchicus,
aesthetichus,
religiosus...
Sua noção de pessoa é constituída pela
soma dos efeitos que dela emana temporal e espacialmente"
(Simmel, 1987:21). Ele se encontra num ambiente que "promete aventura,
poder, alegria, crescimento, autotransformação e transformação
das coisas em redor. Mas ao mesmo tempo ameaça destruir tudo o que
temos, tudo o que sabemos, tudo o que somos". Ser urbano, atualmente é
fazer parte de um universo no qual "tudo que é sólido desmancha
no ar" (Bermann, 1986: 15).
Esta
constante "transformação" exterior e interior obriga o homem
urbano a um crescente processo de individuação como modo
de manter um núcleo de auto-compreensão. Tal procedimento,
segundo Simmel (um dos primeiros autores a pensar a cidade como categoria
sociológica), levaria a uma subjetividade altamente pessoal que,
no limite, levaria à dissociação, à indiferença
para com os demais e ao sentimento de solidão.
Novamente a cidade deletéria.
Ainda
que não se concorde com a teoria dos "impulsos nervosos", de Simmel
(que pensava o homem urbano como um ser massacrado por um turbilhão
de acontecimentos (estímulos) cotidianos aos quais depois de certo
tempo deixa de reagir, sofrendo uma espécie de "anestesia" que faz
com que ele não se espante com nada; atitude distanciada - uma espécie
de embrutecimento gerado pelo excesso de estímulos nervosos - que
ele chama "blasé"), pode-se perceber a influência
dos estímulos intelectuais fornecidos pela cidade como elementos
constitutivos de certas atitudes tipicamente urbanas .
A
efemeridade dos acontecimentos, a rápida e constante superação
de um momento pelo outro, de uma tecnologia
pela outra, de regras, de modas, de modos de ser, parecem influenciar,
de alguma forma, a disposição do habitante das metrópoles
para a incorporação de mudanças cada vez mais freqüentes.
O apelo ao consumo desenfreado de bens que se tornam obsoletos em período
cada vez mais curto, parece um exemplo de tal disposição.
Além disso, o consumo, numa sociedade de massas, pode ser compreendido
como o exercício de uma liberdade de escolha (entre marcas, modelos,
cores, desenhos) que não encontra expressão livre em outras
dimensões da vida social. Inclusive, e principalmente, o consumo
de bens simbólicos, como a religião,
por exemplo.
Esses
"fiapos" de liberdade de escolha e de ação constituem,
entretanto, aquilo que permite que a impessoalidade, a desintegração
etc. de que falam Simmel, Wirth, Redfield, e outros, não possam
ser entendidas como generalizadas e sem resposta. Porque os grupos sociais
surgidos da divisão social do trabalho e da heterogeneidade cultural
tendem a articular suas experiências comuns em torno de certos valores,
tradicionais ou não. Assim, se o habitante da cidade se sente solitário
diante da indiferença
(qualquer que seja o conteúdo por ela manifestado) da cidade como
um todo, se é ele que determina em que instâncias e espaços
apresentará a sua "identidade", ele utilizará os vários
conjuntos de símbolos em suas interações e opções
cotidianas, tecendo, com os "fiapos" de liberdade de escolha, de modo criativo,
novas redes sociais, interpretando, reinterpretando, rearticulando e selecionando
aqueles que melhor se encaixam em sua visão de mundo. E assim a
cidade se torna uma cidade
boa para se viver.
Ainda
assim, o crescimento das cidades, com vastas aglomerações,
extensas e complexas organizações nas quais a função
oculta a pessoa, pode contribuir para o sentimento de uniformização
aparente dos indivíduos. Contudo, se a cidade atual parece apresentar-se
como uma sociedade sem estilo é justamente porque sua feição
é a somatória dos estilos dos grupos que vivem nela.
A
procura de novas formas de identidade, a difusão de estilos de vida
diferenciados, a experimentação que tenta criar novas unidades
sociais mais "afetivas", a multiplicação de possibilidades
de engajamento são tentativas de resposta a essa situação,
ao sentimento de massificação.
Desse
modo, por exemplo, a participação em um mutirão para
a construção da casa própria pode não visar
unicamente à obtenção de um bem que o Estado e a baixa
renda deixam de proporcionar, mas também a oportunidade de conhecer
os vizinhos, trocar idéias, avaliar o mundo. Mesmo que já
se possua uma casa.
O
encontro do "outro", organizado em grupos que visam a esse fim (em clubes,
associações, bares, turmas de paquera, times de futebol,
terreiros, igrejas, movimentos de minorias, movimentos reivindicatórios,
ou mesmo empreendimentos que têm por finalidade última o encontro
de parceiros para o lazer ou para o amor, como os chats
da Internet, o disquenamoro ou o disqueamizade) representa a tentativa
de resposta e remédio para o sentimento de solidão urbana
e permite o uso da criatividade na elaboração de códigos
e regras, como que "recriando" a sociedade.
Muitos
grupos se organizam mesmo como se fossem seitas e parecem ter, como primeira
função, dar uma identidade e assegurar uma inserção
(é o caso dos "skin heads", "função", "punks" e outros),
ampliando a rede de troca e sociabilidade e enriquecendo a experiência
pessoal. Todos esses fenômenos são experiências de reconstrução
de relações sociais diretas e personalizadas".
SIMMEL.
George. "A Metrópole e a Vida Mental".In: VELHO, Otávio
G (org.) O Fenômeno Urbano. Ed. Guanabara, Rio de Janeiro.1987.